sábado, 8 de agosto de 2015

Tavarede no Teatro - 9

“Pátria Livre”

         “Está solenemente proclamada a independência desta freguesia, que fica constituída em República”. É com estas palavras que o Comandante das Tropas se dirige ao povo que se encontra reunido nos Paços da República.

         E, depois de cantarem o coro de abertura desta fantasia:

                                               “Neste dia abençoado
                                               Caíram nossas cadeias
                                               É façanha que dá brado
                                               Por todas essas aldeias.

                                               A tropa audaz e valente
                                               Tornou nossa Pátria forra.
                                               Soltemos um viva ingente
                                               À República de Andorra.

                                                        Saudemos todos
                                                        Com alegria.
                                                        Ela nos trouxe
                                                        Paz e alforria.

                                               Os da Figueira tirana
                                               Que se não façam pimpões;
                                               Que esta tropa duma cana
                                               Vai-lhe outra vez aos fungões!”

o povo desata em altos vivas e aclamações à nova república do Limonete! No meio de todo aquele entusiasmo, o Comandante proclama: “o cidadão Agostinho Pandorgas, que está presente, fica sendo, pelos seus merecimentos e mais partes, Presidente da República e nomeará ministério”.

         O cidadão indicado aceita, comovido e grato, o cargo para que o escolhem. “Obrigado! Muito obrigado! Bravo Comandante: agora que estamos libertos do jugo odioso, consinta que em nome deste povo lhe agradeça o heroísmo com que levou do rabo a cabo esta façanha imortal. Bendito e louvado seja o vosso nome, agora e na hora da nossa morte”. E parafraseando Napoleão Bonaparte, termina: “dos altos da Chã, dos cimos da Vergieira e do Casal da Robala, do cume do Peso e das encostas do Saltadouro, mais de 40 laparotos o contemplam!”.

         Pois é verdade! Quem diria que, mais de cento e cinquenta anos depois de ter perdido todo o seu poderio em favor da nova vila da Figueira da foz do Mondego, a terra do limonete, num heróico golpe das suas tropas revolucionárias, reconquistaram, não o seu poder antigo, a sua câmara e as suas justiças, mas muito mais do que isso. Conquistaria a sua independência!

         O seu território era pequeno, sem dúvida, mas era mais ou menos do mesmo tamanho dessa outra república a que se comparavam, a república de Andorra. É que, como o bravo comandante disse logo a seguir:

         “Este nobre povo não podia por mais tempo gramar a tirania que pesava sobre ele. Acabaram os vexames, as contribuições, as licenças do carro e caça, o serviço braçal! Quebraram-se os grilhões que nos prendiam à maldita Figueira. Já era tempo de dar liberdade a este povo, que andava pelas azinhagas a gemer as suas dores...”. De barriga, completa o governador.

         É claro que tal acontecimento teria que dar brado. Rapidamente a notícia chegou a Lisboa e um jornal de grande circulação nacional, “A Bomba Social”, logo mandou a Tavarede um dos seus jornalistas mais qualificados, para averiguar e noticiar a situação real do acontecimento.

         Delfim Pirolito, o jornalista, logo que chegado à terra do limonete, pediu audiência ao presidente nomeado, que lha concedeu de imediato. Vejamos como correu:

Presidente - Queira dizer.
Jornalista - Venho, comissionado pelo meu jornal, a indagar as causas da revolução que há dias rebentou em Tavarede e que, pelo que agora me disseram e eu estou vendo, saiu triunfante.
Presidente - Aqui tem o heróico comandante das nossas tropas que lhe põe tudo em pratos limpos.
Comandante - É simples. Fartos dos mandões da pátria do caranguejo, fizemos a revolução enquanto o diabo esfrega um olho e implantámos a República.
Governador - É p’rá frente é que é o caminho, que p’ra traz mija a burra.
Comandante - O sr. Presidente lhe explicará o resto.
Presidente - Ora vá tomando nota no canhenho. Primeiro do que tudo tenho a dizer-lhe que da Figueira não precisamos nem da ponta dum chavelho. Aqui temos tudo o que é preciso e para dar e vender.
Governador - Pois a Figueira ainda apanha o que nos cresce...
Presidente - A boa couve tronchuda, e bom nabo, o rico pepino, o belo tomate, repolhos grandes como nádegas de raparigas, e um fartote do bendito fruto...
Jornalista - ... Do vosso ventre?
Governador - Qual? Esse é todo apanhado pelas gandaresas...
Comandante - De peras é tal a fartura que comemos duas de cada vez.
Jornalista - Que lhe faça bom proveito.
Comandante - Belíssimos pêssegos...
Jornalista - Pêssegos também?
Governador - É riquíssimas pêssegas! Daqui!
Presidente - Finalmente, nem a verdura dos campos escapa.
Jornalista - Manducam também o verde?
Presidente - Como vê, não precisamos da Figueira para nada. Temos tudo: a estação do caminho de ferro, o matadouro, o Hospital Militar...
Comandante - E até o próprio cemitério é do nosso território.
Governador - Para encurtar razões: não teem onde cair mortos.
Presidente - Mas há mais: A Figueira sem Tavarede estaria na escuridão. A central da Companhia Eléctrica tem seu assento nesta freguesia.
Jornalista - E já cá chegou a luz eléctrica?
Presidente - Ora essa! Pois não havia de chegar?
Jornalista - Deixe-me V.Exa. tomar nota. Isso é muito importante. Porque me tinham dito que a terra era pequena e pobre.
Presidente - Sim. A terra é antiquíssima. Vem do tempo dos godos. Já foi rica. Agora não avesa cheta...
Jornalista - É como muitos fidalgos de quatro costados. Não tem riqueza mas tem nobreza.
Governador - Ora cebolório! Fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia...
Presidente - Nos tempos antigos, no tempo dos godos, alumiava-se com tições e archotes de resina; depois veio o azeite, mais tarde a vela de cebo e o petróleo, depois a acetilene e, finalmente, a electricidade.
Governador - Olhe: aí vem a procissão das lamparinas.

