sexta-feira, 6 de março de 2015

Histórias e Lendas - 23

Sua pregação, seus escritos e a presença contemporânea de sua obra

Entre suas várias qualidades, chamou a atenção de seus contemporâneos seu admirável dom como pregador. Muitas descrições de época referem o fascínio que sua fala exercia sobre as multidões de pessoas simples e também sobre clérigos doutos, e embora o efeito de sua oração a viva voz não possa mais ser recuperado, seu estilo e os conteúdos que abordava podem ser conhecidos em parte através dos 77 sermões que sobreviveram e constam em sua obra publicada em edição crítica, Sermões Dominicais e Festivos, e que são considerados autênticos, conforme disse José Geraldo Freire. São textos eloquentes, persuasivos, cheios de zelo messiânico, sendo frequentes a defesa do pobre e a reprimenda do rico, e o combate às heresias de seu tempo, como as dos albigenses evaldenses, com uma eficácia tanta que lhe foi dado o apelido de malleus hereticorum (o martelo dos heréticos).
Embora a tradição atribua seu dom à inspiração divina, não é possível deixar de considerar o importante papel que sua formação erudita desempenhou neste aspecto de sua vida e obra. A análise das referências que fez em seus escritos, junto com o levantamento das fontes literárias presentes em seu tempo nas bibliotecas que frequentou, especialmente a de Santa Cruz, atestam sem sombra para dúvidas que sua preparação intelectual foi ampla e profunda. Além de um conhecimento detalhado da Bíblia, dos escritos dos Padres da Igreja e outros escritores cristãos, são encontradas citações de clássicos omo Aristóteles, Cícero,Catão, Sócrates, Dioscórides, Donato, Eliano, Escribónio, Euquério  de Lião, Festo Solino, Filão de Alexandria, Tibulo, Sérvio, Públio Siro, Juvenal, Plínio, o Velho,Varrão, Sêneca, Flávio Josefo, Horácio, Ovídio, Lucano e Terêncio. Seu conhecimento das ciências naturais ultrapassa em muito o currículo regular das artes liberais medievais, aprofundando-se em áreas como a medicina, a física, a história natural, a cosmografia, mineralogia, zoologia, botânica, astronomia e óptica. Nas palavras de José Antunes,
"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da Literatura e da História. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos Autores Clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça".
Naturalmente, era fiel à ortodoxia cristã. Apesar de sua extensa cultura profana, considerava a Escritura sagrada a fonte da ciência superior, da verdadeira ciência, da qual todas as outras eram meras servas e simples coadjutoras no trabalho da Salvação. Por isso deu grande importância a uma boa exegese do texto sagrado, privilegiando a extração do seu sentido moral. Nota-se ainda em sua obra alguns dos primeiros sinais de um progressivo abandono do pensamento medieval, que apresentava o homem e o mundo como desprezíveis e fontes do pecado, abrindo-se a uma apreciação mais positiva da vida concreta e do relacionamento humano, entendendo o ser humano como uma maravilhosa obra divina. Na análise de Pedro Calafate,
"Santo António não olvidará a excelência da contemplação, mas sublinhará não obstante a circunstância terrena do homem como corpo e alma, sem deixar de considerar que a abertura à exterioridade não transforma o amor aos outros e às criaturas no apego à posse das coisas, estando neste caso o culto da pobreza, nomeadamente as críticas severas que dirigiu aos prelados e dignatários eclesiásticos, por se comprazerem nos luxos do século. Tratando-se de uma espiritualidade que não olvidou a dimensão prática e vivencial, equacionou também a relação entre a ação e a contemplação no quadro da mística. Filha da vontade e do amor, numa alienatio mentis que supera o plano estritamente racional para que a alma, inteiramente conduzida pela graça, contemple Deus como em espelho ou em enigma, a mística tampouco representará uma renúncia à vida ativa, nem às exigências da vertente racional do homem, porque a alma volta e regressa à vida ativa para a realizar com maior perfeição, numa confluência entre o entender e o contemplar, o saber e a sabedoria".
Contudo, é de dizer que na forma como chegaram, os ditos sermões são antes um manual didático para os noviços do que transcrições de sermões verdadeiramente proferidos. Foram produzidos para seus alunos, para instruí-los na arte predicatória, a fim de que depois eles pudessem converter com sucesso os pecadores e infiéis à fé cristã. Apesar disso, eles possuem em seu conjunto pouca ordem sistemática.
Os sermões são ainda um precioso documento de época, muitas vezes fazendo alusões às transformações sociais e económicas que ocorriam durante aquele período, atestando o crescimento das cidades, o florescimento das atividades artesanais e do comércio, o surgimento das corporações de ofícios, as diferenças de classes. Além dos conteúdos sacros, que ainda preservam seu caráter inspirador, tais alusões - onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social - são responsáveis pelo valor perene e atual de seus escritos, sendo passíveis de imediata identificação com muitas circunstâncias e contradições da vida contemporânea.

