sábado, 13 de junho de 2015

Tavarede no Teatro - 1

À guisa de... Prólogo






 João José da Costa
Fundador do  teatro do Terreiro


         É com verdadeira satisfação que confesso que, ao longo deste últimos anos, tem sido para mim extraordinariamente aliciante este trabalho de leitura e pesquisa, feito em livros, jornais, revistas e outros documentos que, por alguma forma, estivessem relacionados com a história de Tavarede.

         O mesmo aconteceria, com toda a certeza, a qualquer outro que ao mesmo assunto dedicasse algum do seu tempo disponível. Talvez, e acredito que sim, eu tenha um tempo mais disponível. Mas, repito, tenho-me sentido fascinado nestas minhas buscas, pois, a verdade seja dita, a nossa terra tem um passado histórico, social e cultural de que nós, tavaredenses, nos devemos legitimamente orgulhar.

         Pena é que quase todo esse passado seja, no presente, praticamente desconhecido de todos os filhos de Tavarede, aqui residentes ou não. E, na verdade, a nossa terra, com a transformação que nela se operou nestes últimos vinte a trinta anos, já muito pouco tem que desperte a curiosidade a alguém para conhecer o seu passado.

         Nós, os mais velhos, ainda recordamos o prazer que sentiamos em dizer, quando isso nos perguntavam, que éramos tavaredenses, naturais de Tavarede, a pequena e linda aldeia do limonete. Agora, não. O isolamento desapareceu e a integração no perímetro da cidade da Figueira da Foz teve, como consequência, uma modificação total na maneira de ser e viver dos tavaredenses. A cidade, pouco a pouco, tudo nos foi absorvendo.

         Além da imensa vastidão de terrenos que a Figueira fez desanexar de Tavarede, também “obrigou” os tavaredenses a modificarem as suas actividades sociais e culturais, levando-os a esquecer as suas raízes aldeãs e campesinas, e a adoptar os novos sistemas citadinos. Quanto à história, isso... já tinha passado à história no longínquo dia de 12 de Março de 1771, quando o governo de então resolveu elevar a vila o lugar da Figueira da foz do Mondego, transferindo para lá a nossa câmara e as nossas justiças.

         Não admira, portanto, que o passado de Tavarede esteja esquecido. Até porque não há muita coisa escrita sobre a nossa terra, isto de forma acessível, pois quem se der ao trabalho de pesquisa encontra muito material, e bastante interessante, embora de difícil consulta.

         Foi o desejo, que sempre tive, de conhecer melhor o passado da minha terra e de o deixar escrito, de forma simples e acessível, a um ou outro familiar ou amigo que um dia queira dar “uma vista de olhos”, que me levou a esta imensa, mas, ao mesmo tempo, gratificante, tarefa.

         Tinha proposto a mim próprio, e assim o referi nos dois cadernos já publicados, fazer apenas um resumo, acompanhado das necessárias transcrições, do que fosse encontrando, e que me parecesse de interesse, sobre o passado de Tavarede.

         Aconteceu, no entanto, que determinados assuntos ou temas, que reputo de muito interesse para quem queira conhecer a história passada da terra do limonete, não poderiam ser integrados naqueles cadernos que intitulei “Tavarede – a terra de meus avós”, pois que, só por si, ocupariam demasiado espaço e, até, seriam descabidos. Mas, também, não os poderia ignorar, pura e simplesmente, se a minha intenção era a divulgar todo o material histórico, social e cultural a que eu tivesse acesso.

         E foi assim que me surgiu outra ideia. Porque não fazer destes assuntos, que por mera opção pessoal me parecem dignos de ser recordados, uns outros cadernos bem mais pequenos e acessíveis?

         Assim pensei e assim fiz. E surgiu uma outra série de pequenos cadernos, tão despretenciosos uns quanto os outros, a que dei o título de “Recordando...”, de que este é o segundo.

         Curiosamente, e se o primeiro diz respeito ao teatro, pois que tive o gosto de o dedicar a essa extraordinária amadora dramática tavaredense que se chamou Violinda Nunes Medina e Silva, o segundo também o dedico a essa grande e querida tradição da minha terra.

         Não ignoro que é demasiado arriscado escrever sobre o passado teatral em Tavarede. É que esse passado, digo mesmo, esse glorioso passado de tão cultural Arte, é, talvez, o mais honroso e o maior emblema da terra do limonete. Mas, descanse quem tiver a paciência de ler estas linhas, também me não atrevo a tanto.

         É que, nunca será demais recordá-lo, Tavarede teve o orgulho e o privilégio de ter como filho, um verdadeiro Homem de Teatro, um Mestre na arte cénica que, tão assombrosamente, elevou o teatro tavaredense ao mais alto nível no nosso país. E escrever sobre o teatro em Tavarede será, na sua maior parte, escrever a história de Mestre José da Silva Ribeiro, inegavelmente o maior vulto da cultura tavaredense, não contemporânea mas de todos os tempos. Para tal terá de ser alguém com saber, engenho e tempo disponível para escrever uma bem enorme obra, tanto há a referir sobre este assunto, desde os finais do século dezoito até quase aos finais do século vinte, ou seja, duzentos anos de teatro em Tavarede!

         Mas acredito sinceramente que já não será ousadia da minha parte, pelo menos indesculpável, escrever alguma coisa, não sobre o teatro em Tavarede mas, sim, sobre Tavarede no teatro. É coisa completamente diferente. Enquanto a história do teatro em Tavarede abrange um vastíssimo universo, Tavarede no teatro tem um campo relativamente curto, isto só em termos de comparação.

         Facilmente se depreende que, o que pretendo recordar neste pequeno caderno, são as peças (revistas, fantasias ou operetas) que tenham sido escritas para Tavarede, para serem apresentadas no seu palco e aos seus conterrâneos e nas quais, os seus autores, afloraram a vida na terra do limonete.

         E referi “no seu palco” pois, embora o teatro não tenha sido um exclusivo, em Tavarede, da Sociedade de Instrução, pois a sua história começa bem antes da fundação desta colectividade, as peças em questão foram escritas para serem representadas pelo grupo cénico desta colectividade.

         Não há notícia de que nas pequenas sociedades dramáticas, que em meados do século dezanove, “vegetavam em Tavarede como tortulhos”, ou nas posteriores associações “Estudantina” ou “Grupo de Instrução”, desaparecidas nos primeiros anos do século vinte, e, também, no Grupo Musical e de Instrução, felizmente ainda em actividade, embora não teatral, mas que teve um excelente grupo dramático desde a sua fundação, em 1911, até ao ano de 1930 em que, por motivos que tentarei explicar num outro trabalho, deixou de ter condições para fazer teatro, se representassem quaisquer trabalhos de características locais.