         Depois de entrarem, cantando, são apresentadas ao jornalista. Primeiro a candeia de azeite, a mais velha, “sou a luz dos pobresinhos. O progresso persegue-me constantemente, mas a candeia velhinha existe ainda em muitas casas”. Depois o candeeiro a petróleo que fumaça como um catraeiro, “mas sou uma rica luz. Não cheiro bem, mas...”. Segue-se o acetilene que se cheira mal é porque tem o cano roto, pois que é um gás civilizado, mas se lhe chegam a mostarda ao nariz, estoira como uma bomba! Finalmente, chega a vez da electricidade, muito requestada pois “todos me querem em casa e até nas ruas, mesmo nos sítios mais escusos!”.

         Acabadas as apresentações as luzes saiem da cena, onde entra, momentos depois, a Comissão de Irmãos da Irmandade do S. Martinho que, saudando o presidente da República e dando a sua inteira adesão ao movimento, transmite a sua reinvindicação:

         “Excelência! Em nome da Confraria a que pertencemos, entrego nas mãos de V.Exa. esta representação. O que aí se pede é pouco, muito pouco, e esperamos que o governo nos atenderá! Queremos que seja revogada a lei das tabernas; queremos que elas estejam abertas a toda a hora, de dia e de noite, como as boticas; queremos inteira liberdade de culto e que cada um possa adorar o orago da freguesia a toda a hora que lhe dê na gana; e pedimos também que o governo dê um prémio por cada capela que de novo se abrir no território da nossa República”.

         Lá ficou o governo de estudar o assunto, pois os confrades tinham muita importância local, com festa que “começa pelo vinho novo e vai por todo o vinho velho!”. E continua a conversa, afirmando o presidente que “nada precisamos da Figueira, ao contrário, ela é que tudo precisa de nós. Não contente com o que nos come, até a água nos bebe...”.

         Pois, pudera! A água de Tavarede tinha fama universal e muitas propriedades urinéticas...


         “Puro engano, esclarece o presidente. A água que a Figueira nos chupa por um canudo, é para ela um verdadeiro canudo. Tem mais cal que os fornos da Salmanha”. E era bem verdade. A água ia para a Figueira, desde o Praso, lá ao cimo do Vale de S. Paio, da nascente do Olho de Perdiz, pela grande conduta que ia dar aos depósitos do Pinhal, aonde era tratada com cal antes de distribuída. “Agora a água da nossa fonte, isso é outra loiça! É especial. Fina, pura, saborosa, aveludada. É um regalo! Para desenvolver as teorias dos intestinos não há melhor...”.

sábado, 1 de agosto de 2015

Tavarede - a terra de meus avós - 17

Acabou o S. João de Tavarede



         Começo por dizer que as festas ao S. João, em Tavarede, acabaram no ano de
 1927. Mas, o que muito poucos saberão é como, e porquê, o querido santo casamenteiro, tão do gosto da gente da nossa terra, deixou de ser aqui festejado. Pois é isso mesmo, o que pretendo fazer agora.

         Não encontrei, pelo menos até ao momento, elementos concretos que informem desde quando se realizavam as festas ao S. João, na nossa terra. A primeira notícia que colhi, na imprensa figueirense, data de Julho de 1874 e nela se escreve que “terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da vila ao milagroso S. João. É a antiga vila de Tavarede quem todos os anos, permita-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado sistema de festejar o Santo com mascarada, cavalhada, corrida de prémios, etc. etc.”.

         A Figueira festejava, como hoje, o seu santo, no dia 24 de Junho. Seguia-se, no primeiro fim de semana de Julho, Buarcos e, depois, Tavarede. Esta é a razão da expressão acima “cobrir a rectaguarda”. Todos os anos eram estas terras, junto à sede do concelho, que festejavam o S. João com maior pompa. Ainda durante o mês de Julho e, algumas vezes, em Agosto, em Brenha e Quiaios haviam tais festas, o que prova a razão do povo quando diz que “o S. João a todo o tempo tem vez”...

         Voltando ao nosso S. João, as notícias recolhidas indicam que a terra do limonete apresentava, nessas ocasiões, um interessante aspecto festivo: “a comprida rua da terra, iluminada por vistosos balões venezianos suspensos de arcadas vestidas de buxo”. As princípio, as festas decorriam somente no largo da Igreja, onde, além das tradicionais barracas de “comes e bebes”, “quermesse” e outras, habituais em festejos populares, se armava o pavilhão, profusamente engalanado e iluminado. Era ali que “a gente dos campos, a boa gente alegre e de consciência tranquila, se entregava aos prazeres da dança, atroando os ares com as suas canções poéticas do santo popular”.

         Como já referi, as festas ao S. João eram mistas, sempre compostas por uma componente religiosa e outra pagã. A parte religiosa era cumprida, exclusivamente, dentro da igreja. Ao longo da semana, tinham ali lugar as novenas e os sermões, estes proferidos por orador religioso de reconhecido talento e cujas prédicas culminavam na missa de domingo, em que a presença de fiéis era sempre bastante numerosa.

         Esta missa era o ponto alto das celebrações religiosas, sempre a grande instrumental, pela filarmónica contratada e, algumas vezes, pela tuna de Tavarede ou por um conjunto formado por alguns elementos seus, e cantada por um grupo coral, frequentemente vindo de Coimbra para este fim.

