sábado, 2 de maio de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 4

A evocação, de António Broeiro


A segunda descrição, de António da Silva Broeiro (sobrinho), é bastante mais recente e muito diferente. Data de 1938. Antecedo-a de um pequeno comentário sobre os tão falados “Broeiros”, pois também eles merecem uma recordação nestas minhas histórias e esta é uma oportunidade muito aproveitável para esse efeito.

         Ainda hoje, apesar de já ter decorrido mais de meio século sobre a data do seu falecimento, os Broeiros, de Tavarede, são recordados pelos mais idosos como dois dos maiores amadores dramáticos que passaram pelo palco da Sociedade de Instrução Tavaredense. Referimo-nos, é claro, aos irmãos António e Jaime da Silva Broeiro.
         Como reconhecimento e preito de gratidão pela sua actividade teatral, aquela colectividade tem os seus retratos expostos no salão nobre da sua sede.
         Pode dizer-se que, desde sempre, os tavaredenses tiveram uma origem bastante humilde. Os Broeiros não foram excepção. Seus pais, Henrique Broeiro e Emília Silva viviam modestamente, com os seus 4 filhos, aqueles dois mais outros dois mais novos, Manuel e José, numa pequena casa sita na Rua do Outeiro.
         Sobre o mais velho, António, escreveu mestre José Ribeiro no livro “50 Anos ao Serviço do Povo”:
         “Escrevemos estas notas (referia-se à escola nocturna na S.I.T.) e vemos surgir diante de nós a figura de António da Silva Broeiro. Estamos a ouvi-lo naquela sessão solene em que, pouco tempo antes de morrer, a todos surpreendeu e comoveu com a sua espontânea e impressionante confissão. Apresentava-se como produto da Sociedade de Instrução Tavaredense. “Eu sou, dizia ele, o que a Sociedade de Instrução Tavaredense de mim fez. Devo-lhe tudo. Comecei lá em baixo, na escola da noite, onde me ensinaram a ler, escrever e contar. Só à noite podia ir à escola: teria ficado analfabeto se não fosse a escola nocturna. Depois trouxeram-me para o teatro (e recordava o nome de João dos Santos), ensinaram-me a compreender o que lia, ensinaram-me a falar, a conversar, a ouvir. Aqui fui instruído e educado. Recebi lições, aprendi coisas, tive ensinamentos, fixei exemplos que me serviram pela vida fora. A acção da Sociedade de Instrução Tavaredense exemplifico-a em mim próprio”.
         “António Broeiro viera da mais humilde condição, vivia na extrema pobreza quando o mandaram à escola da noite, porque de dia aprendia o ofício de sapateiro; trabalhou, fez-se homem, conquistou estima, consideração e bem estar. Quando a morte o surpreendeu, aos 59 anos, em Março de 1945, era um dos primeiros elementos do grupo cénico e, comerciante muito estimado, dirigia o seu bem montado estabelecimento de sapataria na Figueira da Foz”.
         Seu irmão Jaime, casado com Ana Rôla, viveu na então chamada Rua de Cima. Teve três filhos, António, Joaquim e Celeste. Também ele foi um profissional de sapataria. Faleceu em Lisboa, a 19 de Agosto de 1945, ficando o seu corpo sepultado no cemitério do Alto de S. João. Tinha 58 anos de idade. Como se vê estes dois irmãos faleceram ainda bastante novos e, curiosamente, no mesmo ano, com poucos meses de permeio. 
         O filho mais velho deste último, António da Silva Broeiro, do mesmo nome que seu tio, nasceu em Tavarede em 1909. Bastante novo, começou a trabalhar como tipógrafo, na Tipografia Popular, na Figueira da Foz, tendo sido um dos fundadores do jornal “Domingo”, que teve existência curta. Chegou a secretário do jornal “Gazeta da Figueira, que era composto e impresso naquela tipografia.
         Procurou outro destino. Tendo concorrido à função pública, foi admitido como funcionário administrativo na Colónia Penal António Macieira, em Sintra, onde passou a residir com sua esposa, Laura Cândida Mendes da Silva Broeiro. Tiveram um filho.
         O seu espírito jornalístico levou-o a colaborar activamente no Jornal de Sintra, do seu conterrâneo e amigo António Medina Júnior, tendo sido, em determinada ocasião, nomeado chefe da redacção deste periódico. Escreveu para outros jornais, tendo-se ainda dedicado à poesia e ao teatro.
         Vitimado por doença, faleceu em Lisboa, no Hospital de S. José, em Dezembro de 1943. Contava somente 34 anos de idade. Talvez tenha sido o desgosto por esta morte tão prematura que, pouco mais de um ano depois, terá motivado o falecimento de seu tio e de seu pai.
         É dele o artigo a seguir, publicado no Jornal de Sintra, em 20 de Julho de 1938, e em que recorda a sua terra. Ao recordá-lo, nada mais fazemos do que prestar uma singela homenagem à memória destes saudosos tavaredenses.

Saudades - Quando se ronda pela casa dos trinta, falar da nossa terra, forçoso é que se evoque.
         Ainda que não queiramos.
         O nosso coração, o nosso sentimento, há-de por força trazer a lume as recordações que estão algemadas à nossa vida...
         A saudade aviventa, dá forma a essas recordações, que já se desfaziam na bruma do tempo, e surgem, enriquecidas pela nossa imaginação, as imagens dos nossos tempos de criança...
         O nosso primeiro amor! Como ele anda ligado à saudade da nossa terra!?
         Quem é que, ao lembrar os tempos ditosos da mocidade, não tem a ela ligado, por laços indeléveis, a lembrança do primeiro amor!? Quem!?
         E eu lembro a minha aldeia! A aldeia onde nasci, onde me criei, onde corri, despreocupado e feliz, pelos outeiros e pelos serrados; pela várzea e pela colina; ora caçando rãs nos valeiros, ora subindo aos choupos à caça de ninhos de pardal!...
         ... e as manhãs doiradas do sábado de aleluia em que os sinos repicavam festivos, e eu e os cachopitos da minha idade, esbaforidos, corríamos à igreja com uma caneca de água colhida no rio para que o senhor vigário Manuel Vicente no-la benzesse para as nossas mães borrifarem as casas para que o espírito maldito do bruxedo lá não entrasse...
         ... e nas manhãs radiosas de domingo de Páscoa, eu ia, de fato novo à marinheira, de colar engomado muito branco e laçarote pendente do pescoço, até à igreja, ouvir missa e beijar o menino Jesus que estava deitado numas palhinhas...
         ... mas meia hora depois, quando eu estivesse farto de andar na brincadeira, com o fato enxovalhado e porco, eu dava um doce a quem fosse capaz de olhar para mim sem sentir vontade de me bater... Era uma dó! Um fato tão bonito...
         Como eu brinquei! Como eu fui feliz...
         Era uma criança e a vida não me preocupava.
         Mas agora outras cadeias me prendem! Outros amores me preocupam!...
         Mas a saudade da minha aldeia, de Tavarede, essa subsiste, e tão intensa, que daqui, eu vejo, com os olhos da alma, a casa onde nasci, e onde minha mãe me aconchegou, me deu os primeiros beijos, e os primeiros açoites...
         E bem merecidos eles foram, pelo visto, porque, homem feito já, eu não os esqueço, para me servirem de estímulo em acções presentes...

