sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 111

         Mestre José da Silva Ribeiro faleceu em Setembro de 1986. José da Silva Ribeiro morreu no sábado à noite, após prolongada agonia. Da sua pequena aldeia, a infausta notícia, logo ali conhecida, espalhou-se pela cidade e por toda a parte, causando fundo pesar. Tavarede, a Figueira, o País mesmo, perderam um homem de valor que deu à Cultura popular, ao Teatro especialmente, à instrução e à beneficência, e ao jornalismo também, todo o fulgor da sua inteligência. José Ribeiro era figura carismática em Tavarede. A obra por ele realizada na Sociedade de Instrução Tavaredense jamais poderá ser esquecida, tão grande ela foi. A popular colectividade, sempre fiel ao seu nome é, na verdade, um marco da Cultura do povo na sua terra. A José Ribeiro se deve em grande parte, na maior parte, essa obra em que participou toda a população, pois raro será o habitante que não tenha pisado o seu palco, onde se revelaram talentos na Arte de Talma, alguns de verdadeiros artistas, como Violinda Medina, Maria Teresa de Oliveira, Vitalina Lontro, Maria Natália Santos, João da Silva Cascão, Fernando Reis, António Jorge da Silva, João de Oliveira Júnior, Manuel Nogueira e outros, à frente do vasto rol de amadores, a ultrapassar as três centenas, sem contar com outros colaboradores nos ensaios de peças musicadas, na construção, pintura e montagem de cenários, na iluminação, no guarda-roupa, etc.
         O ilustre e já saudoso tavaredense era um homem de Teatro, dedicado ao estudo da Arte e da obra dos seus mais talentosos Mestres, tanto nacionais como estrangeiros, bastando citar entre eles Gil Vicente, Almeida Garrett, Camões, D. João da Câmara, Marcelino de Mesquita, Ramada Curto, Carlos Selvagem, Alves Redol, Luís Francisco Rebelo, Shakespeare, Molière, Bernstein, Luigi Pirandelo, Arthur Miller, Alejandro Casona, Diego Fabri e muitos outros, dos quais foram representadas as mais famosas peças em espectáculos realizados em Tavarede e noutras localidades do país, algumas vezes a favor de obras de beneficência, os quais só num período de 25 anos, de 1954 a 1977 atingiram o número de 394.
         Ele próprio dedicou ao Teatro algumas das suas produções literárias, nalgumas das quais se reproduzem as mais belas cenas da vida da sua pequenina aldeia e sua história, sendo de sua autoria também o livro “50 Anos ao Serviço do Povo”, e o derradeiro que intitulou “75 Anos... e Caminhando”, dedicado a sua mãe, “àquela bondosíssima e corajosa Mulher que, ainda moça, com seu marido pisou as tábuas do palco no teatrito do sr. Conde, no Paço de Tavarede e no teatro do Terreiro, do sr. João Costa”; àquela Mulher, continua ele na sua dedicatória, “que na sua dolorosa viuvez manteve heroicamente, mesmo à custa de rudes trabalhos em vindimas alheias, a desprotegida família”.
         Além da sua longa actividade como jornalista, nas colunas de “A Voz da Justiça”, que foi um dos mais prestigiosos jornais do país, José da Silva Ribeiro exerceu outras funções, sempre intimamente ligadas ao sector da instrução, tanto na antiga Sociedade de Instrução Popular como na Escola Industrial e Comercial de Bernardino Machado, de que foi secretário, e membro da Comissão Auxiliar do Jardim-Escola João de Deus.
         Foi expedicionário a África, por ocasião da I Grande Guerra.
         Em breves traços, a biografia de um homem que foi autodidacta mas se distinguiu pela sua grande inteligência e pelo trabalho ao serviço da grei. A quem as colectividades do concelho muito devem e em muitas das quais, também, fez ouvir a sua palavra fluente, falando, quase sempre, de Teatro e da sua força cultural.
         O Governo, por proposta do ex-Presidente da República, General Ramalho Eanes, distinguira-o com a Comenda da Ordem da Liberdade, e a Câmara Municipal também o homenageou ao conceder-lhe a Medalha de Ouro da Cidade. A última homenagem pública foi-lhe prestada no encerramento do I Congresso de Teatro Amador da Figueira da Foz, onde o seu nome foi indicado para apadrinhar um Centro de Apoio aos agrupamentos de Teatro.
         José da Silva Ribeiro nasceu, como já se disse, em Tavarede no dia 18 de Novembro de 1894, vai fazer portanto 92 anos. Faleceu no dia 13, na sua casa da rua que hoje tem o nome de “A Voz da Justiça”. Filho de Gentil da Silva Ribeiro e de Emília Coelho de Oliveira, era irmão do sr. Gentil da Silva Ribeiro, residente no Porto, o qual, encontrando-se acidentalmente ausente em Espanha, só no dia seguinte ao do funeral chegou a Tavarede.
         O funeral do ilustre jornalista, político e homem de Teatro realizou-se no domingo à tarde para o cemitério local, onde, por sua expressa determinação, o corpo foi inumado na campa de sua mãe. Cumpriram-se os seus desejos de ter um funeral “modesto, de pessoa simples que não pobre de todo”. O féretro ia coberto com as bandeiras Nacional e da Sociedade de Instrução Tavaredense e a chave da urna foi conduzida pelo sr. Dr. Carlos Estorninho, grande amigo do falecido.
         No préstito incorporaram-se, além do sr. Presidente da Câmara Municipal e de muitas outras pessoas, entre elas algumas de representação oficial, directores de diversas colectividades, com os seus estandartes envolvidos em crepes, um piquete dos Bombeiros Voluntários, outro em representação da PSP, etc. Não houve, no momento do corpo baixar à terra, nenhuma oração fúnebre em homenagem ao homem que, por muito tempo, será lembrado como benemérito da cultura e da instrução do povo.

         Organizado pelo Lions Clube da Figueira da Foz, foi levada a efeito uma sessão, na qual foi homenageada a memória do nosso ilustre conterrâneo. E aqui recordamos dois depoimentos de dois dos seus velhos amigos, Zé Penicheiro e Gomes Gil. A minha homenagem e recordação de um Homem de Cultura e Amigo a quem muitos de nós devemos o exemplo da luta pela liberdade, da dedicação sem limites pela sua Terra e da Obra cultural e imensa que nos deixou.
         Guardo comigo a sua última carta quando de uma Exposição de Pintura sob o tema “A Mulher e a Figueira” em Setembro de 1981.
         “... Você sabe muito bem que eu sou semi-analfabeto na Arte da Pintura. E se distingo um óleo dum guache, uma aguarela duma têmpera, e se distingo o retrato da caricatura, ignoro como se praticam os milagres da paleta. Tal como o meu rústico aldeão-cavador, que sente que a leira é boa para aquela qualidade de couve que planta e ignora totalmente a análise da terra que amanha.
         Esta convicção da minha insuficiência não me impediu de lhe dizer atrevidamente a minha admiração e preferência pela belíssima paisagem da Serra que descobri, envergonhada, quase escondida atrás da porta de entrada: pintura muito bela, ainda de estilo naturalista, já distanciada da forma caricatural, em que a figura humana como a paisagem nos são dadas sob o domínio omnipotente das linhas rectas, no estilo pujante e expressivo, na forma e na cor, que é a maneira vigorosa do Zé Penicheiro.
         Meu caro Zé Penicheiro, eu tenho aqui, na minha frente, belíssimas caricaturas do tempo, aliás não longínquo, em que o seu traço ainda usava, com o mesmo sentido artístico e não menor valor expressivo, a riqueza e a melodia da curva: estou a olhar para a primorosa caricatura do Romeiro, do “Frei Luís de Sousa”, que na emergência representava o nosso pobre Teatro, e da Peixinha, a famosa bruxa de Buarcos; e em frente destes dois admiráveis desenhos, o quadro famoso das duas comadres da má-língua, tão vivas, tão ricas de verdade na coscuvilhice, estupenda caricatura no colorido e no desenho, já mais próximo da técnica em que o Zé Penicheiro se fixou e que está muito notável e exuberantemente documentada na exposição de agora...”.
         Um texto para reflectir e um Amigo para recordar apesar dos breves momentos de encontro na rua ou nos bastidores do seu teatro de Tavarede, pela distância que então nos separava.
         Ontem como hoje ficará sempre bem vivo, para mim, a sua presença. Zé Penicheiro.