Talvez que ao tão afamado “Presépio” tenham dado, num ou noutro quadro ou cena, algum sabor local, mas, pelo menos em tudo o que li, não encontrei nada de concreto. Não esqueçamos, no entanto, que por volta de 1870, se representaram em Tavarede, e em simultâneo, seis Presépios! Quem nos diz que uma das cenas, num deles, não tinha sido localizada na nossa terra pelo respectivo encenador, até para dar mais entusiasmo aos seus assistentes?

         Mas vou prosseguir. Curiosamente, o tema que estou a tratar, “Tavarede no Teatro”, tem duas épocas, ou vertentes, como agora se diz, absolutamente distintas. Uma delas, a primeira, que vai até à década de 1930/1940, é exclusivamente dedicada à fantasia e à vida e costumes do povo tavaredense de então. Como adiante veremos, teve três autores: João dos Santos, João Gaspar de Lemos Amorim e José da Silva Ribeiro, e ainda uma ligeira participação do saudoso prof. Alberto de Lacerda. Isto quanto ao texto, pois na parte musical teve a intervenção de Gentil da Silva Ribeiro e do prof. António Maria de Oliveira Simões.

         A segunda época, bem mais recente e que se iniciou, em Outubro de 1950, com a célebre fantasia “Chá de Limonete”, é toda ela da autoria de Mestre José Ribeiro que, com o seu enorme talento e inteligência, se serviu deste género teatral para dar a conhecer aos seus conterrâneos a história de Tavarede, escrevendo e encenando, como só ele o sabia fazer, dez revistas-fantasias, em que descreveu alguns dos mais importantes acontecimentos históricos da nossa terra e recordando tradições, usos e costumes ignorados pelos tavaredenses a quem ele, de maneira tão feliz, os deu a conhecer. Musicalmente, teve a colaboração nestes trabalhos do prof. António Simões, de Anselmo Cardoso Júnior e de João da Silva Cascão, aquele também uma dedicação de muitos anos à nossa terra, e este último, que se pode considerar um tavaredense, e que muito se tem distinguido na música.

         Pois bem, refiro, desde já, que este meu trabalho, ou melhor, este meu estudo, se debruçou unicamente sobre a primeira daquelas duas vertentes. Os meus conterrâneos mais “entradotes” na idade, ainda se lembrarão de “O Sonho do Cavador”, de um ou outro quadro de “A Cigarra e a Formiga” e pouco mais. Mas, e isso com toda a certeza, se lembram de muitas cantigas que foram escritas para as primeiras revistas e operetas sobre Tavarede.

         Ainda hoje, quando se representam espectáculos de evocação, se ouvem muitas dessas cantigas, sempre com o maior agrado. Nos meus tempos de rapaz, cantava-se muito em Tavarede. Na lida da casa, na costura, enquanto lavavam no rio ou andavam nas tarefas das sementeiras ou colheitas, cantava-se, e cantava-se com alegria

         A maior parte dessas cantigas, senão mesmo todas, eram do teatro. As mais velhas, entoavam as cantigas dos seus tempos da mocidade, aquelas que mais lhes tinham agradado e que recordavam com saudade. As mais novas, cantavam as lindas canções de “O Sonho do Cavador” e de outras peças mais recentes. Todas elas, no entanto, muito bonitas, cheias de melodia, cantando, quase sempre, a vida do campo, nas suas fainas alegres e tarefas rudes, e a rusticidade da nossa aldeia pequenina mas bem pitoresca.

         Até nisso houve uma grande modificação. Já se não ouvem cantigas nas ruas de Tavarede; o rio, ou antes, o pequeno ribeiro, já não tem lavadeiras a quem “fazia cócegas nas pernas”; as terras, na sua maioria, já não são cultivadas. E aquela alegria que tão própria era do povo da minha aldeia, também essa, infelizmente, nos foi tirada pela cidade.

         E agora reparo: o que eu me alonguei nesta explicação que eu pretendia ser tão
pequena. Chega, e vamos, então, a “Tavarede no Teatro”.

sábado, 6 de junho de 2015

Tavarede - a terra de meus avós - 9

O Carnaval

        
Tavarede nunca foi uma terra muito dada a festas carnavalescas. Curiosamente, as cegadas ou mascaradas apareciam, na nossa terra, nas cavalhadas que se organizavam pelo S. João. Era nesses cortejos que, através de máscaras, se criticavam ou satirizavam algumas figuras públicas. De resto, e pelo que encontrei, o Carnaval somente era lembrado nas colectividades, com bailes em que havia sempre concurso de mascarados, com prémios aliciantes, e com notícias picarescas e jocosas que os correspondentes locais publicavam nos periódicos figueirenses.

         Mas, e pelo menos na década dos anos trinta do século passado, já em Tavarede havia umas amostras de brincadeiras de Carnaval. Algumas mascaradas, umas mais interessantes e outras nem tanto, um ou outro assalto, mais ou menos consentido, na busca de merenda e uma ou outra brincadeira mais ou menos inocente.

         Como divertimento mais interessante, recordo o “caqueiro”. Naqueles tempos as casas não tinham água canalizada, pelo que todos os dias, à tardinha, lá iam, novas e velhas, com os potes e cântaros, buscar água à fonte. Estas vasilhas, de barro encarnado, conservavam a água fresca durante muito tempo. Mas, e como lá diz o ditado, “tantas vezes o cântaro vai à fonte que lá deixa a asa”, acontecia, não deixar a asa, mas como eram muito frágeis, à mais leve pancada rachavam e ficavam inutilizados para os seus fins.

         Não eram deitados fora. Guardavam-se a um canto até ao próximo Carnaval. Quando o dia chegava, grandes grupos de rapazes e raparigas formavam uma roda na rua e divertiam-se jogando ao “caqueiro”. Os potes e cântaros inutilizados, e até caçoilas, algumas bem negras de fumo das lareiras, eram atirados à roda até que algum ou alguma mais desajeitada o deixava cair, desfazendo-se em cacos. Bastava, nalguns, o simples impulso para se partirem ao serem agarrados. Por vezes, e por partida, punham água dentro e então era banho certo para quem o agarrava.

         É claro que a água era o elemento principal das brincadeiras carnavalescas. A água e a farinha. Não era raro sair de uma janela uma bacia de água e quem apanhava… apanhava, claro. Depois, enquanto o atingido procurava sacudir a água que lhe caíra em cima, vinham, por trás, um grupo de raparigas mais atrevidas, esfregar-lhes a boca e cara com as mãos cheias de farinha. Outras vezes eram os rapazes que o faziam às raparigas… Com o correr dos anos, tais brincadeiras desapareceram e os potes acabaram em Tavarede, com a água canalizada nas casas.

