sábado, 28 de março de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete -

          A habitual sessão solene, comemorativa do evento, foi realizada no domingo seguinte. Quase se pode considerar, ter sido com pompa e circunstância, a comemoração do 98º aniversário da SIT – onde cinco obreiros foram laureados com o emblema de ’50 anos de sócio’.
         Nas várias intervenções, destacamos a forma directa de Rosa Paz, presidente da colectividade, que referiu: “não é qualquer instituição, como nós, que leva num ano ‘4 peças de teatro ao palco’, independentemente das críticas – pouco ou nada se faz neste local”.
         Numa colectividade, onde tudo aparece à custa da nova carolice, é quase ‘um atrevimento’. 2001 não foi um ano de facilidades, mas também não queremos coisas fáceis, ‘queremos coisas que nos dêem luta’. Temos, acima de tudo, ainda que com muitas privações, ‘fazer teatro’, onde Ilda Simões tem sido a grande dinamizadora, não esquecendo a dedicação de todos, técnicos e amadores, que levam à cena ‘o espectáculo perfeitamente apresentado’, o que sempre corresponde a ‘casa cheia’. Venham daí, todos aqueles que atiram pedras para o charco”.
         Rosa Paz, sem papas na língua, evocou mesmo Mestre José da Silva Ribeiro, “o que tentamos fazer, e temos muito orgulho ‘mesmo vaidade’, o trabalho que a direcção e o grupo cénico estão a desenvolver”, sublinhando por outro lado “o futuro desta casa apresenta-se risonho”.
         Disse mesmo a líder da Sociedade de Instrução Tavaredense “aquilo que já foi um sonho, é neste momento realidade”, graças à Delegação Regional da Cultura do Centro e ao protocolo feito com a Escola da Noite, da SIT e já passou à prática.
         Dar o nosso apoio aos outros grupos de teatro do concelho e não só, é outro dos nossos objectivos, porque cada vez mais acreditamos na capacidade do teatro amador, onde surgem figuras que se tornam ‘grandes’.
         Gostaríamos de levar o barco a ‘bom porto’, acentuou Rosa Paz. Não somos de bater às portas que achamos necessárias. ‘Somos ambiciosas’ (direcção constituida por mulheres), lutaremos até ao fim, para conseguir atingir os objectivos que nos propuzemos, já lá vão ‘10 anos, abram-nos as portas por favor’. Em Tavarede, ama-se o teatro, vive-se para “ele”, concluiu.


         O Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro festejou o 23º aniversário em Março de 2002. ... Segundo Fernando Serra, o presidente da direcção da colectividade, “foram 23 anos de muito trabalho, na concretização de um sonho de um pequeno grupo de homens, que quiseram dotar esta terra, ainda com tantas carências, e a sua gente, de melhores condições de vida, no âmbito do desenvolvimento cultural, recreativo e desportivo, e proporcionar aos jovens um complemento da sua formação, mais sadia e feliz”. 
         O dirigente associativo salienta ainda que “começaram do nada, sós, mas souberam, com o exemplo do seu trabalho e determinação, trazer amigos e foram sabendo e querendo que o sonho se realizasse”, e que “nunca a falta de apoios foi travão para parar”, pelo que “podemos mostrar a quem nos ajuda e connosco colaborou, que valeu a pena, a obra está visível”.

         Sobre este aniversário, é oportuno debruçarmo-nos sobre uma outra notícia, a qual historía um pouco do passado dessa associação. O Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro festeja este domingo 24 anos de vida. A construção da sede foi um dos projectos mais acarinhados por todas as direcções, bem como a manutenção de algumas das suas valências, caso da escola de música e rancho Folclórico Os Cavadores do Saltadouro.
         Nesta edição, A Voz da Figueira mostra o percurso e as dificuldades com que a colectividade se debateu ao longo dos anos para manter a sua função de apoio a uma comunidade, no intuito de preservar o espírito associativo.
         O Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro, em tempo festivo, vai comemorar o seu 24º aniversário no próximo domingo. A colectividade apareceu na ribalta do associativismo pela mão de 11 carolas e amigos que se reuniam inicialmente numa barraca e mais tarde fizeram a compra de uma plataforma em chapa, a qual serviu de suporte até há cerca de seis anos, tendo como referência a partida deste ainda curto percurso, a modalidade de atletismo, que esteve somente em competição apenas por dois anos.
         Mais tarde, sensivelmente em 1982, alguém pensou em se abalançar a um projecto para a nova sede e ele surgiu, o que abriu a possibilidade para o início das obras que redundaram, nos tempos que correm, em magníficas instalações.
         Segundo Fernando Serra, presidente da direcção, “foi possível este arranque na altura porque havia alguma verba em caixa, que se juntou a outras receitas provenientes da exploração do bar e diversas iniciativas. Há cerca de quatro anos deixámos a dita plataforma para dispormos da colectividade que hoje temos, a qual está praticamente concluída".
         Como curiosidade, ficámos a saber que “a plataforma custou 150 contos e para a nova sede jogou-se com um orçamento de 40 mil contos” (já foram gastos e pagos 32 mil contos, dos quais cerca de quatro mil contos contabilizados em oferta de mão de obra prestada por sócios).
         Fernando Serra foi-nos dizendo que a filosofia dos responsáveis da agremiação pauta-se exactamente por tomar decisões em termos de enriquecimento do seu património, consoante as disponibilidades financeiras. Nada é feito de ânimo leve, mas sim com os pés bem assentes na terra, referindo que “vamos construindo e não nos ficamos pelas promessas”.
         Pode-se dizer no entanto que o único subsídio a nível institucional adveio do anterior mandato da Câmara Municipal da Figueira da Foz (2.500 contos, em duas tranches) mais 350 contos anualmente para a área cultural (rancho folclórico e escola de música), acrescidos de 150 contos para despesas correntes. Há que destacar, no entanto, que “tivemos algumas ofertas anónimas e outras, da qual se pode destacar a dádiva do Intermarché de 500 contos”.
         Quanto às actividades em curso, referência para o Rancho Folclórico os Cavadores do Saltadouro (fundado em 1 de Maio de 1991), jogos tradicionais, cicloturismo, escola de música, equipa de pesca federada (10 elementos), teatro e janeiras.
         Pode dizer-se em abono da verdade, referiu o presidente da direcção, que “para fazer face a todas as exigências ou compromissos, a nossa grande fonte de receita vem sem dúvida da exploração do bar, concursos de pesca e deslocações ao exterior do rancho folclórico”.
         Fernando Serra, ligado há uma década à instituição, contando com sete de liderança, sustentou que além disso, tem contado “a cem por cento com a enorme colaboração de todas as equipas que ao longo dos anos vêm fazendo parte dos elencos directivos”, onde 50% são do escalão etário mais jovem.
         Quisemos saber quais as principais prioridades e objectivos para o futuro. Fernando Serra declarou ao nosso jornal que os mesmos apontam para acabar o piso do salão, afim de se poder dar início à prática de ginástica de manutenção e dança de salão, o acabamento do palco para que se possam representar algumas peças de teatro, cuja finalidade é fazer intercâmbios com outras colectividades, como é o caso da Filarmónica Figueirense que à sede do CDAS se vai deslocar no próximo dia 23. Posteriormente, “pensamos noutros voos, como seja o atletismo, reforçarmos o nosso rancho e biblioteca”, já com mais de 400 peças (a maior parte oferecida pelo sócio Aníbal Querido). Uma outra das ambições é entrar no desporto ‘PT/INTERNET’, afecto ao Ministério da Cultura. Outra preocupação vai no sentido da renovação do guarda-roupa do rancho folclórico, mas necessitam-se de ajudas, aliadas à boa vontade dos elementos femininos que confeccionam os seus fatos. Um outro vector que Fernando Serra considera importante, é a “captação/cativação da juventude para que ocupem o nosso espaço nos tempos livres, pois existem condições próprias para o efeito”.
         Se falarmos em dificuldades, Fernando Serra foi expontâneo: “tem sido a construção da sede uma das grandes lutas”, porque “os apoios foram escassos. Mesmo assim, nunca pararam as obras por falta de dinheiro, graças também à gestão das direcções”. Outro aspecto focado vai para um alerta: é necessário alargar o corpo directivo.
         Para que se fique a saber, o Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro foi fundado a 11 de Março de 1979, e o terreno onde se encontra instalada a sua sede social foi doado por José Ferreira do Vale. O Rancho Folclórico Os Cavadores do Saltadouro, é constituído por 38 elementos e é superiormente dirigido pelo seu ensaiador José António Andrade Costa.