         LEMBRANDO JOSÉ DA SILVA RIBEIRO         Em 1977, horas após a minha chegada a Monte Real, converso com um comerciante, já idoso. A conversa incide sobre a Figueira, e logo ele me fala, com entusiasmo, de “A Voz da Justiça” de que havia sido assinante! Aconteceu em Monte Real; poderia ter acontecido em Tomar, em Lisboa ou em muitas terras desse Portugal além por onde havia assinantes de a V.J. (leia-se, A Voz da Justiça)
         Era a V.J., um “jornal honrado” no dizer de J.R. (leia-se, José Ribeiro) seu principal responsável (O seu nome figurou no cabeçalho do jornal, como secretário de redacção, desde 2 de Janeiro de 1920 até 10 de Julho de 1937), que não gozava das simpatias de Salazar que, não contente com o seu despótico encerramento, ainda ordenou, ou permitiu o saque das suas oficinas.
         Pegando na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, lemos que JR, agora desaparecido, além de jornalista foi também publicista, conferencista, autor teatral e combatente em Moçambique de 1916 e 1919.
         Como conferencista, muitas foram as vezes em que as suas palavras fluentes e ricas de conteúdo se fizeram ouvir, deixando no ar a suave mas penetrante ironia queirosiana, ou a verdade dita um pouco à Gil Vicente (não nos referimos, é claro, àqueles vocábulos que Gil Vicente e o nosso povo usava e usam e de que ele lançava mão, com certa frequência, durante os ensaios, segundo se diz).
         No que se refere a teatro, eis alguns números:
         De 1916 a 1953 a Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), sempre sob a sua orientação artística (excepto nos períodos em que teve de se ausentar para combater em Moçambique ou para gozar a “gentil hospedagem” da PIDE) fez 60 estreias de peças e, duma delas (“O Sonho do Cavador”) de sua autoria, fizeram-se mais de cinquenta representações!
         De 1954 a 1978 a SIT realizou um total de 394 espectáculos, sendo 249 em Tavarede e 145 noutras localidades (Vila Real, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Tomar, Lisboa, etc.)
         Em 1959, a SIT concorreu ao Concurso de Arte Dramática organizado pelo SNI. Apesar de JR não ser de modo algum simpático aos olhos de Salazar e seus sequazes, foram-lhe atribuídos os seguintes prémios:
         = Prémio Francisco Taborda, para a SIT; Prémio Carlos Santos, para o ensaiador; Prémio Maria Matos, 1ª interpretação feminina; Prémio Chaby Pinheiro, 1ª interpretação masculina e 2 Menções honrosas.
         Mas a sua acção na SIT não se resumiu ao teatro: de 1904 a 1942, funcionou na sua sede uma escola nocturna. Dessa escola e do teatro assim falou o tavaredense António da Silva Broeiro:
         “Eu sou o que a Sociedade de Instrução Tavaredense de mim fez. Devo-lhe tudo. Comecei lá em baixo na escola da noite, onde me ensinaram a ler, escrever e contar. Só à noite podia ir à escola: teria ficado analfabeto se não fosse a escola nocturna. Depois trouxeram-me para o teatro, ensinaram-me a compreender o que lia, ensinaram-se a conversar, a ouvir. Aqui fui instruído e educado”.
         Através do teatro produziu JR , na sua linda Tavarede uma obra de mérito múltiplo:
         Educou os seus conterrâneos, criando-lhes o gosto pelo teatro sério de autores nacionais e universais;
         Escreveu peças de temática local, através das quais foi ensinando a história de Tavarede e consciencializando as pessoas para problemas locais (a situação da agricultura, a poluição do ribeiro, a urbanização da Quinta do Paço, a ruína do velho palácio, etc).
         A enciclopédia referida, fala-nos ainda de JR combatente em Moçambique. Vamos saltar essa folha da sua vida para dedicarmos algumas palavras a um incomensurável filão aurífero: a sua qualidade de cidadão altruísta, desdenhoso dos bens materiais.
         Esse homem que tantas vezes repetia Almeida Garrett a propósito de Manuel Fernandes Tomás “... e morreu pobre”, nunca correu atrás dos bens materiais, sempre se esforçando por ganhar o seu pão até ao fim do caminho. Após o 25 de Abril, numa entrevista que António Medina Júnior, director do “Jornal de Sintra” (e tavaredense) lhe fez para o seu jornal, quando lhe perguntou se ele e as demais vítimas do roubo da Tipografia Popular iam reivindicar os seus direitos, logo JR lhe respondeu “Eu não peço nada, não preciso de nada – nem dos mortos, nem dos vivos”.
         Não sendo católico, nunca se aproveitou do palco para atacar a Igreja. (Quantos dos nossos intelectuais teriam a mesma atitude?).
         António Vítor Guerra, que foi fervoroso católico praticante, escrevia em 2 de Agosto de 1973 (antes do 25 de Abril) no jornal “A Voz da Figueira”:
         “Sem embargo de divergências ideológicas, político-religiosas, prendem-me a José da Silva Ribeiro laços de particular afecto, cujas raízes aprumadas, são velhas de decénios. De resto, a sua vida, plena de virtudes humanas, quer no âmbito familiar, quer no sector público, espraia-se em miragens, stricto sensu que não deixam de impressionar quantos, vivamente, em convívio mais directo, íntimo ou social, haja de com ele contactar.
         Bem merece de todos, sem discrepância, este ilustre tavaredense.
         No meu caso, porém, acresce a circunstância de ser devedor a José da Silva Ribeiro, de um somatório de atenções e gentilezas, singularíssimas, que há muito me tornaram insolvente consigo, e bem assim os departamentos culturais da cidade, a que durante anos estive ligado e a que ele tem dado achegas de tomo”.

