sábado, 21 de fevereiro de 2015

Consultas

Vejo, entre os consultores do meu blogue, países como Indonésia, Rússia, etc.
Será por engano ou viverão por lá tavaredenses saudosos da sua velha aldeia?
Peço resposta, por favor.

Histórias e Lendas - 21

Documentos curiosos
Livros e cadernos manuscritos
– Dr. Mesquita de Figueiredo –











Festas a S. João – Carta ao Governo Civil de Coimbra
         Achando-se muito próxima a festividade de S. João Baptista, que deve ter lugar no dia 24 do corrente, e sendo esta vila uma das terras do Reino em que se festeja com grande entusiasmo aquele dia, havendo grupos de mascarados, que pode dizer-se quase todos os habitantes da vila se mascaram, não contando com os que de fora dela reunem na véspera e dia de S. João, acontecendo outrotanto na véspera e dia de S. António, cujo costume é antiquíssimo nesta terra; e sendo certo que semelhantes reuniões de mascarados, em presença das circunstâncias actuais, podem ser causa de tumultos e desordens, e até de vinganças particulares, sendo impossivel tomar medidas de prevenção ou repressão contra os abusos que podem praticar-se; por isso julgo de meu dever levar tudo isto ao conhecimento de V. Exª. afim de providenciar de pronto, para que aquela festa, tanto da Igreja como de mascarados, seja transferida e reservada para uma época mais conveniente.
Figueira, 11 de Junho de 1896 – O administrador do concelho.

Carta à G. N.
Costumando os habitantes desta terra festejar com grande entusiasmo os dias e vésperas de Santo António e S. João Baptista, fazendo fogueiras pelas ruas, em roda das quais se divertem, apinham muitos grupos de mascarados, divertindo os circunstantes com várias lembranças, e como semelhantes reuniões podem resultar desordens; e muito principalmente nas circunstâncias actuais, em que os espíritos se acham exaltados em virtude do movimento nacional que teve lugar em todo o Reino; por isso é muito conveniente, afim de que a ordem e tranquilidade pública em nada seja alterada, V. Sª., visto ser hoje véspera do dia de Santo António, se digne dar as melhores providências, escolhendo dentre os indivíduos que voluntariamente se alistaram no Batalhão da Guarda Nacional, aqueles que mais confiança lhe merecerem, afim de percorrerem as ruas desta vila, armados implesmente de suas baionetas, afim de manterem a boa ordem, que deve haver em semelhantes divertimentos.
Figueira, 12 de Junho de 1896 – O adsministrador do concelho.
(Caderno 17 – páginas 56 e 57)
 

INQUÉRITO
         Resposta a um inquérito ordenado pelo Governo Civil de Coimbra, de 5 de Novembro de 1835. Responderam os párocos da Figueira e Vila Verde, não respondendo o de Tavarede ‘por não haver já há tempos’.
         1 – Os filhos principiam a ser de alguma utilidade a seus pais depois dos catorze anos;
            2 – Podem os homens gozando completamente de suas forças entregar-se ao trabalho na idade de 18 anos a 20;
            3 – Neste concelho dão-se os homens a trabalho, particularmente do mar, em idade bem tenra, e não é regular que semelhante prática os prejudique na saúde;
            4 – Os casamentos costumam celebrar-se ordinariamente entre de 20 a 30 anos;
            5 – Costumam os mesmos (termo média) de produzir de 5 a 7 filhos, não há esterilade notável nos sexos, antes há bastante fecundidade, devida talvez à natureza dos alimentos, por ser quase toda de uma natureza quente;
            6 – Principiam os sexos a ser prolixos dos 14 anos por diante, e deixam de o ser as mulheres dos 45 a 55 e os homens de 60 a 70;
            7 – Deixam de ser próprios para o trabalho os indivíduos de ambos os sexos depois de 60 anos;
            8 – O ar é puro e saudável;
            9 – Não há pântanos;
            10 – Os vícios mais frequentes são a embriaguês e a este mesmo se não é grandemente dado;
            11 – Tem havido bexigas;
            12 – Não há inundações que produzam prejuizos;
            13 – Não há indigentes propriamente ditos, que o sejam por causa de serviços feitos à legitimidade ou por causa da usurpação.
            Figueira 24 de Maio de 1836 – O administrador do concelho, António Manuel da Cruz Rebelo.


         Notícia do Couto de Tavarede
            Notícia do Couto de Tavarede e Figueira da foz do Mondego, que é sufragâneo à jurisdição crime da vila de Montemor-o-Velho, dado ao Juiz de Fora e Câmara da mesma vila, o Juiz Ordinário do dito Couto Manuel Fernandes da Esperança e escreveu e subscreveu o escrivão da comarca do mesmo Couto, Nicolau Pedrosa de Matos, com data de 20 de Março de 1721:
            No cartório da Câmara deste Couto não se acham livros antigos, acham-se, sim, vários pergaminhos escritos e selados com selos reais de diferentes armas, cuja letra se não pode ler por ser antiquíssima e escura, e por isso se não pode saber do que tratam, nem há livro nem tradução dos ditos pergaminhos.
            Este Couto de Tavarede tem 90 fogos, com alguns casais circumvizinhos a este mesmo Couto, ao qual pertence o lugar da Figueira da foz do Mondego, que é sujeito a esta vara em todas as matérias cíveis, o qual lugar tem 157 fogos, e uns e outros fazem 247 fogos, e tudo é jurisdição cívwl da vara deste Couto.
            Os direitos reais que lográra dos senhores reis até ao tempo do sr. Rei D. Sancho, foram dados por ele ao Abade Pedro, cónego do Cabido da Sé de Coimbra, a qual doação foi confirmada pelo sr. Rei D. Manuel, como melhor há-de constar dos papéis e doações que o mesmo Cabido tem em seu poder, e também consta do Foral deste dito Couto, dado pelo mesmo Rei D. Manuel, com declaração dos direitos que se pagam ao Cabido de Coimbra, que são dízimos, oitavas e portagens.
            Não se acha memória, nem há tradição alguma acerca da antiguidade deste Couto, nem seu princípio e primeiros habitantes, salvo se consta dos pergaminhos que se não sabem ler e estão no Cartório desta Câmara, e isto melhor constará do Cartório do Cabido de Coimbra.
            Este Couto está situado ao redor do rio Mondego, distância de meio quarto de légua, e dista do mar e praça de Buarcos um quarto de légua. O lugar da Figueira, sujeito a este Couto, está situado ao pé do mesmo rio, e no fim dele abre a barra do dito lugar.
            Neste Couto se costuma fazer, cada ano, três procissões públicas, que ordena a justiça, as quais são a da Visitação de Nosso Senhor, a do Anjo da Guarda e a do Corpo de Deus.

