sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 123

         Comemorou-se, naquele ano, os 500 anos da primeira representação do auto de Gil Vicente, Monólogo do Vaqueiro.     A Sociedade de Instrução Tavaredense, não ficando indiferente à efeméride, sendo da opinião de que o teatro também serve para nos conhecermos, nada melhor que trazer Gil Vicente para o palco  e aproveitar esta data ‘para lembrar ou relembrar alguns textos vicentinos’. Actores e público, vão ter oportunidade de estar lado a lado e frente a frente, em espaços tidos por convencionais para a prática do teatro, vão poder vivenciar as realidades do século XVI e vão poder compará-las com as realidades do século XXI. ... Na actividade da Sociedade de Instrução Tavaredense patenteia-se o culto do fundador do teatro em Portugal e revela-se o propósito de levar Gil Vicente ao povo, mostrando-o vivo, através das suas obras, sobre tábuas do palco...
         E assim foi. Tavarede é como que uma “ilustre e idosa senhora” que honra e sempre honrou com engenho e arte o culto da representação teatral. O teatro saiu à rua, de alegria estampada no rosto o povo apinhava-se nos recantos sombrios da povoação, a ansiedade sentia-se em cada gesto, o ambiente estava magnificamente ajustado a um pretendido regresso ao passado, as melodias impulsionavam o som de uma sublime flauta encantada, tão típica e marcante da época.
         Os batimentos melodiosos do sino da Igreja de Tavarede despertou Gil Vicente, o povo agitou-se e estava disposto a participar e foliar com sátira vicentina. Em dia quente escaldante, a corte desfilava altaneira as vestes pesadas do tempo, a beleza de luz e brilho de lantejoulas suportadas por artesanais desenhos de purpurina, que nos enchiam a alma e refrescavam os olhos.
         O bôbo da corte saltitava em animação estonteante, em círculos endiabrados e provocatórios, como que aferindo em cada um de nós um potencial e objectivo “réu” de barrete enfiado à sátira de Gil Vicente. O culto vicentino estava agora vivo e bem vivo e pronto para a abertura às eventuais hostilidades satíricas, um palco no meio de um riacho ou recanto escolhido para o “navegar” da dita “Barca do Inferno”.
         Fernando Romeiro era a imagem de um Satanás genuíno, de gargalhadas sonoras e movimentos maquiavélicos, aliciava e justificava passageiros para a sua barca, de diversos extractos sociais e múltiplas artes e ofícios. À sucessão de “Todo o mundo e ninguém”, iniciava-se a caminhada para o Largo de Maria Amália de Carvalho, defronte a um pequenito jardim, como tanto era do agrado de Gil Vicente, assistiu-se ao “Pranto de Maria Parda”, transformado num grande momento de teatro.
         Brilhou uma estrela, feita do povo, e com um dom que Deus lhe deu, e escusado será, que determinados intelectuais do teatro possam pensar que em algum momento deixarei de realçar e individualizar tudo aquilo que me arrepie o coração e estremeça os sentidos.
         Deixe que em primeiro lugar Otília Cordeiro, bem ao estilo medieval, lhe faça uma vénia por uma caracterização a Maria Parda feita de sensibilidade e minúcia e que tanto ajudaram ao êxito de Ilda Simões. Ilda Simões, repito. Encantou tudo e todos, deu espaço ao seu grande talento expressou com uma garra impressionante sentimentos de uma mulher perdida, satirizou, exagerou o quanto baste na procura do culto vicentino, que o diga Simões Baltazar, que ao seu espaço temporal de entrada em acção, no papel de Martim Alho, sorria ao bom sorrir com a performance entusiasmante da sua colega de cena, quase mesmo hipotecando o brilho da sua própria intervenção. Com a “Farsa de Inês Pereira” revelou-se acima de tudo a grande escola de teatro da SIT, onde Cátia, José Pereira e Emanuel Cardoso são a constatação viva de um futuro assegurado para a arte de representação. 
       Do majestoso palácio de Tavarede, o regresso de novo à SIT, onde com o “Monólogo do Vaqueiro”, por mais uma vez, João José soube com mestria interpretar sentimentos distintos de expressão séria e momentos divertidos, num deambular artístico de assinalável mérito. Caíu a noite, na sala de teatro da SIT. Subiu ao palco, na íntegra, “O velho da horta”.
         O professor doutor José Bernardes, convidado especial para as comemorações, fez uma palestra muito interessante, deixando aos presentes indicativos preciosos de como interpretar um autor tão abrangente e complexo como Gil Vicente. Ficaram lamentos de que os 500 anos de teatro em Portugal não sejam motivo de comemorações mais dignas de âmbito nacional e elogiou a SIT por se revelar uma “pedrada no charco” no respeito por tal efeméride.
         Ao momento solene de entrada do Rei D. Manuel na sala e acomodamento nas cadeiras reais, fez-se escuro que nem breu, subiu o palco e lá estava o velho da horta no seu jardim, apaixonado e ao mesmo tempo enganado por si próprio, por um amor inantingivel onde a irreverência da juventude venceu a velhice inconformada. Um jardim verdejante e colorido, onde marcou pontos o magnífico jogo de luzes, que deu um ambiente de cena distinto e com atributos de bom gosto.
         O elenco foi como fechar com chave de ouro, como a fina flor, que divertiu e arrancou gargalhadas e, por fim, fortes aplausos de uma assistência que enchia quase por completo a sala
         O “velho” da horta era Rogério Neves. Senhor de um grande à-vontade no palco, deliciou e divertiu a plateia com momentos de expressão artística ímpares para o dito meio amador. Soube ser rigoroso consigo próprio, porque afinal de contas, não deve ser fácil exibir uma curvatura na coluna durante todo o espectáculo, que não lhe é peculiar na vida real. Por ali haverá, decerto, também o “dedo” de uma encenação cuidada.
         Uma jornada inesquecível, mais uma página escrita no já valioso património cultural da Sociedade de Instrução Tavaredense. Quanto a Gil Vicente, o agradecimento por continuar, 500 anos depois, mais vivo do que nunca.

         O centenário da Sociedade aproximava-se. Uma comissão, conjuntamente com a direcção da colectividade, assumiu o encargo da realização das comemorações. Uma das principais preocupações era estabelecer um programa em tudo digno do passado da associação. A primeira iniciativa, com o objectivo de começar a angariar fundos, pois havia a intenção de suportar todos os custos, através de subsídios a angariar e de realizações a efectuar, foi a de realizar mensalmente um almoço, no pavilhão desportivo, aberto a todos os associados, suas famílias e amigos da colectividade. E na reunião de 21 de Agosto de 2002 foi aprovada a ideia da organização de um almoço mensal a realizar no nosso pavilhão, para o que foi pedida a colaboração a um grupo de senhoras que habitualmente colaboram com a Colectividade, para a preparação e serviço destes almoços. Como curiosidade, registamos que o primeiro destes almoços teve lugar no dia 13 de Outubro de 2002, tendo o prato principal sido “sopa da pedra”.