         Num determinado ano, em dia de Carnaval, uma pequena comitiva estabeleceu arraial na rua Direita, frente à loja que à data era do Guerreiro. Devidamente enfarpelado, de chapéu alto e casaca, com um enorme “papillon”, resolveu ir dar consulta e fazer reclame da sua técnica e muita sabedoria o afamado dentista doutor Ernesto Búzio. Os seus acompanhantes, enfermeiros e auxiliares, montaram o consultório. Pouco depois, estava o sábio doutor a fazer a propaganda dos seus dotes técnicos, apareceu o primeiro, e por acaso o único, paciente, por sinal bem paciente, pois, apesar da cabeça apertada por vistoso cachené, gritava que nem um desalmado, tais seriam as dores do maldito dente…

         Era a oportunidade desejada pelo doutor Búzio para mostrar as suas elevadas qualidades. Sentado o doente, dada a anestesia local com uma enorme seringa, com muito jeito consegue meter-lhe na boca os bicos duma tenaz e, num brusco movimento, consegue arrancar-lhe… a dentadura postiça. O doutor Ernesto Búzio foi  desempenhado por António Simões, cantoneiro, e o paciente, que efectivamente tinha dentadura postiça, foi meu pai, Pedro Medina. A festa acabou no quintal da referida loja, com farta merenda.

         Um outro episódio carnavalesco que me recordo não acabou tão bem. Desta vez  foi frente à loja de António Pedro Carvalho. Resolveram fazer uma tourada! Um dos intervenientes havia conseguido, por empréstimo, uma armação figurando uma cabeça de touro, que havia no Coliseu Figueirense. O escolhido para fazer de touro foi Luís Mineiro, ferroviário, morador no Casal do Rato. Brinca, brincando, tudo ia correndo bem, com mais passe por alto, menos passe por baixo, até que, entusiasmado ou espicaçado pela assistência, resolveu investir com tal violência, contra um dos improvisados toureiros, que este teve de ser levado de imediato ao hospital da Figueira, onde lhe foi diagnosticada fractura de uma clavícula!

         De vez em quando fazíamos pequenas cegadas. Algumas vezes, e sem autorização, conseguíamos mascarar-nos com fatos do guarda-roupa do teatro. Uma noite conseguimos as fardas de soldados da peça “Justiça de Sua Majestade” e fomos, Saltadouro acima, fazer uma cegada a Brenha, ao Taborda. Com pífaros e instrumentos de cana, fizemos sucesso e muito barulho. É que até levámos o bombo grande da

colectividade. Levámos… é uma  maneira de dizer. Quem o levou e o trouxe às costas, foi o “Tó Parreco”, a quem conseguimos confiar o encargo…

         O badalo também era uma das partidas mais desejadas pela rapaziada. Normalmente a porta de entrada das casas tinham um fecho e aí era pendurada, com um grosso cordel, uma pesada pedra. Um outro cordel era preso a este fio e esticado até à esquina mais próxima, onde, escondidos, puxavam a pedra que batia com força na porta. Alguns, e com toda a razão, digamos, afinavam com esta brincadeira. Às tantas da noite fazerem uma barulhada daquelas à porta, precisamente quando estavam a descansar…








O Associativismo na Terra do Limonete -131

         Ainda em 2007, o teatro tavaredense, através da associação do Terreiro, deslocou-se, pela segunda vez, ao estrangeiro. Foi a Espanha e  aqui fica a notícia. A Sociedade de Instrução Tavaredense está neste momento inserida num projecto concebido pela Escola da Noite a convite da Delegação Regional da Cultura do Centro e que decorre ao longo do ano de 2007.
         Estão envolvidos cinco grupos de teatro da região centro e a matéria teatral sobre a qual se debruça este projecto é constituída por oito peças em um acto de Anton Tchekov.
         Coube à SIT representar as peças ‘O pedido de casamento’ e ‘O urso’, as quais já foram apresentadas em Caceira, no âmbito das jornadas do Teatro Amador e também em Valladolid, e no Centro Cívico Bailarin Vicente Escudero.  Esta deslocação foifeitaaconvite da Delegação Regional da Cultura do Centro que mantém um intercâmbio

         Coube também à SIT encerrar o Festival de Teatro Amador de Castilla y Léon 2007. Segundo fonte da colectividade de Tavarede, ‘a actuação aconteceu perante uma sala repleta de espectadores, alguns dos quais especialistas em teatro, mas desconhecedores da nossa língua, o que foi para os amadores da SIT um enorme desafio apresentar o seu espectáculo. Contudo, fizeram-no com enorme brilhantismo, tendo, inclusivamente, sido interrompidos por uma ocasião.
         A forma entusiástica como foram aplaudidos e felicitados demonstra bem o agrado com que o nosso trabalho foi recebido’.
         O próximo dia 19 de Maio, pelas 21,30 horas, haverá de novo Tchekov na SIT, sendo talvez esta última representação em Tavarede devido a compromissos já assumidos em termos de itinerância.

         Também aqui registamos mais uma pequena nota, recolhida da reportagem escrita sobre as festas comemorativas de mais um aniversário do Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro. ...’ trabalho e união de muita gente para discutir como fazer mais e melhor para o Saltadouro’. A colectividade tem como objectivo ‘possibilitar que as pessoas se encontrem umas às outras para além das acções que desenvolvem’. Na sessão solene de 2009, ‘... para o CDAS que estava com dificuldade na constituição das direcção. É uma satisfação trabalhar nesta colectividade pelo amor ao associativismo, sem esquecer o trabalho inexcedível da família Serra’, disse o novo presidente.
         Como obras necessárias apontou-se a necessidade de ampliação da sede. Falta um salão de ensaios, um armazém dos apetrechos do Rancho dos Cavadores do Saltadouro e uma sala de exposições que permita dar visibilidade ao rico espólio.

         E, para acabar este capítulo, é a altura de nos debruçarmos um pouco sobre o centenário do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.

         Com a simplicidade que é tradicional na longa vida do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, foram festejados, em Agosto de 2011, os primeiros cem anos desta associação. Foram comemorações simples, mas que tiveram a dignidade que o brilhante passado da colectividade merecia.
        
         Dentro do programa, que além da confraternização dos seus sócios e simpatizantes, teve diversos acontecimentos desportivos e recreativos, de que destacamos o espaço dedicado ao folclore, houve dois eventos destacados, a publicação de um livro historiando a vida da colectividade e a sessão solene do centenário.

         No decorrer dos cadernos destas memórias e histórias do associativismo na nossa terra, temos descrito, de forma sumária mas baseada em elementos concretos, a vida e a obra desenvolvida por todas as associações da freguesia, embora nos tenhamos debruçado mais pelas duas colectividades aldeãs. É um facto real e indesmentível a sua acção no desenvolvimento social, cultural e educativo que desempenharam ao serviço dos tavaredenses.

