domingo, 16 de agosto de 2015

Tavaredee - A terra de meus avós - 19

De casa de cultura a… taberna!


         No livro “50 Anos ao Serviço do Povo”, ao recordar as casas “onde se representavam peças que fizeram correr rios de lágrimas e provocaram indigestões de gargalhadas”, Mestre José Ribeiro escreve que, entre outras, havia a de Joaquim Águas, pai do velho capitão José Joaquim Alves Fernandes Águas, “prédio em que mais tarde esteve o Grupo Musical Tavaredense”.

         Bem sei que já no segundo caderno destas recordações me referi a esta casa, muito em especial quando nela tiveram a sua sede o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, nos anos de 1914 a 1930 e, depois, o Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, entre 1931 e 1935. É natural, portanto, que me repita nalgumas breves notas, mas considero necessário recordá-las para bem contar a história que se segue, considerando que a casa teve um papel importantíssimo no desenvolvimento cultural na nossa terra, durante mais de cinquenta anos, e que, por circunstâncias várias que procuraremos comentar no decorrer da história, acabou ingloriamente em ruínas, na segunda metade dos anos trinta do século passado, acabando por ter sido reconstruída e reconvertida em estabelecimento de mercearias e vinhos, para se não dizer “taberna” que, aliás, ainda conhecemos muito bem.

         Não o fazendo totalmente, ocupava uma boa parte do quarteirão que, actualmente, é limitado a sul, pela Rua A Voz da Justiça, a norte, pela Rua do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, do nascente, pelo Largo D. Maria Amália de Carvalho, e do poente, pela Rua D. Francisco de Mendanha.

         “Duas casas, próximo do Largo do Forno. Pertenceram ao falecido Joaquim Alves Fernandes Águas, operário tanoeiro, que ao mesmo tempo empregava algumas vagas do seu labor no trato do amanho da sua quinta do Peso, não muito longe situada ao norte da povoação. Vivia ali com a sua prole, bastante extensa, filhos e filhas, que foram criados senão com uma educação almiscarada de salão, pelo menos educados regularmente, bem morigerados, decentes e eivados de espírito trabalhador”.

         Já sabemos quem foi este Joaquim Águas, que, pelos anos setenta do século dezanove, veio para a Figueira, onde começou por abrir uma oficina de tanoaria, a que se seguiu a fundação, com seus filhos, da casa Águas & Cª., que foi uma sociedade comercial de sucesso, especialmente no comércio e exportação de vinhos e seus derivados e nos transportes marítimos, de curto e longo curso.

         Ainda em Tavarede, o velho Águas, para quem o tradicional “Presépio” era o melhor dos seus divertimentos, resolveu instalar, numa daquelas casas, um pequeno teatrinho, onde ele e seus filhos representaram diversas peças, especialmente aquela sobre o  nascimento de Jesus, ficando registada a interessante notícia de que, nalgumas representações, os amadores se “travestiam”, ou seja, as mulheres representavam de homens e os homens de mulheres.

         Com a mudança para a Figueira da Foz da família Águas, a casa em que residiam julgo que terá passado a ser a morada do então pároco de Tavarede, o padre António Augusto da Silva Nobreza, pois que, em “Recordações de Tavarede” se escreve “na casa da Rua Direita onde habitava o falecido velho Águas, está hoje o digno pároco da freguesia, sr. Joaquim da Costa e Silva, um ornamento da vida eclesiástica, que bem concebe, perante a ciência do século, qual o seu lugar como padre e como cidadão”. Presumo, portanto, que durante alguns anos tenha sido a residência paroquial.

         Na casa ao lado, onde havia sido montado o pequeno e tosco teatro, instalou-se em 1895, o intitulado “Bijou Feminino”. Este teatro era animado pelo conhecido artista canteiro António da Silva Proa, enquanto que, certamente por influência de seu filho, João Nunes da Silva Proa, se organizou uma tuna que, em 1896, era dirigida por J. Teixeira Ferreira, “muito ilustrado professor nesta cidade”. Esta associação, “Bijou”, foi muito acarinhada pelo capitalista e fundador da Quinta do Robim, o sr. João António da Luz Robim Borges, e pelo reverendo Joaquim da Costa e Silva, que muito se interessou pelo teatro e pela organização da tuna, chegando a “andar de porta em porta pedindo aos sócios da Estudantina para saírem dela e irem para uma outra que ele quer organizar”.

         A casa do teatrinho ficou vaga quando acabou a actividade do “Bijou Tavaredense”. Não devo estar errado se disser que o seu declínio se terá ficado a dever ao falecimento, em Maio de 1897, do seu principal protector, o sr. Robim Borges.

         Em Julho de 1914, uma notícia na “Gazeta da Figueira”, escreve: “O apreciado Grupo Musical Tavaredense acaba de mudar a sua sede para os prédios ultimamente comprados pelo seu dedicado sócio protector, sr. Manuel da Silva Jordão, dos Carritos, os quais ficam situados mesmo ao centro da povoação e são aproveitados para a instalação da aula de música e de um elegante teatrinho, que já anda a ser construído. A direcção do Grupo Musical está muito grata para com o seu consócio sr. Jordão, por esta gentileza que muito concorre para o engrandecimento da agremiação”.

         Já sabemos que estas casas eram as antigas casas da família Águas. O Grupo Musical, que se havia fundado em Agosto de 1911 e desenvolvia as suas actividades teatrais e musicais numa loja junto ao Largo do Paço, em condições muito deficientes, aceitou a oferta daquele seu benfeitor,
 que a havia feito “motivado pelos fins propostos pelos activos dirigentes da nova associação”, e que, além disso, colaborou financeiramente nas obras necessárias para a construção de uma boa sala de espectáculos.

         A inauguração teve lugar em Janeiro de 1915.

         A partir de então, a colectividade tomou grande incremento cultural, desdobrando a sua actividade pelo teatro, música, escola nocturna, ginástica, desporto e convívio e tal foi o desenvolvimento que, poucos anos decorridos, se viu na necessidade de fazer novas obras para boa acomodação de todas estas actividades.

         Também já lhes contei a compra da sede pelo Grupo Musical àquele seu sócio protector, em condições excepcionais. Todavia, os gastos feitos com as obras de transformação da casa foram muito elevados e, apesar das tais “condições excepcionais”, a verdade é que em 1928, mais de cinco anos depois da compra, ainda faltava pagar cerca de metade.

         Bem se esforçaram os grupistas para satisfazerem o pagamento que o sr. Jordão acabou por exigir, por carta de Junho de 1928, lhe fosse feito em Novembro desse ano. Fizeram espectáculos em diversas localidades, com o grupo dramático e com a tuna, na tentativa de obterem fundos, pelo menos para amortizarem a dívida, pois, na verdade, nunca entregaram mais qualquer importância, falhando inteiramente as condições acordadas. Até garraiadas no Coliseu Figueirense, mas tudo foi insuficiente.

         Ainda tentaram um empréstimo bancário com hipoteca do edifício, mas as negociações com a agência do Banco de Portugal na Figueira não se concretizaram. E assim, embora com bastante mágoa de todos, foram obrigados a pôr a casa em venda.