São sobretudo mulheres. Justiça seja, porém, feita aos homens que também suam as ‘estopinhas’, mais na preparação da sala e da tenda – onde se vendem rendas e bordados e se pode ‘brincar’ às rifas -, do que propriamente na cozinha, com a mão na massa ou, no caso deste último domingo, na feijoada. Eles ajudam, é certo, mas elas trabalham, desde cedo, para que, por volta da uma da tarde, tudo esteja pronto. Parecem abelhas operárias, incansáveis no seu entra e sai entre a cozinha e a copa, espreitando panelas e descascando batatas ou golpeando castanhas. Entre o cheirinho da comida caseira e gracejos, vão dizendo que estão ali por gosto, porque quase nasceram na SIT, porque sentem orgulho em contribuir para que a festa do centenário da SIT, em 2004, ‘seja em grande’.
         …………………..
         A estas mulheres não se coloca sequer a questão de poderem não alinhar nestas iniciativas. Em pleno século XXI, tempo áureo do egoísmo e do lucro, estas mulheres (pronto, e os homens também, que sempre dão uma mãozinha), entregam-se sem pedir ou esperar nada em troca.
         Ainda que a comida não fosse caseira e, segundo informações de testemunhas no local, saborosíssima, mesmo assim, valia a pena uma visita. Há dúvidas? Então acabe com elas (e com o cozido à portuguesa) no próximo almoço, a 7 de Dezembro”.

         Em Dezembro de 2002, encontrámos uma notícia que nos interessou imento. ‘Amigos do Teatro Os Carolas’ é a denominação de um grupo cénico residente nas instalações do Grupo Musical de Instrução Tavaredense, que se estreou no passado domingo. A apresentação contou com uma sessão de fados e rábulas de revista com assinalável êxito. O grupo volta a actuar no próximo domingo, pelas 17 horas, na festa de Natal destinada às crianças da colectividade. Refira-se ainda que esta colectividade da ‘terra do limonete’ reabriu, no passado fim de semana, a sala de convívio e bar, alvo de uma recente remodelação.

         Vamos, agora, fazer uma brevíssima pausa na nossa história do associativismo em Tavarede. Havia já quatro ou cinco décadas que a Figueira sofrera um enorme desenvolvimento, graças à instalação de diversas e importantes unidades industriais, bem como à dinamização do seu porto marítimo. A população teve um aumento extraordinário. No entanto, grande parte dos novos habitantes, optou por se instalar, com seus agregados familiares, nos subúrbios citadinos. Tavarede, pela sua proximidade com a cidade, foi um dos lugares mais escolhidos. A densidade populacional da nossa freguesia em breve se tornou uma das maiores do nosso concelho.

         Isso não trouxe, contudo, igual aumento ao associativismo local. Os novos residentes, certamente como reflexo da sua própria vida privada, isolavam-se no seu lar. Saíam cedo para os seus trabalhos e só regressavam à noite, hora a que a família se juntava. Tal facto acabou por trazer novos hábitos. Natural o serão familiar em casa, com a leitura dos jornais e vendo televisão. Era o isolamento. As colectividades passaram a ser pouco frequentadas.


         Uma das principais consequências passou a ser a dificuldade da formação dos chamados ‘corpos directivos’, pelo que começaram a surgir pequenas crises. Já vimos que a Sociedade de Instrução, por exemplo, foi necessário o aparecimento de um grupo de senhoras que, para manter a colectividade em funcionamento, tomaram a deliberação de assumir a gerência da associação. Outras houve que fecharam as suas sedes, somente as reabrindo a vontade e dedicação de alguns sócios mais corajosos. E, acentue-se, as colectividades continuavam a ser necessárias às populações. 

