sexta-feira, 17 de abril de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete. - 124

         É certo que já iam muito longe os tempos do analfabetismo, não sendo mais precisas as antigas escolas nocturnas, que tantos dos nossos antepassados frequentaram e onde aprenderam a ler e a escrever... As actividades recreativas e desportivas eram mais apelativas na cidade vizinha... Mas, a sua função social, o convívio e a confraternização tinham nas associações locais lugar privilegiado. Daí o surgirem, com certa regularidade certos apelos. ... Quem conhece as várias associações e colectividades, verifica que apesar de ser um grupo mais restrito a desenvolver o trabalho, na maioria das freguesias rurais, a adesão das pessoas em torno dos projectos e das diversas actividades é maior do que nas freguesias urbanas.
         Tavarede é uma freguesia urbana, que cresceu muito ao ser escolhida por muitos casais para ali viverem. Da antiga Tavarede ficou um núcleo mais restrito e é nesse núcleo que se encontram as pessoas que trabalham e dinamizam as colectividades.
         Torna-se necessário que estas se adaptem às novas realidades, saibam cativar os novos residentes e estes possam participar mais nas diversas actividades, enraizando-se no local onde vivem. Por vezes a vida familiar e profissional o não permite, noutras é um certo comodismo e desconhecimento.
         A integração numa comunidade será maior, quanto melhor a conhecemos e nela interviemos. No caso concreto de Tavarede, a SIT, tal como as outras colectividades podem desempenhar essa função integradora.

         Mas, retomemos as nossas recordações. Para o aniversário de Janeiro de 2003, o grupo cénico da SIT orgasnizou um programa aliciante. Reviveu Gil Vicente e apresentou uma nova peça da autoria de Luiz Francisco Rebelo, respectivamente, o Velho da Horta e Páginas arrancadas.

         Quanto a Gil Vicente, e como nos recordamos, tinha sido apresentado, poucos meses antes, em actuações inéditas na nossa terra, com a apresentação de fragmentos de obras suas em diversos locais da aldeia. Gil Vicente não é um desconhecido da nossa casa: é, pelo contrário, nossa grata visita desde há muitos anos, a quem sempre temos procurado honrar e servir com dignidade.
Na actividade teatral da Sociedade de Instrução Tavaredense patenteia-se o culto do fundador do Teatro em Portugal e revela-se o propósito de levar Gil Vicente ao povo, mostrando-o vivo, através das suas obras, sobre as tábuas do palco. Isto se verifica através da breve resenha que segue:
A primeira peça vicentina dada ao público tavaredense foi o Auto da Mofina Mendes, representado em 1946. Neste período decorrido de quase 20 anos, repetidamente Gil Vicente subiu ao palco de Tavarede. Ali se representaram, além do Auto da Mofina Mendes já referido, o Auto da Barca do Inferno, Todo o Mundo e Ninguém (do Auto da Lusitânia), Auto Pastoril Português, Farsa do Velho da Horta, a tragicomédia Dom Duardos (que propositadamente se traduziu), o monólogo da Visitação e Pranto de Maria Parda. – In Programa do V Centenário do Nascimento de Gil Vicente.
Não podia a Sociedade de Instrução Tavaredense deixar de assinalar o V Centenário da 1ª representação Vicentina (Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação). Neste espírito e com o programa que temos o prazer de apresentar aos Associados, resolveu a Direcção, com o seu grupo cénico e o apoio da Câmara Municipal e Junta de Freguesia celebrar tão importante data do Panorama Cultural Português”.
À noite houve espectáculo na sede com a representação da peça “O Velho da Horta”. Antes da representação o Professor Doutor José Bernardes proferiu uma palestra sobre “Teatro Vicentino”.
“Feliz terra, Tavarede, que tem entre os seus filhos amantes da Arte de Talma que não esquecem o nascimento dessa educadora ocupação a que se chama Teatro. Teatro Profissional e Teatro de Amadores são designações que normalmente se associam ao tipo de teatro representado com menor ou maior exigência e com maior disponibilidade de meios, criando também diferentes expectativas. Acontece, porém, que na Figueira da Foz, mais propriamente em Tavarede se apresenta teatro que, quanto a nós, já não se enquadra naquelas duas designações. Não são profissionais de teatro os tavaredenses da SIT, mas, também, não se faz Teatro Amador. Ali a norte de São Julião da Figueira da Foz, no Condado de Tavarede, na Vila de Tavarede, na Freguesia de Tavarede, - façam as senhoras da SIT o favor de escolher a designação, formal ou não, que mais lhes agradar – vive-se o Teatro! Ama-se o Teatro! Então o que por lá se vê, frequentemente, é Teatro de Amantes! Quase se podia dizer que o Grupo Cénico da SIT – dirigentes e restantes elementos – vive em união de facto com o Teatro se é que não há por lá bigamia. Por isso, quando se vai a Tavarede assistir a uma peça representada pelo Grupo do Mestre José Ribeiro, - já ausente mas sempre presente – há a convicção de que não se vão ver profissionais, mas há também a certeza, já quase exigência, de que se irá ver algo de muito bem feito na arte de representar, ainda que possa ser qualquer peça invulgar ou menos comum. É isto que nos apraz escrever depois de termos visto os tavaredenses trazerem o “Teatro para a rua”, para as ruas de Tavarede, na tarde de sábado passado. Gil Vicente, o pai do Teatro Português, andou por lá e até fez parar o trânsito à hora anunciada. (Não sabem o que perderam os figueirenses que ali não foram recuperar-se da maior desilusão nacional deste século, ocorrida com o tão mediaticamente cantado desporto de pintos descontrolados. Adiante!...). Trouxeram para a rua o Teatro para comemorar o V Centenário de 1ª representação Vicentina e as apresentações fizeram nos largos, não muito largos, diga-se, da velha urbe, perante muita assistência numa linguagem teatral, com laivos dum arcaico português, conseguindo até fixar a atenção dos mais jovens, certamente ainda mais encantados pelo guarda-roupa, pelas piruetas e os esgares que as representações exigiam. Não é nossa intenção escalpelizar aqui tudo o que vimos, mas não queremos deixar de referir a felicidade da escolha de locais como: o ribeiro de Tavarede onde estava o Demo e a sua Barca; a zona fronteira ao pequeno jardim onde está perpetuada a Professora Maria Amália e onde uma impressionante Maria Parda, com uma incrível caracterização, teve espaço para se expandir, vis a vis com a assistência; a proximidade do Paço de Tavarede, em obras de restauro, dando, simbolicamente, à Violinda Medina possibilidades de assistir ao que se representou, porque está ali perpetuada com uma placa a dar nome à artéria central da terra, e pôde ver actuar o futuro do teatro tavaredense: uns jovens que por lá cavalgaram em duas bestas, uma delas invisível, na Farsa de Inês Pereira; e indo terminar, o teatro de rua, com a representação do Monólogo do Vaqueiro, no melhor local, em frente da sede da colectividade, tendo na primeira fila, fila com lugar único e exclusivo, Mestre Zé Ribeiro – Alma Mater do Teatro em Tavarede, na Figueira da Foz. Não se ficaram por aí as comemorações porque, à noite, houve palestra de grande nível com a duração qb pelo Dr. José Bernardes que, falando sem pauta, evidenciou, com uma nota pessoal, quão valioso lhe foi o contacto com o teatro de Gil Vicente naquela casa, antes do seu reencontro na escola – acrescentamos convictos e beneficiários: os contactos na vida antes da escola são vitais, acreditem. Depois seguiu-se mais uma peça vicentina “O Velho da Horta” pelos Amantes de Tavarede e podíamos terminar escrevendo apenas mais isto: Viveu-se uma vez mais Teatro em Tavarede. Mas, não! Queremos acrescentar que nesta peça, a que assistiu a “comitiva real”, demos conta duma “senhora alcoviteira”, com uma bem audível e clara voz, que se destacou, sem que os restantes comparsas, e particularmente o entroncado e já encaracolante hortelão, perdessem o seu mérito. E por aqui nos ficamos.

