sábado, 23 de maio de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 7

Vida da aldeia


Se pretendo fazer uma descrição da vida em Tavarede, por volta dos anos 1940/1950, também se torna necessário recordar um pouco a maneira de viver das famílias aldeãs. Já sabemos que a nossa terra, sendo uma freguesia rural, tinha grande dependência da agricultura. No entanto, e excepto três ou quatro casos, em que tinham quintas um pouco maiores, a grande maioria da população tavaredense que vivia das terras, não eram mais do que pequenos, mesmo pequeníssimos lavradores. Tanto assim que bem cedo se aperceberam da necessidade de mandarem seus filhos trabalhar na cidade, aprender um ofício, uma forma de enfrentar a vida mais segura do que o cultivo e amanho das leiras de terra, que, tantas vezes isso acontecia, bastava uma intempérie mais fora do tempo, para dar cabo do esforço de tantos meses.

Feita a quarta classe, o que nem todos conseguiam, não por falta de capacidade intelectual mas, sim, de recursos económicos, logo procuravam emprego nas oficinas, armazéns e obras. Alguns, com enorme esforço, conseguiam continuar os seus estudos e tiravam o curso comercial ou industrial na Escola Dr. Bernardino Machado, durante o período do Estado Novo denominada Escola Industrial e Comercial Tomás Bordalo Pinheiro. A Figueira também possuía o curso liceal, até ao quinto ano, e a Academia Figueirense, na rua de Santo António, particular, mas que só davam aulas diurnas. Por isso, trabalhando de dia, somente naquela escola era possível estudar à noite.

E se muitos aprenderam e exerceram os misteres de ferreiro, serralheiro, sapateiro e tantas outras profissões, uma grande parte conseguiu, graças ao estudo nocturno, empregar-se nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, principal empregadora local, noutros escritórios e em estabelecimentos comerciais, ramo bastante florescente na época. Recordo que, já no meu tempo, muitos eram os rapazes e raparigas que prosseguiram os seus estudos na Figueira, durante o dia, e, nas férias grandes, empregavam-se como marçanos nas lojas comerciais que, durante a época balnear, abriam as suas sucursais no Bairro Novo, onde, durante o Inverno, praticamente não havia actividade comercial. Como mantinham abertos os seus estabelecimentos sede na Baixa, recorriam aos alunos para irem trabalhar durante aqueles três meses. Por mim, foram três épocas que ali trabalhei, desempenhando a tarefa de marçano na Sapataria Quaresma,  na sucursal que então abria na Rua Cândido dos Reis, frente ao antigo Hotel Portugal.

Outra profissão para a qual Tavarede sempre deu um grande contingente, foi a de tipógrafo. Havia várias tipografias na Figueira, algumas com jornais semanais ou bi-semanais, e o trabalho não faltava, pois a composição, impressão e encadernação, etc., eram tudo tarefas manuais. Meu padrinho, Manuel Nogueira, tinha uma tipografia no Pinhal, mesmo em frente ao portão do Liceu. Durante as férias do Natal e da Páscoa, era certo e sabido que lá ia eu “ajudar” nas tarefas necessárias, muito especialmente a numerar impressos e fazer intercalações. Também aprendi a “caixa” e fazia a distribuição dos tipos das chapas já utilizadas. Ainda hoje me lembro alguns dos cacifos, mas muito vagamente. O que recordo muito bem é que, como marçano, o meu primeiro ordenado foi de 120$00 por mês, e como aprendiz de tipógrafo 1$00 por dia. Isto em 1945/1946.

Regressemos a Tavarede. Algumas famílias, já o disse, tinham a agricultura como principal actividade. Mas as suas terras não eram suficientemente grandes para uma ocupação total, pelo que, sendo cavadores, trabalhavam nas quintas vizinhas ou para outros pequenos lavradores, nas sementeiras e, em especial, nas ocasiões da cava e tratamento das vinhas. Havia umas famílias tavaredenses, os Migueis e os Fadigas que, tendo bois de trabalho, além de lavrarem as terras, faziam os transportes na cidade das mercadorias que chegavam pelo caminho de ferro.

Por melhor conhecimento, e porque não haveria grandes diferenças, vou recorder, muito resumidamente, um pouco de como se vivia em Tavarede, naqueles já distantes tempos, servindo-me da lembrança de meus avós paternos. Moravam na rua Direita, um pouco abaixo do largo do Paço, numa casa igual a tantas outras. A casa tinha duas portas, uma, a principal, que, por uma escada em dois lances, conduzia ao primeiro andar, e uma outra, bastante mais larga, que era a chamada porta da adega.

Ao lado da casa ficava o quintal. Quando entrávamos o portão, tínhamos à nossa direita o poço, cuja água, muito boa, era puxada por uma bomba manual. Diziam que era o mesmo veio que fornecia a fonte. A seguir ficavam as escadas, em pedra, com corrimão em grade de ferro, por onde se subia ao primeiro andar. A escada dava para uma varanda a toda a largura da casa, donde se avistava toda a fértil zona sul da aldeia.Do outro lado do quintal, junto à entrada estava a casota do enorme cão de guarda, e encostado ao fundo, ficava um curral onde tinham os animais, duas vacas leiteiras, um burrito e o porco. À vontade, pelo curral e quintal, andavam as galinhas e galos. No curral ainda ficavam guardadas algumas alfaias agrícolas, uma carrocita e a palha, de produção própria e comprada, para sustento dos animais.

Na loja, que era transformada em adega, na devida ocasião, para a venda do vinho, como noutro local refiro, estavam os canteiros com as pipas, tendo a um dos lados um enorme balseiro, onde as uvas eram pisadas e o bagaço prensado, na velha prensa manual, montada depois de trasfegado o mosto. Por baixo da escada, estava a salgadeira, de madeira, onde se guardavam as carnes da matança do porco. Poceiros, cestos e medidas espalhavam-se pelo espaço restante. Com uma tosca divisória, ficava ao fundo o quarto do criado, o S’Tóino.

O primeiro andar era a residência, com a cozinha e sala de jantar viradas para a varanda. Mais três quartos compunham as divisões da casa. No corredor ficava a entrada para o sótão, para o qual se subia por uma estreita escada que tinha um corrimão daqueles que nós, rapazes, tanto gostávamos de descer ao escorrega.

O sótão era amplo, com duas janelas, e não tinha nada de especial. Era ali que eram guardados os cereais das colheitas e as leguminosas. Lá se viam os poceiros com milho, trigo, centeio, feijão, de várias espécies, grão de bico e chícharos, tão usuais naquela altura e que agora rarissimamente aparecem, apesar de fazerem uma sopa deliciosa. Também ali guardavam a fruta. Num canto, sobre palha, amadureciam as peras francesas ou de Inverno que, assim amadurecidas, tinham um sabor maravilhoso. Por ocasião das vindimas, estendiam diversos cordéis, onde penduravam muitos cachos de uvas brancas que ali secavam e se transformavam nas passas utilizadas, por ocasião do Natal, para as tortas doces.

Como se pode avaliar, era uma casa absolutamente idêntica a todas as outras casas de pequenos lavradores. Modesta, como todas, mas uma casa onde, felizmente, havia sempre relativa fartura.

Meu avô havia trabalhado como serralheiro ou ferreiro na Companhia do Gaz, mas sempre o conheci na situação de reforma. Minha avó tratava das lides da casa e dos gados. Manhã cedo, Verão ou Inverno, ia ela a caminho da Figueira, com o S’Tóino, fazer a venda do leite às clientes habituais. Quando tinham venda para o mercado, couves, nabos ou quaisquer novidades, levavam a carrocita puxada pelo burrico.