Tradição taumatúrgica

 

Diz a tradição que em sua curta vida operou muitos milagres, como seguem alguns exemplos.
·         Certa feita, meditando à beira-mar sobre a frequente aparição da imagem do peixe nas Escrituras, os peixes ter-se-iam reunido a seus pés para escutá-lo.
·         Teria restaurado um campo de trigo maduro para colheita que fora estropiado por uma multidão que o seguia; teria protegido milagrosamente seus ouvintes da chuva que caía durante um sermão, e uma mulher impedida pelo marido de ir ouvi-lo pôde escutar suas palavras a quilómetros de distância.
·         Quando em disputa com um herege albigense sobre a presença ou não do Deus vivo na hóstia consagrada, o herege, chamado Bonvillo, disse que se uma mula, tendo passado três dias sem comer, honrasse uma hóstia em detrimento de uma ração de aveia, ele acreditaria no santo. Segundo a história, assim que a mula foi liberta de seu cercado, faminta, desviou-se da ração e ajoelhou-se diante da hóstia que António lhe mostrava.
·         Restaurou o pé amputado de um jovem.
·         Soprou na boca de um noviço para expulsar as tentações que sofria, confirmando-o em sua vocação.
·         Quando alguns hereges colocaram veneno em sua comida para verificar sua santidade, o santo fez o sinal da cruz sobre o alimento, comeu-o e nada sofreu, para o vexame dos seus tentadores.
·         Outro milagre famoso trata-se da aparição do Menino Jesus ao santo durante uma de suas orações, uma cena multiplicada abundantemente em sua iconografia.

Também é bastante citado um milagre ocorrido durante sua pregação num consistório diante do papa, inúmeros cardeais e clérigos, e gentes de várias nações, quando, discorrendo com sutilíssimo discernimento sobre intrincadas questões teológicas, cada um dos presentes teria ouvido a pregação na sua própria língua materna. Na ocasião, diante de tão assombroso fenómeno, que parecia uma reedição do Pentecostes bíblico, o papa o teria chamado de "a arca do Testamento, o arsenal da Sagrada Escritura".

O Associativismo na Terra do Limonete - 118

        É ocasião de nos debruçarmos um pouco sobre o Clube do Saltadouro, que no dia 14 de Março de 1999, comemorou mais um aniversário da sua fundação. Revendo-se na obra erguida a pulso de bairrismo, onde esforço, sofrimento, muita carolice e uma indómita determinação serviram de argamassa à realidade que hoje (14 de Março) serviu de ponto de encontro às muitas pessoas que quiseram associar-se ao júbilo da 1ª sessão solene, realizada em casa própria, do Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro, Fernando Serra, à frente de um grupo de companheiros de aventura que acreditaram ser possível pôr Saltadouro (Tavarede) no mapa das colectividades concelhias, era bem a imagem de um homem feliz.
         É que, após aquela longamente dolorosa e incompreendida odisseia de 20 anos de “barraca clandestina” era reconfortante poder-se gozar a dignidade de um edifício que, apesar de inacabado, lhes permitia, pela primeira vez, comemorar condignamente o 20º aniversário daquele sonho de 11-03-1979.
         E com Fernando Serra a saudar os que tornaram possível a obra e a lembrar, emocionado, os que tombaram na caminhada – Albarino Maia ali tinha a cadeira vazia e Adelaide Oliveira o agradecimento pela sua doação à causa – se iniciou esta histórica sessão solene com Padre Matos a dar o abraço de felicitações pelo “dever cumprido” e a exaltar este salutar exemplo de convivência reforçado na vontade de servir.
         Também Sérgio Gouveia, servindo-se de Fernando Pessoa para realçar a lição de sacrifício dada por esta gente “que terá de ser compensada e retroactivos” pela grandeza desta obra que não poderá ser ignorada.
         Era uma vez 16 amigos que sonharam num clube para o Saltadouro. Dumas tábuas fizeram uma barraquinha e... na clandestinidade dessa iguaria se atreveram a entrar no atletismo com... camisolas ali confeccionadas; unidos pela “sueca” e “matraquilhos” aventuraram-se a uma... marchinha... a “ginástica”... juntaram boas-vontades para uma escola de música... outra para lutar contra o analfabetismo, numa ambição de crescer copiada da rã que queria ser tão grande como o i... que, aqui, não estoirou.
         Conseguiram terreno... mãos para abrir alicerces, erguer paredes tijolo a tijolo, regados com o suor dos rostos em sábados e domingos negados ao descanso até que a miragem dum telhado – 1600 contos – se atravessou no sonho, com a Câmara a não acreditar na determinação daquela clandestinidade que pela primeira vez erguia a mão a um subsidio.
         Só que tal sonho já estava tão enraizado que não havia obstáculo que pudesse cortar-lhe as raízes e à custa das “migalhas” do Rancho e o bater à porta de todos os vizinhos o tecto apareceu e a obra saiu do anonimato. Para hoje deixar o recado a todos aqueles que a podem ver com os próprios olhos.
         Aconteceu “milagre”, disse Fernando Serra.
         E foi orador oficial da sessão, Lídio Lopes, a voz que veio enaltecer o exemplo deste punhado de gente que tão bem soube mostrar quanto pode o bairrismo.
         Empregando uma metáfora para explicar a determinação dos responsáveis pela obra, Lídio Lopes diria mesmo que “haja quem lhes proporcione as sapatilhas e a pista para correr” e deixem o resto com eles numa alusão muito merecida ao facto de terem contado mais consigo que com a caça a subsídios, prática corrente dos nossos dias, tecla igualmente tocada por Simões Baltazar, o Presidente da Junta de Tavarede, que pôs os seus préstimos à disposição e Alice Mano que viu “na luz de esperança que todos traziam nos olhos o futuro risonho que a obra merece”.
         Miguel Almeida, o vereador vindo da Câmara, não foi insensível à obra realizada e na hora de intervir não frustrou as expectativas: saudou a determinação daquela gente, reconheceu o alcance da obra feita e prometeu ajuda para a Escola de Música, Rancho Etnográfico – hoje já embaixador da Figueira – e até uma Extensão Educativa.
         E porque a obra merece ser concluída para dar satisfação ao sonho, ali mesmo entregou 1500 contos com a promessa de que no próximo orçamento a obra não será esquecida, gestos saudados com grandes provas de regozijo, com direito a hino do Clube, pela primeira vez tocado/cantado pela Tuna de Tavarede que animou toda a sessão.
         E com a actuação (muito aplaudida) do “Rancho Etnográfico Cavadores do Saltadouro” e exibição duma classe de ginástica de Caceira se encerrou a histórica sessão solene, assinalada com foguetes e um grande lanche a todos os presentes.
         Valeu a pena tanto esforço!
         Viva o Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro!