Apenas como curiosidade, recordo este facto muito interessante: Em 1915, o sr. Manuel da Silva Jordão foi nomeado sócio benemérito e foi-lhe descerrado o retrato, num ambiente de enorme entusiasmo. Em Maio de 1924, o sr. Jordão concorda em vender o edifício, concedendo-lhes as maiores facilidades para o pagamento; em Março de 1929, “o presidente da direcção deu conhecimento que já havia liquidado contas com o principal credor do Grupo, sr. Manuel da Silva Jordão, propondo que o mesmo sr. fosse suspenso de sócio até à realização da primeira Assembleia Geral, pela qual deverá ser demitido, para o que se tem em vista o que se encontra estatuído, pois não só difamou o Grupo como menosprezou a honorabilidade de todos os componentes da sua direcção e ainda que, em atenção à incorrecção manifestada, ou por outra, posta em prática pelo mesmo sr. Jordão, propôs também que lhe fosse retirado imediatamente, da nossa sala de espectáculos, a sua fotografia, que ali se achava exposta…”. Passou, assim, de desejado a indesejado, de benemérito e protector a difamador!...

Quais as razões concretas? Por querer receber o seu dinheiro? Concretamente não sei, mas estou inteiramente convencido que houve interferências e interesses estranhos.

A casa foi comprada por um tavaredense, António de Oliveira Lopes. Uma das condições contratuais, era a de que o Grupo continuaria ali instalado mediante o pagamento de uma renda. Note-se que o comprador, à data da operação, era um dos directores da colectividade.

Os esforços realizados acabaram num fracasso. Os encargos assumidos com as obras, que também não haviam sido completamente pagos, e, talvez os tais interesses estranhos, levaram a que o novo proprietário da casa, poucos meses após a compra, não vendo liquidadas as rendas já vencidas, meteu uma acção de despejo em Tribunal e o Grupo Musical foi obrigado a deixar aquelas instalações que tanto sacrifício haviam exigido!

Antes de avançar com a nossa história, entendo conveniente fazer um breve comentário que, talvez, explique em parte a situação acima referida.

No dia 12 de Agosto de 1928, domingo, havia partido de manhã uma excursão, em camioneta de aluguer, com tavaredenses e figueirenses que, sob a direcção do reverendo padre Manuel Vicente, foram em peregrinação a Fátima, afim de participarem nas cerimónias religiosas que ali se realizariam nessa noite e no dia seguinte.

Por volta das 5 horas da tarde e no lugar de Reguengo do Fetal, entre Batalha e Fátima, uma ultrapassagem mal feita por uma outra camioneta, fez com que o condutor da camioneta da peregrinação tavaredense perdesse a direcção e, resvalando para um declive, a camioneta desse uma volta sobre si antes de se imobilizar.

Com gravidade ficaram somente feridos dois peregrinos: Abílio Simões Baltazar, um dos proprietários da Quinta do Robim, que dado o seu estado crítico foi enviado para casa, onde faleceu pouco depois da chegada “no meio de horrorosos sofrimentos” e o padre Manuel Vicente, que sofreu uma forte comoção cerebral e apresentava contusões graves. Foi internado no hospital de Leiria e, apesar de todos os socorros prestados, ali faleceu poucos dias depois.

O padre Manuel Vicente era muito acarinhado e admirado pelo povo da freguesia. O seu trato afável havia conquistado a maioria dos tavaredenses e chegou a acompanhar, com relativa actividade, a vida associativa local. Só assim se compreende que, ao contrário do que se verificou em tantas outras paróquias, o padre Manuel Vicente tenha atravessado, com alguma facilidade, dois períodos bastante difíceis. Primeiro, em 1910, com a implantação da República e as fortes lutas contra os tradicionais privilégios da Igreja, e depois o 28 de Maio de 1926, que terminou com o regime republicano e do qual veio a resultar a sinistra ditadura salazarista.

Para sua substituição foi nomeado o reverendo padre José Martins da Cruz Dinis. Muito jovem, acabara de ser ordenado padre, bastante inteligente e declaradamente conservador, logo tentou a “reconversão” dos seus novos paroquianos, pois havia ficado muito surpreendido com a pouca participação religiosa da maioria da população local.

As colectividades eram um local propício à participação popular, pelas actividades que desenvolviam. E o novo pároco de imediato pensou na fundação de uma nova colectividade, intimamente ligada à religião.

Não vou especular o caso, mas, na verdade, ainda bem conhecemos os responsáveis do Grupo Musical daquela época. Os republicanos liberais, digamos assim, acabaram por levar o Grupo para as instalações do Paço, onde se mantiveram durante muitos anos. Os restantes, muito religiosos e conservadores, não os acompanharam.

Pouco tempo depois do despejo do Grupo Musical, o proprietário António Lopes vendeu o edifício à Diocese de Coimbra, pois a sociedade “Predial Económica”, em nome de quem foi feita a escritura, era propriedade, na totalidade, daquela Diocese.

Sabe-se que a compra foi feita devido à influência do padre Cruz Dinis. Sabe-se que um dos seus ideais era fundar uma colectividade de índole religiosa. Estará aqui a explicação para o “ultimato” feito pelo sr. Jordão ao Grupo Musical? Não avanço mais na especulação, mas sempre digo que, pelo que apurei, aquele senhor era católico praticante.

No ano de 1931 é fundado o Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense. Foi seu presidente da Direcção o reverendo Cruz Dinis.

Aquela casa continuou, então, a sua acção cultural. As instalações, no dizer da imprensa figueirense, eram das melhores em aldeias do concelho. Aos amadores do teatro e da música que não haviam seguido com o Grupo Musical, outros se juntaram. Além de alguns espectáculos, muito em especial dirigidos às crianças, também a colectividade passou a dar aulas nocturnas, sob a direcção do padre Dinis que, anteriormente, dava as lições na sua residência.
relativo àquele
Não quero questionar a actividade religiosa, educacional e cultural daquele pároco. Ela foi grande, é fora de dúvidas. No entanto, e em minha opinião, depois de ter lido e relido tudo quanto há para ler, período, ele politizou em demasia a sua acção. Foram anos de duras e violentas lutas. Republicanos e conservadores, estes protegidos pela capa ditatorial do novo regime, defrontavam-se ferozmente, em especial nos órgãos jornalísticos que lhes davam cobertura.

E em Setembro de 1935, o reverendo padre José Martins da Cruz Dinis foi transferido, a seu pedido, para a paróquia de S. Paulo de Frades, em Coimbra, depois de aqui ter permanecido 7 anos.

Com ele acabou o Grémio Educativo. Ele era a sua alma. Mas, a nossa casa, continuou de pé. A obra cultural lá realizada durante tantos anos acabara de vez. Mas a nossa história ainda não acaba aqui. Continuemos.

Sem actividade, naturalmente que o edifício se começou a degradar. O proprietário estava longe, em Coimbra, e a Diocese interessou-se mais em vender a casa do que em fazer obras.