         Sobre o espectáculo de gala do referido aniversário, aqui copiamos uma das notícias encontradas. Integrada nas comemorações do 99º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT) iniciadas em 11 de Janeiro e que tiveram o seu momento alto na Sessão Solene realizada no passado dia 19, acto muito prejudicado pelo mau tempo que afastou muitos dos habituais frequentadores, realizou-se neste último sábado mais uma noite de teatro com a representação das peças “O Velho da Horta” (de Gil Vicente) e “Páginas Arrancadas” (de Luís Francisco Rebello), “duas peças portuguesas distantes no tempo cerca de 500 anos, que nos remetem para dois mundos diferentes, o riso e o choro, o cómico e o trágico lado a lado, o teatro nas suas duas grandes vertentes”, duas escolas de representação, numa demonstração inequívoca de que em Tavarede a arte de representar está preparada para os desafios dos mais evoluidos conceitos do novo teatro.
         Ninguém ignora que Gil Vicente se tornara “pessoa de família” no Teatro de Tavarede onde o saudoso Mestre José Ribeiro o “chamava a palco” sempre que era preciso dar uma lição, genuína, de bem o representar. Desde Violinda Medina, que na “pele” de Maria Parda ganhou jus, a nível nacional, à honrosa distinção de melhor intérprete daquela figura no nosso país, a muitos outros nomes grandes da Escola de Tavarede que serviram de modelo até a grupos profissionais.
         Com este “Velho a Horta” voltou agora ao de cima o virtuosismo herdado da escola de Mestre José Ribeiro com a interpretação superior de Rogério Neves a mostrar-nos um velho à medida de Gil Vicente, genuinamente à século XVI, até na naturalidade do uso das roupagens, gestos e salameques tão característicos da idade média, interpretação modelar só ao alcance de um amador de excepção a um nível que qualquer profissional não enjeitaria. Peça onde os restantes intervenientes mostraram a arte e o talento de emprestar ao enredo o “sal” que contribuiu para o sucesso – traduzido em muitos aplausos da assistência! – deste “O Velho da Horta”, transplantado, com mestria, do original.
         Gil Vicente não poderá estar ausente do centenário, a comemorar no próximo ano, nem a deixar de coabitar o palco centenário por muitos mais anos.
         Preenchendo a 2ª parte do espectáculo, a peça de Luiz Francisco Rebello, “Páginas Arrancadas” é um “psico drama” de outra concepção de teatro, assente num diálogo mais intelectualizado e de aproveitamento político em que os personagens se duplicam num jogo de mudanças de situação em que os meios técnicos assumem um papel fundamental – caso de mudanças de cena através de jogo de luzes, espelhos e transparências, sem necessidade do tradicional descer do pano ou mudanças de cenários, particularidade a exigir muitos conhecimentos técnicos e grande eficiência dos bastidores (palmas para os responsáveis por tão melindrosa operação!) – e sobretudo, a nível de encenação e direcção de cena, pela forma como souberam dar resposta às exigências desta nova metodologia de teatro de vanguarda, um teatro diferente a quem muitos apontam o dedo como responsável pela menor afluência de pessoas ao teatro.
         É por isso que queremos deixar aqui um aceno de muito apreço pela coragem de Ilda Simões e Fernando José Romeiro (encenadora e director de cena) pelo alto risco que correram ao apresentar uma peça de tão difícil “digestão” e a forma meritória como souberam “dar a volta ao texto”. Graças, sem dúvida, ao traquejo invulgar das “três estrelas da companhia” – os consagrados José Medina, Fernando Romeiro e António Barbosa – pela sagacidade como souberam tornear a “intelectualidade” dos textos atribuidos aos Jorge 1, Jorge 2 e Cristóvão, classe que constituíu a chave que “deu a volta” àquele complicado “registo psicodramático”, graças também à preciosa prestação de serviços dos restantes figurantes, com destaque para o “mau da fita” (Toni) a quem coube a “fava” de uma intervenção “chocante” com selo de “palavrão” tão característico do tal teatro de vanguarda mas que ele soube “adoçar” com um bom desempenho.

         Não fôra o talento destes amadores de fina água e talvez esta peça de “risco” não tivesse a aceitação que teve.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Tavareede - 1

A Terra do Limonete





  


         Tavarede, a alegre terra do limonete oloroso:

                            Limonete para o meu lenço
                            sempre o meu amor me pe
                             Limonete, rico incenso
                                 das Várzeas de Tavarede.

         Região agrícola que alimenta o nosso Mercado, da mais fresca hortaliça e das mais rescendentes frutas, apresentava o seu carro alegórico, uma síntese da vida agrícola da região, com as modalidades – Hortas, Eiras e Vinha. A alegoria era representada por uma meda de trigo, símbolo da abundância de pão; um homem com um mangual, representando a actividade das Eiras; uma linda rapariga representando a

Vinha; e, dominando o conjunto, uma outra gentil moçoila simbolizando as Hortas. Um grupo de Ceifeiras e Cavadores, como se voltassem, contentes e felizes, da faina do trabalho, vinham à frente deste feliz conjunto alegórico e, dando a nota dos folguedos tão peculiares do nosso povo, ainda nas horas que se seguem ao mais incessante labor, dois harmónios tocavam as “modas” popularizadas na aldeia. (Jornal Reclamo, em Julho de 1940, noticiando a participação tavaredense no cortejo realizado na Figueira)

         Dois anos antes, em 1938, também se organizara na Figueira um cortejo de actividades das freguesias. Como não podia deixar de ser, a nossa terra mandou uma representação da sua principal, praticamente única, actividade: a agricultura.

         “A freguesia de Tavarede foi uma das que mandou uma numerosa e não menos luzida representação. A terra do limonete (Lúcia-Lima) como ela se designa, abria a sua representação com um vaso desta planta. Seguiam-se uma charrua e uma grade, tiradas por bois atrás das quais vinha um grupo de alegres ceifeiras, de blusas e lenços de cores vivas, e saias traçadas, conduzindo foices ao ombro e molhos de trigo nas mãos. Vinham em seguida os malhadores com manguais, pás e forcados. Ao pescoço, traziam lenços vermelhos, para impedir que a pragana penetrasse no corpo. Um lindo grupo de raparigas, com os chailes traçados e conduzindo cestas à cabeça, animava a representação. Eram vendedeiras de hortaliças, frutas e flores. Seguiam-se os cavadores de enxada ao ombro, ramo de limonete nos chapéus, casaco ao ombro, polainas, cinta e lenço vermelho, bolsa do farnel e cabaça cheia de vinho. O Grupo Musical e de Instrução animava os festeiros”.   