Lúcia-Lima! Tavarede, que fica a dois quilómetros e meio da Figueira, dos puxados, aconchega-se na várzea ubérrima, entre encostas verdejantes e floridas.
         Quem vai da Figueira pela estrada, depara, sem esforço, com o antigo palácio dos Condes de Tavarede, pitoresca construção solarenga, com os seus pináculos ornamentados, as gárgulas e as janelas ogivais, em pedra magnificamente rendilhada.
         Já esqueceu ao povo o déspota que em remotos tempos ali viveu intra-muros.
         Agora, a apalaçada construção, morre, desprezada, com a sua arquitectura a esboroar-se com o rodar do tempo.
         Mas Tavarede tem uma coisa mais pitoresca ainda que o seu histórico palácio: a Lúcia-Lima.
         Em noites de verão, os banhistas que se afastam do bulício da cidade, são, quando se aproximam da ridente aldeia, deslumbrados por um perfume intensíssimo que se desprende desta planta.
         O limonete, como lhe chamam, na sua linguagem chã, os tavaredenses, é a graça da terra..
         Quando vêm, pelo S. João, as cavalhadas de Brenha ou Buarcos, as moças enfeitadas com ramilhetes de limonete no peito gracioso, têm encanto, têm frescura...
         O ar rescende! E o aroma da Lúcia-Lima no ar embalsamado, faz crer a quem o respira que aquela planta ali se cria com fértil prodigalidade...
         E é verdade! Com tanta fartura, tanta, que até já alcunharam a minha linda aldeia de terra do limonete!

Teatro de amadores Os furiosos do teatro, foram sempre, em Tavarede, dos mais ferrenhos...
         Grata lembrança tenho eu na minha mente, a respeito de espectáculos de amadores...
         Mas sem ser do meu tempo, já em mil oitocentos e setenta e tal se representavam em Tavarede, as mais difíceis peças no Teatro do Palácio.
         A sala de espectáculos de então, é agora uma estrebaria...
         O entusiasmo era de tal ordem já nesse tempo, que a autoridade teve que mandar encerrar a sala de espectáculos por causa das desordens que os despiques provocavam...
         A sala encerrou-se mas os amadores redobraram de capricho...
         ... e foi então que, em 1904, se fundou a actual Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Os seus fundadores foram: Manuel Rodrigues Tondela, Augusto Biscaia, Manuel Fernandes Júnior, César da Silva Cascão, João Miguens Fadigas, João d’Oliveira, José Cardoso, António Jorge da Silva, António Luiz Motta, Joaquim Saraiva, Fradique Baptista Loureiro, António Gomes d’Apolónia, Manuel dos Santos Vargas e Francisco Cordeiro.
         A nova associação propunha-se manter uma escola nocturna que tem funcionado ininterruptamente até aos nossos dias. Para a sua manutenção, angariação de fundos se impunha.
         E foi então que se criou um grupo de amadores que, num teatro que era pertença da referida associação, dava espectáculos cujo produto se destinava á subsistência da referida escola, fornecendo material escolar aos alunos, etc.
         A instrução aos alunos, nos quais se contavam alguns já homens, era ministrada gratuitamente por amigos dedicados da associação, dos quais é justo destacar Manuel Tondela, já falecido, pai da esposa do distinto artista figueirense e nosso prezado amigo sr. António Piedade.
         Actualmente as aulas nocturnas da Sociedade de Instrução têm uma frequência superior a 80 alunos.
         O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, melhorou consideravelmente desde que o brilhante jornalista e orador José Ribeiro foi nomeado ensaiador.
         Espírito culto, conhecedor profundo da arte teatral, ele guindou o grupo de amadores de Tavarede a uma altura que, muito poucos, talvez mesmo nenhum grupo de amadores da província, tenham atingido.
         Falam a esse respeito, e melhor do que nós, a quem podem acoimar de suspeito, os críticos das cidades onde se tem exibido, como Figueira da Foz, Porto, Coimbra, Tomar, Viseu, Leiria, etc.
         Críticos exigentes não lhe regatearam louvores.
         O Primeiro de Janeiro, O Século, o Diário de Notícias, o Diário de Coimbra, etc. destacaram valores dentro do grupo; e os nomes de Violinda Medina, Emília Monteiro, Maria Teresa, João Cascão, Jaime Broeiro, António da Silva Broeiro, Manuel Nogueira, António Graça, António Santos, etc. surgem aureolados de fama.
         O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense conta no seu activo com enorme quantidade de espectáculos de beneficência a favor do Asilo S. João do Porto, Ninho dos Pequeninos, Asilo da Infância Desvalida, Diabéticos Pobres, Maternidade, Associação de Socorros Mútuos dos Artistas e Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria, de Coimbra, Misericórdia e Jardim Escola João de Deus, da Figueira da Foz, Santa Casa da Misericórdia e Sopa dos Pobres, de Tomar, e Jardim Escola das Alhadas.
         O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense teve já um convite para representar em Lisboa, em récita de gala, convite que não pôde ser aceite por imperiosos motivos.
         Peças representadas pelo Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense:
         O Sonho do Cavador, com 32 representações; A Cigarra e a Formiga, com 12 representações; Em busca da Lúcia-Lima, com 8 representações; Grão-Ducado de Tavarede; Evocação; Noite de Agoiro; Má Sina; A Espadelada (infantil), com 14 representações; Frei Tomaz; Os fidalgos da Casa Mourisca; As três gerações; As pupilas do Sr. Reitor; A canção do Berço; A Morgadinha dos Canaviais; Justiça de Sua Magestade; A Morgadinha de Val-flor; O Grande Industrial; Entre Giestas; Génio Alegre, etc.
         O trabalho dessa gente, gente humilde, que trabalha de dia e à noite se instrui no teatro, sofre comparação com o trabalho de artistas...
         E os críticos não se cansam!
         E o grupo segue, na sua carreira triunfal.
         Actualmente ensaia a Recompensa, oferta gentilíssima ao grupo do grande dramaturgo Dr. Ramada Curto. Esta oferta foi um triunfo para o grupo, porque a gentileza do Dr. Ramada Curto, distinguindo o grupo de Tavarede para a interpretação da sua famosa peça, fala mais, e mais alto, do que toda a crítica portuguesa...

