sábado, 12 de setembro de 2015

Tavarede - a terra de meus avós -23

Um cortejo reaccionário…



         Quando folheávamos os nossos apontamentos, despertou-nos a atenção uma local, publicada no jornal “Correspondência da Figueira”, em Outubro de 1881. Diz assim:

AO SR. BISPO-CONDE

         Não somos denunciantes de pessoa alguma, mas não podemos também deixar de fazer subir ante s.exª. as queixas que por aí se ouvem com respeito ao reverendo que está encomendando a freguesia de Tavarede.
         Pode ser que haja exagero no que se diz, e cremos até que assim seja; mas dando-se os devidos descontos e feito um abatimento de cinquenta por cento, fica ainda uma carga regular para o tal reverendo.
         Bom seria, pois, que s.exª. mandasse apurar o que há de verdade por meio de uma sindicância. Nem queremos que aquele pastor esteja sendo vitima de acusações menos verdadeiras, nem que continue apascentando o rebanho que lhe está confiado, se não está nas condições de bem cumprir os espinhosos deveres da sua missão.
         É certo que o sr. Bispo Conde não tem sido de uma escrupulosa imparcialidade para com alguns dos seus irmãos em Jesus Cristo neste concelho; cremos, porém, que, neste caso, cerrará ouvidos a pedidos, e fará justiça recta, embora tenha de sacrificar o tal encomendado.
         E assim o esperamos confiadamente: de contrário, e ainda sob pena de qualquer excomunhão com que s.exª. nos possa fulminar, não cessaremos de pedir que se olhe com misericordiosos olhos pelos católicos romanos da freguesia de S. Martinho de Tavarede.

         Curiosamente, só anos mais tarde encontrámos a explicação para aquele alerta ao Senhor Bispo, e num outro periódico: “Comércio da Figueira”. Era, então, pároco em Tavarede o reverendo António Augusto da Silva Nobreza. A Junta de Paróquia era à altura constituída por João José da Costa, da quinta dos Condados, José Maria de Almeida Cruz, Manuel Jorge da Silva, António da Cruz, José Luís Inácio e José Maria Luís.

         O reverendo padre, e isso era normal naqueles bem complicados tempos, andava de “candeia às avessas” com muitos dos seus paroquianos e, também, com a própria Junta. Antes que me esqueça, recordo que a Junta de Paróquia tinha instalação numa dependência da Igreja matriz, junto à sacristia, onde se reuniam e guardavam as suas coisas.

         Na acta de 9 de Janeiro de 1881 a Junta deliberou exarar em acta todos os benefícios que o seu presidente, João José da Costa, tinha feito em benefício da paróquia. João Costa havia assumido a presidência da Junta, depois de ter sido presidente da Câmara da Figueira durante vários mandatos, e mandara fazer, à sua custa, importantes melhoramentos para a nossa terra, nomeadamente o teatro na sua casa do Terreiro (1885). Relativamente à Igreja, e segundo aquele registo, havia suportado os seguintes custos:

         = doação da quantia de 19$200 reis para compra de um terreno para alargamento e aformoseamento do adro da Igreja;
         = pintura do teto da Igreja e arco cruzeiro, no valor de 54$645 reis;
         = encarregou o reverendo pároco de mandar vir de Lisboa o lustre, que custou 37$580 reis, vindo tudo a importar em 111$425 reis.

         Entendeu, portanto, a Junta de Paróquia não ficar silenciosa a tão grandes e relevantes serviços prestados por aquele senhor, pelo que “aqui os deixa narrados, para que os presentes e vindouros se recordem sempre com viva saudade de tão benemérito cavalheiro”.

         Mas a Junta havia começado a receber muitas reclamações dos seus paroquianos relativamente ao reverendo Nobreza, a quem acusavam de parcialidade e não cumprimento das suas obrigações religiosas para com muitos.

         “Sejam quais forem os direitos de intervenção e atribuições do pároco em relação ao assunto (tratou-se de um funeral), não há nem podem haver leis canónicas, nem as da constituição do bispado, que autorizem e concedam poderes discricionários, e tão abusivamente praticados, que permitam ao pároco a exclusiva imposição da hora, porque é repugnante e intolerável, de consequências perniciosas como acaba de se dar, e por isso exigem que sejam repelidas pela mesma forma como se exercem e praticam.
         É bem conhecido, que o pároco de uma freguesia tem obrigações permanentes e inadiáveis a cumprir; vive à custa dos paroquianos, que exclusiva e directamente lhe pagam para prestar-lhes os serviços que a religião estabelece, não podendo ser substituídos senão por um sacerdote; portanto o pároco nunca pode dispor da sua pessoa por forma que se fique absolutamente inibido da sua concorrência pessoal na freguesia, e quando um comprometimento meditado o não possa fazer, é costume e sua estrita obrigação prevenir um sacerdote, por forma que sendo chamado, acuda e satisfaça aos actos e obrigações, sejam eles conhecidos ou acidentais, pois que o pároco não exerce profissão de padre como um ofício qualquer de que se recebe salário em certas e determinadas horas de serviço, para ir quando, como, e aonde lhe for vantajoso ou agradável: tem os encargos e obrigações exclusivas da religião, que queira ou não há-de forçosamente cumprir. É nenhuma a consideração que este sacerdote presta ao cumprimento dos seus deveres e obrigações, praticando abusos e excessos que o qualificam impróprio e incapaz de exercer este ministério”.

         Prosseguem as actas com um chorrilho de acusações ao pároco, notando-se, perfeitamente, que era mais o adversário político que se atacava do que o padre da freguesia.

         Em Agosto de 1884, solicitou a Junta autorização, com carácter de urgência, à Comissão Distrital de Coimbra para umas obras absolutamente necessárias. Apesar do pedido de urgência, a resposta não chegava, até que, no dia 18 de Setembro pelas 7 horas da manhã, o padre Nobreza, avistando da janela o presidente João Costa, que recolhia a casa de um pequeno passeio matinal, foi atrás dele e entregou-lhe um ofício que tinha em seu poder, sem saber como lhe chegara…

Era um ofício datado de 30 de Agosto, em resposta ao seu e no qual solicitavam esclarecimentos adicionais necessários à autorização requerida. Para justificar o atraso na resposta, solicitou a Junta, em ofício dirigido ao pároco, a informação de como o ofício fora recebido em sua casa e por que só passados tantos dias lho entregara.