sábado, 21 de março de 2015

Histórias e Lendas - 25

Jogos tradicionais
Coisas do antigamente!


         Vamos começar esta ‘história’ com uma pergunta: na nossa aldeia, ou melhor dizendo, nas nossas aldeias, ainda se brinca? A nossa resposta, e disso temos muita pena, é um não! É verdade. Nos nossos tempos de criança, a nossa pequenina Tavarede, terra de muito trabalho desde sempre, era muito diferente dos tempos de hoje. No amanho das terras ou nas oficinas da cidade, o povo tavaredense, homens e mulheres, demonstravam alegria e felicidade.
         Várias vezes nos temos referido às alegres cantigas que frequentemente se ouviam por toda a aldeia. Cantigas do teatro normalmente. A rapaziada, aproveitando todas as folgas da escola ou da ajuda aos pais, jogavam à bola de trapos, ao pião ou ao berlinde.
         Saudosos tempos que já não voltam. Agora, em lugar de andarem por montes e vales das redondezas jogando às escondidas enquanto as raparigas se entretinham jogando ao anelinho ou à macaca, passam horas diante dos computadores ou acompanhando as novelas que as televisões transmitem.
         Não mais vimos os rapazes e as raparigas da terra jogarem ao eixo ou à macaca. As associações organizavam agradáveis piqueniques, habitualmente em locais agradabílissimos nas vizinhanças da terra e aos quais as famílias acorriam com entusiasmo. Ali se devoravam apetitosos pitéus e se bebiam umas pingas, ganhando forças para passarem as tardes jogando alguns dos muitos jogos tradicionais que tão populares eram.
         Não se pode deixar de sentir imensa saudade das tardes domingueiras em que, homens e mulheres, novos e menos novos, ocupavam a rua principal para jogarem à pela. O pouco trânsito de então permitia a ocupação da rua.
         Fomos à procura da definição de diversos jogos tradicionais tentando saber suas origens e as ‘clássicos’ regras. Começámos, precisamente, pela pela. . O jogo da péla (também se diz apenas péla) é um jogo muito praticado outrora, que consistia em atirar uma bola (a péla) de um lado para o outro, com a mão ou com o auxílio de um instrumento (raquete, bastão, pandeiro, etc.), num local próprio para esse fim.
O milenar joga da péla é considerado um dos ancestrais do ténis. Desde o século XIII era praticado em salas fechadas. O jogo atingiu seu auge no século XVII, sendo praticado por clérigos, burgueses e príncipes.
Arqueólogos franceses, do INRAP – (Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas) descobriram vestígios do que pode ter sido a principal quadra oficial do genro, em sala anexa ao Versalhes, provavelmente datando do reinado de Luís XIII (1610-1643). Segundo o INRAP a sala foi desactivada em 1643, quando assumiu o trono Luís XIV - que tinha um problema na perna e não podia nem jogar nem dançar.


Confessamos a nossa total ignorância sobre as origens dos jogos e, pelos vistos, este tem origem aristocrática!
Outro jogo muito popular era o chamado jogo da malha ou fito. As tabernas da terra, para atraírem clientela, tinham recintos próprios. Encontrámos o seguinte sobre este jogo. Num terreno liso e plano são colocados os paus cujo objectivo é derrubá-los. Serão colocados pinos a uma distância de 15/18 metros dos paus, para os jogadores lançarem as respectivas malhas atrás dos pinos colocados à distância. Joga um elemento de cada vez. Objectivo é derrubar o pau com a malha ou colocar a malha o mais perto possível do pino, lançando-a com a mão.


         As malhas, pequenos discos em ferro, tinham peso variável bem como a distância dos tabuleiros, no centro do qual se colocava o respectivo pino. Eram muito praticados nas tardes de domingo, chegando a organizarem-se torneios.
         Os rapazes, no entanto, preferiam a bola de trapos. Andávamos sempre à espreita de meias velhas, rotas, que enchíamos de trapos. Muitas vezes punhamos no meio uma pequena pedra para dar peso. Depois faziam-se as habituais jogativas, normalmente no campo da Sociedade, embora, não raras vezes, se fizessem os jogos nos largos do Paço ou da Igreja. O dono da bola tinha sempre lugar numa das equipas.
 