         A componente popular iniciava-se no sábado, depois das cerimónias religiosas. Em primeiro lugar havia o concerto pela banda, no pavilhão, durante o qual era lançado fogo de artíficio, do ar e preso. Acabado o concerto, seguiam-se as danças e os descantes, que tinham a participação da tuna local, quando se encontrava organizada, ou um grupo de músicos reunidos para o efeito. Também as tunas de Caceira e Fontela algumas vezes aqui vieram colaborar nos festejos.

         É claro que, durante toda a semana, o costumado Zé Pereira percorria os diversos lugares da freguesia, acompanhando os “mordomos” que faziam o peditório. E o arraial só na madrugada de domingo, já ao romper do dia, é que terminava a função.

         No domingo, acabada a missa solene, último acto religioso das festas, a comissão dos mordomos ia receber das mão dos senhor prior a “bandeira”, pendão que abria o cortejo das cavalhadas e que, durante o ano, ficava à guarda da Igreja.

         Organizava-se, então, o cortejo. Nas semanas anteriores, Tavarede recebia a visita das cavalhadas da Figueira e de Buarcos. Competia, agora, fazer a retribuição. Recordo a notícia de um destes cortejos:

         “Era digna de ver-se aquela pitoresca caravana, que apresentava os mais extravagantes contrastes. Vinha ali de tudo. A sobrecasaca urbana e o chapéu fino dos padrinhos, os trajos domingueiros das frescas moçoilas de Tavarede, os vestidos de fantasia dos mascarados e a sordidez plebeia dos aldeões. E na frente de tudo aquilo a gaita de foles e o clássico zambumbas”.

         O cortejo ia, em primeiro lugar, junto da Igreja de S. Julião, onde era aguardado pela filarmónica. Ali chegado, dava as tradicionais três voltas à igreja, enquanto a banda entoava alegre marcha. Os barulhentos foguetes subiam ao céu estralejando e os sinos repicavam alegremente no alto das torres. Seguiam, depois, a dar as costumadas voltas à Reboleira e à Ribeira (Praças Nova e Velha), seguindo, após isso, para Buarcos, onde subiam até à capela da Senhora da Encarnação.

         Aqui chegados, faziam uma pausa para descanso e recuperação de forças, muito em especial dos animais, que já deviam ir bem cansados. Certamente que se petiscava e beberricava alguma coisa e, pouco depois, era o regresso a Tavarede, pelo caminho do Alto do Forno.

         À entrada de Tavarede, no Largo do Paço, já se encontrava à espera a filarmónica que, depois, seguia à frente do cortejo, atravessando a aldeia, até ao Largo da Igreja, ao mesmo tempo que mais foguetes subiam ao ar e os sinos também se faziam ouvir alegremente. Chegados, iam depositar a “bandeira” na Igreja, e destroçavam a seguir. Era chegado o momento de recomeçar o programa: concerto, descantes e danças, que acabavam cerca da meia-noite.

         Refiro que, enquanto as cavalhadas faziam a sua volta, tinham lugar as provas desportivas, como corridas pedestres, de sacos, pés atados, rosquilhas, etc. Alguns anos acontecia que estas provas só se realizavam na tarde da segunda-feira seguinte.

         Era assim, com mais ou menos brilho, que se festejava o S. João na terra do limonete, muito dependendo dos mordomos e do dinheiro que conseguiam obter nos peditórios.

         Naturalmente que havia, de vez em quando, alterações no programa, como, por exemplo, o próprio local das festas profanas. Pelo número de participantes e forasteiros, talvez por questões de rivalidades, e adiante se verá um destes casos, no final do século dezanove já se armavam mais dois pavilhões. Além do Largo da Igreja, começaram a utilizar o Largo do Forno e o Largo do Paço. Era conforme a vontade dos festeiros. Claro que, precisamente por isso, há notícias de algumas histórias curiosas. Talvez que a mais interessante terá sido a do ano em que, por rivalidades internas, os mordomos não se entenderam, pelo que foram organizadas duas festas. Aconteceu no ano de 1892. Primeiro, um grupo dos festeiros, “com caloroso entusiasmo, pegando na bandeira grande, realizou bonitos festejos no domingo último”, e, depois, “amanhã, se Deus quizer, um grupo adversário, empunhando a bandeira pequena, diz que não ficará atrás em lamparinas, foguetes e outras mirabolâncias de embasbacar”. Ou, então, uma outra, ocorrida no ano de 1889, em que o padre António Augusto da Silva Nobreza se recusou a entregar as bandeiras aos mordomos da festa e para que a cavalhada não deixasse de se efectuar com bandeiras, resolveram ir à missa com novas bandeiras, escondidas, que “seriam levantadas ao alto no momento em que o padre dava a benção final. Assim, ele não podia deixar de abençoar as novas bandeiras e a festa seria feita com bandeiras devidamente benzidas”…


         E antes de contar a história das últimas festas sanjoaninas, no ano de 1927, ainda vou narrar um outro episódio aqui ocorrido no ano de 1907. A sua curiosidade deve-se ao facto de ser passada entre dois festeiros, ambos irmãos e ambos taberneiros. Com certeza que a historieta será desconhecida da maioria dos meus conterrâneos.

Tavarede no Teatro -8

         Era este o entrecho da fantasia “Em busca da Lúcia-Lima”. Simples e acessível aos tavaredenses, como era intenção do autor e seus colaboradores.