         Este é o meu modesto contributo para que José da Silva Ribeiro seja melhor conhecido e mostrar o meu reconhecimento a quem sempre me cumulou de gentilezas e me franqueou a sua biblioteca. (A.M.Gomes Gil)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete- 110

         Com o título ‘Postal de Parabéns’, um jornal figueirense referiu-se ao aniversário da colectividade e a Mestre José Ribeiro. A velha, prestimosa e consagrada Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em 15 de Janeiro de 1904, ali à ilharga da nossa terra, comemorou o seu 80º aniversário.
         Como sempre de forma tão adequada como simpática.
         Mas neste caso de maneira excepcionalmente brilhante, por o número em que figurou a costumada apresentação de uma escolhida peça teatral ser este ano constituído pela exibição da peça inédita em 1 prólogo e 4 partes, intitulada “Na Feira de Gil Vicente”, adaptação de mestre José da Silva Ribeiro e de homenagem e evocação da obra genial do fundador do Teatro Português.
         Foi, pode dizer-se, o brilhante corolário de uma inigualável actividade cultural, através do teatro, da colectividade aniversariante e também de uma acção ímpar, sob diversos aspectos, dessa grande figura de tavaredense, teatrólogo e democrata que é José da Silva Ribeiro.
         Só o que este nosso ilustre conterrâneo tem dado a conhecer ao povo do concelho sobre figuras e episódios da história nacional e de maneira particular e a merecer menção de relevo e justíssimo louvor a respeito de Tavarede e da Figueira e sua evolução através dos tempos, desde os mais remotos até à actualidade, não pode de maneira alguma ser resumido nas colunas de qualquer periódico. Mas isso de forma nenhuma deve impedir-nos de aqui deixar registado um superficial esboço do que tem sido há dezasseis lustros a vida da colectividade aniversariante e há mais de 65 anos a extraordinária, persistente, benemérita e incomparável actuação dentro dela da personalidade de José da Silva Ribeiro, servindo-a com a mais inexcedível abnegação e verdadeiro espírito de sacrifício sob todos os aspectos que é possível, desde os cargos directivos aos de autor teatral e “alma mater” da sua famosa secção dramática. Cuja fama largamente ultrapassou os limites do distrito, espalhando-se por importantes cidades e terras do país que visitou por várias vezes e sempre deixando significativamente assinalados a sua intervenção e invulgar brilho e mérito desta.
         Para comprovar o que bastará, com certeza, registar certos factos que julgamos bastante elucidativos.
         A começar pelo de, após a brilhante carreira, com as suas múltiplas representações, nos vários palcos em que foram exibidas, das famosas peças “O Sonho do Cavador” e a “Cigarra e a Formiga”, das quais José da Silva Ribeiro foi o grande impulsionador e a que deu a mais operosa, destacada, importante e útil colaboração literária e teatral e depois de todo o grande esforço da sua montagem e encenação, ele jamais ter abandonado essa fase criadora de brilhante autor dramático. E, em virtude disso, ter escrito e feito representar esse belo rosário de inesquecíveis produções teatrais que começam em 1950 com “Chá de Limonete” (3 actos e 24 quadros) e continuam com “Terra do Limonete”, em 1961, “Camões e os Lusíadas” (1972), “Mesa Redonda” (1975), “Ontem, Hoje e Amanhã” (1979), “Ecos da Terra do Limonete” (1981), “Viagem na Nossa Terra (“Da folha de uma figueira à folha de uma videira”) (1982) e este ano “Na Feira de Gil Vicente”.
         Uma destacada obra cultural a que não podem deixar ainda de associar-se, porém, coisas tão significativas como: uma famosa “Campanha Vicentina”, que levou a obra genial ao povo das nossas aldeias concelhias; as notáveis “Comemorações do Centenário de Garrett”, representando “Frei Luis de Sousa”, para além do nosso concelho, em Coimbra, Leiria, Tomar, Pombal, Alcobaça, Sintra, Soure, Marinha Grande e Condeixa; as comemorações do “Centenário de Marcelino Mesquita”, com a representação de “Peraltas e Sécias”; do “Centenário da Morte de D. João da Câmara”, levando à cena a sua famosa peça “Os Velhos” e do “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”, com a representação de “O Beijo do Infante”, do mesmo autor da peça anterior.
         Para não deixar de fazer ainda referência à preciosa intervenção de José da Silva Ribeiro e da Sociedade de Instrução Tavaredense, no “IV Centenário de Shakespeare”, no “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente” e “IV Centenário da Publicação dos Lusíadas”, no qual foi levado à cena o “Auto de El-Rei Seleuco” e uma evocação escrita propositadamente para o efeito. 
         O que tudo torna sumamente merecedora deste postal de efusivos parabéns a colectividade aniversariante e José da Silva Ribeiro, digno de todos os louvores que seja possível endereçar-lhe nesta ocasião festiva e bem merece pelos seus mais de 65 anos consecutivos de serviços ao teatro e à cultura, com a isenção, talento, amor e inteligência que os tornam excepcionais, como ainda pelas qualidades morais e cívicas que lhes emprestam adequada moldura e dão ainda maior relevo e projecção.

         E com a maior satisfação, referimos que o Grupo, apesar das obras ainda não estarem concluidas, fez a pré-inauguração da sua nova sede. Embora com as instalações da nova sede social do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense ainda inacabadas, pois que as mesmas exigem um enorme dispêndio de energias e verbas, a que se não pode fazer face tão rapidamente quanto desejável, entenderam a Direcção e os elementos que compõem desde a primeira hora a Comissão de Apoio, denominada Comissão de Obras, dar um maior impulso no acabamento do piso superior da referida sede, a fim de poder presentear os associados com o Folar da Páscoa, proporcionando-lhes um ambiente há já largos anos arredio dos mesmos, na medida em que no velho Palácio de Tavarede, onde se situavam as suas instalações desde 1936, representando para os seus sócios apenas um velho passado glorioso, sem qualquer ambiente que pudesse vir a ser favorável aos seus descendentes, nomeadamente cultura e música, que foram acabando com falta de instalações condignas, assim como meios humanos e materiais, que logicamente se deterioraram com o ambiente pouco condigno que se foi arrastando pelos tempos.
         Pelo que acima foi dito, foi determinado o dia 8/4/84 (domingo) para a pré-inauguração, fazendo-se a mesma sem qualquer cerimonial protocolar, ficando a verdadeira inauguração para data oportuna, prevendo-se que a mesma se venha a verificar a curto prazo.
         Na referida inauguração viram-se alguns elementos de preponderância no arranque e efectivação da obra em curso e prestes a dar-se por concluída, pese embora as dificuldades financeiras com que terão de passar esta Direcção, assim como as que possam vir a seguir, pois trata-se de uma obra que à altura do seu arranque estava estimada em 6.000 contos.
         Também se notaram as presenças dos srs. pároco da freguesia, presidente e secretário da Junta de Freguesia, Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense, fazendo-se acompanhar do estandarte daquela tão prestimosa colectividade, e presidente da Direcção da Casa do Povo, que é simultaneamente presidente da Assembleia Geral do GMIT.

         Eram 15 horas quando o sr. Flaviano Pinto de Sousa, presidente da Assembleia Geral do GMIT, fez entrega das chaves ao sócio nº 1, sr. Alberto Ferrão, para que fosse este a abrir as instalações do Grupo, verificando-se de imediato a entrada. Foi um momento feliz para aqueles que mais de perto têm sentido a evolução dos acontecimentos e também para o que desejavam há já largas dezenas de anos ver a sua sede própria, o que só agora se está a tornar realidade.
         Entraram lado a lado os estandartes da Sociedade de Instrução Tavaredense e do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, empunhados pelos seus representantes, e de seguida todos os presentes, ficando na sua maioria com óptima impressão do que acabavam de ver: bar, sala de estar com televisão, etc., passando de imediato a ter a sua acção estas secções, onde os grupistas, familiares e amigos podem a partir de agora ter o seu convívio de amizade.
         Quando da inauguração oficial, que se deseja seja tão rápida quanto possível, dar-se-ão mais pormenores acerca daquele importante melhoramento.

         Na sessão solene comemorativa do 82º aniversário da SIT ... e com a maior comoção, a plateia ouviu a palavra ainda fluente de José Ribeiro, que falou da sua terra e das suas gentes. Foi a última sessão que teve a sua presença. Entretanto, e sob a orientação do amador João de Oliveira Júnior, que havia assumido o dificil cargo de director cénico, foi reposta em cena a célebre fantasia Chá de Limonete.

