sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Terra de meus avós - 6

         É agora ocasião para falar noutra espécie de “ruídos”, bastante mais agradáveis ao ouvido do que o dos carros de bois e que, de instante a instante, se faziam ouvir por toda a aldeia. Tavarede, por aqueles tempos, tinha uma vida difícil, aliás, a vida em Tavarede sempre foi difícil, mas, sem dúvida, muito mais alegre do que agora. Talvez, sabe-se lá, essa alegria fosse provocada para esquecer as dificuldades quotidianas, mas o que era verdade é que se cantava muito, e bem, na minha pequena aldeia.

         As costureiras, e havia bastantes em Tavarede, não paravam de cantar enquanto pedalavam nas suas máquinas, fazendo correr velozmente a agulha sobre a fazenda; as donas de casa, enquanto varriam, limpavam ou preparavam o jantar e a ceia familiar; nos quintais e hortas vizinhas, amanhando as suas hortaliças e novidades ou cuidando das suas flores, sempre se cantava. Mas era, sobretudo, no ribeiro de Tavarede, perto da Igreja, que mais se cantava, enquanto lavavam as suas roupas nas pedras bem lisas pelo continuado uso.

         Eram, normalmente, cantigas do teatro em que, todas ou quase todas, tinham participado ou participavam, pois raras eram as mulheres da terra do limonete que, tal como os homens, não haviam participado no teatro.

         Não vou relembrar nomes das cantadeiras. Tenho, no entanto, bem presente uma cena que se repetia frequentemente nas manhãs de domingo. Quase em frente à minha casa, moravam meus tios Helena e José Medina. Ela havia sido uma das principais amadoras do nosso teatro, desempenhando a protagonista em muitas operetas levadas à cena. Ele foi um excelente amador musical, como executante, compositor e regente e era o ensaiador dos coros do teatro. Mais adiante recordarei mais alguma coisa de meu tio José. Pois naquelas manhãs, frente à porta da rua, aberta, sentava-se ele, com a estante adiante, e da sua flauta arrancava as mais bonitas canções. Junto à janela, enquanto que mecanicamente costurava, a tia Helena fazia ouvir a sua linda voz nas canções que ela tão bem cantava, acompanhada pelo marido. Discretamente, eram muitos os que, verdadeiramente encantados, paravam um pouco para escutarem e apreciarem.

* * *

         Já que falei nos cabreiros e na venda de leite, entendo oportuno dar uma volta pela aldeia para recordar as actividades desenvolvidas. Tavarede era uma terra essencialmente agrícola mas, naturalmente como todas as aldeias, tinha outras actividades. Aqui havia bem poucas.

         Estabelecimentos comerciais, mercearias e vinhos, haviam quatro. No Largo do Paço era a mercearia do sr. Jordão. Da parte da frente ficava o balcão e as prateleiras com os géneros e por trás ficava a taberna. Desta, e por uma porta do lado poente, subia-se até ao quintal, que está num plano bastante superior à rua. Era ali que jogavam à malha.

         Junto à casa existia um depósito em cimento que estava coberto por um estrado de madeira. Por aquela ocasião, havia sido organizado o agrupamento musical “Lúcia-Lima-Jazz”. Então a rapaziada, sempre imaginativa, arranjava umas imitações dos instrumentos, em cana, e fazíamos as nossas exibições musicais em cima daquele estrado, voltados para o largo. O vocalista era o Zé Marreta. Ali passávamos grandes bocados em ensaios e exibições, e a assistência por vezes aplaudia as nossas imitações musicais.

         A meio da rua Direita ficava o estabelecimento de Emilinha Cordeiro, que havia herdado de seu pai, Francisco Cordeiro. Do lado esquerdo da loja, e no patamar da escada que servia o primeiro andar, estava a cabine do telefone público. Era daqueles aparelhos em que se dava à manivela para chamar a telefonista. Entre os vários artigos, a Emilinha vendia farinha de alfarroba para alimentação do gado. Nós estávamos por ali muitas vezes e, quando o telefone tocava e era preciso ir chamar alguém, nós lá íamos em correria. De regresso já sabíamos. A Emilinha deixava-nos ir à tulha onde estava aquela farinha e escolhermos os bocadinhos maiores que, para nós, eram uma gulodice.

         A seguir à mercearia havia longa loja que estava dividida e que tinha uma passagem para o quintal. Do lado esquerdo alinhavam-se as pipas com o vinho, tinto e branco, para venda ao copo ou à medida. Do lado direito, e entre a mercearia e a cozinha, onde se preparavam os petiscos para a clientela, ficava a sala de jogo de cartas. Tinha uma mesa comprida e bancos corridos. Recordo-me muito bem de ali ver disputar acesas partidas. Normalmente jogavam o “garujo”, com a participação de seis jogadores. Quando eram quatro, uma das variantes do jogo, chamava-se “liques”; de oito, “ganipo” e de dez “zangarelho”. Dentro de cada equipa havia um mandante, a quem os outros, da forma mais discreta possível, passavam sinais do jogo que tinham. Ele, desta forma, sabia o jogo que a sua equipa tinha e mandava jogar as cartas que entendia. Eram jogos muito manhosos. Quando viam que tinham bom jogo, havia cantiga. Eram três cartas a cada um por jogo, ganhando, portanto, a equipa que fizesse duas vasas e marcava um risco (3 pontos). As cantigas eram de seis, nove e mais, algumas vezes para acabar a moca. O adversário podia desistir, só perdia um risco, aceitar ou cantar para mais. Já se sabe, duas partidas ganhas era pedida bebida paga pela equipa perdedora.         Havia vários jogadores que se auto-intitulavam “mestres”. Dos que conheci, talvez aquele que tinha mais fama fosse o Aniceto Mocho, um velho e carismático trabalhador rural.

No quintal do estabelecimento, havia no meio um engraçado pavilhão, coberto de verdura, com uma mesa e bancos, onde, especialmente nos dias de festa, se faziam grandes caldeiradas. Ao lado desse pavilhão, e a todo o comprimento até ao armazém, junto do ribeiro, estavam os tabuleiros para o tradicional jogo da malha.

         Um pouco mais abaixo ficava a “Loja do Povo”, estabelecimento de António Pedro Carvalho, alcunhado de “Lameira”, nome da terra da sua naturalidade. Seria o melhor montado, pois além de mercearias, tinha uma grande diversidade de outros produtos, sempre necessários na aldeia. Do lado poente, em loja dividida, ficava a taberna, com umas escadas que davam acesso para o quintal, onde, como nos outros, se jogava, petiscava e bebia.

         Junto ao rio Pereira, indo pelo caminho que parte do largo da Igreja para dar serventia ao quintal do Ferreira, ficava a loja de António Gato. De todas era a mais modesta e dedicava-se mais ao negócio de vinhos e petiscos, especialmente quando havia festas da Igreja, ocasiões em que tinha sempre farta concorrência de freguesia. Atravessava-se o pequeno ribeiro por uma tosca e velha ponte de madeira. Em frente à casa, e na outra margem, existiam umas enormes figueiras. Era ali que a rapaziada ia fazer pontaria com as suas fisgas. Tinham habitáculo naquelas grandes árvores as pequenitas “carriças”. Nós bem apontávamos mas os passaritos eram tão pequenos e irrequietos que nunca acertávamos.