          De vez em quando eram organizadas tardes desportivas com a prática de vários jogos populares. A corrida de sacos, de três pés, da colher na boca com um ovo e outros mais, tinham lugar no largo do Paço e na velha rua Direita.
 

         Os rapazes, especialmente os mais novatos, preferiam o pião e o berlinde.
 
         As raparigas, por sua vez, davam a sua preferência ao jogo da macaca e ao salto à corda.


O Associativismo na Terra do Limonete - 120

Ainda no mesmo ano, o Grupo Musical e de Instrução comemorou o seu aniversário. Com um programa bastante variado, passando pela parte cultural, animação e desportiva, desde o passado dia 29 de Julho, que o Grupo Musical de Instrução Tavaredense iniciou as festividades comemorativas dos seus 90 anos de vida, que culminaram no último fim de semana, no decorrer de uma sessão solene, presidida pelo vereador Azenha Gomes, tendo como orador oficial Miguel Almeida.
Um dos pontos altos desta cerimónia, foi vivida na evocação feita a Augusto da Silva Jesus, sócio e dirigente durante 44 anos, a quem foi prestada uma justa homenagem, onde o seu trabalho árduo e dedicado foram bem vincados.       Já não é nos tempos de hoje e é do conhecimento público, as várias oscilações porque tem passado a agremiação tavaredense,cuja última década tem sido de alguma controvérsia.
Não foi difícil perceber tal situação, perante a lacónica intervenção do presidente cessante Paulo Medina: “tudo bate palmas, tudo é bonito, mas estamos a esquecer as formiguinhas pequeninas que trabalham aqui, sem importância nenhuma e a quem não ligamos, mas se fizermos casas e as fecharmos, apanham bolor e ninguém faz nada por elas. Se não forem os bichinhos, os pequeninos que passam pelas direcções, a fazerem um trabalho exemplar durante um ano e não são reconhecidos ‘ninguém os conhece!’... Gostava de dizer que sou um jovem de 35 anos, vivo o Grupo, e que fiquei cá neste mandato somente pela simples razão (a qual muita gente não sabe), que a colectividade estava para fechar as portas, sendo um grupo de amigos que se reuniu à última da hora durante o mês de Setembro, que fez a vida da colectividade continuar em frente. Esses sim, é que merecem os elogios e as tais referidas palmas”.
A terminar sublinhou: “em Tavarede não existe só uma colectividade, mas cinco. O que sucede por vezes, e que lamento, é o facto das entidades que estão à frente de Tavarede não tratem todas de modo igual, é só isto que pretendo dizer”, concluiu.

Também a associação carritente festejou o seu 80º ano de existência. Com muitas tradições culturais, principalmente nas áreas do teatro e da música, o Grupo Musical Carritense comemorou o seu 80º aniversário no decorrer de uma sessão solene presidida pelo vereador Azenha Gomes, em representação da Câmara Municipal, ao qual se associaram elementos de várias colectividades.
Um dos pormenores retidos nesta cerimónia, foi o facto da instituição aniversariante ter estado encerrada cerca de seis meses. Em relação a este impasse, o seu presidente Adelino Lopes, referiu as dificuldades por que tem passado a sua agremiação, queixando-se da falta de carolice de pessoas que efectivamente poderiam colaborar no prosseguimento das suas actividades, focando no entanto que é sempre bastante trabalhoso, requer bastante dedicação e sacrifício, o que leva as pessoas cada vez mais a afastarem-se, dadas as dificuldades muitas vezes presentes.Por outro lado deixou um recado a quem de direito, que se têm esquecido um pouco deles, relativamente à falta de apoios, que têm sido bastante limitados, frisou Adelino Lopes, deixando um apelo para a premente necessidade de ajuda, no sentido de se poderem fazer algumas obras de beneficiação na colectividade, cujo orçamento rondará os 3 mil contos.
A concluir, deixou no ar um enorme desejo: é nossa pretensão relançar novamente o teatro e a escola de música, chamando a atenção daqueles mais entendidos que devem comparecer a fim de se dar outra vida ao Grupo Musical Carritense, pois estas duas vertentes têm estado paralizadas.

As Jornadas do Teatro Amador de 2001, tiveram a participação do grupo cénico tavaredense, que apresentou as atrás referidas peças de Tchekov, num espectáculo realizado na sede do Sport Clube de Lavos.


Em Outubro, o Ateneu Alhadense efectuou um encontro associativo, no qual participou o grupo da SIT. “....Depois de um curto intervalo, chegou o momento tão aguardado pelos amadores da SIT. E foi o que se esperava: a representação do “Urso”, de Tchekov, em que a amadora (artista diria) e encenadora Ilda Simões deu conta do seu inegável talento contracenando com o consagrado José Medina, a confirmar o seu enorme traquejo nestas lides teatrais, correctíssimo também o difícil papel de “mordomo”.
 A assistência vibrou e aplaudiu de pé, mas Ilda Simões não dispensou de homenagear um alhadense que dedicou toda a sua vida ao Ateneu e que também prolongou a sua prestação à SIT – em representações em louvor da planta cheirosa, “o limonete”. Chamados ao palco os amadores do Ateneu e a numerosa embaixada de Tavarede, ali cantaram com entusiasmo em fim de festa a célebre música que Anselmo Cardoso escreveu para o seu amigo José da Silva Ribeiro”.

O aniversário comemorado em Janeiro de 2002 teve, no seu espectáculo de gala uma nova peça, O homem, a besta e a virtude. No seu 98º aniversário, a Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT) levou e mantém em cena a peça “O Homem, a Besta e a Virtude” de Luigi Pirandelo, autor dos inícios do século XX. Não é fácil representar Pirandelo, mas os actores e actrizes da SIT já nos habituaram a não terem dificuldade em representar qualquer peça de teatro, por mais difícil que seja.
         Fernando Romeiro, o actor principal e que se mantém em cena todo o tempo, tem um desempenho excelente, no papel do professor Paolino que dá aulas particulares a vários jovens entre eles, o filho da senhora Perella com quem tem uma relação amorosa.
         Aquela personagem, a quem o marido, o capitão Perella não liga, mesmo quando vem a casa passados meses, é bem desempenhada por Rosa Paz que também já nos habituou com a sua presença em palco. Rogério Neves personifica muito bem o autoritário e machista capitão Perella.
         O bom desempenho de todos: o doutor Nino, por Valdemar Cruz; o senhor Tótó, farmacêutico, António Barbosa; Rosária, a governanta, Manuela Mendes; os estudantes, Gil e Abel, representados por José Miguel Pereira e Anselmo Cardoso; Nónó, João Pedro Paz; Graça, a criada, Maria Helena Rodrigues e o marinheiro, João José Silva, faz com que ao longo de aproximadamente duas horas se assista a teatro de qualidade, apanágio da SIT ao longo da também já sua longa existência, uma vez que está a dois anos da comemoração do seu centenário.