Pois só no fim de Outubro o padre Nobreza respondeu dizendo “ignoro, para dizer com segurança, como o ofício que lhe entreguei, veio ter a esta casa, nem mesmo sei dizer o dia em que chegou, pois foi em ocasião em que eu não estava, sendo recebido provavelmente por minha criada com a minha correspondência. É certo que há poucos dias dei com ele envolvido com outros papéis, e vendo vossa senhoria da minha janela me resolvi a ir pessoalmente entregá-lo fazendo conhecedor nessa mesma ocasião dos motivos de demora”.

Os ânimos azedaram-se, de tal forma que o pároco chegou a dar ordens ao sacristão para não abrir a porta da Igreja para entrarem para as reuniões. O presidente João Costa não hesitou mais. Sendo dono de uma casa velha que estava desocupada, de imediato resolveu para ali mudar a Junta e mandou buscar a mobília e mais pertences que, com grande oposição do padre Nobreza, o sacristão acabou por entregar.

Como referi tudo isto não passavam de questões políticas. E para o confirmar vou acabar a historieta da mudança da Junta da Igreja, com a transcrição de um caso bem elucidativo. Em Novembro de 1883 houve eleições municipais. As urnas deram a vitória ao partido do padre Nobreza e seus correligionários. Eis a transcrição da comemoração dessa vitória:

“O padre entusiasmado pela glória que o aureolava, entendeu dar uma pública demonstração do seu regozijo e satisfação digna da sua pessoa e companheiros, pelo prestígio e influências irresistíveis que acabavam de fundar e estabelecer sobre os despojos mortais do que chamaram partido progressista em Tavarede; para isso convencionou com a garotada de celebrar uma procissão de enterro, envolvendo o nome de alguém a quem só na ausência podiam impunemente insultar.
Com efeito na segunda-feira posterior da dia da eleição, tendo-se efectuado a reunião de todos os mordomos da festa-fúnebre no local aprazado, que foi dentro dos umbrais do portão de entrada da quinta do exmo. Conde de Tavarede e onde sua exª tem o seu solar e residência, desfilou o préstito, indo todos os da comitiva envolvidos em lençóis, lançada uma ponta pelas cabeças com o rosto descoberto e archotes na mão. Precedia o sacristão António Gaspar de Figueiredo, tangendo uma campainha da Igreja (que precede procissões e enterros quando se trata de chamar a atenção dos fieis cristãos   
a um acto religioso). Seguiam António Proa, com uma colcha de chita arvorada em uma haste servindo de guião; acompanhavam António Carlota, António Cascão, Joaquim Nunes, João Ceiça, Manuel Pata, o regedor Manuel Luís Inácio e filhos Bernardo e José Maria, de Tavarede; Joaquim Mendes, o Bairrada, de Caceira, e ainda uma porção de garotos da Figueira e uns três de Caceira, companheiros do Bairrada; no fim João Proa, tocando tambor em uma caldeira, entoava o responso “chorai, filhos, chorai: morreu o partido progressista, vamos enterrá-lo e com ele lá vai a importância do João Costa; quem compra o beiço?”. Seguiam-se sentidos ais.
         Fechando o préstito ia o reverendíssimo António Augusto da Silva Nobreza, pároco desta freguesia, sem disfarce algum, levando na mão um livro, que deveria ser substituído por uma borracha ou picheira, como emblemas da sua Nobreza; e a seu lado José Maria Luís. Sentimos que este homem, aliás bem intencionado, se deixasse ir à discrição da canalha.
         Chegados ao adro da Igreja, porque caíram sobre o acompanhamento umas pedradas, e porque se não viam os impulsores, compreenderam que a ousadia provinha de quem pouco podia arrecear-se. E de noite todos os gatos são pardos, resolveram retroceder e não chegaram ao cemitério para onde se dirigiam e ali devia o reverendo entoar o De profundis…”.


         Atenção, tudo isto transcrevi das actas da Junta de Paróquia que foram publicadas na imprensa. Não há duvidas de que o facciosismo político levava pessoas responsáveis um pouco longe demais!...

Tavarede no Teatro - 14

         “Com todo o gosto, ei-lo, diz-lho o Comissário. Folheai-o à vontade Vossa Excelência e verá como é rica esta exposição. A secção nacional é vastíssima. Aí encontra tudo quanto é necessário à vida do homem, da mulher e dos animais; géneros e comestíveis; os mais diversos produtos da indústria e da agricultura; a arte, o progresso e a civilização representados nas mais variadas manifestações. Aqui há tudo quanto possa imaginar-se”.

         E, a pedido do visitante, manda chamar a primeira especialidade, a maçã do Paraíso. Uma delícia, madura e perfumada que consola. Melhor não há, com certeza!

          (Maçã)          Depois do mundo criado
                               Nos tempos do paraíso,
                               O pai Adão, coitado,
                                Um dia perdeu o siso.

                                  Vendo a mãe Eva fagueira,
                                  À luz da fresca manhã,
                                  Atirou-se à macieira
                                  E zás! Comeu a maçã!

        (Nêspera)             Sim, senhor, a fez bonita!
                                   Não era carne sem osso,
                                   Porque afinal a maldita,
                                  Lhe não passou do pescoço.

          (Maçã)              Até os velhos me comem
                                  Porque sou fruta estimada,
                                 Não há rapaz nem há homem
                                 Que me não coma à dentada.

         Bela fruta! O brasileiro bem a queria apalpar para ver se estava madura, mas ela não foi na conversa e teve de contentar-se com o cheiro. Ainda quis ver-lhe a pevide para comprar igual e levar para semear no Brasil, mas esta maçã, disseram-lhe, não pegava de semente nem de estaca. Só de enxertia!

         Continuou a folhear o catálogo. Logo encontrou um grave erro... Era o café, que estava figurando na secção de produtos locais, quando deviam saber que o café não era de Tavarede, pois vinha do estrangeiro, de África, do Brasil, e de outros países.

         Mas este café era especial, nascido e baptizado no Grão-ducado de Tavarede. Nem era um café negro, forte e cheiroso. Este era um café pardo, fraquinho e quase sem cheiro.

         “Sou filho da cevada. A minha mãe fez mistura com o trigo, com o grão de bico e dizem que até com o feijão; e aqui está porque do meu registo de baptismo consta que sou filho de pais incógnitos e de mãe cevada”.