O terceiro caderno de “TAVAREDE – A TERRA DE MEUS AVÓS”, vai servir para recordar, ainda que de forma resumida, o que era a nossa pequena aldeia até quatro, cinco décadas atrás, pois foi
 a partir de então, que Tavarede deixou de ser “aquela pequena aldeia pitoresca e aprazível”, muito visitada, especialmente no verão, por aqueles que gostavam de apreciar a natureza e saborear, à fresca sombra das árvores frondosas, apetitosos farnéis. “… metemos ao vale idílico de Tavarede, com seu palácio condal, aldeia do limonete, aninhada entre o arvoredo e quintas fartas. Lembra a mancha clara do povoado, vista de longe, uma daquelas vilórias que nas páginas de “Ilustre Casa de Ramires”, surgem, com seu nome bucólico, abençoado por cândidas graças portuguesas…” (O Figueirense – Maio de 1928)

“Debruçam-se sobre a terra rescendente de saúde, cheirosa a seiva, dálias aos montes. Cravos de Tavarede, pequenos mas olorosos, atapetam canteiros onde rosas vivem a felicidade da sua beleza, fundindo o seu perfume com o ar embalsamado pelo cheiro do limonete! Nem um palmo de terra sem verdura!
Cantam ribeiros, noite e dia, levando a água aos recortes das fazendas que vivem na fartura das hortaliças tenras e pomares saborosos. Quando a gente ali vai, volta sempre com esta certeza: não deve haver recanto de Portugal que seja mais florido, que possua mais alegria de cor, quer seja quando a primavera começa começa a vestir de verde-moço o tapete humedecido da terra amiga e acolhedora, quer seja quando os últimos malmequeres fenecem, para os crisântemos nascerem e florirem, do que o velho condado de Tavarede”. (Carlos Sombrio, em A Voz da Justiça, Julho de 1927)

A partir de 1960 / 1970, as quintas e os pinhais, apelativos a uma boa merenda, saboreada em doce calmaria, que então rodeavam a povoação, deram lugar a modernas urbanizações. O progresso, digamos, chegou à velha terra do limonete, transformando-a e tornando-a irreconhecível.

Mas, e como mencionei no primeiro destes cadernos, este meu modesto trabalho, eu considero-o mais um passatempo do que um trabalho,  tinha e tem por finalidade principal, deixar reunidos diversos apontamentos, que se encontram dispersos pela imprensa figueirense, e não só, e por diversas publicações, de forma a permitir o conhecimento, no futuro, do passado histórico e cultural da minha terra natal, ainda que muito sintético e resumido. Gostaria que um dia, os meus netos, e os netos de todos os meus conterrâneos, pudessem, de forma fácil, saberem que a pequena aldeia de seus avós, teve um papel bem importante na história do concelho da Figueira da Foz, pois foi terra de gente importante, com foros de fidalguia.

No primeiro caderno, procurei relatar o passado histórico da aldeia, a vida do seu povo e alguns costumes, entretanto caídos no esquecimento. O segundo, dediquei-o às duas grandes tradições culturais de Tavarede: o Teatro e a Música, bem como fiz uma breve resenha das suas colectividades, tanto das actuais com das já desaparecidas. E completei o caderno com a evocação de “aqueles que da morte se libertaram honrando e dignificando Tavarede”.

Desnecessário se torna dizer que, tanto no primeiro caderno como no segundo, muito mais haveria a acrescentar. Aliás, e quanto mais vou relendo e revendo os meus inúmeros apontamentos, mais vou reconhecendo as involuntárias omissões. Há factos e figuras que merecem umas linhas evocativas, ainda que poucas. Há histórias que será pena ficarem esquecidas na poeira dos anos passados…

Pois este meu caderno vai ser, como referi, uma tentativa de recordar a minha aldeia dos tempos em que “menino e moço” aqui me criei despreocupadamente e de alguma maneira corrigir possíveis omissões, não todas, certamente, mas as que me parecem mais interessantes.

Começarei por dar conhecimento de como era a pequena aldeia. Já sabemos, pelo soneto de Frei Manuel de Santa Clara, que, no século dezoito, Tavarede era um local aprazível e idílico, a fazer fé na veia poética e sensível do frade franciscano. E no século dezanove, na sua segunda metade, Tavarede foi muito falada na imprensa figueirense, a propósito da discussão pública que então se travou àcerca do traçado que se estava a escolher, para a estrada que haveria de ligar a Figueira a Aveiro, passando por Mira.


É um fragmento desta polémica que eu aqui transcrevo. Ernesto Fernandes Tomás, o mesmo que nos deixou uma interessantíssima reportagem sobre a nossa terra, bastas vezes referida nos anteriores cadernos, para apresentar a sua opinião, quanto ao traçado daquela estrada, deixou-nos descrita a nossa terra, na sua localização e caminhos, de uma forma muito interessante.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 123

