sábado, 18 de julho de 2015

Tavarede - A terra de meus Avós - 15

A matança do porco e vindima


         Eram sempre, para mim, dois dias em cheio. Primeiro, em Setembro, eram as vindimas e, já no inverno, era a matança do porco. Vou começar por esta e nada melhor do que copiar o que se escreve no livro “Figueira do Passado ao Presente – Gastronomia e Culinária”.

         “Não há muitos anos ainda, as famílias dos arredores da cidade criavam o seu porco, alimentado com as sobras das refeições e para o qual se cozinhava propositadamente a “lavagem”, com água, couves e farinha ou sêmea, o que permitia que o toucinho entremeado ficasse mais gostoso.
         A matança, geralmente em Dezembro e escolhida a fase da lua conveniente, segundo a boa tradição popular, era pretexto para a reunião de toda a família. Faziam-se os bolos de sangue, as morcelas, as papas de moado, e conservavam-se na salgadeira os ossos e o toucinho. Preparavam-se os negritos, os chouriços e os presuntos que haviam de chegar para todo o ano, sem falar na banha, nos rojões, no sal de unto e nos torresmos. Os lombos assados no forno eram conservados em banha e comiam-se parcimoniosamente nos dias de festa. Até a cabeça era aproveitada, juntamente com as queixadas, a língua, as orelhas e os miolos, de que se preparava um prato requintado com ovos, pedaços de carne e miolo de pão”.

         Recordo três épocas. Primeiro, nos meus tempos de rapazito, era a matança anual em casa de meus avós paternos, em Tavarede. Já rapazote, passei a ir, todos os anos, a Reveles às matanças em casa de meus tios maternos. Posteriormente, e outra vez em Tavarede, nunca deixarei de recordar a matança do porco, numa casa cujos donos não quero nem posso deixar de recordar nestas histórias, pois sempre foram para mim de uma bondade e de um carinho verdadeiramente excepcionais. Gratamente, evoco as figuras do senhor Elói e da senhora Pureza, em cuja casa, durante tantos anos, fui sempre bem recebido no grupo de amigos que ali se reuniam nestes dias e não só.

Algumas vezes assisti a todos os preparativos que antecedem a matança. O preparar da forte tábua inclinada, o ir buscar o animal ao curral e ao amarrá-lo, fortemente, para estrebuchar o menos possível enquanto era sangrado. O sangue, que corria em esguicho da facada, caía num alguidar de barro vidrado, onde estava um pouco de sal e vinagre e era constantemente mexido com uma colher de pau, para não coalhar.

         Ainda o dia mal tinha rompido e já o porco se encontrava chamuscado e muito bem lavado e esfregado. Era chegado o momento da primeira paragem. Se ao chegarem, os homem “matavam o bicho” com figos secos e aguardente, havia agora petisco de garfo, que constava sempre de bacalhau assado na brasa, temperado em abundância com bom azeite e no qual sobressaíam muitas lascas de alho. A travessa era colocada em cima da carcaça do pobre animal. Para acompanhar, o vinho tinto caseiro.

         Acabado o petisco era o porco amanhado. Nesta altura já havia sido aceso um fogareiro, onde, enquanto trabalhavam, iam grelhando pequenos pedaços de carne. Algumas mulheres encarregavam-se da lavagem das tripas, para os enchidos, enquanto outras iam preparando o almoço. Depois de devidamente amanhado, o animal era pendurado para o enxugo e com as mantas da carne bem abertas e separadas com pedaços de cana, para melhor escorrerem os restos de sangue. Muitas vezes, e quando não a aproveitavam para qualquer enchido, davam-me a bexiga. Vazia e com um fino canudo de cana, enchia-a de ar e servia para brincar, como se fosse uma bola.

         O almoço constava, habitualmente, da tradicional sopa à lavrador, couves com feijão, pedaços de toucinho entremeado e rodelas de bom chouriço, que nadavam em abundância no caldo e que faziam a delícia de todos, comendo-se, até, por gulodice…

         Seguia-se o inevitável sarrabulho, com batatas cozidas. Comia-se até mais não e bebia-se melhor, pois o vinho era bom e à discrição.

         A digestão era feita, pelos homens, na costumada “garujada”. Ao redor da comprida mesa, jogadores e assistentes ali passavam a tarde, ouvindo-se constante cantar de seis, nove e acaba-se a moca… para mais depressa se beber outro copo. É que as taçadas de freiras, entretanto trazidas para a mesa, secavam a boca…

         À noite, o jantar era composto de canja de galinha caseira, febras fritas com batatas igualmente fritas e ovos estrelados, e, como sobremesa, as gostosas papas de moado, polvilhadas com canela. É extraordinário como se comia e bebia naquele dia!

         No dia seguinte era o desmanchar do porco, com as carnes para a salgadeira, e a preparação dos presuntos e dos enchidos, que logo iam para o fumeiro.

         Os dias das vindimas também eram passados no meio da maior alegria. Grupos de homens e mulheres, mais novos ou mais idosos, iam manhã cedo para as vinhas. Pequeno cesto numa mão e tesoura  na outra, lá iam de cepa em cepa colhendo os cachos cuidadosamente. Cesto cheio iam vazá-lo à dorna, que estava em cima do carro de bois à entrada do terreno. Cantava-se muito. E, de vez em quando, molhava-se a goela…

         Eu gostava muito de, com um pequeno cesto enfiado no braço e uma velha tesoura de costura, ir vindimar os corrimões. Cortavam-se melhor os cachos. Depois, quando o carro dos bois vinha trazer as uvas à adega, lá vinha eu sentado ao lado da dorna e a comer cachos doces. Quando a vindima acabava e regressavam todos a casa, era a ocasião da pisa, no enorme balseiro. Eram três ou quatro homens que procediam a esta tarefa. Algumas vezes, agarrando-me por baixo dos braços, também me metiam lá dentro. Diziam que dava força às pernas! Mas eu gostava, de verdade.