(Livro 16 – páginas 47 e 48)



O Aasociativiusmo na Terra do Limonete - 116

         Geminada com a Figueira da Foz, Gradignan recebeu uma representação do associativismo tavaredense. Foi a primeira internacionalização do nosso teatro e da nossa música, numa iniciativa da Câmara Municipal da Figueira. Levar o nome da Figueira até terras de Gradignan e fortalecer culturalmente os alicerces do projecto comum que aquela cidade francesa e a nossa resolveram solidificar através de uma geminação era, assim o entendemos, o objectivo das gentes de Tavarede.
         Geminação (a mais recente da Figueira e a única de Gradignan) que tem funcionado mais ao nível da troca de experiências profissionais entre técnicos dos dois municípios, usufruiu agora de um revigorante tónico, admiravelmente administrado pelos amadores tavaredenses, que na “cidade verde” se revelaram exímios embaixadores.
         E Gradignan, a meia dúzia de quilómetros de Bordéus, é uma cidade diferente, não apenas da nossa cidade praia, mas “anormal” dentro da própria França, num contexto muito geral.
         Chamamos-lhe cidade verde.
         E julgamos que com razão, pois as zonas verdes, cuidadas e vastas, são, desde logo, o que mais impressiona qualquer visitante, para além das suas vivendas, algumas delas antigos e conservados palácios e solares de vinhateiros do século XVII e XVIII.
         Gradignan possui nos seus 1570 hectares, mais de 400 totalmente arborizados. Por hábito, que se mantém, aquele que compra um terreno cede à Câmara quatro quintos do mesmo para zona verde e apenas utiliza o restante para uso próprio directo. Quer dizer, depois de feitas as contas, cada habitante de Gradignan dispõe de 65 metros quadrados de espaço verde!
         De Gradignan, antigo lugar de passagem num dos caminhos de Santiago de Compostela, se pode ainda acrescentar, neste comprimido cartão de apresentação, que 50 por cento da sua população tem menos de 25 anos, que mais de 20 por cento das suas habitações são consideradas sociais, que, ainda por curiosidade, nela existem oito campos de futebol, 12 campos de ténis, três enormes gimnodesportivos, diversos pólos universitários (com 2400 alunos), creches e lares para a 3ª idade, etc., etc. etc.
         Tendo a comitiva tavaredense partido poucos minutos antes da uma hora (da noite, claro) do dia 10, e após uma viagem de cerca de 1200 quilómetros, quase sempre atormentada pela irritante chuva, chegaria a Gradignn ao fim da tarde, à hora de se instalar no CREPS (um dos maiores centros de estágio desportivos da Europa), jantar e “xixi-cama”, sem que antes muitos procurassem telefonar para saber o resultado do Benfica-Boavista...
         Toda a embaixada havia sido recebida por Pierre Caune e Yves del Perugia, os “homens da Câmara” que durante toda a nossa estada representaram a cidade e fizeram as honras da casa com a maior eficiência, enquanto que a Câmara da Figueira esteve presente pelo vereador dr. Licínio Amaral.
         Sexta-feira, após um desportivo e racional pequeno almoço, começou no extraordinário Teatro das Quatro estações a montagem da cena para a “Tá Mar”.
         Entretanto, o nosso Jornal teve privilégios, e pode passar a manhã deambulando pelos vários serviços da Câmara, na companhia de Daniel Costa, um francês (português) responsável (em grande parte) pela geminação, e que em Gradignan, na sua máquina administrativa tem posição de bastante importância, concretamente no departamento informativo.
         Após o almoço que realizámos no “Hotel de Ville”, parte da delegação figueirense, na qual pontuavam os presidentes da Assembleia de Freguesia e da Junta de Tavarede bem como a drª Ana Maria, responsável do teatro na SIT, foi recebida pelo presidente da Câmara, em sessão solene de boas vindas.
         Cerimónia protocolar, mas em família, durante a qual se procederam à troca não apenas de cordiais mensagens de “reforço geminatório”, mas também de lembranças, sendo igualmente “O Figueirense” distinguido com a Medalha de Gradignan, uma imerecida honraria. 
         Entretanto, enquanto uns iam montando a “Tá Mar”, uma outra equipa de artistas, isto é, a Celeste, a São, e a Augusta, capitaneadas pelo sr. Carvalheiro, trabalhavam gostosamente no que seria o ponto alto da noite: o jantar que Tavarede ofereceu aos amigos franceses, concretizado num divinal bacalhau à Lagareiro. Cremos que só a água era francesa, pois tudo fora levado de Portugal, incluindo os vinhos servidos, antes, durante e depois.
         Sucesso gastronómico (e social) ao qual não faltaria o nosso tradicional arroz doce, e reforçado pelo “acto de variedades” que encerraria a noite de amizade. Um bem ensaiado grupo – vozes e instrumentos – deu a conhecer um conjunto de canções populares portuguesas, daquelas julgadas mais significativas, ao mesmo tempo que os músicos do mestre João Mendes (imparável de dinamismo), atroavam os ares por tudo onde era sítio com a nossa Marcha do Vapor, sempre aplaudida e por todos nós cantada.
         E para um culminar de sarau em beleza, o Vítor Costa, o António Simões (parabéns, presidente), o António Barbosa, a Augusta Duarte, o Pedro Antunes, a Celeste Fonseca, e o António Paz encheram o Prieuné de Cayac de portuguesismo fadista.
         No sábado continuou-se a lutar contra a chuva, mas que na parte da manhã fez tréguas com Tavarede, o que permitiu que todos – cinquenta e dois – se integrassem numa musicalíssima arruada, bem ao jeito nacional, que percorreu, com polícia a abrir caminho, as artérias principais e mais movimentadas da “cidade verde”.
         Era a manifestação de rua que levava os “gradignadenses” a inquirir do que se passava... e a baterem palmas.
         Claro que não faltaram as bandeiras nacional e figueirense... a Marcha do vapor!
         E só na tarde de sábado houve ocasião para pensar nos francos que “asfixiavam” nas carteiras. Após um passeio por Bordéus, sempre a andar (no autocarro, claro), houve a possibilidade de visitar Arcachon, terra de iates, de Casino e de muitas (e caras) lojas, o que proporcionou o bater de asas dos frangos, digo, francos, transformados em “souvenires”.
         A presença de Tavarede e dos seus amadores aproximava-se não apenas do fim, mas igualmente do seu momento mais elevado: nessa noite houve Teatro, na fabulosa sala das Quatro estações, uma maravilha da técnica na construção de teatros!
         Dizem os entendidos que foi uma das mais conseguidas representações das várias já efectuadas da “Tá Mar”, pela SIT e que mereceu os fartos aplausos dos assistentes no anfiteatro. Em nome da verdade se deve dizer que não eram muitos. Tavarede, nessa noite, teve sérios inimigos: a televisão final da Taça de França, com a equipa do português Artur Jorge; a impiedosa chuvada que durante horas se manteve; um jantar de portugueses da zona, que comemorava o 10 de Junho e ainda uma festa que a uma centena de metros Gradignan vivia.
         Mas Tavarede e os seus amadores cumpriram com toda a dignidade a missão que haviam aceitado. O nome da Figueira da Foz, os propósitos da geminação, a arte dos amadores – teatrais, musicais, gastronómicos,--- - que de Tavarede, da sua freguesia, levaram a Gradignan uma mensagem de amizade, --- tudo, tudo foi cumprido com a qualidade, dedicação, muito figueirentismo, espírito de sacrifício, por um punhado de gente que bem merece o prémio de Divulgação do Nome da Figueira da Foz.
         Parabéns, amadores de Tavarede.
         Uma felicitação final para a Junta de Freguesia de Tavarede, (à qual “O Figueirense” agradece as atenções recebidas) particularmente dirigidas ao seu presidente, António Simões, o grande e abnegado dinamizador deste acto cultural.