         Mudando de ramo, no Largo do Forno estava situada a padaria de Eloi Domingues. Diariamente, e altas horas da noite, era o enorme forno aquecido a lenha. A massa, preparada à noite, estava leveda e pronta para cozer, bem cedo. Só havia dois tipos de pão: as tradicionais carcaças e o pão de segunda, os chamados casqueiros. Ainda o dia não havia rompido e já estava ao balcão a senhora Pureza a atender a clientela que vinha em busca do pão fresquinho. Com uns carros de verga com rodas de bicicleta, forrados com pano branco, impecavelmente limpo, iam o Olívio Domingues e um colega, fazer venda domiciliária, à Figueira e a Buarcos.

         Na véspera dos dias de festa, Natal, Ano Bom e Páscoa, entre outros, muitas eram as mulheres que, em enormes pingadeiras, levavam ou galo ou coelho, com batatinhas, para assar no forno, que se mantinha quente muito tempo para além da cozedura do pão. Era sempre com a melhor vontade que acediam ao pedido que lhes faziam e os pitéus, assados desta maneira, tinham sempre um paladar extraordinário. No Inverno, também era frequente aparecerem as pingadeiras para assar as peras francesas que o vento deitava ao cheio e que, de outra forma, se não podiam comer, tão rijas eram.

         No caminho da fonte, antes da entrada para o Serrado, estava localizada a forja de Assalino Cardoso. De manhã à noite, lá se ouvia o martelar vigoroso no ferro aquecido ao rubro na forja bem ateada pelo enorme fole que ele manipulava com a mão esquerda, enquanto que com a direita, aquecia o ferro, fixo a uma enorme tenaz. Todos os utensílios agrícolas ali fazia ou reparava convenientemente.

          Havia mais duas forjas na nossa terra. No Terreiro, era a de Manuel Lindote e no Largo do Forno, a de Isolino Proa. Mas como ambos trabalhavam, como ferreiros, nas oficinas do caminho de ferro,  só à noite e aos domingos estas forjas laboravam.

         Ao princípio da rua Direita, no Largo do Paço, defronte à mercearia, ficava a barbearia dos irmãos Joaquim e Manuel Medina. Era profissão herdada do pai, embora este tivesse como profissão principal a de serralheiro, que exercia nas oficinas da Figueira. O Joaquim, conhecido pela alcunha do “Jaringa”, era muito brincalhão,
fazendo mil e uma partidas aos clientes enquanto os servia. O Manuel, mais tarde, acabou por emigrar para os Estados Unidos da América, onde constituiu família. Voltou aqui há uns anos, com um filho e com a intenção de regresso definitivo mas, especialmente seu filho, não se adaptaram e optaram por regressar à América. Entretanto, também o Joaquim mudou o seu estabelecimento para a rua Direita, junto ao Largo do Forno, onde trabalhou até ao seu falecimento, continuando o negócio seu filho.

         Também numa pequena loja em frente à mercearia de Emilinha Cordeiro, existia uma outra barbearia, mas que só funcionava aos domingos, pois o seu proprietário, Faím, tinha estabelecimento na Figueira, onde trabalhava durante a semana.

         Meu pai havia aprendido o ofício de sapateiro, na Figueira, antes de cumprir o serviço militar. Empregou-se, depois, nas oficinas do caminho de ferro mas, por meados dos anos quarenta, resolveu-se a abrir uma sapataria em Tavarede, para obra nova e consertos. Para pessoal, convidou seu primo João Medina, oficial de sapateiro na Figueira, José Soares, que seguia a profissão de seu pai na Vila Robim, e Eduardo Mota, para aprendiz. Abriu o estabelecimento na loja da casa onde viveram meus avós e que, por partilhas depois da morte de minha avó, calhara a minha tia Violinda. A velha adega transformou-se em oficina, embora não tenha ali permanecido muito tempo, pois mudou-se para o réz-do-chão da casa da senhora Guia, quase defronte.

         A sapataria passou a ser um dos pontos de encontro da aldeia, principalmente para alguns mais idosos. Entre estes, recordo o encontro diário de dois dos velhos mais castiços e simpáticos, mas, igualmente, dos mais “casmurros”, que conheci: meu avô António e o velho João da Simôa. Ambos tinham sido fundadores do Grupo Musical. Meu avô, embora também músico, destacou-se no teatro, onde, segundo notas encontradas, foi um bom amador. João Jorge da Silva, o João da Simôa, foi um excelente músico, tendo sido um dos iniciadores e regente da tuna daquela colectividade e da orquestra que abrilhantava os espectáculos teatrais, além de ministrar o ensino da música, durante muitos anos.

         Logicamente, tinham excelentes recordações dos tempos passados. Ainda não eram decorridos muitos anos sobre o fim do período áureo do Grupo Musical e, quando estavam bem dispostos, contavam, com verdadeira saudade, muitas histórias vividas naquela colectividade, à qual haviam dado tanto da sua vida. Outras vezes, as relações eram momentaneamente azedadas. É que, além de teimosos, ambos eram uns refinadíssimos mentirosos. Meu avô, então, usava e abusava dessa “virtude”. Em qualquer outro local hei-de recordar algumas das suas habituais “petas”. Contavam e recontavam essas facécias vezes sem conta, mas aí daquele que os desmentisse ou, sequer, se risse de troça! Enfim, não era por causa dessas “virtudes” que deixavam de ser estimados e considerados.

         O negócio de sapataria não era mau de todo. Rendia pouco, é verdade, mas sempre ajudava ao magro orçamento caseiro. Um dia, António Lameira também resolveu abrir uma nova sapataria e acabou por convidar meu pai para tomar conta dela, mediante uma renda. Durou pouco tempo, pois entretanto havíamos mudado de residência para o Terreiro e no quintal meu pai fez uma pequena dependência e ali instalou a sua loja, poupando o dinheiro da renda.

         Havia outros sapateiros que trabalhavam em suas casas, tendo muita clientela. Um deles havia que se distinguiu pela perfeição dos seus trabalhos. Foi o Fernando Santos, por alcunha o Fernando Xanato. Nunca foi um grande amador teatral, mas a sua boa vontade e dedicação foram inexcedíveis, no que resultava haver sempre um pequeno papel para ele, ainda que simples figurante. O seu rendimento familiar dependia exclusivamente do seu trabalho, pelo que trabalhava imenso. Muitas vezes, para acabar um conserto, chegava atrasado ao ensaio. Ao princípio perguntavam-lhe o motivo do atraso, e lá vinha a resposta “estive a acabar um xanato…”. Foi assim que pegou a alcunha, mas era uma excelente pessoa no seu trato simples.

         Recordo, além dele, mais dois sapateiros em Tavarede. Na rua Direita, mais ou menos ao meio, José Maria Severino dos Reis, mais conhecido por José Maria Terreiro. Casado com Felismina Ribeiro, teve três filhos, todos anormais. Os dois rapazes tornaram-se duas figuras características da terra, deixando muita pena quando morreram: o José e o António Reis, conhecidos pela alcunha de “Parrecos”. Nunca fizeram mal a ninguém e, especialmente o José, até eram muito prestáveis, fazendo os pequenos recados que lhes pediam. E José Vigário, no Terreiro, era o outro sapateiro que exercia a actividade em Tavarede.

         Além das muitas costureiras que haviam em Tavarede, também aqui tinha o seu “atelier” de alfaiataria mestre Diamantino Rocha. Primeiramente, esteve instalado na loja de uma casa na rua Direita, vizinha daquela onde eu morava. Tinha umas quatro a cinco costureiras e aprendizas. Depois mudou para o largo do Terreiro. Mestre Diamantino Alfaiate, como era mais conhecido, tocava concertina e era ele que abrilhantava todas as festas populares ou romarias aqui levadas a efeito. No largo do Terreiro, por ocasião dos santos populares, não faltavam as festas, com a tradicional fogueira. A orquestra era constituida por residentes naquele largo: a concertina de Diamantino Alfaiate, a viola e o pífaro, de Manuel Lindote e o bandolim de meu Pai, Pedro. Intitulavam-se como “Orquestra da Malveira”!  