         O Grupo, entretanto, festejou as suas Bodas de Diamante. O programa elaborado para comemorar os 75 anos de vida do Grupo Musical Tavaredense foi por este jornal publicado em devido tempo.
         Dele podemos destacar a sessão solene (porventura o ponto mais alto das comemorações), levada a cabo pelas 17 horas do dia 17, a qual foi presidida por Carlos Alberto Pedro Coelho, na qualidade de presidente da Junta de Freguesia da terra do limonete.
         No acto, evocado com o descerramento de uma lápida que assinala a efeméride, usou da palavra o presidente da colectividade em festa Álvaro Jorge Marques, o presidente da Assembleia Geral, Flaviano Pinto de Sousa, o padre Matos, pároco da freguesia e, por último, o presidente da mesa da sessão.

         Para complementar esta evocação, realizou-se ainda um espectáculo artístico-cultural, no qual participaram a Tuna do Grupo de Tavarede, o grupo coral e a banda ligeira da Sociedade Boa União Alhadense.

Histórias e Lendas -15

Capelas em Tavarede
Apontamentos diversos

         No jornal ‘A Voz da Figueira’, em Setembro de 1975, julgamos da autoria do saudoso professor António Vítor Guerra, estão publicados os principais elementos sobre as capelas que existiram em Tavarede. Vamos, agora, copiar essas notas, que antecederão um apontamento nosso mais pormenorizado sobre o recolhimento da quinta da Esperança.

 CAPELA E CONVENTO DA ESPERANÇA -    Foi D. Caetana Migueis, casada, em 2ªs. núpcias com o italiano Francisco António Rossani, sargento-mór de Montemor-o-Velho, falecido em 1677, quem fundou este Recolhimento, chamando-o de Nª. Sª. da Esperança, em memória da filha que, com este nome, lhe morreu do 1º. matrimónio, e ali instituiu Capela.
            Foram muitas as eventualidades desta pia instituição, como no-las referem Santos Rocha, op. Cit., p. 123 e José Jardim, in “Alfândegas, Fidalgas Figueirenses de Outrora”, 1915, p. 175.
            Situava-se o Convento da Esperança, relata-nos aquele historiógrafo local, a um quilómetro, aproximadamente, para N. de Santo António, no alto de S. João, pelo nascente da estrada que da Figueira nos leva a Tavarede – Estrada Municipal nº. 596.
            Do edifício conventual (em 1758 diz-nos o cura de Tavarede, padre Anacleto da Cruz, nas “Memórias Paroquiais”, ainda lá viviam 22 “recolhidas”) somente restam, hoje, inexpressivas ruínas: - os sólidos muros da cerca construídos, em 1746, que no sentido N-S se desenvolvem, perpendicularmente, à Azinhaga da Esperança, e onde, na face interna, junto à porta de acesso do lado E, se vê uma pequena cruz de pedra, assente sobre um azulejo: uma parede que, ainda, se ergue dos escombros, com nítidos vestígios do azulejario que revestia a capela, do que, aliás, nos dá conta Santos Rocha, in op.cit., p. 124, “sinais” de algumas antigas janelas; um pequeno nicho; a fonte, marcadamente fradesca, e... pouco mais.
            A “Quinta da Esperança”, ora assim chamada, local deveras aprazível, pertence aos herdeiros do benquisto tavaredense Dr. Manuel Gomes Cruz, falecido em 8 de Fevereiro de 1943.

CAPELA DE S. JOÃO BAPTISTA - Integrada, na Quinta do mesmo nome, ao Alto de S. João, hoje Quinta de Santa Maria, foi instituída por João de Quadros, clérigo, mas dela nada resta.

            Entre os vários proprietários da referida Quinta, permitimo-nos destacar Duarte Backer, António Lemos, Paulo Correia de Lacerda, funcionário superior da Alfândega do Porto e, ao presente, Luís Viegas do Nascimento, mui competente arquitecto-naval dos Estaleiros Navais do Mondego.

CAPELA DO SENHOR DA ARIEIRA OU DO SENHOR DOS MILAGRES -           Situava-se aos “quatro caminhos”, na referida Estrada Municipal nº. 596. No Museu da cidade guarda-se um fragmento de azulejo, com pintura (Séc. XVIII), proveniente desta Capela, e que as “Informações Paroquiais” de 1721 aludem, apresentando-a como “Um Nicho com o Senhor Crucificado, que tem obrado muitos milagres; “E vai obrando; suando a sua sancta imagem, e a coluna em que está posto, como se tem visto certos dias”.

            A Comissão Paroquial desta freguesia ofereceu, à Câmara Municipal o terreno onde estava implantada a Capela, e adjacentes, para um mercado semanal de suínos, o que foi aceite, como consta da acta da respectiva sessão, de 12 de Março de 1913.

CAPELA DE SANTO ANTÓNIO -           Na Quinta do mesmo nome – residência de Monsenhor Cónego José Duarte Dias de Andrade, falecido com 93 anos, em 6 de Maio de 1957, que, como protonotário apostólico “ad instar”, tinha o privilégio de fruir altar doméstico. Sacerdote dos mais cultos com quem tivemos a dita de privar, de palavra fluente e erudita, foi também “astro de primeira grandeza”, no magistério de Matemática, Literatura, Sociologia, Teologia e História da Igreja, cujo perfil foi magistralmente feito in “A Voz da Figueira”, de 23 de Maio de 1957, por outro saudoso amigo, Dr. Júlio Gonçalves.

            Situa-se a Quinta de Santo António a O. da Quinta da Burlateira (1) e a N. da Estrada Municipal nº. 597 – Tavarede a Buarcos.
(1)   Em documento coevo de D. Afonso Henriques (1181) surge-nos, in “illo loco”, o topónimo “Val’Arteira”; numa escritura de troca – (1778) aparece-nos a expressão Fazenda da “Burlateira”, e hoje, no “falar” do povo e nos livros da especialidade, v.g. “Corografia Moderna do Reino de Portugal” por João Maria Baptista, 1875, vol. III, e no “Dicionário Corográfico de Portugal Continental”, de Américo Costa, 1932, vol. III, regista-se a “Quinta da Burlateira”, evolução gráfica foneticamente explicável.

CAPELA E PAÇO DE TAVAREDE - A história deste Solar e dos seus “Senhores feudais”, “seus usos e costumes”, está feita (ver “Gazeta da Figueira” 1887, ano I, nº. 17, e Rocha Madahil, op. Cit.)

            O Palácio quinhentista dos Quadros com “história de pasmar” lá está ainda, mas miseravelmente degradado, com vergonhosas mutilações e reparações imbecis, servindo-nos das expressões do saudoso Cardoso Marta, palácio de que o Mestre de Teatro e bom Amigo, José Ribeiro, nos dá um auto-retrato no seu saboroso “Chá de Limonete”:
            “Quatro séc’los me pesam sobre os ombros!
            E nesses longos anos vi grandezas,
            Vi ruir opulências em escombros,
            Vaidades, alegrias e tristezas...
                                   ...........
            Que resta do que fui?... Ai! Triste sina
            A do Solar que é hoje um mutilado.
            Mendigo, esfarrapado, uma ruína,
            Horroroso fantasma do passado!...”
            Quanto à Capela, propriamente dita, sabemos que erecta por Bulla de Roma, esclarecem-nos as “Informações Paroquiais” de 1721, além das referências que encontrámos a alguns dos seus capelães, dos quais o Padre Manuel Gonçalves, de sombria memória...

CAPELA DE JOÃO ANSELMO -             Integrada na Quinta de João Anselmo da Silva Soares, sita no caminho da Várzea, a seguir à Fonte de Tavarede. Esta propriedade, em 1937, encontrava-se, assim, descrita, na Matriz rústica da freguesia, sob o artº. 1461: “terra de semeadura, eira e casa de habitação, confrontando do N. O. com caminho, do S. com herdeiros de José António Loureiro e do E. com Vala da Azenha”.