Mais outro grupo! Mas quando era mais acesa a rivalidade entre os amadores tavaredenses, outro grupo se fundou: o Grupo Musical de Instrução Tavaredense.
         Foram seus fundadores, António Medina, José Medina, Ricardo Simões Nunes, respectivamente pai e tios do director deste jornal, Joaquim Severino dos Reis, Manuel Vigário, José Maria da Silva, José Migueis Fadigas, João Jorge da Silva, A. Medina Júnior, etc.
         Lembro-me, de que, quando ainda era um garotelho, fugia de casa para ir assistir aos espectáculos.
         António Medina Júnior, António Medina, José Medina, Emília Pedrosa Medina, Violinda Medina e Silva, Manuel Nogueira, etc., representavam então no novo grupo, num despique tão renhido com os de lá de cima, que só a eles se deve sem dúvida a magnífica plêiade actual de amadores que se esforçaram, à porfia, por fazer melhor uns que outros. E o resultado, pode dizer-se que foi maravilhoso...
         Dele saíram amadores que se podem classificar de grandes, em qualquer parte.
         A Sociedade de Instrução Tavaredense mantém actualmente, em casa própria, um grupo de amadores teatral e uma escola onde recebem instrução para cima de oitenta alunos.
         O Grupo Musical Tavaredense, instalado no Palácio dos Condes de Tavarede, mantém uma aula de música que é frequentada por mais de 40 alunos, não contando com a sua afamada e bem organizada Tuna - a popular Tuna de Tavarede.
         Qualquer das associações tavaredenses marcaram já o seu lugar exuberantemente, a pontos de Alguém - com A grande - afirmar, solenemente, que Tavarede, em educação músico-teatral, caminhava na vanguarda de todas as terras suas semelhantes de Portugal!

Pic-Nics Entre os componentes dos dois grupos tavaredenses cada vez são mais estreitas e afáveis as relações.
         E assim, todos os anos se juntam, num passeio de franca confraternização, que pode ser para a Serra da Boa Viagem, ou para o pinhal do Sr. Dr. Cruz, na Borlateira. Para lá foi o deste ano, e lá tirámos os pitorescos motivos fotográficos que publicamos.
         As panelas fumegam, e refervem, e os pitéus, feitos ali, num alegre convívio e à sombra amiga dos pinheiros amigos, parece que têm outro sabor, o sabor da liberdade com que são comidos...


       
Depois há baile. Alegre baile, em que se bate, com mestria, o vira e o estalado.
         E é vê-los, os pares, novos e velhos numa porfia, rodopiando e lançando ao ar embalsamado pela seiva dos pinheiros, as cantigas que dizem da alegria dos seus corações sempre moços...
         São assim, alegres, os pic-nics da minha terra...
         ... E eu relembro-os, porque tenho saudades, saudades dos tempos em que, descuidoso, enlaçava a cintura das raparigas, airosas, risonhas, cheirando a limonete...
         ... e dançava, alegre, o vira e o malhão...

Água fresquinha - Na várzea, mesmo na várzea, em pitoresca fonte, limpa, encantadora, brota a linfa cristalina... A água de Tavarede, famosa já pela sua pureza, leve e macia, de temperatura agradabilíssima tanto no verão como no inverno, caudal uniforme, é uma das preciosidades da aldeia.
         A fonte tem poesia! À tardinha, ao morrer do sol no poente afogueado, as raparigas vão, airosas, de bilha à cabeça, colher a água pela fresca...
         Em noites de luar, quando o ar está perfumado de limonete a frescura da fonte e os seus assentos de pedra convidam o banhista a um agradável repouso...
         E a linfa murmura, murmura sempre, correndo das duas bicas da fonte, e no ar, rescendendo a limonete, a sua canção, canção que não se extingue, é doce inspiração para corações de namorados que adregam de refrescar suas bocas na água múrmura e cristalina da Fonte de Tavarede...

Paisagem!  Passeio magnífico, cheio de beleza, é o que se efectua indo para a Serra da Boa Viagem, passando por Tavarede e Brenha.
         A várzea vicejante cortada por frescos canaviais, os ribeiros cantando no leito pedregoso, os vinhedos e os campos de trigo, cortados por extensas fileiras de esguios choupos, dão à paisagem tavaredense o aspecto das várzeas minhotas...
         ... e lá mais para cima, nos Canos, onde a água, a chapinar na roda das azenhas as faz mover, no rodar bendito que alimenta a mó que há-de transformar o trigo em farinha branca de neve, os salgueiros, delicados, a guardar as hortas, tornam a paisagem diáfana, com a sua folhagem tão mimosa...
         ... e as velas brancas dos moinhos a rodarem sem parança, no cimo dos montes, e lá dentro a mó rom-rom-rom, sempre, sempre sem descanso, dão ao bucólico panorama, movimento, vida...
         ... e dão o pão e a fartura aos lares dos aldeões...

         ... dos aldeões da minha terra!               


O Associativismo na Terra do Limonete - 126

         O espectáculo de gala, concebido e ensaiado pelas amadoras Ilda Manuela Simões e Ana Maria Caetano, evocou o passado teatral da colectividade. A comemorar os cem anos (1904-2004), de intensas e prodigiosas actividades teatrais, recordam-se os seus fundadores e todos os obreiros do teatro da terra do limonete.
Enaltece-se na efeméride o inesquecível José da Silva Ribeiro, que desapareceu fisicamente há 16 anos, mas vive na memória de todos quantos ainda se regem pelos ensinamentos, subsistindo a sua escola no trabalho artístico dos actores da Sociedade de Instrução Tavaredense.
Diríamos que a arte e o sonho são uma constante neste grupo de jovens e menos jovens que aliam a sua arte à solidariedade, sendo eles próprios a seiva renovadora desta colectividade que se movimenta para o povo e dele terá, sempre, o seu carinho e aplausos merecidos. 
É sobretudo poesia, através da qual nos é dado conhecer as raízes do povo de Tavarede, a sua simplicidade, o seu trabalho, sua espontaneidade e alegria.
Também os trajes complementam o quadro, e a música que gentes simples cantavam, ao compasso da enxada, cavando a terra.
No trabalho duro, mas honrado. Mas regista, também, ao longo da sua apresentação alguns confrontos interpretativos do melhor que os actores sabem assumir nos textos que lhes cabem, transmitindo à plateia o que o autor pretende em razão e emoção.
Provou-se nesta Marcha do Centenário não serem necessários os quadros estéticos das cenografias para contagiar as plateias, já que neste espectáculo se revitaliza a cor e a graciosidade, os tons (e o cheiro) da terra, face a uma plateia que ri, e se emociona até às lágrimas, batendo palmas sem fim numa apoteose inesquecível.
Porque se entende, e é necessário  entender para sentir a arte e o sonho de um espectáculo riquíssimo de amor às tradições de uma terra que nos ensina a reviver a nobre cultura de gentes que são nossas, porque iguais nas alegrias e tristezas da vida, que caminha sempre para o nada.
E neste constante marchar de cada um, saibamos marchar também com as nossas palmas, marcando presença e gratidão no sonho e por forma a vencer os nossos dramas.
E de tudo isto, Fernando Romeiro, o anfitrião, nos deu conta, na boca da cena, que foram 15, num ritmo profissionalizado, envolvente, vigoroso e expressivo, convidando a plateia ao espectáculo da Marcha do Centenário, de cena em cena, para rir e pensar, pois então.
O chá da terra do limonete, génio alegre, as árvores morrem de pé, brasão de Tavarede, pote florido nos jardins de Tavarede, os velhos, Maria Parda, na fonte de Tavarede, laranjas de Tavarede, a forja, a mãe do Processo de Jesus, a conspiradora, foguetes na terra do limonete e, por último, o centenário da SIT, em apoteose e com o Coro de Champanhe, a encerrar de forma magnífica pela qualidade dos sons e da movimentação em palco, com o público rendido e feliz de uma noite e uma marcha que nos obriga a voltar à Sociedade de Instrução Tavaredense.
Apoios à produção vieram da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Junta de Freguesia de Tavarede, Escola Profissional da Figueira da Foz e Rancho do Saltadouro”.