As fazendas da Sinceira, na Chã, e a Matioa, eram cuidadosamente tratadas por meu avô e pelo criado, recorrendo, quando das lavras, ao serviço de fora. Os filhos também ajudavam, nas suas horas vagas. Não vou descrever nada da vida agrícola naquelas fazendas. Era tudo normal. O que melhor me recorda são os figos negritos de uma enorme figueira que lá havia e que, quando bem maduros, muitas vezes foram a minha merenda, com uma fatia de broa. Também me não esquecem os enormes morangos que se criavam nas valas, no meio da altas ervas. Eram todos para os netos e netas.

Eu passava muito tempo em casa de meus avós, por isso me recordo muito bem das diversas tarefas, como as vindimas, a venda do vinho e a matança do porco. Noutro local procurarei evocar estas cenas.

Uma coisa, entre outras, nunca me esqueceu. A minha merenda era habitualmente uma grossa fatia de broa, com uma espessa camada de manteiga, feita por minha avó, e um púcaro de leite. Outras vezes era um valente prato de papas de farinha cobertas por açúcar e uma boa dose de leite. Simplesmente, uma pequena maravilha.

“Tavarede, pequena mas interessante aldeia, a dois quilómetros e meio da Figueira, é a terra natal do nosso director e onde vive a sua família. Foi lá, num alegre convívio, cheios de atenções, que passámos a tarde. Sentíamo-nos ali verdadeiramente felizes. Naquela aldeia pequenina, fóra do bulício da grande urbe, entre aquela gente simples, de coração puro, reside o verdadeiro bem-estar, aquele optimismo que varre do cérebro a atmosfera pesada das nossas quotidianas preocupações”, escreveu-se no “Jornal de Sintra, por ocasião da excursão de sintrenses já citada.

Mas, embora tenham sido proferidas uns anos mais tarde, não posso deixar de aqui transcrever, pois se enquadra perfeitamente neste capítulo, um pequeno extracto de um discurso feito pelo nosso Amigo Padre António Matos, numa sessão solene local:
“…….E queria lembrar, à maneira de uma vivência pessoal deste pouco tempo em que estou aqui em Tavarede, queria lembrar alguma coisa desta gente. Queria lembrar que é gente simples, trabalhadora, que não vem aqui para o palco tecer um hino trabalho apenas de uma maneira teórica, mas porque o sente bem nas suas mãos, nos seus campos, na sua casa, nas oficinas, nos escritórios, sente o peso do trabalho, mas porque não encara o trabalho como um peso, tece um hino ao trabalho, esse trabalho que pode transformar o Mundo e que tem de ser, ele, o único a transformar este Portugal em que nós estamos. É gente bem educada, gente correcta, gente delicada, atenciosa. E eu digo isto tudo, não é para que eles depois digam que eu estive a dizer bem deles, não é por uma questão de emulação, mas é numa atitude de sinceridade, porque no convívio com eles em cada um tenho um amigo, por isso posso testemunhar todos estes predicados da boa gente de Tavarede.
         Gente com um certo nível de cultura. Que ultrapassou um pouco aquele tempo da instrução primária, nós já sabemos porquê e já diremos porquê.
         Gente polida nas suas maneiras, é gente que sabe viver em grupo, em comunidade. Eu considero este ponto importantíssimo para uma comunidade em que as pessoas se isolam, em que cada uma não pensa única e simplesmente nas suas coisas, na sua casa. Tantas vezes à noite eu os vejo passar para esta casa, deixando as suas coisas. Mas é uma sociedade, é um grupo, é uma comunidade, é uma família. E até ainda neste aspecto de família, eu queria dar um testemunho muito grande. Quando há trabalho na Igreja, e independentemente das suas profissões religiosas, independentemente dos seus credos políticos, damo-nos as mãos mutuamente e tantas vezes eu tenho vindo aqui e eles me perguntam: - Então, Senhor Padre, quando é trabalho, tal coisa? Veja lá, marquemos com tempo, para depois podermos ser todos a trabalhar.
         Isto é importantíssimo numa terra, e é consolador para mim que sou o Pároco desta terra que é a minha.

         Gente que trabalha em comum. Eu não tenho dúvidas nenhumas em dizer que todos estes valores humanos se devem a uma espécie de pequena Universidade que temos cá na terra, e a um magnífico Reitor. Eu refiro-me à Sociedade de Instrução Tavaredense e ao meu grande amigo José Ribeiro…”.

(Avô António Medina)





O Associativismo na Terra do Limonete - 129

G.M.I.T. – Cem anos


         Cumprido o programa das festas comemorativas do centenário da Sociedade de Instrução Tavaredense que, embora os nossos apontamentos tenham uma forma muito resumida, tiveram enorme brilhantismo, vamos continuar a história do associativismo na terra do  limonete, tanto mais que outro centenário se avizinhava: o do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.

         No ano de 2004, em Março e sob o título de ’25 anos ao serviço da população do Saltadouro’, um semanário figueirense publicou uma notícia sobre esta colectividade, da qual recortamos as seguintes notas. ... nos últimos oito anos sucedem-se as obras. Há dois anos fizemos as casas de banho para os camarins, a cozinha e agora concluímos o piso do salão e do palco. Faltam apenas o pano de boca e os acessórios do palco. Não podíamos fazer mais do que fizemos. As restantes obras serão feitas pela direcção a eleger no final do ano. Depois da vistoria das obras, vamos requerer o Estatuto de Utilidade Pública, disse a presidente da colectividade na sessão comemorativa do 25º aniversário...
         ... Atletismo, música, Rancho são algumas das actividades. O teatro desenvolveu-se graças aos Carolas... A escola de alfabetização de adultos, graças ao apoio da Câmara Municipal e da Comissão Social de Tavarede, 8 alunos dos 26 aos 76 anos frequentam as aulas três vezes por semana e os professores são contratados pelo município...

         No mês seguinte, um outro facto de muita relevância, foi a inauguração dos melhoramentos realizados na colectividade da Chã. Foi de festa o Dia Mundial do Teatro no Grupo Desportivo e Recreativo da Chã com a inauguração formal da sede e de uma sala museu onde a colectividade tem exposto o espólio arrecadado ao longo dos anos. Um espaço em que o nome de António Cardoso Ferreira fica perpetuado numa placa colocada como forma de lhe agradecer as milhares de horas dedicadas à colectividade.
 ... Na sede da colectividade foram investidos ao longo de 17 anos, além de muitas horas de trabalho, cerca de 250 mil euros, bem visiveis nas instalações, particularmente na nova sala de espectáculos. Paralelamente, no reaproveitamento da sala da entrada, a sala museu, foram investidos cerca de 10 mil euros, num espaço onde estão expostos trofeus, trajes, fotografias, medalhas, entre outro material.

         O Grupo Musical e de Instrução Tavaredense comemorou mais um aniversário da sua fundação e, durante a habitual sessão solene, foi demonstrada a sua actividade. ... a constituição da escola de música e do rancho O Limonete. Como projecto de trabalho, a criação de uma secção de teatro de revista, melhorar o palco, incentivar a escola de música e o recem criado rancho. Anunciou, também, a criação de uma secção destinada ao fomento do desporto. A nível de obras a prioridade é construir duas salas, uma para a biblioteca e outra para disponibilizar a internet aos jovens que frequentam a colectividade, foram algumas das palavras do presidente da direcção na sessão solene comemorativa dos 93 anos.

         No ano seguinte, 2005, atendendo a um convite que lhe foi feito pelo Casino figueirense, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense foi ali apresentar um espectáculo propositadamente ensaiado para o efeito, e ao qual deu o título de Momentos de TeatroEntretanto, também o grupo de teatro da SIT actuou esta semana no salão café do Casino da Figueira no âmbito da iniciativa ‘Cine Teatro Casino’. ‘Momentos de Teatro’ – título genérico dado a este serão cultural – foi um espectáculo concebido com o intuito de dar a conhecer as várias facetas do teatro que se faz em Tavarede.
         Da comédia ao drama, passando pelo teatro musicado, reviveram-se textos representados na SIT, uns já longínquos no tempo, como ‘O Processo de Jesus’ e a ‘Terra do Limonete’ e outros mais recentes como a ‘Marcha do Centenário’ e ‘O Leque de Lady Windermere’. Depois de semanas a produzir o que de melhor se faz em teatro na região, a Sociedade de Instrução Tavaredense, que outrora mestre José da Silva Ribeiro preparou para o futuro, voltou com o seu elenco ao palco do Casino da Figueira para mostrar a arte de Talma.