         E ainda recordaremos as comemorações do segundo centenário de Garrett, para transcrever um breve apontamento sobre o espectáculo. No Teatro Taborda de Brenha, uma sala de grandes tradições, teve lugar, em 21 de Maio, no âmbito das XXII Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, a representação a peça “Na Presença de Garrett” pela Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Com a casa à cunha para poder apreciar essa arte reconhecida saída da escola de Mestre José Ribeiro, há que dizer que a expectativa não saiu defraudada, escrevendo-se naquele palco uma das páginas mais brilhantes das jornadas com a apresentação da peça com que Tavarede havia assinalado o bicentenário de Almeida Garrett, esse vulto do teatro português.
         E a primeira palavra, de muito apreço, vai para a sensibilidade artística que presidiu à escolha dos fragmentos das obras de Garrett – Viagens na minha terra; Fala verdade a mentir; O Arco de Sant’Ana; Folhas Caídas; Romanceiro e Frei Luís de Sousa – bem como na metodologia que serviu de fio condutor à sequência dos “quadros” que deram corpo à peça e deixaram na assistência uma visão da vida e obra de Almeida Garrett, trabalho meritório da responsabilidade de Ilda Manuela Simões a quem ficou a dever-se, igualmente, o enquadramento oportuno daquele desfiar de referências e no papel, determinante, de apresentadora/entrevistadora de Garrett.
         Outra distinção, igualmente, para o trabalho de direcção de palco pela forma profissional como se operaram as  mudanças de cena sem baixar o pano, aspecto de grande reflexo no êxito do espectáculo e que, só por si, define o alto nível do grupo.

        Na presença de Garrett (a que João José Silva emprestou aprumo e diálogo com a naturalidade e arte trazidas de muitos papéis) se passaram muitas situações a que deram vida artistas de créditos firmados, casos de Joaninha e da avó – uma cega cuidada ao pormenor do gesto -, o duplo de Garrett – José Medina, outra relíquia da escola de Tavarede – entre outros que com tanta arte completaram o ramo, naquela lição, ao vivo, de história onde o liberalismo de que Garrett foi percursor e por onde passaram José da Silva Ribeiro como referencial de Tavarede nesse movimento de esperança tão bem expresso naquele “E quem choramos nós” bem marcante na estátua de Manuel Fernandes Tomás com que a Figueira assinalou a sua vocação liberal ainda hoje actuante
         Escolhida para remate do espectáculo a obra mais representativa de Garrett, “Frei Luís de Sousa” foi devolvida à cena trinta e tal anos depois de em Tavarede ter obtido assinalável êxito; “exigida” por um espectador muito especial – outra relíquia da SIT, João Medina – que voltou a assumir o dramatismo de Telmo Pais naquela carga pesadíssima de emoção em que José Medina desempenhou com um realismo admirável o papel-chave de Manuel de Sousa Coutinho a que Maria Clementina (uma Madalena de nervos de aço) emprestou comoção entre uma Maria (Ana Filipa Paz Mendes) dimensionada à medida da tragédia, e a que Rogério Neves (um Frei Jorge à altura das circunstâncias) se juntou o dramatismo do Romeiro (José Luís do Nascimento) e a benção do Prior (José Silva).
         E porque a SIT é uma escola, lá estiveram alguns jovens a provar que o teatro tem... futuro.
         Para as jornadas ficou esta lição de bem representar e a certeza de que Tavarede continua a ter cátedra no Teatro Amador do Concelho e um exemplo a nível nacional.
         E, também, que esta feliz iniciativa do Lions Clube da Figueira não pode acabar!

         O Coral Lúcia Lima, parte integrante do Grupo Musical e que havia sido fundado tempos antes, deslocou-se a um festival em Arouca. Actuaram neste encontro: Coral Lúcia-Lima (Tavarede); Coral de S. Pedro de Aradas (Aveiro); Grupo Coral Alia Bravis (Cartaxo); e Orfeão de Arouca. 

O Coral Lúcia-Lima, actualmente com 20 elementos, interpreta sobretudo temas de música coral e popular, estando neste momento a reunir canções antigas da região da Figueira da Foz e as zonas do Mondego. É seu dirigente o
Professor Pedro Luiz Antunes.
A actuação da Tuna esteve cingida às seguintes interpretações: “Canção da Barquinha”, “As Velas Soltas”,”Coro das Maçadeiras”, “Deito Fora” e “Canção da Figueira”.