Na manhã seguinte, depois da tradicional arruada pela tuna de Tavarede, que percorreu as principais ruas da aldeia, realizou-se uma romagem ao cemitério local, tendo sido depostas flores nalgumas campas, representativas de todos quantos participaram, em vida, na fundação da colectividade e no grupo dramático. Perante a sepultura do fundador e primeiro sócio número um, após se ter escutado o hino da associação, um representante da comissão organizadora das festas do centenário leu a seguinte mensagem: Aqui estamos, perante a vossa presença espiritual para, em nome das muitas gerações de tavaredenses que, desde o dia 15 de Janeiro de 1904, têm vivido a Sociedade de Instrução Tavaredense por vós fundada naquele abençoado dia, vos prestar contas e apresentar agradecimentos.São passados cem anos. E ao comemorarmos tão feliz acontecimento, sentimos orgulho em vos testemunhar que, até hoje, a vossa e nossa Colectividade tem cumprido, com todo o rigor, os ideais por vós estabelecidos, ao serviço da educação e da instrução do povo tavaredense. E não só! Grande parte do nosso país conhece o glorioso nome da Sociedade de Instrução Tavaredense e tem admirado e aplaudido o grupo cénico por vós iniciado há cem anos. Muitas, mesmo muitas, são as instituições de assistência, desde Vila Real de Trás-os-Montes a Sintra que, ao longo de todos estes anos, receberam valioso apoio financeiro, de que tanto careciam para a sua obra, e que o nosso cénico lhes concedeu em largas dezenas de espectáculos em benefício dos seus cofres.
Se, na verdade, alguma coisa existe no Além, para onde partistes há tantos anos, estamos certos de que vos sentireis satisfeitos e orgulhosos dos vossos descendentes. Nós, acreditai, sentimo-nos conscientes de que sempre cumprimos e dignificámos a obra por vós iniciada. E esperamos, sinceramente, que os nossos descendentes também o irão fazer.
E se é com a consciência do dever cumprido que hoje aqui nos reunimos para vos prestar contas, também queremos expressar à memória de todos vós, o sincero agradecimento das gentes da terra do limonete. Obrigado, pela obra que iniciaram e nos legaram. Obrigado, pelo caminho que nos deixaram aberto. Graças a vós, podemos afirmar que os tavaredenses, humildes como sempre, alcançaram um nível de instrução e educação pouco vulgares em pequenas aldeias como a nossa.
Aceitai a singela lembrança das nossas flores. E tenhais a certeza de que, para todo o sempre, a vossa memória estará presente dentro e fora das paredes daquela casa, que tão devotada e filantropicamente erguestes com a esperança de um futuro melhor para todos os vossos conterrâneos…

À tarde, na sala de espectáculos, teve lugar a sessão solene comemorativa da efeméride. Presidiu à mesma o secretário de Estado da Cultura, tendo marcado presença altas individualidades autárquicas da Figueira e de Tavarede, além do representante do Governo Civil de Coimbra. Também as congéneres concelhias se fizeram representar e os seus estandartes, encostados às paredes da plateia, davam vistoso aspecto à sessão.
E no domingo, dia 18, pela tardinha, a sessão solene comemorativa do centenário da Sociedade de Instrução Tavaredens

A cuidada sala de espectáculos daquela casa, onde pareciam ainda pairar os aplausos e as emoções da noite anterior, voltou a encher. Encheu a sala, encheu o palco, onde não faltavam lindas flores (pode entender-se o duplo sentido), e enriqueceu a história desta meritória associação. Esta sessão comemorativa teve razões de sobra para se tornar inesquecível. O público aderiu quase como se fosse a um espectáculo fortemente publicitado; na plateia e na galeria, os tavaredenses estiveram bem acompanhados por amigos e admiradores da sua sociedade; as colectividades congéneres fizeram-se representar em força e, algumas delas, ornamentaram as coxias laterais com os seus estandartes; as autoridades oficiais estiveram presentes: do Governo à Junta de Freguesia, com a Câmara Municipal da Figueira da Foz multipresente – Presidentes da Assembleia e do Executivo, Vereadores com e sem pelouro – e a reforçar o reconhecimento do mérito e do crédito da Sociedade, para além das presenças, várias mensagens de felicitações de gente ilustre: do Presidente da República ao actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa – como se sabe recente ex-presidente da CMFF – entre outras, que foram lidas pela presidente cessante a abrir a sessão que veio a ser dirigida por Sua Excelência o Secretário de Estado da Cultura.
Antes da oratória propriamente dita – os discursos da praxe – e logo após a leitura da correspondência, foram ainda distinguidos consócios ligados à sociedade há 50 anos, foi apresentado um novo estandarte da SIT e destruído o cunho da medalha comemorativa do centenário na presença do autor, o conhecido Francisco Simões, e foram referidos os nomes da equipa de dirigentes recentemente eleitos, liderada por Vítor Medina, tendo a presidente cessante, Rosa Paz, feito uma breve intervenção em que manifestou a sua confiança nos novos dirigentes e aproveitado para agradecer a colaboração da equipa exclusivamente feminina que com ela trabalhou e aos que a apoiaram ao longo dos seus mandatos.
A seguir muitos foram os oradores que teceram justos elogios à continuada acção cultural desenvolvida pela colectividade, essencialmente com o teatro amador de qualidade e que há muitos anos extravasou o concelho, com actuações também além fronteiras.
De entre os vários amigos da SIT, e para além daqueles (as) que são bem mais do que isso, usaram da palavra o Dr. Bernardes, um bem conceituado entendido na arte de Talma e conhecedor da carreira do grupo, e a Drª Teresa Coimbra, desde longa data muito ligada afectivamente aos tavaredenses que, com alguma emoção, se referiu ao inesquecível “sr. Zé Ribeiro” e aos seus conselhos.
O vasto conjunto de intervenções, que não destoaram, tiveram a terminar as palavras do Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz que foram precedidas pela intervenção do Secretário de Estado da Cultura que informou do apoio da sua secretaria quanto aos custos da edição do Livro do Centenário da SIT e que encerrou a sessão. Às entidades presentes, os tavarenses fizeram questão de oferecer exemplares da artística medalha que mantém para a posteridade a efeméride em comemoração. Enfim! Tavarede está, e vai continuar, em tempo de centenário....