         No ano de 1994, por ocasião de mais um aniversário, foi inaugurado o pavilhão desportivo da Sociedade. E masi uma festa interessante, e que se pode integrar no associativismo local, ocorreu em Março de 1994, por ocasião dos festejos comemorativos dos 100 anos de vida da antiga amadora teatral Helena Figueiredo Medina. Se é certo que Tavarede nos tem habituado, desde sempre, ao chamado direito à diferença, não podemos, contudo, deixar de nos regozijarmos, uma vez mais, com a forte participação que os tavaredenses desenvolveram, no passado dia 23, na homenagem prestada a D. Helena de Figueiredo Medina, no dia em que comemorava 100 nos de vida.
         Nascida há um século, D. Helena Figueiredo Medina ainda hoje cultiva uma alegria de viver não usual naquela idade, sentimento que tão bem exprime nas canções – de outros tempos, certamente – que admiravelmente canta, embora as sequelas de 100 anos de vida se façam logicamente sentir nos longos períodos de quietude, durante os quais, talvez mentalmente deambule por um passado difícil, pelo historial de uma mulher que quando rapariga muito teve de lutar para sobreviver e apoiar a família.
         No começo da noite, D. Helena recebeu em casa de sua filha, com a qual há longo tempo mora, a visita de largas dezenas de tavaredenses que, para além de flores, de muitas flores lhe patentearam estima, admiração, respeito e amor.
         Recordamos que o presidente da Junta, emocionado, lhe entregou as suas flores e o seu abraço, as flores de Tavarede, o abraço de Tavarede, o mesmo tendo feito a drª Ilda Manuela, em representação da SIT.
         Talvez que D. Helena não se tenha apercebido do porquê de tanta gente. Cremos bem que não. Mas que os seus olhos adquiriram mais brilho e a sua voz mais alma, disso ninguém duvidou.
         E as suas canções, mesmo aquela mais apimentada de que tanto parece gostar, ecoou de forma diferente no coração dos que a escutaram.
         Como significativo foi o ouvir-se a Tuna de Tavarede, agrupamento musical criado pelo saudoso José Medina, marido de D. Helena, e um dos músicos mais prestigiados que a “capital da cultura concelhia” conheceu.
         Parabéns aos “velhos” tunos de Tavarede.


         Depois da visita de cumprimentos decorreu no Salão de Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense  homenagem a D. Helena, embora sem a sua presença.
         E pelo palco tivemos uma agradável representação de “Os Amores do Coronel”, peça que marcou, em 1914, em 22 de Março, a estreia de Helena Medina como amadora (distinta) teatral, no papel de Rosina, uma camponesa irrequieta e apaixonada.
         Uma palavra de aplauso para a espantosa actuação do coronel, isto é, de Rogério Neves. “Um espanto”, como diria Jô Soares.
         E com uma casa praticamente cheia, ainda admirámos um vídeo (trabalho do dr. Rui Moura) que nos contou muito do passado e do presente da centenária Helena Medina.
         Por fim, numa terceira parte, tivemos pequenos quadros de algumas peças nas quais D. Helena Medina actuou, quando jovem.
         Se os parabéns vão inteirinhos para a Mulher e para a Amadora Teatral chamada Helena Figueiredo Medina, eles terão de ser igualmente endereçados a Tavarede e muito especialmente à Sociedade de Instrução Tavaredense.
         É o tal direito à diferença...


         Também no dia 1 de Maio desse ano, o Grupo Desportivo e Recreativo da Chã, a dois passos da Figueira e na freguesia de Tavarede, comemorou o seu décimo oitavo ano de vida, melhor, de muita vida, bem patente no que da sua sede se construiu já, é visivel nas actividades que tem desenvolvido, nas quais – qualmenina bonita – toma lugar de honra o Rancho Estrelinhas da Chã