         Mas por trás dos bastidores toda uma equipa trabalha afincadamente, antes, durante e depois, dirigida e coordenada por Ilda Simões que tem feito um bom trabalho e que tem a seu cargo a encenação e direcção de cena, equipa composta por José Miguel Lontro, Nuno Pinto, José Maltez, Otília Medina, João Pedro Amorim, João Fadigas, José Manuel Cordeiro e Vitor Assis.
         Vocacionada desde sempre para o teatro, a SIT está a desenvolver um projecto a que concorreu, através da Delegação do Ministério da Cultura da Região Centro, tendo em vista a formação nos vários domínios, o adequado apetrechamento técnico e um arquivo documental ligado ao teatro, de forma a que possa vir a apoiar os outros grupos de teatro amador do nosso concelho, que é um exemplo no país e a testemunhar estão as 25ª Jornadas de Teatro Amador, organizadas pelos Lions Clube da Figueira da Foz e que irão decorrer a partir de 27 de Março, nas quais estão inscritos 26 grupos de teatro.

sábado, 14 de março de 2015

Histórias e Lendas -

Iconografia e veneração

A sua representação iconográfica de longe mais frequente é a de um jovem tonsurado envergando o hábito dos frades franciscanos, segurando o Menino Jesus sobre um livro ou entre os braços, a quem contempla com expressão terna, e tendo uma cruz, ou um ramo de açucenas, na outra mão. Esses atributos podem ser substituídos por um saco de pão, que distribui entre pobres ou idosos. É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos idosos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para achar-se coisas perdidas, para conceber-se filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.
A devoção popular o colocou entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e lhe atribui até os dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas se multiplicam pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome.
Na tradição lusófona Santo António está acima de todos em prestígio. Sua veneração foi levada de Portugal para o Brasil, onde enraizou rápido e também dominou o coração do povo. Era tanta a familiaridade que o santo inspirava, que passou a ser uma espécie de "propriedade privada" de todos. Como relatou Grillot de Givry, "não há casa que o não venere no seu oratório e não satisfeita ainda com isso a comum devoção dos fiéis, cada um quer ter só para si o seu Santo António". Estava em toda parte: "nos nichos de pedra, pintado em azulejos, a guardar as casas, em caixilhos de seda à cabeceira da cama a vigiar-nos o sono, nos escapulários e bentinhos junto ao peito, a acautelar-nos os passos, esculpido e pintado para preservar dos perigos, pintados nas caixas de esmola, nos santuários e oratórios". Também era invocado pelos senhores para recuperar escravos fugidos.
A mesma familiaridade criou práticas esdrúxulas no culto popular. Se um pedido não era atendido, a imagem do santo podia ser submetida a torturas e castigos. Deitavam-na de barriga para o chão e punham-lhe uma pedra em cima; escondiam-na num poço escuro, retiravam-lhe o Menino Jesus dos braços, ou arrancavam-lhe o resplendor. Acreditava-se que o castigo acelerava a concessão da graça, e explicavam a violência dizendo que em sua juventude o santo desejara morrer martirizado em nome da fé. Luminares do clero, como o padre Vieira, também de certa forma reforçavam essas crenças. Num sermão disse:

"Não haveis de pedir a Santo António como aos outros, nem como quem pede graça e favor, senão como quem pede justiça. E assim haveis de pedir a Santo António: não só como a quem tem por ofício deparar tudo o perdido e demandado como a quem deve e está obrigado a o deparar. E senão dizei-me: por que atais e prendei esse santo, quando parece que tarde em vos deparar o que lhe pedis? Porque deparar o pedido em Santo António não só é graça, mas dívida. E assim como prendei a quem vos não paga o que vos deve, assim o prendeis a ele. Eu não me atrevo nem a aprovar esta violência, nem a condená-la de todo, pelo que tem de piedade".
É um dos santos honrados nas popularíssimas Festas Juninas e diversos costumes folclóricos estão ligados a ele. A título de exemplo, no Brasil moças casadoiras retiram o Menino Jesus das estátuas e só o devolvem quando arrumam casamento; uma prece especial, os "responsos", são feitas para que ele ajude a encontrar objetos perdidos; no dia de sua festa muitas igrejas distribuem pães especialmente abençoados, os "pãezinhos de Santo António", que devem ser guardados em uma lata de mantimentos para que não falte alimento na casa.
Ele teve inclusive uma brilhante carreira militar póstuma. Inúmeras cidades da Espanha, Portugal e Brasil lhe conferiram títulos militares, condecorações, insígnias e outras honrarias, iniciando-se o curioso hábito quando o regente Dom Pedro ordenou em 1668 que ele fosse recrutado e assentasse praça como soldado raso no II Regimento de Infantaria em Lagos, sendo promovido sucessivamente a capitão e coronel. Com o posto de tenente-coronel, sua imagem foi levada pelo XIX Regimento de Infantaria em Cascais à frente dos combates da Guerra Peninsular, recebendo depois uma condecoração. D. João VI, após o feliz desembarque no Brasil em sua fuga da invasão napoleónica, o nomeou sargento-mor, promovendo-o depois a tenente-coronel. No Brasil foi onde recebeu mais títulos, recebendo inclusive soldo em vários locais até depois de proclamada a República. Em Igarassu foi nomeado oficialmente Protetor da Câmara de Vereadores.