... Numa sala repleta, a SIT atingiu um dos pontos altos das comemorações do seu centenário, com a realização da sessão solene, que contou com a presença de representantes de diversos organismos, com particular destaque para o meio associativo, e na qual foram homenageados Joaquim Cardoso Ferreira e José Manuel Barbosa por completarem 50 anos de associados. Seguidamente Francisco Marques Simões e João Mendes inutilizaram o cunho da Medalha do Centenário e foi apresentado o novo estandarte da colectividade. A Tuna de Tavarede, que abrilhantou a sessão, executou o hino da colectividade, da autoria de João da Silva Cascão.
Na altura das intervenções, Rosa Paz, a presidente cessante, defendeu que “o passado é glorioso, mas o presente em nada desprestigia os nossos antepassados”. Quanto ao presidente da Junta José Paz, focou a necessidade de “trazer os jovens – que são o futuro – para as colectividades”, uma vez que, defendeu, “é nestas casas que se cultiva a solidariedade, os valores e a cidadania”, que são, disse, “o avesso do individualismo de que a sociedade enferma”.
Por seu lado, Martins de Oliveira, vereador das colectividades quis render “homenagens sinceras a tão nobre colectividade que tem honrado a arte de Talma”, enquanto que a vereadora da cultura, Teresa Machado, focou o espectáculo alusivo ao centenário, considerando-o como “a memória daqueles que já partiram e o incentivo para que nunca se apague a chama da cultura na SIT”.
O presidente da Assembleia Municipal Daniel Santos, defendeu que os fundadores da colectividade e os seus continuadores “prestam um grande serviço à cultura, a Tavarede e à Figueira da Foz”, enquanto que o presidente do município, considerou este dia, “particularmente gratificante para os que se dedicam à cultura”. Duarte Silva recordou que o concelho “é rico na sua identificação cultural que continua a defender, apesar da massificação, com a participação das colectividades”. Referindo-se à aniversariante, sublinhou que a autarquia se orgulha e agradece “tudo aquilo que esta colectividade tem feito pelo concelho”.
A sessão foi encerrada por José Amaral Lopes, secretário de Estado da Cultura, que considerou ser “uma honra, estar presente numa colectividade que já fez pela cultura do país, mais do que eu poderei fazer”.

Focando o facto de a SIT ser “uma colectividade carregada de memória e que tem procurado construir uma sociedade mais justa, onde a cultura e os valores são os meios mais adequados para nos enriquecermos em confronto de ideias com os outros”, aquele elemento do Governo considerou também que a sua presença se ficou a dever ao “reconhecimento que esta instituição deve merecer de todos os portugueses”. Amaral Lopes anunciou ainda que o Ministério da Cultura vai suportar a edição do Livro do Centenário.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os potes floridos do primeiro de Maio







POTE FLORIDO –   
P’ra saudar Maio florido,
 Tão propício aos namorados,
Vem o cortejo garrido
Com seus potes enfeitados”

E as alegres raparigas,
Contentes em seus amores,
Enchem o ar de cantigas
E do perfume das flores… 

E o pote de barro
Tremendo no ar,
Parece bailar
Alegre e bizarro,
Parece brincar
Co’a moça travessa
Que o leva à cabeça,
Feliz, a cantar… 

 “Quando Abril começa a despedir-se, as raparigas animam-se, combinam, organizam o rancho. E na véspera do dia ansiosamente esperado, pedem às vizinhas, correm aos jardins, vão ao mercado – e levam para casa arregaçadas de flores. Arranjam os trajos. Enfeitam os potes, que desaparecem sob os desenhos caprichosos das rosas e malmequeres. Mal pregam olho durante a noite.  E quando a manhã só é adivinhada pelo seu espírito em alvoroço, erguem-se, chamam-se umas às outras, reúnem-se – e as suas vozes fazem a alvorada antes que o chiar das rabecas e o tom-tom dos violões arrepie o ar nos estremeções da afinação.
         E marcham. Estrada fora, marcam em piso leve, airosas e frescas, o compasso da marcha que as suas vozes erguem no espaço, subindo alto, levada muito alto no perfume das flores, até fundir-se na atmosfera da madrugada húmida e ainda pesada dos orvalhos da noite. Sobre as cabeças inquietas levam os potes floridos.  Dentro dos peitos arquejantes uma ansiedade, uma aspiração indecisa que toma forma nas suas bocas e é Amor nos seus lábios vermelhos sem pintura...

            Naquele ano, o tempo estava chuvoso. Mas elas, queriam lá saber da chuva!... O 1º. de Maio era sempre o 1º. de Maio. No 1º. de Maio há sempre sol. Elas não acreditam na chuva. E se a chuva vier – há-de desfazer-se ao calor das suas vozes, dos seus corações ansiosos, da sua mocidade ardente. 

(O Sonho do Passado... A Esperança do Futuro - Vinte anos da morte de Mestre José Ribeiro)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 3