sábado, 4 de abril de 2015

Histórias e Lendas - 27

O lugar da Figueira da foz do Mondego
O abade Pedro e S. Julião


Na vossa presença, senhoras e senhores, saudando-vos com alegria nesta noite de festa o Couto de Tavarede. Certamente por ser assim tão velho – já lá vãp quase oito séculos, desde que o nosso Rei D. Sancho I e a Rainha D. Dulce instituiram e doaram à Sé de Coimbra, em 1191, o Couto de Tavarede – talvez por ser tão velho, dizia eu, me mandaram hoje aqui a fazer o prólogo da peça que vamor representar. Procuraremos demorar-nos o menos possível neste proscénio; e, sem preocupações cronológicas e deixando aqui e ali voar a fantasia, mostrar-.vos-emos algumas figuras e reviveremos episódios da nossa história local, desde o Aqbade Pedro, que reergueu a igreja de S. Julião e encheu de famosda vinha a encosta da Abadia até às águas do Paúl; passaremos pela velhinha Vila de Tavarede, que já no ano de 1064 da era de Cristo aparecia referida como estando situada na borda do mar; falaremos das folhas de uma figueira que não se sabe ao certyo se existiu – mas que não era, já se deixa ver, aquela figueira que generosamente cobriu a nudez do Pai Adão quando ele, no Paraíso, se apercebeu de que estava nu; - iremos encontrar-nos com a Vila da Figueira da Foz do Mondego; e iremos todos saudar, jubilosamente, a nossa Rainha das (Viagem na Nossa Terra – Prólogo – de José da Silvca Ribeiro).
         Esta peça-fantasia, levada à cena do ano de 1982 pelo grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, serviu de homenagem à jovem cidade da Figueira da Foz, que então festejava o primeiro centenário da sua elevação, pelo Rei D. Carlos, à categoria de cidade. Tavarede, que durante séculos, foi a sede do concelho, homenageou desta forma o lugar da Figueira da foz do Mondego, seu súbdito até ao ano de 1771.
         Vamos, assim, recordar, ainda que resumidamente, este velho lugar, o Abade Pedro, de que acima se fala, e S. Julião, patrono do lugar. Sabe-se ques o pequeno povoado existente wm torno da igreja de S. Julião, habitado sobretudo por gente que vivia do mar, terá sido arrasado no ano de 712 aquando das invasões dos mouros.
         Depois da tomada de Coimbra e toda a sua vasta região aos mouros pelo Conde D. Sisnando, nascido em Tentúgal, este enviou para a nossa região, com o encargo da sua reconstrução e repovoamento, Ciudel Pais, para o lugar de S. Martinho de Tavarede, e o Abade Pedro, para o lugar da Figueira da foz do Mondego.
         Do lugar reconstruído pelo Abade Pedro recolhemos e transcrevemos um pouco da sua história. Lugar de ocupação humana muito antiga, fez parte do reino suevo, e mais tarde viria a ser conquistada aos mouros aquando a conquista de Coimbra por Fernando Magno em 1064, integrando o Reino de Leão e consequentemente o Condado Portucalense.
A Figueira da Foz conheceu um grande crescimento no século XVIII devido ao movimento do porto e ao desenvolvimento da indústria de construção naval.
Foi elevada à categoria de vila em 1771. Continuou a crescer ao longo do século XIX devido à abertura de novas vias de comunicação e à afluência de veraneantes.8 Em 20 de Setembro de 1882, foi elevada à categoria de cidade. Nos finais doséculo XIX e início do século XX construiu-se o chamado Bairro Novo, de malha regular, onde se instalaram os hotéis, o casino, restaurantes, bares nocturnos e alguma actividade comercial. Outro local onde a actividade comercial é evidente é na Rua da República, que liga a zona de entrada da cidade (via Estação dos caminhos-de-ferro) à zona mais central da cidade. Nos últimos tempos foram construídos supermercados e hipermercados na zona mais periférica da cidade. Devido às condições naturais e ao equipamento turístico, a Figueira da Foz impôs-se como estância balnear não apenas para a zona centro de Portugal, mas também para famílias abastadas alentejanas e espanholas. A Figueira da Foz é conhecida como a "Rainha das Praias de Portugal".
Foi próximo desta localidade que, no início do século XIX, desembarcaram as tropas inglesas comandadas por aquele que mais tarde seria Duque de Wellingtonque vieram ajudar Portugal na luta contra as Invasões Francesas.
O Casino da Figueira da Foz foi inaugurado em 1927, sendo assim o casino mais antigo da Península Ibérica.
A Câmara Municipal da Figueira da Foz foi feita Comendadora da Ordem de Benemerência a 30 de Janeiro de 1928 e Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública a 31 de Dezembro de 1932.9
Em 1982, ano em que se comemorou o Primeiro Centenário da Elevação a Cidade da Figueira da Foz, foi inaugurada a Ponte Edgar Cardoso, que veio substituir a ponte antiga (que não permitia que embarcações passassem sob si). A nova ponte, que rapidamente se transformou num ex-libris da cidade, é considerada uma das mais bonitas e imponentes do país.[carece de fontes] Foi, recentemente, alvo de profundas obras de remodelação. A 6 de Julho desse ano a Cidade da Figueira da Foz foi feita Membro-Honorário da Ordem do Infante D. Henrique  e a 31 de Janeiro de 1986 a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi feita 80.ª Sócia Honorária do Ginásio Clube Figueirense.
A Torre do Relógio (situada em frente à Esplanada Silva Guimarães, na Praia do Relógio e não Praia da Claridade) é, igualmente, uma das referências da cidade, bem como o Forte de Santa Catarina. Situa-se também nesta cidade o Palácio Sotto-Mayor, que marca história numa zona mais central da Figueira da Foz. O Parque das Abadias é um dos "pulmões" da cidade e um local de lazer, onde se realizam algumas provas de corta-mato e várias iniciativas com vista a proporcionar momentos agradáveis aos cidadãos do concelho. Este Parque atravessa a cidade ao meio, indo desde a zona norte da cidade até ao Jardim Municipal, que sofreu, recentemente, intervenções de remodelação.
         Referindo-nos agora ao Abade Pedro, que cerca do ano de 1080, e por ordem do Conde D. Sisnando, reconstruíu o lugar e a igreja de S. Julião, sabe-se que no ano de 1096 fez testamento fazendo doação à Sé de Coimbra.
"Eu, Pedro, abade, por amor de Santa e Indivídua Trindade, faço à igreja de Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria da Sé episcopal de Coimbra, doação da igreja de S. Julião, que está situada na margem norte do rio Mondego, junto à praia, a qual noutro tempo foi saqueada e destruída pelos Sarracenos".
Começa assim o testamento do abade Pedro, feito em 1096, conforme se acha transcrito no Portugaliae Monumenta Historica. O Abade, pelos seus serviços, recebeu do conde Sisenando "além da abadia de S. Julião, todas as terras cultas e incultas que ficavam ao oriente, designadas já naqueles tempos pelos nomes de Casseira, S. Veríssimo (Vila Verde) e Fontela, o que junto com a herdade de Lavos constituía uma grande riqueza". 
(Album Figueirense)
“... Mas por agora iremos ver a tão falada vinha plantada pelo Abade Pedro... ... A vinha plantada e as casas reconstruídas pelo Abade Pedro, tudo é pobre...”. (Viagem na Nossa Terra).
 
Recordemos, agora, S, Julião, padroeiro da Figueira. No século III nasceu Julião, filho de um casal cristão muito devoto e rico que lhe deu uma educação esmerada e requintada desde a tenra idade. Depois, desejosos de ver o filho bem casado para constituir uma sólida e cristã família, decidiram consolidar o seu matrimónio, aos dezoito anos, com a jovem Basilissa. Extremamente obediente, o rapaz, que nunca havia mencionado seu voto de castidade à familia, realizou o sonho dos pais e se casou com a bela e suave jovem que, como ele, procedia de uma próspera e bem situada família seguidora dos mesmos preceitos cristãos que a de seu noivo.
Uma vez casados, Julião, com gentileza, conversou com a esposa Basilissa e juntos fizeram um pacto de consagração a Deus para se dedicarem a Seu serviço, apesar do sacramento matrimonial. Assim a união carnal não se concretizou e ambos permaneceram virgens. Somente após a morte dos pais é que os dois puderam viver a vida espiritual na plenitude almejada. Usando seus bens, cada um fundou um mosteiro: Julião, o masculino e Basilissa, o feminino. Com o saldo do património mantinham várias obras de caridade e sustentavam os mosteiros, que funcionavam também como hospitais para atendimento dos mais necessitados. O de Basilissa atendia especialmente aos leprosos.
Nesse período o Cristianismo vivia os seus tempos mais trágicos, o das perseguições sanguinárias impostas em todo o Império pelos tiranos Diocleciano e Maximiano. Em auxílio aos cristãos surgiu Julião, que em certa altura chegou a abrigar em seu mosteiro mais de um milhar que procuravam refúgio das implacáveis investidas. Porém foi denunciado e viu aos poucos todos serem julgados e condenados ao suplício e à morte pelo testemunho da fé. Até que chegou sua vez. Como se recusou a adorar os ídolos pagãos e renegar a fé em Cristo foi martirizado por um longo periodo. Segundo os registos dessa época arquivados pela Igreja, o periodo foi descrito como de muitas torturas e sofrimento, mas também de muitos prodígios e graças ocorridos através das mãos de Julião.
Julião terá nascido em 250 e foi finalmente assassinado e pôde descansar em paz em 09 de Janeiro do ano de 302
O povo passou a reverenciar sua imagem com alguns dos simbolos que caracterizaram a sua vida: a Bíblia, fundamento da sua fé e a fonte de onde bebeu o amor ao próximo; a palma, símbolo do martírio; e a capa arrepanhada e puxada para cima para facilitar o seu andamento, simbolo da sua disponibilidade para os outros.
Basilissa conseguiu ser poupada, vivendo junto aos mais miseráveis e pobres leprosos os quais tratava como filhos. Ela morreu algum tempo depois, dizem que em 18 de Novembro de 304, tendo promovido muitos prodígios de cura e graças. 
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Cerca de 3 séculos depois, junto à foz de um rio denominado Mondego  na altura um lugar isolado e remoto, foi edificada uma abadia para acudir aos pescadores de lugares das redondezas - esses sim habitados - tais como Vila Verde, Caceira e Lavos, e que regressavam da faina necessitando de ajuda.
Foi esta intenção de ajuda aos homens que vinham do mar que levou à atribuição da designação de São Julião à então abadia, devido a ele também ter vivido numa cidade junto a uma foz (Antinoe, Vale do Nilo) e ajudado espiritualmente e na doença as suas gentes. 
 

