sábado, 4 de julho de 2015

Tavarede - A terra de meus avós 3 - 13

Tempos de Escola


         Comecei a escola primária na época de 1941/1942. Era professor dos rapazes o sr. Alberto Coelho, que morava na Figueira. Com ele fiz as duas primeiras classes e depois veio substitui-lo o professor Constantino Gomes Tomé, de Ferreira-a-Nova.

         Precisamente no ano anterior, todos os alunos tinham tirado uma fotografia com o professor Coelho. Ela aqui fica reproduzida e identificados todos os alunos, na sua maioria por alcunhas que já tinham e pelas quais ficaram conhecidos.



         Ainda fui condiscípulo de quase todos, pois, dos que aqui estão fotografados, só três ou quatro acabaram a instrução primária naquele ano.

         Eram tempos muito difíceis. Os professores leccionavam as quatro classes numa única sala. Havia um pátio que servia de recreio e onde estavam as casas de banho. Entrávamos de manhã, vinhamos almoçar a casa ou levávamos qualquer coisa para comer, e só saíamos à tarde. Tenho ideia de que o professor Coelho era mais benevolente para com os alunos e que o professor Tomé tinha um procedimento muito mais exigente. Porém, e que me recorde, só um aluno lhe dava verdadeiros problemas. Era o António Rodrigues, mais conhecido por “Mafarrico”. E, vamos lá, ele era um verdadeiro mafarrico na escola.

         Volta que não volta lá trabalhava a régua ou o pequeno ponteiro, na mão do professor e na cabeça do Mafarrico. Quando ele previa castigo maior, fugia cá para fora. Por baixo do piso da escola o edifício tem uma caixa de ar, relativamente alta. A ventilação é feita por vários buracos resguardados por grades de ferro. São uns buracos rectangulares, relativamente pequenos.  Num deles, do lado do recreio, a grade tinha sido arrancada.

         Naquelas ocasiões mais difíceis, o Mafarrico fugia da sala de aula e, como uma enguia, enfiava o corpo franzino por aquele buraco, refugiando-se lá debaixo. Atrás dele, sempre com a vara na mão, corria o professor Tomé. Mas ali não podia avançar e, pelo menos temporariamente, o Mafarrico estava a salvo. Colérico, o professor Tomé até espumava, enquanto gritava para que o António Mafarrico saísse. Mas ele, que já lhe conhecia o feitio, só depois de bastante tempo decorrido, quando calculava que as coisas estavam mais calmas, é que se resolvia a sair e voltar ao seu lugar. Ainda levava uma ou duas reguadas, mas nada que se comparasse ao que apanharia se não fugisse.

         No inverno era custoso suportar a baixa temperatura. Para já, a roupa e o calçado da maioria, não era suficiente para abrigar do frio. Poucos tinham o luxo de um sobretudo ou outro agasalho… Pelas manhãs, quando íamos para a escola, nos Quatro Caminhos, levávamos as mãos resguardadas… com meias a servirem de luvas. Mesmo assim, quando chegavamos à escola, tinhamos sempre de estar um bom bocado a esfregar e assoprar as mãos engadanhidas, para podermos agarrar no lápis ou no “bril”, com que escrevíamos na ardósia, ou no giz, quando iamos ao quadro.

         Na subida da estrada dos Quatro Caminhos para a Figueira, quando acabava o muro da quinta do Paço e começava o pinhal, existia uma enorme barroca que, com as águas das chuvas, se enchia por completo. Pois o frio, durante a noite, era tal que a água ficava coberta por uma forte placa de gelo, de tal forma grossa que aguentava com o peso dos mais atrevidos, que iam “patinar”. Aos lados, onde o gelo era mais fino, conseguíamos partir pequenos pedaços, que chupávamos  deliciados!

         Também nos Quatro Caminhos, ao princípio do caminho para Buarcos, estavam os velhos edifícios da extinta Cerâmica Exportadora, Lda. Já não laborava haveria cerca de dez anos e, segundo  as notícias que encontrei, chegou a ter uma actividade bastante importante, dando emprego a muitos trabalhadores da zona. Pelos anos de 1920, falou-se muito no prolongamento da linha do caminho de ferro até ao Cabo Mondego, passando pela Várzea e pelos Quatro Caminhos. Se a ideia tem avançado, é natural que a empresa se mantivesse em laboração, mas, por outro lado, toda esta zona, hoje urbanizada, se transformaria por completo.

         Pois, nos intervalos das aulas, os rapazes iam para lá e metiam-se dentro dos velhos fornos, em busca dos pequenos triângulos de argila que seriam usados para separar as loiças durante a sua cozedura. Para nós serviam para brincar como “boxes”.

         Por esse tempo, havia guerra na Europa. De vez em quando, pela estrada da Figueira, a caminho da Serra ou de Buarcos, passavam enormes tanques, com lagartas, que andavam em exercício. Nós íamos vê-los manobrar, pois subiam e desciam valados e pequenas ribanceiras sem quaisquer problemas, o que muito nos admirava. A propósito, recordo-me que, especialmente na Figueira, as casas tinham os vidros das janelas com tiras de papel branco ou de jornal coladas. Era para não se quebrarem com o eventual rebentamento de alguma bomba. Felizmente, não aconteceu, mas, de noite, grandes focos de luz apontados ao céu, procuravam qualquer avião inimigo que se atrevesse a vir até aqui. Também me lembro muito bem das senhas do racionamento de vários produtos alimentares, como o açúcar. Só comprava quem tivesse a correspondente senha. Tempos difíceis, na verdade.

         A quinta do Paço, desde o palácio até à barroca acima referida, era vedada por um velho muro. Não me recordo de ver, em qualquer outra parte, tantos sardões como naquele muro. Eram imensos, e quando o sol começava a aquecer, iam para o cimo do muro aquecerem-se. Uma das nossas diversões era atirarmos pedras com as fisgas, procurando acertar-lhes. Às vezes lá havia um que apanhava pedrada, muitas vezes mortal, mas eles caiam para o lado de dentro da quinta. Mas não se notava a falta, tantos eles eram. Um dia, recordo-me, agarrámos um com um laço e levámo-lo para o largo dos Quatro Caminhos. Não sei como, mas a verdade é que o bicho conseguiu dar uma mordidela num calcanhar, julgo que do Zé Figueiredo, que teve de ir ao hospital da Figueira fazer o curativo.

         Cá em baixo, frente ao palácio, do lado da quinta, existia um pátio onde, entre outras aves, haviam diversos pavões. Gostávamos muito de os admirar quando eles abriam as caudas coloridas… Num pau, do lado da estrada, estava preso um pequeno macaco, um “saguim”, que passava a vida a subir e descer o pau, sentando-se a descansar no alto, onde tinham pregado uma pequena tábua.