       Que transacções mantém Tavarede com Mira, Quiaios e Brenha, povoações a quem servirá a estrada distrital?
         Que produtos de indústria poderão trocar com aquelas povoações? Ao nosso mercado concorre diariamente com duas ou três dúzias de cestas de produtos hortenses. Para isto, lá tem a boa estrada que já possui.
         Que Tavarede precise dalguns melhoramentos dentro de si, concordo; que lhe seja de absoluta necessidade passar por dentro a estrada distrital, privando dela os centros mais importantes da sua freguesia, não se pode admitir á face da boa razão.
         Lancemos a vista sobre a bacia em que assenta Tavarede, povoação que é hoje objecto de infundamentadas questões sobre a conveniência de trazer por dentro dela a estrada distrital que há-de ligar-nos a Aveiro.
         Analisemos primeiramente os montes que a rodeiam, as vias de comunicação que encerra, as produções da agricultura do terreno que a forma, e com esse conjunto de apreciações poderemos mais uma vez avaliar a razão de obrigar a um desvio o traçado já estudado.
         Tavarede está situada no fundo da bacia em um vale profundo, apenas a quatro metros acima do nível do mar, na direcção do poente ao nascente até á Cumieira, a serra da Boa-Viagem.
         Duas ramificações desta serra partem - uma do ponto da povoação da Serra, prolongando-se pelos Condados para o sul, até chegar ao lugar do Senhor do Areeiro a 600 metros ao poente de Tavarede, onde termina limitando o horizonte dessa povoação por este lado; - outra - partindo da mesma serra e na direcção de Cabanas, estende-se pelo Saltadouro, Prazo, Araújo, Casal da Robala, e principiando a deprimir-se neste último ponto acaba na margem do Mondego, junto dos Estaleiros.
         Um outro monte principia a elevar-se junto do lugar do Senhor do Areeiro, continuando a ramificação da serra perdida naquele ponto. A partir dali, o monte continua por alguma distância e divide-se depois em três partes: uma que segue para o Sudoeste, e é aquela em que assenta a nossa igreja matriz; a outra, paralela a esta, é a base da rua da Lomba; a terceira, crescendo do Pinhal para Sueste, assenta nela o casal da Lapa, indo depois perder o nome junto dos estaleiros.
         A bacia em que assenta Tavarede, emoldurada do norte, nascente e poente, pelos montes que designei, é aberta ao sul do lado onde passa o Mondego, a dois quilómetros abaixo daquela povoação. Tem de comprimento, do norte a sul 2:500 metros, e de largura 700, sendo atravessada longitudinalmente por um ribeiro que recebe as águas das vertentes da Serra da Boa-Viagem, e do Saltadouro, e, passando á extremidade do lado do nascente de Tavarede, deslizando pela planície abaixo, vai pela fonte da Várzea a desaguar no Mondego. No decurso do trajecto do ribeiro estão montadas três azenhas. A bacia, é em grande parte destituída de terreno próprio para ser agricultado, a parte mais próxima do rio é ocupada por marinhas de sal, cujas propriedades pertencem a indivíduos desta vila, e terá uma área de 150:000 m.q. Segue-se-lhe para o norte quase outro tanto de superfície de terreno em parte apaúlado, e abandonado a pousio e á espontânea vegetação de juncais. Mais para acima, - talvez não erre a estima - um terço da superfície total da bacia que envolve Tavarede serve ao cultivo de cereais e produtos hortenses, mas em tão pequena quantidade, que mal compensam o trabalho do lavrador, tanto que, os proprietários, na maior parte da Figueira, têm preferido trazer arrendadas essas terras a cultivá-las por sua conta. Os rendeiros, não obstante correr por suas mãos todo o serviço do cultivo, tiram bem magros recursos desse trabalho, e tanto que uma grande parte deles, não podendo viver unicamente destes proventos, vem aqui empregar-se quase todo o ano, prestando os seus serviços braçais nos armazéns de vinhos, como carreiros, ou em outros misteres.
         Quase toda aquela planície possui para esta vila um magnífico caminho a macadame, que, partindo da proximidade da quinta do sr. dr. Borges, a quatrocentos metros abaixo de Tavarede, vem para o sul, em volta, a encontrar a fonte da Várzea, e para diante daqui sobe a um alto onde se bifurca para o sul a encontrar a extremidade desta vila pelo lado do Mato, e para o poente vem encostado ao cemitério, a sair do Pinhal.

         A extremidade norte da bacia tem a boa estrada a macadame que de Tavarede vem á Figueira.
         Além dessas estradas existem ainda uns caminhos menos importantes; um deles tem origem na estrada da Várzea, apoia-se na vertente do monte que limita a bacia pelo poente, e segue àquela povoação. Esta é muito concorrida pela gente que se dirige á Figueira. Pelo lado do sul temos a estrada dos Estaleiros, por onde é feito o serviço das marinhas que há naquele local.
         Aí deixo esboçada a região que deverá servir de base a qualquer argumento material, atinente a querer forçar o traçado a passar por Tavarede.
         Também pretendem trazer a lume, em abono do pretendido desvio, o facto de que ao povo de Quiaios, que agora vai por um ramal ser ligado á estrada de Aveiro, lhe fica muito extenso o caminho que não vem por Tavarede.
         Nunca ninguém se lembrou de tal circunstância, quando se tratou de ligar directamente aquele povo com esta vila, pois que, podendo ir a estrada daqui pelos Condados á Serra e a Quiaios, o que encurtaria em alguns quilómetros a sua distância, foram antes levá-la por Buarcos á Senhora da Encarnação, e deste ponto pela Serra a Quiaios, dando assim uma volta que a torna mais extensa dois quilómetros!
         Agora faz-se questão por que esse povo não pode andar mais uns 800 metros, pois tanto é a diferença que há entre a extensão dos dois projectos pelo Casal da Robala a Tavarede.
         Quem contemplar a sangue frio esta contradança de argumentos fica duvidando da sinceridade das intenções que nutrem os que especulam com a ignorância do povo, fazendo-o pedir o que não deve. Pobre povo! infelizes ignorantes que sempre hão-de representar um papel de actividade nas coisas, quando a sua gerência é passiva e ilusória. Um outro poder especula, movendo esses pobres autómatos a acreditarem na justeza dos princípios pregados por alguns apóstolos dos modernos tempos! Oh luz! quanto tempo estarás velada para deixares nas trevas essas obscuras inteligências?
         Quando se pretendeu dar uma estrada a Buarcos, quebraram-se lanças para que os estudos mandados por ali fazer para uma estrada que daqui seguisse a Quiaios fossem aprovados, e para isso, invocou-se nessa ocasião a representação do clero, nobreza e povo. É aprovado o projecto; fez-se a estrada na parte compreendida entre esta vila e Buarcos, continua depois até á Senhora da Encarnação, e pára neste ponto porque nasceu a ideia de abandonar o traçado por parecer irracional a continuação dele por ali.
         Dorme a lembrança do povo de Quiaios.
         Necessita-se de reparar o caminho que desta vila vai pelos Condados á Serra; faz-se valer o motivo da utilidade para os povos da Serra da Boa-Viagem e Quiaios. Repara-se o caminho até aos Condados, pára a obra, e esquecem os povos que a utilizavam! Trata-se agora da estrada distrital de Aveiro a esta vila, e ressuscita a ideia do ramal que vá ligar Quiaios àquela estrada no lugar de Cabanas! Parece-me que aquela malfadada povoação de Quiaios é o salvatério em todos os apertos, porque só vem a pelo para servir de medianeira e contrapeso a interesses secundários.
         Pode julgar-se de nenhuma importância a consideração de que a estrada deverá tornar-se menos extensa pelo motivo que torna maior a distância a um povo que a ele se liga por um ramal que nela se encontra a seis quilómetros de distância desta vila. E mesmo quando lhe ficasse mais distante o caminho pelo lado de Brenha, poderiam faze-lo pela sua estrada em projecto por Buarcos, por que foi essa que lhe mereceu a sua atenção e desvelo representando na ocasião oportuna pela sua execução, o que lhe era de máxima utilidade indo por aquele lado.
         Sobre esse, teria a povoação de Quiaios e circunvizinhos interesse e autoridade mais directa, ao passo que a sua influência num ponto que lhe fica mais distante não tem o valor que julgam - é menos autorizada por indirecta.
         Ainda assim, pesando em seu favor que lhe ficará por Brenha mais distante o caminho uns 800 metros, tendo o traçado de seguir pelo Casal da Robala e não por Tavarede - ficam bastante compensadas as fadigas dessa distância pela suavidade que deve oferecer-lhes o traçado que reprovam. É preciso que tenham em vista, que o traçado que desejam teria uma subida mais custosa de vencer, do que a distância a maior que pelo outro teriam de percorrer.
         A partir da igreja de Tavarede, pelo caminho em direcção ao Saltadouro, há uma elevação constante de terreno de quase sete por cento por uma distância de 1:600 metros, o que equivale a uma subida de 109 metros de nível de Tavarede ao Saltadouro! Não acham contraproducente o argumento e uma utopia o que desejam!
         Os peões quando carregados e obrigados a subir a uma elevação daquelas que possui o máximo de inclinação que o regulamento de estradas permite chegaria esbaforido ao termo maldizendo dos homens e das coisas.
         Há gente que tudo põe em jogo para conseguir um fim, embora o resultado seja só partilhado por um pequeno número dos meios.
         Aduz-se para aí também ou lançam mão do facto da Figueira possuir uma estrada distrital que lhe dá ingresso pelo nascente, levando a utilidade a essa parte da vila. Outra, municipal, pelo poente, na qual concorre a mesma razão, e só não tem uma estrada distrital que entre na povoação pelo Pinhal!
         A isto anteponho um argumento caseiro. Suponhamos uma casa, com uma única porta por onde diariamente entram doze pessoas levando-lhe para dentro doze mil réis - mil réis cada pessoa. Abram-se nessa casa em vez duma doze portas e faça-se entrar por cada uma sua pessoa e por conseguinte mil réis. Temos obtido o mesmo resultado por que não aumentou a quantia entrando juntos por uma ou em parcelas divididas pelas doze portas.
         Ora, os interesses que resultam á Figueira da sua ligação com Aveiro e outros povos, não ficarão prejudicados por a estrada entrar pelo norte ou nascente, salvo se a parte mais comercial desta povoação está aglomerada em algum daqueles pontos, nas extremidades dela.
         Passaremos agora em revista o terreno que a directriz estudada atravessa, seguindo pelo Saltadouro, Prazo, Araújo e Casal da Robala. Se formarmos um trapézio cuja base maior tenha um dos extremos apoiado na antiga ponte dos Estaleiros, e outro em Brenha; a base menor na Caniveta e Caceira; um dos lados formado por uma linha tirada de Caceira a Brenha, e outro que da ponte dos Estaleiros toque a Caniveta; teremos, circunscrita por esse quadrilátero, uma região agricultada, medindo a nível 9:240000 m.q. que a 60 rs. o metro, valor na verdade insignificante, perfazem a importante quantia de 554:400$! Este valor está muito aquém da verdade, porque só exprime o valor do terreno, sem atenção á parte móbil da região, como pinhais, pomares, casas, etc., e ao aumento de superfície, proveniente das ondulações do terreno. Quando mesmo aqueles terrenos não dêem um rendimento superior a três por cento, esta percentagem dá-lhes um rendimento anual de 16:632$000 réis.
         É, pois, esta importante região agricultada, possuindo excelentes terrenos, mesclada aqui e acolá de vinhas, pinhais, pomares, etc., que querem privar da utilidade da possessão duma estrada!
         Não preciso encarecer a vantagem resultante de cortar aquele grande trato de terreno por uma estrada: ela é manifesta. Naquele espaço há excelentes quintas, bons terrenos produtivos; o que lhe falta são estradas que lhe facilitem os transportes.
         Indo dos Estaleiros para o Casal da Robala, principia-se a caminhar por aqui e ali, marinhando, saltando como as cabras sobre a terra solta dos desaterros duma pedreira em actividade de extracção de pedra que facilita atoleiros, ou sobre as ribas em desagregação dessa eminência, sujeito a precipitar-se; depois entra-se em uma azinhaga dum metro de largo, pouco mais, ladeada de valados de piteiras, que de quando em quando vão cravar os seus bicos no corpo do caminheiro menos cauteloso.
         Antes de entrar nos assordeiros - se não é um assordeiro toda a azinhaga até ao Casal da Robala - o sujeito tem que escolher entre as seguintes contingências: - ficar enterrado na lama até aos joelhos, subir a um dos valados que borda a azinhaga, passar entre as piteiras e ficar cheio de rasgões no fato e no corpo, por último saltar para dentro duma propriedade estranha e sujeitar-se aos enxovalhos do proprietário!
         Quando passar um carro a bois, ter-se-á de optar por qualquer dos meios que indiquei ou voltar para traz, isto sem remissão. Assim todo o caminho!
         Todos sabem que no decurso dos meus escritos apenas expus a verdade. Não me servi de exageros nem tampouco de asserções gratuitas; aí estão os factos, pensem sobre eles para que aqueles a quem interessa a questão possam resolver da forma mais racional.