         Instantes de Teatro foi o espectáculo preparado para o aniversário da Sociedade de Instrução do ano 2000. Momentos de vidas passadas e presentes, testemunhos da dedicação que os tavaredenses têm pela terra onde nasceram e pelos homens que fizeram a sua história” foram a tónica da representação com que a Sociedade de Instrução Tavaredense encerrou as comemorações do 96º aniversário da colectividade.
         Escrevendo no palco (de tão ricas tradições) Gratidão, Homenagem e Dedicação num arranjo teatral denominado “Instantes de Teatro” que teve o condão de repor em cena muitos dos êxitos que contribuíram para o brilhante historial da Sociedade de Instrução Tavaredense, o grupo cénico soube estar à altura das responsabilidades com mais uma “peça” de magnífica concepção e actuações de grande brilho.
         Assumindo o risco enorme que era trazer a palco essa relíquia histórica que era “O Pranto de Maria Parda” a que a saudosa Violinda Medina emprestara uma realidade tão vicentina que arrancara do espanto desse conceituado homem de teatro que foi o Dr. Paulo Quintela a expressão de que aquela “Maria Parda era a mais conseguida de todas a que assistira, mesmo a nível profissional”, esta nova Maria Parda, encarnada pela drª Ilda Simões, não envergonhou os pergaminhos.
         Também essa outra dedicação que é  João José Silva, na pele do Vaqueiro, veio provar que é um valor do nosso tempo, um óptimo continuador da escola de Mestre José Ribeiro.
         E o “histórico” João Medina, o sofrido velho “palácio”, chaga viva de Tavarede, outro compêndio da arte de bem representar.
         Peça onde a graça se casava com as desventuras da história, ressuscitando o “capador” de tempos idos num diálogo em que José Medina partilhava talento e graça com outra revelação que é Rogério Neves no desempenho do carreiro; com a maledicência da Doroteia e da Escolástica e um  bom reviver do trabalho do campo onde a enxada ainda é “ex-libris” bem perpetuado na estátua da nova Avenida e a “viúva do fogueteiro” uma critica bem conseguida.
         Tudo numa ambiência onde a música (gaita de foles) servia de fundo aos grupos dos jograis e danças e cantares,  num reviver de tradições só possível quando as raízes dessa escola de teatro continuam a constituir o solo fértil propício a que outros valores peguem de estaca.

         Terminamos este caderno no final do século vinte. Bem sabemos que muito mais haveria a recordar relativo ao associativismo na terra do limonete, muito em especial na vida associativa, recreativa e cultural de todas as colectividades da freguesia. Seria impossível fazê-lo nestes cadernos, pois torná-los-iam demasiado volumosos e maçadores. Procurámos dar a conhecer aquilo que mais de significativo e importante se verificou no decurso destes anos todos. Estamos convencidos de que algo se aproveitará destas recolhas. Ainda nos falta mais um caderno. Chegámos aos centenários de duas das nossas colectividades. Esperamos ter ainda a oportunidade de o fazer.

         E para acabar este caderno, ainda vamos copiar mais um apontamento sobre a SIT. Foi a 15 de Janeiro de 1904 que um grupo de homens, todos de humilde condição, assinou na Casa de Ourão, no Largo do Terreiro, a acta de fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT). Esta associação tinha como objectivo criar uma escola para ensino de sócios e seus filhos. Depois resolveram formar um grupo cénico com o fim de divertir e ao mesmo tempo obter receitas que permitissem manter a associação.
         O teatro foi desde logo tomado como actividade principal da SIT na continuação de uma tradição antiga dos tavaredenses. Já em 1896, na Gazeta da Figueira, Ernesto Fernandes Tomás nos fala de Tavarede e dos seus teatros; “as sociedades dramáticas vegetavam em Tavarede como tortulhos”.
         Logo após a formação da associação, começou a funcionar uma escola nocturna, gratuita, que manteve as suas portas abertas cerca de quarenta anos e que só desapareceu em 1942, por força da política vigente.
         Ao falar da história da SIT, ter-se-á de referir forçosamente o nome de João José Costa, pois foi ele que transformou o prédio onde os amadores de Tavarede representavam num excelente teatro. Mais tarde, João dos Santos, seu herdeiro, pôs à disposição da colectividade, sem receber qualquer renda, o prédio do Largo do Terreiro, a fim de nele ser instalada a sede da SIT. Em 26 de Dezembro de 1941, o edifício é vendido à colectividade por Arménio Santos, filho do anterior proprietário.
         Os anos foram passando e a SIT foi crescendo, sendo preciso ampliar e remodelar as suas instalações. Foi a ajuda da Fundação Gulbenkian e de muitos amigos da casa que permitiram que em 8 de Maio de 1965 se inaugurasse o edifício onde ainda hoje se encontra a sede da SIT.
         A actividade desta colectividade tem sido intensa. Grandes dramaturgos ali têm sido representados. O grande dinamizador do teatro foi, sem sombra de dúvida, José da Silva Ribeiro, que dedicou à SIT e ao teatro toda a sua vida. José Ribeiro foi o mestre do grupo desde 1915 até 1984, ano da sua morte. Seguiram-se-lhe na direcção cénica João Oliveira Cordeiro mas, infelizmente, pouco tempo esteve à frente do grupo, devido a um acidente trágico que o vitimou. Depois foi a vez de Ana Maria Caetano.
         De momento, Ilda Manuela Simões é quem dirige a secção teatral com a ajuda e o empenhamento de todos aqueles que fazem um espectáculo.
         Os amadores de Tavarede continuam a ser fiéis ao espírito e aos ensinamentos de mestre José Ribeiro. Continua a ser sua intenção transmitir ao público um certo saber, mas também proporcionar a esse mesmo público o prazer de assistir a uma forma de arte, divertindo-se.
         Escola de formação teatral... urgente – Professora do ensino secundário, Ilda Simões nutre grande paixão pela arte de Talma. Algumas vicissitudes por que passou o teatro da SIT, levam esta amadora a assumir a direcção cénica do grupo, para além da encenação. Representar e esquematizar a montagem das peças nas suas várias vertentes, é outra das suas funções.
         Foi precisamente com Ilda Simões que O Figueirense quis fazer a radiografia do teatro que se vai fazendo em Tavarede.
         Como vai o teatro em Tavarede?
         O teatro caminha. Temos encontrado algumas pedras que nos fazem tropeçar de vez em quando, mas ainda não caímos e julgo que, neste momento, dada a enorme vontade de prosseguir que todos temos, já não iremos parar.
         Essas pedras de que fala referem-se exactamente a quê?
         A vários factores. A falta de jovens amadores é um dos problemas. Por vezes deparamos com situações complicadas, tendo de fazer até alterações às obras que queremos representar. A peça que temos em cena – O Pecado de João Agonia – constitui em desses exemplos. Eu precisava de um jovem de cerca de vinte anos e não o tinha, o que me levou a transformar esse jovem noutro de, digamos, quarenta anos.
         Mas também a inexistência de textos dramáticos actuais, a falta de formação em algumas áreas e a falta de dinheiro são outras tantas pedras.
         Qual a razão que a levou a encenar uma peça nunca antes vista nem representada em Tavarede?
         Uma das razões foi exactamente essa, nunca ter sido representada em Tavarede. Depois porque o tema é actual, interventivo. Embora a situação proposta por Santareno não fosse resolvida da mesma maneira, ainda há muita gente que afasta do seu convívio um homossexual.
         Como consegue conciliar a função de amadora (representar) e de encenadora?
         É bastante difícil. Contudo para dirigir este grupo de amadores, conto com a grande colaboração de João José Silva e de todos aqueles que querem dar a sua opinião. Ouço todos, mas não é um trabalho de que goste muito. Encenar é um desafio. Todo o processo criativo que se vai elaborando na minha mente à medida que leio e releio uma peça é algo que me fascina. Contudo, representar é aquilo que verdadeiramente eu gosto de fazer, estar em cima de um palco, vivendo outras vidas.
         Que projectos para o futuro?
         O Pecado de João Agonia continuará em cena até Setembro. Temos imensos pedidos para sair com esta peça, porém é impossível atender a todos. Não somos profissionais. Depois começaremos a ensaiar outra peça a estrear em Janeiro. À semelhança do que temos feito de há dois anos para cá, gostaríamos de ensaiar ainda outra peça em 2001, mas dado que em princípio iremos também fazer formação, não sabemos se será possível conciliar tudo.
         João Miguel Amorim: é necessário cativar os jovens – João Miguel, um jovem amador da SIT, é quase um veterano nestas andanças teatrais. Apesar dos seus 14 anos, pisou pela primeira vez o palco aos três anos de idade e nunca mais parou. Representa a quarta geração de amadores na família. Sua bisavó materna, Emília Monteiro, foi das primeiras amadoras da SIT; seus avós, João Pedro Amorim e Conceição Mota, ainda estão no activo e sua mãe também já pisou as tábuas do palco tavaredense.
         Frequenta o 8º ano de escolaridade. Os seus tempos livres divide-os entre o basquetebol e o teatro.
         João Miguel, apesar da sua juventude, tem ideias muito claras acerca do papel importante da cultura nos jovens: “Lamento que por vezes os jovens da minha idade não adiram às manifestações culturais, ou que venham para o teatro”.
         João Medina: o teatro na SIT está no bom caminho – João Medina é uma referência do teatro amador da SIT. Tem 68 anos de idade e representa desde os 16. Em 1999 foi alvo de várias homenagens que simbolizaram as suas bodas de ouro como amador teatral. Do seu currículo consta que já participou em mais de 60 peças.
         Sobre o que se vai representando tem ideias muito próprias: “Sem querer menosprezar o trabalho de ninguém, penso que a nível geral perdeu valor nos últimos 20 anos. Houve mudanças grandes na montagem das peças, nas adaptações dos originais, nos vários aspectos que envolve o teatro, contudo penso que antigamente existia mais representação e mais arte”.
         Como elemento mais antigo em actividade no grupo cénico da SIT, João Medina preconiza o futuro do teatro em Tavarede: “a SIT em minha opinião tem futuro assegurado. Talvez não tenha ainda atingido o valor que lhe foi imposto pelo saudoso mestre José Ribeiro, porém o que fazemos hoje em Tavarede não nos envergonha”.