         Certamente que ainda estarão recordados daquilo que foi lembrado da vida do Grupo Musical agora centenário. Houve períodos difíceis, é certo, mas os grupistas, sempre com uma dedicação invulgar, tiveram a coragem suficiente para as ultrapassar. A actual sede da colectividade é a quarta sede da colectividade. E se a primeira era um pequeno e modesto ‘cardanho’, a actual é uma obra de que a própria vila de Tavarede se pode orgulhar.


         O seu teatro, que alcançou êxitos enormes, não só localmente mas em muitos palcos onde actuou e a sua tuna ‘a mais completa e bem organizada do concelho, foram evocações especializadas na sessão solene comemorativa, durante a qual se registaram muitas declarações de apreço pela actividade desenvolvida pelo Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, no decurso do tempo decorrido desde 17 de Agosto de 1911, data escolhida para a fundação, até à actualidade. Esta boa actividade não foi esquecida pelas autoridades locais e concelhias presentes no evento.



    Associativismo em Tavarede...
                 ... até quando?...



         À pergunta ‘O Associativismo na Terra do Limonete (Tavarede) até quando?’,  com a qual titulámos este nosso último capítulo destas “Memórias e Tradições”, ocorre-nos, de imediato, responder: “Até sempre!”.

         Porquê? Pela simples razão de acreditarmos sinceramente que o homem, como ser humano, racional e inteligente, já aprendeu que o isolamento, por muito cómodo que seja, não é futuro. Mas, vejamos primeiramente o que é o Associativismo. “É o sistema dos que se encontram unidos por um ideal ou objectivo comum. É o movimento que fomenta a proliferação de associações com o objectivo de atingir, solidariamente, finalidades comuns quer revertem a favor dos seus membros”.

         Transcrita esta descrição de Associativismo, debrucemo-nos então sobre o mesmo na nossa terra. Já sabemos que terá tido os seus inícios nos fins do século dezoito ou no princípio do século dezanove. Tavarede vivera, até pouco tempo antes,  num verdadeiro regime feudalista, sob o qual a família Quadros ‘reinava’ despoticamente na aldeia, aliás, também subordinada ao Cabido da Sé de Coimbra, devido à doação que lhe havia sido feita séculos atrás.

         A libertação do povo tavaredense ocorreu em 1771, com a elevação do lugar da Figueira da foz do Mondego a vila e com a transferência para lá da câmara e justiças que, havia séculos, estavam sedeadas em Tavarede. O povo, contudo, encontrava-se num verdadeiro estado de ignorância total.

Mas, apesar de abrigada dos ventos do norte pela encosta serrana, a nossa terra não escapou aos revolucionários ventos que, provindos especialmente de França, terão espalhado por todo o lado as três mágicas palavras: liberdade, igualdade e fraternidade. Porém, se esta trilogia era por todos ambicionada, qual seria a melhor maneira de a conseguir?

Como sabemos, a liberdade só tem sentido se a soubermos gozar dentro dos limites que vão até ao caso de com ela não prejudicarmos ou lesarmos o nosso próximo. A igualdade leva-nos a admitir que todos nascemos iguais e que assim deveremos morrer, pelo que os direitos e regalias devem ser iguais para todos, independentemente do seu nascimento.  E quanto  à fraternidade, as relações harmoniosas e a convivência amigável entre as pessoas e as comunidades onde estão inseridas, são a sua razão principal.

 E se a Declaração Universal dos Direitos do Homem estipula que ‘toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas’, a própria Constituição da República Portuguesa diz que ‘os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização constituir associações, desde que estas não se dediquem a promover a violência e os respectivos fins não sejam contrários à lei’.

Ora isto tudo é bastante claro para todos nos dias de hoje. Mas, há duzentos e tal anos, o povo vivia, na sua grande maioria, em total ignorância, sem ter quaisquer possibilidades de adquirir conhecimentos sobre a realidade da vida, uma vez que o seu analfabetismo o não permita. Daí que os trabalhadores, quase todos rurais, procurassem refúgio nas tabernas, nas suas horas vagas e habitualmente depois de comida a parca ceia. Prejudicial para ele e sua família, devido ao consumo excessivo de alcool e ao jogo desenfreado, só disso beneficiava o taberneiro.

E, segundo se sabe, eram vícios que estavam bem arreigados aos nossos antepassados. Felizmente, aquelas palavras acabaram por trazer novos procedimentos e novos costumes. Alguns mais abastados, que tinham tido a possibilidade de se educar e instruir na cidade vizinha, iniciaram uma luta verdadeiramente titânica. Primeiro em família e, depois, com amigos e vizinhos mais chegados, começaram a reunir-se e a conviver em sociedade nos seus tempos vagos.

Não bastava, no entanto, atrair os seus conterrâneos. Era preciso, além de lhes acabar com aqueles nefastos vícios, começar a dar-lhes alguma instrução e educação Escolheram o teatro como o veículo indicado. Terá sido assim que nasceu o associativismo em Tavarede. Os humildes ‘cardanhos’ proliferaram. Com os ensaios e com as representações, o povo começou a gostar de ver e aprender. Já sabemos o percurso feito. Com o teatro veio a música. Com as humildes associações, ‘que vegetavam em Tavarede como tortulhos’, veio o ensino noturno das primeiras letras. Mesmo aqueles que pouco sabiam procuravam ensinar esse pouco áqueles que nada sabiam.

O teatro cresceu muito e a música, durante muitas décadas, também teve enorme adesão. Igualmente se deu o mesmo com o folclore, com o desporto e com outras actividades sociais.

É agora que nos resta lançar a tal pergunta: até quando? Atrevemo-nos a repetir: até sempre! O associativismo está definitivamente impregnado nos tavaredenses. Embora neste momento, que julgamos transitório, o isolamento seja uma realidade, não acreditamos que o espírito de união, de convivência e, até, de solidariedade, não volte a adquirir a força e o entusiasmo de antigamente.

         Bem sabemos a enorme diferença que se verifica entra as vidas actual e antiga. Mas, voltamos a repetir, acreditamos que o presente fenómeno do isolamento e da solidão familiar seja transitório. E nas diversas vertentes do associativismo na terra do limonete. Vejamos:

Em prmeiro lugar o teatro. Mais antiga tradição em Tavarede, lembramo-nos das palavras que José Ribeiro pôs na boca da velha figura teatral na ‘histórica’ fantasia ‘Chá de Limonete’: - Sou velho, sim! Mas sou eterno! Sofro o desprezo, o esquecimento da multidão, mas guardo em mim a essência da própria vida. O teatro não morre!’

As nossas actuais associações e, felizmente, são cinco, continuam a tradição. De igual modo a música e o folclore. Já não temos a célebre tuna de Tavarede, nem os ranchos da Alegria e da Flor da Mocidade. Mas quase todas as nossas associações de cultura  popular e recreio têm escolas de música, com bastante frequência, e o folclore é uma realidade com os seus ranchos. Grupos de dança e corais igualmente existem em actividade. Será ‘carolice’ dos mais velhos? Não, é o espírito associativo que em Tavarede, na velhinha Terra do Limonete, continua e continuará sempre vivo. A mocidade actual, com ou sem a experiência dos mais velhos, não deixará acabar na nossa terra este sublime ideal: o ASSOCIATIVISMO.