         Comemorou-se, naquele ano, os 500 anos da primeira representação do auto de Gil Vicente, Monólogo do Vaqueiro.     A Sociedade de Instrução Tavaredense, não ficando indiferente à efeméride, sendo da opinião de que o teatro também serve para nos conhecermos, nada melhor que trazer Gil Vicente para o palco  e aproveitar esta data ‘para lembrar ou relembrar alguns textos vicentinos’. Actores e público, vão ter oportunidade de estar lado a lado e frente a frente, em espaços tidos por convencionais para a prática do teatro, vão poder vivenciar as realidades do século XVI e vão poder compará-las com as realidades do século XXI. ... Na actividade da Sociedade de Instrução Tavaredense patenteia-se o culto do fundador do teatro em Portugal e revela-se o propósito de levar Gil Vicente ao povo, mostrando-o vivo, através das suas obras, sobre tábuas do palco...
         E assim foi. Tavarede é como que uma “ilustre e idosa senhora” que honra e sempre honrou com engenho e arte o culto da representação teatral. O teatro saiu à rua, de alegria estampada no rosto o povo apinhava-se nos recantos sombrios da povoação, a ansiedade sentia-se em cada gesto, o ambiente estava magnificamente ajustado a um pretendido regresso ao passado, as melodias impulsionavam o som de uma sublime flauta encantada, tão típica e marcante da época.
         Os batimentos melodiosos do sino da Igreja de Tavarede despertou Gil Vicente, o povo agitou-se e estava disposto a participar e foliar com sátira vicentina. Em dia quente escaldante, a corte desfilava altaneira as vestes pesadas do tempo, a beleza de luz e brilho de lantejoulas suportadas por artesanais desenhos de purpurina, que nos enchiam a alma e refrescavam os olhos.
         O bôbo da corte saltitava em animação estonteante, em círculos endiabrados e provocatórios, como que aferindo em cada um de nós um potencial e objectivo “réu” de barrete enfiado à sátira de Gil Vicente. O culto vicentino estava agora vivo e bem vivo e pronto para a abertura às eventuais hostilidades satíricas, um palco no meio de um riacho ou recanto escolhido para o “navegar” da dita “Barca do Inferno”.
         Fernando Romeiro era a imagem de um Satanás genuíno, de gargalhadas sonoras e movimentos maquiavélicos, aliciava e justificava passageiros para a sua barca, de diversos extractos sociais e múltiplas artes e ofícios. À sucessão de “Todo o mundo e ninguém”, iniciava-se a caminhada para o Largo de Maria Amália de Carvalho, defronte a um pequenito jardim, como tanto era do agrado de Gil Vicente, assistiu-se ao “Pranto de Maria Parda”, transformado num grande momento de teatro.
         Brilhou uma estrela, feita do povo, e com um dom que Deus lhe deu, e escusado será, que determinados intelectuais do teatro possam pensar que em algum momento deixarei de realçar e individualizar tudo aquilo que me arrepie o coração e estremeça os sentidos.
         Deixe que em primeiro lugar Otília Cordeiro, bem ao estilo medieval, lhe faça uma vénia por uma caracterização a Maria Parda feita de sensibilidade e minúcia e que tanto ajudaram ao êxito de Ilda Simões. Ilda Simões, repito. Encantou tudo e todos, deu espaço ao seu grande talento expressou com uma garra impressionante sentimentos de uma mulher perdida, satirizou, exagerou o quanto baste na procura do culto vicentino, que o diga Simões Baltazar, que ao seu espaço temporal de entrada em acção, no papel de Martim Alho, sorria ao bom sorrir com a performance entusiasmante da sua colega de cena, quase mesmo hipotecando o brilho da sua própria intervenção. Com a “Farsa de Inês Pereira” revelou-se acima de tudo a grande escola de teatro da SIT, onde Cátia, José Pereira e Emanuel Cardoso são a constatação viva de um futuro assegurado para a arte de representação. 
       Do majestoso palácio de Tavarede, o regresso de novo à SIT, onde com o “Monólogo do Vaqueiro”, por mais uma vez, João José soube com mestria interpretar sentimentos distintos de expressão séria e momentos divertidos, num deambular artístico de assinalável mérito. Caíu a noite, na sala de teatro da SIT. Subiu ao palco, na íntegra, “O velho da horta”.
         O professor doutor José Bernardes, convidado especial para as comemorações, fez uma palestra muito interessante, deixando aos presentes indicativos preciosos de como interpretar um autor tão abrangente e complexo como Gil Vicente. Ficaram lamentos de que os 500 anos de teatro em Portugal não sejam motivo de comemorações mais dignas de âmbito nacional e elogiou a SIT por se revelar uma “pedrada no charco” no respeito por tal efeméride.
         Ao momento solene de entrada do Rei D. Manuel na sala e acomodamento nas cadeiras reais, fez-se escuro que nem breu, subiu o palco e lá estava o velho da horta no seu jardim, apaixonado e ao mesmo tempo enganado por si próprio, por um amor inantingivel onde a irreverência da juventude venceu a velhice inconformada. Um jardim verdejante e colorido, onde marcou pontos o magnífico jogo de luzes, que deu um ambiente de cena distinto e com atributos de bom gosto.
         O elenco foi como fechar com chave de ouro, como a fina flor, que divertiu e arrancou gargalhadas e, por fim, fortes aplausos de uma assistência que enchia quase por completo a sala
         O “velho” da horta era Rogério Neves. Senhor de um grande à-vontade no palco, deliciou e divertiu a plateia com momentos de expressão artística ímpares para o dito meio amador. Soube ser rigoroso consigo próprio, porque afinal de contas, não deve ser fácil exibir uma curvatura na coluna durante todo o espectáculo, que não lhe é peculiar na vida real. Por ali haverá, decerto, também o “dedo” de uma encenação cuidada.
         Uma jornada inesquecível, mais uma página escrita no já valioso património cultural da Sociedade de Instrução Tavaredense. Quanto a Gil Vicente, o agradecimento por continuar, 500 anos depois, mais vivo do que nunca.

         O centenário da Sociedade aproximava-se. Uma comissão, conjuntamente com a direcção da colectividade, assumiu o encargo da realização das comemorações. Uma das principais preocupações era estabelecer um programa em tudo digno do passado da associação. A primeira iniciativa, com o objectivo de começar a angariar fundos, pois havia a intenção de suportar todos os custos, através de subsídios a angariar e de realizações a efectuar, foi a de realizar mensalmente um almoço, no pavilhão desportivo, aberto a todos os associados, suas famílias e amigos da colectividade. E na reunião de 21 de Agosto de 2002 foi aprovada a ideia da organização de um almoço mensal a realizar no nosso pavilhão, para o que foi pedida a colaboração a um grupo de senhoras que habitualmente colaboram com a Colectividade, para a preparação e serviço destes almoços. Como curiosidade, registamos que o primeiro destes almoços teve lugar no dia 13 de Outubro de 2002, tendo o prato principal sido “sopa da pedra”.

São sobretudo mulheres. Justiça seja, porém, feita aos homens que também suam as ‘estopinhas’, mais na preparação da sala e da tenda – onde se vendem rendas e bordados e se pode ‘brincar’ às rifas -, do que propriamente na cozinha, com a mão na massa ou, no caso deste último domingo, na feijoada. Eles ajudam, é certo, mas elas trabalham, desde cedo, para que, por volta da uma da tarde, tudo esteja pronto. Parecem abelhas operárias, incansáveis no seu entra e sai entre a cozinha e a copa, espreitando panelas e descascando batatas ou golpeando castanhas. Entre o cheirinho da comida caseira e gracejos, vão dizendo que estão ali por gosto, porque quase nasceram na SIT, porque sentem orgulho em contribuir para que a festa do centenário da SIT, em 2004, ‘seja em grande’.
         …………………..
         A estas mulheres não se coloca sequer a questão de poderem não alinhar nestas iniciativas. Em pleno século XXI, tempo áureo do egoísmo e do lucro, estas mulheres (pronto, e os homens também, que sempre dão uma mãozinha), entregam-se sem pedir ou esperar nada em troca.
         Ainda que a comida não fosse caseira e, segundo informações de testemunhas no local, saborosíssima, mesmo assim, valia a pena uma visita. Há dúvidas? Então acabe com elas (e com o cozido à portuguesa) no próximo almoço, a 7 de Dezembro”.

         Em Dezembro de 2002, encontrámos uma notícia que nos interessou imento. ‘Amigos do Teatro Os Carolas’ é a denominação de um grupo cénico residente nas instalações do Grupo Musical de Instrução Tavaredense, que se estreou no passado domingo. A apresentação contou com uma sessão de fados e rábulas de revista com assinalável êxito. O grupo volta a actuar no próximo domingo, pelas 17 horas, na festa de Natal destinada às crianças da colectividade. Refira-se ainda que esta colectividade da ‘terra do limonete’ reabriu, no passado fim de semana, a sala de convívio e bar, alvo de uma recente remodelação.

         Vamos, agora, fazer uma brevíssima pausa na nossa história do associativismo em Tavarede. Havia já quatro ou cinco décadas que a Figueira sofrera um enorme desenvolvimento, graças à instalação de diversas e importantes unidades industriais, bem como à dinamização do seu porto marítimo. A população teve um aumento extraordinário. No entanto, grande parte dos novos habitantes, optou por se instalar, com seus agregados familiares, nos subúrbios citadinos. Tavarede, pela sua proximidade com a cidade, foi um dos lugares mais escolhidos. A densidade populacional da nossa freguesia em breve se tornou uma das maiores do nosso concelho.