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Histórias e Lendas - 20

Morgado de Tavarede
Familiar da “Santa?” Inquisição

  
PEDRO LOPES DE QUADROS E SOUSA - Morgado. Filho de Fernão Gomes de Melo Quadros e Sousa e de D. Beatriz Maria de Albuquerque.          Nasceu e morou em Tavarede. Era manco de ambos os pés. Comendador da Ordem de Cristo e familiar do Santo Ofício. Foi baptizado na capela do Paço no dia 16 de Agosto de 1672,     Foi casado por duas vezes. Da primeira vez com D. Josefa Isabel Zambado de Vasconcelos, filha do dr. Bento Dias Zambado e, enviuvando, casou em segundas núpcias com D. Madalena Maria Henriques Meneses. Faleceu em 29 de Agosto de 1751.(Caderno: Tavaredenses com história)
         Ilmos. Senhores . Passando ao Couto de Tavarede, freguesia de S. Martinho, achei pela informação que com muita individualização tomei extrajudicialmente com o padre cura Manuel Pinto da Rocha e o padre Francisco Rodrigues Portugal, e com o padre José Neto Coelho e Filipe Jacome, José de Almeida e Manuel Ferreira Coimbra, todas pessoas crtistãos velhos, legais, fidedignas mais antigas e noticiosas, e naturais e moradores no dito Couto de Tavarede, que Pedro Lopes de Quadros e Sousa, casado com D. Madalena Henriques de Menezes, comendador da Ordem de Cristo, e natural e morador no dito lugar de  Tavarede, deste Bispado de Coimbra, e filho legítimo de Fernão
Gomes de Quadros, comendador da dita Ordem, natural do dito Couto de Tavarede, e de sua mulher D. Brites Maria de Albuquerque, e neto paterno de Pedro Lopes de Quadros, comendador da Ordem de Cristo, natural do dito Couto de Tavarede e de sua mulher D. Maria Teles de Menezes, por via de seu pai e avô paterno, é legítimo e inteiro cristão velho, limpo de toda a infectação, sem fama de rumor em contrário, é de boa vida e costumes por ser muito recolhido e zeloso da Igreja, anda sempre e seu filho, com os demais mordomos, com inteira satisfação. Porém, das pessoas referidas, que perguntei achei que três disserão que o dito Pedro Lopes de Quadros e Sousa é soberbo, porque manda pelos seus criados tirar os homens trabalhadores do serviço das pessoas com quem andam e se não querem obedecer-lhe  manda dar pancada pelos criados; e é de pleno juizo e capacidade para servir ao Santo Ofício no cargo de familiar e sabe ler e escrever e tem de idade 49 anos, pouco mais ou menos, e terá de renda, em cada ano, seis ou sete mil cruzados. O referido foi o que descobri. V. Sª. mandará o que for servido com a justiça e rectidão que em tudo costuma. Buarcos, 4 de Abril de 1720. Subdito de V. Sª., a comissão e vigário de Buarcos Manuel de Carvalho.
         A carta acima trancrita foi a resposta enviada aos inquisidores de Coimbra, para darem andamento ao pedido do morgado de Tavarede para ser familiar do Santo Ofício.  O pedido efectuado por carta da Comissão da Inquisição de Coimbra nomeou o escrivão Padre Manuel Ferreira de Carvalho, morador em Buarcos.
         Inquirição feita a 3 de Outubro e dias seguintes na Igreja de S. Martinho de Tavarede – Testemunhas que depuseram:
a)      Padre Manuel Pinto da Rocha, sacerdote do hábito de S. Pedro, natural e morador no Couto de Tavarede – o habilitando é comendador de S. Pedro das Alhadas – ele, testemunha, foi capelão de seu pai, Fernão Gomes de Quadros, pelo espaço de 20 anos, que também foi comendador de S. Pedro das Alhadas e ao presente se acha religioso professo na Ordem de S. Francisco, no Convento de Varatojo – viveram do seu morgado, comenda e prazos, tratando a lei de fidalgos andando em carroças e liteiras.
É vizinho dos sobreditos com os quais se criou, e sabe ele, testemunha, que o dito Pedro Lopes de Quadros, do 1º matrimónio não teve filhos, e fora do matrimónio tem 3 filhos: uma religiosa no Convento do Lorvão, que se chama D. Helena, filha de uma Maria Portulez, filha de António Portulez e de sua mulher Maria da Rocha, e outra que se chama D. Antónia, que se acha no Convento de Alenquer, filha de Páscoa Gonçalves e neta de José Gonçalves, naturais e moradores neste Couto de Tavarede, freguesia de S. Martinho, e de Maria Neta, do lugar de Brenha, freguesia de S. Teotónio, deste bispado e moradora que foi neste dito Couto de Tavarede e a dita D. Helena e sua mãe e avós maternos acima nomeados, são naturais e foram moradores no Couto de Vila Verde, freguesia de S. Julião da Figueira da Foz e de S. Pedro do Couto das Alhadas. E tem mais o dito habilitando em sua casa um filho, que se chama Bento, filho de Catarina de Paiva, neto pela parte materna de Manuel de Paiva e de Maria de Azambuja, naturais e moradores no dito Couto de Tavarede, freguesia de S. Martinho, e sabe ele, testemunha, que todas as sobreditas pessoas são legítimas e inteiras cristãs velhas e por tais tidas e havidas, e nunca algum deles morreram de infâmia publica, pena vil de feito ou de direito, nem descendem de quem a incorresse nem disso há fama ou rumor em contrário, que se houvesse havia ele, testemunha, de ter alguma notícia por ter pleno conhecimento de todas as sobreditas pessoas.
b)      O reverendo padre Francisco Ribeiro Portugal, sacerdote do hábito de S. Pedro, natural e morador neste Couto de Tavarede. Afilhado de baptismo do bisavô de habilitando, diz que este se trata com muito luzimento e limpeza com suas carruagens, que consta de liteira e seje. (resto mutatis mutandis).
c)      Filipe Jacome, homem oficial de tanoeiro, natural e morador em Tavarede ... se tratam a lei de fidalgos com carruagens, liteiras e coches. Criou-se lá em casa. (mutatis mutandis).
d)      Reverendo padre José Neto Coelho, sacerdote do hábito de S. Pedro, natural e morador deste Couto de Tavarede... foi mestre do habilitando que o ensinou a ler e a escrever, que o habilitando se trata com luzimento e limpeza, servindo-se com suas carruagens, escravos e criados. (mutatis mutandis).