         João Medina mostrou-se optimista: “é indispensável trazer a juventude ao teatro, assim como indispensável é a existência de escolas de formação, contudo não há melhor escola que o pisar das tábuas”.

                                                           José da Silva Ribeiro - Uma da últimas fotos suas

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Histórias e Lendas - 25

Santo António
O convento na Figueira


 


             No lugar onde o Mondego perde seu nome, sepultando suas correntes no abismo do oceano, fica o da Figueira na margem norte , em relação ao rio, à vista do qual, e a pouca distância, fica o convento de Santo António, cujo nome glorioso faz muito avultada a humildade de seus edifícios.
            O sítio, que pertence ao Couto de Tavarede e é jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra, é muito alegre e aprazível com a vista do mar e da terra. Os ares são frescos e saudáveis. O convento, cuja cerca é ampla e tem muitas árvores de fruto, é devoto de todos os povos vizinhos. É domicílio de religiosos, que ali servem a Deus com muita paz e sosego espiritual.

         Foi seu fundador o padre Frei António de Buarcos, natural deste lugar, no ano de 1527. A construção deste  convento teve o apoio do rei D. João III e de António Fernandes de Quadros, Senhor da Casa de Tavarede.

A Igreja de Santo António, também conhecida por Capela da Misericórdia, é o templo do antigo Convento de Santo An­tónio, fundado no ano de 1527, por Frei António de Buarcos.
Ao longo da sua existência multi-secular viveu a paz e a guerra, a abastança e a miséria, decorrentes da história da pátria. Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, o Con­vento entrou em decadência, vindo a ser adaptado a hospital, pela Misericórdia local (fundada em 1839), depois de impor­tantes obras que se prolongaram até 1886 e que lhe alteraram totalmente a traça primitiva.