Claro que muitos tavaredenses, que exerciam as suas profissões na cidade, também trabalhavam em suas casas. Pedreiros, carpinteiros, marceneiros, electricistas e outros, não desperdiçavam os seus tempos vagos, além de ainda arranjarem tempo para amanharem o seu quintal e uma ou outra leira de terra. Parece, por exemplo, que ainda estou a ver o canteiro António Marques Lontro, na loja da sua casa, também na rua Direita, a abrir as letras nas placas de mármore para o cemitério… Nesta loja, também funcionava, naquele tempo, a Sociedade Protectora de Gado Suíno, vulgarmente conhecida por “Compromisso dos Porcos”.

         Seria imperdoável não relembrar as figuras da Ti Marquitas do Pires, Clementina Simôa e Adelaide Pires, as três principais “comerciantes” de tremoços, freiras e pevides, que tinham os seus “estabelecimentos” à porta de suas residências, respectivamente no Terreiro, no Paço e rua Direita, frente ao Largo do Forno.

         Uma última recordação sobre este tema. Quase todos os tavaredenses amanhavam um bocadinho de terra e também quase todos fabricavam o seu vinhito. É que, ladeando as suas terras de cultura, plantavam videiras, fazendo corrimões. A produção era pequena e o vinho de fraca qualidade, mas era com gosto e carinho que o faziam. Havia, no entanto, uma meia dúzia que produziam vinho a sério. Com melhor conhecimento, recordo meu avô. Na Matiôa tinha ele uma vinha muito boa, pelo terreno e pela localização. Era cuidada como devia ser. Não lhe faltava com os tratamentos e só era vindimada quando a uva estava bem madura. A produção dessa vinha era tratada em separado, pois que igualmente tinha vinha e corrimões na fazenda da Chã, na Sinceira.

         Aquele vinho da Matiôa chegou a ter muita fama. Na altura própria, pelo S. Martinho, pregava uma enorme ramada de loureiro na porta da sua loja, que era transformada em adega, onde vendia o vinho a retalho e ao copo. A clientela, mais da Figueira e Buarcos, normalmente não faltava e enquanto durasse o vinho era sempre casa cheia. Muitos clientes também preferiam a deliciosa e refrescante água-pé, que ele fabricava com as uvas dos corrimões, que misturava à repisa do vinho e a que juntava uns tantos cântaros de água pura. Quando abria o pipo da água-pé, recordo que a dava a provar aos amigos por um coco, onde ela espirrava fresquinha.

         Outros haviam que procediam de igual modo e, por ocasião do vinho novo, era a nossa terra muito frequentada por grandes grupos que, acompanhando-se dos mais diversos petiscos, aqui faziam grandes patuscadas.

         E acabo esta parte com uma breve recordação. O ti César Cascão tinha em sua casa, frente ao largo do Forno, um alambique onde queimava o bagaço das uvas para fabricar aguardente. A rapaziada gostava de ir ver, além que, quando era tempo deste trabalho, fazia frio e sabia bem estar ali ao quentinho da caldeira do alambique. A aguardente caía em fino fio para uma garrafa e estava sempre a ser pesada, para ver a graduação. A partir de determinado grau deixava de ser aproveitada. De vez em quando íamos ao caminho do Peso, para roubar figos numas grandes figueiras de José Serra, e que levávamos para o alambique. Sabia muito bem comer os figos e beber uma golada daquela espécie de aguardente, praticamente água quente, que nos dava. Mesmo fraquíssima,  não se podia abusar.


A UM CERTO VINHO DE TAVAREDE

         “Entre os mimos que este abençoado torrão de Tavarede produz e manda ao mercado da Figueira, há que especializar um vinhinho palhete a quem os apreciadores rendem as suas homenagens.
         Cardoso Martha, figueirense ilustrado que vive na capital há já longos anos, é um velho amigo e frequentador da terra do limonete e conhecedor do seu precioso nectar.
         Sabendo isso, um seu amigo tavaredense, presenteou-o há tempos com um piposito desse palhete, que o inspirou para o seguinte soneto, a que deu o título “A um certo vinho de Tavarede”:

Encho o meu copo, à luz do claro dia
de um néctar precioso - o vinho amigo,
puro, sem confecções, como o bebia
o bíblico Noé, no tempo antigo.

Depois, em contra-luz, me delicia
sua cor de rubi; e enquanto sigo
na toalha o reflexo, a fantasia
me diz mais que diria quanto eu digo...

Das cepas do torrão de Tavarede,
ó vinho, sê benvindo à minha sêde,
tu, que de muitos és exemplo e espelho

Gole a gole, dou co’a língua um estalinho
e razão a quem disse que o bom vinho
tráz alegria ao moço e sangue ao velho. (Notícias da Figueira)


O Associativismo na Terra do Limonete - 128


...que o TEATRO VAI À RUA.
O ponto mais marcante dos actos festivos no terceiro trimestre, foi, com toda a certeza, o sarau realizado no dia 13 de Setembro, data em que se comemorava o 18º aniversário da morte de Mestre José da Silva Ribeiro. Nesse sarau, e depois de se ter prestado homenagem ao amador José Medina, pelos seus cinquenta anos ao serviço do nosso teatro, teve lugar a apresentação do livro do Centenário “100 Anos ao Serviço do Povo... e Caminhando”. Este livro foi publicado, numa edição de luxo, graças aos subsídios concedidos pela Secretaria de Estado da Cultura, Direcção Regional da Cultura do Centro, Fundação Calouste Gulbenkian e Celbi. A imprensa referiu-se ao evento, tendo nós escolhido estes dois apontamentos.

A Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT) procedeu ao lançamento do livro que ilustra os 100 anos de existência desta colectividade. Intitulado “100 anos – ao serviço do povo… e caminhando”, a publicação, da autoria de Vítor Medina e coordenada por José Bernardes, foi apresentada na noite de segunda feira. Para o autor e presidente da direcção da SIT “é o complemento dos dois livros que o mestre José da Silva Ribeiro lançou.
Numa edição de luxo, foram impressos mil exemplares, que serão vendidos a 25 euros.
Presente na cerimónia, Duarte Silva garantiu que o município irá adquirir parte dos livros.
Falando sobre a SIT, o presidente da Câmara diz que “foi e é a jóia da coroa no concelho da Figueira no que se refere ao teatro” e lembrou que José Ribeiro “é uma referência nacional”. (Diário as Beiras – 15.Setembro.2004) 
A Sociedade de Instrução Tavaredense viveu aquele que foi considerado um dos pontos altos das comemorações do centenário, com o lançamento do livro “100 anos – Ao serviço do povo… e caminhando”, inspirado nos livros de José da Silva Ribeiro, evocado exactamente 18 anos depois da sua morte.
“Continuamos a respirar nestas quatro paredes, o enorme amor pelo teatro”. Foi assim, que o presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), evocando José da Silva Ribeiro, se dirigiu a todos os que quiseram partilhar daquele que foi considerado como o “ponto alto das comemorações do centenário”, uma cerimónia que chegou a estar prevista para o dia 27 de Março (Dia Mundial do Teatro) e “mais condizente com as actividades da colectividade”, mas que foi mudada para que o livro agora lançado, pudesse integrar fotos das comemorações do centenário.
Vítor Medina adiantou ainda que a figura do mestre José Ribeiro “há-de perdurar sempre, enquanto a colectividade existir” e que “grande parte do livro é um complemento”, aos livros lançados pelo mestre, aquando das bodas de ouro e diamante da colectividade.
Com recolha e texto de Vítor Medina, e coordenação do professor José Augusto Bernardes, o livro, à venda por 25 euros, está “dividido” em cinco partes, “marcos do passado”, “cem anos de teatro”, “o centenário” e “quadros históricos”, é “uma edição de luxo, com mil exemplares”, e apesar do presidente da direcção estar “consciente de que não os vamos vender todos”, garante que os apoios e patrocínios “cobrem metade”, e uma parte será guardada pela colectividade.
À cerimónia, que contou com a presença de diversas entidades da região, aliou-se o presidente da Câmara por considerar que a SIT “é a jóia da coroa da Figueira”. Sem querer “ofender e menosprezar” outras colectividades, Duarte Silva recordou que José da Silva Ribeiro “é uma referência nacional” e que a colectividade mantém a sua “tradição”, no domínio do teatro. (Diário de Coimbra – 15.Setembro.2004)