         Quando acabávamos a escola e fazíamos o exame da quarta classe, aqueles que quizessem, ou tivessem possibilidades de prosseguir os estudos, na Escola Industrial e Comercial ou no Liceu, tinham que ir fazer novo exame para admissão, mas este era feito na Escola do Conde de Ferreira. Uma vez aprovados, prosseguíamos os estudos, sendo muitos os que optavam pelo curso nocturno, o que lhes possibilitava empregarem-se na Figueira, para angariação de um parco rendimento, bem necessário à vida familiar.


Tavarede no Teatro - 4

         Mas, enfim, cada qual tem a sua opinião e os críticos lá terão tido as suas razões para escreverem aquilo. Mas o último deles acabou por me surpreender imenso quando, um pouco mais adiante e ainda sobre o enredo da opereta, escreveu “e para rematar as minhas considerações ácerca do valor da peça, devo dizer que era perfeitamente dispensável a pornografia que a esmalta, que para mais não serve senão para gáudio da gente ignorante que gosta sempre de ouvir porcarias”.

         Muito castos deveriam ser os ouvidos deste comentarista. Ver-se-á, adiante, na transcrição de um ou outro fragmento da peça, que Gaspar de Lemos lhe dá, aqui e ali, uns laivos mais picantes, mas considerar pornográfico o texto desta opereta é que me parece “um disparate completo”.

                                                        ***

         Quando o pano sobe, a cena representa o Largo da Igreja, de Tavarede. A um dos lados vê-se um trecho do ribeiro, com as pedras que serviam de lavadouro.

         O regedor da freguesia, Zé Badaleiro, havia recebido dois dias antes, uma carta de Lisboa avisando-o da chegada de dois brasileiros, parece que podres de ricos, recomendando “que se recebam e tratem com toda a bizarria”. A modos que vinham em viagem de recreio e muito empenhados em visitar esta terra, onde vêm procurar uma tal Lúcia-Lima, que parece “que é senhora duma lindeza de alto lá com ela”.

         O pobre do regedor tratou de imediato de reunir as pessoas mais importantes da terra para tratarem da recepção e, quando recebeu um telegrama avisando da chegada nesse dia dos visitantes, tratou de juntar as pessoas no largo da Igreja e preparar tudo condignamente. O pior é que nem na aldeia, nem nas redondezas, ninguém conhecia tal senhora. Nem mesmo Pinga-Amor, como o nome diz o “conquistador” da terra e que, diga-se desde já, andava doido de amor pela linda Capitolina, a filha do Zé Badaleiro. E se este a não conhecia, quem haveria de conhecer a tal Lúcia-Lima?

         Ora o nosso Pinga-Amor, pouco amigo de trabalhar e que dizia constantemente a Capitolina “tu bem sabes como eu te quero, que não vejo outra mulher neste mundo; que a minha maior ambição seria levar-te à face do altar”, com toda a certeza mais interessado no dote que o regedor haveria de dar à filha, do que na rapariga, quando ouviu falar em brasileiros ricos, à procura de uma mulher, ficou temeroso com a possível conquista da sua pretendida, por parte dum dos visitantes, e logo começou a pensar na maneira de os mandar para bem longe mal chegassem.

         Pouco tempo depois, o tal “passaroco dos brasileiros” desceu na Várzea e, ao aviso recebido, logo se juntou o povo, aguardando a chegada dos viajantes. Mal chegaram ao largo, a comissão de recepção, deseja-lhes as boas-vindas cantando:

      “Aceitai, meus senhores
     Nossa saudação
     Pela visita honrosa
     A esta povoação.
     A gente rica e pobre
     Desta linda aldeia
     Salta de contente
     De vos ver anseia.

     Visitantes
     Cativantes
     São por todos
     Aclamados.
     Nossos peitos
     Satisfeitos
     Soltam ledos
     Altos brados.

     Podeis entrar tranquilos,
     Nobres forasteiros
     Em nós há só amigos
      Francos, verdadeiros”.

         Cativados com esta recepção, um dos brasileiros, Eduardo Leirosa, o tal que procura Lúcia-Lima, diz então: “Em meu nome e do meu amigo Tomás Castanho, agradeço penhorado a carinhosa e festiva recepção que nos fazem. Pelas pessoas que de Lisboa nos recomendaram contávamos com bom acolhimento, mas pelo que vejo, tanto o sr. Zé Badaleiro como os seus amigos e povo desta linda terra, são todos muito amáveis e hospitaleiros... Repito: muito gratos, muito gratos...”.

         E depois de feitas as apresentações dos brasileiros, não esquecendo “o nosso moleque, o criado Dominus-tecum que não deve ficar em silêncio. É mulato cor de café com leite. O café veio-lhe da mãe e o leite é do pai...”, o regedor convida todos para irem a sua casa beberem um copo do tinto, na adega, e, por sua vez, apresenta as pessoas gradas da terra:

Badaleiro – Este é o amigo Aleixo Furão. É cabo do mar reformado. Navegou por Séca e Méca. Só lhe faltaram os olivais de Santarém. É Furão mas já não justifica o apelido. Aqui têm o Cosme Papóia. É o nosso barbeiro e o nosso médico. Como barbeiro tira o coiro e deixa o cabelo. Como médico receita para todas as moléstias o unguento de soldado. Tem curas admiráveis!
Dominus-tecum – (áparte) – Bem sei. P’ra rapeira não há melhor!
Badaleiro – (continuando as apresentações) – O nosso sacristão Gil Chinguiço. Muito prático em badalo e galhetas...
Pinga-Amor – Ele manobra o badalo e a mulher apanha as galhetas...
Badaleiro – Uma notabilidade da terra, o Brás Piúga. Músico de fama. Tocava gaita de foles mas rompeu-se-lhe a bexiga e a gaita ficou estragada. Agora toca berimbau e diz muito bem: “Piolho!”.
Pinga-Amor – E tem sempre o berimbau afinado...
Badaleiro – (continuando) – Finalmente temos o nosso estimado Pinga-Amor, amador dramático de três assobios. Fez belamente o papel de urso no drama “Covis das focas”. Chamam-lhe Pinga-Amor porque todo se baba com as mulheres...
Dominus-tecum – Lá no Rio chamam-lhe doença do queixo caído...
Leirosa – São muito interessantes os seus amigos...
Castanho – (para Pinga-Amor) – Os meus parabéns sr. Pinga, estimarei que a doença não vá mais longe...
Badaleiro – Quero agora apresentar-lhes a minha filha Capitolina. (para a filha) Anda cá, menina. Apesar da educada na cidade é um pouco acanhada e por isso hão-de desculpá-la.
Castanho – (áparte) – Será acanhada mas é um peixe d’estalo! Sim, senhor...