         E o mosto lá ficava a fermentar, até ser trasfegado para as pipas, onde continuava a fermentação. Depois era feita a água-pé, juntando uns canecos de pura água ao bagaço e prensando o mesmo, pois ainda continha muito vinho. Ficava sempre uma bela água-pé. A faina ainda não terminava, pois havia que levar o bagaço para o alambique, para destilar e fazer aguardente. Algumas vezes, num pequeno barril, metiam mosto e aguardente e faziam jeropiga, a que juntavam algum açúcar amarelo, o que tornava aquilo numa bebida doce e agradável, embora um pouco alcoólica.


         Enquanto fervia o mosto nas pipas elas não eram fechadas, tinham só um marmelo em cima para não entrar pó. Quando acabava a fermentação, eram então as pipas devidamente fechadas e aguardava-se, com alguma impaciência, que chegasse o dia de S. Martinho para, com um pequeno “espicho”, provar o vinho. Normalmente, era sempre bom…

Tavarede no Teatro - 6

                “Pátria formosa, terra bendita,
                Onde correu minha leda infância
                Duma alegria pura, infinita.
               Já te não vejo que mágoa funda!
               De mim tão longe, a imensa distância,
                E que saudade minha alma inunda.
                De meu marido tenho a ternura;
                Dou-lhe também o meu grande amor,
                Se os dois se amam existe a ventura...
                 Não pode haver ventura maior!

         O país é lindo, lindas paisagens, largos horizontes. Vales formosíssimos e imponentes montanhas. Ao longe, muito ao longe, o mar... A habitação é agradável. Eduardo ama-me e procura adivinhar todos os meus pensamentos. Mas não posso esquecer-me de Tching-fon, dos bosques de cerejeiras em flor. A China!... Como a distância a torna ainda mais bela! Ah! Que saudades da minha terra...”.

         É assim que começa o terceiro acto. Flor de Chá, pensativa e melancólica, encontra-se passeando, sòzinha, no jardim de sua casa.

         Quando voltaram da China, donde escaparam milagrosamente às fúrias do Mandarim e de Chin-Fan-tu, a quem haviam raptado filha e noiva, respectivamente, e cumprindo a promessa feita antes de empreenderem a viagem até Macau, em busca da Lúcia-Lima, o aeroplano poisou novamente em Tavarede.

         Foi uma viagem sem incidentes, desta vez. Quando chegaram, tiveram sorte, pois encontraram “uma quinta para arrendar, com uma bela casa, bons ares e boas vistas...” e ali se instalaram para gozarem uns dias de repouso, para depois iniciarem uma viagem por essa Europa fora, até que, aborrecidos e cansados de viajar, partiriam para o Brasil, país tão belo e maravilhoso como a China, dizia a Flor de Chá o seu marido, Eduardo Leirosa, procurando mitigar as saudades que ela sentia da sua terra tão distante.

         A quinta era no Peso. E um dia, depois de ali instalados, Tomás Castanho desceu à aldeia em visita aos amigos, e quando regressou informou que o regedor e a filha, acompanhados de muitos outros, ali iriam para conhecerem “a senhora chinesa”.

         Estava ele a dar a notícia quando entrou o nosso Pinga-Amor, pedindo para ter uma conversa em particular com Tomás Castanho. Vale a pena ouvir o diálogo:

Pinga - É um assunto melindroso de que venho falar-lhe e peço-lhe desculpa pela ousadia... É questão da filha do regedor, da Capitolina, que o sr. conhece muito bem...
Castanho - Sim, conheço...
Pinga - O regedor é um ambicioso, um homem que só vê o dinheiro... quando aqui estiveram persuadiu-se que os senhores eram podres de ricos...
Castanho - Já nos contaram o dinheiro? Pode ser-se rico sem ser podre!...
Pinga - Que tinham mundos e fundos e que casando a filha com um dos ricaços era uma pechincha para ele... e começou a meter a filha à cara...
Castanho - Nunca dei por isso...
Pinga - Toda a gente reparou... sabendo-se já que eu a pretendia...
Castanho - (risonho) E ela dá-lhe d’olho?
Pinga - Agora, não. Amores d’algum dia...
Castanho - Mas não d’alguma noite...
Pinga - Ora essa! A Capitolina nunca capitulou... lá nesse ponto é uma rapariga séria, só gosta das coisas direitas...
Castanho - Estimo saber isso. E ela não é nenhuma peste... e não me desagrada...
Pinga - Então sempre é certo que a pretende?
Castanho - Não digo tanto, mas o mundo dá muita volta e cada um come do que gosta... parece que quer meter-se muito na minha vida...
Pinga - Não, sr.! O que eu desejo é que não se importe com ela, quero que faça de conta que não a conhece... Já lhe confessei o meu sentimento. Sem ela não posso viver... ela é a minha vida... e se a vir casada com outro morro, com certeza... não queira a minha desgraça!...
Castanho - Mas foi o próprio a confessar que ela não lhe dá trela...
Pinga - Se o sr. não a quizer, se saír da aldeia, ela não tem outro melhor do que eu e então aceita-me...
Castanho - Quem sabe lá! Sabe o que diz o ditado: “mulas e mulheres, nozes e castanhas, ninguém lhes conhece as manhas”...
Pinga - Por quem é, sr., deixe esta terra e fará a minha felicidade!...
Castanho - Isso não lhe prometo. Tenha paciência! Quem está bem, deixa-se estar...Sabe que mais? Dou-lhe um conselho... Largue de mão a Capitolina, faça de conta que nunca a viu...
Pinga - E o grande amor que lhe tenho?! Fala bem!
Castanho - Lérias! O amor é uma cobiça... Tudo passa, esqueça-a...
Pinga - Não posso, estou acostumado a vê-la todos os dias...
Castanho - Aí está o mal! Olhe que isto de mulheres é um hábito em que a gente se põe... (Pinga-amor invectiva-o tragicamente)
Pinga - O sr. não tem coração, não é um homem de brio! Torno-o responsável pela desgraça que acontecer... (mudando de tom) Tem muito dinheiro? Pois coma-o de noite como as bestas... Ainda hei-de ver-lhe a cabeça como a dum veado!...
Castanho - Olhe sabe que mais? (fala ao ouvido de Pinga-amor)
Pinga - Vá você, seu grande malcriado! (Castanho entra em casa dando uma gargalhada e Pinga sai)

