sábado, 3 de outubro de 2015

No primeiro de Maio da Várzea - 25

No primeiro de Maio da Várzea!


         Já me alonguei demasiado. Muita coisa fica, no entanto, para recordar. Tenho intenção de ainda compilar mais um caderno. As colectividades tavaredenses, por exemplo, são manancial quase inesgotável em histórias e figuras que, sem dúvida, bem merecem ficar recordadas na história da terra do limonete. E, como prometi algures, transcrever, na íntegra, alguns documentos referidos ao longo destes cadernos e que, encontrando-se dispersos por antigas publicações, não são de fácil consulta.

         Mas vou terminar com mais uma viagem à célebre fonte da Várzea. É uma história, uma das muitas histórias que encontrei. Vem ela lembrar-nos um dito bem antigo e bem conhecido: “se deixas entrar o Maio, ficas amarelo todo o ano!”. Foi esta historieta escrita na “Gazeta da Figueira”, no dia 1º de Maio de 1918:

         Na Várzea – Clareava vagamente. Um tinta lilaz escorria do alto, lambia as silharias dos predios, punha nas casas um recorte vago de violeta, e cahia nas ruas n’uma côr indecisa, que já não era luar mas, que inda não era dia...
         Subiam as cinco em larga risada aquella ladeira ingreme da Baixa. Eram costureiras do Bairro Novo, modistas de seu officio. Companheiras de trabalho, unhas com carne, amigas tezas, tinham combinado uma volta á Várzea, na manhã clara do primeiro dia do mez. E iam por’li arriba, em cata da Amália, uma d’olhos de lume que morava no topo da subida, mesmo á esquina...
         = Truz... Truz... – duas lambadas rijas na porta pintada de verde.
         De dentro, a voz fanhosa e aguda da senhora Ignácia, dona do prédio, chiou:
         = Crédo! Quem é?...
         = Somos nós, ti’Ignácia! Então a Amália inda não está prompta?
         = Vae já, vae já, meninas...
         E de facto a Amália surgiu inda a compôr o lenço azul-pavão, c’o chale ‘ós hombros derreados. Foi um restolho, uma roda de beijocas, e ó depois um segredinho muito juntinho á orelha d’onde pendia uma argola d’oiro com pedrinhas azues:
         = Vão lá ter todos, sabes?...
         A Amália toda se lambeu de satisfeita. E abalaram de longada mais contentes que um bando de pardaes.
         Já a manhã se percebia. Um rosa leve rasgava no nascente sombras que se diluiam, que se evaporavam. N’uma sebe, há descida da Várzea, mesmo rente á quinta do senhor João Rocha, um melro assobiou uma cantiga d’amor. O ar cheirava a cravos, a rosmaninho, a Primavera. E nas boccas frescas que palravam, o som das fallas e dos risos, tinha um timbre novo, um novo timbre d’oiro...
         N’um muro esbarrigado, cá baixo, estavam elles, os seis, de galhofa. Mãosadas longas, longos bons-dias, muita festa, muita gargalhada. E enaipado e certo, o grupo abalou...
Tomavam a estrada toda, aos pares, n’um arrulhar cantado de casaes de pombos. Um sol muito loiro, como os cabellitos muito loiros da Isaura, uma d’olhos glaúcos que ia babadinha de todo ao lado do seu rapaz, pintava no cimo dos arvoredos faúlhas de lume. Passarinhada feliz ria e palrava nas nevruras frágeis dos ramos tenros. As folhas d’um verde moço e lavado moviam-se em acenos de acolhimento dôce. Um prado largo, p’r’as bandas de Tavarede, fulgia todo esmeralda como um tapete de musgo. E as seis cachopas a mai’l-os seus rapazes, iam caminho fora, rezando n’um murmurio de rega coisas muito suaves e lentas...
         Um rancho do Casal do Rato, c’os potes todos floridos de rosas, passou n’um andar ligeiro e lesto ao som breve d’uns ferrinhos tilintando vivezaz d’um vira. Uma cantiga palpitou, tremeu, ficou no ar como um farrapo doirado...

                       Minha mãe case-me cedo
                       Emquanto sou rapariga!
                                                                                                                                   
E já a perder-se na volta, ainda a voz límpida e fesca da cachopa, a saracotear-se, a cirandar na frente da malta: 

                    Que o milho sachado tarde
                  Não dá palha, nem dá espiga!