            Desmoronada esta Capela, a alvenaria foi aplicada na capela mortuária erecta, no Cemitério Ocidental da nossa cidade (a primeira, à esquerda de quem entra pelo portão principal), por Ludovina Augusta Ferreira da Silva Soares “à saudosa e grata memória do seu idolatrado esposo, João Anselmo da Silva Soares, falecido em 1 de Setembro de 1868, aos 59 anos de idade”, sem filhos nem os necessários herdeiros, como se lê no seu testamento de 24 de Novembro de 1856, constante do Livro de Registo de Testamentos nº. 12, fls. 15, referente ao ano de 1868. Era este João Anselmo, figueirense, como seu pai, João da Silva Soares de Menezes, clínico de nomeada, ao tempo, falecido em 9 de Abril de 1844, na sua residência, na Rua Formosa, hoje de Fernandes Coelho, onde, também, veio a falecer o referido João Anselmo, segundo nos relata José Jardim, in “As Alfândegas” atrás citada.
            Foi o Dr. José Pedro Dias Junior, advogado e notário, em Leiria, o herdeiro, por parte da viúva do João Anselmo, das propriedades referidas, tendo oferecido ao Museu local algumas das cariátides da Capela de que nos ocupamos.
            Antes desta, porém, outra existira na dita “Quinta da Fonte” (1754) “como huma morada de casas de sobrado, pertencente a António José de Saldanha de Aveyro”, a qual, lhe demoliu, “tirânica” e “despoticamente”, Fernando Gomes de Quadros, 8º. Senhor de Tavarede.

CAPELA DE SANTO ALEIXO - Dentro do povoado, a caminho dos Canos, hoje transformada em Salão Paroquial. “Hé muto antigua, que se lhe não sabe principio. E tem hum hospital para agasalhar os peregrinos e pobres, que he do Povo” diz-nos as “Informações Paroquiais” de 1721.

            O patrono, bela escultura renascentista em pedra, encontra-se depositada no Museu Municipal.

CAPELA DO SENHOR DA CHÃ - No ângulo NE dos quatro caminhos, na Estrada de Mira – estrada Nacional nº. 109 – à Chã. Chama-lhe as “Informações Paroquiais” de 1721, a Capela do Senhor Crucificado, esclarecendo que foi feita por Frz Arnaut e sua mulher Catherina Frz. Não teria mais de 4x2 m. e já se encontrava quase destroçada em 1864, segundo notícia inserta in “Gazeta da Figueira”, de 18 de Abril de 1896.(está 1986).

            A imagem, de grande veneração, foi transferida, procissionalmente, aquando da eminente derrocada da capela, para a Matriz de Tavarede, onde se encontra. (A Voz da Figueira)

CAPELA DA CASA DA MÃE - No Pavilhão Sul do antigo Colégio Liceu Figueirense, frente à Estrada Municipal nº. 596, limite N. da freguesia de S. Julião, o qual, depois, serviu de Hospital Militar, e hoje é a Casa da Mãe, foi erecta uma capela em 1947 pelo presidente da Junta Distrital de Coimbra, Prof. Doutor Bissaia Barreto, falecido em Setembro de 1974, responsável por aquela Maternidade. É de salientar o lindo retábulo de talha dourada (Séc. XVII) de expressiva simbologia mariana, para ali transferida duma outra capela particular, de algures, da Beira Alta.


CAPELA DO COLÉGIO-LICEU FIGUEIRENSE - Propriedade e iniciativa do Doutor José Luís Mendes Pinheiro, onde está instalado, desde 1936, o Seminário da Imaculada Conceição. Primitivamente, tratava-se de um pequeno oratório, erecto no Pavilhão do lado N. Mons. José Duarte Dias de Andrade, ao tempo director do Colégio, reconhecendo ser esse oratório de reduzida área, para os exercícios cultuais, transformou em capela uma das salas, que inaugurou, com a presença do Prelado da Diocese, D. Manuel Luís Coelho da Silva, em 1933, no Pavilhão, à direita de quem entra pelo portão mais próximo da Azinhaga da Esperança.

            Mais tarde, o culto sacerdote, Mons. Tomás Francisco Póvoas, Reitor do Seminário, desde o seu início, fixou-a no Pavilhão Central (em 1936-37, a frequência era de 70 seminaristas) onde ainda se encontra.
            O risco e a execução do altar é do sacerdote – santo e artista – que foi o cónego Manuel Fernandes Nogueira, sendo a despesa custeada por D. Maria Guilhermina Meireles Sarafana (Tinalhas).
            Importa, neste passo, dar a conhecer a existência, ali, da capela particular de S. E. Rev. o Bispo de Coimbra, anexa aos seus aposentos, no Pavilhão E, cujo altar foi oferecido pelos herdeiros do Dr. João Macedo Santos, da última capela erecta na Casa do Paço da Figueira, de que foram os penúltimos proprietários. O imóvel pertence, hoje, ao sr. Reinaldo Marques Pedrosa que, na sua conservação e consolidação, tem investido largos capitais, sem embargo do auxílio do Estado, dado tratar-se dum imóvel de interesse público.. (A Voz da Figueira)

CAPELA DOS CARRITOS . Sob a invocação de Santo António, ali se encontra erecta, à beira da estrada Nacional nº. 111. Foi o padre José Martins da Cruz Diniz, vigário de Tavarede, de Dezembro de 1928 a Setembro de 1935, quem deu início, por subscrição pública, à construção da capela, concluída muito mais tarde e inaugurada, solenemente, em 19 de Junho de 1964. A tal propósito, extractamos do “Lume Novo”, Tavarede, nº. 6, de 29.8.934: “Foi já oficialmente tratada, em Coimbra, com o Ex.mo Prelado da Diocese, a construção da Capela dos Carritos. A planta, generosa e gentilmente oferecida pelo sr. António Piedade, vai começar a ser executada dentro em breve”.


CAPELA DE SÃO PAIO - Está integrada na Quinta do Praso – Vale de São Paio – ao Saltadouro. Cerca de 2 quilómetros a montante de Tavarede, e a 1 do lado nascente da povoação da Serra da Boa Viagem, encontrava-se, em 1932, assim descrita, na matriz urbana da freguesia de Tavarede, sob o artº. 405, em nome de Maria do Sacramento Monteiro: “uma capela particular, construída de pedra e cal, coberta de telha portuguesa; confronta do N.S.O.E. com pinhais da própria; tem de superfície coberta 14 m2 e de rendimento líquido, 18$00!”.