Esta Abadia foi destruida em 717 pelos sarracenos e assim ficou até 1080, ano em que o Conde D. Sisnando ordenou a edificação de várias igrejas na região e a reconstrução da igreja junto à foz do Mondego com uma boa torre, bem como a construção de casas em seu redor. Atribuidas as terras, foi o Abade Pedro o encarregado de tal missão, executada em 16 anos. Em 1096 o Abade Pedro faz a doação da Igreja de São Julião à Igreja de Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria da Sé Episcopal de Coimbra.
As casas deram origem a uma povoação, que logicamente baseou na igreja o seu nome: São Julião da Foz do Mondego. Terá sido nesta data que surgiu esta primeira designação do casario que deu origem ao actual nome de Figueira da Foz.
Na segunda designação já entra a palavra “figueira”, e “São Julião” fica unicamente confinado à igreja. Com o avolumar do povoado, eram muitos os barcos de vários casarios junto ao Mondego que desciam o rio até à foz para comerciar produtos, simples passeios ou veraneio, aqui amarrando os barcos a uma copada de árvores, onde existia uma frondosa figueira  e em cuja sombra os barqueiros serranos faziam as suas transacções, permutando com os moradores lenha e carqueja da respectiva produção, por sal e peixe fresco. Era a Figueira da Foz do Mondego e estava-se em 1237, ano em que o Cabido da Sé de Coimbra concessionou os lugares de Figueira e Tamargueira a Domingos Ioanes, Martinho Miguel e Martinho Gonçalves.
Uma informação paroquial datada de 1721 fornece alguns pormenores importantes sobre o notável e popular lugar ou vila..
Em 1771 foi elevada à categoria de Vila por D. José I. Foi a partir desta data que o nome se foi simplificando e que tomou, definitivamente, a designação de Figueira da Foz.
Os últimos 30 anos do século XIX são fecundos em realizações. Foi neste periodo que a Figueira da Foz foi elevada a cidade, no ano de 1882. Nos dez anos que precederam a elevação a cidade registou-se um conjunto assinalável de obras demonstrativas da pujança do lugar.
(blogue O Palhetas)

O Associativismo na Terra do Limonete - 122

         E em Maio do mesmo ano de 2002, coube ao Grupo Desportivo e Recreativo da Chã festejar o seu 26º aniversário.   O GDRC nasceu há 26 anos, por imperativo da equipa de futebol de onze, que surgiu e que, para se filiar no INATEL, necessitava de uma sede social. A associação foi constituída e, depois dessa mesma sede funcionar, durante algum tempo, num espaço cedido por um dos sócios fundadores, surgiu a oportunidade de comprar um terreno com vista à construção de um edifício que serviria para a instalação da referida sede e onde também se pretendiam arranjar espaços para servir os sócios e toda a comunidade. Com a colaboração de todos os sócios, foi-se dando corpo, pouco a pouco, ao espaço físico hoje existente.
         A actividade mais antiga desta colectividade é a que, como já referido, deu origem à sua criação: o futebol., disputando anualmente o campeonato distrital do INATEL. Depois, seguiu-se a criação de um grupo cénico, que todos os anos participa nas Jornadas do Teatro Amador promovidas pelo Lions Clube da Figueira da Foz.
         O Rancho Estrelinhas da Chã, fundado há 16 anos, tem diversas actuações em todo o país, com a participação em diversos festivais de folclore e organizando todos os anos o seu próprio festival. As duas secções mais recentes do GDRC são o grupo de dança ‘Nice Dance’, composto por 12 meninas entre os 5 e os 14 anos de idade, e a escola de música, neste momento com 10 alunos.
         Apesar do espaço físico, novos projectos e novos objectivos traçam o trabalho para a actual direcção que tomou posse no passado dia 1 de Maio, data em que se festejou 26 anos e que teve lugar a tradicional sessão solene.
         Fátima Trigo, que foi reconduzida no cargo de presidente da direcção, salienta como obra mais importante concretizada no último mandato a sala de espectáculos, para a qual recebeu um apoio financeiro de seis mil contos por parte da Comissão de Coordenação da Região Centro e ainda 900 contos do Governo Civil, pelo que afirma, no capítulo dos apoios, que “não me posso queixar”. A sala ficou dotada de uma plateia fixa, sistema de luzes e som e outros equipamentos de apoio.
         Como projectos mais importantes, e para um futuro próximo, Fátima Trigo destaca “uma alteração ao visual do bar”, com a criação de “um espaço jovem” com salas de máquinas, e ainda uma biblioteca.
         Mas os projectos contemplam ainda a criação de uma área de lazer no prolongamento do terreno da colectividade que “de momento não está a ser rentabilizado”. Pretende-se, nesse local, implementar também um equipamento desportivo de apoio, como um campo de ténis ou basquetebol. Futebol está fora de questão uma vez que coloca-se a possibilidade de, em parceria com a Junta de Freguesia de Tavarede, dinamizar o polidesportivo da Chã (ainda sem luz).
          
         Ainda em Março, e reportando-se ao teatro tavaredense, encontrámos mais a seguinte nota. A SIT apresentou, recentemente, as peças “O meu caso” de José Régio e “O Canto do Cisne” de Anton Tchekov.
         O “Canto do Cisne”, com encenação de Ilda Simões coloca em cena dois personagens, Vassili Vassilievitch (João Medina) e Nikita Ivanitch (Manuel Lontro) na qual um deles, Vassili, sente chegado o fim da sua carreira e relembra o seu passado de entrega ao palco. Curiosamente, o texto de Tchekov é quase uma remake dramática da vida do próprio João Medina, que tem a mesma idade que o personagem, mas certamente mais de 45 anos de teatro.
         Medina revela mais uma vez ser um actor de valor e a contra-cena com Manuel Lontro chega a ser comovente, pois a saga dos personagens confunde-se com a dos actores. Mau grado alguma dicção pouco marcada e com dificuldades de entendimento para a sala, os gestos, a inquietação, a dor e as emoções do personagem Vassili transferem-se para o público com facilidade.
         Em “O meu caso”, de José Régio, a situação é contrária. Valdemar Cruz tem dificuldade em ser credível dando pouca autenticidade ao personagem. A peça, que tem falhas de ritmo, conta com duas soberbas interpretações: uma inexcedível Paula Simões, que faz o papel de uma actriz fútil e vazia, vivendo da sua vaidade e narcisismo e uma Maria da Conceição Mota, segura, rítmica, convincente no seu papel de “autora”. Boa nota para o conjunto e para a “coragem” estética da encenadora.