         Como se vê o conquistador tavaredense não desistia de conquistar o coração de Capitolina, mas... a tarefa era difícil, mesmo impossível.

         Pouco depois entra Gil Chinguiço, o sacristão, para dar uma grande novidade. Tinha, finalmente, aparecido a Lúcia-Lima. Tinha sido o senhor Cura quem lha tinha mostrado. Às perguntas de Leirosa respondia que ela devia ter entre dezoito a vinte anos, que quando estava bem vestida, bem coberta era um encanto e que cheirava muito bem! Bastava passar-lhe a mão por cima e ela deitava um cheiro que regalava!

                O interesse de Eduardo Leirosa pela tal Lúcia Lima despertou o ciúme a Flor de Chá, mas seu marido prontamente a dissuadiu de tal, pois que agora unicamente tinha curiosidade em conhecer aquela que dera origem à viagem

sábado, 11 de julho de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 14

Circo na aldeia


         “ Mencionaremos ainda os trabalhos acrobáticos da praça pública, realizados sobre simples mantas estendidas no chão; outros, mais raros, dispunham de vedações de pano, a coberto das quais se realizavam os espectáculos.
         E ainda a exibição de animais selvagens, amestrados, conduzidos em caravanas de maltrapilhos, os filhos metidos em ceirões, as mulheres semi-nuas e andrajosas, que percorriam as ruas da povoação trabalhando com os animais e entoando cânticos estranhos, ao toque de pandeiros.
         Outras vezes, apenas um homem a tocar realejo, com o seu macaquito amestrado e mesmo sem ele; uma mulher a tocar harpa; uma matilha de cães que davam cabriolas e faziam habilidades, etc.
         E o rapazio, cheio de contentamento pelo gratuito espectáculo, formava círculo e aplaudia calorosamente, em pungente contraste com a vida miserável desses párias da sorte, que nem socorridos eram, muitas vezes, pelos que, podendo sem sacrifício faze-lo, se afastavam discretamente ao passar
a bandeja do peditório”.

         Transcrevi o retalho acima do livro “Coisas da minha terra”, do figueirense José da Silva Fonseca. É que, quando o li, vieram à minha memória os pequenos e humildes espectáculos de rua que, periodicamente, se realizavam em Tavarede, normalmente no Largo do Paço.

         Quando chegava a caravana, a maior parte das vezes uma pequena carroça, puxada por um triste jumento, e com uma coberta que servia de habitação aos artistas, estacionava naquele largo, perto de um espaço mais ou menos liso, que serviria de pista. Algumas das “companhias” montavam um trapézio, dois mastros espetados no chão e devidamente escorados, onde, a razoável altura, baloiçava o referido trapézio. Mas outras, talvez a maioria, tinham somente trabalhos feitos no chão.

         Acabada a montagem, e quando a tarde se aproximava do fim, efectuavam o desfile pelas ruas da aldeia, chamando a atenção da população para o espectáculo circense. Duas ou três crianças conduzindo os animais amestrados, geralmente um pequeno macaco e alguns cães magríssimos, eram seguidos por uma rapariga que, trajando “vésteas” ondulantes, se esforçava por dançar ritmicamente, ao som da banda, composta por um homem tocando, estridentemente, uma trompete e um rapaz que marcava ruidosamente o ritmo num tambor que pendurava a tiracolo.

         De vez em quando a caravana parava. Então, fazendo-se silêncio, ouvia-se um homem apregoando o espectáculo e apelando à comparência do “respeitável público”.

         À hora anunciada acendiam-se dois ou três candeeiros “petromax”, que iluminavam tenuamente a pista. E, ao rufar do tambor, lá se ia juntando alguma assistência. A maior parte, já se vê, era o rapazio da aldeia que, sentando-se no chão ao redor da velha serapilheira, esperava ansiosamente pelo início do espectáculo.

         Invariavelmente, era a pequena contorcionista, que causava dó pela sua magreza, o cãozito que, a mando do domador, dava a volta ao recinto às cambalhotas e que agradecia os aplausos, pondo-se de pé sobre as patas trazeiras, e um número de palhaços, que era aquele que mais nos divertia pelas costumadas peripécias e que sempre terminava ao toque da trompete e do tambor, a que se juntavam as palmas da maior parte dos assistentes. Quando, como atrás referi, havia o número do trapézio, ficávamos todos admiradíssimos com as habilidades da artista, pois quase sempre era uma rapariga, e nos momentos mais arriscados até suspendíamos a respiração. No fim, felizmente, terminava tudo em bem.

         Entretanto, era chegada a hora da cobrança. Uma ou duas das crianças mais pequenas, bandeja na mão e olhar triste, mesmo faminto, davam a volta apelando uma moeda aos assistentes. Com mais ou menos vontade, a verdade é que quase todos davam o seu contributo.