         Na secretaria do ministério das obras publicas existirão dados, mais que suficientes, para bem poder definir a justiça que há em trazer a estrada distrital de Aveiro para esta vila seguindo-se a directriz já estudada pelo Casal da Robala e não por Tavarede, como se pretende”.

mº. 3 (continua)

O Associativismo na Terra do Limonete -125

As comemorações


         Vamos dedicar este capítulo, exclusivamente às comemorações do primeiro centenário da Sociedade de Instrução Tavaredense. O extraordinário passado da colectividade, pois foram cem anos ao serviço da cultura e da benemerência, justifica este nosso procedimento, assim o entendemos.

         Como já referimos, uma comissão, em colaboração com os corpos directivos, assumiu os trabalhos, pois houve, desde o início, a pretensão de levar a efeito umas comemorações memoráveis, durante as quais, recordando os antepassados que tão dedicada e esforçadamente levaram a cabo tão edificante obra, também se conseguisse chamar à associação os jovens, mostrando-lhes que, sendo eles os continuadores desta obra, a colectividade centenária era merecedora do seu esforço e da sua dedicação.

         Havia, no entanto, enorme carência de fundos. Foi então que se adoptou a ideia dos almoços mensais, que teve muito bom acolhimento. Há que reconhecer o esforço, o trabalho e a dedicação do elevado número de senhoras, que de imediato se prontificaram a colaborar. Ainda no ano de 2003, a generosa colaboração do hábil artista figueirense Francisco Simões, grande amigo e admirador desta instituição, traduziu-se no desenho da medalha comemorativa da efeméride e do logótipo usado durante o evento, que generosamente ofertou.

         Pediu-se o orçamento para a feitura das medalhas. Ao ser recebida a resposta, a comissão logo se deparou com uma dificuldade: era exigido o pagamento, contra a confirmação da encomenda, de 50% do custo total. Valeu a colaboração do então presidente da Junta de Freguesia local que, tomando conhecimento desta exigência, que a comissão divulgou durante um dos almoços, se prontificou a emprestar a importância precisa. Confirmada a encomenda, a mesma foi entregue em Fevereiro seguinte, o que, considerando a necessidade de pagar a parte restante, obrigou a comissão a de imediato proceder à venda da medalha. E foi em Outubro que, em conferência de imprensa convocada para esse fim, se fez a apresentação do anteprojecto criteriosamente elaborado.