Uma pinga deste café e um bocado de broa, pela manhã, era o pequeno almoço dos operários que iam para as oficinas e dos rapazitos que, tremendo de frio, seguiam a caminho das obras, onde os esperava o “cocho” da cal. Ao almoço uma sardinha assada e à noite, em casa e a servir de ceia, outra vez o bom do nosso café, a fumegar nas tigelas, “a dar aos pobres uma impressão de abundância que não têm e a levar-lhes ao estomago uma sensação de fingido conchêgo!”.

E logo conta o café: “É verdade! Conheço tanta miséria, tanta desgraça, tanta fominha mais negra do que a minha cor... Não vale a pena pensar em coisas tristes. A vida é mesmo assim. E eu sei das vidas de toda a gente mais do que ninguém. A vizinha vai a casa da vizinha, a comadre a casa da comadre, e então, zás, aí entra o café da função. Sentam-se na cozinha, e enquanto eu aqueço ao lume, na chocolateira, falam dos ganhos dos homens, dos gastos dos filhos e das bebedeiras d’uns e d’outros! E quando me levam, nas tigelas esbeiçadas, às beiçolas cheias de gretas, assoprando, já têm entrado no capítulo das vidas alheias; - Ah! Comadre, vocemecê não viu a Esdofina no baile? – Pois vi, ah, mulher! É o vestido novo, de fazenda de 80$00 o metro! – Aquilo é um luxo que Deus te livre! O pior é que ainda deve o chaile que comprou o ano passado pelo S. João. – Antão não sabe que a Mari’Teza foi dizer à cunhada que eu não tinha dinheiro p’ra pagar na venda, mas tinha dinheiro pr’andar pelos teatros! Aquela alma danada! – Ah! Mulher! Eu inté tinha alma de lhe trincar os fígados àquela esmiucada de... E nunca mais acabam. Passam até à fieira a vida de toda a gente, o que se come e o que se cá ganha...”.

Pois é! A coscuvilhice tradicional!

         Vem, depois, uma espanhola, daquelas de que havia grande fartura no vizinho estado da Figueira, durante a época balnear. Encantado, fica o Nêspera Cajú. E o Comissário não resiste de louvar a Exposição, desejoso de causar a melhor impressão ao visitante e resume-lhe:

“Como vê, a Exposição Internacional do Grão-ducado de Tavarede é uma coisa notável em qualquer parte do mundo. Estão aqui representadas as mais poderosas nações, a França, a Inglaterra, a Alemanha, a China, o Japão, os diversos países de África, da América e da Oceania. A secção pecuária é vastíssima. Há animais de todas as espécies, tamanhos e feitios; mamíferos, insectos e batráquios, peixes e anfíbios. Terráqueos, aquáticos e aéreos: a aranha, a rã, a formiga, o elefante, o mosquito, o hipopótamo, a galinha, o bacalhau, o leão, o burro... Em burros, então, é um sortido variadíssimo: Temo-los manhosos e madraços, espertos e teimosos, filósofos e tapados como um burro; variam na cor, no tamanho e na educação. Temos o burro preto, o burro branco, o burro malhado e o burro cor de burro quando foge; o burro pequenito como um burrito de mama, o burro de tamanho natural e o burro como umas casas; o burro que nem zurra, nem morde, nem dá coice, o burro que não morde, que não dá coice mas zurra, e o burro que zurra, que dá coice e que morde. Burricalmente falando pode dizer-se que esta secção constitue para o nosso Grão-ducado um verdadeiro sucesso burrical...”.

        Pelos vistos, exposição como esta, nem as que agora se fazem. O brasileiro Nêspera há de recolher algumas coisas para levar, burros é que não, pois, diz, já lá têm que chegue. Agora o que pretende é avistar-se com a Grã-duquesa, para lhe fazer a entrega do legado paternal.

         Nesse dia a soberana fazia anos e dava uma recepção no Palácio. Era uma boa ocasião. E enquanto se dirigiam ao Paço, deram um pulo à fonte. Ao chegarem ouviram e apreciaram a canção da Fonte e o coro das Bilhas que já conhecemos.

         “É das coisas boas cá da terra, comenta o Comissário. Mas é pouco empregada em uso externo. A grande parte dos habitantes só se lava em dias de festa. Para uso interno tem qualidades especialíssimas. Estamos fazendo grande exportação em pipas, garrafas e garrafões para França, onde é empregada no combate ao descrescimento da população. Casados que a bebam já sabem que não ficam sem herdeiros. E solteiros também, e aí é que está o perigo... Há até um caso interessante: uma sopeira do vizinho estado da Figueira vinha todas as tardes à água a Tavarede, acompanhada pelo namoro, impedido do patrão. Um belo dia a rapariga dá à luz um robusto menino. Os patrões interrogam-na, mas ela, coitadita, nada sabe explicar, até que por fim se descobriu: uma tarde muito quente, quando a rapariga e o impedido regressavam à Figueira, sentiram-se cansados e sentaram-se na relva. Deu a sede à rapariga, o rapaz mergulhou o púcaro, ela bebeu com gosto – e passados nove meses tinha o pequerrucho...”.


         Desconhecia, em absoluto, tais propriedades da água da nossa fonte! Quando, depois, passavam no Largo da Igreja, a caminho da recepção, tinham acabado de saír, para a venda, os jornais locais. Notícias frescas não faltavam nos periódicos apregoados em altos pregões.

sábado, 5 de setembro de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 22

A mata do Rosa


         Uma pequena notícia, publicada num periódico figueirense, em Abril de 1898, informa que “segundo nos informaram, o solar e a quinta adjunta que o sr. Conde de Tavarede possuía na povoação donde tomaram o título”, havia sido vendido. Foi seu comprador Luís João Rosa, natural de Lavos. Mais acrescentava a notícia, que o sr. Conde mandara fazer leilão da mobília que possuía no solar, retirando-se para Trancoso, onde reside. A propósito desta mobília, contamos a sua história noutro local e o anunciado leilão nunca chegou a efectuar-se.

         O sr. Luís Rosa havia emigrado muito novo para África onde, depois de vários anos de trabalho, conseguiu juntar alguns meios de fortuna. Regressado à metrópole, por aquela ocasião, adquiriu a quinta e o palácio pela quantia de 5 000$00, dedicando-se à lavoura e ao comércio de gados, mantendo um talho no mercado da Figueira.

         Desde logo se integrou na vida social e cultural de Tavarede. Em Março de 1900, assumiu o cargo de presidente da direcção da Estudantina Tavaredense, então sedeada numas dependências do seu solar, mantendo-se no mesmo até à dissolução desta colectividade no ano de 1903.