Seguem-se outras testemunhas, num total de 12.
- Pedro Lopes de Quadros e Sousa, foi baptizado em 16 de Agosto de 1672 em sua casa.
Seu pai, Fernão Lopes de Quadros, foi baptizado em 3 de Janeiro de 1655. O avô, Pedro Quadros, foi baptizado em 16 de Dezembro de 1625.
Foram anexas ao processo as três certidões de nascimento Acima. Não foram encontrados os assentos dos casamentos de seus pais e vós.
Em 11 de Fevereiro e seguintes, na Igreja de S. Martinho de Tavarede, foram inquiridas mais 24 testemunhas.
Como facilmente se verifica, os processos para admissão a familiar do Santo Ofício eram morosos e complicados. Impõe-se a descrição do que era a ‘Santa?’ Inquisição estabelecida em Portugal no reinado de D. João III. Para tal uma vez mais recorremos aos livros manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo.
A INQUISIÇÃO – Agora aparece um periódico de Lisboa a tratar de defender e justificar o horroroso e infame tribunal da inquisição. Será conveniente publicar alguns documentos, para mostrar a santidade de  semelhante tribunal e as virtudes dos seus ministros.
No Regimento do Santo Ofício da Inquisição do Reino de Portugal – ordenado pelo bispo e inquisidor geral D. Francisco de Castro, e impresso em 1640 em Lisboa, por Manuel da Silva, nos próprios paços da Inquisição (os Estaos), o qual é hoje raríssimo, mas de que possuimos um exemplar em perfeito estado de conservação – se determina o seguinte:
‘Havendo no Santo Ofício prova bastante de testemunhas, porque pareça que algumas pessoas defuntas podem ser convencidos do crime de heresia, mandarão os inquisidores, a requerimento do promotor, tirar certidão do livro de baptismo, porque conste se eram os defuntos cristãos baptizados, e não se achando o dito assento, se fará sumário de testemunhas, porqie conste se eram baptizados naturais do reino, e como eram tidos e havidos por cristãos baptizados; e junta a certidão ao sumário, havendo o promotor feito seu requerimento, verão os inquisidores tudo em mesa com as culpas do defunto, e pronunciarão que sejam citados seus herdeiros, ou pessoas, a quem de direito pertencer a defesa; e esta citação se fará pessoalmente aos que estiverem no reino, e por édito aos ausentes dele; e se continuará na causa, na forma que fica dito nos mais defuntos; e estando conclusa, verão os inquisidores o processo em mesa com o Ordinário e deputados, e achando que o crime está provado, condenarão os defuntos na forma que se acha no livro 3, título 26, parágrafo 5º.
Ora eswte livro, título e parágrafo do Regimento aqui citado, ordenavam o seguinte:
‘Se depois de se haver procedido contra os defuntos na forma que fica declarada no livro 2, título 18, eles forem havidos por convictos de heresia e apostasia, serão em sua sentença declarados por herejes e apostatas da nossa santa fé; e condenada a sua memória e fama, e confiscados seus bens, do tempo em que se provar que cometeram o delito; com tanto que não estejam legitimamente proscritos por espaço de quarenta anos; e serão seus ossos desenterrados e tirados das igrejas, adros, ou de qualquer outra sepultura eclesiástica em que estiverem, podendo-se separar os ossos dos pés cristãos, e levados com sua estátua ao Suto público da Fé, e relaxados à justiça secular’
Eis aí o que a Inquisição fazia aos próprios mortos! Nem a paz dos túmulos respeitavam aqueles bárbaros!
Só no fim de 40 anos se julgavam os crimes prescritos; e por isso, durante aquele longo espaço de tempo, nenhum filho em relação a seu pai, o pai em relação ao filho, a mulher a seu marido e vice-versa, e em geral todos os herdeiros, se podiam julgar seguros na posse de seus bens; nem estar descansados de que aquelas hienas de nova espécie, não viriam desenterrar os ossos dos seus antepassados, e levá-los (coisa horrorosa!) com a sua estátua ao auto público da fé, para aí serem relaxados à justiça secular, isto é, serem queimados!
Se os defuntos não escapavam aos inquisidores, não podiam ter melhor sorte os doidos!
            Aos que endoidecessem nos cárceres do Santo Ofício (e a quantos ali acontecia essa infelicidade!) fazia o regimento de 1640 a extrema graça de não serem castigados. ‘Não se dará (dizia o regimento) pena corporal, pois o juizo deles é incapaz dele.
            Ora na verdade, já era grande tolerância não castigar um doido! Mas julgam que ficaria aqui a caridade dos inquisidores? Não. Acrescentava logo o regimento ‘E ficarão os seus bens em sequestro, para que tornando o seu juizo, ou falecendo naquele estado, se proceda contra ele, ou contra a sua memória e fama; e tendo prova legítima será condenado em confiscação dos bens e dana sua fama e memória’.
            E que os inquisidores quando quizessem alcançar prova legítima, não oferecia a menor dúvida.
Tratava-se de roubar os bens do preso, e por isso estivessem certos de que não apareceriam provas mais claras que a luz do sol!
A inquisição prolongava quanto podia, para martirizar os réus, o seu tempo de prisão, e só tinham pressa de os julgar depois de mortos. Vamos agora dar um exemplo bem frisante deste procedimento inquisitorial.
‘Em 1666 mandou a Inquisição de Coimbra prender D. Margarida de Melo Pina, filha de Francisco de Pina Perestrelo, natural de Montemor-o-Velho e casada com seu primo Manuel da Fonseca Pina. Era acusada de ser ‘cristã-nova’.
Foi levada na forma do costume para os tenebrosos cárceres da inquisição. Ali, em uma daquelas casas da mais exígua dimensão, recebendo uma fraca claridade por uma muito pequena fresta, quase junto ao tecto, jazendo pelo espaço de – dezassete anos (17) – a infeliz D. Margarida de Melo Pina, sem ser julgada!
No fim desse longo período, tendo falecido nos cárceres da inquisição, é que os inquisidores se apressaram a julgar a ré.. A senteça lida no auto celebrado na sala da inquisição desta cidade, em 13 de Março de 1683, foi a seguinte:
            ‘Acordam os inquisidores, ordinário e deputados da Santa Inquisição de Coimbra, que vistos estes autos e culpas de D. Margarida de Melo, cristã velha (?), viúva de Manuel da Fonsec a Pinto, que vivia da sua fazenda, natural e moradora em Montemor-o-Velho, bispado de Coimbra, presa nos cárceres da inquisição da mesma cidade, e neles defunta; porque se mostra que sendo denunciada no Santo Ofício, que tinha cometido culpas contra a nossa Santa Fé Católica, e sendo por elas presa e por vezes admoestada as quizesse confessar, respondeu que não tinha cometido culpas contra a nossa Santa Fé Católica.
            O que tudo visto que dos autos consta, com as resultadas diligências que se fizeram por ordem do Santo Ofício, a respeito da qualidade da ré, e constar delas ser legítima e inteira cristã velha, limpa e sem raça alguma cristã nova, absolvem a ré D. Margarida de Melo da instância do juizo – e declaram que a seus ossos se pode dar sepultura eclesiástica, e oferecer a Deus por sua alma os sacrifícios e sufrágios da igreja. E mandam que esta sentença se leia na sala desta inquisição e depois se publique na paroquial igreja da dita vila de Montemor-o-Velho, donde a ré era freguesa, na estação da missa conventual, para que venha a notícia a todos, e lhe seja levantado o sequestro, que em seus bens se lhe haviam sido feitos, e deles se paguem as custas. (a) Sebastião Dinis Velho, Gonçalo Borges Pinto’.
            Não tiveram durante 17 anos tempo os infames inquisidores de julgar a infeliz D. Margarida de Melo Pina; e nem depois da sua morte declarar que estava inocente! E apesar de estar inocente, pelos seus bens se paguem as custas!
            Sendo a sentença publicada em 13 de Março de 1683, foi no dia 21 do mesmo mês lida na igreja paroquial de S. Martinho de Montemor-o-Velho, à estação da missa conventual, havendo por essa ocasião repiques de sinos, luminárias, muitas festas e sumptuosas exéquias, mandadas fazer pelos parentes da falecida.
            Como o cadáver desta senhora tinha sido sepultado no edifício da inquisição de Coimbra, trataram os seus descendentes, no ano de 1709, de trasladar os ossos dela, para a sua capela da Piedade, na referida freguesia de S. Martinho de Montemor-o-Velho. Aí se lhes deu sepultuura, e nela se pôs uma lápide, com a sentença gravada, havendo novas exéquias com sermão.
            Foi este o último acto de um tão tenebroso drama. Esta senhora, de quem foi descendente o sábio escritor Francisco de Pina e Melo, é presa por cristã nova; sofre durante 17 anos a mais dura prisão nos cárceres do Santo Ofício; e no fim, depois de morta, vêm dizer os inquisidores que era cristã velha, e que apesar de todas as diligências a que procederam, a achavam inocente!
            Quadros semelhantes são repugnadissimos a todas as pessoas dotadas de humanidade; mas é de razão que a geração actual seja sabedora do que nas épocas anteriores se praticava, e possa responder com vantagem àqueles que tratam unicamente de tornar salientes quaisquer actos condenáveis, que se tenham praticado depois de estabelecidas entre nós as instituições liberais.
Convém que os partidários do obscurantismo saibam que ainda se não perdeu a memória das atrocidades que se praticavam em nome de uma religião toda paz e caridade. – Joaquim Martins de Carvalho’
(Caderno 17, páginas 86 a 89)

Era este o procedimento normal da ‘Santa’ Inquisição, a que o nosso Morgado aderiu como ‘familiar’