         Depois de ter participado nas Jornadas do Teatro Amador com a peça de Pirandello, o grupo cénico da SIT voltou a apresentar uma nova peça do dramaturgo português, Luís Francisco Rebelo. E é relativamente a esta peça que encontrámos este apontamento. Luiz Francisco Rebello, ao ter conhecimento através da Antena 1, que a SIT estaria a ensaiar a peça “É urgente o amor”, contactou-nos para nos informar que tinha escrito uma segunda versão e que gostaria que nós a representássemos. Ficámos muito sensibilizados e de imediato lemos esta versão que o autor teve a amabilidade de nos enviar, dado ainda não estar publicada. Como houve necessidade de fazer algumas alterações, pois já estávamos numa fase de trabalho adiantada, tivemos um encontro com o Dr. Luiz Francisco Rebello para lhe dar conhecimento da forma que tinhamos encontrado para solucionar o problema que esta segunda versão nos colocava. Tendo o autor concordado com a forma que encontrámos para representar a peça na sua segunda versão, de imediato fizemos as alterações e estamos prontos para levar à cena este drama magnífico e bastante actual.
A par de amadores com larga experiência de Palco, temos gente com pouca ou nenhuma experiência no Teatro mas com uma enorme vontade de aprender. Esperamos de novo ter a colaboração da Imprensa para a divulgação deste espectáculo e gostaríamos de no dia 24 de Abril poder contar com a vossa presença.

O Doutor Luiz Francisco Rebello assistirá à estreia da nossa peça, o que muito nos honra. Embora já não seja a primeira vez que este autor se desloca à SIT é sempre um enorme prazer ter a presença de uma pessoa de tão grande mérito na nossa Casa.
          A primeira representação teve lugar no dia 24 de Abril de 2002. Apresentando em estreia, com lotação esgotada e honras de presença do autor da peça – Luís Francisco Rebello – e também do engº Duarte Silva com alguns dos seus vereadores, a peça “É urgente o amor”, a Sociedade de Instrução Tavaredense deu uma lição de como é possível pôr a evolução tecnológica ao serviço do teatro de qualidade, aspecto a merecer uma referência muito especial para os homens que do escuro dos bastidores souberam fazer dos efeitos de luz “actores” decisivos na espectacularidade da representação, prescindindo das tradicionais descidas de pano para mudanças de acto.
         E foi, apoiados nessa mais-valia dos desenhos de luz, que os oito personagens “viveram” a tragédia da jovem Branca (Luísa Rosmaninho, com a naturalidade espantosa de transformar os problemas de há meio século em chagas de hoje) vítima daquela encruzilhada de vidas sombrias onde a mãe (Ilda Manuela Simões essa continuadora da escola de mestre José Ribeiro que lhe permite ser “pau para todo o serviço” – actriz a fazer inveja a muitos profissionais, encenadora de méritos reconhecidos e que nesta peça soube ganhar o desafio desta coabitação com os desenhos de luz, onde é justo deixar um aceno de muito apreço para José Miguel Lontro) soube assumir a mentira que serviu de suporte à peça em que os papéis de maus do enredo tiveram magnífica interpretação nas pessoas de João José Silva (Alberto, o ausente da terra mas sempre presente no palco e direcção de cena, peça da mobília), e José Medina, um “Jorge” à medida das circunstâncias (dificílimas) em que se viu envolvido naquela teia de mentiras tão bem realçadas na penumbra da repartição de polícia onde o chefe (António Barbosa) e o seu agente (João Pedro Amorim) cumpriram as formalidades de assinalar o desenlace fatal esquecendo as denúncias de Margarida (Paula Sofia Simões), esposa traída, e da Madalena (Susana Neves), a falsa amiga da vítima
         Porque as exigências técnicas de apoio à peça não deverão permitir a representação desta fora do Teatro da SIT, razão porque não está integrada nas Jornadas de Teatro Amador, e porque a alta qualidade do desempenho justificam plenamente a presença de quem tem gosto pelo bom teatro, aconselhamos uma deslocação a Tavarede para assistir a “É urgente o amor” numa das repetições que a muita afluência registada justificam.