No dia 22 de Outubro de 1938, o jornal “O Figueirense” publicou a seguinte local sob o título “Incoerências”:

“O último número do semanário da Figueira da Foz “O Dever”, publica um interessante e oportuno artigo anónimo, sobre “tabernas”, com que estamos inteiramente de acordo, dada a boa doutrina que defende.
Nele se classifica a taberna de enorme desgraça individual e social e “o maior foco de infecção social”, o que ninguém se atreverá a contestar.
O pior é que, noutro local do mesmo número, se considera acertada a resolução dum proprietário, vendendo, para instalação duma taberna, a casa que possuía em Tavarede – Figueira da Foz, outrora sede duma associação católica.
Afinal, é bico ou cabeça?
Sem comentários…
O que o prezado colega não sabe é que a propriedade em referência, era pertença dum alto dignitário eclesiástico e a sua resolução é tanto mais para deplorar quanto é certo que a venda do prédio foi feita sonegadamente, depois de prometido à Comissão Organizadora para instalação da Casa do Povo de Tavarede”.

 Como se vê tinha sido organizada uma comissão para instalar, na nossa terra, uma Casa do Povo, um dos organismos corporativos que o regime ditatorial espalhou com abundância pelo país, sob a tutela da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, argumentando casas de cultura e recreio populares mas, efectivamente, com o objectivo maior de fazer propaganda à sua ideologia política.

A casa onde esteve instalado o Grémio Educativo pertencia à Diocese de Coimbra. Ora, e com muita lógica, a referida Comissão Organizadora pensou que aquele edifício, já meio degradado, era uma boa solução para a instalação da Casa do Povo, fazendo, claro, as necessárias obras.

Poucos dias depois daquela notícia, em correspondência de Tavarede, “O Dever” escreve: “Segundo nos consta e é voz corrente, o Governo vai entregar à comissão organizadora da Casa do Povo de Tavarede, a quantia de trinta ou trinta e cinco contos para a construção da Casa do Povo de Tavarede, em local apropriado, pois que a casa que foi sede do Grémio não foi achada em condições, não só por se ter reconhecido pequena, mas por estar muito deteriorada.
…………………..
Afinal, temos de felicitar-nos por a casa do Grémio ter sido vendida, sem o que não teríamos um edifício novo para a Casa do Povo, e que foi apenas leviandade o barulho agressivo contra as pessoas julgadas com intervenção na sua venda”.

Começou, de imediato, tremenda polémica. A comissão organizadora, em carta dirigida àquele periódico procura rebater a notícia e escreve em determinado lugar: “…… Também não tem o menor fundamento que a chamada casa do Grémio, que a Comissão se propunha adquirir contraindo um empréstimo particular, fosse reprovada por ser pequena e estar deteriorada. Pelo contrário, foi e continua a ser considerada a que reúne as melhores condições de adaptação e ampliação (quando necessária) de todos os prédios existentes nesta povoação. Seria, além disso, ingenuidade supor que com 30 ou 35 contos (que se não sabe se virão) obteríamos um prédio novo, maior, e em melhores circunstâncias”. Termina a carta com a bem conhecida frase “A bem da Nação”.

Eu não queria alongar-me muito com algumas transcrições desta polémica. Ela foi longa. Mas, para que bem se fique a conhecer a história da casa em questão, terei de fazer mais algumas pequenas transcrições, das partes mais significativas e que me parecem de mais interesse.

O que estava em causa era se o Bispo de Coimbra, conhecedor dos desejos da Comissão Organizadora da Casa do Povo tinha ou não tinha prometido vender-lhes a casa. “O Dever” dizia que não e alegava:

“……… Mas porque não comprou? Desde que sugerimos a fundação da Casa do Povo de Tavarede – fomos nós da ideia – até à venda da casa do Grémio, decorreram muitos meses.
Desde que a Junta de Freguesia e muitas outras pessoas tiveram conhecimento da existência dum segundo pretendente, até ao encerramento do contrato de venda, decorreu tempo mais que suficiente para se prevenir. A sociedade proprietária teria muito prazer em vender o seu prédio para instalação da Casa do Povo, desde que alguém aparecesse com dinheiro e disposto a fechar contrato real e imediatamente”.

Mais à frente, acrescenta: “Isto mostra bem que o nosso correspondente teve razão em achar acertada a venda a um comprador certo, para se evitarem maiores prejuízos, visto que a Casa do Povo, em organização, ainda hoje não é comprador, pois hesita no caminho a seguir; e, portanto, que foi leviandade grosseira o barulho agressivo contra as pessoas julgadas com intervenção na sua venda. Os 35 contos do Estado, com alguns contos de compra e adaptação com que a Comissão se propunha adquirir e casa do Grémio contraindo um empréstimo particular, dariam mais de 60 contos com o que, é absolutamente certo, se construiria uma casa melhor do que a do Grémio, tanto mais que seria possível obter terreno de graça e outras ajudas”.

O debate jornalístico tornou-se inevitável. Por seu lado, a Comissão Organizadora tentava, com todos os elementos de que dispunha, argumentar que tinha razão, pois que o Bispo de Coimbra havia-lhes prometido todo o apoio e esse apoio, entendiam eles, incluía a cedência da casa.

Os meses de Novembro e Dezembro de 1938 foram férteis em comunicados de defesa, de ataque e, até, de questões que, na verdade, nada tinham com o problema, pois alguns foram meros ataques pessoais. Como recordação fica o nome dos dois principais intervenientes nesta longa polémica: em “O Dever”, que defendia a venda a um particular, o padre Alfredo de Melo Abrantes Couto, prior de Buarcos e encarregado temporariamente da paróquia de Tavarede, e em “O Figueirense”, em nome da Comissão Organizadora, esteve Belarmino Pedro.

Conheci relativamente bem os dois. Posso adiantar que, durante os poucos anos que o padre Abrantes Couto foi responsável pela paróquia de Tavarede, não teve vida nada fácil. Queixava-se, bastante, que o parco rendimento que aqui tirava, nem de longe nem de perto compensava o seu trabalho. Belarmino Pedro, que posteriormente integrou a redacção do jornal “A Voz da Figueira”, foi interveniente em várias polémicas com pessoas ou sobre assuntos da nossa terra, algumas, igualmente, bastante violentas.

Nesta história, se calhar, todos teriam razão. Ou talvez não. A verdade é que, com promessas ou sem promessas, a casa teve outro destino. Também, e como se sabe, a fundação do tal organismo corporativo, a Casa do Povo de Tavarede, prevista pela interessadíssima comissão, que tão brava e heroicamente lutou pela sua fundação, não passou de uma “vã quimera”, ou de um sonho que se esfumou.

Pelos vistos, o apoio que esperava do Estado e que estimaram em 30 ou 35 contos, que era bastante dinheiro para a época, nunca terá sido prometido e muito menos disponibilizado. Como aparte, indico que o prédio havia sido adquirido a António Lopes por 24 contos e foi vendido a António Pedro Carvalho por 10.

O que verdadeiramente interessava era contar a história daquela velha casa. Talvez tenha abusado nas transcrições, mas posso dizer que só transcrevi uma pequeníssima parte, mas o que não foi transcrito, além de nada mais adiantar, tornaria demasiado enfadonha a história. Preferi, e entendo que com acerto, ficar por aqui.

E vou concluir com um facto bastante irónico. O novo proprietário da casa, que a reconstruíu e onde montou um estabelecimento de mercearias e vinhos, onde não faltava uma grande taberna e um retiro, no quintal, para os petiscos e para jogos diversos, conhecedor de toda a polémica que a sua compra desencadeou e sabendo qual era a finalidade para que queriam as antigas instalações associativas, resolveu, talvez sarcasticamente, dar um nome ao seu novo estabelecimento. Chamou-lhe, e mandou escrever na fachada do edifício, em letras enormes, “A LOJA DO POVO”.