         Para que fique para a “história”, vou aqui deixar mais alguns apontamentos daquilo que encontrei na imprensa de então. Como referi na parte inicial, não houve uniformidade de opiniões quanto ao chamado “libreto”. No entanto, o que praticamente não teve contestação foi a parte musical, que se considerou “uma partitura soberba, feliz na inspiração e na beleza da orquestração, com números originais tão perfeitos como apropriada é a adaptação dos coordenados”.

         E enquanto o comentarista da “Gazeta da Figueira”, sobre este tema, escreveu “empreste-lhe (o leitor) o culto gosto de António Simões, fornecendo-lhe música viva, saltitante, travessa, achando sempre o motivo próprio para cada recorte do poema”, em “O Figueirense”, o tal crítico que não tinha gostado do texto, refere: “Principio por dar um abraço no António Simões, que foi feliz na música que coordenou e na instrumentação com que a compôs. Só não gostei de ver chinesas a cantar música regional portuguesa. Mas, áparte este senão, escolheu música muito bonita, que se ouviu com agrado e soube manter em ordem os coros que por vezes quizeram fugir dela. Bravo, seu maestro!”.

         Quanto ao desempenho que “áparte pequenas deficiências inevitáveis nos melhores grupos de amadores, foi bom, brilhante e perfeito por vezes”. Também aqui arquivo alguns comentários sobre intérpretes e seus personagens.

         Idalina Fernandes fez com distinção a Flor de Chá, imprimindo à personagem a tristeza requerida, “sendo pena que a sua voz seja tão pouco extensa e não lhe permita vencer as dificuldades da parte que lhe coube na partitura, devendo, no entanto, dizer-se que cantou muito bem a romanza do segundo acto”.

         Virgínia Monteiro fez uma Capitolina insinuante, alegre, risonha. “Com o tique da menina de aldeia educada na cidade mas que não pode desmentir o ditado: - o que o berço dá...”. Jaime Broeiro e António Graça afirmaram-se como amadores distintos e conscienciosos; A. Santos, J. Cascão e A. Silva também são amadores com qualidades aproveitáveis; J. Vigário foi bem no Mandarim não parecendo um principiante e F. Carvalho, que é também um bom elemento, cantou com segurança a sua parte no concertante final do segundo acto, outro tanto não podendo dizer-se do dueto com Flor de Chá, que saíu incerto. Os outros amadores em papéis de menor responsabilidade, bem como os coristas, mostraram-se cuidadosos, contribuindo para o agradável conjunto”.

         O já referido crítico de “O Figueirense” que não gostou do “libreto”, também não gostou de alguns pormenores do guarda-roupa e quanto ao desempenho gostou “porque os amadores esforçaram-se por bem desempenhar os seus papéis”. Aponta alguns casos que lhe pareceram mais fracos, como, por exemplo, José Vigário, no Mandarim, que “enquanto todos os seus familiares e respectivo povo andavam e revelavam gestos como é uso nos habitantes do Celeste Império, ele dava passos de metro e gesticulava largo de mais, dando-lhe, por vezes, a impressão de estar a ver o diabo do Presepe!”.

         Termino as notas sobre “Em busca da Lúcia-Lima” referindo a encenação. “A Voz da Justiça” diz que “a Sociedade de Instrução tem direito aos nossos aplausos pela maneira como pôs em cena a peça, não se poupando a despesas para que o cenário e indumentária (o guarda-roupa foi fornecido pela Casa Cruz, de Lisboa) fossem o que devia ser. A opereta teve uma apresentação brilhante, sendo de efeito deslumbrante o segundo acto, no qual se exibiu um guarda-roupa a rigor e luxuoso”.

         E enquanto a “Gazeta da Figueira” regista a “encenação primorosa desse inteligente moço que é José Ribeiro, tão profundamente fino e esperto, quanto simpaticamente modesto”, o nosso crítico de “O Figueirense” escreve: “Para quem vai a minha admiração máxima é para o ensaiador, sr. José Ribeiro. Só quem sabe o que é ensaiar amadores, sejam de que arte forem, é que pode avaliar o trabalhão que ele teve para apresentar a opereta como ela foi apresentada. Sim, senhor, muito bem. Boas marcas e muita ordem na entrada e saída de cena dos diversos personagens. Se tivesse duas mulheres que cantassem bem, e um rapaz que tivesse boa figura e boa voz, o sr. José Ribeiro podia abalançar-se a representar operetas, já não digo de autores consagrados, mas peças escritas com ordem e que um público ilustrado ouvisse com agrado, porque tem jeito para ensaiar e sabe disciplinar a sua gente”.


         E pronto. Desço o pano sobre a opereta “Em busca da Lúcia-Lima” e vou imediatamente passar à seguinte.

Em busca da 'lúcia-Lima - 2º. acto

domingo, 26 de julho de 2015

Tavarede - a terra de meus avós - 16

E quanto mais?...

        
Muitas outras coisas teria a recordar. Mas, além de não querer alongar em demasia estas recordações, penso que já deixei uma imagem, talvez ténue, da vida da minha aldeia nos recuados tempos da minha infância e mocidade.

         Tínhamos uma vida feliz. Tavarede, já o disse mais do que uma vez, era uma terra agradável. E, sobretudo, tinha uma vida sossegada e pacata, aonde raramente a tranquilidade era perturbada. Nos nossos tempos livres, andávamos à vontade por todo o lado.

         Aos domingos, se a parte da manhã era ocupada para actualizarmos os apontamentos da escola e outras tarefas como, por exemplo, limpar a bicicleta, o nosso meio de transporte, a parte da tarde, e isto quando não havia bailarico ou teatro, era dedicada a grandes passeios pelos arredores, em grupos mais ou menos numerosos.