Em 1982 foi, por sua vez, o velho Hospital da Misericór­dia adaptado a lar da terceira idade, o actual Lar de Santo António, conservando daquele apenas a fachada principal, neo-clássica, própria do século passado.
Pelo ambiente monacal que ainda conserva, pelas variadas e valiosas obras de arte que possui, pela antiguidade (o monu­mento mais antigo da Figueira da Foz), pela tradição que o envolve e pelo particular carinho que a população local devota ao seu Patrono, cuja evocação enche toda a Igreja, vale a pena visitar, com olhos de ver e de sentir, a Igreja de Santo António.

Como espaço religioso apenas resta a Igreja de Santo António, dado que todos os outros edifícios foram submetidos a outras funções. Anexa-se a esta edificação a Capela de S. Francisco, pertencente à Ordem Terceira, cuja construção se situa no início do séc. XIX.
 
Com a extinção, em 1834, das Ordens Religiosas, o Convento acabou por ser adaptado a hospital, sob a alçada da Santa Casa da Misericórdia, fundada em 1839, cujas obras acabaram por alterar totalmente a traça primitiva.
No ano de 1982, tendo o hospital sido transferido para edifício próprio construído na freguesia de S. Pedro (Gala), as instalações foram adaptasdas a lar para a terceira idade e sede da Misericórdia (Santa Casa). Lembremos, agora, quem foi Santo António.
Santo António nasceu em Lisboa em data incerta, numa casa, assim se pensa, próxima da , às portas da cidade, no local onde posteriormente se ergueu a igreja sob sua invocação. A tradição indica 15 de agosto de 1195, mas não há documento fidedigno que confirme esta data. Também foi proposto o ano de 1191, mas, segundo um seu biógrafo, o padre Fernando Lopes, as contradições em sua cronologia só se resolveriam se ele tivesse nascido em torno de 1188. Tampouco se sabe com certeza quem foram seus pais. Nenhuma das biografias primitivas os citam, e somente no século XIV, a partir de tradições orais, é que se começou a atribuir ao pai o nome de Martim ou Martinho de Bulhões, e à mãe, o de Maria Teresa Taveira. Fixando-se esses nomes na memória popular, e com a crescente fama do santo, não custou a biógrafos tardios atribuírem também aos seus pais uma dignidade superior. Do pai foi dito ser descendente do celebrado Godofredo de Bulhões, comandante da I Cruzada, e da mãe, que descendia de Fruela I, rei de Astúrias, mas tal parentesco nunca pôde ser comprovado. A forma de seu nome de batismo é igualmente obscura, pode ter sido Fernando Martins ou Fernando de Bulhões.
Fez os primeiros estudos na Igreja de Santa Maria Maior (hoje Sé de Lisboa), sob a direção dos cónegos da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho. Como era a prática da ordem, deve ter recebido instrução no currículo das artes liberais do trivium e do quadrivium, o que certamente plasmou seu caráter intelectual. Ingressando ainda um adolescente como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, iniciou os estudos para sua formação religiosa. A biblioteca de São Vicente de Fora era afamada pela sua rica coleção de manuscritos sobre as ciências naturais, em especial a medicina, o que pode explicar as constantes referências científicas em seus sermões.
Poucos anos depois pediu permissão para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a fim de aperfeiçoar sua formação e evitar distrações profanas, já que era constantemente visitado por amigos e parentes. Coimbra era na época o centro intelectual de Portugal, e ali se deve ter envolvido profundamente no estudo das Escrituras e nos textos dos Padres da Igreja. Nesta época entrou em contato com os primeiros missionários franciscanos, chegados em Portugal em 1217, e que estavam a caminho do Marrocos para evangelizar os mouros. Sua pregação do Evangelho no espírito de simplicidade, idealismo e fraternidade franciscana, e sua determinação missionária, devem ter tocado o sentimento de Fernando. Entretanto, uma impressão ainda mais forte ocorreu quando os corpos desses frades, mortos em sua missão, voltaram a Coimbra, onde foram honrados como mártires. Autorizado a juntar-se a outros franciscanos que tinham um eremitério nos Olivais, sob a invocação de Santo António do Deserto, mudou seu nome para António e iniciou sua própria missão em busca do martírio.

A sua missão


Por essa altura, decidiu deslocar-se ele também a Marrocos, mas, lá chegando, foi acometido por grave doença, sendo persuadido a retornar. Fê-lo desalentado, já que não havia proferido um único sermão, não convertera nenhum mouro, nem alcançara a glória do martírio pela fé. No regresso, uma forte tempestade arrastou o barco para as costas da Sicília, onde encontrou antigos companheiros. Ali se quedou até a primavera de 1221, dirigindo-se com eles então para Assis a fim de participarem do Capítulo da Ordem - o último que seria feito com a presença do fundador . Em Assis encontrou-se comSão Francisco de Assis e os seus primeiros seguidores, um evento de grande importância em sua carreira. Sendo designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, ali passou cerca de quinze meses em intensas meditações e árduas disciplinas.
Pouco depois aconteceu uma ordenação de frades em Forlì, quando deixou o isolamento e para lá se dirigiu. Até então os franciscanos não sabiam de sua sólida formação, mas faltando o pregador para a cerimónia, e não havendo nenhum frade preparado para tal, o provincial solicitou a António que falasse o que quer que o Espírito Santo o inspirasse. Protestou, mas obedeceu, e dissertando para os franciscanos e dominicanos lá reunidos de forma fluente e admirável, para a surpresa de todos, foi de imediato destinado pelo provincial à evangelização e difusão da doutrina pela Lombardia. Entretanto, a prática franciscana desencorajava o estudo erudito, mas em novembro de 1223 o papa Honório III sancionou a forma final da Regra da Ordem Franciscana, onde uma formação mais aprimorada se tornou autorizada, desde que submissa ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Recebendo a aprovação para a tarefa pastoral do próprio Francisco, fixou-se então em Bolonha, onde se dedicou ao ensino da teologia na universidade e à pregação. Deslocando-se em seguida para a França, ensinou nas universidades de Toulouse e Montpellier, passando também porLimoges.
Em 1226 assistiu ao Capítulo de Arles, e em outubro do mesmo ano, após a morte de Francisco, serviu como enviado da Ordem ao papa Gregório IX, para apresentar-lhe a Regra da Ordem. Em 1227 foi indicado ministro provincial da Romagna e passou os três anos seguintes pregando na região, incluindo Pádua, para audiências cada vez maiores. Nesse período colocou por escrito diversos sermões.
Participou do Capítulo Geral, em Assis, em 1230, onde também assistiu no translado dos restos mortais de São Francisco de Assis, da Igreja de São Jorge para a nova Basílica.
Nesse mesmo ano, de 1230, solicitou ao papa dispensa de suas funções como provincial para dedicar-se à pregação, reservando algum tempo para a contemplação e prece no mosteiro que havia fundado em Pádua.
Sempre trabalhando pelos necessitados, envolveu-se também em questões políticas, a exemplo de sua viagem a Verona para pedir a libertação de prisioneiros guelfos feitos pelo tirano gibelino Ezzelino, e em 1231 persuadiu a municipalidade de Pádua a elaborar uma lei que impedia a prisão por dívidas se houvesse a possibilidade de compensação de outras formas. 