Sem mais comentários!

Tavarede no Teatro - 10

         Pois, pudera! A água de Tavarede tinha fama universal e muitas propriedades urinéticas...

         “Puro engano, esclarece o presidente. A água que a Figueira nos chupa por um canudo, é para ela um verdadeiro canudo. Tem mais cal que os fornos da Salmanha”. E era bem verdade. A água ia para a Figueira, desde o Praso, lá ao cimo do Vale de S. Paio, da nascente do Olho de Perdiz, pela grande conduta que ia dar aos depósitos do Pinhal, aonde era tratada com cal antes de distribuída. “Agora a água da nossa fonte, isso é outra loiça! É especial. Fina, pura, saborosa, aveludada. É um regalo! Para desenvolver as teorias dos intestinos não há melhor...”.

         A Fonte e o cortejo das Bilhas, entram e cantam:

                             Mato a sede a toda a gente
                              E às avesinhas do céu;
                              À minha água transparente
                              Ninguém fez cara de réu.

                               Todo o dia ao lusco-fusco
                              Oiço as alegres cantigas
                              E os segredos que os rapazes
                              Cochicham às raparigas.

                                       Airosas, catitas,
                                       De barro encarnado,
                                       À fonte nos levam
                                       Com todo o cuidado;
                                       E ás vezes trazemos
                                       Raminho entrouxado,
                                      A moça que chega
                                      C’o seu namorado,
                                      Comigo à cabeça
                                     Conversa um bocado
                                     E apanha à sucapa
                                     Seu beijo furtado.

         O jornalista, claro, provou e gostou. A fonte e as bilhas, também aproveitaram para fazer as suas reclamações, especialmente contra a miudagem, pois “é pedrada que ferve e cada palavrão que nem almocreves!”.

         Que fossem descansadas, respondeu o governador. Para lá destacaria a polícia e mandaria um engenheiro “para reparar os estragos e desentupir os canos”.

         E o primeiro quadro acaba quando Delfim Pirolito se resolve a mandar uma grande reportagem para o seu jornal, pois reconhece que tal revolução se impunha e que o povo fez muito bem libertando-se e proclamando a sua independência, acompanhando, no entanto, o governador a uma visita à terra para apreciar os seus progressos, com o que enriquecerá as notícias.

         Chegam os dois, governador e jornalista, ao largo da Igreja, no momento em que um grupo de populares, que ali se encontra, vai contando a cantoria de um cuco. Contaram até doze e disseram, em voz alta; “é meio dia!”.

         O Pirolito ficou admiradíssimo. Então o relógio da aldeia era um cuco, um passaroco verdadeiro? Era verdade. Tinham conseguido arranjar uma comissão de subscrição, em cada povoação da república, para aquisição de um relógio para a torre da igreja, mas tudo tinha ficado em águas de bacalhau, pois o apuro final não dava, sequer, para mandar cantar um cego!

         O governador, homem engenhoso, lembrou-se de mandar apanhar um cuco e de o ensinarem a cantar de hora a hora. Só cantava desde o sol nascer até às 11 da noite, mas era o que bastava, pois a gente da terra “deita-se sempre entre as 10 e as 11”. Causou uma certa confusão ao jornalista o facto do pássaro cantar sempre com duas notas iguais – cu – cu -, o que estaria certo para as horas pares. E para as outras?

         “Muito simples, informa o governador. 5 horas, por exemplo, canta duas vezes cu – cu e mais um cu para fazer a conta”.

         Engenhoso, prático e simples. E, sobretudo, económico. Só era pena não tocar as trindades, mas o cuco não conseguia tocar o sino e, por pouco dinheiro, “ninguém quer manobrar o badalo...”. Como resolver, então, a falta? “Olhe, o povo salta da cama mal luz o buraco. Com o sol a pino, toca a ir à trincadeira e à hora dos morcegos, que é o lusco-fusco, ovelhas ao curral”.

         Ao olhar para o ribeiro, que corria ali ao lado, o jornalista questiona se o mesmo tinha água todo o verão e se era navegável. Que não. Isso não era, pois nele só navegam as lavadeiras, que era o clube da má-língua lá da terra. “Esfrangalham uma reputação como quem depena um frango”. Nem a propósito. Eis que chegam as lavadeiras para a sua tarefa e, ao pedido do jornalista para mostrarem as suas habilidades, cantam:

                             “A roupa que nós lavamos
                               É de vária freguesia.
                               O sabão não chega a meio
                               Para tanta porcaria.

                               Lavamos muita fraldinha
                               De pintinhas salpicada.
                               À força d’ensaboadela
                               Fica sempre obra asseada...

                               As águas desta ribeira
                               Conhecem muito segredo
                               Das meninas que namoram
                               Escondidas no arvoredo.

                               De noivas e de casadas
                               Toda a roupa aqui vem ter.
                                Por isso sabemos coisas
                                Que não se devem dizer.

                               As nódoas que traz a roupa
                                Nos fartamos de esfregar.
                                Estas pedras se falassem

                                Tinham muito que contar”

sábado, 8 de agosto de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 18

         Naquele referido ano de 1907, certamente porque a comissão de festeiros não teria obtido donativos suficientes, não se efectuaram cavalhadas. Uma nota de um dos correspondentes jornalísticos em Tavarede, publicada no dia 19 de Julho, indica que “começaram os trabalhos de ornamentação no largo fronteiro à casa do sr. Luís João Rosa, para as festas a que chamam “de S. João”, e que constam de iluminações e danças no sábado e arraial e corridas de jericos no domingo de tarde. Dizem-nos que haverá carreiras de trens entre essa cidade e Tavarede, a preços reduzidos, e por isso é de presumir que seja grande a concorrência”.

         Não encontrei referência às práticas religiosas, mas presumo que terão sido as habituais: novenas, sermões e missa solene.

         Parece, pelas notas encontradas, que, mesmo assim, as festas estiveram bastante animadas, pois “as danças prolongaram-se até à manhã de domingo e de tarde foi grande a concorrência, apesar de não haver corrida de jericos, como se anunciou, nem qualquer outra diversão”. Pelos vistos, naquele ano, houve crise de jericos e outras “alimárias”, pois nem cavalhadas nem corridas.

         Como já referi anteriormente, para as danças populares armavam-se dois pavilhões, variando os locais. Naqueles tempos, eram organizados ou melhor, eram reactivados para as festas, dois ranchos que existiram durante bastantes anos: o Rancho da Alegria e o Rancho Flor da Mocidade. Por sinal foi o primeiro que, em 1912, venceu o concurso dos ranchos do 1º de Maio, organizado na Figueira pela primeira   vez naquele ano.
        
Pois em 1907 houve duas comissões e, por conseguinte, dois pavilhões. Curiosamente, estas duas comissões eram “chefiadas” por dois irmãos, os quais, diz a notícia, “eram dois verdadeiros amigos!”. Um, o mais novo, de nome Francisco Cordeiro, instalou o pavilhão junto do seu estabelecimento de mercearias e vinhos, que ficava mais ou menos a meio da rua principal, entre a Igreja e o Paço. Embora pequeno, por a largura da rua não o permitir maior, “estava instalado a capricho”, e era ali que dançava o Rancho da Alegria.