            Fora a quinta adquirida, há largos anos, por Caetano Gaspar Pestana, casado com Maria da Conceição da Silva Pestana, avós paternos das Senhoras Pestanas. Encontrou este a capelinha em ruínas, e mutilada a imagem do patrono, e logo procedeu ao seu restauro, trabalho de que se encarregou, com mestria, o hábil artista-estucador, natural de Afife, Domingos Rodrigues Ennes Ramos, aqui radicado.
            Tempo depois, Caetano Pestana, que viria a falecer em 25 de Agosto de 1883, com 63 anos, incompletos, vendia a “Quinta do Praso” à família de Monteiro de Sousa, que ainda a detém, e com ela a capelinha.
            É neste Vale de São Paio que existe a famosa nascente “Olho de Perdiz”, donde, durante anos e até ao verão de 1927, a nossa cidade foi abastecida de água potável, exploração feita até 1924 pela “The Anglo-Portuguese Gas and Water Cº. Ltd.”, com sede em Londres, de que era gerente, entre nós, o engº. Walter R. Jones, que ainda conhecemos.


sábado, 3 de janeiro de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 109

Entre as muitas notas encontradas sobre a nova peça apresentada, destacamos a seguinte: Integrado nas comemorações do 78º. aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, mais uma peça, original de Mestre José Ribeiro, ali está em representação. Estivemos presentes na estreia, e não resistimos à tentação de escrever uma breve crónica do que nos foi dado apreciar.
         Sabemos, porque temos consciência disso, e porque nos vamos referir a esta peça em termos elogiosos, sendo natural de Tavarede e porque honrosamente tivemos o prazer de fazer parte daquele grupo amador de teatro durante largos anos, sabemos, dizíamos, de que a nossa crónica possa ser interpretada como escrita com um certo sentido “piegas” e de alguma saudade. – É um facto, que não nos podemos alhear dos sentimentos do coração, pois quem alguém que um dia teve a ventura de pertencer ao grupo dramático da SIT, a ele fica eternamente ligado. No entanto, e intencionalmente, deixámos passar alguns dias antes de escrever estas breves palavras, e é com a voz da razão, no nosso entender isento, que transcrevemos a nossa opinião.
         Mas... vamos à “Viagem na Nossa Terra”!
         Esta peça, a que chamamos “Fantasia Histórica”, é mais um original de Mestre José da Silva Ribeiro, que, com os seus oitenta e muitos anos, continua a transportar para o palco toda a juventude do seu enorme talento. Esta peça de teatro é mais um documento histórico da nossa terra, e Mestre José Ribeiro a escreveu em louvor do I Centenário da cidade da Figueira da Foz, pois que alguns quadros o expressam na sua maior clareza. Cavando mais um pouco da história longínqua da sua terra, que tanto ama, - Tavarede -, José Ribeiro não deixou de fazer a sua crítica a momentos actuais e de abraçar a Figueira da Foz neste momento alto da sua existência, que é a comemoração do I Centenário da elevação a cidade. 
         Pensamos, temos a certeza, de que este é, até ao momento, o mais alto contributo para as Comemorações. Julgamos mesmo, que seria imperioso a Comissão Executiva das Comemorações do Centenário, fazer todas as demarches para que esta relíquia e rica peça de teatro fizesse uma digressão por todas as freguesias, e povoações onde fosse possível, para que a população do nosso concelho aprendesse um pouco da história da nossa cidade. – De Afonso Henriques até aos nossos dias, à mistura com quadros de fantasia, é mostrada a história de um povo.
         A peça foi escrita pelo sempre jovem Mestre José Ribeiro, mas como é evidente, não é só a ele que devemos estar gratos pelo belo serão que nos foi proporcionado: - Há também todo um lote de “jovens” – dos mais variados escalões etários -, que conseguem transportar para o palco as ideias de José Ribeiro. São eles os amadores da velha SIT. – Lá vimos os veteranos, mas sempre jovens, João Medina, João de Oliveira, o José Luiz do Nascimento, o José Medina, Manuel Lontro, Antonino Santos, João José da Silva, a Maria da Conceição, a Ana Maria Bernardes (que maravilhosa faz), a Lourdes Lontro, e tantos outros ao lado daquela enorme massa de juventude que ali, no palco da SIT, encontram na ocupação dos seus tempos livres uma forma elevada de cultura.
         Quanto à música também não temos palavras, pois que é agradável e melodiosa. Os seus autores, infelizmente dois já desaparecidos, - (António Simões e Anselmo Cardoso) – e João Silva Cascão.
         Uma última palavra para o guarda-roupa de Alberto Anahory: - “Maravilhoso”.
         Não nos queremos alongar em mais considerações, embora de bom grado o fizéssemos.
         Uma última questão: - “Quem não acredita no que dizemos só terá uma solução, que é ir assistir ao espectáculo”. – Se não gosta de teatro, temos a certeza de que ficará a gostar. Se já gosta, ficaria ainda a gostar mais.

Esta década terá sito uma das ficaram mais marcadas, na história do associativismo tavaredense, pelo desaparecimento de muitas e das mais importantes figuras do palco tavaredense. Não nos iremos referir a todas, mas não podemos deixar de lembrarmos a morte da amadora Violinda Medina e Silva. ... É evidente que nem todos os grupos participantes, tanto nas Jornadas em curso como nas anteriores, apresentam as mesma craveira artística, nem que neste como noutros campos em determinados estádios a quantidade é imprescendível, quando se pretende atingir a qualidade. E, além do mais, como diz Miguel Torga, ‘quem faz o que pode... faz o que deve’. Todavia estas linhas não pretendem criticar seja o que for das Jornadas de Teatro de Aqmadores da Figueira da Foz. A nossa intenção é bem outra, e tem em vista, se possível, fazer com que não resvale para o esquecimento um nome bem grande do teatro figueirense e que há dias exalou o último suspiro de uma vida que teve tanto de gloriosa no palco, como de amargurada nas jornadas quotidianas. Referimo-nos, como é bem de perceber, a Violinda Medina e Silva.
Julgamos que as camadas mais jovens a melhor homenagem que podem prestar à sua memória é participarem activamente em tudo que amplie e honre a apetência teatral das gentes do concelho, e quanto aos organizadfores das Jornadas entendemos que algo deve ser feito, publica e solenemente, que perpetue o valor e dedicação de alguém que sentiu o teatro com todas as veras da alma. E até na tumba não quis deixar de sentir o aconchego das tábuas do palco velho da ‘sua’ Sociedade de Instrução Tavaredense. Por todos estes motivos, poderá ser esquecido o dia em que Violinda Medina e Silva deixou a vida... para entrar na História do Teatro?
Aliás, tudo o que dizemos não é nada comparado com as magistrais palavras do seu velho companheiro das lides teatrais José Ribeiro, proferidas nas cerimónias fgúnebres. Nem a emoção nem a saudade conseguiram turvar as ideias claras ditas por quem (e para quem) teve o teatro como objectivo primordial na vida.