Festividades - Portugal


Em Portugal, Santo António é muito venerado na cidade de Lisboa e o seu dia, 13 de Junho, é feriado municipal.
As festas em honra de Santo António começam logo na noite do dia 12. Todos os anos a cidade organiza as marchas populares, grande desfile alegórico que desce a Avenida da Liberdade (principal artéria da cidade), no qual competem os diferentes bairros.
Um grande fogo de artifício costuma encerrar o desfile. Os rapazes compram um manjerico (planta aromática) num pequeno vaso, para oferecer às namoradas, as quais trazem bandeirinhas com uma quadra popular, por vezes brejeira ou jocosa. A festa dura toda a noite e, um pouco por toda a cidade, há arraiais populares, locais de animação engalanados onde se comem sardinhas assadas na brasa, febras de porco (fêveras), caldo verde (uma sopa feita com couve galega, cortada aos fiapos, o que lhe confere uma cor esverdeada) e se bebe vinho tinto. Ouve-se música e dança-se até de madrugada, sobretudo no antigo e muito típico Bairro de Alfama.
Santo António é o santo casamenteiro, por isso a Câmara Municipal de Lisboa costuma organizar, na Sé Patriarcal de Lisboa, o casamento de jovens noivos de origem modesta, todos os anos no dia 13 de Junho. São conhecidos por 'noivos de Santo António', recebem ofertas do município e também de diversas empresas, como forma de auxiliar a nova família.
 Igreja e Museu Antoniano em Lisboa
Situados perto da Sé Patriarcal de Lisboa, o Museu e a Igreja Antoniana em Lisboa são o centro da devoção ao santo lisboeta, em especial no dia que lhe é dedicado, 13 de Junho.
O Museu Antoniano é um museu monográfico dedicado à vida e veneração do santo, exibindo, em exposição permanente, objectos litúrgicos, gravuras, pinturas, cerâmicas e objectos de devoção que evocam a vida e o culto ao santo.
O Museu fica anexo à Igreja, local onde, de acordo com a tradição, nasceu o santo. Em conjunto, esses dois espaços constituem um dos mais importantes locais de homenagem ao mesmo.
No ano de 1995 comemorou-se o 800.º aniversário do seu nascimento, com grandes celebrações por toda a cidade de Lisboa. (Wikipédia)

O Associativismo nas Terra do Limonete -

         E vamos agora ao último caderno desta recolha sobre o associativismo na terra do limonete. Duzentos anos decorreram desde que Tavarede, já liberta do jugo da família Quadros, que durante cerca de três séculos oprimiram e vexaram o povo local, iniciou um novo modo de viver, deixando de ‘vegetar’ como os seus Senhores o obrigaram. Os tavaredenses aprenderam, então, que a sua vida terrena não podia ser unicamente trabalhar. É que, por esses tempos, tinham acabado de aqui chegar, trazidos pelos ventos do leste, os ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade, provindos da França.

         Escrevemos, ao iniciarmos esta tarefa, que o associativismo teria tido os seus princípios, na nossa terra, na primeira década do século dezanove ou, talvez, na última do século anterior. Nas nossas buscas, não conseguimos encontrar uma certeza absoluta. Mas, embora o não possamos garantir, julgamos não estar afastados da verdade.

         Procurámos descrever o começo dos tavaredenses na busca da sua instrução. Foi o teatro o meio escolhido. Mas não foi a nossa terra a primeira. Ainda aqui imperava o despotismo dos fidalgos, já se fazia teatro em Maiorca, pois temos notícia da ida do morgado Fernando Gomes de Quadros àquela terra assistir a uma comédia e tentar ‘mimosear’ com pancada, o dono da casa onde teve lugar a representação. E, certamente, noutros lugares da região já se apresentava teatro.

         Já estamos bem longe dos velhos ‘cardanhos’, que Ernesto Tomás nos descreveu primorosamente, as tais sociedades dramáticas, que em Tavarede ‘vegetavam como tortulhos’. Também já pertencem à história as ‘célebres’ representações, em que o público, sem qualquer respeito pelos actores, fumava e cavaque ava na improvisada plateia, enquanto assistia ao desenrolar dos dramas, que até as pedras faziam chorar, e as comédias, que provocavam indigestões de riso. De igual modo, também em Tavarede se finaram as tão tradicionais representações dos Autos Pastoris e dos Reis Magos, de que o velho Joaquim Águas era tão entusiasta!

         Mas a verdade é que foram estes espectáculos que tiveram a maior importância para o desenvolvimento cultural e recreativo em Tavarede. Podemos dizer, que foi esta a semente que tão abundamentemente germinou e se reproduziu na pequena e velha aldeia. Claro que se não deve deixar de dizer que, se a semente e o terreno eram excelentes, também a sorte nos favoreceu, com um filho tavaredense que dedicou toda a sua longa vida ao associativismo, cultivando a abençoada semente do teatro, arte esta em que foi justamente considerado Mestre. Como alguém referiu, sem teatro Tavarede não seria a mesma, e nós acrescentamos, sem o Mestre José Ribeiro também o teatro de Tavarede não seria o mesmo.

         Mas esta introdução já vai longa e é tempo de regressar à nossa história. Sabemos o que foi o passado associativo, conhecemos, ou julgamos conhecer, o associativismo presente, mas ignoramos completamente como será no futuro. Ao iniciarmos o novo século, o vinte e um, existiam na freguesia cinco associações culturais e recreativas: a Sociedade de Instrução Tavaredense, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, o Grupo Musical Carritense, o Clube Desportivo e Recreativo da Chã e o Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro. E, facto digno de registo, todas as cinco instaladas em sedes próprias e todas desenvolvendo activamente a sua nobre missão.

         Damos o título do ‘Primeiro centenário’ a este capítulo, tendo em conta o caso de a Sociedade de Instrução, a mais antiga, comemorar os seus primeiros cem anos de existência logo nos anos iniciais do século.  E como simples informação, podemos dizer que, depois de consultarmos toda a imprensa local e todos os registos e arquivos da colectividade, a mesma efectuou 1.156 espectáculos, desde a sua fundação, em Janeiro de 1904, até ao final do século vinte. Uma média de quase doze espectáculos por ano, é um caso notável em grupos de amadores e numa terra tão pequena como a nossa.