         Umas vezes íamos pela Várzea, onde apreciávamos aquela enorme cobertura verde das leiras das nossas afamadas couves, atravessávamos a Quinta do Robim e seguíamos até ao Casal da Robala, regressando pela Vergieira e pela Chã. Outras, caminhávamos pela estrada da Chã a Caceira, passávamos o Vale do Porco e descíamos áquela povoação, regressando pelos Carritos. Estes passeios eram mais usuais nos meses de Março e Abril, pois era a época propícia à busca dos saborosos rebentos dos espargos bravos, que são saborosa merenda em omeleta. Os valados e os pinhais eram cuidadosamente vasculhados à sua procura.

         Por falar em merenda, recordo quando, com meu pai, ia ao quintal do Ferreira, à procura dos caracois grandes, as caracoletas, que rastejavam lentamente nas ervas das valas e no valado do ribeiro. Apanhávamos grande quantidade e, chegados a casa, meu pai cozia-os com água e sal, após o que aproveitava só o corpo do bicho. Laváva-os em vártias agues, até ficarem completamente limpos. Fazia, de seguida, uma enorme omeleta e só digo que era um petisco de primeira…

         No verão e outono, as nossas voltas, habitualmente, encaminhavam-se pelo caminho do Peso ou pelas Azenhas e Pejeiros, para as encostas da Serra donde, muitas vezes, passávamos ao Saltadouro. Andávamos muito, pois não era raro chegarmos a subir ao monte Crasto, da parte de cima do Prazo.

         Mas, forçoso é dizer a verdade, estes passeios não eram totalmente inocentes. Não seguíamos sempre pelos caminhos normais. Aqui e além, embrenhávamo-nos pelo meio dos pinhais ou das vinhas, em direcção aos sítios onde sabíamos estarem as árvores de fruta que, com relativa segurança, podíamos “visitar”.

         Claro que estas “visitas” eram feitas com o maior cuidado, não fosse dar-se o caso de algum dos donos também ter tido o “desejo” de dar um passeio às suas terras… Recordo algumas das “visitas” mais usuais: na encosta da Serra, da parte de cima da capela do S. Paio, eram ameixas; no vale do Prazo, as laranjas e as nêsperas; a caminho do Crasto, os pêssegos estavam à nossa espera, bem como nas encostas do Saltadouro; na Vergieira, que belas peras francesas então havia! Condados e Pejeiros, bem sabíamos onde estavam as mais perfumadas maçãs, etc.

         Algumas vezes, tínhamos de fugir, a bom fugir. Ali aos Quatro Caminhos, a seguir ao portão da entrada da quinta da Borlateira, havia entre o caminho para a casa lá no alto e o pinhal que dava até à estrada da Serra, um lindo e grande laranjal. Era uma tentação para nós, ver as laranjas tão amarelinhas entre a verde folhagem… O pior é que muito poucas vezes as conseguimos provar, por parece que o Ti Júlio adivinhava as nossas intenções e mantinha-se por ali à espreita tardes inteiras… E as uvas?... Essas, havia em abundância por todo o lado e nós bem conhecíamos os locais das videiras que as davam mais doces!

         Já referi, noutro local, que, durante os meses de verão, quase todos íamos trabalhar para o comércio, no Bairro Novo. É curioso que, há já bastantes anos, não se trabalha aos sábados ou só se trabalha da parte da manhã. Pois naqueles nossos tempos o sábado era o dia em que o comércio estava aberto até mais tarde. Nunca saíamos antes das dez ou onze horas da noite. Tanto nós, rapazes, como as raparigas que, no comércio ou nas alfaiatarias, também trabalhavam até àquelas horas. Como não havia transportes para Tavarede, as carreiras de camionetas entre Figueira e Tavarede só se iniciaram em 1957, e o caminho era mal iluminado e pouco seguro, combinávamos encontrarmos em determinado local para virmos em grandes grupos até Tavarede, para não termos encontros indesejáveis pelo caminho escuro e deserto. Algumas vezes chegávamos tardíssimo aos bailes, e quando os não havia em Tavarede, ainda íamos até Brenha, Quiaios, Alhadas ou outros locais.

         Todos, ou quase todos, entrávamos no teatro. Aliás, éramos viciados pelas colectividades. Quando já tínhamos acabado os nossos estudos e estávamos empregados, podia dizer-se que a casa era “para comer e dormir”, pois o resto do tempo livre era passado na Sociedade ou no Grupo. Naquela era o teatro e neste a dança. Chegávamos a ir, rapazes e raparigas, assistir aos ensaios do Lúcia-Lima para dançar…

         Na Sociedade, quando não tínhamos ensaio de teatro, entretinhamo-nos a ler, na biblioteca, ou com alguns jogos que haviam. Das cartas, o principal era o “marimbo”, com dez feijões a valer um tostão. Também jogávamos ao dominó, às damas e ao xadrez, bem como ao ping-pong.

         Quando se estreava uma peça teatral havia representações aos domingos, em “matinées”. Depois do espectáculo arranjava-se sempre merenda. Algumas vezes eram caranguejos do rio e pilados, de que o Carlos Conde e o José Vasco arranjavam grandes sacadas. Invariavelmente, depois do petisco, vinham as cantigas. Já lembrei meu tio José Medina, ensaiador dos coros do teatro. Era ele um dos grandes entusiastas pela improvisação dos orfeons. Bastavam apenas dois copitos para ele ficar animadíssimo. Inspirado musicólogo, um dos vários que houveram em Tavarede, e lembro Gentil Ribeiro, João Prôa, João Jorge da Silva, José Francisco da Silva, António Ferreira Jerónimo e António de Oliveira Cordeiro, entre mais alguns, foi muito novo regente da tuna do Grupo Musical, que chegou a dar concertos exclusivamente com números musicais de sua autoria. Fundou e dirigiu, durante alguns anos, o Lúcia-Lima. Mas a sua verdadeira paixão eram os coros. Bem disposto por natureza, quando estava animado, juntava em seu redor os coristas. Quando era na Sociedade também se juntavam as raparigas, mas era mais habitual os orfeons serem constituídos só por homens, o que não admira se disser que a maior parte das vezes começavam nas adegas, que se entretinham a visitar!