         Isso não trouxe, contudo, igual aumento ao associativismo local. Os novos residentes, certamente como reflexo da sua própria vida privada, isolavam-se no seu lar. Saíam cedo para os seus trabalhos e só regressavam à noite, hora a que a família se juntava. Tal facto acabou por trazer novos hábitos. Natural o serão familiar em casa, com a leitura dos jornais e vendo televisão. Era o isolamento. As colectividades passaram a ser pouco frequentadas.


         Uma das principais consequências passou a ser a dificuldade da formação dos chamados ‘corpos directivos’, pelo que começaram a surgir pequenas crises. Já vimos que a Sociedade de Instrução, por exemplo, foi necessário o aparecimento de um grupo de senhoras que, para manter a colectividade em funcionamento, tomaram a deliberação de assumir a gerência da associação. Outras houve que fecharam as suas sedes, somente as reabrindo a vontade e dedicação de alguns sócios mais corajosos. E, acentue-se, as colectividades continuavam a ser necessárias às populações. 

sábado, 4 de abril de 2015

Histórias e Lendas - 27

O lugar da Figueira da foz do Mondego
O abade Pedro e S. Julião


Na vossa presença, senhoras e senhores, saudando-vos com alegria nesta noite de festa o Couto de Tavarede. Certamente por ser assim tão velho – já lá vãp quase oito séculos, desde que o nosso Rei D. Sancho I e a Rainha D. Dulce instituiram e doaram à Sé de Coimbra, em 1191, o Couto de Tavarede – talvez por ser tão velho, dizia eu, me mandaram hoje aqui a fazer o prólogo da peça que vamor representar. Procuraremos demorar-nos o menos possível neste proscénio; e, sem preocupações cronológicas e deixando aqui e ali voar a fantasia, mostrar-.vos-emos algumas figuras e reviveremos episódios da nossa história local, desde o Aqbade Pedro, que reergueu a igreja de S. Julião e encheu de famosda vinha a encosta da Abadia até às águas do Paúl; passaremos pela velhinha Vila de Tavarede, que já no ano de 1064 da era de Cristo aparecia referida como estando situada na borda do mar; falaremos das folhas de uma figueira que não se sabe ao certyo se existiu – mas que não era, já se deixa ver, aquela figueira que generosamente cobriu a nudez do Pai Adão quando ele, no Paraíso, se apercebeu de que estava nu; - iremos encontrar-nos com a Vila da Figueira da Foz do Mondego; e iremos todos saudar, jubilosamente, a nossa Rainha das (Viagem na Nossa Terra – Prólogo – de José da Silvca Ribeiro).
         Esta peça-fantasia, levada à cena do ano de 1982 pelo grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, serviu de homenagem à jovem cidade da Figueira da Foz, que então festejava o primeiro centenário da sua elevação, pelo Rei D. Carlos, à categoria de cidade. Tavarede, que durante séculos, foi a sede do concelho, homenageou desta forma o lugar da Figueira da foz do Mondego, seu súbdito até ao ano de 1771.
         Vamos, assim, recordar, ainda que resumidamente, este velho lugar, o Abade Pedro, de que acima se fala, e S. Julião, patrono do lugar. Sabe-se ques o pequeno povoado existente wm torno da igreja de S. Julião, habitado sobretudo por gente que vivia do mar, terá sido arrasado no ano de 712 aquando das invasões dos mouros.
         Depois da tomada de Coimbra e toda a sua vasta região aos mouros pelo Conde D. Sisnando, nascido em Tentúgal, este enviou para a nossa região, com o encargo da sua reconstrução e repovoamento, Ciudel Pais, para o lugar de S. Martinho de Tavarede, e o Abade Pedro, para o lugar da Figueira da foz do Mondego.
         Do lugar reconstruído pelo Abade Pedro recolhemos e transcrevemos um pouco da sua história. Lugar de ocupação humana muito antiga, fez parte do reino suevo, e mais tarde viria a ser conquistada aos mouros aquando a conquista de Coimbra por Fernando Magno em 1064, integrando o Reino de Leão e consequentemente o Condado Portucalense.
A Figueira da Foz conheceu um grande crescimento no século XVIII devido ao movimento do porto e ao desenvolvimento da indústria de construção naval.
Foi elevada à categoria de vila em 1771. Continuou a crescer ao longo do século XIX devido à abertura de novas vias de comunicação e à afluência de veraneantes.8 Em 20 de Setembro de 1882, foi elevada à categoria de cidade. Nos finais doséculo XIX e início do século XX construiu-se o chamado Bairro Novo, de malha regular, onde se instalaram os hotéis, o casino, restaurantes, bares nocturnos e alguma actividade comercial. Outro local onde a actividade comercial é evidente é na Rua da República, que liga a zona de entrada da cidade (via Estação dos caminhos-de-ferro) à zona mais central da cidade. Nos últimos tempos foram construídos supermercados e hipermercados na zona mais periférica da cidade. Devido às condições naturais e ao equipamento turístico, a Figueira da Foz impôs-se como estância balnear não apenas para a zona centro de Portugal, mas também para famílias abastadas alentejanas e espanholas. A Figueira da Foz é conhecida como a "Rainha das Praias de Portugal".
Foi próximo desta localidade que, no início do século XIX, desembarcaram as tropas inglesas comandadas por aquele que mais tarde seria Duque de Wellingtonque vieram ajudar Portugal na luta contra as Invasões Francesas.
O Casino da Figueira da Foz foi inaugurado em 1927, sendo assim o casino mais antigo da Península Ibérica.
A Câmara Municipal da Figueira da Foz foi feita Comendadora da Ordem de Benemerência a 30 de Janeiro de 1928 e Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública a 31 de Dezembro de 1932.9
Em 1982, ano em que se comemorou o Primeiro Centenário da Elevação a Cidade da Figueira da Foz, foi inaugurada a Ponte Edgar Cardoso, que veio substituir a ponte antiga (que não permitia que embarcações passassem sob si). A nova ponte, que rapidamente se transformou num ex-libris da cidade, é considerada uma das mais bonitas e imponentes do país.[carece de fontes] Foi, recentemente, alvo de profundas obras de remodelação. A 6 de Julho desse ano a Cidade da Figueira da Foz foi feita Membro-Honorário da Ordem do Infante D. Henrique  e a 31 de Janeiro de 1986 a Câmara Municipal da Figueira da Foz foi feita 80.ª Sócia Honorária do Ginásio Clube Figueirense.
A Torre do Relógio (situada em frente à Esplanada Silva Guimarães, na Praia do Relógio e não Praia da Claridade) é, igualmente, uma das referências da cidade, bem como o Forte de Santa Catarina. Situa-se também nesta cidade o Palácio Sotto-Mayor, que marca história numa zona mais central da Figueira da Foz. O Parque das Abadias é um dos "pulmões" da cidade e um local de lazer, onde se realizam algumas provas de corta-mato e várias iniciativas com vista a proporcionar momentos agradáveis aos cidadãos do concelho. Este Parque atravessa a cidade ao meio, indo desde a zona norte da cidade até ao Jardim Municipal, que sofreu, recentemente, intervenções de remodelação.
         Referindo-nos agora ao Abade Pedro, que cerca do ano de 1080, e por ordem do Conde D. Sisnando, reconstruíu o lugar e a igreja de S. Julião, sabe-se que no ano de 1096 fez testamento fazendo doação à Sé de Coimbra.
"Eu, Pedro, abade, por amor de Santa e Indivídua Trindade, faço à igreja de Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria da Sé episcopal de Coimbra, doação da igreja de S. Julião, que está situada na margem norte do rio Mondego, junto à praia, a qual noutro tempo foi saqueada e destruída pelos Sarracenos".
Começa assim o testamento do abade Pedro, feito em 1096, conforme se acha transcrito no Portugaliae Monumenta Historica. O Abade, pelos seus serviços, recebeu do conde Sisenando "além da abadia de S. Julião, todas as terras cultas e incultas que ficavam ao oriente, designadas já naqueles tempos pelos nomes de Casseira, S. Veríssimo (Vila Verde) e Fontela, o que junto com a herdade de Lavos constituía uma grande riqueza". 
(Album Figueirense)
“... Mas por agora iremos ver a tão falada vinha plantada pelo Abade Pedro... ... A vinha plantada e as casas reconstruídas pelo Abade Pedro, tudo é pobre...”. (Viagem na Nossa Terra).
 