         Feitas as apresentações e ainda antes de saírem, o Leirosa mostra o anúncio que os levou a fazer tão grande viagem e pergunta se alguém pode dar alguma informação.

         O Pinga-Amor lê, em voz alta: “Senhora nova, sem fortuna mas formosa, de boa reputação e bem prendada, deseja contraír matrimónio com cavalheiro respeitável e em condições de manter o decoro e decência de família digna de toda a consideração. Quem pretender, dando referências idóneas, queira dirigir-se a Lúcia-Lima, Beco das Poias, Tavarede”. Ninguém conhece. Mas o regedor aguarda a chegada dos cabos de Caceira, Casal da Robala, Carritos e Saltadouro, a quem mandou chamar e talvez algum deles conheça a tal Lúcia-Lima.

         Depois de saírem todos, Pinga-Amor agarra Capitolina por um braço e tenta, mais uma vez, que ela aceite os seus galanteios. Também uma vez mais ela recusa e foge, deixando-o desalentado e a reflectir:

         “Parece-me que dei no vinte. Trata-se assim, despreza-me, talvez com o cheiro nalgum dos brasileiros. São ricos, avezam grosso bagulhame. Podem satisfazer os caprichos desta ambiciosa duma figa! E eu? Um triste flautista que não tem onde caír morto... Ah! Mas se assim é, podem contar comigo. Eu mexerei os pauzinhos que ambos os moinantes hão-de ir calcurriando daqui para fora...”.

         Estava pensando como proceder quando lhe surgiu uma ideia, mal viu entrar em cena os esperados cabos de ordens. Depois de saber que eles não conheciam, nem nunca ouviram falar, de Lúcia-Lima, faz-lhes uma proposta:

         “Olhem cá! Querem vocês ganhar cem mil reis? Vocês vão dizer ao sr. regedor que no Cabeço do Mioto morava aqui há meses a tal Lúcia-Lima, bonita rapariga, irmã dum capitão da tropa, que tem andado lá pelas Áfricas, que aqui veio de licença e que depois a levou para Macau”.

         Naquele tempo, cem escudos era muito dinheiro. Nem pensaram que Pinga-Amor era um pobretanas e que não teria dinheiro para lhes pagar, mas aceitaram logo e foram para casa do regedor dar a notícia.

         Não hesitaram os brasileiros. Logo Leirosa diz: “Na verdade é um contratempo com que eu não contava. Mas, já agora, não desisti de procurar a Lúcia-Lima. Com um aparelho como o meu vai-se ao fim do mundo. Partiremos agora mesmo para Macau, que é terra portuguesa”.

         Bem os procurou dissuadir da viagem o Zé Badaleiro que notou os olhares que Tomás Castanho deitava à sua filha e que lhe parecia um excelente partido para Capitolina. Mas, nada feito.

         E depois das despedidas, eles vão partir enquanto o coro canta:

           “Ao deixar a nossa aldeia
             Para arrostar mil baldões
             Não se quebrou a cadeia
              Que prendia os corações.

              Ao voltar do fim do mundo
               Lá dessas terras d’além
               Lembrai-vos da gente amiga
               Passai por aqui também.

               Adeus prezados amigos!
                Neste solene momento
                Pediremos aos céus vos guiem
                A bom porto e salvamento.

                 Nesse Macau tão distante
                 Não encontrareis ninguém
                  Que com tanto desinteresse
                  Vos estime e queira bem.

             
                                           ***

sábado, 27 de junho de 2015

Tavarwede - A terra de meus avós - 12

Bailaricos e arraiais


         “Dentro em breve, o arraial provinciano tinha início. O folclore das nossas aldeias, ali genuinamente representado. Os seus descantes e bailados, embriagavam-nos de prazer. Assistimos às danças em arraial.
         Como são diferentes os bailados provincianos dos atrevidos e parisienses gostos das nossas salas lisboetas! Que harmonia nas suas voltas, nos passos, na elegância das raparigas!
         E ao som de música que desconhecíamos os trechos, contemplávamos embevecidos o ritmo uníssono das danças provincianas. Que lindo o arraial das nossas aldeias! Que típico tudo aquilo, que verdadeiramente português! Sim, Portugal é verdadeiramente o “jardim da Europa” um mimo de encanto e formosura”.

         Retirei este pequeno retalho de uma reportagem de uma visita de sintrenses à Figueira e a Tavarede e que, numa volta pelos arredores, assistiram a um arraial popular na vizinha Brenha, em Setembro de 1935.

         É um bom início para uma pequena recordação dos arraiais e dos bailaricos na nossa terra. Eram festas levadas a efeito, normalmente no verão, que traziam sempre momentos de grande alegria a todos, novos e velhos.

         Ainda tenho uma ideia, mas muito vaga, dos arraiais montados nos largos do Paço e do Forno. Eram locais relativamente pequenos para o efeito. Além disso, o aumento do trânsito certamente desaconselhava a ocupação destes largos com as habituais ornamentações.

         O Grupo Musical teve o empréstimo do enorme espaço da quinta do senhor José Duarte, mesmo defronte da sua sede. A entrada era feita pelo portão da quinta, entre a casa e uma enorme figueira, que não escapava à nossa tentação de rapazes a caminho da escola, quando dela pendiam os seus frutos maduros.

         Lá em cima, frente a uns barracões onde eram guardadas as alfaias agrícolas, era montado o pavilhão. A vedação do recinto era feita com grades de Madeira, emprestadas pela Câmara Municipal. Formando quadrado, eram levantados, de tantos em tantos metros, mastros pintados a branco. No meio do recinto, erguido majestosamente nos ares, o mastro principal e, à sua volta, era montado o coreto, com espaço suficiente para nele se instalar a orquestra.
           Enquanto os mastros laterais levavam a meio um escudo de madeira e no cimo um pendão feito de tecidos coloridos, o mastro principal era ornamentado, no seu topo, com uma armação de madeira, coberta de louro e heras.
     
        
Nós, os rapazitos, acompanhávamos os adultos quando iam apanhar braçadas de ramos de loureiro e pernadas de heras, que eram utilizadas para se fazerem as verdes e farfalhudas cordas que, de mastro em mastro, davam a volta ao arraial e ao coreto. Dos cantos partiam para o mastro principal as cordas de papel colorido, feitas em festão, elos ou bandeirinhas. Junto das cordas de louro eram estendidas as gambiarras, cedidas pelos Serviços Municipalizados, que iluminavam todo o recinto.