         Quando lhes faltavam alguns cantores, cujas vozes entendia fazerem falta, não hesitava em ir à procura deles, obrigando-os, muitas das vezes, a sairem de suas casas e irem com ele. Distribuía convenientemente os elementos, pois já conhecia as vozes e começando muito pianinho e subindo gradualmente a
tonalidade, começavam a ouvir-se as usuais cantigas do alecrim, da menina Luísa e tantas, tantas outras cantigas, especialmente dos teatros mais antigos e que tão bonitas eram…

         Assim se passava o tempo na nossa aldeia.

         Também tinhamos o costume de ir aos grilos, no tempo deles. Faziamos gaiolas com os canudos de cana mais grossos, que rachávamos e tapávamos com uma tampa mais larga para abrir a cana, metíamos o grilo lá dentro com umas folhas de alface e pendurávamos à porta da entrada de nossas casas, ao sol. Passado instantes começavam os grilos a cantar. Um dia fomos a eles ao pinhal da quinta do senhor Gaspar de Lemos, ao cimo da subida para o Saltadouro e em frente ao cemitério. Lá andávamos muito entretidos quando, sem saber como, me entrou por uma das pernas das calças um  pequeno sardão. Os saltos que eu dei! Mas o bicho não fez qualquer mal e, tanto pulo dei, que ele saíu pela outra perna das calças! Ainda hoje, o Augustito, das Abadias, me lembra do sucedido!



         Vem a propósito, e para cumprir a promessa feita anteriormente, contra duas historietas, das narradas por meu avô. A primeira, para mim das mais interessantes, é a história da lotaria. Meu avô trabalhava na Companhia do Gaz, na Figueira. Todas as sextas-feiras, de manhã, antes de andar à roda, ia lá vender jogo um cauteleiro, do qual ele dizia o nome, mas já não me recorda qual era.

         Durante anos, jogou todas as semanas e sempre com o mesmo número. Pois, durante todo o tempo, nunca lhe saíu nada, nem sequer uma terminação! Um dia resolveu acabar com o jogo. Nessa sexta-feira, quando chegou o cauteleiro, logo lhe disse que não queria a cautela. O outro insistiu, insistiu, que ele se ia arrepender, mas não o demoveu, pois não jogou mesmo. E não é que nessa semana a sorte grande calhou ao número que ele comprava e, daquela vez, recusára?!

         Na semana seguinte lá apareceu o cauteleiro. “Então, senhor António, eu não lhe disse que se havia de arrepender?”. Tinha razão, respondeu ele, e logo se dispôs a continuar a jogar, e cojm o mesmo número. É claro que semanas, meses e anos se passaram e a má sorte voltou a persegui-lo, pois nem ao menos uma terminação!...

         Desistiu novamente e, então, para sempre. Pois não é que na semana eem que voltou a desistir, mais uma vez a sorte grande saíu ao número recusado?!! Azar dele e azar nosso, pois podíamos estar cheios de dinheiro!

         A outra história, entre as muitas que ele contava, era esta. Todos os anos, e isso era verdade, semeava e colhia batatas que chegavam para a família todo o ano. Também, para isso, comprava a semente no Grémio, de qualidade garantida. Um ano houve, porém, que, por qualquer motivo, se esqueceu de encomendar os sacos da batata de semente. Quando chegou a ocasião, bem as tentou comprar, mas estavam completamente esgotadas. No Grémio e em todo o lado onde as procurou. Desesperado, pois esse ano teria de ir à feira comprar as batatas para o consumo da casa, sempre de qualidade duvidosa, acabou por se resignar, embora já tivesse as terras prontas para a sementeira.

         Casualmente foi à adega, em procura de qualquer coisa, e reparou que, a um canto, estava uma medida de Madeira quase cheia de pequenitas batatas que eram para ter dado ao porco e haviam ficado esquecidas por ali. Tinham ou grelo ou outro e estavam já meio podres. Pois iriam aquelas amostras de batatas para a terra…

         Querem saber uma coisa? Nunca, em tantos anos de lavoura, teve tantas e tão boas batatas como naquele ano! Aquela pequena medida de batatas produziu mais e melhor que os dois ou três sacos das de semente que ele usualmente comprava! Acreditam nestas histórias? Bem, os filhos, pelo menos, não acreditavam…

Por aqueles tempos, quando havia garraiada no Coliseu Figueirense, o gado vinha dos campos do Mondego, de Santo Varão, a pé, conduzidos pelos campinos, e atravessavam a nossa terra, sempre noite alta. A rapaziada sempre teve o costume de brincar com estas passagens do gado. Arranjavam uns chocalhos e, quando começava a escurecer, começavam a correr pela aldeia a fazer barulho, o que logo punha em fuga as pessoas desprevenidas que ocasionalmente se encontrassem na rua.