Recordemos, agora, S, Julião, padroeiro da Figueira. No século III nasceu Julião, filho de um casal cristão muito devoto e rico que lhe deu uma educação esmerada e requintada desde a tenra idade. Depois, desejosos de ver o filho bem casado para constituir uma sólida e cristã família, decidiram consolidar o seu matrimónio, aos dezoito anos, com a jovem Basilissa. Extremamente obediente, o rapaz, que nunca havia mencionado seu voto de castidade à familia, realizou o sonho dos pais e se casou com a bela e suave jovem que, como ele, procedia de uma próspera e bem situada família seguidora dos mesmos preceitos cristãos que a de seu noivo.
Uma vez casados, Julião, com gentileza, conversou com a esposa Basilissa e juntos fizeram um pacto de consagração a Deus para se dedicarem a Seu serviço, apesar do sacramento matrimonial. Assim a união carnal não se concretizou e ambos permaneceram virgens. Somente após a morte dos pais é que os dois puderam viver a vida espiritual na plenitude almejada. Usando seus bens, cada um fundou um mosteiro: Julião, o masculino e Basilissa, o feminino. Com o saldo do património mantinham várias obras de caridade e sustentavam os mosteiros, que funcionavam também como hospitais para atendimento dos mais necessitados. O de Basilissa atendia especialmente aos leprosos.
Nesse período o Cristianismo vivia os seus tempos mais trágicos, o das perseguições sanguinárias impostas em todo o Império pelos tiranos Diocleciano e Maximiano. Em auxílio aos cristãos surgiu Julião, que em certa altura chegou a abrigar em seu mosteiro mais de um milhar que procuravam refúgio das implacáveis investidas. Porém foi denunciado e viu aos poucos todos serem julgados e condenados ao suplício e à morte pelo testemunho da fé. Até que chegou sua vez. Como se recusou a adorar os ídolos pagãos e renegar a fé em Cristo foi martirizado por um longo periodo. Segundo os registos dessa época arquivados pela Igreja, o periodo foi descrito como de muitas torturas e sofrimento, mas também de muitos prodígios e graças ocorridos através das mãos de Julião.
Julião terá nascido em 250 e foi finalmente assassinado e pôde descansar em paz em 09 de Janeiro do ano de 302
O povo passou a reverenciar sua imagem com alguns dos simbolos que caracterizaram a sua vida: a Bíblia, fundamento da sua fé e a fonte de onde bebeu o amor ao próximo; a palma, símbolo do martírio; e a capa arrepanhada e puxada para cima para facilitar o seu andamento, simbolo da sua disponibilidade para os outros.
Basilissa conseguiu ser poupada, vivendo junto aos mais miseráveis e pobres leprosos os quais tratava como filhos. Ela morreu algum tempo depois, dizem que em 18 de Novembro de 304, tendo promovido muitos prodígios de cura e graças. 
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Cerca de 3 séculos depois, junto à foz de um rio denominado Mondego  na altura um lugar isolado e remoto, foi edificada uma abadia para acudir aos pescadores de lugares das redondezas - esses sim habitados - tais como Vila Verde, Caceira e Lavos, e que regressavam da faina necessitando de ajuda.
Foi esta intenção de ajuda aos homens que vinham do mar que levou à atribuição da designação de São Julião à então abadia, devido a ele também ter vivido numa cidade junto a uma foz (Antinoe, Vale do Nilo) e ajudado espiritualmente e na doença as suas gentes. 
 

Esta Abadia foi destruida em 717 pelos sarracenos e assim ficou até 1080, ano em que o Conde D. Sisnando ordenou a edificação de várias igrejas na região e a reconstrução da igreja junto à foz do Mondego com uma boa torre, bem como a construção de casas em seu redor. Atribuidas as terras, foi o Abade Pedro o encarregado de tal missão, executada em 16 anos. Em 1096 o Abade Pedro faz a doação da Igreja de São Julião à Igreja de Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria da Sé Episcopal de Coimbra.
As casas deram origem a uma povoação, que logicamente baseou na igreja o seu nome: São Julião da Foz do Mondego. Terá sido nesta data que surgiu esta primeira designação do casario que deu origem ao actual nome de Figueira da Foz.
Na segunda designação já entra a palavra “figueira”, e “São Julião” fica unicamente confinado à igreja. Com o avolumar do povoado, eram muitos os barcos de vários casarios junto ao Mondego que desciam o rio até à foz para comerciar produtos, simples passeios ou veraneio, aqui amarrando os barcos a uma copada de árvores, onde existia uma frondosa figueira  e em cuja sombra os barqueiros serranos faziam as suas transacções, permutando com os moradores lenha e carqueja da respectiva produção, por sal e peixe fresco. Era a Figueira da Foz do Mondego e estava-se em 1237, ano em que o Cabido da Sé de Coimbra concessionou os lugares de Figueira e Tamargueira a Domingos Ioanes, Martinho Miguel e Martinho Gonçalves.
Uma informação paroquial datada de 1721 fornece alguns pormenores importantes sobre o notável e popular lugar ou vila..
Em 1771 foi elevada à categoria de Vila por D. José I. Foi a partir desta data que o nome se foi simplificando e que tomou, definitivamente, a designação de Figueira da Foz.
Os últimos 30 anos do século XIX são fecundos em realizações. Foi neste periodo que a Figueira da Foz foi elevada a cidade, no ano de 1882. Nos dez anos que precederam a elevação a cidade registou-se um conjunto assinalável de obras demonstrativas da pujança do lugar.
(blogue O Palhetas)