... Tornando público um programa que considera ‘ambicioso’, e para cuja concretização a falta de verbas apresenta o principal problema, a Comissão do Centenário da SIT mostra-se esperançosa de que ‘os apoios venham a aparecer’, e aposta nas mais diversas manifestações culturais para marcar uma importante data da colectividade. As actividades de angariação de verbas não têm parado, sendo que os almoços mensais realizados por senhoras da SIT, e a participação da ExpoACIFF  têm dado frutos. Diversas entidades oficiais ligadas à cultura já foram abordadas mas, apesar de se mostrarem ‘receptivas a colaborar, a resposta não varia muito: não há dinheiro’. No entanto, afirmam, ‘não vamos deixar de celebrar esta data condignamente’.
Cumprindo o programa, foi já editada a medalha comemorativa do centenário, e está garantida uma exposição de teatro, no CAE, que exporá o espólio da SIT. O hino do centenário, da autoria de João Cascão, também se encontra em fase de orquestração para a Tuna, e deverá estar pronto no final do ano.



O dia 15 de Janeiro vai começar com o hino da colectividade e o comemorativo do evento, tocados pela Tuna de Tavarede, realizando-se depois, à noite, o jantar de gala no pavilhão gimnodesportivo. O grande espectáculo está agendado para 17, e a sessão solene realiza-se a 18, data provável do lançamento do livro do centenário, coordenado por José Bernardes, e que ‘conta a história da colectividade e dos 100 anos de teatro, ao longo de 250 páginas ilustradas com cerca de 180 fotos’.
Realizar-se-ão ainda vários saraus e conferências, e homenagens a Violinda Medina, João de Oliveira Júnior e José Ribeiro.
Programados estão ainda jogos florais, encontro de tunas, concurso de fotografia e desenho, jogos tradicionais e a criação de um memorial, em azulejo, que ostente o nome daqueles que mais deram à SIT, ao longo de 100 anos.
Apesar das dificuldades, a comissão está confiante no surgimento de apoios: ‘a cidade vai estar, por certo, ao nosso lado’.

         E no dia 15 de Janeiro de 2004, pela manhã, a população ouviu o estralejar da salva comemorativa, após o que a tuna de Tavarede tocou o hino da colectividade centenária, enquanto a bandeira era hasteada. Pelas 21 horas, no pavilhão desportivo, teve lugar o ‘Jantar do Centenário’. As paredes encontravam-se revestidas com alguns cenários representativos de cenas da nossa aldeia e o tecto forrado com faixas de tecido azul e vermelho, as cores da associação, o que dava ao pavilhão um aspecto atraente e agradável.

         Presidiu o representante do Governo Civil de Coimbra, que esteve ladeado por diversas entidades oficiais, bem como pelas representantes dos corpos gerentes da SIT.
Estiveram presentes cerca de 200 pessoas, que lotaram completamente o recinto. Durante o jantrar, ouviu-se o piano tocado pelo nosso conterrâneo e consócio João da Silva Cascão, após o que se fizeram escutar várias intervenções oratórias, a que seguiu a actuação do Orfeão Académico de Coimbra, patrocinado pelo Governo Civil.



No pavilhão da colectividade, virado ‘museu’ com algumas das relíquias de cenários que marcaram o historial invejável de cem anos de devoção ao teatro no seio da Sociedade de Instrução Tavaredense a engalanar as paredes do amplo recinto e criar uma envolvência onde se ‘respirava’ teatro por todo o lado, decorreu o ‘Jantar do Centenário’, 1º acto do longo programa de realizações que ao longo do ano irão enriquecer as celebrações deste marco histórico: ‘primeiro centenário da SIT’. Solenidade que reuniu cerca de 200 pessoas, a maior parte delas amadores que pisaram o palco, para além dos muitos convidados que honraram o evento em representação do Governo Civil, Câmara Municipal da Figueira e autarquia local.
         E o primeiro gesto de saudação à histórica entrada da colectividade no galarim dos ‘Centenários’ veio da apresentação pública da ‘Marcha do 1º Centenário’, referencial honroso de uma caminhada de muitos êxitos a envolver gerações e que guindou Tavarede ao lugar de destaque – houve quem a elegesse ‘Catedral do Teatro Amador’ – que extravasou o Concelho e mesmo o Distrito.
         Depois, abrilhantado pela suavidade musical saída do piano tocado por João Cascão, o banquete de sabores apadrinhados por celebridades ligadas à arte de Talma – entradas à Molière; creme à Garrett; bacalhau à D. João da Câmara; lombo assado à Gil Vicente; sobremesa à Shakespeare; café Pirandello, tudo regado a vinhos e digestivos à Terra do Limonete, com a novidade da ‘prova’ do Vinho do Centenário da SIT, uma recordação que pode ser comprada na colectividade -; a confraternização saudosa de cenas vividas naquele palco de tantas representações que moldaram vidas e criaram escola e as mesas davam vida nos dísticos que as distinguiram: ‘Romeu e Julieta’, ‘Frei Luís de Sousa’, ‘Os Velhos’, ‘As árvores morrem de pé’, a ‘chamar para a mesa’ ilustres desaparecidos cuja memória não poderia estar ausente deste momento alto do centenário, tudo serviu de motivo para solenizar esta data marcante de 15 de Janeiro de 2004.
         E na hora das intervenções, num momento em que já havia saído o ‘fumo branco’ da eleição para os corpos gerentes do próximo mandato da colectividade, pondo fim ao preocupante impasse referido na imprensa, Ilda Simões, presidente da Assembleia Geral, depois de saudar os presentes, saltou no tempo cem anos atrás para agarrar o fio daquela longa meada de história iniciada por 14 tavaredenses que para abrirem uma Escola de Ensino em Tavarede criaram a Sociedade de Instrução Tavaredense, iniciando uma caminhada onde os obstáculos não faltaram mas veio a marcar a vida dos tavaredenses com ‘os anónimos’ que tornaram possível o êxito desta colectividade.
         Também Teresa Machado, vereadora da Câmara Municipal, aqui representada por Martins de Oliveira, se associou às felicitações em honra do Centenário, pondo em realce o papel que o teatro cultivado na SIT teve na divulgação do nome do Concelho da Figueira, curvando-se mesmo ante a mensagem saída dos valiosos cenários que enriqueciam as paredes do Pavilhão. Aplaudindo ‘o muito que aqui se tem feito pelo teatro… e o que, por certo, irão continuar a fazer’, razão por que a Câmara não deixará de apoiar este serviço a bem da Cultura. Em nome da Assembleia Municipal coube ao Engº Daniel Santos reflectir sobre o honroso passado desta colectividade, afirmando que ‘tão bom passado não pode deixar de fazer prever um bom futuro’.
         E após curta intervenção de homenagem da SIT, pelo Engº Muñoz de Oliveira a quem reconhecimento por esta obra ‘obrigou à saída de clandestinidade na sala’, usou da palavra o representante do senhor Governador Civil, Ricardo Alves, para ‘aceitar o desafio de relacionar os cenários expostos com as pessoas e com os discursos’ uma vez que o entusiasmo que encheu este salão, fazendo dele uma ‘casa viva’ é a prova inequívoca de que esta atitude é certeza de… ‘futuro garantido

 E foi em ambiente de grande entusiasmo que o Orfeão Académico de Coimbra encerrou o histórico Jantar de Abertura do Centenário.