         A outra comissão, sob a chefia do irmão José Maria Cordeiro, montou o seu “no Paço, perto do Palácio dos antigos Condes de Tavarede, num recinto, portanto, muito mais espaçoso para as respectivas funções do que o seu rival”. Naturalmente, importa dizer que, bem perto a esses pavilhões, ficavam os seus estabelecimentos comerciais, pois ambos eram comerciantes do mesmo ramo: mercearia e vinhos e, nestas alturas,  também de “comes e bebes”, chegando a publicitarem os seus petiscos e os mais afamados “vinhos do lavrador”, na imprensa figueirense, numa feroz concorrência, apesar de, como referi, “serem dois verdadeiros amigos!”. Neste pavilhão dançava o Rancho Flor da Mocidade e era muito frequentado pelos rapazes e raparigas de Buarcos e da Praia. Os músicos, de um e outro, pertenciam à tuna de Tavarede.

         Ora esta história teve a sua origem precisamente com os músicos: No ano anterior, o mano Francisco “promoveu umas festas defronte de casa. Havia contratado os músicos, mas estes à hora faltaram, porque foram raptados por uma outra comissão de festejos. Este ano, sucedeu-lhe o mesmo caso, tendo à hora de arranjar uma fanfarra composta de homens de antes quebrar que torcer”. E, então, lembrou-se de afixar no pavilhão um enorme letreiro em que se escrevia: “NEM ASSIM!”.

         Pois era verdade. O mano “Zé Maria” havia-lhe pregado uma valente partida, deixando-o sem música. Como se vê, também naquele ano o tentou, mas não o conseguiu. Em Tavarede havia, realmente, muitos e bons músicos.

         Claro que o irmão Francisco fez aquilo “no firme propósito de susceptibilizar o mano mais velho e lembrou-se de o mimosear com uma inocente surpresa, destas de levarem água no bico, mandando afixar no seu coreto aquela legenda, que não passava de um singelo devaneio bairrístico”.

         E a notícia desta “guerra” continua:

         “O ti’Zé Maria, de temperamento mais de quebrar que torcer, acusando o toque e tendo em consideração o velho adágio de que amigos, amigos, mas a categoria dos ranchos à parte, respondeu ao irmão – improvisadamente – de que maneira? Começou por lançar no espaço uma dúzia de restolhentos foguetes de morteiros com três respostas, que tinha para vender, deitou as mãos a uma gaveta da cómoda e dela ripou um lençol de muita estimação que, pelos modos, fôra uma prenda de casamento, e fê-lo em tiras, colou-as umas às outras, mandando-as descerrar, a todo o comprimento do avantajado pavilhão do seu apreciado rancho, ornamentado a capricho com verdura, grinaldas de flores e bandeiras em profusão, muitos balões e cordas com papéis de cores garridas, onde se dançava e cantava, alegremente, até ao romper de alva, e juntou-lhe, em letras garrafais, a seguinte legenda, em resposta à tendenciosa falácia do seu querido mano Francisco: ATÉ AQUI CHEGUEI EU!...

         Era inevitável que o festeiro ti’Zé Maria Cordeiro levasse com uma “tesíssima descompostura, no próprio arraial”, da senhora Aninhas, sua esposa e colaboradora nos negócios do estabelecimento, pois, com o seu irreflectido gesto de esfacelar uma estimada prenda do enxoval, arruinara o “aludido lençol bordado que constituia, segundo disseram, uma velha prenda de estimação do apartado dia de noivado de ambos...”.

         Para acabar esta curiosíssima história de uma “terrível” rivalidade festeira, entre dois irmãos, que até eram verdadeiros amigos, transcrevo a última parte da notícia:

         “Tal ocorrência redundou numa deprimente barraca para o popularíssimo e simpático promotor do célebre e tão acreditado Rancho da Mocidade, que depois se viu obrigado a mercar um lençol semelhante ao transformado, num ímpeto de nervos descontrolados, na referida legenda, que lhe causara um dos mais íntimos prazeres da vida, só dessa maneira fazendo calar a consorte, que acabou por dar grande gáudio, ao ter disso conhecimento, ao seu cunhado Francisco, inveterado rival nas festas são joaninas do seu marido...”.

* * * * *

         A outra história que me propuz contar sobre as festas ao S. João, na terra do limonete, é bem diferente da anterior. Como se irá ver, neste caso, um dos “festeiros” era bem poderoso, tão poderoso que... conseguiu fazer com que se acabassem em Tavarede tais festejos.

         Foi no ano de 1927. No ano anterior, o movimento militar, iniciado em Braga e que seguira até Lisboa, no 28 de Maio, uma vez vencedor, derrubou o regime republicano. Não interessa aqui, pormenorizar o acontecimento histórico, que acabou, pouco depois, por instaurar a ditadura de Salazar, a qual se manteria até ao 25 de Abril de 1974.

         Desde a implantação da República, em Outubro de 1910, que o partido republicano, no poder, travou dura luta contra a igreja católica, até então detentora de grandes privilégios e que tinha enorme influência política nos destinos do país. Foi  natural, portanto, que, com o movimento atrás referido, imediatamente procurasse reconquistar o seu anterior poder e influência.

         Como habitualmente, naquele ano de 1927, a comissão promotora das tradicionais festas sanjoaninas, tratou da organização e marcou-as para os dias 30 e 31 de Julho. Do programa previsto, para além das costumadas cerimónias religiosas, previam-se as “ornamentações, iluminações, fogo de artíficio, concertos pela filarmónica contratada, danças populares com acompanhamento da tuna, cavalhadas com ida à Figueira e a Buarcos, corridas de prémios, etc.”. O tradicional.

         Acontece, porém, que semanas antes, o Bispo de Coimbra resolvera comunicar aos padres da sua diocese, que proibissem, pura e simplemente, que as cavalhadas fizessem parte do programa, pois as considerava “pagãs” e, como tal, indignas dos festejos a um santo, por mais popular que o S. João fosse. E, claro, logo pairou a ameaça de excomunhão para quem não obedecesse à deliberação do senhor Bispo...

         A Figueira, de que na altura era pároco o bem conhecido reverendo Palrinhas, acatou a ordem sem discussão. Buarcos procedeu do mesmo modo. Até a nossa vizinha Brenha, embora muito lamentosa, não teve as suas cavalhadas, aliás, de pouca tradição naquela freguesia. Restava Tavarede e, com o aproximar da data, redobrava a curiosidade sobre a atitude que tomariam os tavaredenses, tanto mais que tinham anunciado, no seu programa, a realização das mesmas.

         Aconteceu, então, o impensável. A comissão dos festeiros, com o apoio da população, resolveu não atender à ordem do senhor Bispo, apesar de todas as tentativas que o nosso padre Manuel Vicente fez para impedir a realização das cavalhadas. Mas ainda foram mais longe no seu atrevimento e desafio à Igreja.