         Era pequena a receita. Mas, pelo menos nesse dia, tinham garantida uma parca ceia, algumas das vezes comprada na loja ali ao lado e cozinhada apressadamente no velho fogão a petróleo. Depois, arrumada a tralha toda na carroça, seguiam viagem até ao local onde pernoitavam, perto de um valado para onde conduziam o burrito que, pela noite fora, ia tasquinhando a relva verdejante, enquando na carroça, amontoados da melhor maneira, os “artistas” dormiam. No dia seguinte, à mesma hora de sempre, e numa outra das povoações vizinhas, ouvia-se o apelo ao “respeitável público”, para o espectáculo que iria começar…         

Tavarede no Teatro - 5

         O segundo acto é passado nos jardins do palácio do Mandarim de Tching-fou, que nesse mesmo dia festejava o seu aniversário natalício.
         Agradecendo as saudações e os elogios dos seus súbditos, “neste dia solene o lotus sagrado, emblema da vida humana, abriu em vossa honra a ebúrnea corola, sinal certo que Fó e Confúcio estão satisfeitos com a vossa administração, que é o espelho das egrégias virtudes do vosso carácter” e “por isso os habitantes de Tching-fou, que é também o vosso povo submisso, saudam a aurora deste dia radiante, e irá hoje em reverente prosternação dizer o seu adeus à luz crepuscular. Viva o magnificente Chi-Sha-lá, nosso sublime Mandarim de botão de cristal roxo”, o soberano responde, satisfeito:

         “Amado povo de Tching-fou! São vossas as ternuras do meu coração e a torrencial gratidão da minha alma! Que Buda despeje a sua cornucópia de bençãos sobre as vossas cabeças e que a sombra de Confúcio vos acompanhe e guie a toda a hora! Quero, mando e ordeno que as minhas 59 primaveras fiquem assinaladas com as vistosas festas que merece tão faustoso acontecimento! Meu povo! Hoje é um regalo d’estalo! Se assim falo é porque sei que todo o vassalo, a pé e a cavalo, não deixará de vir à minha porta tocar ao badalo! Quero anunciar um alto acontecimento, que muito alegra o meu coração: o próximo enlace matrimonial da minha benquista filha Flor de Chá com o destemido Chi-Fan-tu, oficial das milícias de Tching-fou, já agraciado por sua celeste Magestade com o botão de cristal azul. Na alegria das festas não esqueço a justiça! Amanhã será o julgamento dos ocidentais que tiveram o descôco de vir das núvens num passaroco – que berra como um louco – e que ao caír no arrozal sagrado escavacou o telhado da Torre do Silêncio e arrancou as pendurezas do Templo do Céu!”.

         Pois é verdade. Os nossos dois viajantes brasileiros e o seu fiel moleque, que teimaram em ir a Macau à procura da Lúcia-Lima, que para ali tinha ido com o irmão, conforme lhes disseram os cabos de ordens da freguesia de Tavarede, tinham tido o azar de caír, com o seu aeroplano, em pleno arrozal sagrado de Tching-fou, causando estragos nos templos.

         Mas as palavras do Mandarim não agradaram a todos. Flor de Chá, sua filha, que ficou acompanhada pelas suas confidentes, estava triste, melancólica. Depois de muito instada, confessa às suas amigas, sob promessa de segredo, que não amava Chi-Fan-tu, antes o odiava. Quem ela amava, quem de noite e dia lhe absorvia os pensamentos, era um dos estrangeiros! “Foi ele quem acordou o meu coração”, confessa-lhes ela.

         Ora, amar um estrangeiro era crime, na China, um atentado à religião! Mal sabia a princesa que Chi-Fan-tu havia escutado o que ela disse, escondido no jardim. Flor de Chá confessa que antes quer morrer do que pertencer a um noivo que detesta. E canta:

     “Sonhos dourados, grata alegria,
     Que em mim senti; sempre a brilhar
     Mundo d’ilusões em que eu vivia...
    
       Ohh volltai, voltai. E semtardar
       Que eu desfaleço nesta agonia,
       Nesta tristeza d’amargurar!

      Que vale ser nova, ser cortejada,
      Ser rica e filha dum mandarim,
      Se a alma trago atormentada
      Duma tristeza que não tem fim!

      Viram meus olhos um estrangeiro;
       Presos ficaram, presos d’amor
       Como no encanto dum feiticeiro.

       Não sei que chama, que estranho ardor
       Faz em meu peito letal braseiro,
       Que é vida e morte, prazer e dor!

       Buda  clemente minha alma implora
       Do vosso poder a protecção.
       Tirar-me o fogo que me devora
       D’ardor intenso meu coração”.

         Chi-Fan-tu correu logo a contar ao Mandarim tudo quanto ouvira e alertar para o perigo. Este não esteve com rodeios: “Qual perigo qual carapuça! Corta-se o mal pela raíz... Vou num rufo dar ordem para que o julgamento dos tais farçolas seja ainda hoje. Estragaram o arrozal sagrado? Pois eu lhes darei o arroz... e com a dose toda...”.

         Ficou traçado o destino dos viajantes. Flor de Chá, a quem o noivo chinês contou que tudo ouvira e contára a seu pai, bem tentou que ele renunciasse a ela. Pois sim. Chi-Fan-tu, além de estar interessado nela, mais interessado estava no poder e riqueza que tal casamento lhe daria. Mas como haveria ela de salvar os estrangeiros?

         O Mandarim, como se referiu, desejou ser rápido. “Com os selvagens ocidentais dispensam-se formalidades... Julgam-se enquanto o diabo esfrega um olho, corta-se-lhes a cabeça e depois peguem-lhe com um trapo quente”, disse ele quando lhe chamaram a atenção para o facto da sentença dever ser confirmada pelo tribunal de Pequim.

         Entretanto, Flor de Chá, às escondidas, tinha conseguido subornar o Comandante Ferraobico, que era o responsável pela guarda dos estrangeiros nas masmorras da Torre do Silêncio. E conseguiu que ele fosse buscar o seu amado Eduardo Leirosa.