As associações de cultura e recreio populares em Tavarede:




Bijou Tavaredense (acabou)


Estudantina Tavaredense (acabou)


Grupo de Instrução Tavaredense (acabou)


Sociedade de Instrução Tavaredense
15.1.1904


Grupo Musical e de Instrução Tavaredense
17.8.1911


União Instrução e Recreio Robalense (acabou)


Grupo Musical Carritense
5.8.1921


Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro
11.3.1979


Clube Desportivo e Recreativo da Chã

1.5.1986

domingo, 31 de maio de 2015

Tavarede- A terra de meus avós - 8

As nossas brincadeiras e passatempos


         Vou começar o capítulo das minhas recordações pelas brincadeiras, que ocupavam os nossos tempos livres. E digo livres, porque, mesmo antes de iniciarmos a escola primária, aos Quatro Caminhos, muitos de nós tinham obrigações a cumprir, quer ajudando nas tarefas caseiras, quer nas terras, arrancando as ervas daninhas dos canteiros ou fazendo regas, nomeadamente no encaminhamento da água. Mas, mesmo assim, os nossos tempos para brincar não faltavam.   

Eram bem escassos, no entanto, os brinquedos que naquele tempo existiam para a rapaziada brincar. Nos dias em que havia festa da Igreja, era usual aparecerem, no Largo do Rio, os feirantes que, armando tenda com panos e colchas, penduravam as flores de papel, as santinhas feitas de açúcar, os fios de pinhões e outras guloseimas e um ou outro brinquedo de lata ou de madeira, como, por exemplo, aqueles trapezistas articulados, que faziam ginástica no trapézio, quando apertávamos as bases ou os lados do brinquedo. No chão, em seiras, estavam aquelas bolas coloridas que, presas com um elástico, terão sido as antecessoras dos modernos “yo-yos”.

         Mas isto acontecia uma ou duas vezes por ano, aqueles brinquedos nem todos podíamos comprar, e nós queríamos brincadeira todos os dias, embora sem prejuízo dos trabalhos escolares e do estudo das lições que o professor Coelho, primeiro, e depois o professor Constantino Tomé marcavam para casa.

         Claro que as brincadeiras estavam condicionadas ao estado do tempo. Com bom tempo, não parávamos em casa, mas se chovia, lá tínhamos de ir para os sítios abrigados. Posso dizer que, naquela época, não havia quaisquer problemas em a rapaziada andar a brincar fora de casa. O trânsito era diminuto e nos brincávamos nos largos, praticamente desertos.

         Jogávamos muito às escondidas. Um desses jogos chamava-se, salvo erro, a “Cruz de Guerra” e consistia em que o grupo escondido, ou fugitivo, ia assinalando, de forma discreta, com uma cruz riscada no chão ou feita em ramos de árvores, a direcção que tinham tomado. Todos conhecíamos muito bem os caminhos e terrenos aqui à volta e, muitas das vezes, a busca levava-nos até para cima dos Condados, etc. Eram tardes de campo, acontecendo algumas vezes os perseguidores não conseguirem decifrar as pistas deixadas, retirando de mãos vazias. Quando, ao fim do tempo combinado, apareciam, havia sempre grande gozo com os perdedores.

         O futebol já era a principal brincadeira. A bola era feita com uma velha meia, surripiada em casa, que enchíamos de trapos muito bem apertados. No meio, e para fazer peso, colocávamos uma pequena pedra. Devidamente enrolada e arredondada, a bola era cozida e estava apta para a jogatina. Quatro ou cinco de cada lado, muda aos seis e acaba aos doze, disputava-se rija partida.

         Outros jogos tradicionais eram o pião e o berlinde. Todos conhecem estes jogos. Para o jogo do pião, escolhíamos um lugar mais ou menos plano e com o piso mais firme, fazíamos uma circunferência, cujo tamanho dependia do número de jogadores. Havia piões de vários tamanhos. Neste aspecto eu tinha relativa sorte, pois meu tio Ricardo era torneiro nas oficinas do caminho de ferro, e frequentemente me fazia alguns piões. Para o nosso jogo, cada um lançava o pião à vez. Bem enrolado o cordel a partir do bico, normalmente com “gajim”, um fio utilizado nas redes de pesca e que os pescadores nos davam grandes pedaços, escolhíamos o melhor local para o lançamento. Depois, era aguardar que o pião acabasse de rodopiar e, ao deitar-se, fosse impelido, pelo seu movimento rotativo, a sair da circunferência. Se saía, tudo bem, de contrário eram os nossos adversários que lançavam o deles apontados ao nosso, procurando acertar-lhe até ele acabar por sair da roda. Algumas vezes conseguiam acertar em cheio e, visto os bicos bem aguçados, era certa a marca que ficava.

         O berlinde, aquelas bolinhas de vidro que serviam de rolha aos pirolitos, também nos entretinha muito tempo. Recordo-me que jogávamos aos castelos, quatro circunferências em quadrado, distantes umas das outras e uma outra ao centro. Todas elas tinham uma pequena cova ao meio, onde procurávamos enfiar os berlindes. Ganhava o que primeiro conquistasse os castelos.

         Outros brinquedos eram feitos por nós. As tradicionais fisgas, para atirar aos passaritos, mas mais usadas para torneios de tiro ao alvo, as carretas de madeira velha, mais ou menos capazes de rolarem nas descidas, etc.

         No tempo das laranjas, naquele tempo só havia laranjas dos nossos pomares e isto nos primeiros meses do ano, fazíamos grandes disputas com os estoques. Junto ao ribeiro, haviam grandes salgueiros. Nós cortávamos alguns ramos de grossura média. Depois recortávamos canudos, bem direitos, com uns dez a quinze centímetros de comprido. Com muito cuidado, tirávamos a casca e o sabugo do interior. Enquanto uma das pontas ficava direita, a outra era aguçada, para cortar a casca de laranja, que fazia de bucha. O êmbolo era feito com um pau de salgueiro ou vime, que desbastávamos com cuidado para ficar à grossura do interior do canudo. A pressão de ar, provocada por uma pancada seca no êmbolo, atirava a casca de laranja direita ao alvo. Bem infantis eram as nossas brincadeiras. E antes de passar para dentro de casa, ainda vou lembrar uma outra.

         A rua Direita, como as outras, aliás, era feita de terra, pedra, saibro e barro. Se o piso não era grande coisa em tempo bom, no Inverno tornava-se um verdadeiro problema para as pessoas circularem, no meio de autêntico lamaçal.