         Normalmente, as festas eram abrilhantadas por uma das filarmónicas da Figueira e, algumas vezes, pela das Alhadas ou de Santana. Naquele ano, porém, e ao terem conhecimento das ordens do Bispo de Coimbra, os festeiros tomaram uma atitude verdadeiramente reaccionária: contrataram a célebre filarmónica do Troviscal que, pouco tempo antes, havia sido excomungada pela Diocese de Coimbra, com proibição total de participar em festejos desta natureza. É verdade, ainda agora custa a crer como é que a comissão das festas, que até era composta por alguns católicos praticantes, tenha tido tal ousadia. Contratar uma banda excomungada!!!

         E, então, divulgou um programa em que se lia: “Sábado, 30, às 18,39 – Recepção, na estação do caminho de ferro da Figueira, da banda do Troviscal, com a comparência da comissão promotora dos festejos, bandas da Figueira e outras associações”. Parece que foi uma recepção triunfal, a que o povo deu colaboração aparecendo em enorme número.

         Realizaram-se as festas. Eis um comentário publicado a 3 de Agosto: “O reverendíssimo sr. Bispo de Coimbra está fulo com o povo de Tavarede – e não tardará a despejar sobre a terra do limonete, a sua abençoada excomunhão. Temos de concordar que sua reverendíssima excelência tem razão: - uma comissão de rapazes quiz fazer a festa a S. João, com a função da Igreja – novenas, missa, sermão, etc. – e a tradicional cavalhada; o sr. Bispo exigiu que do programa fosse suprimida a cavalhada – que se fazia desde há muitas dezenas de anos, com as bandeiras da igreja e repiques dos sinos – com o fundamento de que era um número pagão; os festeiros resolveram a questão com grande facilidade, dispensando pura e simplesmente a colaboração da Igreja, arranjando bandeiras não benzidas e, para completar, mandando vir a banda excomungada do Troviscal. E a música veio, a Igreja esteve fechada, e a cavalhada fez-se, correndo tudo na melhor ordem”.

         O programa cumpriu-se, com a exclusão da parte religiosa. E as cavalhadas, conforme a tradição, lá foram até à Figueira. “Era uma cavalgada numerosa, com ordem, precedida do ruidoso Zé Pereira, e vendo-se nela também muitos trens cheios de gente alegre”. E lá estava, junto à Igreja de S. Julião, a banda do Troviscal, que tocou enquanto se cumpria a praxe das voltas à igreja, desta vez sem o repique dos sinos.

         E, passados os festejos e com os ânimos certamente mais calmos, a imprensa figueirense noticiou:

         “Tiveram grande luzimento os festejos populares de S. João, que se realizaram nos dias 30 e 31 do mês findo, com os números tradicionais. Não houve desta vez função religiosa, porque, tendo o sr. Bispo de Coimbra imposto a supressão da tradicional cavalhada, que é, de há longos anos, a característica das festas de S. João em Tavarede, os organizadores dos festejos resolveram, e muito bem, fazer as cavalhadas e dispensar pura e simplesmente a parte religiosa. Para compensar esta falta, veio a excelente banda do Troviscal, que foi apreciadíssima, tanto no concerto que realizou na noite de sábado para domingo, com programa de responsabilidade que teve primorosa execução e foi muito aplaudido, como no de domingo.
         Das 2 horas até à madrugada de domingo houve danças populares, que se repetiram no domingo à noite, e na segunda-feira realizou-se a rosquilhada.
         As cavalhadas foram muito concorridas, e visitaram a Figueira, onde os esperava a banda do Troviscal, e Buarcos.
         A Tavarede veio muita gente dessa cidade e dos lugares vizinhos.
         A banda do Troviscal foi aqui alvo de manifestações de simpatia. Cumprimentou as duas associações locais, onde se trocaram saudações calorosas e foi servido aos visitantes um copo-de-água. O regente da banda sr. Oliveira, afirmou-nos que ia penhoradíssimo com as amabilidades que ele e os executantes da sua banda foram alvo.
         A igreja esteve fechada em todo o dia, e os católicos ficaram privados da missa.
         A-pesar-das prédicas do pároco da freguesia para que ninguém se aproximasse da banda excomungada, não faltou uma enorme multidão a ouvi-la e a aplaudi-la.
         E tudo correu na melhor ordem”.

         A título de curiosidade, refiro que a mencionada banda havia sido excomungada unicamente por ter acompanhado um funeral civil. É verdade! E sofre dolorosamente a sua “ousadia”. Deixou de ter contratos para abrilhantar as festas populares. Tempos mais tarde encontrei, publicados aqui na Figueira, anúncios para a venda do seu instrumental. Alguns anos depois, voltou a reorganizar-se mas, segundo as notas que colhemos, nunca mais teve a fama e a projecção que havia obtido, especialmente devido à atitude drástica do senhor Bispo de Coimbra.

         E, em Tavarede?

         Bem, em Tavarede, acabaram para sempre os festejos ao S. João. Nunca mais se realizaram e acabaram por cair no esquecimento de todos. No “Chá de Limonete”, mestre José Ribeiro, no bairrista “Tavarede-Marca”, recorda “Pois quando ressuscitaram o São João, (por volta de 1940) o grande número das festas foram as cavalhadas. Porquê? Porque lá estava Tavarede em peso! A freguesia mandou uma burricada... mais comprida que desde o Rio ao Paço! Os burros eram tantos que a gente nem se via no meio deles... Ganhámos o prémio! Tavarede marca!”...


         Com os naturais exageros de uma fantasia teatral, acredito que, efectivamente, Tavarede tenha marcado uma vez mais! Foi a última, neste campo, diga-se.



                                                    Rancho da Alegria

Tavarede no Teatro - 9

“Pátria Livre”

         “Está solenemente proclamada a independência desta freguesia, que fica constituída em República”. É com estas palavras que o Comandante das Tropas se dirige ao povo que se encontra reunido nos Paços da República.

         E, depois de cantarem o coro de abertura desta fantasia:

                                               “Neste dia abençoado
                                               Caíram nossas cadeias
                                               É façanha que dá brado
                                               Por todas essas aldeias.

                                               A tropa audaz e valente
                                               Tornou nossa Pátria forra.
                                               Soltemos um viva ingente
                                               À República de Andorra.

                                                        Saudemos todos
                                                        Com alegria.
                                                        Ela nos trouxe
                                                        Paz e alforria.

                                               Os da Figueira tirana
                                               Que se não façam pimpões;
                                               Que esta tropa duma cana
                                               Vai-lhe outra vez aos fungões!”

o povo desata em altos vivas e aclamações à nova república do Limonete! No meio de todo aquele entusiasmo, o Comandante proclama: “o cidadão Agostinho Pandorgas, que está presente, fica sendo, pelos seus merecimentos e mais partes, Presidente da República e nomeará ministério”.

         O cidadão indicado aceita, comovido e grato, o cargo para que o escolhem. “Obrigado! Muito obrigado! Bravo Comandante: agora que estamos libertos do jugo odioso, consinta que em nome deste povo lhe agradeça o heroísmo com que levou do rabo a cabo esta façanha imortal. Bendito e louvado seja o vosso nome, agora e na hora da nossa morte”. E parafraseando Napoleão Bonaparte, termina: “dos altos da Chã, dos cimos da Vergieira e do Casal da Robala, do cume do Peso e das encostas do Saltadouro, mais de 40 laparotos o contemplam!”.