         Ainda sobre esta peça e sobre a sua apresentação pelo grupo dramático da SIT, vamos transcrever mais uma nota encontrada. Sorririas, mestre Ribeiro, se ao lado de todos nós, presenciasses a todo um ideal que defendeste, a toda uma postura fiel a uma escola por demais viva e marcante, onde os teus princípios se traduziram não só na escolha do grande autor dramaturgo Luís Francisco Rebelo, mas em toda a envolvência programática feita de rigor, disciplina e método, aliado a uma grande alma e teatro, bem patente na dedicação, talento e garra desta gente do “povo comum”, que te honra e te segue passo a passo.
         Foi a primeira vez, mestre Ribeiro, que pisei esta sua segunda casa, quando junto à Igreja de Tavarede iniciei caminhada a pé, escalando o pequeno percurso das ruas estreitas em direcção à SIT. Depois da primeira subida, o corte à direita, uma grande luz iluminava a colectividade e logo a dita “catedral do teatro” estava ali, em frente aos meus olhos.
         A azáfama era grande entre os que organizavam as entradas e acomodamento do público e aqueles que metodicamente colocados nos seus postos, se preparavam para dar corpo à envolvência da representação, com um ambiente cenográfico adequado e, diga-se com justiça, perfeitamente conseguido.
         Às pancadas de Molière sucedeu-se um grito de angústia e morte, ao silêncio espectante da plateia, a envolvência arrepiante do resgate de uma causa perdida, o barulho ritmado das hélices de um helicóptero, as luzes em movimento estonteante, num bailado aflito de desespero e drama, e o público ali no meio, tomando conhecimento e certificando-se do inevitável fim de Branca, uma jovem que entre o inconformismo e a esperança, procurou o amor, sem nunca o ter conseguido. 
         Orgulhosa poderá e deverá estar esta autêntica equipa da SIT, porque para além do mais, apresentou aspectos técnicos que tiraram um maior rendimento à pretensão da mensagem transmitida. No palco, um ambiente tão curioso quanto enigmático, onde a determinados “espaços de acção”, se juntavam a totalidade ou quase totalidade dos personagens, embora em ambientes perfeitamente definidos, a delegacia policial, Branca no além, ora prostrada no chão representando a morte, ora em acesas discussões e interpelações, com um alinhamento à sua volta, das pessoas da sua relação, ou ainda no exercício do regresso ao passado no espaço íntimo do seu próprio quarto. Tudo isto com o auxílio caprichado de um jogo de luzes onde cada individualidade alternava a acção com um silêncio presente, quedo e mudo, na penumbra do palco e numa postura comprometedora de conivência e sentido e culpa pelo desenlace fatal. Foi o prender da plateia a cada um dos intervenientes, mantendo uma relação forte entre o público e aquilo que cada uma significava para a procura da verdade.
         António Barbosa e João Amorim, ou melhor dizendo, o chefe e o agente Simões, de forma segura, serena e tranquila, conseguiam materializar a imagem pretendida de uma força de autoridade, que por função tinha deslindar um caso de hipotético acidente, suicídio ou homicídio, mas com um tal empenho de carácter duvidoso, entre a investigação dos factos e o interesse preferencial de umas boas palavras cruzadas, onde o saber qual o imperador romano com oito letras se lhes afigurava um objectivo de primordial importância.
         Susana Neves, no papel de Madalena, evidenciou atributos de uma artista em potência, com uma forte sensibilidade e uma margem enormíssima de progressão. Esta Madalena, nada arrependida de considerar os homens todos iguais e a mesmo tempo nutrir um carinho demasiadamente “especial”... por Branca.
         João Silva mostrou talentosamente como um drama não é só representação “séria” como pensará o “senso comum”. Com passos de quem bem conhece os caminhos de um palco, levou à cena o personagem Alberto, naquele que se pode afirmar tratar-se de um “chulo de cinco estrelas” que não via com bons olhos quando o dr. Jorge ameaçava deixar Branca, sua namorada, o que obviamente lhe colocaria instabilidade financeira. Por acréscimo da sua falsidade e cobardia, fugia a sete pés quando via o mar mais alto que a terra, nas discussões de Branca com sua mãe, provocando momentos de grande divertimento na plateia.
         Um elenco acima de tudo experiente, onde José Medina assume essa forte mensagem em cada palavra e em cada gesto, de como o tempo amadurece e dá consistência, como na vida também no teatro. E assim foi a melhor escolha para um dr. Jorge, com uma bonita idade para... não ter juízo assumindo-se com um verdadeiro mecenas que vivia entre o adultério e o conceito de família respeitosa, que não podia ser beliscada fosse por que preço fosse.
         Ilda Simões estará decerto duplamente feliz, porque na qualidade de encenadora viu a sua gente dar expressão aos seus desejos, com actuações de grande qualidade artística,  que ao facto não será alheio a sua galvanizante presença em palco, onde no papel de mãe de Branca, fez jus a uma brilhante interpretação feita de engenho e arte, num apelo muito forte ao estado de alma que apenas advém de uma genuina artista de teatro.
         Mãe de Branca era, como dizia Alberto, um “velho coiro” que incentivava a sua filha a uma relação amorosa com o dr. Jorge, de forma a tirar dividendos financeiros de tal situação.
         O bom e o bonito foi o aparecimento de Margarida, esposa do dr. Jorge e autêntica figura mistério, com acção apenas na parte final da história. Revelou a todos, e especialmente ao seu marido, que afinal de contas sabia de tudo, sofrendo no silêncio e na ânsia de recuperar só para si o dr. Jorge. Acabou por interferir também no labirinto de desencanto que levou à morte de Branca. Paula Simões, num menor tempo de actuação, provou com Margarida não deixar créditos por mãos alheias e chegar aos níveis altos dos seus colegas.
         Luísa Rosmaninho (Branca), que excelentes momentos nos proporcionou, mais um grande exemplo de que não é só preciso saber-se fazer teatro, isto no que concerne puramente aos aspectos técnicos de representação, mas também sentir o teatro, e se assim se pode dizer, com a sensibilidade do coração, numa aproximação de como quase fosse uma situação real.
Procurou dentro de si as suas qualidades inatas, que não se compram, não se vendem, não se aprendem, mas apenas teremos que lhes dar espaço para se revelarem. Luísa Rosmaninho é sem dúvida um nome a fixar.

Em tempos de tão badalada crise teatral, em boa hora organizou e apoiou o Lions Clube da Figueira da Foz estas jornadas de teatro amador, e se crise existe, então digo eu com toda a certeza, de que afinal não é geral e Tavarede é mais um bom exemplo e como o teatro no concelho da Figueira da Foz está forte e vivo e, sinceramente, recomenda-se.

sábado, 28 de março de 2015

Histórias e Lendas -

                   Muito usual, especialmente nas tardes passadas nos pinhais, era o chamado jogo de tracção. Formavam-se duas equipas e com uma corda, que cada equipa puxava numa ponta, procurando mostrar mais poder, arrastando a equipa adversária.
  
Muitos outros eram os chamados jogos tradicionais jogados na nossa terra e nas outras aldeias. Não vamos enumerá-los todos, pois praticamente era uma tarefa impossível. Mas não podemos esquecer uma referência aos chamados jogos de cartas. Fomos à busca da sua história.
Há indícios de que as cartas de baralho surgiram na China, por volta do século X a.C. O baralho criado antigamente, foi recebendo alterações até chegar ao popular baralho que conhecemos e, ainda hoje, existem variações diversas.É difícil mensurar a quantidade de jogos de baralho que existem no mundo, mas existe uma coleção de livros, "Os Melhores Jogos do Mundo", que tem um volume destinado a falar sobre os jogos de carta, e apresenta 128 opções de jogos. Além dessa quantidade imensa de jogos, as regras de cada um deles variam de região para região pois, ao serem disseminadas, foram adaptadas pelos jogadores.
O baralho atrai por ser um único instrumento de distração que pode ser usado de várias maneiras distintas, ou seja, é possível distrair-se com vários jogos distintos, utilizando-se da mesma ferramenta.

Na nossa terra os mais costumados eram a sueca, o garujo, copas e o marimbo. Comecemos pela sueca.  Requisitos Para jogar, são necessários quatro jogadores, divididos em duplas, sentados à volta da mesa, de modo que cada dupla fique a frente uma para a outra. O baralho de sueca não contém as cartas "8", "9" e "10" Joga-se no sentido contra-horário e cada jogador deverá receber 10 (dez - uma vez que o baralho contem 52 cartas, ao reterar os 8 9 e 10 ficará com 40, e 40 a dividir por quatro jogadores é 10) cartas, de modo que o baralho todo seja usado. É importante frisar que o baralhar, cortar e distribuir das cartas segue uma ordem rígida e específica, de modo que qualquer irregularidade (intencional ou não) neste processo resultará em penalidade para a dupla infratora(caso o jogo tenha se iniciado).

Supondo uma mesa composta (no sentido contra-horário) por A, B, C e D, onde A e C formam uma dupla, e B e D outra: A baralha, C corta, D distribui e A começa. A cada rodada do jogo, a "mão" roda para a direita, fazendo então com que B baralhe, D corte, A distribua e B comece.
O jogador que for o distribuidor de cartas poderá escolher se distribuirá as cartas começando por si ou se será o último a receber. Se escolher ser o último, começará distribuindo as cartas para sua direita e seguirá a ordem. Sua última carta deve então ser virada para que todos possam ver e o naipe desta carta determina o naipe do trunfo. Caso escolha começar por si, a carta do trunfo deverá ser a primeira a ser virada do monte, destribuindo para a sua esquerda. De recomendar que as cartas depois de cortadas devem ser juntas num só monte, não podendo haver mais que um monte em cima da mesa.