         Aproveitando as festas comemorativas do 102º aniversário, a Sociedade de Instrução Tavaredense homenageou a memória do saudoso amador, ponto, director e bibliotecário José Maria Cordeiro (Zé Neto), no decorrer da tradicional sessão solene, que teve a colaboração do Orfeão Académico de Coimbra.

A Sociedade de Instrução Tavaredense comemorou no passado domingo 102 anos de existência, com a apresentação de duas peças de teatro – domínio em que a colectividade desde sempre se destacou – e uma sessão solene que teve como momentos altos, a par do espectáculo musical do Orfeão Académico de Coimbra, o descerramento do retrato de José Maria Cordeiro (Neto), antigo director, ponto, actor amador e colaborador em várias áreas, como é, aliás, apanágio da vida associativa. O presidente da SIT tem para o 103º ano de vida da colectividade mais projectos do que verbas, uma das razões para a alteração dos estatutos que brevemente será apresentada aos sócios, de forma a permitir a candidatura ao Estatuto de Utilidade Pública, que por sua vez possibilitará o acesso a subsídios do Estado. Enquanto estes e outros fundos não vêm, aponta como principais prioridades as obras na sala de espectáculos e a substituição do telhado.

         Em Março de 2006 mais uma vez a colectividade do Saltadouro esteve em festa com as comemorações de mais um aniversário. A presidente da direcção, em dia de festa, reclama para o Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro novas e mais funcionais condições técnicas respeitantes à realização de diversas actividades. Entre elas, destaca-se a necessidade de aquisição de equipamento de luz e de som, afim de ‘dar outra dignidade às nossas actividades.
         Ao longo destes quase 30 anos de vida, a pequena barraca de madeira deu lugar a uma sede grandiosa, onde agora existe espaço para um museu etnográfico onde pontuam pedaços da história não só da colectividade, mas das próprias gentes e ofícios do Saltadouro.

         Também destacamos a festa, em Agosto daquele mesmo ano, dos 95 anos da fundação do GMIT. A passagem de mais um aniversário deixa para trás um ano difícil no Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, com alguns conflitos e desconfianças financeiras que já levaram o caso ao tribunal. Ultrapassados os momentos de celeuma ‘é altura de olhar em frente e começar a pensar no futuro’, foi dito na sessão solene.
         ... com um ano de muito trabalho na sede, a direcção apostou no alargamento do palco em mais três metros e num novo pano de boca, benefício que orçou em mais de 2.500 eutos. Mas as obras de reabilitação não acabaram por aqui, abrangendo também toda a zona do bar, que recebeu novos equipamentos e electrodomésticos, além da recuparação do bilhar de snocker, muitas pinturas. Um investimento que terá ultrapassado os dez mil euros.


E foi em Novembro de 2006, que a Sociedade de Instrução Tavaredense comemorou uma outra efeméride, os 20 anos da morte de Mestre José da Silva Ribeiro.
Com uma  romagem o cemitério, uma missa na Igreja paroquial e um espectáculo evocativo, a Sociedade de Instrução Tavaredense recordou José da Silva Ribeiro, exactamente na passagem do 20º aniversário da sua morte (13 de Setembro de 1986). Tratou-se de recordar ‘uma figura que sempre vai ficar ligada a esta casa’, segundo referiu Vitor Medina, pouco antes de terem apresentado algumas das passagens, mais significativas da vida de José da Silva Ribeiro, naquele teatro.

          O presidente da direcção da SIT acredita que ‘dificilmente haverá outro homem da cultura como ele, em Tavarede e no concelho’, focando a vida multifacetada do mestre, que depois ficaria bem presente na representação de ‘O sonho do passado, a esperança do futuro’, em que foi feita uma recolha focando-se ‘aspectos que nunca foram contados sobre a sua história no teatro da colectividade’, além de excertos de peças da sua autoria em que também representou e de outras já como encenador, entre as quais ‘a primeira e a última que ele ensaiou’.
         Apesar de não se saber com exactidão a data em que José da Silva Ribeiro entrou para a SIT (começou no ‘Teatrinho do Senhor Conde’ como amador de teatro), e em 1910 já representava na colectividade que agora o homenageou. Pouco depois já escrevia alguns textos (em 1911 a ‘Voz da Justiça’ felicita-o como autor, por fazer a apologia da ‘instrução contra os hábitos da taberna’), vindo depois a dedicar-se ao jornalismo e a dirigir ‘A Voz da Justiça’. Após o serviço militar, foi colocado como funcionário administrativo na Escola Bernardino Machado, e mais tarde, quando instado a abandonar as funções jornalísticas e recusou, acabou por perder o vínculo à função pública. Defensor da liberdade, igualdade e fraternidade, acabou por ser preso em 1933 e deportado para Angra do Heroísmo, em 1937 foi-lhe confiscado a ‘Voz da Justiça’ e em 1938 volta novamente a ser detido pela PIDE.

         Por todo este percurso e pela sua dedicação à SIT até morrer, a homenagem contou com casa completamente cheia, figurando entre os presentes, o delegado regional da Cultura Pedro Pita, que classificou José da Silva Ribeiro como ‘um homem capaz de conjugar os aspectos históricos da cultura com os aspectos vivos, mestre de teatro, que ensinou às pessoas o gosto pelo teatro, mesmo dos autores mais difíceis’. Daí que seja considerado como ‘uma referência em Tavarede, Figueira e a nível nacional’, sustentou Pedro Pita, frisando que a sua presença significava a ‘afirmação desse reconhecimento’ pelo Ministério da Cultura.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Terra de meus avós - 6

         É agora ocasião para falar noutra espécie de “ruídos”, bastante mais agradáveis ao ouvido do que o dos carros de bois e que, de instante a instante, se faziam ouvir por toda a aldeia. Tavarede, por aqueles tempos, tinha uma vida difícil, aliás, a vida em Tavarede sempre foi difícil, mas, sem dúvida, muito mais alegre do que agora. Talvez, sabe-se lá, essa alegria fosse provocada para esquecer as dificuldades quotidianas, mas o que era verdade é que se cantava muito, e bem, na minha pequena aldeia.

         As costureiras, e havia bastantes em Tavarede, não paravam de cantar enquanto pedalavam nas suas máquinas, fazendo correr velozmente a agulha sobre a fazenda; as donas de casa, enquanto varriam, limpavam ou preparavam o jantar e a ceia familiar; nos quintais e hortas vizinhas, amanhando as suas hortaliças e novidades ou cuidando das suas flores, sempre se cantava. Mas era, sobretudo, no ribeiro de Tavarede, perto da Igreja, que mais se cantava, enquanto lavavam as suas roupas nas pedras bem lisas pelo continuado uso.

         Eram, normalmente, cantigas do teatro em que, todas ou quase todas, tinham participado ou participavam, pois raras eram as mulheres da terra do limonete que, tal como os homens, não haviam participado no teatro.

         Não vou relembrar nomes das cantadeiras. Tenho, no entanto, bem presente uma cena que se repetia frequentemente nas manhãs de domingo. Quase em frente à minha casa, moravam meus tios Helena e José Medina. Ela havia sido uma das principais amadoras do nosso teatro, desempenhando a protagonista em muitas operetas levadas à cena. Ele foi um excelente amador musical, como executante, compositor e regente e era o ensaiador dos coros do teatro. Mais adiante recordarei mais alguma coisa de meu tio José. Pois naquelas manhãs, frente à porta da rua, aberta, sentava-se ele, com a estante adiante, e da sua flauta arrancava as mais bonitas canções. Junto à janela, enquanto que mecanicamente costurava, a tia Helena fazia ouvir a sua linda voz nas canções que ela tão bem cantava, acompanhada pelo marido. Discretamente, eram muitos os que, verdadeiramente encantados, paravam um pouco para escutarem e apreciarem.