         Para a rapaziada, o tempo de chuva era ocasião para estas brincadeiras. Dos lados das ruas, junto às casas, havia uma espécie de valetas, que mais eram carreiros que escoavam as águas para as vielas que davam para o ribeiro.

         Mesmo em frente à casa de meus avós, e numa extensão de alguns metros, havia um desses carreiros mais regulares. Fazíamos, então, uma represa, limpávamos as areias e formava-se um lago. Era a nossa pista para as corridas de barcos. E estes, de que eram feitos? De carrasca de pinheiro. Procurávamos pelos pinhais vizinhos os pedaços de carrasca que abundavam, escolhendo os maiores e os mais grossos. Depois era a nossa imaginação e habilidade. Com um pequeno canivete, íamos lentamente desbastando de um lado e outro, dando o formato ao navio. Fazíamos a quilha, aguçávamos a proa e na ré não esquecíamos o pequeno leme. Moldávamos os bancos e se o tamanho o permitisse, até fazíamos a pequenita casita do pescador. Um ou dois mastros completavam a obra.

Na represa, púnhamos um canudo de cana para ir dando escoamento á água, o que fazia com que se formasse uma ligeira corrente. Escolhidos os limites para a corrida era dada a partida. Para dar mais velocidade aos barcos, nós íamo-nos ajoelhando para assoprar o nosso. É de calcular o belo estado em que ficavam as roupas ao arrastarmo-nos pelo chão para as assopradelas…

         Um outro entretenimento muito apreciado era as corridas de bicicleta. Aliás, eram sempre tardes de festa quando se realizavam as afamadas “voltas dos campeões”, em que os ciclistas passavam por Tavarede dez vezes. Íamos em ranchada, rapazes e raparigas, para os pinhais da estrada de Mira vê-los passar. Era um delírio a bater palmas. Mas a nossa brincadeira não metia bicicletas a sério. Cada um de nós tinha vários corredores, montados na bicicleta, desenhados em cartão. Cuidadosamente recortados do mesmo tamanho, eram pintados com as corres da nossa equipa. Escolhíamos, então, um sítio onde houvesse areia e marcávamos a distância para a corrida. Alinhados os corredores, lançávamos, à vez, um dado. O número de pintas que calhava era o número de comprimentos que cada corredor avançava. E, assim, se apurava o jogador e a equipa vencedores.

         Não vale a pena falar nas bolas de sabão e nos papagaios. Ainda hoje estão muito em voga, embora muito mais sofisticados.   Os nossos eram feitos com tiras de cana secas e com papel de jornal… Haviam mais brincadeiras, como corridas de arcos e outras que agora me não ocorrem.

         Mais difícil era quando o tempo estava de chuva e nos obrigava a ficar dentro de casa. Mas nem por isso deixávamos de brincar. As casas, quase todas, tinham amplas lojas ou enormes sótãos. Juntávamo-nos em casa de um ou outro. Gostávamos, por exemplo, de ler. Havia, naquele tempo, um pequeno jornal infantil, “O Mosquito”, que fazia as nossas delícias com as aventuras do “Capitão Meia-Noite”, do “Serafim e Malacuéco”, do “Cuto” e de tantos outros heróis, cujas histórias eram lidas e relidas vezes sem conta. Também um jornal diário, julgo que “O Século”, publicava às quintas-feiras o suplemento “Pim-Pam-Pum”, que, no dia seguinte, nos davam na barbearia, onde assinavam o jornal. Estes jornalinhos traziam, de quando em vez, uma folha de construções de armar. Colávamos em cartolina aqueles desenhos, a cola fazíamo-la nós com resina das cerejeiras e ameixieiras dissolvida em água, e depois de bem secos eram recortados e feitas as respectivas montagens. Tenho a ideia de um grande forte, com os índios a atacarem, a cavalo, e os soldados a defenderem-se nas trincheiras. Ao meio, na torre maior estava a bandeira. Eram vários os motivos e faziam uma colecção bastante engraçada.

         Também fazíamos montagens de casas e de grandes torres e castelos com bilhetes de caminho de ferro usados, de que tínhamos sempre grande fornecimento. Também nos serviam para jogar.

         Um outro passatempo gostaria de aqui deixar recordado. Na antiga casa da Sociedade, no lado norte, viviam o ti Manél do Casal e a Ti Maria Augusta, com sua família. Durante muitos anos ele foi o electricista da Sociedade e ela era a encarregada das limpezas.

         Quando se entrava pela porta da rua dos Condados, a que dava para esta residência, ficava, do lado esquerdo do corredor e com uma pequena janela para a rua, um quarto de arrumações de velhas coisas do teatro. Entre estas velharias havia uma máquina de projectar filmes, certamente que era a máquina que a Sociedade utilizou durante uns tempos para projecções, e que ainda funcionava. Com a parede a fazer de écran, ligávamos a máquina com uma bobine de filme que também lá havia, e tínhamos grandes sessões de cinema, embora muito repetitivas. O cinema era mudo, mas também tínhamos fundo musical, com a velha grafonola que lá havia e que, depois de darmos corda com uma manivela, arrancava música de alguns velhos discos que igualmente lá estavam. Muitas das agulhas da grafonola, algumas já bem ferrugentas, serviam para fazermos setas, com um pedaço de pau, para atirarmos a um alvo.

         A propósito de cinema, recordo uma outra das nossas brincadeiras. Numa caixa de cartão, das utilizadas para os sapatos, abríamos um rectângulo no fundo, que cobríamos com um bocado de papel de seda branco, colado à caixa. Entretanto recortávamos as figuras de jornais velhos, especialmente de animais, ou desenhávamos nós mesmos. Então, às escuras, acendíamos um pequeno couto de vela que colocávamos na caixa e íamos passando as figuras junto ao improvisado écran iluminado pela vela. Os assistentes estavam sentados no chão, frente à caixa. Era como que uma história de sombras, cuja exibição era acompanhada pela narração de uma história improvisada pelo “projectista”, de acordo com as figuras mostradas.

         Que ingenuidade a nossa! Com bem pouco nos contentávamos, Mas, na verdade, éramos felizes com as nossas brincadeiras. Algumas vezes, para termos mais assistência, anunciávamos o espectáculo com alguma antecedência. E, então, preparávamos convenientemente a sala para receber os espectadores nas melhores condições. Até chegávamos a ornamentar a “sala”! E um dos habituais adornos íamos buscá-los ao velho caminho do Robim, junto ao Selão.

         Eram bonitos e farfalhudos os penachos brancos. Bem lindos, por sinal. Mas era preciso muito cuidado para os apanhar. É que as folhas das canas, rijas e finas, cortavam como lâminas!”…

         Também eram de costume antigo realizarem-se os chamados “jogos tradicionais”. As notícias das antigas festas das festas sanjoaninas, na nossa terra, dizem que, na segunda feira seguinte, a tarde era dedicada a estes jogos e que tinham sempre farta concorrência de assistentes e participantes. Talvez o número mais apreciado fosse a rosquilhada, mas outros jogos tinham lugar, como corridas diversas, malha, pela, etc.