O Associativismo na Terra do Limonete - 115

         No ano seguinte, uma inovação surgiu no programa comemorativo do 88º aniversário. A Sociedade de Instrução Tavaredense realizou, no passado domingo, 12, uma ''Estafeta de Teatro" com partida do Teatro Gil Vicente em Coimbra, e chegada à terra do limonete.
O percurso foi feito a pé por muitas dezenas de amadores, que ao longo dos anos têm passado pelo grupo cénico de Tavarede, e terminou com uma festa-convívio no pavilhão daquela colectividade.
No trajecto, os amadores de Tavarede evocaram, simbolicamente, a grande actriz que foi Ester de Carvalho, em Montemor-o-Velho, e o actor Dias, em Maiorca.
Esta iniciativa fez parte do programa comemorativo do 88° aniversário da SIT, que teve no dia 11 a representação da peça “Os Anjos e o Sangue”, pelo Teatro Experimental de Mortágua.
No próximo dia 18 (sábado) o grupo cénico do GR Vilaverdense, leva à cena a revista "Badalando e Rindo".
No dia 19, pelas 16,30 horas, haverá concerto pela Filarmónica da Sociedade Artística e Musical Carvalhense (Carvalhais de Lavos) e actuação do Rancho Etnográfico do CR Cultural Carvalhense.
No dia 25, às 21,45 horas, o grupo cénico da SIT representa a comédia em 5 actos, original de Molière, "O Avarento".
E no dia 26, fecho do programa, haverá: às 8 horas, alvorada; às 17 horas, sessão solene e posse aos novos corpos gerentes.

         O avarento foi a peça escolhida para a comemoração do Dia Mundial do Teatro, de 1992. Tavarede, capital do nosso teatro amador concelhio, não poderia, como sucedeu em tantas localidades, deixar de assinalar o Dia Mundial do Teatro, que se comemorou no passado dia 27 de Março.
         É que se Tavarede tem tradições teatrais como ninguém, a verdade é que todo um Passado glorioso e um Presente não menos digno aumentou as responsabilidades da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Assim o entenderam. E muito bem, os seus actuais dirigentes, fazendo subir ao palco, na passada sexta-feira, um senhor chamado Molière, um homem que a todos deu o privilégio da alegria, traduzida e provocada pela magia da arte teatral.
         E não resistimos a transcrever afirmações de Mestre José Ribeiro, em carta a um amigo, a respeito deste autor universal: “Pois o Molière é um bom amigo. A graça com que ele se ri! A ironia com que ele critica! A profundidade do seu estudo da sociedade do seu tempo! Tenho rido com ele. E tenho pensado”.
         E estamos certos que com Molière riram os muitos assistentes que na sede da SIT quase, quase enchiam o salão de espectáculos, numa noite em que o ingresso era livre, tal como o riso que os amadores de Tavarede souberam extrair de um texto, a que somaram a postura natural própria, ou só própria, daqueles que sentem Molière.

         Mas Molière não faz apenas rir (o que já era suficientemente saudável), mas também provoca a reflexão. A reflexão sobre acto de viver, nas suas mais contrastantes situações, o repensar de atitudes no diálogo quotidiano que o Homem trava com o Homem.

          E “O Avarento”, peça em 5 actos, é (pode ser) o espelhar do que antes afirmámos, e embora ela decorra no século XVII, nem por isso o dia a dia... dos nossos dias evita o encontrar de posições similares. É tudo uma questão imaginativa.
         Antes da representação subiu ao palco o Dr. Pedrosa Russo, presidente do Lions, um clube de serviço que tanto tem feito, com as suas Jornadas de Teatro Amador, para o agarrar do Teatro. Com ele a Drª Ana Maria Caetano, ilustre e dedicada continuadora da linha teatral da SIT.
         Ambos falaram de Teatro, Teatro que é esperança, que é sonho, que é mentira, que é necessidade; Teatro que desperta a solidariedade, que confere dignidade  e combate ao racismo.
         Teatro que também é um modo de estar na vida.
         Teatro de que Coimbra vai ser capital, mas que bom seria, foi afirmado, não esquecer o restante distrito, não esquecer, acrescentamos nós. Tavarede.

         Na sessão solene comemorativa do 81º aniversário, o Grupo também recordou a prestou homenagem a um outro tavaredense, que havia prestado grande dedicação e colaboração à colectividade. Desde o passado dia 26 de Julho que o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense tem vindo a comemorar o seu 81º aniversário, tendo, desde aquela data, concretizado várias iniciativas que passaram, por exemplo, de um concurso de pesca e um rally paper, hoje tão em uso.
         Mas dentro do programa comemorativo julgamos que o passado domingo terá vivido o momento mais nobre e de maior significado, ultrapassando bem o âmbito do Clube, para se alargar a toda a freguesia. Focamos particularmente a sessão solene realizada na moderna colectividade e durante a qual antigos elementos da prestigiada e saudosa orquestra Lúcia-Lima (os menos novos bem se lembram dela), prestaram homenagem à memória de José Medina, nos 50 anos da fundação daquele conjunto musical.
         A reunião foi presidida pelo vereador Carlos Gonçalves e em palco tomaram lugar, além do presidente da Junta de Freguesia de Tavarede e do Padre Matos, vários outros convidados.
         Executado o hino da colectividade e lido o expediente, o presidente do Grupo entregou lembranças e placas a vários amigos e filiados da associação, recebendo diplomas de sócios honorários José Joaquim Soares, António Maurício e Joaquim Gaspar.
         Como é normal nestas sessões de aniversário várias foram as pessoas convidadas a usar da palavra, não tendo esta fugido à regra.
         Recordamos Sérgio Gouveia, da Grão a Grão, Fernando Serra, em nome das colectividades presentes, Albarino Maia, de “O Figueirense”, o Padre Matos, sacerdote da freguesia... até que a intervenção emocionada de António Simões, presidente da Junta, se entrou no momento supremo da homenagem.
         Depois de reafirmar a sua confiança no futuro do Grupo, saudou os novos dirigentes, lembrando que o próximo grande passo irá ser o alargamento da sede, tendo agradecido a ajuda recebida da Câmara.
         Após oferecer a sua colaboração como presidente da Junta, teve palavras simpáticas para com os muitos músicos presentes que “voluntariamente estão a colaborar”.
         Depois António Simões Baltazar evocou a Tuna e o Lúcia-Lima Jazz, ambos fundados por Mestre José Nunes Medina, dando de ambos os agrupamentos uma preciosa imagem e do que representaram para Tavarede na sua vida cultural durante algumas dezenas de anos.
         Uma filha de José Medina foi então convidada a descerrar uma fotografia do homenageado, cerimónia que terá levado lágrimas aos olhos de muitos dos mais velhos, em especial daqueles que conviveram com Mestre José Medina.
         Em nome da família Medina agradeceu um sobrinho de José Medina que lembrou um pouco a Tavarede do seu “tempo” e a sua intensa vida cultural, na qual seu tio desempenhou uma acção de relevo.
         A sessão solene terminou com a feliz intervenção do vereador Carlos Gonçalves que após se congratular com os vários actos vividos naquela tarde, colocou à assembleia alguns pontos de reflexão sobre o futuro do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, prometendo o nunca negado apoio camarário.