         Num dos lados era instalado o bufete. O balcão era feito com umas tábuas compridas, suportadas por uns prumos espetados no chão, ou por algumas pipas vazias. Num cavalete era colocado o pipo com o vinho “do lavrador”, constantemente solicitado para encher as picheiras de barro vidrado. Os copos, de vidro grosso, era “lavados” num alguidar que, bem depressa, ficava com a água roxa e não branca. Claro que não faltavam outras bebidas, entre as quais os célebres pirolitos, com as garrafinhas fechadas pela bolinha de vidro. Os petiscos eram pouco variados, mas sempre havia qualquer coisa para comer e fazer ”lastro” a mais uns copos. Anos mais tarde, começaram a fazer a saborosa dobrada com feijão branco e o caldo verde.

         Noutro lado, era montada a quermesse, com uma estante em degraus, coberta por coloridas colchas e cheias de prémios tentadores. Sobre a tábua que, em volta, fazia de balcão, estavam os cestinhos com as rifas muito bem enroladinhas. Os bilhetes eram baratos, mas a verdade é que por um premiado haviam cinco ou seis brancos, branquinhos, como a cal da parede, dizíamos nós.

         Também existiam outros divertimentos como, por exemplo, as barracas de ”tiro”, com as espingardas de pressão de ar, para chumbo ou setas. O alvo eram pequenas pastilhas de gesso, penduradas numa tábua.

         Eram sempre bastante concorridos estes arraiais. A orquestra tocava animadamente, convidando mesmo a um “pésinho de dança”. Mas os números mais desejados, em especial pelos mais idosos, eram as célebres danças de roda. Mal se ouviam os primeiros acordes destes números, logo acorriam a formar a longa roda, à volta do coreto. Recordo-me de duas espécies destas danças. A primeira parte era igual, com os pares de mãos dadas, a darem pequenos passos ao compasso da música. Na segunda parte, numa das danças, os pares, sempre de mãos dadas, iam ao centro, voltavam e rodopiavam duas vezes, para a direita e outras duas ao contrário; na outra dança, largavam as mãos do par e, às palminhas, recuavam dois pares atrás, cruzavam e regressavam ao lugar, para rodopiaram com o par. Sei que havia outras danças idênticas, mas não as sei descrever. Aliás, não é nada fácil explicar estas danças, mas era bonito ver a alegria e a satisfação com que dançavam estes bailados. Algumas vezes, lá saía o vira mandado… Não admira que os sintrenses tenham ficado deslumbrados com os nossos arraiais.

         A um canto do recinto, e para dar um ar ainda mais alegre, acendia-se uma enorme fogueira, que se mantinha acesa durante todo o bailarico. Também a apanha da lenha era coisa do agrado da rapaziada. Lá íamos todos, caminho do Peso e da Serra acima, olhando os valados, à procura de ramos secos e, sempre que possível, arrancar os piteirões secos, que,  puxando pelo comprido tronco, arrastávamos até ao lugar da sua queima… Estas coisas nunca esquecerão…

         Na Sociedade, primeiro foi no largo do Terreiro e depois no terreno anexo, onde posteriormente se construíu o pavilhão desportivo, também eram realizadas idênticas festas. Aqui recordo-me que, quando se começaram a utilizar as aparelhagens sonoras, utilizavam uma velha grafonola que, passando discos bem antigos, atroava os ares a lembrar aos tavaredenses o bailarico que ali iria ter lugar à noite.

         Estes arraiais eram realizados no verão. Durante os restantes meses, havia bailes nas sedes das colectividades. A Sociedade, mais vocacionada para o teatro, dava poucos bailes, até porque era bem trabalhoso o montar e desmontar do estrado por cima da plateia! No Grupo Musical, quase todos os domingos, havia “matinées dançantes”.

         Também eram sempre bastantes concorridas estas diversões, e não só pelas raparigas e rapazes de Tavarede e lugares vizinhos, pois aqui vinha muito pessoal da Figueira e outras terras. O “Lúcia-Lima”, conjunto privativo do Grupo Musical, era o que mais vezes actuava.

         De vez em quando as colectividades organizavam festas especiais, a que davam sempre nome sugestivo. Então o salão era ornamentado com originalidade, com motivos relacionados ao título escolhido para a festa. Nessas ocasiões, e para atraír o público, contratavam orquestras de fora. Caixeiros, Ginásio, Naval, Quiaios Clube, Instrução e Recreio, Taborda, além do Lúcia-Lima, eram as mais usuais. Recordo, igualmente, o famoso Tivoli-Jazz, de Montemor-o-Velho, com as suas camisas encarnadas, o Café Central, de Cantanhede, de verde, e o nosso vizinho Os Pardais, dos Vais, que optaram pelo amarelo.

         Não quero deixar de recordar que, nestes bailaricos, era costume, a meio do número anterior ao intervalo, apelarem para “os cavalheiros levarem as damas ao bufete”. Tinha que ser e lá ia o tradicional pires de arroz doce e o refrescante pirolito que, embora bem baratos, davam sempre um bom rombo nas nossas frágeis algibeiras.

         E de bailaricos e arraiais chega de recordações. Mas não me esquece que, menino e moço, foi no arraial do sr. José Duarte que aprendi a dançar. Já lá vão tantos anos…


Tavarede no Teatro - 3

“Em busca da Lúcia – Lima”


         Foi no sábado 11 de Abril de 1925 que, pode dizer-se, se abriu a primeira página deste livro da história de “Tavarede no Teatro”. O prólogo, em 1912 e 1913, havia sido relativamente curto, aliás como devem ser todos os prólogos, mas agora já muito material passava a estar disponível.

         Pois naquele sábado houve mais um espectáculo no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense. Representou-se a opereta “Em busca da Lúcia-Lima”, em 3 actos e da autoria do distinto poeta e escritor figueirense João Gaspar de Lemos Amorim, que havia uns anos, e quando regressou de África, escolheu a nossa terra para viver, tendo para isso adquirido a Quinta da Mentana, que confrontava com o Largo da Igreja, com a estrada para a Chã até ao ribeiro do Pereiro, e com a estrada do Saltadouro. Ali tinha mandado construir uma vivenda no alto de uma pequena colina, rodeada de frondosas árvores.

         Foi ele que escreveu a referida opereta, a qual foi recheada com 23 números de música, original e coordenada pelo notável amador musical figueirense António Maria de Oliveira Simões, grande colaborador do teatro tavaredense durante toda a sua vida.