Pouco depois da Páscoa de 1231 sentiu-se mal, declarou-se hidropisia e ele deixou Pádua para dirigir-se ao eremitério de Camposanpiero, nos arredores da cidade. Aí, há a versão que terá sido hospedado pelo conde Tiso, devido o estado de saúde precário, ou que seus companheiros ergueram-lhe uma cabana no alto de uma árvore, onde permaneceu alguns dias. Percebendo que a morte estava próxima, pediu para ser levado de volta a Pádua, mas apenas tendo alcançado o convento das clarissas de Arcella, subúrbio de Pádua, ali faleceu, em 13 de junho de 1231. As clarissas reclamaram seu corpo, mas a multidão acabou sabendo de seu passamento, tomou-o e o levou para ser sepultado na Igreja de Nossa Senhora. Sua fama de santidade era tamanha que foi canonizado logo no ano seguinte, em 30 de maio, pelo papa Gregório IX. Os seus restos mortais repousam desde 1263 na Basílica de Santo António de Pádua, construída em sua memória logo após sua canonização. Quando sua tumba foi aberta para iniciar o processo de translado, sua língua foi encontrada incorrupta, e São Boaventura, presente no ato, disse que o milagre era prova de que sua pregação era inspirada por Deus. E incorrupta está até hoje, em exposição na Capela das Relíquias da Basílica. Foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 16 de janeiro de 1946 e é comemorado no dia 13 de junho.

O Associativismo na Terra do Limonete - 117

         Certamente que Alves Redol, o escritor que tirava da “tragédia de vida” o enredo para as suas obras, se reveria na representação memorável de João Medina, o Pai que, tiranizado pela revolta duma prepotência cometida sobre os bens familiares, transportou para a sua nova família o estigma dessa afronta onde a esposa (outro excepcional desempenho de Ilda Simões) e os filhos não passavam de simples peças daquele xadrez de sobrevivência que nem a iminência de mortes fazia vergar.
         Com João José Silva e António Silva a incarnarem os papéis de filhos na oposição à visão doentia de pseudo-dignidade do pai, activamente, o primeiro, ao optar pelo “salto” à forja e mais passivamente, o segundo, ao resignar-se ao jugo da dureza do trabalho e do tratamento que já matara o irmão Miguel (representado com segurança por Miguel Lontro), também a Mãe soube mostrar quanto vale a razão e o direito ao defender o filho mais novo (promissora estreia de Pedro Louro) das garras daquela “forja assassina” para onde o pai o empurrava em detrimento da Escola.
         Com Manuela Mendes (vizinha) a mostrar naturalidade e a Morte (Rosa Paz) a desempenhar “condignamente” o papel de diabo, não há dúvida que merece o maior realce o trabalho de encenação (Ilda Simões) sem esquecer a quota-parte que tiveram no brilho do espectáculo José Maltez e Jorge Monteiro Sousa (montagem de cenários), Nuno Pinto e José Miguel Lontro (luz e som), Otília Cordeiro (ponto), João Pedro Monteiro (contra-regra) e o coro (Alice Mendes, Susana Neves, Cristina Almeida e Vanda Oliveira).
         “Cátedra” de tão grande lição, aquele “palco da vida” passou a mensagem esperançosa de Alves Redol na medida em que, ao exaltar com tanta realidade o dom da vida, não deixou de realçar o peso dum ambiente familiar onde o diálogo aberto constitui obstáculo à prepotência doentia de “forjas” humanas, mensagem que humedeceu os olhos e contraiu corações.
         Fazer calar tantas vocações seria um atentado ao nome prestigiado daquela casa, uma afronta à memória de José da Silva Ribeiro, um crime de lesa Cultura.
         Que ninguém deixe fechar “aquela forja” do nosso Teatro Amador!