         Novas comemorações do Dia Mundial do Teatro. O grupo tavaredense esteve presente. E Tavarede não esqueceu que 27 de Março é o Dia Mundial do Teatro, efeméride que no nosso concelho, e ao que até neste momento sabemos, apenas foi assinalada, com uma representação, na catedral do Teatro Amador, vulgo Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Mas a primeira nota agradável desta noite de Teatro talvez se possa situar na feliz circunstância da sala da SIT haver esgotado a sua capacidade de acolhimento, com alguns dos espectadores, de pé, nos corredores laterais da plateia, numa demonstração de que o Teatro tavaredense continua bem vivo, de que José Ribeiro também foi mestre na arte de cultivar continuadores, como confirmado ficou pela qualidade de encenação e representação da peça apresentada.
         Mas antes que o pano subisse, a presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense, drª Ilda Manuela Simões, surgiu em palco para explicar a razão daquela noite de Teatro, dedicada acima de tudo aos amadores dos diversos grupos cénicos do concelho, que haviam aceite o convite para estarem presentes.
         A drª Ilda Manuela relembrou também João José da Costa, um presidente da Câmara (1862/1863 e 1864/65) que havia procedido à remodelação da Casa do Terreiro (local onde nos encontramos, disse), fazendo dela uma sala para Teatro.
         Mas hoje a SIT, embora lutando com dificuldades naturalmente económicas (e daí o seu apelo à Câmara e à Secretaria de Estado da Cultura) continua a representar, pois tem gente, quer “não visível”, que para além da cena tudo executa para que aconteça Teatro, quer gente que no palco “dá a cara”, para posteriormente chamar Jorge Monteiro de Sousa, um homem que faz mexer os cenários desde há longos anos, e João Medina, um amador que há 45 anos serve o Teatro.
         Ambos foram homenageados, tanto pela SIT, como pela assistência que lhes rendeu fortes aplausos. Eles simbolizam bem o espírito do Teatro Amador Tavaredense. 
         Contudo os momentos altos deste serão cultural na Sociedade de Instrução Tavaredense não se quedaram por aqui, antes que “Tamar” pisasse as tábuas.
         A drª Ana Maria, responsável pelas actividades cénicas da SIT, leu a mensagem, momentos antes recebida via fax (?!), referente ao Dia Mundial do Teatro.
         E ao proscénio seria ainda chamado o dr. António Gomes Marques, da Secretaria de Estado da Cultura, um homem a Tavarede ligado por elos afectivos e familiares, e de Teatro desde há muito amador.
         Com arte no gesto e com dom no lançar da palavra, o orador ofereceu à atenta plateia uma ponderada e pedagógica motivação para que sobre o próprio Teatro se reflectisse, advogando com alma e com razão um movimento que leve a que o Teatro seja uma realidade na Escola.
         E se, como transcreveu, “para fazer Teatro basta a matéria humana”, à Sociedade de Instrução Tavaredense ainda falta para continuar a pontuar como santuário concelhio (só concelhio?) do Teatro, dado que “a matéria humana”, muita dela novata nestas andanças, se definiu, na peça de Alfredo Cortez, como de primeira água, digna continuadora da escola de José Ribeiro.

         “Tamar” é a representação que a SIT vai levar às Jornadas de Teatro Amador; “Tamar” é a peça que o público concelhio amador do Teatro não pode deixar de aplaudir, caso não queira cometer um pecado cultural.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Histórias e Lendas- 19