         Ao anunciar a sua estreia, o correspondente local de “A Voz da Justiça” escreveu, na edição de 10 daquele mês: “Dizem-nos que pela música, que é lindíssima, com alguns números duma grande beleza e magnífica orquestração, pelo libreto, de entrecho simples mas interessante e com certa cor local, e pela montagem, a representação desta opereta cairá no agrado da plateia figueirense”.

         Parece que, realmente, o público gostou do espectáculo. Antes de entrarmos na análise da peça, o que espero fazer de forma simples mas de maneira a dar a conhecer a mesma, e de alguns apontamentos críticos sobre interpretação e montagem, começo por transcrever um apontamento que encontrei na “Gazeta da Figueira” de 2 de Maio de 1925:

         “Por intermédio do nosso colaborador Raymundo Esteves tivémos a honra de ser apresentados ao ex.mo sr. João Gaspar de Lemos, distintíssimo poeta e auctor da opereta “Em busca da Lúcia-Lima” que ultimamente tem sido representada com agrado no theatro da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Gaspar de Lemos, sem de longe pensar que o estamos entrevistando, vae-nos dando, na sua agradabilíssima conversação, todos os elementos de que carecemos, apenas um pouco ennublados na parte respeitante ao valor da peça, que segundo outros é bem moldada, mas que a sua modéstia, que bem se coaduna com o seu valor, faz ver eivada de erros a que só (expressões suas) a técnica e boa vontade de José Ribeiro e a explêndida música de António Simões, poderiam salvar.
         Descreve-nos a peça. E o assumpto, certamente bem tratado, é tão curioso, tão interessante, tem tanto theatro, tamanha beleza, que a gente logo vê quanta modéstia o auctor tem falando da sua peça do modo ligeiro como o fez.
         Começamos então a sentir verdadeiro desgosto por a não termos visto em scena e Gaspar de Lemos dá-nos umas leves esperanças de que ella seja aqui representada em récita de homenagem à Santa Casa da Misericórdia, e volta-nos a falar com entusiasmo do valor da música, da inteligente encenação, do seu explêndido desempenho que representa uma verdadeira consagração para José Ribeiro pelo triunfo obtido d’aquelles rudes e pouco cultos amadores que por única arma de combate para vencer tanta dificuldade, possuem a boa vontade e o grande desejo de progredir.
         Que Gaspar de Lemos nos perdoe a traiçãosinha e fique certo que aguardamos ocasião de podermos satisfazer o desejo de ver na ribalta a sua “Em busca da Lúcia-Lima”.

         Na semana seguinte é publicada uma carta de Gaspar de Lemos respondendo:

         “Sim, senhores, a cilada foi bem planeada e bem levada a effeito, pondo por isso em evidência que o Raymundo Esteves, o estratégico do ardil, mostra natural vocação para bandoleiro. Não quer isto dizer que o cúmplice entrasse subalternamente no caso como Pilatos no Crédo. Mas estão perdoados! Fiquem, porém, certos de que ao largar os dois e ao afastar-me do local do sinistro, já no meu espírito eu tinha aprehensões e suspeitas da nefaria trama. E sem laivos de rancor, sem sombras d’azedume ou leve ressentimento sequer, dei logo por bem empregado os poucos minutos gastos por nós trez a palrar sobre o assumpto provocador da cilada. Como bem comprehendem, esta deu ensejo a que eu prestasse homenagem bem convictamente ao maestro António Simões, pessoa da minha maior estima, cuja nítida percepção das situações e fino sentimento artístico lhe deram azo a ornar o libretto com deliciosa e captivante música, e bem assim ao José Ribeiro, admirável rapaz que realisou prodígios d’ensinamento na declamação e marcação da peça, manifestando mais uma vez a sua capacidade comprehensiva da technica theatral, não deixando escapar as mais subtis minucias, e tudo isto conjugado com heróica paciência e uma vontade férrea que contrariedade alguma conseguiu quebrantar.
         Exaro aqui o meu agradecimento sincero pelas boas palavras que me dispensa e que se me afiguram excessivas. Não ignoro, é certo, que nas produções literárias d’esta natureza o libretto (enredo e afabulação) constitue  quasi um simples pretexto para exhibir música e indumentária, já vê, pois, meu caro sr. Sobral, que para o êxito da opereta Em busca da Lúcia-Lima e agrado com que nas trez récitas ella foi ouvida, eu contribuí com diminuta quota. Longe de mim o propósito de querer adornar-me com vistosas plumas de enfatuado pavão. Desde o primeiro ensaio d’apuro reconheci logo que o valiosíssimo concurso dos meus amigos e collaboradores evitaria o fracasso da peça. E d’esta vez fui profeta na minha terra. De resto nunca tive pretensões a lançar a público, já não digo uma obra prima (crédo!) no género mas qualquer cousa com o fim d’engodar a notoriedade.
         Creia-me com muita consideração seu creado e admirador, J. Gaspar de Lemos”.

         Houve mais espectáculos em Tavarede nos dois sábados seguintes, e no mês de Julho, foi o grupo cénico tavaredense dar uma representação, com esta peça, no teatro do Parque-Cine, na Figueira, cuja receita reverteu a favor do Hospital da Santa Casa da Misericórdia local.

         Sobre este espectáculo, são muito interessantes as críticas publicadas nos três jornais então publicados na Figueira. E se em “A Voz da Justiça”, relativamente à peça, se diz “era esta opereta, de entrecho simples, com muita cor local, alguns tipos trazidos para o palco com felicidade, e em cujos três actos as brilhantes qualidades de poeta de Gaspar de Lemos se afirmam com pujança. Os versos da Lúcia-Lima fogem ao ramerrão das rimas forçadas, têm sentimento, têm princípio, meio e fim, são espontâneos, ajustando-se perfeitamente à acção da peça e à oportunidade em que são cantados”, e na “Gazeta da Figueira” se escreve “numa opereta, vulgarmente, há apenas um motivo ligeiro, um leve fio de entrecho, para se fazer ouvir música, “Em busca da Lúcia-Lima” tem mais do que isso, tem seu enrêdo, começo, meio e fim, tudo afinado e certo, como é próprio do talentoso autor”, já em “O Figueirense” não se alinha no mesmo estilo e escreve “a peça não está mal feita e melhor posta em cena, mas nasce dum disparate carnavalesco e quase todo o seu enredo é um disparate completo. Não é admissivel, nem mesmo em teatro, que um anúncio carnavalesco publicado num jornal de província, trouxesse a Tavarede, e de aeroplano, dois comerciantes brasileiros, para verem uma mulher que o já referido anúncio dizia ser formosa... Como se no Brasil não houvesse mulheres bonitas!...”.