         Havia uma velha tradição na nossa terra quer caíra no esquecimento. Um grupo de amadores teatrais da SIT resolveu, em boa hora, fazê-la reviver. Preservando uma tradição que se perde no tempo, Tavarede fez reviver, no último sábado, essa encenação pública de sabor satírico-popular que é a “Serra a Velha”.
         Iniciada por “sinistro” cortejo sob o comando do Juiz seguido de luzido (muitas tochas) séquito a que a musica fúnebre e muitos embuçados emprestavam um ambiente pesado através das ruas que levavam da SIT às ruínas do Paço, aí teve lugar a “prisão da Velha Malvada” que, após sumário exame (de grande comicidade brejeira), foi conduzida a tribunal (palco do Teatro da SIT).
         Ali, numa representação espectacular, a Velha Ana Castanha Pilada fez delirar a assistência com um diálogo de excelente interpretação cómico-satírica em defesa da sua “honra” ameaçada e condenada.
         Seguiu-se a apoteose da realização: Leitura do testamento da malvada em versos (repletos de humor), que contemplavam quase todos os habitantes de Tavarede, momento marcado por prolongadas e sonoras risadas que atingiram o rubro no acto da serração da ré, sentença para a sua “vida malvada”
         Mais uma tradição reposta com grande sabor popular e elevado nível de execução, razões mais que suficientes para um maior interesse das pessoas de fora de Tavarede.
         As nossas palmas para todos os que continuam a apostar na preservação das tradições, e para a Sociedade de Instrução Tavaredense, responsável pela iniciativa.

         Em Maio de 1998, a Sociedade de Instrução recebeu a visita do então ministro da Cultura. Manuel Maria Carrilho e comitiva foram recebidos pelos acordes da Tuna de Tavarede. Muitos populares associaram-se festivamente à visita do Ministro da Cultura e do Governador Civil dr. Vítor Baptista, acompanhando-os num demorado contacto com a Sociedade de Instrução Tavaredense. Mereceu atenção a visita à exposição de cenários e adereços.
         No palco, uma lenda do Teatro Amador: o actor da SIT, João Medina, declamou um texto de Mestre José da Silva Ribeiro alusivo ao estado de degradação do Paço de Tavarede: “Triste sina a do Solar, que é hoje um mutilado”.
         Manuel Maria Carrilho, que durante 18 anos passou as férias de verão na Figueira da Foz, conhece a riqueza humana das colectividades do concelho. Para a instalação eléctrica concedeu 4.000 contos de subsídio (as obras orçam os 7.000 contos).
         Miguel Almeida, em representação da Edilidade, salientou que “é difícil apoiar cerca de 122 colectividades” e pediu a ajuda do Ministério da Cultura. Simões Baltazar lembrou que os vários executivos camarários não mostraram interesse em resolver o problema do Paço de Tavarede e entregou ao ilustre visitante um dossier completo sobre as soluções que poderão ser implementadas para o salvar da ruína completa.
         Manuel Maria Carrilho prometeu estudar o caso e continuou a visita ouvindo atentamente as explicações de Rosa Paz, que não se coibiu de manifestar o desejo da colectividade de criar um museu de teatro para expor e guardar o precioso espólio acumulado ao longo de décadas.
         O Ministro da Cultura foi contemplado com algumas lembranças sem esquecer peças de artesanato da terra do limonete e esperamos que volte em breve com a solução desejada para o Paço de Tavarede.

         O segundo centenário do nascimento de Almeida Garrett foi comemorado em Tavarede. A Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), à semelhança do que tem feito com outras figuras de relevo cultural, vai assinalar o bi-centenário do nascimento de Almeida Garrett, um dos grandes vultos da literatura portuguesa, numa data que será festejada pela SIT, e que se inicia com as festividades alusivas do 95º aniversário da colectividade, prolongando-se até ao 25 de Abril. Assim, são três comemorações culturais numa festa só.
         “Estas comemorações são para todo o concelho, nomeadamente para as camadas jovens”, explicava aos jornalistas Rosa Paz, presidente da direcção da SIT, quando apresentava a iniciativa que vai ter o apoio do município figueirense e que visa, entre outras coisas, promover um espectáculo cultural que inclua diversas facetas do escritor como dramaturgo, pois Garrett é um escritor estudado nas nossas escolas e “devorado com apetite”, dizia Ilda Simões.
         Integrado nas festividades do aniversário da SIT, nos dias 23 e 30 do corrente, vai ser apresentada a comédia “O Festim do Baltazar”, que terá na segunda parte “História Cantada de Tavarede”, uma peça que envolve cerca de 50 pessoas, ficando depois para Abril o grande espectáculo cultural alusivo a Almeida Garrett que, como disse Ilda Simões, é preciso “incentivar o gosto pelo teatro”. Mas os objectivos da iniciativa passam também por desenvolver atitudes de preservação e animação da cultura portuguesa; dar a conhecer a cultura teatral do concelho; desenvolver o espírito crítico e conhecer alguns modos de vida, pensamento e história do século XIX, contrapondo-os com os da actualidade.
         Mas ainda segundo Ilda Simões, para actuar nestes domínios, propõem-se realizar um espectáculo cultural que contemple diferentes facetas do grande escritor, porque “não é inédito em Tavarede comemorar-se datas marcantes da História da Cultura”, e por isso não vão deixar de o fazer agora no bi-centenário do nascimento de Garrett até porque, frisava a directora do grupo cénico da SIT, “Garrett é um grande vulto da nossa literatura; porque somos uma população rica em actividade teatral; porque há muitas crianças, jovens e até gente adulta que não conhece a obra de Garrett” e porque, como dizia o próprio Garrett, “o teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde não o há”.
         O grande espectáculo cultural vai incluir excertos de algumas obras do homenageado, nomeadamente, “Folhas Caídas”, “Romanceiro”, “Viagem à Minha Terra”, “O Arco de Sant’Ana” e “Frei Luís de Sousa”, excertos da “Terra do Limonete”, de José da Silva Ribeiro, e textos de Maria Clementina Reis Jorge da Silva e Ilda Manuela Simões.

         Dado o interesse cultural do evento, o grupo promotor da SIT vai ser recebido pela Câmara Municipal para acertar as formas de apoio, nomeadamente levar o espectáculo às freguesias do concelho e trazer as crianças das escolas à Sociedade de Instrução Tavaredense para verem o teatro.