* * *

         Já que falei nos cabreiros e na venda de leite, entendo oportuno dar uma volta pela aldeia para recordar as actividades desenvolvidas. Tavarede era uma terra essencialmente agrícola mas, naturalmente como todas as aldeias, tinha outras actividades. Aqui havia bem poucas.

         Estabelecimentos comerciais, mercearias e vinhos, haviam quatro. No Largo do Paço era a mercearia do sr. Jordão. Da parte da frente ficava o balcão e as prateleiras com os géneros e por trás ficava a taberna. Desta, e por uma porta do lado poente, subia-se até ao quintal, que está num plano bastante superior à rua. Era ali que jogavam à malha.

         Junto à casa existia um depósito em cimento que estava coberto por um estrado de madeira. Por aquela ocasião, havia sido organizado o agrupamento musical “Lúcia-Lima-Jazz”. Então a rapaziada, sempre imaginativa, arranjava umas imitações dos instrumentos, em cana, e fazíamos as nossas exibições musicais em cima daquele estrado, voltados para o largo. O vocalista era o Zé Marreta. Ali passávamos grandes bocados em ensaios e exibições, e a assistência por vezes aplaudia as nossas imitações musicais.

         A meio da rua Direita ficava o estabelecimento de Emilinha Cordeiro, que havia herdado de seu pai, Francisco Cordeiro. Do lado esquerdo da loja, e no patamar da escada que servia o primeiro andar, estava a cabine do telefone público. Era daqueles aparelhos em que se dava à manivela para chamar a telefonista. Entre os vários artigos, a Emilinha vendia farinha de alfarroba para alimentação do gado. Nós estávamos por ali muitas vezes e, quando o telefone tocava e era preciso ir chamar alguém, nós lá íamos em correria. De regresso já sabíamos. A Emilinha deixava-nos ir à tulha onde estava aquela farinha e escolhermos os bocadinhos maiores que, para nós, eram uma gulodice.

         A seguir à mercearia havia longa loja que estava dividida e que tinha uma passagem para o quintal. Do lado esquerdo alinhavam-se as pipas com o vinho, tinto e branco, para venda ao copo ou à medida. Do lado direito, e entre a mercearia e a cozinha, onde se preparavam os petiscos para a clientela, ficava a sala de jogo de cartas. Tinha uma mesa comprida e bancos corridos. Recordo-me muito bem de ali ver disputar acesas partidas. Normalmente jogavam o “garujo”, com a participação de seis jogadores. Quando eram quatro, uma das variantes do jogo, chamava-se “liques”; de oito, “ganipo” e de dez “zangarelho”. Dentro de cada equipa havia um mandante, a quem os outros, da forma mais discreta possível, passavam sinais do jogo que tinham. Ele, desta forma, sabia o jogo que a sua equipa tinha e mandava jogar as cartas que entendia. Eram jogos muito manhosos. Quando viam que tinham bom jogo, havia cantiga. Eram três cartas a cada um por jogo, ganhando, portanto, a equipa que fizesse duas vasas e marcava um risco (3 pontos). As cantigas eram de seis, nove e mais, algumas vezes para acabar a moca. O adversário podia desistir, só perdia um risco, aceitar ou cantar para mais. Já se sabe, duas partidas ganhas era pedida bebida paga pela equipa perdedora.         Havia vários jogadores que se auto-intitulavam “mestres”. Dos que conheci, talvez aquele que tinha mais fama fosse o Aniceto Mocho, um velho e carismático trabalhador rural.

No quintal do estabelecimento, havia no meio um engraçado pavilhão, coberto de verdura, com uma mesa e bancos, onde, especialmente nos dias de festa, se faziam grandes caldeiradas. Ao lado desse pavilhão, e a todo o comprimento até ao armazém, junto do ribeiro, estavam os tabuleiros para o tradicional jogo da malha.

         Um pouco mais abaixo ficava a “Loja do Povo”, estabelecimento de António Pedro Carvalho, alcunhado de “Lameira”, nome da terra da sua naturalidade. Seria o melhor montado, pois além de mercearias, tinha uma grande diversidade de outros produtos, sempre necessários na aldeia. Do lado poente, em loja dividida, ficava a taberna, com umas escadas que davam acesso para o quintal, onde, como nos outros, se jogava, petiscava e bebia.

         Junto ao rio Pereira, indo pelo caminho que parte do largo da Igreja para dar serventia ao quintal do Ferreira, ficava a loja de António Gato. De todas era a mais modesta e dedicava-se mais ao negócio de vinhos e petiscos, especialmente quando havia festas da Igreja, ocasiões em que tinha sempre farta concorrência de freguesia. Atravessava-se o pequeno ribeiro por uma tosca e velha ponte de madeira. Em frente à casa, e na outra margem, existiam umas enormes figueiras. Era ali que a rapaziada ia fazer pontaria com as suas fisgas. Tinham habitáculo naquelas grandes árvores as pequenitas “carriças”. Nós bem apontávamos mas os passaritos eram tão pequenos e irrequietos que nunca acertávamos.

         Mudando de ramo, no Largo do Forno estava situada a padaria de Eloi Domingues. Diariamente, e altas horas da noite, era o enorme forno aquecido a lenha. A massa, preparada à noite, estava leveda e pronta para cozer, bem cedo. Só havia dois tipos de pão: as tradicionais carcaças e o pão de segunda, os chamados casqueiros. Ainda o dia não havia rompido e já estava ao balcão a senhora Pureza a atender a clientela que vinha em busca do pão fresquinho. Com uns carros de verga com rodas de bicicleta, forrados com pano branco, impecavelmente limpo, iam o Olívio Domingues e um colega, fazer venda domiciliária, à Figueira e a Buarcos.

         Na véspera dos dias de festa, Natal, Ano Bom e Páscoa, entre outros, muitas eram as mulheres que, em enormes pingadeiras, levavam ou galo ou coelho, com batatinhas, para assar no forno, que se mantinha quente muito tempo para além da cozedura do pão. Era sempre com a melhor vontade que acediam ao pedido que lhes faziam e os pitéus, assados desta maneira, tinham sempre um paladar extraordinário. No Inverno, também era frequente aparecerem as pingadeiras para assar as peras francesas que o vento deitava ao cheio e que, de outra forma, se não podiam comer, tão rijas eram.

         No caminho da fonte, antes da entrada para o Serrado, estava localizada a forja de Assalino Cardoso. De manhã à noite, lá se ouvia o martelar vigoroso no ferro aquecido ao rubro na forja bem ateada pelo enorme fole que ele manipulava com a mão esquerda, enquanto que com a direita, aquecia o ferro, fixo a uma enorme tenaz. Todos os utensílios agrícolas ali fazia ou reparava convenientemente.

          Havia mais duas forjas na nossa terra. No Terreiro, era a de Manuel Lindote e no Largo do Forno, a de Isolino Proa. Mas como ambos trabalhavam, como ferreiros, nas oficinas do caminho de ferro,  só à noite e aos domingos estas forjas laboravam.

         Ao princípio da rua Direita, no Largo do Paço, defronte à mercearia, ficava a barbearia dos irmãos Joaquim e Manuel Medina. Era profissão herdada do pai, embora este tivesse como profissão principal a de serralheiro, que exercia nas oficinas da Figueira. O Joaquim, conhecido pela alcunha do “Jaringa”, era muito brincalhão,
fazendo mil e uma partidas aos clientes enquanto os servia. O Manuel, mais tarde, acabou por emigrar para os Estados Unidos da América, onde constituiu família. Voltou aqui há uns anos, com um filho e com a intenção de regresso definitivo mas, especialmente seu filho, não se adaptaram e optaram por regressar à América. Entretanto, também o Joaquim mudou o seu estabelecimento para a rua Direita, junto ao Largo do Forno, onde trabalhou até ao seu falecimento, continuando o negócio seu filho.