sábado, 20 de junho de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 11

         “Passaram agora sob a nossa janela as raparigas do rancho do Maio.
         O rancho do Maio!
         Todos os anos se organiza este cortejo florido. E quando passa nas ruas, deixando no ar o eco das cantigas e o perfume das rosas – é Primavera!
         Quando Abril começa a despedir-se, as raparigas animam-se, combinam, organizam o rancho. E na véspera do dia ansiosamente esperado, pedem às vizinhas, correm aos jardins, vão ao mercado – e levam para casa arregaçadas de flores. Arranjam os trajos. Enfeitam os potes, que desaparecem sob os desenhos caprichosos das rosas e malmequeres. Mal pregam olho durante a noite. E quando a manhã só é adivinhada pelo seu espírito em alvoroço, erguem-se, chamam-se umas às outras, reúnem-se – e as suas vozes fazem a alvorada antes que o chiar das rabecas e o tom-tom dos violões arrepie o ar nos estremeções da afinação.
         E marcham. Estrada fora, marcam em piso leve, airosas e frescas, o compasso da marcha que as suas vozes erguem no espaço, subindo alto, levada muito alto no perfume das flores, até fundir-se na atmosfera da madrugada húmida e ainda pesada dos orvalhos da noite. Sobre as cabeças inquietas levam os potes floridos. Dentro dos peitos arquejantes uma ansiedade, uma aspiração indecisa que toma forma nas suas bocas e é Amor nos seus lábios vermelhos sem pintura...
         ... Cantigas de amor!
         ... E a Vida aparece-lhes clara e transparente como a água das fontes que cai das bicas e canta com elas, luminosa e brilhante como a luz que começa a entornar oiro fluído sobre o azul do céu e o verde tenrinho, muito tenro e muito verde, da planície viçosa.
         Este ano o Abril foi de inverno. Frio e vendaval, chuvas teimosas que não tinham fim. Os rapazes da música não queriam sair: - Tenham juízo, não sejam malucas! Apanhar uma chuvada e ficarmos como pintos...
         Mas elas, enfeitando os cântaros, vendo-se no espelho das flores e recebendo destas a alegria e a certeza da primavera, viam lá a chuva, sentiam lá a chuva, queriam lá saber da chuva!... O 1º. de Maio era sempre o 1º. de Maio. No 1º. de Maio há sempre sol. Elas não acreditam na chuva. E se a chuva vier – há-de desfazer-se ao calor das suas vozes, dos seus corações ansiosos, da sua mocidade ardente. Elas acreditam no 1º. de Maio – e porque acreditam nele, vencem a chuva e vencem a dúvida e o medo dos rapazes das violas que parecem velhos – como o Velho-do-Restelo...
         Passou agora o rancho sob a nossa janela. Lá de cima do céu, que parece mais baixo todo forrado de chumbo, cai uma chuva miúda, muito leve e muito fina, como poeira de prata. Mas não desce além dos telhados, fica-se no ar, suspensa sobre a camada de    som e de perfume que enche a rua numa alvorada de sol.
         ... Os cântaros enfeitados!
         ... E as raparigas dos cântaros!
         Há neste conjunto de flores e gente moça que não sente a chuva e que vence a chuva, qualquer coisa de profundamente simbólico.
         Quantos homens fogem à vida, e não a constroem e não a vivem.
         Quantos não vêem o sol porque se assustam com a chuva?
         Quantos homens poderiam aprender no riso fresco, na chama da vida, na certeza da Primavera destas raparigas que vão lá adiante no cortejo florido dos cântaros, a vencer a dúvida e a edificar por suas mãos o triunfo da sua crença?”.

         Prossigo, agora, com mais uma evocação ainda comemorada nos meus tempos de criança. A tarde da chamada “merenda grande” era de ida aos pinhais onde, sob a sombra acolhedora e fresca, eram comidos alguns petiscos. O pinhal mais frequentado era o da quinta da Borlateira, aos Quatro Caminhos. Com o farnel acondicionado no cesto, lá íamos à procura de poiso onde pudessemos estender a toalha e umas velhas mantas, onde nos sentávamos confortavelmente. Claro que também esta “merenda grande” já era uma pálida amostra das antigas, como se pode adivinhar por este recorte, publicado em 1902.

         “Diz-se, e com razão, que esta vida são dois dias... É um pensamento que não oferece dúvida, e eis porque muito boa gente não perde um momento em que os possa levar regaladamente. Assim, é ver como alguns andam á espreita dos dias de folgança, para gozar e divertirem-se; há uma festarola, lá vão - em massa, cheios de alegria, farnel aviado e ideia fixa no santinho que os arrasta áquela adoração - esquecer por umas horas as tristezas e amarguras da atribulada vida...
E aqui estava eu a começar um banal aranzel, quando afinal o meu intento é falar da merenda grande, que foi na segunda-feira, e que, como é da praxe, atraíu á minha risonha terra bastante gente que gosta da pandega. Isto contaram-mo, porque a pouca sorte não me deu a felicidade daquelas venturosas creaturas...
Mas as locandas animaram-se; por essas quintarolas fora dizem-nos que houve regabofe desmedido; as pequenas alunas da escola oficial cantavam as estopinhas pelas ruas da povoação, cestinho á cabeça, qual deles enfeitado com mais capricho; nas lautas merendas devoradas com apetite á fresca sombra de copadas árvores ou entre o inebriante perfume exalado dos canteiros e vergéis engrinaldados de lindas rosas, ou ainda nas eiras, onde corria brandamente a pura viração do norte, tudo concorreu para deliciar os ditosos visitantes da minha estremecida e bem amada aldeia.

E, a prova, é que ali os brindes sucederam-se com espontaneidade entusiástica, os hips e os hurrahs tomaram um calor delirante, e, para que nada faltasse a similhar os mais alegres e ruidosos festins, chegou-se a reduzir a estilhaços, depois de vazias, as pobres garrafas a que pouco antes se dedicara o mais santo e acrisolado afecto.
A tarde de segunda-feira, pois, devia ter sido memorável para os felizes que podem gastar o seu tempo naquelas folganças. Isto já lá vae há três dias, é certo, mas ah!... a maldita inveja não me deixa sair da mente os dulcíssimos momentos que por aqui se passaram na festejada merenda grande...”.