 Também não podemos deixar de aqui registar o concerto dado pelo Grupo Musical Sax Ensemble, de Coimbra, que foi realizado na Igreja Paroquial de Tavarede, o qual foi muito concorrido. E, ainda neste trimestre, teve lugar o II Encontro de Filarmónicas do Centenário, desta vez com a presença das Bandas de Quiaios, da Boa União Alhadense e de Arazede.

          O último trimestre de 2004 começou com a abertura da exposição “100 anos de vida e de teatro”, no Centro de Artes e Espectáculos, na Figueira da Foz, onde esteve patente ao público até ao dia 2 de Novembro. No ano do primeiro centenário, a SIT apresenta retalhos do seu espólio, de forma a mostrar momentos significativos da sua vida em prol do desenvolvimento cultural, assente na matriz do teatro. Os ecos deste trabalho saíram de Tavarede, estenderam-se para fora do concelho tendo mesmo chegado além-fronteiras. Repregos de cenários, maquetas, estudos de peças, mobiliário, adereços de cena, indumentária, fotografias, programas, publicações, prémios, compõem a mostra do labor daqueles que, ao longo de muitos anos, se vêm dedicando à causa da cultura e do teatro. Neste caminhar iniciado há muito tempo, construímos um passado e cimentámos o presente na senda do futuro, escreve-se no programa desta exposição.
A abertura da exposição teve a presença do Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, da Vereadora do Pelouro da Cultura, muitas outras individualidades e grande número de sócios, amadores e colaboradores da Sociedade de Instrução Tavaredense.
A exposição recebeu a visita do Primeiro Ministro do Governo Português, Dr. Pedro Santana Lopes, da Ministra da Cultura, Drª Teresa Caeiro, da Delegada da Cultura da Região Centro, Drª Celeste Amaro, do Vice Governador Civil do Distrito de Coimbra, Engº Ricardo Alves, etc.
De acordo com o catálogo emitido para esta Exposição, estiveram expostos, nas quatro salas cedidas, 161 objectos, entre cenários, guarda-roupa e adereços.

         O dia de S. Martinho, o padroeiro da nossa freguesia, foi comemorado com um sarau, no pavilhão desportivo, no qual foram evocadas as primeiras operetas e fantasias com acção na nossa terra. Não podemos deixar de referir, que foi este sarau o embrião do qual viria a nascer, meses mais tarde, o Grupo Coral Cantigas de Tavarede. No final do serão, oferecida pela colectividades a todos os presentes, houve uma castanhada.
 Também em Novembro se realizou um encontro das colectividades da freguesia.     

E durante o mês de Dezembro, e até ao final das comemorações, teve lugar “A luz do Natal”, com recriações em ‘Luz negra’.
          E depois de uma festa de Natal, oferecida às crianças da freguesia, efectuou-se uma ‘Passagem do Ano do Centenário’.


         Os últimos eventos das comemorações tiveram inusitado brilho. A 5 de Janeiro de 2005, a SIT recebeu, na sua sala de espectáculos, a Orquestra Silver Strings, de S. Petersburgo, Rússia, que apresentou um concerto verdadeiramente extraordinário e inédito na nossa região. Uma casa completamente cheia, com uma assistência que se mostrou encantada com este serão.         
          No domingo seguinte, mais uma vez o pavilhão desportivo da colectividade foi pequeno, tantas foram as pessoas que já não conseguiram obter entrada. Teve ali lugar o ‘Almoço de Gala’, que teve uma animação invulgar que foi dada pelo Grupo de Cordas e Cantares de Coimbra.
         Sábado, dia 15 de Janeiro, o grupo cénico levou à cena, em primeira representação, a peça O leque de Lady Windermere, de Oscar Wilde, cujo sucesso foi enorme e que se repetiu diversas vezes, embora já fora do âmbito das comemorações. 


         Finalmente, e no domingo 16, encerraram-se as festividades. Depois de uma actuação pelo Coro de Câmara do Orfeão de Valadares, teve lugar a sessão solene, a qualfoi presidida pela secretária de Estado da Administração Pública, doutora Maria do Rosário Cardoso Águas, neta do saudoso alhadense Anselmo Cardoso Júnior, que foi um grande colaborador do nosso grupo dramático, autor de muitas músicas cantadas em diversas fantasias. Assistiu a esta sessão, a Filarmónica de Lares que, em homenagem à ilustre presidente, tocou a ‘Canção do Limonete’, composição musical de seu avô, cuja letra, da autoria de Mestre José da Silva Ribeiro, foi cantada, em coro, por toda a assistência presente.


         E foi em ambiente verdadeiramente festivo que, com este acto solene, se encerraram as comemorações do primeiro centenário da Sociedade de Instrução Tavaredemse.



sábado, 9 de maio de 2015

Tavarede - A Terra de meus Avós - 5

Tavarede – anos quarenta…
  







Nasci em Tavarede, numa pequena casa da rua Direita, um pouco abaixo do Largo do Paço, nos já distantes anos trinta do século passado. Aqui me criei e vivi a minha infância e a minha juventude, tempos felizes e despreocupados, até ao ano de 1958, quando, por motivos profissionais, abalei para Lisboa. Quando regressei, anos mais tarde, fixei a residência familiar na Figueira. Mas, e quase que diariamente, as nossas visitas a Tavarede sucediam-se. A família mais chegada continuava a aqui residir e, se eles desejavam a presença familiar, nós igualmente nos sentíamos aqui muito bem. Afinal de contas eramos filhos da terra…

Talvez por isso, não deixo de ter uma certa apreensão ao começar a recordar os meus tempos de infância. Mas, e isso quero desde já afirmar, não é por uma questão de saudosismo. É verdade que, uma vez por outra, não poderei deixar de sentir uma certa “saudade”, mas, no caso, será mais correcto falar em “sentimentalismo”.

         Desde sempre, e isso mesmo tenho observado nas minhas recolhas, os tavaredenses tiveram, e têm, fama de serem uns “sentimentalões”, especialmente em questões de bairrismo. Claro que eu não sou a excepção à regra. Mas, e disso estou bem convicto, esta viagem aos meus tempos de menino e moço vai saber-me muito bem.