         Quando ele chegou, e depois de rapidamente lhe descrever a situação em que se encontravam, forneceu-lhe os meios para escrever ao consul de Portugal e encarregou-se de lhe fazer chegar a carta.

         Leirosa, que ouviu, enternecido, a declaração, confessou: “sois adorável. Também eu vos amo loucamente. Eu que, ao ver-vos pela primeira vez, quando ontem fui chamado à presença de vosso pai, senti logo que o meu coração ficava agrilhoado aos encantos da vossa formosura. Minha linda chinesinha. Quem pudera levar-vos para muito longe daqui!”. E vai escrever a carta que ela deverá fazer chegar ao destino com a maior urgência.

         Para dar andamento às suas intenções o Mandarim reune, nos jardins da sua residência, os oficiais de justiça, juntamente com os convidados para a sua festa de aniversário. Sentando-se, com imponente solenidade, declara aberta a audiência.

         Após a entrada dos presos, o acusador público lê a acusação: “Os três estrangeiros, vindos dos céus aos trambolhões, caíram no meio do arrozal de que se faz o “sanchow”, que é o vinho para as cerimónias do culto. Antes destes destroços, andaram na passarola a girar por cima da Torre do Silêncio e do Templo do Céu, esgalhando o beiral da Torre e esfanicando as pendurezas do Templo. Por tão espantosos delitos ficaram sujeitos às leis do Celeste Império”.

         Não havia dúvidas. O depoimento era esmagador e a tais crimes, como era do conhecimento de todos, correspondia a pena de morte. As testemunhas nada adiantaram e, para acabar com aquilo, “sua magnificência”, o Mandarim, resolve ler a sentença: “São acusados os estrangeiros Eduardo Leirosa, Tomás Castanho e Juca Rabino, dos crimes constantes dos autos e por isso incursos nas disposições dos artigos cem mil e um e cem mil e dois, e seus parágrafos, do Código Penal Chinês, o que tudo está previsto pelo depoimento das testemunhas e pela irrefutável acusação. Usando, porém, da faculdade que me confere o parágrafo único do artigo sessenta e nove, do mesmo código, que impõe ao juiz a maior clemência, condeno os réus na pena de cabeça cortada, poupando-os à pena da canga por toda a vida e mais seis meses”. Boa clemência, como se vê, e logo ordena a execução da sentença.

         Estava ele a dar esta ordem final quando entra precipitadamente o Cônsul Português a pedir, em altos brados, a suspensão da sentença.

         Ora o cônsul era muito amigo do Mandarim, a quem tinha mandado para a festa dos anos, quatro caixas de vinho do Porto, que o chinês muito apreciava. Depois de muitos rogos e promessas de mais algumas garrafas daquele precioso néctar, o Mandarim resolveu-se a anular a sentença com a condição dos condenados pagarem todos os prejuizos e partirem naquele mesmo dia.

         Resolvida a situação e depois de retirados os brasileiros que, com o cônsul, foram imediatamente tratar dos preparativos para a viagem de regresso a Portugal, continua a festa.

         Dando ordem para começarem a servir as “comedorias e bebedorias”, e antes de se iniciarem as danças, pediram os convidados que se cantassem algumas canções da moda. Tanto insistiram e tanto rogaram, que o próprio Mandarim se resolve a dar o exemplo, cantando em primeiro lugar:

          “Quando eu tinha os meus dez anos
            Era esperto como um gaio
            E tinha grande jeiteira
            P’ra deitar o papagaio.

            Na pagodeira bravia
            Das noitadas de Pequim
            Ora tocava sanfona
            Outras vezes trimbolim.

             Agora na minha idade,
             Já não se vive de tretas,
              São meu regalo da vida
               O cachimbo e as pingoletas”.

         Depois de Mariposa cantar uma canção que aprendera com os marinheiros ingleses nos botequins de Hong-Kong, coube a vez de Folha de Hera que, no dizer do soberano, tinha uma verdadeira voz de ouro:

              “Eu tinha numa gaiola
                Uma linda cotovia
                 Era uma delícia ouvi-la
                 Chilreando todo o dia.

                 Não era só meu o encanto;
                 O maroto dum pardal
                 Vinha fazer-lhe namoro
                 Debruçado no beiral.

                 Desde a alvorada
                  O tal tratante
                  Sempre no posto
                   Era constante,
                    A confessar
                    Seu terno amor.
                    E a cotovia
                    Fazia ouvidos de mercador!
                     Mas passados tempos
                     O tal mariola
                      Conseguiu beijá-la
                      Fora da gaiola
                     E fugiu...”.

         Houve muitos aplausos. Aproveito para dizer que esta canção da Cotovia, quanto a mim, é uma das mais bonitas que se cantaram nos palcos de Tavarede. Era uma daquelas que, de vez em quando e noutros tempos, se ouviam cantar pelas ruas da terra do limonete.

         Acabada a canção, e como Flor de Chá não aparecia, o Mandarim mandou procurá-la. Não a encontraram, claro. Havia fugido com o estrangeiro, a quem dera o coração, no aeroplano que acabara de levantar voo e que, ao passar sobre os jardins, deixara caír o leque de Flor de Chá, numa despedida da princesa a seu pai e aos seus convidados.

         Da canção final deste segundo acto, em que Chi-Fan-tu lamenta a perda da princesa, recorto:

                “Mas a ventura
                  Que doira a vida
                   Nem sempre dura!
                   E a donzela estremecida,
                   Altar d’amor verdadeiro,
                    Entregou-se fementida
                    Ao estrangeiro!
                     Em poucos, breves momentos
                     Desprezou meus juramentos
                     Foi traidora e perjura!