         Alguns dias santificados pela Igreja, também tinham tradições ou costumes festivos. O dia de quinta-feira santa, da parte da manhã, era grande para nós. Manhã cedo, munidos duma bolsa, daquelas que nossas mães faziam de retalhos de chita, juntávamo-nos em grupo e íamos pedir a “esmola”. Dinheiro, naqueles tempos, era coisa que não havia. Nas mercearias, eram rebuçados, muitas das vezes daqueles que traziam cromos. Numa ou noutra casa lá vinha um punhado de feijão ou de milho e, na maior parte, era um “não pode ser”! Uma casa havia, no entanto, onde tínhamos acolhimento todos os anos: a casa do sr. Leite, ali na Simôa. Havia sempre uma boa mão cheia de avelãs para cada um dos “pedintes”. Na sua quinta, junto ao ribeiro do Pereiro, existiam umas enormes aveleiras e uma boa parte da colheita era reservada para neste dia dar “esmola” à rapaziada que lhe ia bater à porta a desejar uma feliz Páscoa…

         No sábado de Aleluia, algumas vezes, poucas, me recordo de haver alguém que, na rua Direita, içava um Judas, para nós o desfazermos à cacetada, com as canas que íamos arrancar aos valados… No dia seguinte, domingo de Páscoa, era o dia de irmos buscar o folar. Novamente a bolsa de retalhos servia, pelo menos no meu caso, para                                                                                 ir a casa de meu padrinho, onde, além do costumado folar de quatro ovos, me dava sempre uma moeda das maiores.

         Outro dia muito desejado era o de quinta-feira da Ascensão, também conhecido como “o dia da espiga”. Já vinha de longe este costume. Em 1912, a “Gazeta da Figueira” trazia a seguinte notícia: Pela tradição do costume foram ranchos de pessoas pela fresca manhã de quinta-feira de Ascenção colher ás searas raminhos de espigas de trigo e ramadinhas de oliveira para que o ano corrente seja próspero e feliz. Grupos de raparigas entoavam canções alegres fazendo um maravilhoso conjunto com os seus maviosos trinados dos rouxinois e doutros passarinhos que saltitavam nas ramadas das floridas árvores do campo.
         Á tarde merendaram muitas pessoas á sombra saudável de pinheiros e um rancho de raparigas, acompanhado dum grupo musical, foram ás Caldas da Amieira, dançando ali e regressando a Tavarede á noitinha. Ao Bussaco também foi bastante gente daqui”.

         Mais poética, é a notícia que “O Figueirense” publicou em 1928:  “É amanhã, quinta-feira da Ascensão, em que bandos de raparigas moças, de lábios rubros, faces rosadas e olheiras fundas, correm estonteantes, borboleteando em redor das searas como uma nuvem de daninhos e alados pardais, na faina voluptuosa e risonha de colher a Espiga, que depois entrelaçam com as mais belas flores silvestres.
         Cada espiga que vão colhendo é uma esperança que se aglomera no cérebro,  cada flor cortada é um facho de luz mais puro que o sol benfazejo da primavera, que se lhes ilumina a alma e faz tanger a corda mais íntima do seu coração. É, pois, amanhã um grande dia, um dia santo, que até o mais   libertino deve respeitar como o dia da Ascensão do Mártir do Calvário. “Se os passarinhos soubessem…”.”

         A espiga era colhida da parte da manhã e, da parte da tarde, havia saída para os pinhais, para mais uma costumada merenda. Algumas famílias optavam por ir passar o dia às termas da Amieira, onde se realizavam grandes festas, enquanto outras escolhiam uma ida ao Bussaco. Foi ali, aliás, na quinta-feira da Ascensão de 1938, que se fez ouvir, pela última vez,  a tão afamada tuna de Tavarede. É dos poucos costumes e tradições que, embora com diminuta concorrência, ainda se mantém na nossa terra.

         No primeiro caderno contei, também, alguma coisa sobre o S. Martinho. É interessante, contudo, o facto de que, sendo S. Martinho o orago da nossa freguesia, só há relativamente poucos anos, comparativamente ao longo período da história da terra do limonete, aqui tenha começado a ser festejado religiosamente.

No entanto, e segundo muitos escritos encontrados, se o santo não era comemorado religiosamente, não era esquecido nas casas dos tavaredenses. Vejamos uma notícia de Novembro de 1899:
         “Deixai-nos, velho santo, que vos apresentemos aqui reverentemente os nossos respeitosos cumprimentos, pela chegada do dia 11, dia em que o Borda d’Agua regista a vossa passagem pela galeria dos santos.
         Grande data, para as gentes da freguesia de Tavarede, por ser a do dia do seu querido orago! Não lhes passa ela desapercebida, e por isso naquele dia à noite se costuma ouvir aqui o festivo estralejar de grande foguetório, lançado em honra do célebre protector dos amigos do divino Bacho...
         Vê-se muita alegria, fazem-se importantes magustos, dá-se cresta às roliças farinheiras feitas pelas mais recentes matanças de nutridos cevados, e quase todos espicham os vinhos da sua última colheita.
         Aqui tínhamos nós agora uma bela ocasião para atrair a esta localidade milhares e milhares de pessoas, se soubéssemos celebrar ruidosamente o dia de S. Martinho, estabelecendo-se para esse fim um programa deslumbrante que anunciasse grandes procissões, Te Deuns, missas acompanhadas por grandes coros e orquestras, espaventoso arraial, admiráveis fogos de artificio, musicatas, exposição do Deus Bacho em capelas apropriadas, magustos oferecidos ao público, etc., etc., etc. Fizesse-se depois constar por toda a parte esta festança e veríamos se acorriam ou não aqui forasteiros dos cantos mais recônditos do mundo!..Porém, nunca ninguém se lembrou para isso deste pobre santo, que no seu tempo foi tão milagroso, e que hoje tem a sua imagem desprezada e esquecida a um canto da sacristia da igreja de que ele é  patrono, como se tivesse sido um personagem sem importância que não legasse à posteridade, como ele fez, tamanha nomeada.
         Bem se vê que estamos nos tempos da ingratidão...”.

         Como se vê, as comemorações ao nosso santo padroeiro eram comemoradas em casa, à lareira e perto da adega. Encontram-se imensas referências a estas “comemorações”. Considero, das mais interessantes, este comentário, escrito pelo figueirense Raimundo Esteves, em 1940.