         Para me não alongar em demasia, e porque o período escolhido é mais do que suficiente para os meus propósitos, vou viajar até à década dos anos quarenta do século passado, digamos, portanto, mais de sessenta anos atrás. Certamente que algumas das minhas lembranças me levarão fora daquele período, mas evitarei fazê-lo o mais possível.

         Começo por recordar, uma vez mais, que a terra do limonete era, naquele tempo, muito diferente daquilo que é nos nossos dias. Curiosamente, pode dizer-se que a aldeia mudou mais em vinte ou trinta anos, do que nos seus primeiros nove séculos de existência. Vista, por exemplo, da velha estrada de Mira, o casario de Tavarede apresentava uma forma de um triângulo quase perfeito, bem marcado nos seus vértices: Igreja, Paço e Terreiro. Bastará atentar na antiquidade daqueles três edifícios para confirmação do que referimos.

         Circunscrevendo a aldeia, e começando pelo lado nascente, tínhamos a quinta da Mentana, onde, nos princípios daqueles anos, ainda vivia o seu proprietário, João Gaspar de Lemos   Amorim, poeta que tão bem cantou a nossa    terra e a sua vida agrícola. Depois, contornando o burgo até ao Terreiro, tínhamos a quinta do Nabal, da parte de
cima do cemitério, o início das Azenhas, o Carriço e a encosta até ao Pezo, seguindo-se depois, para poente, a caminho do Paço, os terrenos do dr. Cruz, a quinta do Pezo e


a quinta de José Duarte. Do lado sul, havia a quinta do Paço, com a sua frondosa mata, na Várzea, e até ao Largo da Igreja, ficavam as verdejantes e viçosas hortas do Serrado e do Quintal do Ferreira, com todos os bocadinhos amorosamente amanhados.

         Fora destes limites, uma ou outra casa. Os lugares da Simôa, Nabal, Azenhas, Pezo, Senhor da Arieira e Várzea, ainda se encontravam perfeitamente destacados. Estes eram os mais próximos mas, como referi, ainda isolados do velho burgo.

         Naquele tempo a vida na aldeia era bastante calma e serena. Os maiores ruídos que se ouviam, era de manhã bem cedo e à noitinha, e eram feitos pelos carros de bois que atravessavam a povoação a caminho das fazendas, muitas vezes carregados de estrume e dos apetrechos e alfaias agrícolas. No regresso, traziam os produtos colhidos da terra fecunda e o pasto para alimento do gado. Muitos destes carros, também frequentemente iam de madrugada à estação do caminho de ferro, em busca de algum rendimento no carrego das encomendas vindas nos comboios e que se destinavam ao comércio e armazéns da cidade.

É inevitável a recordação da passagem dos carros de bois gandarezes que, da estrumeira da Várzea ou das areias de Buarcos, levavam o “adubo” tão necessário ao cultivo das suas terras areentas. Às vezes formavam uma enorme caravana que, vinda de Buarcos, atravessava pachorrentamente a aldeia, pela velha rua Direita, subindo depois, com esforço, pela estrada do Saltadouro a caminho da Cova da Serpe e lugares mais distantes.

         Quando passavam por Tavarede, corríamos todos à espreita para ver se caíam alguns pilados com os balanços dos carros, ao percorrerem a rua esburacada. Já conhecíamos os melhores sítios e mal víamos um pilado a correr no chão, logo saltávamos a apanhá-lo, apesar dos ralhos do dono. Depois de cozidos, eram uma bela merenda.

         Também manhã cedo, algumas carroças puxadas a burricos, atravessavam a aldeia a caminho da Figueira, levando enormes carradas de hortaliças e flores ao mercado, de que eram os principais fornecedores. Muitas mulheres, que tinham menos produção, transportavam, em cestas que levavam à cabeça, as couves e as novidades apanhadas na véspera, pela fresquinha. Tinham fama as couves de Tavarede. “Não surgem no mercado da Figueira – nem haverá por essa bola do mundo – hortaliças e novidades mais apaladadas e gostosas. Que aquilo é campo bendito – que Deus fadou para regalo e gozo dos eleitos”, escrevia-se no boletim do Turismo, em 1945.

         E quanto a flores, lembro um dito do saudoso professor Doutor Joaquim de Carvalho, que dizia “as mulheres de Tavarede, com o seu bom gosto, têm uma arte especial para construírem um ramo de flores”.

         Também pelas manhãs e ao entardecer, a aldeia era sacudida da sua modorra, com a passagem dos dois rebanhos de cabras que então cá existiam. No Paço, albergava-se o rebanho do sr. Marcelino, proprietário e talhante na Figueira, e que tinha como cabreiro ao seu serviço, o Diogo, da Chã. Um pouco adiante da fonte, no caminho da Várzea, vivia Joaquim Lopes, mais conhecido por Joaquim Tarouco, que igualmente tinha um rebanho de cabras que, com o filho, Evaristo, levava a apascentar aos valados ou pousios dos arredores. Na Figueira, no Bairro Novo, eram bem conhecidos os pregões do Joaquim Tarouco, quando ali ia vender leite.

         As noites eram silenciosas. E no verão, nas quentes noites estivais, era grande a concorrência de pessoas à fonte, onde gozavam de uma fresquidão muito agradável, depois de se refrescarem com a água pura e cristalina que, sem cessar, caía dos seus canos em leve murmúrio. Outros iam até ao Largo da Igreja, onde se sentavam no velho muro, respirando gostosamente a fresca brisa, olorosamente perfumada a limonete, enquanto, tantas vezes, ouviam deliciados os doces trinados dos rouxinóis e dos pintassilgos, que ainda abundavam por ali, nos salgueirais do ribeiro.

         Ao recordar isto, vem à minha memória a “caça” que os rapazes faziam aos pirilampos, que voejavam à nossa volta num constante pisca-pisca. Apanhávamos quantos podíamos. Chegados a casa, metíamo-los num copo, voltado com a boca para baixo, acompanhados de um pequeno punhado de pedras de sal. De manhã, era certo. Lá estava a pequena moeda que, trabalhando o sal, os pirilampos haviam produzido durante a noite. Que ingenuidade a nossa!


* * *

O Associativismo na Terra do Limonete - 127

O que eles e elas disseram:
“Considero que o teatro é a forma de arte que mais nos interpela e nos confronta com os nossos valores. Quero deixar aqui a palavra “memória”, evocativa de todas as pessoas que tanto nos deram e nos enriqueceram ao longo de cem anos, com dedicação e esforço”. Ana Pires
“Abordar a história da SIT é recordar Mestre José Ribeiro autor do Hino do Limonete e Anselmo Cardoso, meu pai, que o musicou”. Carlos Cardoso
“Esta casa vive de muito trabalho, dedicação à cultura e ao teatro. A presença do secretário de Estado da Cultura é o mais forte incentivo para continuar”. José Paz
“Sublinho o apoio de Rosário Águas e de Teresa Machado, sempre disponíveis para nos ajudar. O que nos une nesta casa é o palco das emoções para além da razão”. Ana Maria Caetano
“Falei aqui há 50 anos com Cristina Torres e Lontro Mariano. Hoje, na comemoração do centenário, quero expressar a minha satisfação por estar aqui a agradecer o trabalho realizado ao longo de cem anos. Esta casa foi uma escola de educação, instrução, cultura, convívio, teatro, onde os conceitos de liberdade, solidariedade e cidadania estiveram sempre presentes. A obra iniciada há cem anos terá continuadores em vós”. Maria Teresa Coimbra
“Tavarede não era o que é, se esta casa não existisse. Por isso, Tavarede não entrou na onda da descaracterização, mantendo a sua identidade própria. A SIT e José Ribeiro foram, ao longo de cem anos, o emblema cultural da Figueira da Foz. O futuro há-de ser sempre o que quisermos fazer, se não quisermos atraiçoar a memória do passado”. José Bernardes
“A grande referência desta colectividade é o teatro, uma das vertentes de cultura, que nos leva a todos, a estar gratos à SIT. Que estas comemorações dêem frutos e sementes que germinem na mente e no coração dos mais jovens”. Daniel Santos
“É bom sentir uma casa viva, cheia, com cem anos de história e sempre apostada em construir um caminho de futuro”. Ricardo Alves, representante do Governo Civil
“Lembro-me o que há mais de 50 anos ouvi de José Ribeiro: A SIT estará sempre presente se a Câmara Municipal necessitar da nossa presença. Esta casa é uma escola. Bem hajam pelo trabalho desenvolvido”. Muñoz de Oliveira