O primeiro espectáculo desta colectividade no novo século, teve lugar no dia 27 de Janeiro de 2001, integrado no programa comemorativo do seu 97º aniversário. Levou à cena as peças de Tchekov Um pedido de casamento e O urso. E, no dia seguinte, antes da tradicional sessão solene, representou outra peça do mesmo autor, O canto do cisne. Relativamente ao espectáculo de sábado, encontrámos o seguinte apontamento. A SIT levou à cena no passado dia 27 duas peças de Anton Tchekov, dramaturgo russo e impulsionador do chamado “realismo psicológico”, que faleceu já no início deste século.
                 As peças, “Um pedido de Casamento” e “O Urso” integraram-se na comemoração dos 97 anos daquela colectividade. Com estas peças e mercê de um trabalho que se denota apaixonado e sério, a SIT está de novo a conquistar público, uma vez que a sala estava completamente cheia.
         Trata-se de duas comédias ligeiras, de costumes, que pedem tratamento naturalista quer na encenação, quer nos adereços e cenários. Este tipo de teatro vive essencialmente do bom desempenho dos actores e aqui os dois espectáculos contaram, no caso do “Pedido de Casamento”, com duas excelentes interpretações rubricadas por Rogério Neves e por Fernando Romeiro, este último, bastante seguro e mostrando ser um actor com escola; Já no “O Urso” estiveram em bom plano Ilda Simões e José Medina, não desmerecendo o discreto António Barbosa, num papel que parece fácil mas que, na realidade, não o é.
         A encenação consegue manter um ritmo adequado ao desenrolar da acção, sem quebras e prestável à atenção do público. Talvez, e tratando-se de teatro realista, uma ou outra articulação não estivesse bem, tal como o cenário de “O Urso”. Nesta matéria seria bom que a SIT deixasse de utilizar os “velhos” cenários que funcionam como uma parede no espaço cénico e partisse para novos moldes mais consentâneos com o teatro moderno.
         Uma nota para os folhetos de apresentação: simples, directos e informativos para o grande público.