         Também numa pequena loja em frente à mercearia de Emilinha Cordeiro, existia uma outra barbearia, mas que só funcionava aos domingos, pois o seu proprietário, Faím, tinha estabelecimento na Figueira, onde trabalhava durante a semana.

         Meu pai havia aprendido o ofício de sapateiro, na Figueira, antes de cumprir o serviço militar. Empregou-se, depois, nas oficinas do caminho de ferro mas, por meados dos anos quarenta, resolveu-se a abrir uma sapataria em Tavarede, para obra nova e consertos. Para pessoal, convidou seu primo João Medina, oficial de sapateiro na Figueira, José Soares, que seguia a profissão de seu pai na Vila Robim, e Eduardo Mota, para aprendiz. Abriu o estabelecimento na loja da casa onde viveram meus avós e que, por partilhas depois da morte de minha avó, calhara a minha tia Violinda. A velha adega transformou-se em oficina, embora não tenha ali permanecido muito tempo, pois mudou-se para o réz-do-chão da casa da senhora Guia, quase defronte.

         A sapataria passou a ser um dos pontos de encontro da aldeia, principalmente para alguns mais idosos. Entre estes, recordo o encontro diário de dois dos velhos mais castiços e simpáticos, mas, igualmente, dos mais “casmurros”, que conheci: meu avô António e o velho João da Simôa. Ambos tinham sido fundadores do Grupo Musical. Meu avô, embora também músico, destacou-se no teatro, onde, segundo notas encontradas, foi um bom amador. João Jorge da Silva, o João da Simôa, foi um excelente músico, tendo sido um dos iniciadores e regente da tuna daquela colectividade e da orquestra que abrilhantava os espectáculos teatrais, além de ministrar o ensino da música, durante muitos anos.

         Logicamente, tinham excelentes recordações dos tempos passados. Ainda não eram decorridos muitos anos sobre o fim do período áureo do Grupo Musical e, quando estavam bem dispostos, contavam, com verdadeira saudade, muitas histórias vividas naquela colectividade, à qual haviam dado tanto da sua vida. Outras vezes, as relações eram momentaneamente azedadas. É que, além de teimosos, ambos eram uns refinadíssimos mentirosos. Meu avô, então, usava e abusava dessa “virtude”. Em qualquer outro local hei-de recordar algumas das suas habituais “petas”. Contavam e recontavam essas facécias vezes sem conta, mas aí daquele que os desmentisse ou, sequer, se risse de troça! Enfim, não era por causa dessas “virtudes” que deixavam de ser estimados e considerados.

         O negócio de sapataria não era mau de todo. Rendia pouco, é verdade, mas sempre ajudava ao magro orçamento caseiro. Um dia, António Lameira também resolveu abrir uma nova sapataria e acabou por convidar meu pai para tomar conta dela, mediante uma renda. Durou pouco tempo, pois entretanto havíamos mudado de residência para o Terreiro e no quintal meu pai fez uma pequena dependência e ali instalou a sua loja, poupando o dinheiro da renda.

         Havia outros sapateiros que trabalhavam em suas casas, tendo muita clientela. Um deles havia que se distinguiu pela perfeição dos seus trabalhos. Foi o Fernando Santos, por alcunha o Fernando Xanato. Nunca foi um grande amador teatral, mas a sua boa vontade e dedicação foram inexcedíveis, no que resultava haver sempre um pequeno papel para ele, ainda que simples figurante. O seu rendimento familiar dependia exclusivamente do seu trabalho, pelo que trabalhava imenso. Muitas vezes, para acabar um conserto, chegava atrasado ao ensaio. Ao princípio perguntavam-lhe o motivo do atraso, e lá vinha a resposta “estive a acabar um xanato…”. Foi assim que pegou a alcunha, mas era uma excelente pessoa no seu trato simples.

         Recordo, além dele, mais dois sapateiros em Tavarede. Na rua Direita, mais ou menos ao meio, José Maria Severino dos Reis, mais conhecido por José Maria Terreiro. Casado com Felismina Ribeiro, teve três filhos, todos anormais. Os dois rapazes tornaram-se duas figuras características da terra, deixando muita pena quando morreram: o José e o António Reis, conhecidos pela alcunha de “Parrecos”. Nunca fizeram mal a ninguém e, especialmente o José, até eram muito prestáveis, fazendo os pequenos recados que lhes pediam. E José Vigário, no Terreiro, era o outro sapateiro que exercia a actividade em Tavarede.

         Além das muitas costureiras que haviam em Tavarede, também aqui tinha o seu “atelier” de alfaiataria mestre Diamantino Rocha. Primeiramente, esteve instalado na loja de uma casa na rua Direita, vizinha daquela onde eu morava. Tinha umas quatro a cinco costureiras e aprendizas. Depois mudou para o largo do Terreiro. Mestre Diamantino Alfaiate, como era mais conhecido, tocava concertina e era ele que abrilhantava todas as festas populares ou romarias aqui levadas a efeito. No largo do Terreiro, por ocasião dos santos populares, não faltavam as festas, com a tradicional fogueira. A orquestra era constituida por residentes naquele largo: a concertina de Diamantino Alfaiate, a viola e o pífaro, de Manuel Lindote e o bandolim de meu Pai, Pedro. Intitulavam-se como “Orquestra da Malveira”!  

Claro que muitos tavaredenses, que exerciam as suas profissões na cidade, também trabalhavam em suas casas. Pedreiros, carpinteiros, marceneiros, electricistas e outros, não desperdiçavam os seus tempos vagos, além de ainda arranjarem tempo para amanharem o seu quintal e uma ou outra leira de terra. Parece, por exemplo, que ainda estou a ver o canteiro António Marques Lontro, na loja da sua casa, também na rua Direita, a abrir as letras nas placas de mármore para o cemitério… Nesta loja, também funcionava, naquele tempo, a Sociedade Protectora de Gado Suíno, vulgarmente conhecida por “Compromisso dos Porcos”.

         Seria imperdoável não relembrar as figuras da Ti Marquitas do Pires, Clementina Simôa e Adelaide Pires, as três principais “comerciantes” de tremoços, freiras e pevides, que tinham os seus “estabelecimentos” à porta de suas residências, respectivamente no Terreiro, no Paço e rua Direita, frente ao Largo do Forno.

         Uma última recordação sobre este tema. Quase todos os tavaredenses amanhavam um bocadinho de terra e também quase todos fabricavam o seu vinhito. É que, ladeando as suas terras de cultura, plantavam videiras, fazendo corrimões. A produção era pequena e o vinho de fraca qualidade, mas era com gosto e carinho que o faziam. Havia, no entanto, uma meia dúzia que produziam vinho a sério. Com melhor conhecimento, recordo meu avô. Na Matiôa tinha ele uma vinha muito boa, pelo terreno e pela localização. Era cuidada como devia ser. Não lhe faltava com os tratamentos e só era vindimada quando a uva estava bem madura. A produção dessa vinha era tratada em separado, pois que igualmente tinha vinha e corrimões na fazenda da Chã, na Sinceira.

         Aquele vinho da Matiôa chegou a ter muita fama. Na altura própria, pelo S. Martinho, pregava uma enorme ramada de loureiro na porta da sua loja, que era transformada em adega, onde vendia o vinho a retalho e ao copo. A clientela, mais da Figueira e Buarcos, normalmente não faltava e enquanto durasse o vinho era sempre casa cheia. Muitos clientes também preferiam a deliciosa e refrescante água-pé, que ele fabricava com as uvas dos corrimões, que misturava à repisa do vinho e a que juntava uns tantos cântaros de água pura. Quando abria o pipo da água-pé, recordo que a dava a provar aos amigos por um coco, onde ela espirrava fresquinha.