         “Se ainda não matou o porco, se o chambaril não entrou em acção, nem a salgadeira tem sal novo, branquinho como bagos de granizo, à certa deve haver um presunto preso pelo cotrunho, à dependura da trave mestra da adega, ou guardado na arca um queijo do outro ano, do de codea forte e polpa amarelada, rijo e a esboroçoar-se, daquele que deixa os beiços mordidos de secura…

                   Pelo S. Martinho
                   Prova o teu vinho…
                   Se ele te agradar,
                   Torna-o a provar…

         - Vá seu Compadre, que um dia não são dias! Este São Martinho faz um formigueiro nas goelas, que até parece que um homem acabou agora duma sacha rija, por Junho ardente…
         Ergue-se o copo à transparência. Lindo palhete! Tem tons de topázio! E uma auréola cor de cravo moço, daqueles que as cachopas poem sobre os seios, na noite santa de S. João… Primeiro, a fazer a cerimónia, leva-se com geito aos lábios o licor divino, com uma unção quase religiosa, quase espiritual. Bate-se o líquido nos beiços, a tomar-lhe bem o travo. Masca-se. Depois, escorre pela língua, com um estalido seco no céu na boca. Pisca-se o olho maroto. Franze-se o nariz e a testa. Baloiça-se com a cabeça. Nova golada. O mesmo rito solene. Ergue-se de novo o copo. Mira-se à luz. Agita-se o vinho de forma a sujar bem os rebordos. Engolipa-se outro sorvo. Está completa a prova. Agora é de virar, - que provar não é beber!
         O magusto é tradicional por esta época do ano. Em lares mais fartos, o magusto é pretexto para ceata de restolho, que mete bacalhau cozido com batatas, couves, cebolas, ovos e azeite novo, quase cru, com um acentuado sabor ao fruto que o deu… Se já se fez a matança, vai uma orelhada para pessoa de mais consideração e respeito, e para o resto da companhia febras de churrasco, ou linguiça arrancada do fumeiro da lareira, onde as carumas e as cepas da poda  lhe deram um sabor e um aroma preciosos.
         O pichel anda numa roda viva, de mão em mão. No brazido, de um bom toro de oliveira, ou raizeiro de carvalho velho, que o fogo consome lentamente, entre áscuas, como bichas de rabiar, - estoiram as castanhas de entre as cinzas. Tiram-se em arranques de coragem. Peneiram-se as unhas escaldadas para esfrearem mais depressa. Se surge uma “Filipina”, vão gritinhos de prazer: - Quem quer ser minha comadre?! … E ás vezes é com uma castanha assim que estoira a castanha na boca a qualquer mancebo desprevenido das artimanhas diabólicas das moças casadoiras!”.

         Em Novembro de 1957 o “velho” tavaredense, Aníbal Nunes Cruz que, durante muitos anos residiu  em Anadia, onde exerceu actividade profissional, resolveu recordar o S. Martinho. Escreveu, então, no jornal “O Figueirense”:

         “Preside aos destinos da nossa freguesia o orago São Martinho, que se venera na igreja paroquial sem que haja memória de ter-se realizado qualquer cerimónia litúrgica em seu louvor.
         No entanto, São Martinho possui bastantes devotos em toda a redondeza da freguesia, que, decerto, muito bem se lembram do seu dia, homenageando-o com as tradicionais ceias em que não faltam as castanhas e a abertura da saborosa água-pé e do bom vinho.
         As famílias – pobres e remediadas – festejam-no numa alegria sã e espirituosa, quantas vezes com preces de saudades dos amigos e dos ausentes, levando a humanidade a conjugar as práticas da confraternização e da amizade como se o divino Padroeiro fizesse esse milagre tão preciso à vida e à religião da família nestes tenebrosos tempos que decorrem.
         São Martinho da nossa terra, que, no seu divino altar, vem, através de tantos anos, presidindo aos solenes baptismos dos tavaredenses, dando a unção da sua doçura para recordar o dia 11 de Novembro sentia-se feliz nessas noites em que estralejavam nos ares os foguetes a anunciar a alegria das famílias e a abertura do vinho novo.
         Louvado seja, São Martinho!...”.

         Era, então, pároco em Tavarede, o reverendo Manuel Joaquim da Costa Ferreira, que desenvolveu notável acção na nossa terra durante os anos em que aqui esteve. Fundou, inclusivamente, em Outubro de 1957, um pequeno jornal a que deu o título de “Notícias de Tavarede”, no qual se propunha contribuir para o alargamento do Reino de Deus na paróquia que lhe havia sido confiada e para cooperar com todas as iniciativas de utilidade local.
        
Talvez que a notícia de Aníbal Cruz lhe tenha despertado a curiosidade, pois o padre Costa Ferreira tomou interesse pelo assunto e, com inteira razão, entendeu que se o patrono de Tavarede era o S. Martinho, o mesmo não deveria continuar esquecido religiosamente.
        
Terá feito diversas investigações e diligências e logo no ano seguinte, 1958, estas festas foram uma realidade. Aliás, o padre Costa Ferreira, muito inteligentemente, aproveitou a oportunidade para obter uma forma de financiar as diversas obras de que a igreja estava bem carenciada. Em Novembro desse ano tiveram lugar as primeiras festas religiosas ao S. Martinho, acompanhadas, claro está, com festas populares. “A Voz da Figueira” relatava, assim, o acontecimento: O povo de Tavarede, por iniciativa do seu pároco, Revº. Manuel Joaquim da Costa Ferreira, vai fazer reviver, este ano, a antiga festa ao orago da freguesia – S. Martinho – cuja imagem, depois de ter estado durante dezenas de anos, retirada do culto e até depositada no Museu da Figueira, acaba de ser restaurada e vai de novo ser colocada no lugar que lhe pertence”.

         Termino estas recordações com uma breve evocação do Natal. Era um dia querido por todos. Dias antes, íamos “roubar” um pequeno pinheirinho para fazermos a árvore de Natal e apanhar musgo para o presépio. A árvore era enfeitada com uns fiosinhos, algodão a fingir de neve e, pendurados por aqui e ali uns pacotitos de bombons e pequenas tabletes de chocolates. Para nós, era um encanto. No dia de Natal, manhã cedo, lá íamos ver se o Menino Jesus não se tinha esquecido de nós. E não. Lá estava alguma roupa e mais alguns chocolates.
         Na véspera, de tarde, era grande a azáfama nas nossas casas, pois chegava a hora de fazer as tortas doces. Farinha, açúcar, abóbora menina, as passas de uvas, nozes, que partíamos aos bocadinhos, pinhões, etc. Quase todas as casas tinham um pequeno forno, que era, então, aquecido a lenha, enquanto a massa levedava. Nessa noite havia sempre teatro e toda a família ia ver. Depois de terminado o espectáculo, regressávamos a casa e eram horas de fritar os filhós, que já estavam prontinhos a ir para a sertã. Polvilhados com açucar amarelo e acompanhados por uma enorme caneca de café de cevada, era a consoada da maior parte das famílias tavaredenses.