         Por diversas vezes pertenceu aos corpos sociais da Sociedade de Instrução Tavaredense, como membro da assembleia geral e do conselho fiscal. Também foi membro efectivo da Junta de Paróquia local, tendo sido nomeado tesoureiro da primeira comissão executiva eleita após a implantação da República, exercendo, depois, o cargo de presidente.

         Nos de 1901 e 1902, Luís João Rosa concorreu, com produtos da sua quinta, à exposição industrial e agrícola, realizada na Figueira da Foz, obtendo “honrosas classificações”. Na última exposição conseguiu, segundo notas encontradas, menções honrosas nos produtos “couve lombarda” e “beterraba forrageira”.

         Apesar de ter feito parte de uma “Comissão de Beneficência da Freguesia de Tavarede”, nunca foi muito generoso nos seus donativos. Como exemplo, transcrevo um bocado de uma carta, publicada na “Gazeta da Figueira”, em Agosto de 1916. Tinha sido organizada, pela professora oficial da nossa escola primária, uma “Caixa Auxiliar”, com o fim de comprar livros, papel e inclusivamente roupa e calçado para os filhos de gente pobre que não tivesse recursos. Vejamos o tal recorte:

         “Para a direcção dessa Caixa constituíu-se uma comissão, a que eu pertenço também, que está encarregada do peditório de qualquer donativo e de arranjar pessoas que se queiram associar. Olhando para o fim a que se destina a referida Caixa, os sócios estão cheios de boa vontade e animados para trabalhar, ufanando-se por verem a sua pequenina terra seguir o caminho do progresso, mas ao mesmo tempo nada se consolam, porque já de há muitos anos Tavarede precisa duma casa própria para a escola oficial, e este ano, constando que já havia dinheiro para a sua construção, não vimos meios disso, porque a principiar-se, devia ter sido em Junho findo, como se fez nas Alhadas, no Paião, Lavos, etc. Em Tavarede... nicles.
         Nestas freguesias do concelho já andam em construção os novos edifícios escolares, porque as respectivas Juntas de Paróquia constantemente pediam á Câmara aquele melhoramento para as suas terras, o que acho muito justo, porque lhes era mesmo indispensável; mas nós, infelizmente, não temos uma Junta que proceda, isto é, que trate de oficiar á Câmara lembrando-lhe, sequer ao menos, que Tavarede também pertence ao concelho da Figueira da Foz.
         Não é bem a Junta da Paróquia quem tem culpa, mas sim o seu presidente, que é homem que nunca oficiou á Câmara reclamando aquela construção.
         Dar-se-á o caso que o sr. presidente não saiba fazer um... oficio, como o outro dizia, lembras-te? Sim, quem sabe se ele o saberá fazer?
         Olha que sempre é um homem que nunca reclamou absolutamente nenhum melhoramento para Tavarede... perdão, reclamou tal, a construção de um muro qualquer na Várzea, mas deve-se notar que sempre é muro construído na sua propriedade.
         Eu te conto, Aníbal, uma coisa que prova evidentemente que o mesmo senhor nada se interessa por Tavarede:
         A direcção da Caixa Escolar foi um destes dias ter com ele, pedindo-lhe que ou se associasse, ou concorresse com qualquer quantia. Sabes com quanto assinou? Com 30 centavos - 300 reis!! (e vá que já não é pouco!), e  respondeu ao mesmo tempo:
         - Tomem lá três tostões, porque eu nada me importo com Tavarede, com o povo de Tavarede, nem quero saber de Tavarede para nada.
         Ora isto é impróprio de se dizer, e o sr. presidente, conhecendo bem o honroso cargo que lhe confiaram aquando das eleições - que mais valia elegessem o Manuel Fandango - fazia uma bonita figura, mas mesmo bonita, se assinasse os 300 reis e se calasse, não é verdade?
         Presidente de penacho, há-os por uma pá-velha.
         Calcula tu, Aníbal, como é que os rapazes que foram a sua casa - aliás palácio, sim, porque é o velho palácio do antigo conde de Tavarede - haviam de ficar. Embaçados, com aquelas e outras grosseiras palavras, que não contavam saíssem da boca do sr. Luís João Rosa, digníssimo presidente da Junta da Paróquia da freguesia de Tavarede.
         Olha, o José Cordeiro, com o dinheirinho na mão, raspou-se, seguindo-se-lhe o César Cascão, António Coelho, João da Simôa, etc. Se tu visses o Jaime, que apesar de ser o último e coxear um pouco, ainda chegou á rua primeiro que todos, dizendo:
         - Safa, que d’esta nos livrámos nós! Podemos louvar a todos os santos por não comermos alguma bengalada!...”.

         Poucos meses depois, em Outubro de 1916, faleceu, sendo sepultado no cemitério local. Era casado com Ana Jorge Rosa, conhecida na terra por “senhora Aninhas”.

         Ora Luís João Rosa, quando regressara de África, trouxera consigo um filho, fruto dos seus amores com uma nativa, o qual, parece, não seria inteiramente normal. E em Abril de 1917, na “Gazeta da Figueira”, saiu publicada esta curiosa notícia:

         “Tem sido o pratinho do dia o consórcio do mulato de nome Augusto Rosa com uma velhinha que já não tem dentes para roer as côdeas das tortas...
         O noivo, que é filho do falecido Luís João Rosa, é um rapaz dos seus 25 anos, e a gentil noiva conta nada menos dos seus 69.
         Mas, como os tempos vão bicudos, hoje tudo se aproveita; deve sair uma casta admirável”.

         Dias depois o mesmo jornal informa que “o consórcio do mulato Augusto Rosa com a velhinha sua criada, e que se efectuou na repartição do Registo Civil dessa cidade, não está legal e por isso a família dele trata de os descasar…”. A razão de tal impedimento surgiu dias mais tarde, com a publicação de uma carta de Francisco Luís  Rosa, residente em Lisboa e tio do noivo.