         Outros haviam que procediam de igual modo e, por ocasião do vinho novo, era a nossa terra muito frequentada por grandes grupos que, acompanhando-se dos mais diversos petiscos, aqui faziam grandes patuscadas.

         E acabo esta parte com uma breve recordação. O ti César Cascão tinha em sua casa, frente ao largo do Forno, um alambique onde queimava o bagaço das uvas para fabricar aguardente. A rapaziada gostava de ir ver, além que, quando era tempo deste trabalho, fazia frio e sabia bem estar ali ao quentinho da caldeira do alambique. A aguardente caía em fino fio para uma garrafa e estava sempre a ser pesada, para ver a graduação. A partir de determinado grau deixava de ser aproveitada. De vez em quando íamos ao caminho do Peso, para roubar figos numas grandes figueiras de José Serra, e que levávamos para o alambique. Sabia muito bem comer os figos e beber uma golada daquela espécie de aguardente, praticamente água quente, que nos dava. Mesmo fraquíssima,  não se podia abusar.


A UM CERTO VINHO DE TAVAREDE

         “Entre os mimos que este abençoado torrão de Tavarede produz e manda ao mercado da Figueira, há que especializar um vinhinho palhete a quem os apreciadores rendem as suas homenagens.
         Cardoso Martha, figueirense ilustrado que vive na capital há já longos anos, é um velho amigo e frequentador da terra do limonete e conhecedor do seu precioso nectar.
         Sabendo isso, um seu amigo tavaredense, presenteou-o há tempos com um piposito desse palhete, que o inspirou para o seguinte soneto, a que deu o título “A um certo vinho de Tavarede”:

Encho o meu copo, à luz do claro dia
de um néctar precioso - o vinho amigo,
puro, sem confecções, como o bebia
o bíblico Noé, no tempo antigo.

Depois, em contra-luz, me delicia
sua cor de rubi; e enquanto sigo
na toalha o reflexo, a fantasia
me diz mais que diria quanto eu digo...

Das cepas do torrão de Tavarede,
ó vinho, sê benvindo à minha sêde,
tu, que de muitos és exemplo e espelho

Gole a gole, dou co’a língua um estalinho
e razão a quem disse que o bom vinho
tráz alegria ao moço e sangue ao velho. (Notícias da Figueira)


O Associativismo na Terra do Limonete - 128


...que o TEATRO VAI À RUA.
O ponto mais marcante dos actos festivos no terceiro trimestre, foi, com toda a certeza, o sarau realizado no dia 13 de Setembro, data em que se comemorava o 18º aniversário da morte de Mestre José da Silva Ribeiro. Nesse sarau, e depois de se ter prestado homenagem ao amador José Medina, pelos seus cinquenta anos ao serviço do nosso teatro, teve lugar a apresentação do livro do Centenário “100 Anos ao Serviço do Povo... e Caminhando”. Este livro foi publicado, numa edição de luxo, graças aos subsídios concedidos pela Secretaria de Estado da Cultura, Direcção Regional da Cultura do Centro, Fundação Calouste Gulbenkian e Celbi. A imprensa referiu-se ao evento, tendo nós escolhido estes dois apontamentos.

A Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT) procedeu ao lançamento do livro que ilustra os 100 anos de existência desta colectividade. Intitulado “100 anos – ao serviço do povo… e caminhando”, a publicação, da autoria de Vítor Medina e coordenada por José Bernardes, foi apresentada na noite de segunda feira. Para o autor e presidente da direcção da SIT “é o complemento dos dois livros que o mestre José da Silva Ribeiro lançou.
Numa edição de luxo, foram impressos mil exemplares, que serão vendidos a 25 euros.
Presente na cerimónia, Duarte Silva garantiu que o município irá adquirir parte dos livros.
Falando sobre a SIT, o presidente da Câmara diz que “foi e é a jóia da coroa no concelho da Figueira no que se refere ao teatro” e lembrou que José Ribeiro “é uma referência nacional”. (Diário as Beiras – 15.Setembro.2004) 
A Sociedade de Instrução Tavaredense viveu aquele que foi considerado um dos pontos altos das comemorações do centenário, com o lançamento do livro “100 anos – Ao serviço do povo… e caminhando”, inspirado nos livros de José da Silva Ribeiro, evocado exactamente 18 anos depois da sua morte.
“Continuamos a respirar nestas quatro paredes, o enorme amor pelo teatro”. Foi assim, que o presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), evocando José da Silva Ribeiro, se dirigiu a todos os que quiseram partilhar daquele que foi considerado como o “ponto alto das comemorações do centenário”, uma cerimónia que chegou a estar prevista para o dia 27 de Março (Dia Mundial do Teatro) e “mais condizente com as actividades da colectividade”, mas que foi mudada para que o livro agora lançado, pudesse integrar fotos das comemorações do centenário.
Vítor Medina adiantou ainda que a figura do mestre José Ribeiro “há-de perdurar sempre, enquanto a colectividade existir” e que “grande parte do livro é um complemento”, aos livros lançados pelo mestre, aquando das bodas de ouro e diamante da colectividade.
Com recolha e texto de Vítor Medina, e coordenação do professor José Augusto Bernardes, o livro, à venda por 25 euros, está “dividido” em cinco partes, “marcos do passado”, “cem anos de teatro”, “o centenário” e “quadros históricos”, é “uma edição de luxo, com mil exemplares”, e apesar do presidente da direcção estar “consciente de que não os vamos vender todos”, garante que os apoios e patrocínios “cobrem metade”, e uma parte será guardada pela colectividade.
À cerimónia, que contou com a presença de diversas entidades da região, aliou-se o presidente da Câmara por considerar que a SIT “é a jóia da coroa da Figueira”. Sem querer “ofender e menosprezar” outras colectividades, Duarte Silva recordou que José da Silva Ribeiro “é uma referência nacional” e que a colectividade mantém a sua “tradição”, no domínio do teatro. (Diário de Coimbra – 15.Setembro.2004)

 Também não podemos deixar de aqui registar o concerto dado pelo Grupo Musical Sax Ensemble, de Coimbra, que foi realizado na Igreja Paroquial de Tavarede, o qual foi muito concorrido. E, ainda neste trimestre, teve lugar o II Encontro de Filarmónicas do Centenário, desta vez com a presença das Bandas de Quiaios, da Boa União Alhadense e de Arazede.

          O último trimestre de 2004 começou com a abertura da exposição “100 anos de vida e de teatro”, no Centro de Artes e Espectáculos, na Figueira da Foz, onde esteve patente ao público até ao dia 2 de Novembro. No ano do primeiro centenário, a SIT apresenta retalhos do seu espólio, de forma a mostrar momentos significativos da sua vida em prol do desenvolvimento cultural, assente na matriz do teatro. Os ecos deste trabalho saíram de Tavarede, estenderam-se para fora do concelho tendo mesmo chegado além-fronteiras. Repregos de cenários, maquetas, estudos de peças, mobiliário, adereços de cena, indumentária, fotografias, programas, publicações, prémios, compõem a mostra do labor daqueles que, ao longo de muitos anos, se vêm dedicando à causa da cultura e do teatro. Neste caminhar iniciado há muito tempo, construímos um passado e cimentámos o presente na senda do futuro, escreve-se no programa desta exposição.
A abertura da exposição teve a presença do Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, da Vereadora do Pelouro da Cultura, muitas outras individualidades e grande número de sócios, amadores e colaboradores da Sociedade de Instrução Tavaredense.
A exposição recebeu a visita do Primeiro Ministro do Governo Português, Dr. Pedro Santana Lopes, da Ministra da Cultura, Drª Teresa Caeiro, da Delegada da Cultura da Região Centro, Drª Celeste Amaro, do Vice Governador Civil do Distrito de Coimbra, Engº Ricardo Alves, etc.
De acordo com o catálogo emitido para esta Exposição, estiveram expostos, nas quatro salas cedidas, 161 objectos, entre cenários, guarda-roupa e adereços.