         Em Setembro de 1950, um tavaredense que havia regressado à nossa terra havia pouco tempo, resolveu reviver este costume. Eis a notícia:

         “TARDE DESPORTIVA - O sr. António Nunes Cruz, impenitente amigo do desporto, organizou no passado domingo, de colaboração com vários amigos, diversas provas desportivas, que constaram de “2 voltas pedestres ao Pêso”, “corridas de sacos”, de “ovos” e “rosquilhada”.
         Pelas 15,40 horas os “atletas” largaram em vertiginosa corrida. O resultado desta prova foi o seguinte: 1º. prémio, José Esteves; 2º., João Gil; 3º., José Rodrigues Gil (todos de Caceira); 4º., João Júlio, de Tavarede.
         Desistiu João da Silva Maltez, em face dum “laço de corda” que sua mãe, traiçoeiramente, lhe deitou às pernas no momento em que concluia a primeira volta.

A seguir realizou-se a prova dos ovos – percurso de 100 metros, com uma colher das de sopa na boca e um ovo -, que teve o seguinte resultado: 1º. prémio, Francisco Cardoso; 2º., Júlio Manta; 3º., José Rodrigues Dias; 4º., Júlio Rodrigues.
         Seguiu-se a “corrida de sacos”, cujo resultado foi como segue: 1º. prémio, Francisco Cardoso; 2º., António da Silva Maltez; 3º., Manuel Vitorino; 4º., o menino António Manuel de Figueiredo.
         Por fim, teve lugar a “rosquilhada”, apresentando-se os “desportistas” montados em bicicletas, com excepção de Pedro Medina que, comodamente, se fez conduzir num carro de mão.
         Nesta prova registou-se um acidente, já no final: uma queda que provocou injustificada agressão por parte de quem tinha o dever de se mostrar disciplinado e disciplinador.
         A entrega dos prémios fez-se no Grupo Musical, onde se realizou uma “matinée” dançante…”.

          Como última evocação dos jogos tradicionais que tanto se praticavam em Tavarede, recordo o jogo da pela, em que, nas tardes domingueiras e na rua Direita, se disputavam grandes desafios. Com o pequeno banco deitado no chão e uma pequena bola, raparigas e rapazes dividiam-se em dois grupos e eram os intérpretes desta engraçada diversão. Bons tempos aqueles!



O Associativismo na Terra do Limonete - 130

         Ainda no mesmo ano e em Novembro, respigámos este pequeno recorte de uma notícia divulgando a actividade no Grupo Musical e de Instrução. ... actualmente desenvolve diversas actividades: escola de música, biblioteca, equipa de futsal, jogos tradicionais, rancho O Limonete, bem como participações nas actividades do movimento associativo do concelho. A colectividade prepara o seu centenário e, brevemente, será anunciada uma comissão para o implementar e fazer que a data seja comemorada com a dignidade que o seu rico historial merece.

 
         Ao começar as notas referentes ao ano de 2007, vamos permitir-nos a fazer umas pequenas recordações, aliás, relacionadas com um facto ocorrido pelas comemorações de mais um aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, festejado em Janeiro daquele ano.

         Já temos referido, em qualquer outro caderno, que Tavarede, ao tempo da nossa meninice, era uma pequena aldeia de gente de trabalho mas feliz e vivendo em alegria. Eram constantes as cantigas que se ouviam. No ribeiro, ao largo da Igreja, enquanto lavavam a roupa, ou nas leiras ao redor do casario, ao mesmo tempo que sachavam suas sementeiras ou cultivavam as tão saborosas novidades, ou ainda durante a lide nas tarefas caseiras. 

  
         Dava gosto escutar as alegres cantigas que se espalhavam pelos ares. E uma coisa era verdade. Eram cantigas bonitas que, em tempos passados, faziam parte das muitas operetas representadas nas associações locais. Escritas por inspirados poetas e musicadas com sensibilidade, versavam essas cantigas a vida das nossas gentes e o seu trabalho árduo na agricultura. Bons e ditosos tempos aqueles. Há muito tempo, porém, que a aldeia emudeceu. Já não se ouvem cantigas na terra do limonete, excepto nos teatros em que, com muito entusiasmo e teimosamente, ainda se vão ouvindo e recordando.

         Esta lembrança vem a propósito de uma apresentação a que se refere a nota seguinte. A celebração do 103º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense serviu para a estreia do grupo coral que interpretou composições que fizeram parte das peças musicais que a colectividade representou desde 1905. O maestro João Silva Cascão foi o responsável por dar forma coral a composições que antigamente eram utilizadas por José da Silva Ribeiro para ‘contar’ a história local. Contudo, agora duas dezenas as vozes que as entoam, através de elementos que vão desde os 20 aos 84 anos.

         Não era a primeira vez que se formava um grupo coral na nossa terra. Certamente ainda não estarão esquecidas as referências que fizemos, quando recordámos a década dos anos vinte do século passado, em que ambas as associações locais organizaram grupos corais. Com elevado número de coralistas, que chegaram a apresentar-se na Figueirsa em espectáculos ali levados a efeito. Também, muito mais recentermernte, o Grupo Musical tomou a iniciativa de organizar o seu grupo coral. No entanto, e com pena o confessamos, não vingou.

 
Aquando das comemorações do centenário da Sociedade de Instrução Tavaredense, lembrámos que o serão realizado pelo S. Martinho de 2004, terá sido o ‘embrião’ deste novo grupo coral. Porquê? Eram praticamente desconhecidas das actuais gerações, as operetas apresentadas no palco daquela colectividade nos já muito distantes anos de 1925, 1926 e 1927. E, então, foi considerado interessante promover ‘serões’ evocativos, durante os quais se resumisse os enredos das operetas, escritas expressamente para o nosso palco e baseadas na vida aldeã da terra tavaredense.

Além do texto, e porque algumas das canções destas operetas ainda eram conhecidas, devido a Mestre José Ribeiro ter usado as mesmas, noutros trabalhos seus mais recentes, com a mesma letra ou escrevendo novos versos, e, também, porque as críticas que nos deixaram diversos comentadores nos jornais da época, procurou-se fazer reviver alguns dos números que haviam causado tão belas impressões.

A amável colaboração do maestro João Gaspar da Silva Cascão, figueirense, mas com raízes bem fundas em Tavarede, o qual pacientemente, gravou as músicas escolhidas e que foram utilizadas quer nos ensaios quer no referido ‘serão’. Seguiu-se, depois, o espectáculo que comemorou a efeméride dos 20 anos da morte de José Ribeiro, no qual igualmente se reviveram diversas cantigas tão antigas e tão bonitas.