Nas semanas seguintes, outros espectáculos se realizaram, nomeadamente com a repetição da Marcha do Centenário e com colaborações diversas, entre as quais um sarau pelo Coral David de Sousa, da Figueira. E no dia 17 de Fevereiro, foi evocada a memória da amadora Violinda Medina e Silva, que, nesse dia, festejaria também o seu centenário, se ainda fosse viva.
E o primeiro trimestre terminou no Dia Mundial do Teatro. Nesse dia, a Sociedade foi homenageada pelo Lions Clube da Figueira, que ofereceu uma placa comemorativa, a qual se encontra colocada no átrio da entrada principal da associação. Aproveitando a data, também foi prestada homenagem à memória do saudoso amador e encenador João de Oliveira Júnior, sendo o seu retrato descerrado. O serão terminou com a representação da peça Sopinha de Mel, pelo Clube de Teatro Drª. Cristina Torres.



O segundo trimestre teve, no seu início, o reviver de uma velha tradição, havia muito caída no esquecimento. A ‘Festa da Pinhata’, que teve a colaboração da orquestra ‘Melodias de Sempre’, de Brenha, decorreu durante um dos costumados almoços mensais, tendo obtido enorme sucesso.
E depois de diversos saraus, dos quais podemos destacar os concertos com o Padre Borga e o do Grupo de Instrumentos de Sopro de Coimbra, efectuou-se o I Encontro de Filarmónicas do Centenário, em que estiveram presentes as Bandas Gualdim Pais, de Tomar, de Santana e dos Carvalhais de Lavos, que actuaram no pavilhão desportivo, que se encontrava repleto de assistentes.
Em Junho, houve novamente ‘Teatro de Rua’. Desta vez foram apresentados, em diversos locais da aldeia, alguns quadros do espectáculo ‘Marcha do Centenário’.

ANTES DE SAIR PARA A RUA...
Porque o Teatro é um divertimento, tem uma função cultural e educativa e porque o espectáculo se dirige ao público, assim estes meios e fins conduzem-nos à escolha de determinado processo de comunicação que é o contacto directo com as pessoas e com os lugares onde se desenrolam as acções.
Vamos assim  adoptar um  processo bem diferente do que é usado habitualmente, nestes cem anos em que se faz teatro, porque os intérpretes vão mais do que nunca tomar consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes vai na alma, das ideias que as determinam, da época em que vivem, dos ambientes em que se movem.
Os quadros que vamos representar, são de fundo histórico caracteristicamente local – bem da terra do limonete, constituída sobre factos e com figuras da história de Tavarede, com as tradições locais, os costumes locais e o ambiente local.
Ficará este trabalho como testemunho da nossa dedicação à terra humilde onde nascemos, temos vivido e de que muito gostamos, como hino ao trabalho e também como afirmação da simpatia que votamos e da solidariedade que nos liga a todos os homens e mulheres da nossa aldeia.
José Ribeiro, dizia que estes quadros eram dos tais feitos apenas para serem vistos sobre as tábuas do palco.
Fomos  pôr a água ao lume para fazer este chá nas ruas da  terra do limonete.
Mais uma vez contamos com a ajuda do mestre...
Como José Ribeiro escreveu:
"É tempo de bater as três pancadas.
Pano acima..."
E nós continuamos:
...que o TEATRO VAI À RUA

sábado, 2 de maio de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 4

A evocação, de António Broeiro


A segunda descrição, de António da Silva Broeiro (sobrinho), é bastante mais recente e muito diferente. Data de 1938. Antecedo-a de um pequeno comentário sobre os tão falados “Broeiros”, pois também eles merecem uma recordação nestas minhas histórias e esta é uma oportunidade muito aproveitável para esse efeito.

         Ainda hoje, apesar de já ter decorrido mais de meio século sobre a data do seu falecimento, os Broeiros, de Tavarede, são recordados pelos mais idosos como dois dos maiores amadores dramáticos que passaram pelo palco da Sociedade de Instrução Tavaredense. Referimo-nos, é claro, aos irmãos António e Jaime da Silva Broeiro.
         Como reconhecimento e preito de gratidão pela sua actividade teatral, aquela colectividade tem os seus retratos expostos no salão nobre da sua sede.
         Pode dizer-se que, desde sempre, os tavaredenses tiveram uma origem bastante humilde. Os Broeiros não foram excepção. Seus pais, Henrique Broeiro e Emília Silva viviam modestamente, com os seus 4 filhos, aqueles dois mais outros dois mais novos, Manuel e José, numa pequena casa sita na Rua do Outeiro.
         Sobre o mais velho, António, escreveu mestre José Ribeiro no livro “50 Anos ao Serviço do Povo”:
         “Escrevemos estas notas (referia-se à escola nocturna na S.I.T.) e vemos surgir diante de nós a figura de António da Silva Broeiro. Estamos a ouvi-lo naquela sessão solene em que, pouco tempo antes de morrer, a todos surpreendeu e comoveu com a sua espontânea e impressionante confissão. Apresentava-se como produto da Sociedade de Instrução Tavaredense. “Eu sou, dizia ele, o que a Sociedade de Instrução Tavaredense de mim fez. Devo-lhe tudo. Comecei lá em baixo, na escola da noite, onde me ensinaram a ler, escrever e contar. Só à noite podia ir à escola: teria ficado analfabeto se não fosse a escola nocturna. Depois trouxeram-me para o teatro (e recordava o nome de João dos Santos), ensinaram-me a compreender o que lia, ensinaram-me a falar, a conversar, a ouvir. Aqui fui instruído e educado. Recebi lições, aprendi coisas, tive ensinamentos, fixei exemplos que me serviram pela vida fora. A acção da Sociedade de Instrução Tavaredense exemplifico-a em mim próprio”.
         “António Broeiro viera da mais humilde condição, vivia na extrema pobreza quando o mandaram à escola da noite, porque de dia aprendia o ofício de sapateiro; trabalhou, fez-se homem, conquistou estima, consideração e bem estar. Quando a morte o surpreendeu, aos 59 anos, em Março de 1945, era um dos primeiros elementos do grupo cénico e, comerciante muito estimado, dirigia o seu bem montado estabelecimento de sapataria na Figueira da Foz”.
         Seu irmão Jaime, casado com Ana Rôla, viveu na então chamada Rua de Cima. Teve três filhos, António, Joaquim e Celeste. Também ele foi um profissional de sapataria. Faleceu em Lisboa, a 19 de Agosto de 1945, ficando o seu corpo sepultado no cemitério do Alto de S. João. Tinha 58 anos de idade. Como se vê estes dois irmãos faleceram ainda bastante novos e, curiosamente, no mesmo ano, com poucos meses de permeio. 
         O filho mais velho deste último, António da Silva Broeiro, do mesmo nome que seu tio, nasceu em Tavarede em 1909. Bastante novo, começou a trabalhar como tipógrafo, na Tipografia Popular, na Figueira da Foz, tendo sido um dos fundadores do jornal “Domingo”, que teve existência curta. Chegou a secretário do jornal “Gazeta da Figueira, que era composto e impresso naquela tipografia.
         Procurou outro destino. Tendo concorrido à função pública, foi admitido como funcionário administrativo na Colónia Penal António Macieira, em Sintra, onde passou a residir com sua esposa, Laura Cândida Mendes da Silva Broeiro. Tiveram um filho.
         O seu espírito jornalístico levou-o a colaborar activamente no Jornal de Sintra, do seu conterrâneo e amigo António Medina Júnior, tendo sido, em determinada ocasião, nomeado chefe da redacção deste periódico. Escreveu para outros jornais, tendo-se ainda dedicado à poesia e ao teatro.
         Vitimado por doença, faleceu em Lisboa, no Hospital de S. José, em Dezembro de 1943. Contava somente 34 anos de idade. Talvez tenha sido o desgosto por esta morte tão prematura que, pouco mais de um ano depois, terá motivado o falecimento de seu tio e de seu pai.
         É dele o artigo a seguir, publicado no Jornal de Sintra, em 20 de Julho de 1938, e em que recorda a sua terra. Ao recordá-lo, nada mais fazemos do que prestar uma singela homenagem à memória destes saudosos tavaredenses.