E não é possível deixar de aqui transcrever uma parte da carta que, nesta ocasião, Mestre José Ribeiro escreveu ao seu amigo António Medina Júnior, irmão da defunta. O corpo de tua irmã ainda estava ali na igreja no caixão em que ela quis levar algumas tábuas do palco que durante tantos anos pisara; o espírito da Violinda já tinha voado, mas eu sentia-o vivo, bem vivo no turbilhão das minhas saudades. E eis que vem o teu rapaz pedir-me uma nota sobre a Violinda para o teu jornal – uma breve nota sobre a admirável Mulher e grande e querida Artista de Tavarede – Violinda Medina e Silva.
         Mas, meu velho e desventurado António Medina Júnior: eu já não sei escrever para jornais – nem para os meus, que já não tenho, pois ambos me roubaram e porque deste então senti que me tornavam analfabeto. Perdi-lhe o jeito. Pode o bilhete de identidade continuar a chamar-me jornalista: é mentira piedosa que fiquei devendo, por mal dos meus pecados, à validade perpétua que ali me está assegurada.
         Que escreva para o teu jornal uma nota sobre a Violinda, pedes-me. Pois, meu velho companheiro da velha escola da nossa querida e inesquecível D. Amália! Tu bem sabes, e bem sentes, que a minha vida, como a tua, é já uma longa caminhada tristemente florida de muitas cruzes. Para qualquer lado que me volte – são ecos de ásperas e dolorosas lutas, algumas alegrias e tristezas com sinais dos encontrões que aguentei sem que algum tivesse força bastante para me não deixar de pé. E, tu bem o sabes, está comigo, infatigavelmente permanece – o Teatro. E o Teatro de Tavarede sempre o vejo e sinto com a Violinda Medina – admirável Mulher que a paixão da filha única, brutalmente arrancada ao seu grande amor de Mãe, matou para toda a alegria, só lhe deixando alma para resignadamente desfiar o rosário das desventuras.
         Quando em 1931 a Violinda veio para o grupo de amadores da SIT logo ela se me revelou de espantosa intuição.   Possuía linda voz com volume e extensão e era boa e simpática figura. Aqui na SIT se lhe afervorou a outra grande paixão da sua vida – o Teatro. E no Teatro, que cultivou com inteligência e invulgar sentido de Arte e raro espírito de sacrifício – até de saúde e comodidades – foi grande e admirável Actriz em várias das muitas peças que representou. E já agora, que me chamaste a terreiro, deixo-te aqui uma lista, naturalmente incompleta, das peças representadas pela inesquecível amadora de Tavarede: .......
         A primeira peça que tive como intérprete Violinda Medina foi Os Fidalgos da Casa Mourisca. Passaram já 50 anos… A última foi O Processo de Jesus. Entre uma e outra, quanta alegria, quanta beleza, quanta riqueza e diversidade de sentimentos, quanta grandeza e miséria e lágrimas e risos – comédia e drama, farsa e tragédia moldadas em prosa e verso. Ela tornou vivos no palco de Tavarede, e em Coimbra, Tomar, Lisboa, Porto, Leiria, Pombal, Soure, Pampilhosa, Cantanhede, Condeixa, Marinha Grande, Sintra, Colares, Arazede, Torres Novas, Torres Vedras, Maceira Liz, Alfarelos, Entroncamento, Vila Nova de Ourém, Amarante, Vila Real, Aveiro, Abrunheira, Figueira da Foz e em quase todas as freguesias deste concelho. Ela, a inesquecível Violinda, foi a pura alegria e o riso álacre dos Quintero no Génio Alegre, a raiva e o amor de Clara de Entre Giestas, o destroçado coração (que já o tinha sido na vida verdadeira da intérprete!) daquela Velhinha do Processo de Jesus, que sentia vivo ainda o filho já morto e lhe falava e o ouvia; foi a graça manhosa da criada do Tartufo, e a brava Rita Firmino de Horizonte, e a doce Avó de As Árvores Morrem de Pé, em cuja cena da bebedeira ninguém a ultrapassou e a aristocracia corajosa e astura que foi a Conspiradora; e foi o milagre de arte de representar com que transformou em verdadeira cena teatral o monólogo vicentino do Pranto de Maria Parda! E outras e outras figuras com que enriqueceu a galeria das suas criações.
         Logo no nosso primeiro encontro – íamos ler Os Fidalgos da Casa Mourisca – a Violinda se abriu em confissão: nunca tinha lido uma peça de teatro; sabia de cor algumas cenas do Presépio, tinha representado uma ou outra daquelas peças, comédia ou drama, que se vendiam impressas para amadores. Que não sabia nada de técnicas nem da história do Teatro: “Nunca me ensinaram…”. Ela, muito presa à sua vida de casa e nunca faltando a um ensaio (“nem que chova” e mesmo chovendo, a Violinda, o João Cascão e os Broeiros – todos excelentes, valiosos e briosos amadores! – nunca faltavam ao ensaio), a Violinda tomou gosto pela leitura de teatro. E leu teatro. Gostou muito de Marcelino Mesquita, e fez brilhantemente a protagonista do Envelhecer. Foi um atrevimento de que saiu vitoriosa. E estou a lembrar-me, meu caro António, de que tu viste aí em Sintra a tua irmã numa peça do Marcelino, não o Envelhecer mas Peraltas e Sécias. Foram duas representações inesquecíveis! Na primeira noite representou-se Frei Luís de Sousa. A Violinda foi grande, espantosa na Madalena de Vilhena. Abraçada à cruz, era a imagem viva da própria dor, a suprema angústia daquela mãe: “Tomai, Senhor, tomai tudo! Oh! A minha filha! Também essa vos dou, meu Deus!”. A Violinda subiu alto, foi sublime de beleza trágica na obra gloriosa de Garrett. Estou a escrever-te, vejo o “teu” teatro cheio, um silêncio pesado em que só lágrimas falavam, oiço essas lágrimas da Mãe preludiando a morte da Filha – e aqui me tens a senti-las, aquelas puríssimas lágrimas, esquecido da distanciação brechtiana…
         Pedis-te-me uma nota para o teu jornal que devia ser breve. E escrevi este artigo leguapoveiro, muito extenso e que diz pouco. Perdoa. E já agora, com um pouco mais de espaço talvez queiras aproveitar a página de memórias, - Memórias que não se escrevem – que aqui junto.
         Em Agosto de 81 tinha eu concluído a “Viagem na Nossa Terra” para ser representada pelo 78º aniversário da SIT, em Janeiro de 82. Seria a ocasião própria para o reaparecimento de Violinda Medina no palco de Tavarede. Escrevi para o efeito a cena 12ª – “Gente da Enxada”, dividida em duas partes:
         1) Regresso ao Lar – Eram os cavadores de Tavarede (já muito poucos…) que apareciam ao fundo da plateia e, descendo pelo centro, subiam ao palco, enxada ao ombro, cantando
                                               Lá vão!
                                               Lá vão
                                               Os ranchos do labor
                                               … … … … … … …
e, apagando-se ao longe o coro das enxadas, seguia-se a 2ª parte. Transcrevo:
         2) Génio Alegre – Surge à frente da cortina a figura do Génio Alegre:
         Violinda – “Foram eles, os cavadores de Tavarede, que me chamaram aqui… As badaladas do sino e as vozes dos cavadores no seu hino do trabalho evocaram no meu espírito uma cena em que também se viam homens no trabalho da terra e se ouviam badaladas e repiques de sinos barulhentos. (Transição) Foi há muitos anos!... Que saudades! Eu não era então a velha que hoje aqui está convosco. Era ainda jovem, uma rapariga alegre, contente, risonha, cheia de saúde e chamava-me Consuelo!... Parecia trazer o sol na alma e nos olhos e no coração e na boca a graça das cantigas andaluzas. Foi em Alminar de la Reina: estava em casa de minha tia, a nobre senhora Dona Sacramento, Marquesa do los Arrayanes. Era um belo palácio antigo, donde parecia ter desertado a alegria, se alguma vez houve alegria dentro daquelas vetustas paredes. No pátio andaluz existia um gracioso tanque com repuxo, mas não corria água no repuxo nem havia flores no pátio; enchi o pátio com vasos de flores e fiz correr água no repuxo; e aquele palácio velho e triste parecia agora rejuvenescido e alegre. (Transição) Certo dia, eu e várias cachopas e rapazes tínhamos ido a um casamento de ciganos. Quando já voltávamos do casamento, a palrar e a rir, muitos alegres”……………………………
         E vem então o belo monólogo dos sinos que a alegre e irrequieta Consuelo (a Violinda) dizia, cantava, vivia assombrosamente, com os olhos, a boca e a alma cheios de riso, de luz, de alegria transbordante. Tu, meu velho Medina, não viste, não podes fazer ideia, e eu não posso contar-te, descrever-te de maneira que tu entendas e sintas o que foi no Teatro do Casino Peninsular a estreia do “Génio Alegre” e a cena genial em que a Violina, com o João Cascão e o Manuel Nogueira, faziam renascer para a beleza e para a alegria o pátio sombrio da velha Marquesa de Arrayanes, fazendo correr a água no repuxo e enchendo o pátio de vasos floridos, numa cena rica de movimento, de alegria, de risos, de vida feliz. E a plateia, e o balcão, toda a gente de pé, batendo palmas, contentes, muitos rindo, alguns chorando – que também se chora de contentamento, de alegria.
         Esta cena com o monólogo dos sinos seria a grande homenagem a Violinda Medina, genial intérprete da deliciosa comédia dos Quintero, ali no Teatro de Tavarede, com os seus companheiros e o povo da sua terra e os seus admiradores de todo o concelho da Figueira. Falei com a Violinda – escondi-lhe o propósito da homenagem -, li-lhe o papel e ela, mesmo sentindo o peso dos anos e as tristezas da sua vida sem ventura, como que se animou à ideia de dizer ainda uma vez o seu belo, luminoso, arrebatador monólogo dos sinos, cheio de sol, de alegria de viver, de risos e de sons que vinham no repique destrambelhado dos sinos barulhentos. Para dias depois ficara combinado um ensaio de recordação, que já se não fez: a Helena – relíquia também do Teatro de Tavarede – trouxe-me a desilusão – que a Violinda não tinha forças para transmitir ao papel o movimento e a graça, a luz e a alma daquela irrequieta Consuelo, cheia de saúde e rica de alegria…
         E lá ficaram, agrafadas e sepultadas no caderno que servia ao ponto, as folhas 44, 45 e 46 com a cena irrepresentada do Génio Alegre que seria a Violinda.