         ... Ficára no ar um suave perfume a rosas brancas. O sol subira. O céu tornára-se d’um azul mais claro que os olhos azues claros da Philomena, a mais esguia do grupo, com uma blouse branca de rendas onde o busto do moringue se desenhava com pureza. N’uma pereira toda cobertinha de flôr, branca como uma noiva, um roixinol ria, ria perdidamente. Dois pardaes presos pelos bicos, bulhavam n’uma nuvem delgada de poeira. Passava um cortejo de andorinhas abrindo as azas de velludo ao ar fino e forte. E para a fonte caminhando sempre, sempre devagar, ia o grupo d’amorudos...
         N’isto, mesmo a chegar ao largo, dão de caras co’a Felismina, aquella rapariguinha que trabalha ali na Praça Velha, baixa, redondinha com’uma rôla, de cabellos d’azeviche e olhos negros e fundos, como dois poços fundos e negros...
         = Ih cachopa!... – tão pallida!
         ... Fez a Maria Emilia n’um pasmo, a vêr as caras das outras muito vermelhas, a sentir-se ella própria cheiinha de calor, assim com muito dó por isso da côr de marfim velho da pobre Felismina...
         E logo a Elysa, a mais alta, uma fausse-maigre d’olhos castanhos de malícias, com uma risadinha de troça...
         = Ai, mulher, que deixás-te entrar o Maio!...
         Risada geral. E a Felismina, sempre d’uma lividez de cyrio, os olhos muito cavados nas olheiras muito roxas, muito fundas, sem perder a linha, a sorrir, no mesmo ar de ironia das mais:

         = Ai!... ‘stão enganadas filhas! Não foi o Maio... foi o Maia! 



Tavarede mp Teatro - 17

         Quando Satanás recebe os visitantes, diz-lhe o embaixador:

         “Majestade. Eu vinha pedir-lhe que me entregasse dois indivíduos que para aqui vieram deportados pela Grã-duquesa de Tavarede e que são os responsáveis pela guerra que lavra no Celeste Império. Trata-se dos autores duma opereta intitulada Lúcia-Lima”. Isso sim. Bem pediu o embaixador mas não consegue autorização para os levar para a China. E expulsa-o, furioso com a notícia acabada de receber que o tal falsário, incendiário, assassino e ladrão lhe escapara. Confessando-se antes de morrer, tinha tido as portas do céu abertas pelo próprio S. Pedro. Era demais...

         E tendo o poeta João e o da Batuta aceite a oferta de Nêspera Cajú, de lhes conseguir o indulto da Grã-duquesa, resolvem voltar com ele a Tavarede, tendo obtido o acordo de Lúcifer, a quem agradecem reconhecidamente o “asilo político” que lhes havia concedido.

                                                        *  *  *

         E voltamos à capital do limonete, ao Largo da Igreja. De certeza que não está lá tanto calor como aquele que os nossos “heróis” suportaram no inferno. É a hora do arranque para a limpeza das ruas do velho burgo. A Grã-duquesa exige limpeza total na rua Direita, por onde passam todas as visitas, mas nas outras, nas detraz, como não vai lá ninguém especial, não é necessário grande esmero.

         Quem não se preocupa muito com limpezas de ruas são os compadres José Borrachão e João Borracho. Precisam, isso sim, que os pisos sejam direitos, por causa dos tombos, claro. Mas, logo manhã cedo, vêm preocupados. “Isto esta torto de todo e já não há nada capaz de o endireitar. Falsificam tudo, tudo!”.

         Pois era assim mesmo. Até o pão! O pão que é o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, como o vinho é o seu sangue! Almas danadas. Havia de haver um juiz que mandasse enforcar os falsificadores, especialmente os do vinho...

         Os viajantes ainda chegam a tempo de ver os dois borrachos, que se retiram para a tasca mais próxima. E o vinho não está nada barato, mas “pode não haver dinheiro para fazer a féria à mulher, podem os filhos não ter que comer nem que vestir, mas para o vinho, para a bebedeira, sempre se há de arranjar!”. Mas o que as autoridades do grã-ducado ainda não tinham conseguido foi o acabar com as frequentes discussões na rua. Por tudo e por nada, zás, discussão. E então era cada uma! Querem um exemplo?