         O dia de S. Martinho, o padroeiro da nossa freguesia, foi comemorado com um sarau, no pavilhão desportivo, no qual foram evocadas as primeiras operetas e fantasias com acção na nossa terra. Não podemos deixar de referir, que foi este sarau o embrião do qual viria a nascer, meses mais tarde, o Grupo Coral Cantigas de Tavarede. No final do serão, oferecida pela colectividades a todos os presentes, houve uma castanhada.
 Também em Novembro se realizou um encontro das colectividades da freguesia.     

E durante o mês de Dezembro, e até ao final das comemorações, teve lugar “A luz do Natal”, com recriações em ‘Luz negra’.
          E depois de uma festa de Natal, oferecida às crianças da freguesia, efectuou-se uma ‘Passagem do Ano do Centenário’.


         Os últimos eventos das comemorações tiveram inusitado brilho. A 5 de Janeiro de 2005, a SIT recebeu, na sua sala de espectáculos, a Orquestra Silver Strings, de S. Petersburgo, Rússia, que apresentou um concerto verdadeiramente extraordinário e inédito na nossa região. Uma casa completamente cheia, com uma assistência que se mostrou encantada com este serão.         
          No domingo seguinte, mais uma vez o pavilhão desportivo da colectividade foi pequeno, tantas foram as pessoas que já não conseguiram obter entrada. Teve ali lugar o ‘Almoço de Gala’, que teve uma animação invulgar que foi dada pelo Grupo de Cordas e Cantares de Coimbra.
         Sábado, dia 15 de Janeiro, o grupo cénico levou à cena, em primeira representação, a peça O leque de Lady Windermere, de Oscar Wilde, cujo sucesso foi enorme e que se repetiu diversas vezes, embora já fora do âmbito das comemorações. 


         Finalmente, e no domingo 16, encerraram-se as festividades. Depois de uma actuação pelo Coro de Câmara do Orfeão de Valadares, teve lugar a sessão solene, a qualfoi presidida pela secretária de Estado da Administração Pública, doutora Maria do Rosário Cardoso Águas, neta do saudoso alhadense Anselmo Cardoso Júnior, que foi um grande colaborador do nosso grupo dramático, autor de muitas músicas cantadas em diversas fantasias. Assistiu a esta sessão, a Filarmónica de Lares que, em homenagem à ilustre presidente, tocou a ‘Canção do Limonete’, composição musical de seu avô, cuja letra, da autoria de Mestre José da Silva Ribeiro, foi cantada, em coro, por toda a assistência presente.


         E foi em ambiente verdadeiramente festivo que, com este acto solene, se encerraram as comemorações do primeiro centenário da Sociedade de Instrução Tavaredemse.



sábado, 9 de maio de 2015

Tavarede - A Terra de meus Avós - 5

Tavarede – anos quarenta…
  







Nasci em Tavarede, numa pequena casa da rua Direita, um pouco abaixo do Largo do Paço, nos já distantes anos trinta do século passado. Aqui me criei e vivi a minha infância e a minha juventude, tempos felizes e despreocupados, até ao ano de 1958, quando, por motivos profissionais, abalei para Lisboa. Quando regressei, anos mais tarde, fixei a residência familiar na Figueira. Mas, e quase que diariamente, as nossas visitas a Tavarede sucediam-se. A família mais chegada continuava a aqui residir e, se eles desejavam a presença familiar, nós igualmente nos sentíamos aqui muito bem. Afinal de contas eramos filhos da terra…

Talvez por isso, não deixo de ter uma certa apreensão ao começar a recordar os meus tempos de infância. Mas, e isso quero desde já afirmar, não é por uma questão de saudosismo. É verdade que, uma vez por outra, não poderei deixar de sentir uma certa “saudade”, mas, no caso, será mais correcto falar em “sentimentalismo”.

         Desde sempre, e isso mesmo tenho observado nas minhas recolhas, os tavaredenses tiveram, e têm, fama de serem uns “sentimentalões”, especialmente em questões de bairrismo. Claro que eu não sou a excepção à regra. Mas, e disso estou bem convicto, esta viagem aos meus tempos de menino e moço vai saber-me muito bem.

         Para me não alongar em demasia, e porque o período escolhido é mais do que suficiente para os meus propósitos, vou viajar até à década dos anos quarenta do século passado, digamos, portanto, mais de sessenta anos atrás. Certamente que algumas das minhas lembranças me levarão fora daquele período, mas evitarei fazê-lo o mais possível.

         Começo por recordar, uma vez mais, que a terra do limonete era, naquele tempo, muito diferente daquilo que é nos nossos dias. Curiosamente, pode dizer-se que a aldeia mudou mais em vinte ou trinta anos, do que nos seus primeiros nove séculos de existência. Vista, por exemplo, da velha estrada de Mira, o casario de Tavarede apresentava uma forma de um triângulo quase perfeito, bem marcado nos seus vértices: Igreja, Paço e Terreiro. Bastará atentar na antiquidade daqueles três edifícios para confirmação do que referimos.

         Circunscrevendo a aldeia, e começando pelo lado nascente, tínhamos a quinta da Mentana, onde, nos princípios daqueles anos, ainda vivia o seu proprietário, João Gaspar de Lemos   Amorim, poeta que tão bem cantou a nossa    terra e a sua vida agrícola. Depois, contornando o burgo até ao Terreiro, tínhamos a quinta do Nabal, da parte de
cima do cemitério, o início das Azenhas, o Carriço e a encosta até ao Pezo, seguindo-se depois, para poente, a caminho do Paço, os terrenos do dr. Cruz, a quinta do Pezo e


a quinta de José Duarte. Do lado sul, havia a quinta do Paço, com a sua frondosa mata, na Várzea, e até ao Largo da Igreja, ficavam as verdejantes e viçosas hortas do Serrado e do Quintal do Ferreira, com todos os bocadinhos amorosamente amanhados.

         Fora destes limites, uma ou outra casa. Os lugares da Simôa, Nabal, Azenhas, Pezo, Senhor da Arieira e Várzea, ainda se encontravam perfeitamente destacados. Estes eram os mais próximos mas, como referi, ainda isolados do velho burgo.

         Naquele tempo a vida na aldeia era bastante calma e serena. Os maiores ruídos que se ouviam, era de manhã bem cedo e à noitinha, e eram feitos pelos carros de bois que atravessavam a povoação a caminho das fazendas, muitas vezes carregados de estrume e dos apetrechos e alfaias agrícolas. No regresso, traziam os produtos colhidos da terra fecunda e o pasto para alimento do gado. Muitos destes carros, também frequentemente iam de madrugada à estação do caminho de ferro, em busca de algum rendimento no carrego das encomendas vindas nos comboios e que se destinavam ao comércio e armazéns da cidade.

É inevitável a recordação da passagem dos carros de bois gandarezes que, da estrumeira da Várzea ou das areias de Buarcos, levavam o “adubo” tão necessário ao cultivo das suas terras areentas. Às vezes formavam uma enorme caravana que, vinda de Buarcos, atravessava pachorrentamente a aldeia, pela velha rua Direita, subindo depois, com esforço, pela estrada do Saltadouro a caminho da Cova da Serpe e lugares mais distantes.

         Quando passavam por Tavarede, corríamos todos à espreita para ver se caíam alguns pilados com os balanços dos carros, ao percorrerem a rua esburacada. Já conhecíamos os melhores sítios e mal víamos um pilado a correr no chão, logo saltávamos a apanhá-lo, apesar dos ralhos do dono. Depois de cozidos, eram uma bela merenda.

         Também manhã cedo, algumas carroças puxadas a burricos, atravessavam a aldeia a caminho da Figueira, levando enormes carradas de hortaliças e flores ao mercado, de que eram os principais fornecedores. Muitas mulheres, que tinham menos produção, transportavam, em cestas que levavam à cabeça, as couves e as novidades apanhadas na véspera, pela fresquinha. Tinham fama as couves de Tavarede. “Não surgem no mercado da Figueira – nem haverá por essa bola do mundo – hortaliças e novidades mais apaladadas e gostosas. Que aquilo é campo bendito – que Deus fadou para regalo e gozo dos eleitos”, escrevia-se no boletim do Turismo, em 1945.