Regras do Jogo - Lembra-se que a sueca, diferentemente do truco é um jogo "calado"; parceiros não podem conversar entre si em nenhuma hipótese, sob pena de cancelar a rodada actual e iniciar outra. De nenhuma maneira é permitido que os parceiros mostrem suas cartas um para o outro, mas não há problema em mostrar suas cartas para o jogador seguinte se alguém assim o desejar (apesar da desvantagem estratégica). Não se poder colocar nenhuma carta em cima da mesa enquanto não chegar á sua vez de jogar.

O jogador determinado deve então iniciar o jogo colocando uma de suas cartas sobre a mesa. Esta carta define o naipe da puxada (naipe que todos os jogadores deverão seguir). Quando todos os jogadores tiverem colocado suas cartas na mesa, aquele que colocou a carta mais alta "ganha" aquela vaza .
 A cada vaza ganha, as cartas são viradas com seus valores para baixo (apenas depois que todos os jogadores possam ver que cartas foram jogadas) e guardadas em uma pilha separada por um dos membros da dupla que a ganhou. O jogador que colocou a carta mais alta então deve voltar o jogo, ou seja, colocar uma nova carta na mesa definindo uma nova puxada.
Não é permitido olhar as cartas que já foram jogadas em cada monte de cartas usadas, mesmo que o interessado tenha ganho aquela vaza anteriormente. Única exceção se abre para a vaza recém-jogada, desde que não se tenham colocado novas cartas na mesa.
Em determinado momento do jogo, se um jogador não possuir o naipe da puxada, ele pode colocar uma carta de qualquer naipe na vaza. Se a carta que o jogador escolher for do naipe do trunfo, então o jogo está cortado, e irá para este jogador, a não ser que seu adversário corte mais alto, colocando uma outra carta de trunfo superior à primeira.
Nota-se no entanto que: a)Todos os jogadores que ainda puderem, deverão obrigatoriamente seguir o naipe da puxada, independentemente do jogo ter sido cortado ou não b)Se uma dupla desconfiar que seus adversários quebraram a regra "a", podem acusar renúncia por parte dos adversários. c)Se um jogador puxar de 4 ases seguidos os adversários ganham automaticamente 4 pontos.
Ao invocar o item "b", os acusadores podem rever vazas anteriores, na tentativa de provar que os adversários renunciaram. Se for comprovada a renúncia, os acusadores ganham o jogo automaticamente (4 pontos).
Em tempos recentes, umas das novas regras aplicadas no Campeonato Mundial de Sueca (Portugal, 2008) que foi recebida com muita controvérsia, é que tendo um ou mais de um jogador recebido 6 ou mais cartas do mesmo naipe, este ou estes jogadores poderão baixar as cartas e requerer um novo baralhar e receber novas cartas.
Se um jogador de uma equipa obter os 4 ases , a outra equipa perde automaticamente.
Também muito jogado era o garujo. Jogado por duas equipas de três jogadores, tinha como valores: o valete de paus, o garujo e a dama de ouros, a douradinha. Quando as equipas tinham dois jogadores, tomava o nome de liques, se oito, era o zangarelho, neste caso o valor mais alto era  o às de paus. Também se jogava com 10 jogadores, tomando o nome de gamito e sendo a carta de maior valor o dois de paus. Era um jogo muito divertido e alegre em que, quando uma das equipas pensava ter seguro as duas vazas necessàrias, cantava, cada vaza valia três pontos, a seis, respondendo a equipa adversaria que aceitava ou cantava a nove se tinha jogo para isso. Eram usados sinais que os jogadores passavam ao mandante da equipa.
 Também se jogava muito as marimbo e às copas. O primeiro jogava se normalmente a dinheiro, em que dez feijões custavam um tostão. Valor insignificante, mas o objectivo era passar o tempo.

Termos usados em jogos de cartas Rodada: .

·         Vaza: Rodada onde cada jogador, na sua vez, descarta uma carta. Também é usado para designar um grupo de cartas de determinados jogos.
·         Envide: Rodada de apostas.
·         Tento: Nome dado aos pontos em jogos com baralho espanhol.
·         Trunfo ou manilha: Carta mais forte do jogo.
·         Senha ou sinal: Gesto específico utilizado para indicar uma carta que se tem na mão.
·         Carteador : Jogador que, após sorteio, se encarregará de embaralhar as cartas e distribui-las aos demais jogadores.
·         Mão: Primeiro jogador que recebe cartas em cada rodada, e consequentemente será o primeiro a jogar na rodada. O termo também é utilizado para designar a partida jogada entre um embaralhamento e outro de cartas.
·         : Último jogador que recebe cartas em cada rodada, e consequentemente será o último a jogar na rodada, e de fato será o ultimo a jogar nessa rodada .

·         Bater: Baixar todas as cartas que se tem na mão e vencer o jogo.

O Associativismo na Terra do Limonete -

          A habitual sessão solene, comemorativa do evento, foi realizada no domingo seguinte. Quase se pode considerar, ter sido com pompa e circunstância, a comemoração do 98º aniversário da SIT – onde cinco obreiros foram laureados com o emblema de ’50 anos de sócio’.
         Nas várias intervenções, destacamos a forma directa de Rosa Paz, presidente da colectividade, que referiu: “não é qualquer instituição, como nós, que leva num ano ‘4 peças de teatro ao palco’, independentemente das críticas – pouco ou nada se faz neste local”.
         Numa colectividade, onde tudo aparece à custa da nova carolice, é quase ‘um atrevimento’. 2001 não foi um ano de facilidades, mas também não queremos coisas fáceis, ‘queremos coisas que nos dêem luta’. Temos, acima de tudo, ainda que com muitas privações, ‘fazer teatro’, onde Ilda Simões tem sido a grande dinamizadora, não esquecendo a dedicação de todos, técnicos e amadores, que levam à cena ‘o espectáculo perfeitamente apresentado’, o que sempre corresponde a ‘casa cheia’. Venham daí, todos aqueles que atiram pedras para o charco”.
         Rosa Paz, sem papas na língua, evocou mesmo Mestre José da Silva Ribeiro, “o que tentamos fazer, e temos muito orgulho ‘mesmo vaidade’, o trabalho que a direcção e o grupo cénico estão a desenvolver”, sublinhando por outro lado “o futuro desta casa apresenta-se risonho”.
         Disse mesmo a líder da Sociedade de Instrução Tavaredense “aquilo que já foi um sonho, é neste momento realidade”, graças à Delegação Regional da Cultura do Centro e ao protocolo feito com a Escola da Noite, da SIT e já passou à prática.
         Dar o nosso apoio aos outros grupos de teatro do concelho e não só, é outro dos nossos objectivos, porque cada vez mais acreditamos na capacidade do teatro amador, onde surgem figuras que se tornam ‘grandes’.
         Gostaríamos de levar o barco a ‘bom porto’, acentuou Rosa Paz. Não somos de bater às portas que achamos necessárias. ‘Somos ambiciosas’ (direcção constituida por mulheres), lutaremos até ao fim, para conseguir atingir os objectivos que nos propuzemos, já lá vão ‘10 anos, abram-nos as portas por favor’. Em Tavarede, ama-se o teatro, vive-se para “ele”, concluiu.