                      (coro) Tal amor foi loucura!
                      Virão depois os tormentos!
                      E o sedutor,
                      O infame estrangeiro,
                       Dela abusou traiçoeiro,
                        Arrancando-a ao meu amor!

                         Meu coração
                         Atormentado,
                          Este amor desgraçado
                           Foi como um sonho, um sonho vão.

                            (coro) Triste ilusão!
                            Só resta a dor

                             No coração!”



sábado, 4 de julho de 2015

Tavarede - A terra de meus avós 3 - 13

Tempos de Escola


         Comecei a escola primária na época de 1941/1942. Era professor dos rapazes o sr. Alberto Coelho, que morava na Figueira. Com ele fiz as duas primeiras classes e depois veio substitui-lo o professor Constantino Gomes Tomé, de Ferreira-a-Nova.

         Precisamente no ano anterior, todos os alunos tinham tirado uma fotografia com o professor Coelho. Ela aqui fica reproduzida e identificados todos os alunos, na sua maioria por alcunhas que já tinham e pelas quais ficaram conhecidos.



         Ainda fui condiscípulo de quase todos, pois, dos que aqui estão fotografados, só três ou quatro acabaram a instrução primária naquele ano.

         Eram tempos muito difíceis. Os professores leccionavam as quatro classes numa única sala. Havia um pátio que servia de recreio e onde estavam as casas de banho. Entrávamos de manhã, vinhamos almoçar a casa ou levávamos qualquer coisa para comer, e só saíamos à tarde. Tenho ideia de que o professor Coelho era mais benevolente para com os alunos e que o professor Tomé tinha um procedimento muito mais exigente. Porém, e que me recorde, só um aluno lhe dava verdadeiros problemas. Era o António Rodrigues, mais conhecido por “Mafarrico”. E, vamos lá, ele era um verdadeiro mafarrico na escola.

         Volta que não volta lá trabalhava a régua ou o pequeno ponteiro, na mão do professor e na cabeça do Mafarrico. Quando ele previa castigo maior, fugia cá para fora. Por baixo do piso da escola o edifício tem uma caixa de ar, relativamente alta. A ventilação é feita por vários buracos resguardados por grades de ferro. São uns buracos rectangulares, relativamente pequenos.  Num deles, do lado do recreio, a grade tinha sido arrancada.

         Naquelas ocasiões mais difíceis, o Mafarrico fugia da sala de aula e, como uma enguia, enfiava o corpo franzino por aquele buraco, refugiando-se lá debaixo. Atrás dele, sempre com a vara na mão, corria o professor Tomé. Mas ali não podia avançar e, pelo menos temporariamente, o Mafarrico estava a salvo. Colérico, o professor Tomé até espumava, enquanto gritava para que o António Mafarrico saísse. Mas ele, que já lhe conhecia o feitio, só depois de bastante tempo decorrido, quando calculava que as coisas estavam mais calmas, é que se resolvia a sair e voltar ao seu lugar. Ainda levava uma ou duas reguadas, mas nada que se comparasse ao que apanharia se não fugisse.

         No inverno era custoso suportar a baixa temperatura. Para já, a roupa e o calçado da maioria, não era suficiente para abrigar do frio. Poucos tinham o luxo de um sobretudo ou outro agasalho… Pelas manhãs, quando íamos para a escola, nos Quatro Caminhos, levávamos as mãos resguardadas… com meias a servirem de luvas. Mesmo assim, quando chegavamos à escola, tinhamos sempre de estar um bom bocado a esfregar e assoprar as mãos engadanhidas, para podermos agarrar no lápis ou no “bril”, com que escrevíamos na ardósia, ou no giz, quando iamos ao quadro.

         Na subida da estrada dos Quatro Caminhos para a Figueira, quando acabava o muro da quinta do Paço e começava o pinhal, existia uma enorme barroca que, com as águas das chuvas, se enchia por completo. Pois o frio, durante a noite, era tal que a água ficava coberta por uma forte placa de gelo, de tal forma grossa que aguentava com o peso dos mais atrevidos, que iam “patinar”. Aos lados, onde o gelo era mais fino, conseguíamos partir pequenos pedaços, que chupávamos  deliciados!

         Também nos Quatro Caminhos, ao princípio do caminho para Buarcos, estavam os velhos edifícios da extinta Cerâmica Exportadora, Lda. Já não laborava haveria cerca de dez anos e, segundo  as notícias que encontrei, chegou a ter uma actividade bastante importante, dando emprego a muitos trabalhadores da zona. Pelos anos de 1920, falou-se muito no prolongamento da linha do caminho de ferro até ao Cabo Mondego, passando pela Várzea e pelos Quatro Caminhos. Se a ideia tem avançado, é natural que a empresa se mantivesse em laboração, mas, por outro lado, toda esta zona, hoje urbanizada, se transformaria por completo.

         Pois, nos intervalos das aulas, os rapazes iam para lá e metiam-se dentro dos velhos fornos, em busca dos pequenos triângulos de argila que seriam usados para separar as loiças durante a sua cozedura. Para nós serviam para brincar como “boxes”.

         Por esse tempo, havia guerra na Europa. De vez em quando, pela estrada da Figueira, a caminho da Serra ou de Buarcos, passavam enormes tanques, com lagartas, que andavam em exercício. Nós íamos vê-los manobrar, pois subiam e desciam valados e pequenas ribanceiras sem quaisquer problemas, o que muito nos admirava. A propósito, recordo-me que, especialmente na Figueira, as casas tinham os vidros das janelas com tiras de papel branco ou de jornal coladas. Era para não se quebrarem com o eventual rebentamento de alguma bomba. Felizmente, não aconteceu, mas, de noite, grandes focos de luz apontados ao céu, procuravam qualquer avião inimigo que se atrevesse a vir até aqui. Também me lembro muito bem das senhas do racionamento de vários produtos alimentares, como o açúcar. Só comprava quem tivesse a correspondente senha. Tempos difíceis, na verdade.