A propósito deste aniversário, e num periódico figueirense, uma notícia foi publicada sobre a colectividade, na qual se incluia uma entrevista com a então presidente da direcção. Foi em 15 de Janeiro de 1904 que Tavarede viu nascer no seu seio a Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT).
         Tavarede, uma freguesia rural cuja população vivia exclusivamente da agricultura, onde os “cavadores” trabalhavam a terra de sol-a-sol, não havia tempo para a cultura e muito menos para a instrução. Tal facto levou a que um punhado de tavaredenses fundasse a SIT, cuja principal acção seria a criação duma escola onde os tavaredenses pudessem aprender a ler depois das tarefas da lavra.
         Poucos anos após a sua fundação, já se falava de teatro e foi de tal ordem o amor pela “arte de Talma” que ainda hoje, volvidos 97 anos, é o teatro a principal razão da existência da colectividade.
         Não se pode falar da SIT sem mencionar o nome de mestre José da Silva Ribeiro. Se a SIT hoje é o que é muito deve a mestre José Ribeiro que dedicou toda a sua vida ao teatro e soube incutir essa paixão aos tavaredenses, que ainda hoje sentem o orgulho pela sua SIT ser considerada a “catedral do teatro amador”.
         Várias gerações têm passado por aquela colectividade, todavia o exemplo daquelas que ao longo dos anos escreveram páginas brilhantes, de um historial que é orgulho dos tavaredenses, continua a ser seguido religiosamente por quem hoje dirige a agremiação.
         Há cerca de quatro anos, uma grave crise de dirigismo na SIT levou a que um grupo de jovens mulheres assumisse a liderança da colectividade. Na altura a notícia foi comentada quase a nível nacional, pois não havia memória de tal situação ter acontecido em território nacional. Daí para cá tem sido uma luta constante, o modelo tem persistido e na passada semana realizou-se a assembleia geral da SIT e mais uma vez fica a pertencer às mulheres a condução dos destinos da casa.
         Rosa Paz, uma jovem tavaredense, assumiu desde a primeira hora o modelo directivo da SIT. A massa associativa na última assembleia geral elegeu-a para presidir aos destinos da colectividade. Licenciada em Direito, Rosa Paz divide o seu tempo entre o escritório de advocacia, a sala de direcção e o palco da SIT, já que é também amadora teatral.
         Foi com Rosa Paz que O Figueirense conversou, tomando nota daquilo que ultimamente tem sido feito, bem como as perspectivas que se colocam no futuro, numa altura em que já se pensa nas comemorações do primeiro centenário.
         Eis as perguntas e respostas:
         - Como vai a SIT?
         - Dentro do possível vai bem. Tudo o que se faz nesta casa tem sempre a ver com o teatro. Consideramos que é a principal actividade da SIT. No dia que o teatro acabar, dá-me ideia que a razão de ser da SIT deixa de existir.
         - Isso quer dizer que o teatro absorve a SIT na totalidade?
         - Não é bem isso. Tentamos levar à prática várias actividades de acordo com as pretensões dos nossos associados. Todavia, o teatro constitui sempre prioridade. Nestes dois últimos anos definimos três obras prioritárias: as obras de remodelação do nosso bar, tendo em conta que o mesmo seja convidativo para que os nossos associados se sintam bem e venham com assiduidade à colectividade. Uma outra obra que iniciámos foi a construção de uma “régie” de forma a poder responder a algumas insuficiências no aspecto da montagem de peças de teatro. Finalmente a remodelação da instalação eléctrica. Esta última obra muito cara, obrigatoriamente tinha de ser feita até por questões de segurança, levando-nos a ter de fazer arranjos em termos da nossa sala de espectáculos e camarins.
         - Deduzo que as obras encerraram um ciclo de investimento...
         - As obras que enumerei representam um ciclo de prioridades, mas não ficaram por aqui os investimentos. Todos os anos temos levado à cena novas peças de teatro. Para quem está por dentro da situação a montagem de uma peça hoje é caríssima e nós não fazemos teatro para rentabilizar as finanças da colectividade. Pensamos que o teatro é uma função cultural e quando montamos as peças e as representamos não estamos a pensar que lucros eventualmente apuraremos. Quero dizer com isto que no nosso plano de investimentos tivemos de adquirir alguns equipamentos que permitam uma maior rentabilidade, de forma a que a montagem das peças saia mais barata e possamos ter em linha de conta melhores espectáculos. Refiro-me a equipamentos de luz e som.
         - Digamos que em termos de mandato anterior está tudo falado?
         - Quase tudo, mas ainda há algo que queria dizer. Em 1999, sob a direcção de Ilda Simões, quisemos homenagear um grande escritor português que é Bernardo Santareno, e levámos à cena a peça “O Pecado de João Agonia”. Foi um êxito de que muito nos orgulhamos. Por um lado a crítica foi unânime ao apoiar o nosso trabalho, todavia foi importante todo um conjunto de solicitações para representarmos a peça nos mais diversos locais, e acabámos por não aceder a muitas das solicitações, já que tinhamos necessidade de preparar outros trabalhos. Também procurámos ser gratos a quem tem dedicado a sua vida ao teatro e assim homenageámos em 1999 dois amadores da SIT que fizeram 50 anos de palco, José Luís Nascimento e a nossa muito saudosa Lourdes Lontro, que faleceu na véspera de um espectáculo.
         Ainda como ponto de referência, fomos os representantes do movimento associativo concelhio junto da Comissão de Protecção de Menores.
         Escola de Teatro: uma realidade – Foi no último sábado que se realizou a assembleia geral da SIT. Rosa Paz e seus pares foram reconduzidas para mais um mandato. Curiosamente, nas eleições da colectividade tavaredense não é necessário campanha eleitoral, já que a preocupação dos associados vem no sentido de saber “se as meninas continuam”.
         - Quais os grandes objectivos para 2001?
         - Nos últimos tempos tem sido uma preocupação constante a formação teatral. Para tanto, é uma necessidade premente a constituição de uma escola. Demos os primeiros passos no ano anterior e a escola de formação é já uma realidade através de um protocolo existente entre a delegação regional da Cultura do Centro, o Grupo de Teatro Profissional “A Escola da Noite” e a SIT, projecto denominado “Centro dos Amadores de Teatro”.
         - Tem havido boa receptividade da delegação regional da Cultura aos vossos projectos?
         - Mantemos com a delegada óptimas relações. Temos o cuidado de a convidar de forma a que possa assistir à nossa actividade cultural. Por outro lado, é um facto que nos apraz registar o reconhecimento do nosso trabalho e a confiança que em nós é depositada. Recentemente concorremos num universo de 115 colectividades para sermos considerados como pólo receptor e gestor de equipamentos teatrais. Fomos uma das quatro colectividades contempladas, e a partir daí partilhamos a nossa acção com sete colectividades concelhias.
         - Que tipo de colaboração existe entre a SIT e outras colectividades?
         - A colaboração normal entre colectividades. Recentemente realizou-se o fórum das colectividades e desde logo para além da nossa participação cedemos as nossas instalações. O nosso pavilhão desportivo tem sido cedido às mais diversas organizações, quer culturais quer desportivas. Em termos de teatro temos dado apoio a diversos grupos que a nós recorrem, desde a cedência de instalações, cenários e guarda-roupa.
         - Para além do teatro que outro tipo de actividade existe na SIT?
         - Ao longo do ano realizámos vários espectáculos culturais e outros de entretenimento para os nossos associados. Procuramos manter tradições muito antigas nesta casa, como os concursos de pesca de mar e rio, os campeonatos de sueca e a “Serração da Velha”.
         Tchekov aos 97 anos – A SIT comemora os seus 97 anos de existência durante o mês de Janeiro. Faz parte da tradição da colectividade a realização de uma récita teatral, inserida nas comemorações. Assim este ano, para não fugir à tradição, os amadores da SIT fazem subir à cena quatro peças.
         - Quais são as peças preparadas para este aniversário?
         - Julgo que pela primeira vez estamos em condições de representar quatro peças praticamente em simultâneo. Juntamente com Ilda Simões fizemos uma escolha criteriosa de autores e decidimos que este ano seria de Tchekov, um escritor nunca antes representado em Tavarede. “Um Pedido de Casamento”, “O Urso” e o “Canto do Cisne” são as peças que representaremos nos dias 27 e 28 do corrente. Para além destas, também queremos homenagear um grande autor português, José Régio, já que este ano se comemora o primeiro centenário do seu nascimento, pelo que também levaremos à cena a peça “O Meu Caso”.
         - Como conclusão final, com que apoios conta a SIT para toda esta actividade?
         - Temos a convicção que as entidades oficiais nos deveriam ajudar muito mais do que têm feito até aqui. De qualquer forma, temos tido ajudas. Todavia, temos o cuidado de apresentar os nossos projectos devidamente fundamentados e com  descrição das necessidades prementes para os levar a efeito. Nesta base, aguardamos o veredicto das entidades a quem recorremos e vamos realizando-os conforme as nossas possibilidades e as ajudas de que dispomos.
         A SIT tem de momento cerca de 700 sócios que contribuem com uma quotização anual da ordem dos 600 contos. Esta importância não dá por vezes para pagar o aluguer de um guarda-roupa para uma peça de teatro. Daí seria fácil ter uma colectividade aberta para funcionamento de um bar e se ocupar o tempo com jogos de cartas e dominó, como muitas outras que conhecemos. Não foi para isso que foi fundada a SIT. Consideramo-nos uma casa de cultura para fazer cultura. Só assim tem razão a nossa existência. No dia em que não nos for possível cumprir a tradição e a memória dos antepassados que fizeram a história desta colectividade, outra alternativa não nos resta do que fecharmos a porta.
         Estamos à beira de comemorar o nosso primeiro centenário, faltam três anos, mas já pensamos na constituição de uma comissão organizadora.
         Comemorações do 97º aniversário – As comemorações dos 97 anos da SIT tiveram o seu início no passado dia 15 com a realização de um jantar convívio.
         No último sábado realizou-se a assembleia geral, com as eleições para os corpos sociais relativos ao ano de 2001. A mesma noite, na SIT, foi preenchida com uma sessão dedicada ao fado de Coimbra, tendo actuado o Grupo “Saudade Coimbrã”.
         Momento alto das comemorações acontece este fim de semana. Assim, na noite de 27, pelas 21,45 horas, realiza-se um espectáculo de teatro pelo grupo cénico da SIT, com a apresentação de duas comédias de Tchekov: “Um Pedido de Casamento” e “O Urso”.
         No dia imediato, realiza-se a partir das 16 horas a tradicional sessão solene tendo como orador principal João Manuel Pedrosa Russo. No decorrer da sessão será apresentada a peça “O Canto do Cisne”.