                                    Violinda Medina e Silva

         No verso da folha 43 da “Viagem na Nossa Terra” escrevi:
         “Com grande mágoa se exara aqui a nota que segue: Este quadro do Génio Alegre preparou-se para ser erguido no palco, na noite da estreia desta Viagem na Nossa Terra, no aniversário da SIT, em Janeiro de 1982. Seria então a grande homenagem à Violinda dos amadores da SIT e do público que tanto admira esta nossa querida amadora – a maior de quantas conheci, como ensaiador, do Teatro de Tavarede. Infelizmente, a doença não lhe permite pisar de novo o palco. Por isso, tive de substituir o quadro.
               
Em 1983, a Sociedade apresentou, nas VII Jornadas de Teatro Amador do concelho, a peça O fim do caminho. Afinal a Organização das Jornadas Culturais de Teatro Amador, não teria por certo dificuldades em presenças de colectividades, se por ventura as mesmas quisessem apresentar uma peça que já tivesse sido vista e revista! E dizemos isto apenas por concordarmos em absoluto com comentários ouvidos e que praticamente transcrevemos.
         Mas, falando de outro assunto, assistimos ontem à representação da peça “O Fim do Caminho”, num original de Allan Langdon Martin e levada à cena pela Sociedade de Instrução Tavaredense. E então, partindo do princípio de que o Teatro é a imagem e não realidade, o Teatro não se faz com homens! Faz-se isso sim com personagens; e os personagens de Teatro ou são transfiguração da sua (Teatro) verdade ou então são bonecos sem significado. Essa transfiguração é orientada precisamente através da interpretação que o encenador (quem foi?) faz do texto e do estilo que vai seguir. E foi isso que aconteceu: Dentro do estilo realista o encenador não transformou a acção dramática numa cópia da realidade (e muito bem) aproximou-se o mais possível da realidade histórica referente à época em que a acção decorreu, muito bem acompanhado por um belo guarda-roupa. Quanto à distribuição, ele não nos pareceu de todo correcta, tão somente pelo facto de um interveniente nos parecer o que poderemos considerar de “monocordo” e o personagem de Jeremiah Wayne, sem qualquer descortesia para quem o interpretou, mesmo com o rigor da caracterização que tentaram dar-lhe, estaria talvez um pouco deslocado na idade. 
Salvo as espreitadelas pela cortina e aquelas falhas que todos nós sabemos existirem antes dos actores entrarem, a representação não nos merece grandes reparos, mas sim um bravo. Gostámos de assistir a um nivelamento mais ou menos correcto dos actores, mas é claro que João Medina, foi ele mesmo, quer no velho Dr., quer no Centro Dramático. A todos, gratos pela representação.

E, pode dizer-se, esta peça havia de marcar, na verdade, o princípio do fim do caminho de uma longa vida dedicada ao teatro da terra do limonete. Mestre José Ribeiro, o insubstituivel Homem de Cultura que tanto honrou a nossa terra, que lhe havia sido berço há nove décadas, via aproximar-se o ‘términus’ da sua carreira. Ainda escreveu e ensaiou mais uma fantasia, Manta de retalhos.

Prosseguia, com o maior entusiasmo, a campanha angariadora de fundos para a construção da nova sede do Grupo Musical. Entre as muitas iniciativas, foi programado um cortejo de oferendas, mas, no dia marcado, 24 de Abril de 1983, o mau tempo não permitiu o desfile.

         Apesar da doença, Mestre José Ribeiro ainda organizou um espectáculo, verdadeiramente grandioso, para as festas comemorativas do 80º aniversário da SIT. Há muito que, em Tavarede, o Teatro anda associado a todas as manifestações das suas gentes. Não será exagerado afirmar-se, até, que a vida em Tavarede gira em torno do seu Teatro. E, se alguém tiver dúvidas a tal respeito, apenas terá de ali se deslocar numa dessas ocasiões para constatar.
         Agora, na comemoração do 80º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, o fenómeno repetiu-se: o momento mais alto das comemorações teve lugar no seu magnífico teatro onde foi levada à cena a peça “Na Feira de Gil Vicente”, com adaptação desse “homem grande de Teatro” que é José Ribeiro. Gil Vicente foi, assim, o “convidado” de honra de Tavarede, Gil Vicente que poderemos quase considerar familiar ali (quem não se lembra da inesquecível “melhor Maria Parda” que foi, sem dúvida, a saudosa Violinda Medina?). Desta vez foram levadas à cena: “No Lar de Uma Família Judaica” (prólogo), “Auto da Barca do Inferno”, “O Pote da Mofina Mendes”, “Gil Vicente vem à Feira” e “Auto da Feira”.
         Mas não será ousado apresentar, em Tavarede, peças de tal nível cultural?
       

     É certo que a pergunta teria perfeito cabimento em relação à maioria dos centros portugueses. Mas a Tavarede não. É que ali há como que uma “representação colectiva” em que os que não sobem ao palco “representam” na plateia. Poder-se-á afirmar (passe o plágio) que quem não representa já representou e é esse facto que cria o tal ambiente em que se “respira teatro” e torna quase familiar a presença dos grandes vultos da cultura teatral. O teatro passou a fazer parte da vida desta gente, razão pela qual Gil Vicente é compreendido.
        E sobre o espectáculo?

         Julgamos ter dito o suficiente. Adiantaremos, no entanto, que vimos em palco quatro gerações. E que, se aquele Diabo (João de Oliveira) foi o melhor que já vimos, “o sapateiro” (José Luiz Nascimento) e “o parvo” (João Medina Júnior), foram apenas duas excepcionais actuações num conjunto que surpreendia pela segurança com que todos dominavam a complicada linguagem de Gil Vicente, um autor que efectivamente, não está ao alcance de muitos grupos. Que nos perdoe o leitor a escassez de nota de reportagem aqui contidas. Mas a verdade é que, para poder ter uma ideia exacta do que foi o espectáculo, só terá uma forma: deslocar-se lá na próxima representação (21 do corrente às 21,45) só assim poderá ficar com uma ideia de conjunto, desde a peça aos actores, da orquestra (dirigida por José Custódio Reis) ao guarda-roupa (Anahory), dos cenários... a tudo.
         Vá, que não se arrepende.