Saudades - Quando se ronda pela casa dos trinta, falar da nossa terra, forçoso é que se evoque.
         Ainda que não queiramos.
         O nosso coração, o nosso sentimento, há-de por força trazer a lume as recordações que estão algemadas à nossa vida...
         A saudade aviventa, dá forma a essas recordações, que já se desfaziam na bruma do tempo, e surgem, enriquecidas pela nossa imaginação, as imagens dos nossos tempos de criança...
         O nosso primeiro amor! Como ele anda ligado à saudade da nossa terra!?
         Quem é que, ao lembrar os tempos ditosos da mocidade, não tem a ela ligado, por laços indeléveis, a lembrança do primeiro amor!? Quem!?
         E eu lembro a minha aldeia! A aldeia onde nasci, onde me criei, onde corri, despreocupado e feliz, pelos outeiros e pelos serrados; pela várzea e pela colina; ora caçando rãs nos valeiros, ora subindo aos choupos à caça de ninhos de pardal!...
         ... e as manhãs doiradas do sábado de aleluia em que os sinos repicavam festivos, e eu e os cachopitos da minha idade, esbaforidos, corríamos à igreja com uma caneca de água colhida no rio para que o senhor vigário Manuel Vicente no-la benzesse para as nossas mães borrifarem as casas para que o espírito maldito do bruxedo lá não entrasse...
         ... e nas manhãs radiosas de domingo de Páscoa, eu ia, de fato novo à marinheira, de colar engomado muito branco e laçarote pendente do pescoço, até à igreja, ouvir missa e beijar o menino Jesus que estava deitado numas palhinhas...
         ... mas meia hora depois, quando eu estivesse farto de andar na brincadeira, com o fato enxovalhado e porco, eu dava um doce a quem fosse capaz de olhar para mim sem sentir vontade de me bater... Era uma dó! Um fato tão bonito...
         Como eu brinquei! Como eu fui feliz...
         Era uma criança e a vida não me preocupava.
         Mas agora outras cadeias me prendem! Outros amores me preocupam!...
         Mas a saudade da minha aldeia, de Tavarede, essa subsiste, e tão intensa, que daqui, eu vejo, com os olhos da alma, a casa onde nasci, e onde minha mãe me aconchegou, me deu os primeiros beijos, e os primeiros açoites...
         E bem merecidos eles foram, pelo visto, porque, homem feito já, eu não os esqueço, para me servirem de estímulo em acções presentes...

Lúcia-Lima! Tavarede, que fica a dois quilómetros e meio da Figueira, dos puxados, aconchega-se na várzea ubérrima, entre encostas verdejantes e floridas.
         Quem vai da Figueira pela estrada, depara, sem esforço, com o antigo palácio dos Condes de Tavarede, pitoresca construção solarenga, com os seus pináculos ornamentados, as gárgulas e as janelas ogivais, em pedra magnificamente rendilhada.
         Já esqueceu ao povo o déspota que em remotos tempos ali viveu intra-muros.
         Agora, a apalaçada construção, morre, desprezada, com a sua arquitectura a esboroar-se com o rodar do tempo.
         Mas Tavarede tem uma coisa mais pitoresca ainda que o seu histórico palácio: a Lúcia-Lima.
         Em noites de verão, os banhistas que se afastam do bulício da cidade, são, quando se aproximam da ridente aldeia, deslumbrados por um perfume intensíssimo que se desprende desta planta.
         O limonete, como lhe chamam, na sua linguagem chã, os tavaredenses, é a graça da terra..
         Quando vêm, pelo S. João, as cavalhadas de Brenha ou Buarcos, as moças enfeitadas com ramilhetes de limonete no peito gracioso, têm encanto, têm frescura...
         O ar rescende! E o aroma da Lúcia-Lima no ar embalsamado, faz crer a quem o respira que aquela planta ali se cria com fértil prodigalidade...
         E é verdade! Com tanta fartura, tanta, que até já alcunharam a minha linda aldeia de terra do limonete!