         Pois é verdade! Quem diria que, mais de cento e cinquenta anos depois de ter perdido todo o seu poderio em favor da nova vila da Figueira da foz do Mondego, a terra do limonete, num heróico golpe das suas tropas revolucionárias, reconquistaram, não o seu poder antigo, a sua câmara e as suas justiças, mas muito mais do que isso. Conquistaria a sua independência!

         O seu território era pequeno, sem dúvida, mas era mais ou menos do mesmo tamanho dessa outra república a que se comparavam, a república de Andorra. É que, como o bravo comandante disse logo a seguir:

         “Este nobre povo não podia por mais tempo gramar a tirania que pesava sobre ele. Acabaram os vexames, as contribuições, as licenças do carro e caça, o serviço braçal! Quebraram-se os grilhões que nos prendiam à maldita Figueira. Já era tempo de dar liberdade a este povo, que andava pelas azinhagas a gemer as suas dores...”. De barriga, completa o governador.

         É claro que tal acontecimento teria que dar brado. Rapidamente a notícia chegou a Lisboa e um jornal de grande circulação nacional, “A Bomba Social”, logo mandou a Tavarede um dos seus jornalistas mais qualificados, para averiguar e noticiar a situação real do acontecimento.

         Delfim Pirolito, o jornalista, logo que chegado à terra do limonete, pediu audiência ao presidente nomeado, que lha concedeu de imediato. Vejamos como correu:

Presidente - Queira dizer.
Jornalista - Venho, comissionado pelo meu jornal, a indagar as causas da revolução que há dias rebentou em Tavarede e que, pelo que agora me disseram e eu estou vendo, saiu triunfante.
Presidente - Aqui tem o heróico comandante das nossas tropas que lhe põe tudo em pratos limpos.
Comandante - É simples. Fartos dos mandões da pátria do caranguejo, fizemos a revolução enquanto o diabo esfrega um olho e implantámos a República.
Governador - É p’rá frente é que é o caminho, que p’ra traz mija a burra.
Comandante - O sr. Presidente lhe explicará o resto.
Presidente - Ora vá tomando nota no canhenho. Primeiro do que tudo tenho a dizer-lhe que da Figueira não precisamos nem da ponta dum chavelho. Aqui temos tudo o que é preciso e para dar e vender.
Governador - Pois a Figueira ainda apanha o que nos cresce...
Presidente - A boa couve tronchuda, e bom nabo, o rico pepino, o belo tomate, repolhos grandes como nádegas de raparigas, e um fartote do bendito fruto...
Jornalista - ... Do vosso ventre?
Governador - Qual? Esse é todo apanhado pelas gandaresas...
Comandante - De peras é tal a fartura que comemos duas de cada vez.
Jornalista - Que lhe faça bom proveito.
Comandante - Belíssimos pêssegos...
Jornalista - Pêssegos também?
Governador - É riquíssimas pêssegas! Daqui!
Presidente - Finalmente, nem a verdura dos campos escapa.
Jornalista - Manducam também o verde?
Presidente - Como vê, não precisamos da Figueira para nada. Temos tudo: a estação do caminho de ferro, o matadouro, o Hospital Militar...
Comandante - E até o próprio cemitério é do nosso território.
Governador - Para encurtar razões: não teem onde cair mortos.
Presidente - Mas há mais: A Figueira sem Tavarede estaria na escuridão. A central da Companhia Eléctrica tem seu assento nesta freguesia.
Jornalista - E já cá chegou a luz eléctrica?
Presidente - Ora essa! Pois não havia de chegar?
Jornalista - Deixe-me V.Exa. tomar nota. Isso é muito importante. Porque me tinham dito que a terra era pequena e pobre.
Presidente - Sim. A terra é antiquíssima. Vem do tempo dos godos. Já foi rica. Agora não avesa cheta...
Jornalista - É como muitos fidalgos de quatro costados. Não tem riqueza mas tem nobreza.
Governador - Ora cebolório! Fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia...
Presidente - Nos tempos antigos, no tempo dos godos, alumiava-se com tições e archotes de resina; depois veio o azeite, mais tarde a vela de cebo e o petróleo, depois a acetilene e, finalmente, a electricidade.
Governador - Olhe: aí vem a procissão das lamparinas.

         Depois de entrarem, cantando, são apresentadas ao jornalista. Primeiro a candeia de azeite, a mais velha, “sou a luz dos pobresinhos. O progresso persegue-me constantemente, mas a candeia velhinha existe ainda em muitas casas”. Depois o candeeiro a petróleo que fumaça como um catraeiro, “mas sou uma rica luz. Não cheiro bem, mas...”. Segue-se o acetilene que se cheira mal é porque tem o cano roto, pois que é um gás civilizado, mas se lhe chegam a mostarda ao nariz, estoira como uma bomba! Finalmente, chega a vez da electricidade, muito requestada pois “todos me querem em casa e até nas ruas, mesmo nos sítios mais escusos!”.

         Acabadas as apresentações as luzes saiem da cena, onde entra, momentos depois, a Comissão de Irmãos da Irmandade do S. Martinho que, saudando o presidente da República e dando a sua inteira adesão ao movimento, transmite a sua reinvindicação:

         “Excelência! Em nome da Confraria a que pertencemos, entrego nas mãos de V.Exa. esta representação. O que aí se pede é pouco, muito pouco, e esperamos que o governo nos atenderá! Queremos que seja revogada a lei das tabernas; queremos que elas estejam abertas a toda a hora, de dia e de noite, como as boticas; queremos inteira liberdade de culto e que cada um possa adorar o orago da freguesia a toda a hora que lhe dê na gana; e pedimos também que o governo dê um prémio por cada capela que de novo se abrir no território da nossa República”.

         Lá ficou o governo de estudar o assunto, pois os confrades tinham muita importância local, com festa que “começa pelo vinho novo e vai por todo o vinho velho!”. E continua a conversa, afirmando o presidente que “nada precisamos da Figueira, ao contrário, ela é que tudo precisa de nós. Não contente com o que nos come, até a água nos bebe...”.

         Pois, pudera! A água de Tavarede tinha fama universal e muitas propriedades urinéticas...


         “Puro engano, esclarece o presidente. A água que a Figueira nos chupa por um canudo, é para ela um verdadeiro canudo. Tem mais cal que os fornos da Salmanha”. E era bem verdade. A água ia para a Figueira, desde o Praso, lá ao cimo do Vale de S. Paio, da nascente do Olho de Perdiz, pela grande conduta que ia dar aos depósitos do Pinhal, aonde era tratada com cal antes de distribuída. “Agora a água da nossa fonte, isso é outra loiça! É especial. Fina, pura, saborosa, aveludada. É um regalo! Para desenvolver as teorias dos intestinos não há melhor...”.

sábado, 1 de agosto de 2015

Tavarede - a terra de meus avós - 17

Acabou o S. João de Tavarede



         Começo por dizer que as festas ao S. João, em Tavarede, acabaram no ano de
 1927. Mas, o que muito poucos saberão é como, e porquê, o querido santo casamenteiro, tão do gosto da gente da nossa terra, deixou de ser aqui festejado. Pois é isso mesmo, o que pretendo fazer agora.

         Não encontrei, pelo menos até ao momento, elementos concretos que informem desde quando se realizavam as festas ao S. João, na nossa terra. A primeira notícia que colhi, na imprensa figueirense, data de Julho de 1874 e nela se escreve que “terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da vila ao milagroso S. João. É a antiga vila de Tavarede quem todos os anos, permita-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado sistema de festejar o Santo com mascarada, cavalhada, corrida de prémios, etc. etc.”.