O jantar do Deão


         Dom Manuel, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves , daquem e dalém mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. A quantos virem esta nossa carta de foral dado ao termo e lugar de Tavarede virem, etc.
Jantar ou colheita: O Deão da Sé de Coimbra, visitando uma vez no ano o dito lugar, receberá dos moradores de Tavarede para o seru jantar, 180 reais de 6 ceitias o real, e das heranças da Chã e de Cabanas. 2 carneiros, 2 cabritps, 6 almudes de vinho, 10 galinhas, um quarteiro de cevada pela medida de Coimbra, 100 pães, 5 soldos em dinheiro para temperos, meio alqueire de manteiga fresca e lenha e vinagre que abonde para se poder cozinhar as ditas cousas na cozinha do Deão. – Cumpra-se. (Chá de Limonete – 1º acto)
         Esta folarenga obrigação nem sempre foi cumprida.  Foi o que sucedeu no ano de 1536. O cabido das Sé de Coimbra mandou três cónegos seus, Francisco Monteiro, Henrique de Sá e Jerónimo Salvador, ao Couto de Tavarede para recolherem a colheita e o jantar imposto pelo foral que, em Maio de 1516, o rei D. Manuel dera à nossa terra.
         Os juizes e os oficiais da Câmara tavaredense entenderam não pagar o treibuto referido, pois “não podiam pagar ao dito Cabido a dita colheita e jantar, que lhes era pedido, pelo dito concelho ter no foral o contrário”. Alegaram que o aludido foral referia expressamente que aquele tributo era devido ao Deão e não ao Cabido.
         Este, sentindo-se lesado nos seus direitos, recorreu ao rei.
         Dom João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, Daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e India. A vós, juízes do Couto de Tavarede, jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra e a todos os outros juízes e justiças, oficiais e pessoas dos meus reinos e senhorios a quem esta minha carta de sentença for mostrada e ao conhecimento dela por qualquer guiza que seja pertencer, saúde.
            Faço-vos saber que perante mim, nesta minha Corte, e Casa de Suplicação e os juízes dos meus feitos, nela, foi apresentado um instrumento de agravo que diante vós tirou o Cabido, Dignidades e Cónegos da dita Sé, aos oito dias do mês de Julho do presente ano de mil quinhentos e trinta e seis, no qual se continha, entre outras muitas coisas em ele contidas, que os ditos suplicantes vieram com um requerimento por escrito, a vós ditos juízes, dizendo nele que o dito Couto era obrigado pagar de colheita e jantar ao dito Cabido, e seu certo recado para os visitar, e lhes administrar justiça por serem seus vassalos, e sujeitos a toda a jurisdição cível ser sua, e sendo visitadosem cada um ano até ao S. João de cada um ano e então eram as colheitas seguintes, a saber: dos moradores do dito lugar de Tavarede sem os do termo, pagavam pelos seus livros dos direitos dos direitos alfandegários, seiscentos e oitenta reis da moeda ora corrente, e mais pelas heranças do lugar da Chã e casais de cada um, dois carneiros e dois cabritos, e seis almudes de vinho da medida corrente, e dez galinhas e um quarteiro de cevada pela medida corrente de Coimbra, e mais cem pães ou por cada pão dois reis da sobredita moeda ora corrente, cinco reis para especiarias e por elas cinco reis da dita moeda ora corrente, e meio alqueire de manteiga e outras coisas e vinagre que baste para as ditas coisas se cozinharem, a qual colheita ou jantar vós juízes e oficiais em cada um ano fintáveis pelo concelho e povo dele, segundo acima ficava declarado, e era tão antigo que não havia memória dos homens em contrário e o preço era notório dever-se, e que assim o tinham  por leis na sua Câmara e ora findo como foram em nome do Cabido, Francisco Monteiro e Henrique de Sá e Jerónimo Salvado, cónegos, a visitar o dito Couto antes do S. João, este  de quinhentos e trinta e seis, em o primeiro dia de Junho da citada era, e visitando e provindo em tudo o que era necessário, os ditos juízes e oficiais punham dúvida a pagarem e lhe darem a dita colheita e não eram obrigados, pelo que vos requeria lhes desseis e pagasseis a dita colheita e o jantar deste ano de quinhentos e trinta e seis, como em cima era declarado.
         Mandada fazer a necessária inquirição tespondeu o juiz e vereadores e procurador do dito Couto, dizendo em sua resposta que a colheita ou jantar que em seu requerimento dizia, que era devido ao Cabido da dita Sé o dito seu Couto de Tavarede em cada um ano, e que requeriam que o desse ao dito Cabido o ano presente de trinta e seis, por dizer que Francisco Monteiro, Henrique de Sá e Jerónimo Salvado,  cónegos dessa Sé, foram visitar o dito Couto, agora em o primeiro dia de Julho do presente ano, diziam eles juiz e oficiais que eles não podiam mandar pagar ao dito Cabido a dita colheita e jantar, que lhes era pedido pelo dito concelho de Tavarede ter no foral o contrário.
            A saber: dava o dito foral que indo o Deão da dita Sé pessoalmente visitar uma vez no ano o dito concelho de Tavarede, os moradores do dito lugar lhe pagassem a ele Deão a dita colheita e jantar, e pelo dito foral assim o mandar expressamente sem nenhuma limitação, sempre de tempo imemorial que eles oficiais se acordavam, e demais sempre a dita colheita e jantares se dera e pagara ao Deão que era da dita Sé e se pagavam agora a João Rodrigues Ribeiro, Daião agora na dita Sé, o qual em cada um ano pessoalmente a vencia e se lha pagava sem nunca os do Cabido tal colheita nem jantar pedirem senão agora, se eles do Cabido tinham alguma provisão minha em que mandasse que lhe fosse pago sem embargo do foral, que lhe mostrasse e lha guardariam e cumpririam em tudo, porque o que diziam em seu regimento não bastava para lhe ser dado o que pediam, pelo dito foral ser em contrário, do qual requeriam ao tabelião que no instrumento que lhe havia de passar, tresladasse em ele as verbas do dito foral que no dito caso falavam, porque eles não punham em Câmara outra lei por onde se regiam acerca dele somente estas verbas que apontavam no dito instrumento eram tresladadas, e sem isto os do dito Cabido se quisessem instrumento de agravo que pediam que lhe fosse dado e contestavam  de ‘trepicat’ se  cumprisse segundo que tudo istyo mais cumpridamente era conteudo na dita resposta, que os juizes e vereadores e procurador responderam ao dito requerimento, ao qual outrossim respondeu o Deão, dizendo em sua resposta que era verdade, que ele como Deão estava em posse, por dez, trinta, cinquenta, cem anos a esta parte, e por tanto tempo que a memória dos homens não era em contrário e se nisso houvesse dúvida, daria testemunhas no concelho e fora dele, se por si e pelos Daiões antepassados e antecessores deverem em cada um ano, por irem visitar o dito Couto de Tavarede o jantar que ora o dito Cabido dizia, e pedia o qual jantar não indo ele em pessoa se não devia dar a pessoa alguma outra do Cabido, e ficava no concelho, como a todo era notório e muitas vezes ficara em tempo dele Deão, e seus antecessores e a si como Deão tinha aí o dito jantar e assim o tinham outros muitos jantares em outros muitos lugares em que o Cabido não tinha jurisdição e assim em outros em que a tinha.
         Como se vê, era entendimento dos juizes e vereadores de Câmara de Tavarede, que a colheita e jantar deveriam ser pagos pessoalmente ao Deão e não aos cónegos da Sé. Mas, apreciado superiormente o caso, o rei D. João III mandou emitir a seguinte sentença:
                        SENTENÇA – Acordei, vistos os requerimentos feitos pelo Cabido da Sé de Coimbra aos juizes e oficiais dos Coutos nestes instrumentos conteudos e as respostas dos ditos oficiais e assim as respostas do Deão, sentenças dadas sobre a jurisdição dos ditos Coutos e se mostra pelas ditas sentenças a jurisdição dos ditos Coutos ser julgada ao dito Cabido por respeito da   qual jurisdição, e visitação se dão jantares e colheitas nos Coutos da contenda, o que tudo visto com o mais que dos autos consta, declaro os ditos jantares e colheitas pertencerem ao dito Cabido e mando aos juizes e oficiais dos ditos Coutos, que lhe acudam e façam acudir com eles, segundo forma de suas doações, porque os ditos jantares e colheitas lhes são concedidos e esta declaração e sentença servirá a todos os Coutos nos ditos instrumentos conteudos, e porém os mando que assim cumpreis e guardeis e façais em tudo muito inteiramente cumprir e guardar como por mim é julgado, acordado, mandado e determinado. E mando que esta sentença se cumpra e guarde com efeito realmente assim é da maneira que em ela é conteudo, e porquanto o Cabido pagou parte do Deão cento e sessenta e sete reis, vos mando que requereis que os pague, e se pagar não quiser, o fareis penhorar em tantos dos seus bens móveis e de raíz e lhos fareis vender e rematar aos termos conteudos em minhas ordenações, em maneira que o dito Cabido haja pagamento dos ditos cento sessenta e sete reis, o que assim cumprir  e ao não façais.
            Dada em minha cidade de Évora, onze dias do mês  de Agosto. El-Rei o mandou pelo licenciado Álvaro Martins, do seu desembargo e juiz de seus feitos em sua Corte e Casa de Suplicação. Francisco Pires a fez e Afonso Fernandes de Toar escrivão. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e trinta e seis.
         O caso ficou resolvido, podendo o cabido mandar receber a referida colheita e jantar por cónegos seus.


Um Homem -        E p’ra que o jantar seja um jantarão
                              Vem um quarteiro farto de cevada. (bis o coro)

Deão -                  Abençoo, comovido,
                             Este nbm povo que timbra (bis os dois cónegos)
                              No respeito que é devido
                              Ao Cabido de Coimbra.
                               Eu vos recebo o jantar,
                               Que é apenas um farnel... (bis os dois cónegos)
                                Conforme manda o foral
                                do Senhor Rei D. Manuel.

Coro -                       A nossa foralenga obrigação
                                  Aí fica cumprida com respeito.
                                   Que o jantarinho faça ao bom Deão
                                    E a todo o Cabido - bom proveito!
                                    Bom proveito!
                                    Bom proveito!

 (versos Chá de Limonete)      


                              Chá de Limonete - Cena de 'A Doação de Tavarede à Sé de Coimbra'