         “Sr. redactor – Em carta de Tavarede publicou a Gazeta de 21 último a notícia de não estar legal o casamento do mulato Augusto Rosa e de que a família dele trata de o descasar.
         Assim acontece, com efeito, e como eu represento a família a quem o articulista se refere, permita-me esclarecer a notícia e o caso para que os seus leitores melhor possam conhecer do que se trata.
         Meu irmão Luís João Rosa, vindo a Lisboa em 10 de Outubro último, declarou-me que ia fazer testamento e nomear o sr. João dos Santos, dos Condados, como tutor do mulato, seu filho, Augusto Rosa, maior, de 28 anos, que é a quem se refere a notícia.
         Voltando para a sua casa da quinta do Paço de Tavarede, bem disposto e apenas queixoso de inflamação numa perna, poucos dias depois faleceu e de maneira a deixar-me algumas dúvidas quanto á causa da morte. Sendo só então eu ali chamado por um primo (e não pela viúva) soube não haver testamento.
         Ora, no princípio deste mês fui surpreendido com a notícia de que em 20 de Março último tinham levado o mulato a realizar um casamento civil provisório com a velha criada e cozinheira da casa, por ter urgência para tratar dos seus negócios, consoante se requerera ao sr. dr. delegado.
         O Entrudo passara pouco antes e os folguedos da época tinham sido proibidos por decreto ou lei. Assim pensava quando a seguir tive notícia de que logo em 1 deste mês tinham levado o mulato a firmar uma escritura de partilhas amigáveis com a madrasta e no dia seguinte a firmar outra escritura de doação do seu património á mesma, a interessante Senhora Aninhas, que a Figueira conhece! E que nesta escritura de doação ficara previsto o internamento do infeliz em algum manicómio!...
         Depois destes negócios realizados, foi que se publicaram os éditos do casamento e então fui opor impedimento por demência notória, o que faz com que o casamento não produza efeitos jurídicos enquanto não se provar a improcedência do impedimento.
         Em resumo, eis o caso. Escandaloso? Sei lá! Aí ficam com alguns elementos de apreciação; outros virão depois.
         Aos leitores que não conheçam o meu infeliz sobrinho, garanto que ele nunca teve nem tem capacidade para tratar de qualquer negócio. Cautela, pois, contra novas surpresas das criaturas envolvidas no caso.
         Pela publicação desta carta se confessa grato. Francisco João Rosa”.

         Certamente que estaria em causa o valor da herança, que não seria de desprezar. Mas, em Tavarede, não levaram a bem a intromissão verificada e o correspondente do mesmo jornal de imediato responde.

         “O sr. Francisco João Rosa, bem conhecido por todos os legítimos sucessores de Galeno e de Paracelso, do laboratório das repartições públicas, que nem sempre tem âmbito para grandes reacções, principalmente se o operador é despido de boa presença de espírito e daquela sã prudência e cautela que exigem todos os casos delicados ou difíceis, passou para o laboratório da imprensa, aonde lhe não foi preciso empregar todos os caracteres do alfabeto, para obter um produto composto de diversas palavras, todas cianídricas e capazes de... intoxicar metade desta linda Figueira, com a qual pretende criar meio para justificar-se de haver... impedido o casamento do seu sobrinho, acusando este de ser um... demente notório!
         Que singular e recente descoberta fez o sr. Rosa, que ainda não há muitos meses reconhecia o seu sobrinho com plena capacidade civil para reger a sua pessoa e bens, e tanto que o acompanhou a um notário para ele outorgar uma procuração a um advogado para o representar num inventário entre maiores!...
         Nessa altura, positivamente, o sr. Rosa pensava diferentemente, ou então era cúmplice consciente dum verdadeiro crime, por não acusar ao dr. Curador Geral a notoriedade de demência do seu sobrinho, para s.exa. intervir no inventário, conforme a lei prescreve.
         Ora a verdade é que o sr. Rosa, com aquela sua indicação nos negócios do seu sobrinho, reconheceu-o capaz de seguir e zelar os seus interesses, capacidade que os autos do inventário largamente demonstram; todavia, veio em auto público levantar o impedimento ao casamento, pelo fundamento de ser ele um... demente notório.
         Haverá alguém capaz de afirmar que motivos de honesto altruísmo chamaram a esta cidade o ilustre químico, distraindo-o das lucubrações do seu laboratório, para assinar o auto declaratório do referido impedimento?
         Parece-nos que não.
         O ilustre analista, que só muito pela rama conhece o sobrinho, veio lá de longe, da capital, trazer á Figueira a novidade, ainda não conhecida aqui, apesar de velha, de ser ele um demente notório!
         Que cambada de parvos todos nós aqui somos, que ainda ninguém havia dado por tal!
         Demência notória!... esta nem ao diabo lembra, quando não tem sono.
         Será aquela afirmação do famoso homem de ciência a denúncia de algum estado mórbido do seu cérebro, provocado pela ambição ou egoísmo de... prestar, agora, ao sobrinho, cuidados e atenções capazes de fazerem dele um homem... notório, digno do tio?
         Por enquanto não se sabe, mas deve vir a saber-se.
         É assunto que merece alguma atenção e estudo, a que não fugiremos, como criatura que, profissionalmente, está enrascada no caso, que até talvez venha a ser desvendado a toda a luz duma crítica alegre, em algum palco cá do burgo.
         E se assim for, teremos o prazer de oportunamente oferecer um camarote ao ilustre sábio, sagaz descobridor da notoriedade de demência do sobrinho, pela qual muita e boa gente ainda não havia dado, apesar de ele por aqui estar há 19 anos e ser daqueles que facilmente se fixam, como diria o dr. Vilela aos seus discípulos da cor do sobrinho do sr. Rosa”.

         Não temos mais notícias do caso. Mas, em 29 de Maio do ano seguinte, aparece publicada a seguinte: PREVENÇÃO - Constando que a viúva Ana Jorge Rosa pretende vender a quinta do Paço de Tavarede e fazer outras transacções sobre bens do casal inventariado, deixados pelo marido Luís João Rosa, declara-se que tais negócios não serão válidos enquanto não for legalizado o casamento do filho do falecido.  (a) Francisco João Rosa.


         Apesar de diversas tentativas, não consegui apurar como terminou o caso, se o casamento acabou ou não por ser validado e quem recebeu a herança. O que todos sabemos é que o solar e a quinta acabaram por ser vendidos ao sr. Marcelino Duarte Pinto, por sinal também ele talhante no mercado da Figueira.