Primeira Mulher - (entrando com a segunda mulher e falando para fóra) Su’ alma danada. Vá ser trapalhona p’ró raio que a parta.
Mulher - (dentro) Cale-se aí sua inzoneirona. Com a verdade que falas assim tu medres, ave negra.
Tio Joaquim - Ora veja que línguas porcas. (Princesa sorri)
1ª. Mulher - Que é que você tem que me dizer, seu estupôr? Eu não sou da sua geração...
Mulher - (dentro) A minha geração é mais honrada que a sua. Não é de ladras nem de alcoviteiras. Pague a quem deve.
1ª. Mulher - (poisando a tina) Ah! Rosa, toma conta que eu vou espatifar a cara áquele bandalho.
2ª. Mulher - Deixe-a lá. Não vá sujar as mãos naquele monte-esterco.
Mulher - (dentro) Cala a boca ó fufia!
2ª. Mulher - Cale-a você sua bebeda. Tenha vergonha na porca da cara.
1ª. Mulher - Sou mais honrada que você nunca há-de ser: Tenho 5 filhos mas são todos do mesmo pai.
Mulher - (dentro) Arreda-te caldeira... (gargalhada e bate palmas) Chama-lhe, chama-lhe.
2ª. Mulher - Sim, sim... sua porca. O seu homem que o diga, que p’ra entrar em casa tem de ir de esguelha.
1ª. Mulher - Graças a Deus até ao dia de hoje ninguém tem nada que me dizer. (bate no peito e grita) Sou mais honrada que você que é a vergonha de Tavarede.
2ª. Mulher - Vamos embora, ti Joquina. Deixe lá essa desavergonhada.
1ª. Mulher - (chora, arrepela-se, guincha) Aquela alma negra! A dizer que eu lhe truxe uma camisa dela que estava no enxugadoiro. (bate na cara) A minha cara pode-se ver. Anda sempre à mostra. Não preciso roibar nada a ninguém.
2ª. Mulher - Aquilo é uma aldrabona.

         Consequências da civilização? Talvez. Bem diferente é a história da árvore.

                                               “Agasalho os passarinhos,
                                               Ao homem dou sombra e fruto.
                                               E em paga dos meus carinhos
                                               Sou tratada como um bruto.

                                                        Na primavera enfeitada,
                                                        Sou toda flor e perfume.
                                                        Vem o inverno. Sou cortada
                                                        E por fim deitada ao lume”.

         Bem sabemos que a árvore é nossa amiga e companheira de toda a vida. “Dá-nos a madeira do nosso berço, a trave da nossa casa, a lenha para o nosso lume, as quatro tábuas para o nosso caixão. Dá-nos tudo isso sem nada nos pedir, nem ao menos uma sede de água nos dias ardentes do verão, quando nos acolhemos à sua sombra protectora”. Mas, mesmo assim, aquela árvore, companheira das outras árvores do caminho da Figueira, lamentava-se, tristemente, dos maus tratos de que eram vítimas, sem se poderem defender. Era a sua sina...

         E continuam os encontros com a civilização. Nêspera gosta, por exemplo, de ouvir o fado da Taberna:

                                      “Domingo à tarde
                                      Na nossa aldeia
                                      Esta igrejinha
                                      É sempre cheia.
                                      Aqui se adora
                                      O S. Martinho
                                      A quem dedicam
                                      Preces de vinho.
                                      Muitos devotos,
                                      Finda a oração,
                                      Jogam marimbo
                                      E o chincalhão.

                                               Neste escuro santuário
                                               À luz da velha candeia,
                                               Gente há de tipo vário
                                               Dos mais famosos d’aldeia.
                                               Vê-se palrar o sapateiro
                                               Junto dum cavador
                                                        Matreiro,
                                               E um zanaga carpinteiro
                                                        Ao ferrador
                                               Descreve uma caçada
                                                        D’alta monta.
                                               E o bom do taberneiro ao balcão
                                                        Calcula e conta
                                               O que lhe rende o carrascão”.

         O fado é bonito, lá isso é, mas a “taberna é a perdição de muito desgraçado, que lá deixa a féria da semana. Os nossos operários, os nossos cavadores, trabalham o dia inteiro e à noite encafuam-se na taberna, a beber, a embrutecer o espírito, a envenenar a alma”.

         Foi uma luta bem dura. Longos e longos anos. Ainda hoje continua mas, felizmente, as tabernas já não são o que eram. Mas o alcool é bem difícil de vencer. E o jogo. Mas um dia se chegará à vitória final.