         A quinta do Paço, desde o palácio até à barroca acima referida, era vedada por um velho muro. Não me recordo de ver, em qualquer outra parte, tantos sardões como naquele muro. Eram imensos, e quando o sol começava a aquecer, iam para o cimo do muro aquecerem-se. Uma das nossas diversões era atirarmos pedras com as fisgas, procurando acertar-lhes. Às vezes lá havia um que apanhava pedrada, muitas vezes mortal, mas eles caiam para o lado de dentro da quinta. Mas não se notava a falta, tantos eles eram. Um dia, recordo-me, agarrámos um com um laço e levámo-lo para o largo dos Quatro Caminhos. Não sei como, mas a verdade é que o bicho conseguiu dar uma mordidela num calcanhar, julgo que do Zé Figueiredo, que teve de ir ao hospital da Figueira fazer o curativo.

         Cá em baixo, frente ao palácio, do lado da quinta, existia um pátio onde, entre outras aves, haviam diversos pavões. Gostávamos muito de os admirar quando eles abriam as caudas coloridas… Num pau, do lado da estrada, estava preso um pequeno macaco, um “saguim”, que passava a vida a subir e descer o pau, sentando-se a descansar no alto, onde tinham pregado uma pequena tábua.

         Quando acabávamos a escola e fazíamos o exame da quarta classe, aqueles que quizessem, ou tivessem possibilidades de prosseguir os estudos, na Escola Industrial e Comercial ou no Liceu, tinham que ir fazer novo exame para admissão, mas este era feito na Escola do Conde de Ferreira. Uma vez aprovados, prosseguíamos os estudos, sendo muitos os que optavam pelo curso nocturno, o que lhes possibilitava empregarem-se na Figueira, para angariação de um parco rendimento, bem necessário à vida familiar.


Tavarede no Teatro - 4

         Mas, enfim, cada qual tem a sua opinião e os críticos lá terão tido as suas razões para escreverem aquilo. Mas o último deles acabou por me surpreender imenso quando, um pouco mais adiante e ainda sobre o enredo da opereta, escreveu “e para rematar as minhas considerações ácerca do valor da peça, devo dizer que era perfeitamente dispensável a pornografia que a esmalta, que para mais não serve senão para gáudio da gente ignorante que gosta sempre de ouvir porcarias”.

         Muito castos deveriam ser os ouvidos deste comentarista. Ver-se-á, adiante, na transcrição de um ou outro fragmento da peça, que Gaspar de Lemos lhe dá, aqui e ali, uns laivos mais picantes, mas considerar pornográfico o texto desta opereta é que me parece “um disparate completo”.

                                                        ***

         Quando o pano sobe, a cena representa o Largo da Igreja, de Tavarede. A um dos lados vê-se um trecho do ribeiro, com as pedras que serviam de lavadouro.

         O regedor da freguesia, Zé Badaleiro, havia recebido dois dias antes, uma carta de Lisboa avisando-o da chegada de dois brasileiros, parece que podres de ricos, recomendando “que se recebam e tratem com toda a bizarria”. A modos que vinham em viagem de recreio e muito empenhados em visitar esta terra, onde vêm procurar uma tal Lúcia-Lima, que parece “que é senhora duma lindeza de alto lá com ela”.

         O pobre do regedor tratou de imediato de reunir as pessoas mais importantes da terra para tratarem da recepção e, quando recebeu um telegrama avisando da chegada nesse dia dos visitantes, tratou de juntar as pessoas no largo da Igreja e preparar tudo condignamente. O pior é que nem na aldeia, nem nas redondezas, ninguém conhecia tal senhora. Nem mesmo Pinga-Amor, como o nome diz o “conquistador” da terra e que, diga-se desde já, andava doido de amor pela linda Capitolina, a filha do Zé Badaleiro. E se este a não conhecia, quem haveria de conhecer a tal Lúcia-Lima?

         Ora o nosso Pinga-Amor, pouco amigo de trabalhar e que dizia constantemente a Capitolina “tu bem sabes como eu te quero, que não vejo outra mulher neste mundo; que a minha maior ambição seria levar-te à face do altar”, com toda a certeza mais interessado no dote que o regedor haveria de dar à filha, do que na rapariga, quando ouviu falar em brasileiros ricos, à procura de uma mulher, ficou temeroso com a possível conquista da sua pretendida, por parte dum dos visitantes, e logo começou a pensar na maneira de os mandar para bem longe mal chegassem.

         Pouco tempo depois, o tal “passaroco dos brasileiros” desceu na Várzea e, ao aviso recebido, logo se juntou o povo, aguardando a chegada dos viajantes. Mal chegaram ao largo, a comissão de recepção, deseja-lhes as boas-vindas cantando:

      “Aceitai, meus senhores
     Nossa saudação
     Pela visita honrosa
     A esta povoação.
     A gente rica e pobre
     Desta linda aldeia
     Salta de contente
     De vos ver anseia.

     Visitantes
     Cativantes
     São por todos
     Aclamados.
     Nossos peitos
     Satisfeitos
     Soltam ledos
     Altos brados.

     Podeis entrar tranquilos,
     Nobres forasteiros
     Em nós há só amigos
      Francos, verdadeiros”.

         Cativados com esta recepção, um dos brasileiros, Eduardo Leirosa, o tal que procura Lúcia-Lima, diz então: “Em meu nome e do meu amigo Tomás Castanho, agradeço penhorado a carinhosa e festiva recepção que nos fazem. Pelas pessoas que de Lisboa nos recomendaram contávamos com bom acolhimento, mas pelo que vejo, tanto o sr. Zé Badaleiro como os seus amigos e povo desta linda terra, são todos muito amáveis e hospitaleiros... Repito: muito gratos, muito gratos...”.