         Como curiosidade termino com o seguinte comentário: o solar, sempre continuou a ser conhecido como o “palácio dos condes de Tavarede”; a quinta, ficou conhecida por “quinta do Marcelino”; e a mata, abatida para urbanização, ficou sempre denominada por “mata do Rosa”… 

Tavarede no Teatro - 13

“O Grão-ducado de Tavarede”
  
         Aconteceu o impensável. Bem diz o ditado que “não há bem que sempre dure, nem mal que sempre se ature”... Nem um ano durou a existência da República do Limonete. O presidente Pandorgas, tão vaidoso do seu cargo, e o Comandante das Tropas, que julgavam o seu poder solidamente instalado, viram-se, num repente, batidos em toda a linha e tiveram que procurar refúgio em territórios vizinhos, ainda esperançados numa reviravolta.

         E quem reconquistara o poder? Foi a inconformada Figueira? Foram forças estrangeiras? Não. Foi uma mulher, aliás uma digna fidalga que, derrubando o vigente regime republicano, puxou dos seus pergaminhos e, mantendo a independência do território, proclama o Grão-ducado de Tavarede, de que passa a ser soberana!

         Desenvolveu todas as actividades dos seus novos domínios e, tal foi o progresso que, em breve, conseguiu uma espectacular inauguração: a primeira Exposição Internacional de Tavarede. Mas, como se pode ver, apesar de todos os sucessos, havia sempre o receio duma conspiração republicana.

A acção desta nova fantasia inicia-se precisamente no gabinete do Comissário Geral da Exposição, aonde se deslocou a Grã-duquesa para proceder à inauguração oficial.

Conselheiro -         Dessa revolta fandanga
                               Ninguém trema nem se assuste,
                               Pois connosco ninguém manga...
                               Vencemos, custe o que custe.

Uma Dama -          Todas temos confiança
                               Na nossa tropa guerreira.
                               Nem Pandorgas se abalança
                                A vir p’ra cá de Caceira.

Outra Dama -         O Presidente Pandorgas
                                 Quer caír na ratoeira.

Coro -                      O povo de Tavarede
                                Deste heróico Grão-Ducado
                                Deseja ver sem tardança
                                Pandorgas espatifado.
                                Temos tropas duma cana
                                Em cerrados batalhões,
                                Temos milhentas granadas,
                                 Muito mais de cem canhões.
                                 Meia dúzia de poltrões
                                 Não vencem, nem abananam
                                 Nossos feros batalhões.

Duas Damas -          As nossas tropas
                                 Não são malessas
                                 Com galhardia
                                  Carregam peças
                                  D’artilharia.

                                  Vêm-nos de Foja
                                   Dez mil trabucos
                                   Cem bacamartes
                                   Que estragos causam
                                   Por muitas partes.

Conselheiro - Não tenham V.Exas. dúvida alguma, minhas senhoras. O Pandorgas será derrotado se tiver a ousadia de vir atacar o nosso Grão-Ducado.
Baronesa - É muito sério. Imagine-se o que seria aqueles enormes canhões a vomitarem metralha sobre nós.
As Damas - É horrível. Oh! seria o fim do mundo.
Secretário da Guerra - (intervindo tranquilizador) Mas, minhas senhoras, podem estar seguras. V.Exas. estão fora do alcance do fogo. Respondo pelas suas preciosas vidas como respondo pela segurança do Grão-Ducado e pela integridade da nossa Grã-Duqueza.
Baronesa - Entregamo-nos à sua guarda, General.
Conselheiro - E estão muito bem entregues. Para tomar conta de senhoras não há ninguém como o general. Foi isso que o fez coronel aos 35 anos de idade.
Condessa - Era uma linda idade. Trinta e cinco anos e já coronel...
Conselheiro - Outros o teem sido mais cedo. Mas, nenhum, com certeza, ganhou tão brilhantemente a promoção. A história do nosso general é simplesmente gloriosa.
Baronesa - Conte-nos general. Conte-nos essa história que tanto lustre dá ao nosso Grão-Ducado.
Secretário da Guerra - Oh! minhas senhoras...
Secretário da Marinha - Então, general, faça a vontade às damas.
Secretário da Guerra - Perdõem-me V.Exas.. A modéstia proibe-me que fale de mim. E devo mesmo acrescentar que a patente de coronel aos 35 anos não a devo só a mim: Devo-a, principalmente, à minha defunta mulher. Pode dizer-se que foi ela que me fez coronel. Coitadinha! (limpa uma lágrima)
Conselheiro - Coitadinho, ele, também, que perdeu a mais virtuosa das esposas.
As Damas – Coitadinho!
Secretário da Guerra - Desculpem-me. A um general não fica bem chorar. Fraquezas... Bom, já lá vai. Pois dizia eu, minhas senhoras, que podem dormir tranquilas. O plano de defesa terrestre está estudado com segurança.
Baronesa - Como faz bem ouvi-lo, general.
Secretário da Guerra - Temos artilharia no alto do S. Paio e no Saltadouro. E vai ser ocupado o Vale de Porco. Se as tropas do Pandorgas vieram por Brenha faremos ir pelos ares a ponte do Saltadouro. Pelo Vale de Porco não caiem em vir. Porque aí é que a porca torce o rabo. Pela estrada de Mira, impossível... É uma estrada de guerra. Quer dizer, uma estrada por onde se não pode passar senão de aeroplano. Por onde hão-de vir então. Pelo ar, não, que os de Foja não teem asas.
Conselheiro - Dizem que teem asas nos pés.
Secretário da Guerra - Teem asas mas não voam.
Secretário da Marinha - Pela defesa marítima respondo eu. Não deixarei que o inimigo nos alcance as costas.
Condessa – Estamos, então, defendidas pela frente e pelas costas. Quere dizer por terra e pelo mar. Ainda bem. Estava já a sentir-me entre dois fogos. Credo.
Baronesa - E agora deixemos estes senhores e vamos ter com a Grã-Duqueza.

         Na verdade, tendo o apoio da artilharia de Foja e com a vontade de fazer atracar a sua esquadra no Rio Velho, o presidente Pandorgas ainda era de recear.

         Terminada a visita da soberana, apresenta-se o primeiro visitante. É ele, um brasileiro, filho de um emigrante tavaredense, que grangeou grande fortuna e que, para satisfazer a sua última vontade, veio conhecer a terra do seu progenitor e entregar um legado. Manuel Nêspera Cajú era o nome do visitante, que apresentou ao Comissário da Exposição uma carta de recomendação do embaixador do Grão-ducado, no Brasil. E mostrou, de imediato, o desejo de conhecer a exposição, pelo menos os principais produtos expostos, pelo que pediu o catálogo.


sábado, 29 de agosto de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 21

A mobília do senhor conde
       …………………….
       Sinto na alma saudades torturantes
       Dos serões e das festas ruidosas,
      Com luzes, flor’s e pratas cintilantes,
      Veludos, sedas, pedras preciosas.
       …………………….