         A Figueira festejava, como hoje, o seu santo, no dia 24 de Junho. Seguia-se, no primeiro fim de semana de Julho, Buarcos e, depois, Tavarede. Esta é a razão da expressão acima “cobrir a rectaguarda”. Todos os anos eram estas terras, junto à sede do concelho, que festejavam o S. João com maior pompa. Ainda durante o mês de Julho e, algumas vezes, em Agosto, em Brenha e Quiaios haviam tais festas, o que prova a razão do povo quando diz que “o S. João a todo o tempo tem vez”...

         Voltando ao nosso S. João, as notícias recolhidas indicam que a terra do limonete apresentava, nessas ocasiões, um interessante aspecto festivo: “a comprida rua da terra, iluminada por vistosos balões venezianos suspensos de arcadas vestidas de buxo”. As princípio, as festas decorriam somente no largo da Igreja, onde, além das tradicionais barracas de “comes e bebes”, “quermesse” e outras, habituais em festejos populares, se armava o pavilhão, profusamente engalanado e iluminado. Era ali que “a gente dos campos, a boa gente alegre e de consciência tranquila, se entregava aos prazeres da dança, atroando os ares com as suas canções poéticas do santo popular”.

         Como já referi, as festas ao S. João eram mistas, sempre compostas por uma componente religiosa e outra pagã. A parte religiosa era cumprida, exclusivamente, dentro da igreja. Ao longo da semana, tinham ali lugar as novenas e os sermões, estes proferidos por orador religioso de reconhecido talento e cujas prédicas culminavam na missa de domingo, em que a presença de fiéis era sempre bastante numerosa.

         Esta missa era o ponto alto das celebrações religiosas, sempre a grande instrumental, pela filarmónica contratada e, algumas vezes, pela tuna de Tavarede ou por um conjunto formado por alguns elementos seus, e cantada por um grupo coral, frequentemente vindo de Coimbra para este fim.

         A componente popular iniciava-se no sábado, depois das cerimónias religiosas. Em primeiro lugar havia o concerto pela banda, no pavilhão, durante o qual era lançado fogo de artíficio, do ar e preso. Acabado o concerto, seguiam-se as danças e os descantes, que tinham a participação da tuna local, quando se encontrava organizada, ou um grupo de músicos reunidos para o efeito. Também as tunas de Caceira e Fontela algumas vezes aqui vieram colaborar nos festejos.

         É claro que, durante toda a semana, o costumado Zé Pereira percorria os diversos lugares da freguesia, acompanhando os “mordomos” que faziam o peditório. E o arraial só na madrugada de domingo, já ao romper do dia, é que terminava a função.

         No domingo, acabada a missa solene, último acto religioso das festas, a comissão dos mordomos ia receber das mão dos senhor prior a “bandeira”, pendão que abria o cortejo das cavalhadas e que, durante o ano, ficava à guarda da Igreja.

         Organizava-se, então, o cortejo. Nas semanas anteriores, Tavarede recebia a visita das cavalhadas da Figueira e de Buarcos. Competia, agora, fazer a retribuição. Recordo a notícia de um destes cortejos:

         “Era digna de ver-se aquela pitoresca caravana, que apresentava os mais extravagantes contrastes. Vinha ali de tudo. A sobrecasaca urbana e o chapéu fino dos padrinhos, os trajos domingueiros das frescas moçoilas de Tavarede, os vestidos de fantasia dos mascarados e a sordidez plebeia dos aldeões. E na frente de tudo aquilo a gaita de foles e o clássico zambumbas”.

         O cortejo ia, em primeiro lugar, junto da Igreja de S. Julião, onde era aguardado pela filarmónica. Ali chegado, dava as tradicionais três voltas à igreja, enquanto a banda entoava alegre marcha. Os barulhentos foguetes subiam ao céu estralejando e os sinos repicavam alegremente no alto das torres. Seguiam, depois, a dar as costumadas voltas à Reboleira e à Ribeira (Praças Nova e Velha), seguindo, após isso, para Buarcos, onde subiam até à capela da Senhora da Encarnação.

         Aqui chegados, faziam uma pausa para descanso e recuperação de forças, muito em especial dos animais, que já deviam ir bem cansados. Certamente que se petiscava e beberricava alguma coisa e, pouco depois, era o regresso a Tavarede, pelo caminho do Alto do Forno.

         À entrada de Tavarede, no Largo do Paço, já se encontrava à espera a filarmónica que, depois, seguia à frente do cortejo, atravessando a aldeia, até ao Largo da Igreja, ao mesmo tempo que mais foguetes subiam ao ar e os sinos também se faziam ouvir alegremente. Chegados, iam depositar a “bandeira” na Igreja, e destroçavam a seguir. Era chegado o momento de recomeçar o programa: concerto, descantes e danças, que acabavam cerca da meia-noite.

         Refiro que, enquanto as cavalhadas faziam a sua volta, tinham lugar as provas desportivas, como corridas pedestres, de sacos, pés atados, rosquilhas, etc. Alguns anos acontecia que estas provas só se realizavam na tarde da segunda-feira seguinte.

         Era assim, com mais ou menos brilho, que se festejava o S. João na terra do limonete, muito dependendo dos mordomos e do dinheiro que conseguiam obter nos peditórios.

         Naturalmente que havia, de vez em quando, alterações no programa, como, por exemplo, o próprio local das festas profanas. Pelo número de participantes e forasteiros, talvez por questões de rivalidades, e adiante se verá um destes casos, no final do século dezanove já se armavam mais dois pavilhões. Além do Largo da Igreja, começaram a utilizar o Largo do Forno e o Largo do Paço. Era conforme a vontade dos festeiros. Claro que, precisamente por isso, há notícias de algumas histórias curiosas. Talvez que a mais interessante terá sido a do ano em que, por rivalidades internas, os mordomos não se entenderam, pelo que foram organizadas duas festas. Aconteceu no ano de 1892. Primeiro, um grupo dos festeiros, “com caloroso entusiasmo, pegando na bandeira grande, realizou bonitos festejos no domingo último”, e, depois, “amanhã, se Deus quizer, um grupo adversário, empunhando a bandeira pequena, diz que não ficará atrás em lamparinas, foguetes e outras mirabolâncias de embasbacar”. Ou, então, uma outra, ocorrida no ano de 1889, em que o padre António Augusto da Silva Nobreza se recusou a entregar as bandeiras aos mordomos da festa e para que a cavalhada não deixasse de se efectuar com bandeiras, resolveram ir à missa com novas bandeiras, escondidas, que “seriam levantadas ao alto no momento em que o padre dava a benção final. Assim, ele não podia deixar de abençoar as novas bandeiras e a festa seria feita com bandeiras devidamente benzidas”…


         E antes de contar a história das últimas festas sanjoaninas, no ano de 1927, ainda vou narrar um outro episódio aqui ocorrido no ano de 1907. A sua curiosidade deve-se ao facto de ser passada entre dois festeiros, ambos irmãos e ambos taberneiros. Com certeza que a historieta será desconhecida da maioria dos meus conterrâneos.