         E depois de feitas as apresentações dos brasileiros, não esquecendo “o nosso moleque, o criado Dominus-tecum que não deve ficar em silêncio. É mulato cor de café com leite. O café veio-lhe da mãe e o leite é do pai...”, o regedor convida todos para irem a sua casa beberem um copo do tinto, na adega, e, por sua vez, apresenta as pessoas gradas da terra:

Badaleiro – Este é o amigo Aleixo Furão. É cabo do mar reformado. Navegou por Séca e Méca. Só lhe faltaram os olivais de Santarém. É Furão mas já não justifica o apelido. Aqui têm o Cosme Papóia. É o nosso barbeiro e o nosso médico. Como barbeiro tira o coiro e deixa o cabelo. Como médico receita para todas as moléstias o unguento de soldado. Tem curas admiráveis!
Dominus-tecum – (áparte) – Bem sei. P’ra rapeira não há melhor!
Badaleiro – (continuando as apresentações) – O nosso sacristão Gil Chinguiço. Muito prático em badalo e galhetas...
Pinga-Amor – Ele manobra o badalo e a mulher apanha as galhetas...
Badaleiro – Uma notabilidade da terra, o Brás Piúga. Músico de fama. Tocava gaita de foles mas rompeu-se-lhe a bexiga e a gaita ficou estragada. Agora toca berimbau e diz muito bem: “Piolho!”.
Pinga-Amor – E tem sempre o berimbau afinado...
Badaleiro – (continuando) – Finalmente temos o nosso estimado Pinga-Amor, amador dramático de três assobios. Fez belamente o papel de urso no drama “Covis das focas”. Chamam-lhe Pinga-Amor porque todo se baba com as mulheres...
Dominus-tecum – Lá no Rio chamam-lhe doença do queixo caído...
Leirosa – São muito interessantes os seus amigos...
Castanho – (para Pinga-Amor) – Os meus parabéns sr. Pinga, estimarei que a doença não vá mais longe...
Badaleiro – Quero agora apresentar-lhes a minha filha Capitolina. (para a filha) Anda cá, menina. Apesar da educada na cidade é um pouco acanhada e por isso hão-de desculpá-la.
Castanho – (áparte) – Será acanhada mas é um peixe d’estalo! Sim, senhor...

         Feitas as apresentações e ainda antes de saírem, o Leirosa mostra o anúncio que os levou a fazer tão grande viagem e pergunta se alguém pode dar alguma informação.

         O Pinga-Amor lê, em voz alta: “Senhora nova, sem fortuna mas formosa, de boa reputação e bem prendada, deseja contraír matrimónio com cavalheiro respeitável e em condições de manter o decoro e decência de família digna de toda a consideração. Quem pretender, dando referências idóneas, queira dirigir-se a Lúcia-Lima, Beco das Poias, Tavarede”. Ninguém conhece. Mas o regedor aguarda a chegada dos cabos de Caceira, Casal da Robala, Carritos e Saltadouro, a quem mandou chamar e talvez algum deles conheça a tal Lúcia-Lima.

         Depois de saírem todos, Pinga-Amor agarra Capitolina por um braço e tenta, mais uma vez, que ela aceite os seus galanteios. Também uma vez mais ela recusa e foge, deixando-o desalentado e a reflectir:

         “Parece-me que dei no vinte. Trata-se assim, despreza-me, talvez com o cheiro nalgum dos brasileiros. São ricos, avezam grosso bagulhame. Podem satisfazer os caprichos desta ambiciosa duma figa! E eu? Um triste flautista que não tem onde caír morto... Ah! Mas se assim é, podem contar comigo. Eu mexerei os pauzinhos que ambos os moinantes hão-de ir calcurriando daqui para fora...”.

         Estava pensando como proceder quando lhe surgiu uma ideia, mal viu entrar em cena os esperados cabos de ordens. Depois de saber que eles não conheciam, nem nunca ouviram falar, de Lúcia-Lima, faz-lhes uma proposta:

         “Olhem cá! Querem vocês ganhar cem mil reis? Vocês vão dizer ao sr. regedor que no Cabeço do Mioto morava aqui há meses a tal Lúcia-Lima, bonita rapariga, irmã dum capitão da tropa, que tem andado lá pelas Áfricas, que aqui veio de licença e que depois a levou para Macau”.

         Naquele tempo, cem escudos era muito dinheiro. Nem pensaram que Pinga-Amor era um pobretanas e que não teria dinheiro para lhes pagar, mas aceitaram logo e foram para casa do regedor dar a notícia.

         Não hesitaram os brasileiros. Logo Leirosa diz: “Na verdade é um contratempo com que eu não contava. Mas, já agora, não desisti de procurar a Lúcia-Lima. Com um aparelho como o meu vai-se ao fim do mundo. Partiremos agora mesmo para Macau, que é terra portuguesa”.

         Bem os procurou dissuadir da viagem o Zé Badaleiro que notou os olhares que Tomás Castanho deitava à sua filha e que lhe parecia um excelente partido para Capitolina. Mas, nada feito.

         E depois das despedidas, eles vão partir enquanto o coro canta:

           “Ao deixar a nossa aldeia
             Para arrostar mil baldões
             Não se quebrou a cadeia
              Que prendia os corações.

              Ao voltar do fim do mundo
               Lá dessas terras d’além
               Lembrai-vos da gente amiga
               Passai por aqui também.

               Adeus prezados amigos!
                Neste solene momento
                Pediremos aos céus vos guiem
                A bom porto e salvamento.

                 Nesse Macau tão distante
                 Não encontrareis ninguém
                  Que com tanto desinteresse
                  Vos estime e queira bem.

             
                                           ***