         O Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro festejou o 23º aniversário em Março de 2002. ... Segundo Fernando Serra, o presidente da direcção da colectividade, “foram 23 anos de muito trabalho, na concretização de um sonho de um pequeno grupo de homens, que quiseram dotar esta terra, ainda com tantas carências, e a sua gente, de melhores condições de vida, no âmbito do desenvolvimento cultural, recreativo e desportivo, e proporcionar aos jovens um complemento da sua formação, mais sadia e feliz”. 
         O dirigente associativo salienta ainda que “começaram do nada, sós, mas souberam, com o exemplo do seu trabalho e determinação, trazer amigos e foram sabendo e querendo que o sonho se realizasse”, e que “nunca a falta de apoios foi travão para parar”, pelo que “podemos mostrar a quem nos ajuda e connosco colaborou, que valeu a pena, a obra está visível”.

         Sobre este aniversário, é oportuno debruçarmo-nos sobre uma outra notícia, a qual historía um pouco do passado dessa associação. O Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro festeja este domingo 24 anos de vida. A construção da sede foi um dos projectos mais acarinhados por todas as direcções, bem como a manutenção de algumas das suas valências, caso da escola de música e rancho Folclórico Os Cavadores do Saltadouro.
         Nesta edição, A Voz da Figueira mostra o percurso e as dificuldades com que a colectividade se debateu ao longo dos anos para manter a sua função de apoio a uma comunidade, no intuito de preservar o espírito associativo.
         O Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro, em tempo festivo, vai comemorar o seu 24º aniversário no próximo domingo. A colectividade apareceu na ribalta do associativismo pela mão de 11 carolas e amigos que se reuniam inicialmente numa barraca e mais tarde fizeram a compra de uma plataforma em chapa, a qual serviu de suporte até há cerca de seis anos, tendo como referência a partida deste ainda curto percurso, a modalidade de atletismo, que esteve somente em competição apenas por dois anos.
         Mais tarde, sensivelmente em 1982, alguém pensou em se abalançar a um projecto para a nova sede e ele surgiu, o que abriu a possibilidade para o início das obras que redundaram, nos tempos que correm, em magníficas instalações.
         Segundo Fernando Serra, presidente da direcção, “foi possível este arranque na altura porque havia alguma verba em caixa, que se juntou a outras receitas provenientes da exploração do bar e diversas iniciativas. Há cerca de quatro anos deixámos a dita plataforma para dispormos da colectividade que hoje temos, a qual está praticamente concluída".
         Como curiosidade, ficámos a saber que “a plataforma custou 150 contos e para a nova sede jogou-se com um orçamento de 40 mil contos” (já foram gastos e pagos 32 mil contos, dos quais cerca de quatro mil contos contabilizados em oferta de mão de obra prestada por sócios).
         Fernando Serra foi-nos dizendo que a filosofia dos responsáveis da agremiação pauta-se exactamente por tomar decisões em termos de enriquecimento do seu património, consoante as disponibilidades financeiras. Nada é feito de ânimo leve, mas sim com os pés bem assentes na terra, referindo que “vamos construindo e não nos ficamos pelas promessas”.
         Pode-se dizer no entanto que o único subsídio a nível institucional adveio do anterior mandato da Câmara Municipal da Figueira da Foz (2.500 contos, em duas tranches) mais 350 contos anualmente para a área cultural (rancho folclórico e escola de música), acrescidos de 150 contos para despesas correntes. Há que destacar, no entanto, que “tivemos algumas ofertas anónimas e outras, da qual se pode destacar a dádiva do Intermarché de 500 contos”.
         Quanto às actividades em curso, referência para o Rancho Folclórico os Cavadores do Saltadouro (fundado em 1 de Maio de 1991), jogos tradicionais, cicloturismo, escola de música, equipa de pesca federada (10 elementos), teatro e janeiras.
         Pode dizer-se em abono da verdade, referiu o presidente da direcção, que “para fazer face a todas as exigências ou compromissos, a nossa grande fonte de receita vem sem dúvida da exploração do bar, concursos de pesca e deslocações ao exterior do rancho folclórico”.
         Fernando Serra, ligado há uma década à instituição, contando com sete de liderança, sustentou que além disso, tem contado “a cem por cento com a enorme colaboração de todas as equipas que ao longo dos anos vêm fazendo parte dos elencos directivos”, onde 50% são do escalão etário mais jovem.
         Quisemos saber quais as principais prioridades e objectivos para o futuro. Fernando Serra declarou ao nosso jornal que os mesmos apontam para acabar o piso do salão, afim de se poder dar início à prática de ginástica de manutenção e dança de salão, o acabamento do palco para que se possam representar algumas peças de teatro, cuja finalidade é fazer intercâmbios com outras colectividades, como é o caso da Filarmónica Figueirense que à sede do CDAS se vai deslocar no próximo dia 23. Posteriormente, “pensamos noutros voos, como seja o atletismo, reforçarmos o nosso rancho e biblioteca”, já com mais de 400 peças (a maior parte oferecida pelo sócio Aníbal Querido). Uma outra das ambições é entrar no desporto ‘PT/INTERNET’, afecto ao Ministério da Cultura. Outra preocupação vai no sentido da renovação do guarda-roupa do rancho folclórico, mas necessitam-se de ajudas, aliadas à boa vontade dos elementos femininos que confeccionam os seus fatos. Um outro vector que Fernando Serra considera importante, é a “captação/cativação da juventude para que ocupem o nosso espaço nos tempos livres, pois existem condições próprias para o efeito”.
         Se falarmos em dificuldades, Fernando Serra foi expontâneo: “tem sido a construção da sede uma das grandes lutas”, porque “os apoios foram escassos. Mesmo assim, nunca pararam as obras por falta de dinheiro, graças também à gestão das direcções”. Outro aspecto focado vai para um alerta: é necessário alargar o corpo directivo.
         Para que se fique a saber, o Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro foi fundado a 11 de Março de 1979, e o terreno onde se encontra instalada a sua sede social foi doado por José Ferreira do Vale. O Rancho Folclórico Os Cavadores do Saltadouro, é constituído por 38 elementos e é superiormente dirigido pelo seu ensaiador José António Andrade Costa.