         Algumas vezes um ou outro garraio tresmalhava, o que dava sempre muito trabalho aos campinos que, depois de levarem os outros ao Coliseu, tinham de andar pelos campos à procura do tresmalhado para o apanhar. A este propósito, transcrevo uma notícia publicada em “O Figueirense”, em Setembro de 1923:

         “Em tempos áureos, em que a praça de toiros dessa cidade era onde está edificado o Jardim Escola João de Deus, a passagem dos toiros era obrigatória por Tavarede.
Predominava então no íntimo - mau íntimo, vamos lá - dos rapazes daquela época o "subido prazer" de espantar o gado à entrada da povoação. Era para eles um praxista pratinho, ou antes, a melhor tourada que podia haver, pois chegaram ao ponto de causarem o adiamento de algumas corridas, pois que o gado não dava a tempo ingresso nas portas do Coliseu.
Os motivos que os levava àquele procedimento era o de os emprezários lhes não concederem o direito de assistirem às embolações, senão mediante o pagamento de uma determinada importância.
Protestavam, mas sempre em vão. Todavia, quando os emprezários souberam o motivo de tal espantamento, que afinal lhes causava enormes prejuízos, concederam então a entrada franca a toda a gente que tivesse vontade de ver as embolações.
Sucediam coisas interessantes com a espera dos toiros. Por exemplo esta: o sr. António Teodoro, ao tempo aficionado tesíssimo, montava bem e fazia proezas várias, chegando mesmo a arriscar a sua própria vida Sucede que duma certa ocasião desmanaram-se os toiros, um dos quais entrou para um quintal e subiu para o telhado duma casa que ficava à superfície do mesmo quintal, sendo difícil retiral-o dali.
Depois o "saltitante pardal" fugiu para o Quintal da Azenha, que fica por detraz da capela da Junta Paroquial. Como teimasse em não sair de lá, o sr. Teodoro, que ainda hoje vive nessa cidade, lembra-se lançar-lhe um laço. Assim, pôz em prática o seu plano, valendo-lhe no entanto à vida uma árvore que ali havia e para onde trepou com a rapidez dum gamo, pois que o toiro, sentindo-se preso pelo laço, arrancou sobre ele, marrou no tronco da árvore com uma tal violência que momentos depois caía por terra sem vida, pois esfacelara o craneo!
Ainda hoje contam proesas interessantes sobre a passagem de toiros aqui por Tavarede em tempos que já não voltam. E se hoje toquei neste assunto, foi devido à espera do último sábado, em que o gado entendeu por bem não chegar ao seu destino sem aqui passear primeiro as ruas da terra, alguns quintais, etc, metendo sustos graúdos a muita gente, "dando que fazer a muitas lavadeiras" e arreliando, a ponto de fazer perder a paciência aos campinos, que eram em número bastante avultado.
Foi aqui uma tarde de autêntica tourada, em que se não usou das etiquetas exigidas pela praxe tauromáquica para o bom sucesso da "lide", de que saíram ilesos os protagonistas e os intérpretes da "cómica farça"...

E acabo estas recordações com a nota de dois fenómenos naturais que presenciei na nossa terra. Em Fevereiro de 1941, um violento ciclone passou por Tavarede “árvores derrubadas, chaminés caídas, telhados levantados, etc. e as sementeiras ficaram completamente arrasadas”, lia-se numa local publicada no “Jornal – Réclamo”. E no ano de 1957, em Janeiro, Tavarede foi surpreendida com o espectáculo deslumbrante de uma aurora boreal. Eis a notícia:

         “Fomos ontem, segunda feira, espectadores de um dos mais soberbos espectáculos da natureza.
         Cerca das 22 e 30 horas uma aurora boreal estupenda deslumbrou os nossos olhos e os de quem, como nós, correu á rua para apreciar o esplêndido fenómeno.
         O céu, do lado norte, parecia de fogo, e, entremeando um vermelho lindíssimo, alguns raios solares davam-lhe um aspecto maravilhoso.
         Que soberbo espectáculo!

         Alguns, mais velhos, recordavam uma outra que já tinham observado há bastantes anos. Mas nós, que nunca tínhamos visto nada de semelhante, abrimos os olhos e olhávamos admirados para o céu, até que desapareceu o fenómeno”.

Tavarede no Teatro - 7

         Entretanto, entram em casa para prepararem as coisas para a festa, pois os visitantes não haviam de demorar muito mais. E chega o regedor com a filha. Ele vem insistindo com Capitolina para que ela procure agradar a Tomás Castanho, bom partido para ela sob todos os aspectos, e ela mostrava que já estava bastante inclinada para o brasileiro. No dueto que cantaram nota-se isso perfeitamente.

                    (pai)   Cá pelos sítios
                               Não és capaz
                               De descobrir
                               Melhor rapaz.
                               Ele não é velho
                               E tem dinheiro;
                               É um bom partido
                               O brasileiro.

               (filha)           Por ele já sinto
                                    No coração
                                    A chama viva
                                    Duma paixão!

         Quando se juntaram os donos da casa e ao fazerem as apresentações, Capitolina beija Flor de Chá nas faces, a qual fica muito admirada.

         Eduardo Leirosa diz-lhe que não estranhe. É costume do país! E explica-lhe: “Ora, ouve, querida. Em Portugal há o beijo infantil, que é puro; o beijo maternal, que é santo; o beijo conjugal, que é postiço e da moda; o beijo entre amigas, que destila fel; o beijo furtivo entre namorados, que sabe a licor de rosas; e, finalmente, o beijo entre amantes, que é o rastilho para uma descarga de... dinamite!”.

         Recordo a canção do beijo que então cantavam.

Flor de Chá -   
  Um beijo dar, na China toda,
 É uma excepção.
 Só noivo à noiva, ao fim da boda,
 Lhe beija a mão.

Leirosa -      
 Um beijo assim não tem agrado,
 Não tem sabor
 Como o que furta o namorado
 Ébrio d’amor.

Flor de Chá -     
 Então o beijo
 Em Portugal,
 Pelo que vejo
 Deve ter sal...
 Corar o rosto
 Que o recebeu
 Ter tanto gosto
 Que eleve ao céu!