         E mais uma vez o Nêspera Cajú, agora na companhia do poeta João e do da Batuta, a quem prometera o perdão da Grã-duquesa, vai visitar a Exposição Internacional de Tavarede. Ainda quer ver mal algumas coisas antes de escolher os produtos tavaredenses que há-de levar para o Brasil. Pediu para ver as hortaliças, que a terra exportava para o vizinho estado da Figueira e de que lhe diziam maravilhas.


         Amavel, o Comissário, mostra-lhes a couve, deliciosa com cabeças de bacalhau, por exemplo, o nabo, com uma cabeça tão grande, redonda, bem feitinha, e o feijão. Feijão branco, feijão amarelo, feijão cara-linda, feijão de S. Roque, feijão semana e até o tal que tem duas caras... e é frade!

sábado, 26 de setembro de 2015

Tavarede - A terrra de meus avós - 25

Um bom músico e… melhor garfo!


As duas histórias que agora aqui vou recordar, ocorreram nos anos trinta, do século passado. A Tuna de Tavarede, como era conhecida a Tuna do Grupo Musical, tinha muita fama, mesmo para além dos limites do concelho. Já, então, esta colectividade se encontrava instalada no palácio dos condes de Tavarede, à altura propriedade de Marcelino Duarte Pinto. Era seu regente e ensaiador o saudoso tavaredense José Francisco da Silva.

O intérprete destas histórias foi o também saudoso Manuel Fernandes Pinto, vulgarmente conhecido por Manuel Lindote, que morava, com sua família, no Largo do Terreiro, onde igualmente tinha a sua forja de ferreiro. Já em caderno anterior referi Manuel Lindote, quando evoquei alguns conterrâneos que se distinguiram no desporto local e nacional.

Homenzarrão dotado de força hercúlea, foi um dos melhores remadores que passaram pelos barcos da Associação Naval 1º de Maio, onde ganhou vários títulos nacionais. Trabalhava nas oficinas do caminho de ferro, onde exerceu a profissão de ferreiro, sendo especializado na reparação e manutenção das caldeiras das máquinas a vapor, que então rebocavam os comboios de passageiros e de mercadorias.

Além do seu trabalho diário e da ocupação na sua forja do Terreiro, tinha um outro passatempo: a música. Dedicou-se a tocar viola e pífaro, tocando estes dois instrumentos no conjunto “Lúcia-Lima-Jazz”, do qual fez parte desde a sua fundação e durante alguns anos. Tocava, igualmente, na Tuna de Tavarede. E não deixa de ser interessante que, aquelas mãos enormes e rudes, mais afeitas à turquês e ao martelo, ou ao remo forte, tivessem tal sensibilidade para tocar as cordas da viola. Chegou a atingir alguma notoriedade na execução deste instrumento, pois que, como acompanhante do guitarrista Alexandre Simões, igualmente nosso conterrâneo, residente no Casal da Robala, participou em muitos espectáculos acompanhando fadistas locais, chegando, até, a actuar no Casino Peninsular da Figueira.

A apresentação de Manuel Fernandes Pinto está feita. Mas antes de começar com as nossas histórias, recordo que, como homem possante que era, tinha um apetite verdadeiramente voraz. Mais em quantidade do que em qualidade, pois que a vida não era nada fácil, sendo a sopa o prato forte de todas as refeições. Recordo-me de ouvir dizer que ao jantar chegava a comer cinco pratos de sopa, acompanhados de um naco de broa e azeitonas e, claro, do seu copito de vinho.

Vou, então, recordar dois episódios ocorridos em duas deslocações da Tuna do Grupo Musical. Uma delas foi a Gatões, perto de Montemor-o-Velho. Foram de manhã e depois da tradicional arruada, pararam para descanso e almoço, pois de tarde teriam nova actuação. O almoço, oferecido pela comissão das festas, constou de bacalhau cozido com batatas. E como o tempo estava bom, resolveram almoçar ao ar livre, numa eira perto da povoação.

Sentados no baixo muro da eira, cada um com o seu prato servido à vontade de dois alguidares de batatas e outro de grossas postas de bacalhau, foram comendo descansadamente. Já quase o almoço estava no fim quando deram por falta do Manuel Lindote. Onde está, onde não está, mestre José Silva, embora preocupado, mandou acabar o almoço e ele que se arranjasse, pois até entendia que era uma falta de consideração para com todos aquela ausência. Tempos depois lá apareceu o nosso homem, muito descansado. Bom conversador, tinha encontrado um amigo e, palavra puxa palavra, esqueceu-se do tempo. Que lhe desculpassem, pois não havia sido por mal.