O Associativismo na Terra do Limonete - 122

         E em Maio do mesmo ano de 2002, coube ao Grupo Desportivo e Recreativo da Chã festejar o seu 26º aniversário.   O GDRC nasceu há 26 anos, por imperativo da equipa de futebol de onze, que surgiu e que, para se filiar no INATEL, necessitava de uma sede social. A associação foi constituída e, depois dessa mesma sede funcionar, durante algum tempo, num espaço cedido por um dos sócios fundadores, surgiu a oportunidade de comprar um terreno com vista à construção de um edifício que serviria para a instalação da referida sede e onde também se pretendiam arranjar espaços para servir os sócios e toda a comunidade. Com a colaboração de todos os sócios, foi-se dando corpo, pouco a pouco, ao espaço físico hoje existente.
         A actividade mais antiga desta colectividade é a que, como já referido, deu origem à sua criação: o futebol., disputando anualmente o campeonato distrital do INATEL. Depois, seguiu-se a criação de um grupo cénico, que todos os anos participa nas Jornadas do Teatro Amador promovidas pelo Lions Clube da Figueira da Foz.
         O Rancho Estrelinhas da Chã, fundado há 16 anos, tem diversas actuações em todo o país, com a participação em diversos festivais de folclore e organizando todos os anos o seu próprio festival. As duas secções mais recentes do GDRC são o grupo de dança ‘Nice Dance’, composto por 12 meninas entre os 5 e os 14 anos de idade, e a escola de música, neste momento com 10 alunos.
         Apesar do espaço físico, novos projectos e novos objectivos traçam o trabalho para a actual direcção que tomou posse no passado dia 1 de Maio, data em que se festejou 26 anos e que teve lugar a tradicional sessão solene.
         Fátima Trigo, que foi reconduzida no cargo de presidente da direcção, salienta como obra mais importante concretizada no último mandato a sala de espectáculos, para a qual recebeu um apoio financeiro de seis mil contos por parte da Comissão de Coordenação da Região Centro e ainda 900 contos do Governo Civil, pelo que afirma, no capítulo dos apoios, que “não me posso queixar”. A sala ficou dotada de uma plateia fixa, sistema de luzes e som e outros equipamentos de apoio.
         Como projectos mais importantes, e para um futuro próximo, Fátima Trigo destaca “uma alteração ao visual do bar”, com a criação de “um espaço jovem” com salas de máquinas, e ainda uma biblioteca.
         Mas os projectos contemplam ainda a criação de uma área de lazer no prolongamento do terreno da colectividade que “de momento não está a ser rentabilizado”. Pretende-se, nesse local, implementar também um equipamento desportivo de apoio, como um campo de ténis ou basquetebol. Futebol está fora de questão uma vez que coloca-se a possibilidade de, em parceria com a Junta de Freguesia de Tavarede, dinamizar o polidesportivo da Chã (ainda sem luz).
          
         Ainda em Março, e reportando-se ao teatro tavaredense, encontrámos mais a seguinte nota. A SIT apresentou, recentemente, as peças “O meu caso” de José Régio e “O Canto do Cisne” de Anton Tchekov.
         O “Canto do Cisne”, com encenação de Ilda Simões coloca em cena dois personagens, Vassili Vassilievitch (João Medina) e Nikita Ivanitch (Manuel Lontro) na qual um deles, Vassili, sente chegado o fim da sua carreira e relembra o seu passado de entrega ao palco. Curiosamente, o texto de Tchekov é quase uma remake dramática da vida do próprio João Medina, que tem a mesma idade que o personagem, mas certamente mais de 45 anos de teatro.
         Medina revela mais uma vez ser um actor de valor e a contra-cena com Manuel Lontro chega a ser comovente, pois a saga dos personagens confunde-se com a dos actores. Mau grado alguma dicção pouco marcada e com dificuldades de entendimento para a sala, os gestos, a inquietação, a dor e as emoções do personagem Vassili transferem-se para o público com facilidade.
         Em “O meu caso”, de José Régio, a situação é contrária. Valdemar Cruz tem dificuldade em ser credível dando pouca autenticidade ao personagem. A peça, que tem falhas de ritmo, conta com duas soberbas interpretações: uma inexcedível Paula Simões, que faz o papel de uma actriz fútil e vazia, vivendo da sua vaidade e narcisismo e uma Maria da Conceição Mota, segura, rítmica, convincente no seu papel de “autora”. Boa nota para o conjunto e para a “coragem” estética da encenadora.

         Depois de ter participado nas Jornadas do Teatro Amador com a peça de Pirandello, o grupo cénico da SIT voltou a apresentar uma nova peça do dramaturgo português, Luís Francisco Rebelo. E é relativamente a esta peça que encontrámos este apontamento. Luiz Francisco Rebello, ao ter conhecimento através da Antena 1, que a SIT estaria a ensaiar a peça “É urgente o amor”, contactou-nos para nos informar que tinha escrito uma segunda versão e que gostaria que nós a representássemos. Ficámos muito sensibilizados e de imediato lemos esta versão que o autor teve a amabilidade de nos enviar, dado ainda não estar publicada. Como houve necessidade de fazer algumas alterações, pois já estávamos numa fase de trabalho adiantada, tivemos um encontro com o Dr. Luiz Francisco Rebello para lhe dar conhecimento da forma que tinhamos encontrado para solucionar o problema que esta segunda versão nos colocava. Tendo o autor concordado com a forma que encontrámos para representar a peça na sua segunda versão, de imediato fizemos as alterações e estamos prontos para levar à cena este drama magnífico e bastante actual.
A par de amadores com larga experiência de Palco, temos gente com pouca ou nenhuma experiência no Teatro mas com uma enorme vontade de aprender. Esperamos de novo ter a colaboração da Imprensa para a divulgação deste espectáculo e gostaríamos de no dia 24 de Abril poder contar com a vossa presença.

O Doutor Luiz Francisco Rebello assistirá à estreia da nossa peça, o que muito nos honra. Embora já não seja a primeira vez que este autor se desloca à SIT é sempre um enorme prazer ter a presença de uma pessoa de tão grande mérito na nossa Casa.
          A primeira representação teve lugar no dia 24 de Abril de 2002. Apresentando em estreia, com lotação esgotada e honras de presença do autor da peça – Luís Francisco Rebello – e também do engº Duarte Silva com alguns dos seus vereadores, a peça “É urgente o amor”, a Sociedade de Instrução Tavaredense deu uma lição de como é possível pôr a evolução tecnológica ao serviço do teatro de qualidade, aspecto a merecer uma referência muito especial para os homens que do escuro dos bastidores souberam fazer dos efeitos de luz “actores” decisivos na espectacularidade da representação, prescindindo das tradicionais descidas de pano para mudanças de acto.
         E foi, apoiados nessa mais-valia dos desenhos de luz, que os oito personagens “viveram” a tragédia da jovem Branca (Luísa Rosmaninho, com a naturalidade espantosa de transformar os problemas de há meio século em chagas de hoje) vítima daquela encruzilhada de vidas sombrias onde a mãe (Ilda Manuela Simões essa continuadora da escola de mestre José Ribeiro que lhe permite ser “pau para todo o serviço” – actriz a fazer inveja a muitos profissionais, encenadora de méritos reconhecidos e que nesta peça soube ganhar o desafio desta coabitação com os desenhos de luz, onde é justo deixar um aceno de muito apreço para José Miguel Lontro) soube assumir a mentira que serviu de suporte à peça em que os papéis de maus do enredo tiveram magnífica interpretação nas pessoas de João José Silva (Alberto, o ausente da terra mas sempre presente no palco e direcção de cena, peça da mobília), e José Medina, um “Jorge” à medida das circunstâncias (dificílimas) em que se viu envolvido naquela teia de mentiras tão bem realçadas na penumbra da repartição de polícia onde o chefe (António Barbosa) e o seu agente (João Pedro Amorim) cumpriram as formalidades de assinalar o desenlace fatal esquecendo as denúncias de Margarida (Paula Sofia Simões), esposa traída, e da Madalena (Susana Neves), a falsa amiga da vítima
         Porque as exigências técnicas de apoio à peça não deverão permitir a representação desta fora do Teatro da SIT, razão porque não está integrada nas Jornadas de Teatro Amador, e porque a alta qualidade do desempenho justificam plenamente a presença de quem tem gosto pelo bom teatro, aconselhamos uma deslocação a Tavarede para assistir a “É urgente o amor” numa das repetições que a muita afluência registada justificam.