         O teatro volta novamente à cena no dia 3 de Fevereiro, pelas 21,45, homenageando José Régio nas comemorações do primeiro centenário do seu nascimento, com a apresentação da peça “O Meu Caso”, estando ainda inserido no programa um recital de poesia e uma palestra sobre o escritor.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Histórias e Lendas - 23

Sua pregação, seus escritos e a presença contemporânea de sua obra

Entre suas várias qualidades, chamou a atenção de seus contemporâneos seu admirável dom como pregador. Muitas descrições de época referem o fascínio que sua fala exercia sobre as multidões de pessoas simples e também sobre clérigos doutos, e embora o efeito de sua oração a viva voz não possa mais ser recuperado, seu estilo e os conteúdos que abordava podem ser conhecidos em parte através dos 77 sermões que sobreviveram e constam em sua obra publicada em edição crítica, Sermões Dominicais e Festivos, e que são considerados autênticos, conforme disse José Geraldo Freire. São textos eloquentes, persuasivos, cheios de zelo messiânico, sendo frequentes a defesa do pobre e a reprimenda do rico, e o combate às heresias de seu tempo, como as dos albigenses evaldenses, com uma eficácia tanta que lhe foi dado o apelido de malleus hereticorum (o martelo dos heréticos).
Embora a tradição atribua seu dom à inspiração divina, não é possível deixar de considerar o importante papel que sua formação erudita desempenhou neste aspecto de sua vida e obra. A análise das referências que fez em seus escritos, junto com o levantamento das fontes literárias presentes em seu tempo nas bibliotecas que frequentou, especialmente a de Santa Cruz, atestam sem sombra para dúvidas que sua preparação intelectual foi ampla e profunda. Além de um conhecimento detalhado da Bíblia, dos escritos dos Padres da Igreja e outros escritores cristãos, são encontradas citações de clássicos omo Aristóteles, Cícero,Catão, Sócrates, Dioscórides, Donato, Eliano, Escribónio, Euquério  de Lião, Festo Solino, Filão de Alexandria, Tibulo, Sérvio, Públio Siro, Juvenal, Plínio, o Velho,Varrão, Sêneca, Flávio Josefo, Horácio, Ovídio, Lucano e Terêncio. Seu conhecimento das ciências naturais ultrapassa em muito o currículo regular das artes liberais medievais, aprofundando-se em áreas como a medicina, a física, a história natural, a cosmografia, mineralogia, zoologia, botânica, astronomia e óptica. Nas palavras de José Antunes,
"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da Literatura e da História. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos Autores Clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça".
Naturalmente, era fiel à ortodoxia cristã. Apesar de sua extensa cultura profana, considerava a Escritura sagrada a fonte da ciência superior, da verdadeira ciência, da qual todas as outras eram meras servas e simples coadjutoras no trabalho da Salvação. Por isso deu grande importância a uma boa exegese do texto sagrado, privilegiando a extração do seu sentido moral. Nota-se ainda em sua obra alguns dos primeiros sinais de um progressivo abandono do pensamento medieval, que apresentava o homem e o mundo como desprezíveis e fontes do pecado, abrindo-se a uma apreciação mais positiva da vida concreta e do relacionamento humano, entendendo o ser humano como uma maravilhosa obra divina. Na análise de Pedro Calafate,
"Santo António não olvidará a excelência da contemplação, mas sublinhará não obstante a circunstância terrena do homem como corpo e alma, sem deixar de considerar que a abertura à exterioridade não transforma o amor aos outros e às criaturas no apego à posse das coisas, estando neste caso o culto da pobreza, nomeadamente as críticas severas que dirigiu aos prelados e dignatários eclesiásticos, por se comprazerem nos luxos do século. Tratando-se de uma espiritualidade que não olvidou a dimensão prática e vivencial, equacionou também a relação entre a ação e a contemplação no quadro da mística. Filha da vontade e do amor, numa alienatio mentis que supera o plano estritamente racional para que a alma, inteiramente conduzida pela graça, contemple Deus como em espelho ou em enigma, a mística tampouco representará uma renúncia à vida ativa, nem às exigências da vertente racional do homem, porque a alma volta e regressa à vida ativa para a realizar com maior perfeição, numa confluência entre o entender e o contemplar, o saber e a sabedoria".
Contudo, é de dizer que na forma como chegaram, os ditos sermões são antes um manual didático para os noviços do que transcrições de sermões verdadeiramente proferidos. Foram produzidos para seus alunos, para instruí-los na arte predicatória, a fim de que depois eles pudessem converter com sucesso os pecadores e infiéis à fé cristã. Apesar disso, eles possuem em seu conjunto pouca ordem sistemática.
Os sermões são ainda um precioso documento de época, muitas vezes fazendo alusões às transformações sociais e económicas que ocorriam durante aquele período, atestando o crescimento das cidades, o florescimento das atividades artesanais e do comércio, o surgimento das corporações de ofícios, as diferenças de classes. Além dos conteúdos sacros, que ainda preservam seu caráter inspirador, tais alusões - onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social - são responsáveis pelo valor perene e atual de seus escritos, sendo passíveis de imediata identificação com muitas circunstâncias e contradições da vida contemporânea.

Tradição taumatúrgica

 

Diz a tradição que em sua curta vida operou muitos milagres, como seguem alguns exemplos.
·         Certa feita, meditando à beira-mar sobre a frequente aparição da imagem do peixe nas Escrituras, os peixes ter-se-iam reunido a seus pés para escutá-lo.
·         Teria restaurado um campo de trigo maduro para colheita que fora estropiado por uma multidão que o seguia; teria protegido milagrosamente seus ouvintes da chuva que caía durante um sermão, e uma mulher impedida pelo marido de ir ouvi-lo pôde escutar suas palavras a quilómetros de distância.
·         Quando em disputa com um herege albigense sobre a presença ou não do Deus vivo na hóstia consagrada, o herege, chamado Bonvillo, disse que se uma mula, tendo passado três dias sem comer, honrasse uma hóstia em detrimento de uma ração de aveia, ele acreditaria no santo. Segundo a história, assim que a mula foi liberta de seu cercado, faminta, desviou-se da ração e ajoelhou-se diante da hóstia que António lhe mostrava.
·         Restaurou o pé amputado de um jovem.
·         Soprou na boca de um noviço para expulsar as tentações que sofria, confirmando-o em sua vocação.
·         Quando alguns hereges colocaram veneno em sua comida para verificar sua santidade, o santo fez o sinal da cruz sobre o alimento, comeu-o e nada sofreu, para o vexame dos seus tentadores.
·         Outro milagre famoso trata-se da aparição do Menino Jesus ao santo durante uma de suas orações, uma cena multiplicada abundantemente em sua iconografia.

Também é bastante citado um milagre ocorrido durante sua pregação num consistório diante do papa, inúmeros cardeais e clérigos, e gentes de várias nações, quando, discorrendo com sutilíssimo discernimento sobre intrincadas questões teológicas, cada um dos presentes teria ouvido a pregação na sua própria língua materna. Na ocasião, diante de tão assombroso fenómeno, que parecia uma reedição do Pentecostes bíblico, o papa o teria chamado de "a arca do Testamento, o arsenal da Sagrada Escritura".