Olhou, então, à sua volta à procura de almoço. No alguidar do bacalhau restavam umas boas três postas. Como mais ninguém queria, agarrou no alguidar e, depois de escorrer uns restos da água da cozedura, foi aos outros dois alguidares e vazou as batatas que ainda continham para cima do bacalhau. O azeite estava num garrafão. Os companheiros não queriam acreditar no que estavam vendo. Seria que ele conseguiria comer aquilo tudo? E mais que fosse… No fim, ainda limpou o azeite que cobria o fundo do alguidar, com pedaços de pão!

A outra história é diferente. A Tuna havia sido convidada para ir abrilhantar as festas da Martingança. Foi nessa deslocação, aliás, que a Tuna visitou o Mosteiro da Batalha, onde deixaram uma lápide de homenagem ao Soldado Desconhecido. Ainda não há muito tempo que tal placa ali se encontrava fixada na parede.

Pois esta deslocação foi feita a um fim de semana, com ida ao sábado de manhã e regresso no domingo. Para pernoitarem não foram nada exigentes. A grande maioria dos músicos ficou, nessa noite, numa velha capela, perto do local das festas. Como colchão tinham uns bons braçados de palha sequinha e por cobertores umas velhas mantas e, até, alguns sacos de linhagem. Também, uma noite depressa se passa…

O nosso amigo não foi dos primeiros a deitar-se. Com dois ou três companheiros andaram a dar umas voltas pelo arraial e, às tantas, lá vão dormir. Com cuidado para não acordarem os outros, procuraram um sítio e aconchegaram-se. Mas o Manuel Lindote notou falta de qualquer coisa que servisse de almofada. Procurou pelos cantos e, junto à porta da entrada, foi encontrar um daqueles sacos de pano branco que usavam para transporte de pão e que os festeiros, providenciando o pequeno almoço dos visitantes, ali haviam deixado para a madrugada seguinte.

“Bela almofada”, terá ele pensado. E agarrando no saco, logo o levou para o sítio onde havia preparado a sua cama. Deitou-se e, regaladamente, logo terá adormecido, certamente embalado pelo saboroso aroma do conteúdo da sua enorme almofada.

Alguns dos seus companheiros mais próximos, segundo me contaram, várias vezes acordaram ouvindo um ruído esquisito. Mas, na escuridão, não conseguiram adivinhar o que quer que fosse, julgando eles que seria algum atrevido ratito metido no meio da palha espalhada pelo chão.

Manhã cedo foi o despertar. Com o corpo mais ou menos moído, lá se foram levantando e arranjando. Todos prontos, ficaram aguardando a chegada do pequeno almoço. Todos, não. O Manuel Lindote, na sua cama de palha, dormia beatificamente…

Quando chegaram os festeiros com as cafeteiras do café e do leite, mais os respectivos púcaros, fizeram a distribuição e foram buscar o saco do pão que ali haviam deixado na véspera. Bem procuraram, é claro, mas não o encontraram. Melhor, acabaram por o encontrar, mas vazio, debaixo da cabeça do ainda adormecido Manuel Lindote.

O tal ruído que os seus companheiros ouviram durante a noite e que pensaram ser feito por algum rato, tinha sido o mastigar dos dentes fortes, trincando o pão que, um a um, ia tirando do saco. Quando acabou o último, certamente que o seu sono terá passado a ser muito mais tranquilo, com o estômago consolado e cheio.

Mais uma vez Mestre Zé Silva ficou furioso. Mas, que fazer? Apenas aguardar que fossem buscar mais pão. Mas de imediato destacou dois companheiros para acompanharem o Manuel Lindote toda a manhã, obrigando-o a andar e não o deixando beber qualquer líquido. Tiveram medo que o pão inchasse e ele rebentasse… Pudera, pão que era para mais de trinta pessoas…


Só mais um apontamento para terminar a história. Um homem daqueles, atleta de enorme categoria, acabou por sucumbir com cinquenta e poucos anos, vítima de doença que não perdoa. Foi cumprido o seu último desejo: levar vestida a camisola de remador com as medalhas que havia conquistado.  