         Ainda sobre esta peça e sobre a sua apresentação pelo grupo dramático da SIT, vamos transcrever mais uma nota encontrada. Sorririas, mestre Ribeiro, se ao lado de todos nós, presenciasses a todo um ideal que defendeste, a toda uma postura fiel a uma escola por demais viva e marcante, onde os teus princípios se traduziram não só na escolha do grande autor dramaturgo Luís Francisco Rebelo, mas em toda a envolvência programática feita de rigor, disciplina e método, aliado a uma grande alma e teatro, bem patente na dedicação, talento e garra desta gente do “povo comum”, que te honra e te segue passo a passo.
         Foi a primeira vez, mestre Ribeiro, que pisei esta sua segunda casa, quando junto à Igreja de Tavarede iniciei caminhada a pé, escalando o pequeno percurso das ruas estreitas em direcção à SIT. Depois da primeira subida, o corte à direita, uma grande luz iluminava a colectividade e logo a dita “catedral do teatro” estava ali, em frente aos meus olhos.
         A azáfama era grande entre os que organizavam as entradas e acomodamento do público e aqueles que metodicamente colocados nos seus postos, se preparavam para dar corpo à envolvência da representação, com um ambiente cenográfico adequado e, diga-se com justiça, perfeitamente conseguido.
         Às pancadas de Molière sucedeu-se um grito de angústia e morte, ao silêncio espectante da plateia, a envolvência arrepiante do resgate de uma causa perdida, o barulho ritmado das hélices de um helicóptero, as luzes em movimento estonteante, num bailado aflito de desespero e drama, e o público ali no meio, tomando conhecimento e certificando-se do inevitável fim de Branca, uma jovem que entre o inconformismo e a esperança, procurou o amor, sem nunca o ter conseguido. 
         Orgulhosa poderá e deverá estar esta autêntica equipa da SIT, porque para além do mais, apresentou aspectos técnicos que tiraram um maior rendimento à pretensão da mensagem transmitida. No palco, um ambiente tão curioso quanto enigmático, onde a determinados “espaços de acção”, se juntavam a totalidade ou quase totalidade dos personagens, embora em ambientes perfeitamente definidos, a delegacia policial, Branca no além, ora prostrada no chão representando a morte, ora em acesas discussões e interpelações, com um alinhamento à sua volta, das pessoas da sua relação, ou ainda no exercício do regresso ao passado no espaço íntimo do seu próprio quarto. Tudo isto com o auxílio caprichado de um jogo de luzes onde cada individualidade alternava a acção com um silêncio presente, quedo e mudo, na penumbra do palco e numa postura comprometedora de conivência e sentido e culpa pelo desenlace fatal. Foi o prender da plateia a cada um dos intervenientes, mantendo uma relação forte entre o público e aquilo que cada uma significava para a procura da verdade.
         António Barbosa e João Amorim, ou melhor dizendo, o chefe e o agente Simões, de forma segura, serena e tranquila, conseguiam materializar a imagem pretendida de uma força de autoridade, que por função tinha deslindar um caso de hipotético acidente, suicídio ou homicídio, mas com um tal empenho de carácter duvidoso, entre a investigação dos factos e o interesse preferencial de umas boas palavras cruzadas, onde o saber qual o imperador romano com oito letras se lhes afigurava um objectivo de primordial importância.
         Susana Neves, no papel de Madalena, evidenciou atributos de uma artista em potência, com uma forte sensibilidade e uma margem enormíssima de progressão. Esta Madalena, nada arrependida de considerar os homens todos iguais e a mesmo tempo nutrir um carinho demasiadamente “especial”... por Branca.
         João Silva mostrou talentosamente como um drama não é só representação “séria” como pensará o “senso comum”. Com passos de quem bem conhece os caminhos de um palco, levou à cena o personagem Alberto, naquele que se pode afirmar tratar-se de um “chulo de cinco estrelas” que não via com bons olhos quando o dr. Jorge ameaçava deixar Branca, sua namorada, o que obviamente lhe colocaria instabilidade financeira. Por acréscimo da sua falsidade e cobardia, fugia a sete pés quando via o mar mais alto que a terra, nas discussões de Branca com sua mãe, provocando momentos de grande divertimento na plateia.
         Um elenco acima de tudo experiente, onde José Medina assume essa forte mensagem em cada palavra e em cada gesto, de como o tempo amadurece e dá consistência, como na vida também no teatro. E assim foi a melhor escolha para um dr. Jorge, com uma bonita idade para... não ter juízo assumindo-se com um verdadeiro mecenas que vivia entre o adultério e o conceito de família respeitosa, que não podia ser beliscada fosse por que preço fosse.
         Ilda Simões estará decerto duplamente feliz, porque na qualidade de encenadora viu a sua gente dar expressão aos seus desejos, com actuações de grande qualidade artística,  que ao facto não será alheio a sua galvanizante presença em palco, onde no papel de mãe de Branca, fez jus a uma brilhante interpretação feita de engenho e arte, num apelo muito forte ao estado de alma que apenas advém de uma genuina artista de teatro.
         Mãe de Branca era, como dizia Alberto, um “velho coiro” que incentivava a sua filha a uma relação amorosa com o dr. Jorge, de forma a tirar dividendos financeiros de tal situação.
         O bom e o bonito foi o aparecimento de Margarida, esposa do dr. Jorge e autêntica figura mistério, com acção apenas na parte final da história. Revelou a todos, e especialmente ao seu marido, que afinal de contas sabia de tudo, sofrendo no silêncio e na ânsia de recuperar só para si o dr. Jorge. Acabou por interferir também no labirinto de desencanto que levou à morte de Branca. Paula Simões, num menor tempo de actuação, provou com Margarida não deixar créditos por mãos alheias e chegar aos níveis altos dos seus colegas.
         Luísa Rosmaninho (Branca), que excelentes momentos nos proporcionou, mais um grande exemplo de que não é só preciso saber-se fazer teatro, isto no que concerne puramente aos aspectos técnicos de representação, mas também sentir o teatro, e se assim se pode dizer, com a sensibilidade do coração, numa aproximação de como quase fosse uma situação real.
Procurou dentro de si as suas qualidades inatas, que não se compram, não se vendem, não se aprendem, mas apenas teremos que lhes dar espaço para se revelarem. Luísa Rosmaninho é sem dúvida um nome a fixar.

Em tempos de tão badalada crise teatral, em boa hora organizou e apoiou o Lions Clube da Figueira da Foz estas jornadas de teatro amador, e se crise existe, então digo eu com toda a certeza, de que afinal não é geral e Tavarede é mais um bom exemplo e como o teatro no concelho da Figueira da Foz está forte e vivo e, sinceramente, recomenda-se.