         Era assim que, na fantasia “Chá de Limonete”, de Mestre José da Silva Ribeiro, a nobre e envelhecida figura do palácio dos senhores de Tavarede, recordava o seu passado.

         Como sabemos, o paço de Tavarede foi sempre a residência permanente da fidalga família dos Quadros, desde a sua construção, ainda na primeira metade do século XVI.

         A 10ª Senhora de Tavarede, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, casou, no dia 26 de Dezembro de 1791, com o célebre fidalgo D. Francisco de Almada e Mendonça, corregedor da cidade do Porto, onde realizou importantes obras. A família “Quadros e Almada” passou a ter a sua residência naquela cidade nortenha, fazendo, no entanto, frequentes visitas à nossa terra, onde, no dizer de Pinho Leal, no seu “Dicionário Portugal Antigo e Moderno”, “era a providência dos povos desta terra”.

Tendo enviuvado no ano de 1804, é de presumir que tenha voltado a fixar residência em Tavarede, onde faleceu no dia 25 de Fevereiro de 1835, encontrando-se sepultada na cripta do convento de Santo António, na Figueira da Foz.

Vem isto a propósito para referir que, sendo o palácio de Tavarede residência permanente, ou simplesmente temporária, o mesmo deveria estar mobilado, senão com luxo, pelo menos com as comodidades necessárias ao alojamento da, habitualmente numerosa, família Quadros.

O único filho varão de D. Antónia Madalena e de D. Francisco de Almada e Mendonça, que se chamou João de Almada Quadros Sousa de Lencastre, casou, em 1810, com D. Maria Francisca Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araújo e Meneses, filha e herdeira do superintendente das coudelarias da comarca de Trancoso, possuidor de largas propriedades naquela terra, que constituíam um morgado, e que, pelo casamento, se uniram à casa de Tavarede.

Passou, entretanto, a residir em Trancoso, com sua família, fazendo, especialmente na época balnear, frequentes e demoradas visitas à nossa terra, instalando-se no seu velho solar de Tavarede.

De igual modo terá procedido o seu filho e herdeiro, o segundo conde de Tavarede, de quem, por seu falecimento em Novembro de 1853, foi herdeiro seu filho primogénito, D. João Carlos Emílio Vicente Francisco d’Almada Quadros Sousa Lencastre Saldanha e Albuquerque que, igualmente, herdou o título de conde de Tavarede.

Esta história tem, como um dos protagonistas, precisamente este titular. “Fidalgo no sangue, no aprumo, na ilustração, no carácter, no sentimento e invariável nas acções, o grande amigo imprimia feição a Trancoso, dava-lhe a sua vida, do seu tom, dos seus nervos, da sua qualificação social, anímica e mental: alma de luz, propagava a luz”, escreveu o jornal A Folha de Trancoso, tempos depois da sua morte.

Como curiosidade, e somente para reforço do que se disse sobre as suas deslocações a Tavarede, recorda-se que o conde, em Setembro de 1883, tomou posse como presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz. Certamente que, se aceitou essa nomeação, seria porque aqui estava o tempo necessário para o desempenho do mesmo ou, talvez, porque tencionava mudar a sua residência para a nossa terra, uma vez que, por essa ocasião, mandou fazer importantes obras de transformação no palácio.

Não deixa de ser interessante, e relativamente a esta história de “A mobília do senhor conde”, o que Ernesto Tomás escreveu na sua reportagem sobre Tavarede, de que já fiz algumas transcrições, agora sobre o palácio da nossa terra:

“Quando por essa época (1865) entrei, pela primeira vez, no edifício do Paço, velho alcácer onde esteve D. Maria Mendes Petite, mãe de Pêro Coelho, um dos que fizeram de D. Inês de Castro uma vítima, condenada pelo seu amor clandestino; quando subi aquelas escadas de pedra, frias e húmidas, que  iam dar ao andar nobre do edifício e percorri aquelas salas vastas, mas sem conforto, lembrou-me mais do que uma vez que por ali teriam andado os passos  do velho soldado da Índia, D. Francisco de Almada (referia-se ao pai do marido de D. Antónia Madalena), que por lá teria pisado António Pereira (?) de Quadros, e a última habitante do velho solar, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa.
……………
Percorrendo aquela antiquíssima habitação, ainda encontrámos os restos de um altar, numa das divisões ao lado do corredor principal que se dirige, no andar nobre, do norte ao sul. Um oratório, apresentando o seu esqueleto em madeira, tosca, conserva ainda ligados uns restos de forro de pano escuro, com umas linhas de galão sem brilho já. De resto nada de importante”.

Surpreende bastante esta descrição. Ponho, no entanto, uma hipótese. Esta visita terá ocorrido relativamente pouco tempo antes do início das obras de transformação do velho edifício que acima referi, das quais as mais importantes terão sido o desmantelamento da altaneira torre com ameias e a  modificação da frontaria do lado poente, com os novos torreões e os rendilhados estilo manuelino, que ainda bem conhecemos. Estariam, então, as mobílias devidamente guardadas em qualquer armazém? É de admitir que sim, e que seriam utilizadas quando a família fidalga aqui vinha passar as suas férias balneares e, talvez, acompanhar o andamento das obras.

Vamos, agora, passar ao segundo protagonista da história: o reverendo pároco Joaquim da Costa e Silva. No ano de 1894, o padre António Augusto Nobreza, também ele protagonista de uma outra história igualmente contada neste caderno, havia sido transferido para outra paróquia e, como era uso naqueles tempos, a diocese de Coimbra abriu concurso para provimento deste cargo, tendo sido provido no mesmo, em Junho de 1894, o padre Costa e Silva, até então coadjutor na paróquia de Paião.

Foi uma figura bastante controversa. Devemos recordar, porém, que naqueles já recuados tempos, as lutas políticas eram assaz violentas. Os militantes de um partido político sofriam, frequentemente, ataques dos partidos adversários. A imprensa, então, explorava ao mais pequeno pormenor todas as possíveis fraquezas e falhas dos responsáveis partidários. Os correspondentes locais, concretamente refiro-me ao caso de Tavarede, muitas vezes se excediam, chegando, até, à difamação e ao insulto, o que resultava, de vez em quando, em desmentidos públicos, quase sempre ordenados pelo Tribunal.