         E quanto a flores, lembro um dito do saudoso professor Doutor Joaquim de Carvalho, que dizia “as mulheres de Tavarede, com o seu bom gosto, têm uma arte especial para construírem um ramo de flores”.

         Também pelas manhãs e ao entardecer, a aldeia era sacudida da sua modorra, com a passagem dos dois rebanhos de cabras que então cá existiam. No Paço, albergava-se o rebanho do sr. Marcelino, proprietário e talhante na Figueira, e que tinha como cabreiro ao seu serviço, o Diogo, da Chã. Um pouco adiante da fonte, no caminho da Várzea, vivia Joaquim Lopes, mais conhecido por Joaquim Tarouco, que igualmente tinha um rebanho de cabras que, com o filho, Evaristo, levava a apascentar aos valados ou pousios dos arredores. Na Figueira, no Bairro Novo, eram bem conhecidos os pregões do Joaquim Tarouco, quando ali ia vender leite.

         As noites eram silenciosas. E no verão, nas quentes noites estivais, era grande a concorrência de pessoas à fonte, onde gozavam de uma fresquidão muito agradável, depois de se refrescarem com a água pura e cristalina que, sem cessar, caía dos seus canos em leve murmúrio. Outros iam até ao Largo da Igreja, onde se sentavam no velho muro, respirando gostosamente a fresca brisa, olorosamente perfumada a limonete, enquanto, tantas vezes, ouviam deliciados os doces trinados dos rouxinóis e dos pintassilgos, que ainda abundavam por ali, nos salgueirais do ribeiro.

         Ao recordar isto, vem à minha memória a “caça” que os rapazes faziam aos pirilampos, que voejavam à nossa volta num constante pisca-pisca. Apanhávamos quantos podíamos. Chegados a casa, metíamo-los num copo, voltado com a boca para baixo, acompanhados de um pequeno punhado de pedras de sal. De manhã, era certo. Lá estava a pequena moeda que, trabalhando o sal, os pirilampos haviam produzido durante a noite. Que ingenuidade a nossa!


* * *

O Associativismo na Terra do Limonete - 127

O que eles e elas disseram:
“Considero que o teatro é a forma de arte que mais nos interpela e nos confronta com os nossos valores. Quero deixar aqui a palavra “memória”, evocativa de todas as pessoas que tanto nos deram e nos enriqueceram ao longo de cem anos, com dedicação e esforço”. Ana Pires
“Abordar a história da SIT é recordar Mestre José Ribeiro autor do Hino do Limonete e Anselmo Cardoso, meu pai, que o musicou”. Carlos Cardoso
“Esta casa vive de muito trabalho, dedicação à cultura e ao teatro. A presença do secretário de Estado da Cultura é o mais forte incentivo para continuar”. José Paz
“Sublinho o apoio de Rosário Águas e de Teresa Machado, sempre disponíveis para nos ajudar. O que nos une nesta casa é o palco das emoções para além da razão”. Ana Maria Caetano
“Falei aqui há 50 anos com Cristina Torres e Lontro Mariano. Hoje, na comemoração do centenário, quero expressar a minha satisfação por estar aqui a agradecer o trabalho realizado ao longo de cem anos. Esta casa foi uma escola de educação, instrução, cultura, convívio, teatro, onde os conceitos de liberdade, solidariedade e cidadania estiveram sempre presentes. A obra iniciada há cem anos terá continuadores em vós”. Maria Teresa Coimbra
“Tavarede não era o que é, se esta casa não existisse. Por isso, Tavarede não entrou na onda da descaracterização, mantendo a sua identidade própria. A SIT e José Ribeiro foram, ao longo de cem anos, o emblema cultural da Figueira da Foz. O futuro há-de ser sempre o que quisermos fazer, se não quisermos atraiçoar a memória do passado”. José Bernardes
“A grande referência desta colectividade é o teatro, uma das vertentes de cultura, que nos leva a todos, a estar gratos à SIT. Que estas comemorações dêem frutos e sementes que germinem na mente e no coração dos mais jovens”. Daniel Santos
“É bom sentir uma casa viva, cheia, com cem anos de história e sempre apostada em construir um caminho de futuro”. Ricardo Alves, representante do Governo Civil
“Lembro-me o que há mais de 50 anos ouvi de José Ribeiro: A SIT estará sempre presente se a Câmara Municipal necessitar da nossa presença. Esta casa é uma escola. Bem hajam pelo trabalho desenvolvido”. Muñoz de Oliveira

Nas semanas seguintes, outros espectáculos se realizaram, nomeadamente com a repetição da Marcha do Centenário e com colaborações diversas, entre as quais um sarau pelo Coral David de Sousa, da Figueira. E no dia 17 de Fevereiro, foi evocada a memória da amadora Violinda Medina e Silva, que, nesse dia, festejaria também o seu centenário, se ainda fosse viva.
E o primeiro trimestre terminou no Dia Mundial do Teatro. Nesse dia, a Sociedade foi homenageada pelo Lions Clube da Figueira, que ofereceu uma placa comemorativa, a qual se encontra colocada no átrio da entrada principal da associação. Aproveitando a data, também foi prestada homenagem à memória do saudoso amador e encenador João de Oliveira Júnior, sendo o seu retrato descerrado. O serão terminou com a representação da peça Sopinha de Mel, pelo Clube de Teatro Drª. Cristina Torres.



O segundo trimestre teve, no seu início, o reviver de uma velha tradição, havia muito caída no esquecimento. A ‘Festa da Pinhata’, que teve a colaboração da orquestra ‘Melodias de Sempre’, de Brenha, decorreu durante um dos costumados almoços mensais, tendo obtido enorme sucesso.
E depois de diversos saraus, dos quais podemos destacar os concertos com o Padre Borga e o do Grupo de Instrumentos de Sopro de Coimbra, efectuou-se o I Encontro de Filarmónicas do Centenário, em que estiveram presentes as Bandas Gualdim Pais, de Tomar, de Santana e dos Carvalhais de Lavos, que actuaram no pavilhão desportivo, que se encontrava repleto de assistentes.
Em Junho, houve novamente ‘Teatro de Rua’. Desta vez foram apresentados, em diversos locais da aldeia, alguns quadros do espectáculo ‘Marcha do Centenário’.

ANTES DE SAIR PARA A RUA...
Porque o Teatro é um divertimento, tem uma função cultural e educativa e porque o espectáculo se dirige ao público, assim estes meios e fins conduzem-nos à escolha de determinado processo de comunicação que é o contacto directo com as pessoas e com os lugares onde se desenrolam as acções.
Vamos assim  adoptar um  processo bem diferente do que é usado habitualmente, nestes cem anos em que se faz teatro, porque os intérpretes vão mais do que nunca tomar consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes vai na alma, das ideias que as determinam, da época em que vivem, dos ambientes em que se movem.
Os quadros que vamos representar, são de fundo histórico caracteristicamente local – bem da terra do limonete, constituída sobre factos e com figuras da história de Tavarede, com as tradições locais, os costumes locais e o ambiente local.
Ficará este trabalho como testemunho da nossa dedicação à terra humilde onde nascemos, temos vivido e de que muito gostamos, como hino ao trabalho e também como afirmação da simpatia que votamos e da solidariedade que nos liga a todos os homens e mulheres da nossa aldeia.
José Ribeiro, dizia que estes quadros eram dos tais feitos apenas para serem vistos sobre as tábuas do palco.
Fomos  pôr a água ao lume para fazer este chá nas ruas da  terra do limonete.
Mais uma vez contamos com a ajuda do mestre...
Como José Ribeiro escreveu:
"É tempo de bater as três pancadas.
Pano acima..."
E nós continuamos:
...que o TEATRO VAI À RUA