Foi, assim, que em Janeiro de 2007, durante as comemorações do 103º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, foi apresentado em público, pela primeira vez, o coral ‘Cantigas de Tavarede’, na ocasião ainda sem nome. O sucesso foi enorme, mas vejamos uma notícia sobre estas comemorações. Com o brilho que já não surpreende, a centenária e valorosa SIT festejou masis um dos seus aniversários. Este ano foi o 103º e lá vai caminhando, caminhando nos trilhos em que a colocaram e nos quais vai contribuindo para cultura da região.
O seu fiel público, e não só, não regateou aplausos em diversos momentos dos três principais eventos que integraram as comemorações. Ainda que se tenham tornado bem mais calorosos no decorrer de um deles.
No dia 20, sábado, pelas 21,45 horas, mais uma vez se evidenciou o seu cartão de visita, o seu consagrado grupo cénico, com a peça ‘Terra Fria’ de Miguel Torga, o escritor poeta transmontano cujo centenário de nascimento já Coimbra e Vila Real começaram a comemorar.
Em cena, cerca de uma dezena de amadores que se saíram a contento. Uns evidenciando o seu traquejo, outros sendo encaminhados e encaminhando-se, cheios de boa vontade, na arte querida de Tavarede.
Embora não se tenha tratado de uma peça muito exigente, os amadores tavaredenses e quem os dirige deram bem conta do recado perante uma sala cheia e atenta. No entanto, quer-nos parecer, pelo pouco que ainda ouvimos no final, que vários espectadores ficaram sem entender o que era ‘Rilhafois’ ou ‘Rilhafoles’, - local ou estabelecimento para onde o velho demente (Fernando Romeiro) – o que não nos admira e um gesto adequado daria a entender, ou o que dizia a carta que fulminou a paciente e esperançada senhora (a convincente Helena Rodrigues) que sobre o palco baqueou destemidamente, (tadinha!!) na conclusão da peça.
Na tarde de domingo, 21, as comemorações atingiram o seu ponto alto com a apresentação de um grupo coral ainda a dar os primeiros passos e por baptizar, mas que a marca de garantia que o maestro João Cascão lhe conferiu e garantirá.
‘O Grupo de Cantos de Teatro de Tavarede’ (desculpem o apadrinhamento) foi aplaudido com entusiasmo ao fazer-se ouvir em peças que, noutros tempos, foram êxitos nas diferentes revistas e operetas que tiveram o cunho de mestre José Ribeiro e outros saudosos tavaredenses. O grupo apresentou-se com cerca de trinta elementos, em trajes teatrais.
A esse agradável e animado espectáculo, que o maestro João Casção valorizou com as suas explicações, seguiu-se, já com menor assistência, a tradicional sessão solene.
A respectiva mesa foi presidida pelo vereador José Elísio, em representação do presidente da Câmara, que abriu e encerrou a sessão em que se ouviram os hinos da sociedade e do concelho.
Depois de uma informal apresentação dos novos corpos gerentes, seguiram as breves intervenções de Carlos Cardoso (convidado), Ilda Simões (responsável do grupo cénico), Azenha Gomes (representante das colectividades do concelho), e Vitor Madaleno (presidente da Junta de Freguesia de Tavarede).
Foi orador oficial o conhecido brenhense e universitário José Augusto Bernardes que dissertou, de modo breve, sobre Miguel Torga.
Talvez pelo muito que se tem dito, escrito e lido sobre o agreste mas valoroso  escritor/poeta, ficamos com dúvidas que a curta intervenção tenha correspondido às expectativas. Às nossas não correspondeu.
Pena foi, mas compreendemos as razões, que sobre aquele vulto das nossas letras, pouquíssimo se tenha falado, antes da apresentação da referida peça. Esperemos, esperançados, que na próxima representação tal se faça. 

Terminamos enviando à centenária SIT que, com 103 anos, lá vai, consciente e orgulhosamente, continuando.

         Em Março seguinte, a associação festejou mais uma efeméride, o centenário do nascimento do consagrado dramaturgo, escritor e poeta Miguel Torga. A Sociedade de Instrução Tavaredense e o Lions Clube da Figueira da Foz promoveram, recentemente, um sarau cultural que homenageou Miguel Torga, com poemas declamados por Ilda Simões e Fernando Romeiro, além de um historial acerca da vida e obra deste grande nome da literatura portuguesa.
        O espectáculo contou também com a segunda actuação do grupo ‘Cantigas de Tavarede’, que apresentou dez temas musicados que relembram parte das revistas representadas pela colectividade ao longo dos seus 103 anos de vida. Dirigidos pelo maestro João Cascão, o grupo cantou e encantou os presentes que puderam assim ‘viajar’ na história da SIT e da freguesia de Tavarede.

         A partir de então o coral ‘Cantigas de Tavarede’ tem realizado diversos espectáculos e em diversos locais. A propósito deste coral tavaredense, não podemos deixar de aqui referir um comentário, de uma pessoa conhecedora da matéria e que está inserida na imprensa figueirense. Com cerca de quatro dezenas de elementos, todos amadores, o coral da Sociedade de Instrução Tavaredense é a mais recente ‘menina dos olhos’ de Silva Cascão, sendo director musical e maestro.
         As diversas ocupações profissionais dos seus elementos tornam difíceis os ensaios participados por todos, mas não diminuem a dedicação que lhes dedicam. Os resultados têm sido positivos e muito aplaudidos. Foi o que aconteceu recentemente, quando a maestrina do ‘Academic Chois of Students Cultural Center of Universty of Nis’ grupo que esteve na Figueira da Foz para o I FigFolk Music  e actuou naquela colectividade, disse, sobre o coral da SIT que este é ‘o único deste género no Mundo’ e que foi ‘a primeira vez na vida’ que ouviu ‘cantar com o  coração’, classificando-o de ‘simplesmente fabuloso’.

         Aproveitamos para esclarecer que era nossa intenção terminar estes apontamentos com o centenário da Sociedade de Instrução Tavaredense. Era injusta esta nossa pretensão. Somente sete anos nos separavam do centenário de outra colectividade tavaredense: o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.

         Embora dispuséssemos de poucos elementos, resolvemos prolongar estas recordações e memórias por mais uns anos. Esclarecemos, porém, que estas notas estão muito incompletas, mas, sinceramente o confessamos, já não nos sentimos com forças e ânimo para mais pesquisas. Que nos seja perdoada a falta, mas deixamos o apelo a alguém mais jovem e que se sinta com disposição para isso, continuar estas histórias, prosseguindo  com as notas sobre o Associativismo nas Terra do Limonete.

         Ficam, especialmente, prejudicadas as restantes associações da freguesia, recordando, por exemplo, que o Grupo Musical Carritense também já está bastante aproximado dos seus primeiros cem anos de existência.