Capitolina
  Beijo d’encanto
Que d'alma vem.
  É beijo santo,
beijko de mãe
 Um dá loucura,
 Outro arrebata...
 Se muito dura
 Quasi que mata.

Flor de Chá
 Quando em terno devaneio
 E bem junto de quem se ama,
 Qual o modo, qual o meio,
 D’acender ardente chama?

Castanho -  
 Se ela não é macambuzia,
 Ele todo aberto em sorrisos
 De beijos furta uma duzia
Ou quantos forem precisos.

Todos -           
  Um beijo em carinha cheia
  Vagaroso e bem cantado,
   Sabe a quem o saboreia
  A leite creme queimado...
  Há beijos muito apressados
E beijos que não têem fim,
  Mas os mais saboreados
  Cá p’ra mim
  São assim!
  Assim!

         Quando ficam sós, Capitolina e Castanho acabam por confessar o seu mútuo amor. E pouco depois de entrar um grande rancho de raparigas e rapazes da aldeia que vêm cumprimentar Flor de Chá, Castanho diz na presença de todos, dirigindo-se ao pai de Capitolina: “Agora que estão feitas as apresentações, vou fazer um pedido ao senhor regedor e a minha felicidade depende da resposta que me for dada. Sr. José Badaleiro: amo a sua filha! Desde a minha primeira estada nesta terra que senti por ela a maior simpatia e compreendi que seria feliz tendo-a por esposa. Creio que não lhe sou indiferente. Peço-lhe, pois, a mão de sua filha. Quer dar-ma?”.

         Ora se queria... Desejoso por isso estava ele.

         Com o grupo tinham vindo, também, as seis Emílias da aldeia. Aliás, na aldeia, “todos os homens são Manueis e todas as mulheres são Emílias...”. Era a Emília Castanheira, que já esteve para casar sete vezes e sempre ficou a assar castanhas; a Emília Tomateira, que cultiva os maiores tomates da freguesia e que guarda a semente da especialidade; a Emília Gaiteira, que toca gaita de foles; e Emília Canastreira, que parece uma canastra velha; a Emília Pevideira, que vende pevides; e muitas outras mais...

         Um pouco mais tarde vêm os cabos de ordens que, para descarga da consciência, resolveram vir contar a partida magicada pelo Pinga-Amor, na qual tinham colaborado e de que estavam arrependidos, pedindo que lhes perdoassem.

         Logo foram perdoados. Pois não foi graças à mentira, que Eduardo Leirosa encontrára a sua felicidade com Flor de Chá? E estavam nisto quando aparece novamente o Gil Chinguiço, com um ramo de limonete escondido, e que entra gritando: “Cá está a Lúcia-Lima!”.

         Todos ficam muito admirados quando ele lhes mostra, triunfante, o ramo do limonete. E perante o pasmo de todos, lê um papel que lhe tinha dado o senhor Cura: “Lúcia-Lima, arbusto verbanáceo, de perfume agradável e intenso, vegetando bem nos terrenos frescos. Foi importado do Malabar em 1502, pelo capitão-mór D. Sancho Fagundes de Encerrabodes, que residiu em Tavarede há mais de três séculos. Serve para dar cheiro aos baús de roupa e é muito usado para fazer ramos nas burricadas de Buarcos. Há quem dele faça chá contra as prisões de ventre”.

         E, no meio de grande alegria e risota, cantam a valsa do limonete:

Coro -    
  Das plantas que tem a aldeia
  Outra não há de mais gala;
  E em noites de lua cheia
  Tem um cheiro que regala.

   Quem fizer um ramalhete
   Para dar à sua amada,
   Se el’ não tiver limonete
  É coisa desconsolada.

Uma Voz -   
  Das burricadas luzidas
   Da festa de S. João
 Trazem as moças garridas
  Um grande ramo na mão.

Coro -    
  O limonete caseiro
  É talvez neto da lima...
    Quem quizer sentir-lhe o cheiro
    Basta pôr-lhe a mão por cima.

    Se uma donzela travessa
    Quer-se com ele enfeitar
    Com três folhas na cabeça
    Fica bonita a matar.

Uma Voz -       
  Eu não sei de flor mais bela
  De quantas há no jardim.
  Anda sempre na lapela
  De quem suspira por mim.

Coro -    
  Veio das matas frondosas
  Da costa do Malabar
  Para as donzelas vaidosas
   Cheeirarem bem ao seu par.

         E vem a explicação, pelo Chinguiço, do tal anúncio. “Foi uma brincadeira do carnaval. Ora eu lhes ponho tudo em pratos limpos. Conhecem belamente o Mamede do Casal dos Piratas... O jarreta andou com a mania de casar... O sr. Cura então combinou com o sr. Mateus Caleira uma partida ao melro e mandaram pôr o tal anúncio a ver se ele caía na arriosca. Coisas de entrudo, está bem de ver...”.

         Tudo acaba em bem. O regedor ainda quiz prender o Pinga-Amor e os outros darem-lhe uma “casaca de pau”, mas todos perdoam quando Flor de Chá lhes pede, pois havia sido dessa mentira que lhe tinha vindo a felicidade. E a festa continua na eira da quinta, onde todos cearam e dançaram toda a noite:

                          “Galharda festa
                            Hoje a que há
                            Em homenagem
                            A Flor de Chá.

                            A mocidade
                            Que jamais cansa
                             Entra de gosto
                             Nesta folgança.

                             Também aos noivos
                              Em galardão
                               Se rende preito
                               Do coração.

                               Feliz consórcio
                               Grata aliança!
                              Vá mocidade,
                              Começo à dança.



                         
                 ***