Teatro de amadores Os furiosos do teatro, foram sempre, em Tavarede, dos mais ferrenhos...
         Grata lembrança tenho eu na minha mente, a respeito de espectáculos de amadores...
         Mas sem ser do meu tempo, já em mil oitocentos e setenta e tal se representavam em Tavarede, as mais difíceis peças no Teatro do Palácio.
         A sala de espectáculos de então, é agora uma estrebaria...
         O entusiasmo era de tal ordem já nesse tempo, que a autoridade teve que mandar encerrar a sala de espectáculos por causa das desordens que os despiques provocavam...
         A sala encerrou-se mas os amadores redobraram de capricho...
         ... e foi então que, em 1904, se fundou a actual Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Os seus fundadores foram: Manuel Rodrigues Tondela, Augusto Biscaia, Manuel Fernandes Júnior, César da Silva Cascão, João Miguens Fadigas, João d’Oliveira, José Cardoso, António Jorge da Silva, António Luiz Motta, Joaquim Saraiva, Fradique Baptista Loureiro, António Gomes d’Apolónia, Manuel dos Santos Vargas e Francisco Cordeiro.
         A nova associação propunha-se manter uma escola nocturna que tem funcionado ininterruptamente até aos nossos dias. Para a sua manutenção, angariação de fundos se impunha.
         E foi então que se criou um grupo de amadores que, num teatro que era pertença da referida associação, dava espectáculos cujo produto se destinava á subsistência da referida escola, fornecendo material escolar aos alunos, etc.
         A instrução aos alunos, nos quais se contavam alguns já homens, era ministrada gratuitamente por amigos dedicados da associação, dos quais é justo destacar Manuel Tondela, já falecido, pai da esposa do distinto artista figueirense e nosso prezado amigo sr. António Piedade.
         Actualmente as aulas nocturnas da Sociedade de Instrução têm uma frequência superior a 80 alunos.
         O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, melhorou consideravelmente desde que o brilhante jornalista e orador José Ribeiro foi nomeado ensaiador.
         Espírito culto, conhecedor profundo da arte teatral, ele guindou o grupo de amadores de Tavarede a uma altura que, muito poucos, talvez mesmo nenhum grupo de amadores da província, tenham atingido.
         Falam a esse respeito, e melhor do que nós, a quem podem acoimar de suspeito, os críticos das cidades onde se tem exibido, como Figueira da Foz, Porto, Coimbra, Tomar, Viseu, Leiria, etc.
         Críticos exigentes não lhe regatearam louvores.
         O Primeiro de Janeiro, O Século, o Diário de Notícias, o Diário de Coimbra, etc. destacaram valores dentro do grupo; e os nomes de Violinda Medina, Emília Monteiro, Maria Teresa, João Cascão, Jaime Broeiro, António da Silva Broeiro, Manuel Nogueira, António Graça, António Santos, etc. surgem aureolados de fama.
         O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense conta no seu activo com enorme quantidade de espectáculos de beneficência a favor do Asilo S. João do Porto, Ninho dos Pequeninos, Asilo da Infância Desvalida, Diabéticos Pobres, Maternidade, Associação de Socorros Mútuos dos Artistas e Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria, de Coimbra, Misericórdia e Jardim Escola João de Deus, da Figueira da Foz, Santa Casa da Misericórdia e Sopa dos Pobres, de Tomar, e Jardim Escola das Alhadas.
         O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense teve já um convite para representar em Lisboa, em récita de gala, convite que não pôde ser aceite por imperiosos motivos.
         Peças representadas pelo Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense:
         O Sonho do Cavador, com 32 representações; A Cigarra e a Formiga, com 12 representações; Em busca da Lúcia-Lima, com 8 representações; Grão-Ducado de Tavarede; Evocação; Noite de Agoiro; Má Sina; A Espadelada (infantil), com 14 representações; Frei Tomaz; Os fidalgos da Casa Mourisca; As três gerações; As pupilas do Sr. Reitor; A canção do Berço; A Morgadinha dos Canaviais; Justiça de Sua Magestade; A Morgadinha de Val-flor; O Grande Industrial; Entre Giestas; Génio Alegre, etc.
         O trabalho dessa gente, gente humilde, que trabalha de dia e à noite se instrui no teatro, sofre comparação com o trabalho de artistas...
         E os críticos não se cansam!
         E o grupo segue, na sua carreira triunfal.
         Actualmente ensaia a Recompensa, oferta gentilíssima ao grupo do grande dramaturgo Dr. Ramada Curto. Esta oferta foi um triunfo para o grupo, porque a gentileza do Dr. Ramada Curto, distinguindo o grupo de Tavarede para a interpretação da sua famosa peça, fala mais, e mais alto, do que toda a crítica portuguesa...

Mais outro grupo! Mas quando era mais acesa a rivalidade entre os amadores tavaredenses, outro grupo se fundou: o Grupo Musical de Instrução Tavaredense.
         Foram seus fundadores, António Medina, José Medina, Ricardo Simões Nunes, respectivamente pai e tios do director deste jornal, Joaquim Severino dos Reis, Manuel Vigário, José Maria da Silva, José Migueis Fadigas, João Jorge da Silva, A. Medina Júnior, etc.
         Lembro-me, de que, quando ainda era um garotelho, fugia de casa para ir assistir aos espectáculos.
         António Medina Júnior, António Medina, José Medina, Emília Pedrosa Medina, Violinda Medina e Silva, Manuel Nogueira, etc., representavam então no novo grupo, num despique tão renhido com os de lá de cima, que só a eles se deve sem dúvida a magnífica plêiade actual de amadores que se esforçaram, à porfia, por fazer melhor uns que outros. E o resultado, pode dizer-se que foi maravilhoso...
         Dele saíram amadores que se podem classificar de grandes, em qualquer parte.
         A Sociedade de Instrução Tavaredense mantém actualmente, em casa própria, um grupo de amadores teatral e uma escola onde recebem instrução para cima de oitenta alunos.
         O Grupo Musical Tavaredense, instalado no Palácio dos Condes de Tavarede, mantém uma aula de música que é frequentada por mais de 40 alunos, não contando com a sua afamada e bem organizada Tuna - a popular Tuna de Tavarede.
         Qualquer das associações tavaredenses marcaram já o seu lugar exuberantemente, a pontos de Alguém - com A grande - afirmar, solenemente, que Tavarede, em educação músico-teatral, caminhava na vanguarda de todas as terras suas semelhantes de Portugal!

Pic-Nics Entre os componentes dos dois grupos tavaredenses cada vez são mais estreitas e afáveis as relações.
         E assim, todos os anos se juntam, num passeio de franca confraternização, que pode ser para a Serra da Boa Viagem, ou para o pinhal do Sr. Dr. Cruz, na Borlateira. Para lá foi o deste ano, e lá tirámos os pitorescos motivos fotográficos que publicamos.
         As panelas fumegam, e refervem, e os pitéus, feitos ali, num alegre convívio e à sombra amiga dos pinheiros amigos, parece que têm outro sabor, o sabor da liberdade com que são comidos...


       
Depois há baile. Alegre baile, em que se bate, com mestria, o vira e o estalado.
         E é vê-los, os pares, novos e velhos numa porfia, rodopiando e lançando ao ar embalsamado pela seiva dos pinheiros, as cantigas que dizem da alegria dos seus corações sempre moços...
         São assim, alegres, os pic-nics da minha terra...
         ... E eu relembro-os, porque tenho saudades, saudades dos tempos em que, descuidoso, enlaçava a cintura das raparigas, airosas, risonhas, cheirando a limonete...
         ... e dançava, alegre, o vira e o malhão...

Água fresquinha - Na várzea, mesmo na várzea, em pitoresca fonte, limpa, encantadora, brota a linfa cristalina... A água de Tavarede, famosa já pela sua pureza, leve e macia, de temperatura agradabilíssima tanto no verão como no inverno, caudal uniforme, é uma das preciosidades da aldeia.
         A fonte tem poesia! À tardinha, ao morrer do sol no poente afogueado, as raparigas vão, airosas, de bilha à cabeça, colher a água pela fresca...
         Em noites de luar, quando o ar está perfumado de limonete a frescura da fonte e os seus assentos de pedra convidam o banhista a um agradável repouso...
         E a linfa murmura, murmura sempre, correndo das duas bicas da fonte, e no ar, rescendendo a limonete, a sua canção, canção que não se extingue, é doce inspiração para corações de namorados que adregam de refrescar suas bocas na água múrmura e cristalina da Fonte de Tavarede...

Paisagem!  Passeio magnífico, cheio de beleza, é o que se efectua indo para a Serra da Boa Viagem, passando por Tavarede e Brenha.
         A várzea vicejante cortada por frescos canaviais, os ribeiros cantando no leito pedregoso, os vinhedos e os campos de trigo, cortados por extensas fileiras de esguios choupos, dão à paisagem tavaredense o aspecto das várzeas minhotas...
         ... e lá mais para cima, nos Canos, onde a água, a chapinar na roda das azenhas as faz mover, no rodar bendito que alimenta a mó que há-de transformar o trigo em farinha branca de neve, os salgueiros, delicados, a guardar as hortas, tornam a paisagem diáfana, com a sua folhagem tão mimosa...
         ... e as velas brancas dos moinhos a rodarem sem parança, no cimo dos montes, e lá dentro a mó rom-rom-rom, sempre, sempre sem descanso, dão ao bucólico panorama, movimento, vida...
         ... e dão o pão e a fartura aos lares dos aldeões...

         ... dos aldeões da minha terra!