O padre Joaquim da Costa e Silva era natural da Ereira, concelho de Montemor-o-Velho. Como já referi, foi provido na igreja de Tavarede em Junho de 1894. Os próprios adversários políticos reconheciam-no como pessoa bastante inteligente e denodado lutador pelo bem-estar dos povos das paróquias onde esteve, como Paião, Tavarede e, por último, Quiaios.

   Recordo, somente, o que o jornal “A Voz da Justiça” escreveu, no dia 4 de Janeiro de 1924, noticiando o seu falecimento: “o padre Joaquim da Costa e Silva que, antes de paroquiar Quiaios, esteve a dirigir a igreja de Tavarede, foi sempre um político activo, pondo a sua influência ao serviço dos homens que aqui defendiam a política regeneradora, antes da proclamação da república e, na vigência desta, dos que, monárquicos ou republicanos, combatiam a política democrática.
Foi sempre nosso adversário. Isto não obsta que, esquecendo nesta hora certos actos por ele praticados e que nós aqui atacámos, digamos que, nas vezes em que o padre Joaquim da Costa e Silva ocupou na Câmara Municipal o lugar de vereador, procurou sempre obter benefícios para a localidade onde paroquiava”.

Estão feitas as apresentações dos dois protagonistas desta história. Vamos, agora, à mesma: “A mobília do senhor conde”.

* * *

Na edição de 20 de Janeiro de 1899 o jornal “O Povo da Figueira” escreveu, em correspondência de Tavarede:

“…….. Quando o conde de Tavarede resolveu vender a casa que aqui tinha (o Paço), e onde havia mobília valiosa, o nosso Papa-jantares (alcunha atribuída ao padre Costa e Silva, não sei a que propósito), dirigiu-se logo a Trancoso a falar com ele, afim de lhe pedir um guarda-roupa para uma aplicação religiosa………..”.

O conde, que era uma pessoa religiosa e bastante generosa, vendo o fim a que se destinava essa peça de mobília, não hesitou e de imediato escreveu um pequeno bilhete, dirigido ao seu feitor, que tinha mandado a Tavarede precisamente para embalar todas as mobílias existentes no palácio, e no qual ordenava para “…. lhe dar o que fosse preciso para a igreja”.

Com aquele bilhete na mão, logo que chegado a Tavarede, o pároco foi ter com o feitor e exigiu o cumprimento das ordens do conde. Reconhecendo a letra do patrão, de imediato o homem se prontificou a cumprir o que lhe era ordenado e logo se disponibilizou para fazer a entrega “de tudo o que fosse preciso para a igreja”. Era, assim, que estava a ordem escrita.

Realizada, entretanto, a venda do palácio e da quinta, o conde veio à Figueira para ultimar tudo. O comprador foi o sr. Luís João Rosa, de quem também conto, neste caderno, uma pequena história.

Depois de tudo tratado com a venda, foi o conde a Tavarede para concluir as providências que havia ordenado ao seu feitor, quanto à embalagem da mobília, que tencionava enviar, pelo caminho de ferro, para a sua casa de Trancoso. Calcule-se, agora, o seu espanto quando o seu empregado lhe disse que a mobília havia-a levado o padre Joaquim da Costa e Silva, a quem a havia entregado em obediência às ordens do sr. conde, conforme o bilhete que lhe mandou e no qual dizia para “entregar o que fosse preciso para a igreja”.                                                 

Após dar umas voltas pelas salas, então já praticamente vazias, o conde, vendo que o padre, que lhe tinha pedido unicamente um guarda-roupa, lhe levara as principais peças de mobília que ainda cá tinha, teve o seguinte desabafo: “se a casa tivesse rodas também era capaz de a levar para casa dele”!

Alma bondosa, porém, nada mais disse ou empreendeu, e como não haviam restado senão umas “fracas coisas de mobília”, deu-as ao feitor e regressou a Trancoso de mãos vazias, relativamente à mobília que viera buscar a Tavarede.

O jornal, explorando o caso, acrescenta: “Quem for à igreja só lá vê um guarda-roupa, mas se forem a casa do meu amiguinho (o padre Costa e Silva), lá encontram um bom aparador e muitas outras coisas. O resto da mobília, como lhe não cabia toda em casa, tratou de mobilar a casa de um amigo”!

Entre outras peças, o jornal acrescenta que o pároco levou: “dois guarda-roupas, um importante aparador, duas boas mesas, um lavatório, uma banquinha, uma excelente mesa de jogo (até isto!!!) e não sei que mais”.

O padre, depois do conde se ter ido embora, tomou conhecimento da reacção do titular e comentou para com uns amigos que “a mobília tinha sido levada por ordem do conde”.

Comentário final: se a tinha dado, porque razão mandou o conde a Tavarede um seu empregado (Francisco Pires) com a incumbência de empalhar e embalar a mobília para a despachar pelo caminho de ferro? E porque razão, ao tomar conhecimento do caso, o conde havia comentado “se a casa tivesse rodas também a levava para casa dele?”. Estas palavras foram ouvidas por pessoas da terra, que as confirmaram ao correspondente do jornal.

Adianta ainda o referido correspondente que, depois, o pároco mandou chamar o feitor para que lhe contasse o que se havia passado e sabendo que o conde tinha ficado bastante zangado, principalmente por causa do aparador, que era um móvel muito valioso e pelo qual tinha particular estima, disse ao homem que estava pronto a devolver tudo que o conde quisesse, embora sempre  insistindo que ele lhe havia dado toda a mobília que havia trazido.

Não sei se o feitor comunicou para Trancoso esta informação do pároco mas, na verdade, o conde não quis mais saber do caso nem da mobília.

Alguns anos mais tarde, é o correspondente em Quiaios, do jornal “A Voz da Justiça”, que fala na mobília, numa pequena local daquela povoação, em Junho de 1905: “…….no jantar dado (pelo padre Joaquim da Costa e Silva, que fora, entretanto, transferido para Quiaios) foram muito apreciados uns pastéis com recheio de mogno, do conde de Tavarede, e uns pãezinhos feitos de milho da congrua que pertencia ao padre Manuel Vicente, actual pároco de Tavarede”.


Será que, na verdade, “a mobília do senhor conde” foi acabar a sua existência em Quiaios?  


Ruínas do palácio dos Condes de Tavarede