Tavarede no Teatro -

         Foram recebidos, a seguir, os três estados vizinhos: Brenha, Quiaios e Buarcos:

Brenha -     Comigo ninguém caçoa.
Quiaios -    Pois comigo ninguém zomba.
Buarcos -   Sou um mar de levadia.
Os três -      São três estados d’arromba.
Brenha -    Sai dos meus quarenta fornos
                  A broa mais afamada.
Quiaios -   Tenho chouriço de palmo.
Buarcos -   Eu tenho a raia escalada.
Os três -      Broa, lavadeiras,
                    Pencas e pescada,
                    Ranchos, ferraduras,
                    Ai que trapalhada.
Brenha -     E a pinga
                    Que eu guardo nas minhas adegas
Quiaios -    Melhor o sumo cá do meco.
Buarcos -    Que o digam as minhas broégas.

Grã-Duqueza - Muito vos agradeço a honra desta visita de parabéns, e faço os mais sinceros votos para que se mantenham as relações de amisade que unem o meu Grão-Ducado aos 3 estados vizinhos.
Nêspera - Não tenho a honra de conhecer...
Comissário - São os 3 Estados vizinhos: Brenha, Quiaios e Buarcos. Brenha é rica, tem por lá muito dinheiro da sua terra. Fabrica broa na perfeição. Mas a especialidade é em lavadeiras.
Brenha - Em caso de revoluções é uma freguesia que nunca mais acaba. Eu lavo meio mundo.
Quiaios - E eu calço outro meio. Os ferradores de Quiaios teem fama. Os ferradores e os capadores.
Condessa - E os ranchos também são muito falados.
Ministro da Guerra - Eram coisa rica os ranchos do Recreio e da Lata.
Comissário - Da Lata? (áparte) Está a sonhar com a lambeta. Como se trata de rancho...
Quiaios - O Snr. General quis dizer amor e não lhe chegou a língua. Não é rancho da Lata, é Pica de Lata. Faltava-lhe a Pica, snr. General.
Secretário da Guerra - Isso não tem importância.
Quiaios - Mas os ranchos já pouco valem. Agora do que se trata é do Grupo Instrução e Recreio e do Quiaios Clube.
Comissário - E aqui tem Buarcos, terra de pescadores, donde nos vem a boa sardinha e o rico pilado.
Buarcos - Terra velha, meu senhor, bem experimentada na vida do mar. Ganha dinheiro, mas é pobre. Enfim, lá vai fumando a sua cachimbada.
Grã-Duqueza - Sabeis que o Pandorgas se prepara para vir atacar o meu Grão-Ducado? Espero que não o ajudareis.
Quiaios - Contai com o meu auxílio, Alteza. E a gente de Quiaios é gente rija; o nome o diz: Aqui há-os. Mandarei para cá todo o repolho e linguiça disponível que houver. E linguiça da boa, daquela que enche o olho e sabe ao pouco.
Buarcos - Por meu lado farei ir ao mar todos os barcos à pesca da raia, e às tropas de Tavarede não faltará bela penca.
Brenha - Alteza! Eu prontifico-me a lavar as ceroulas dos vossos regimentos. É tudo quanto posso fazer...
Secretário da Guerra - Não vai ter pouco trabalho.
Grã-Duqueza - De todo o coração vos agradeço.

Mal sairam os três estados, entrou um funcionário dizendo que o embaixador da China pedia para ser recebido imediatamente, para tratar de um assunto grave e urgentíssimo.

         Entrando, e depois de cumprimentar, lê a seguinte comunicação: “Averiguou-se que uma peça representada em Tavarede, chamada Lúcia-Lima, produziu na Rússia extraordinária impressão. A China é nessa peça metida a ridículo e isto fez com que os bolchevistas russos fomentassem a guerra que lavra no Celeste Império para lá implantarem o bolchevismo. Os autores da escandalosa obra são um poeta que esteve na terra dos pretos e tem o nome do rei preto e um maestro muito conhecido pela sua batuta fina e leve. Exija do governo de Tavarede a entrega dos dois facínoras à justiça chinesa ou uma indemnização de 10 milhões de libras”.

         Coitada da pequenina terra do limonete que tanta influência teve nos destinos políticos de um país tão grande como a China!... E agora? Para pagar tal indemnização não havia dinheiro e quanto aos autores “os dois bandidos, pagos com o ouro bolchevista, fizeram na verdade a tal Lúcia-Lima, mas isso foi ainda no tempo da República do Pandorgas”. E como eram inimigos declarados do Grão-ducado, não havendo cá a pena de morte, foram deportados, por toda a vida, para o inferno. Foram, pura e simplemente, mandados para o diabo!...

         É bastante curioso o autor incluir-se a ele próprio e ao seu principal colaborador, o musicólogo, no enredo da peça. E sem qualquer receio envia-se, com o companheiro, para as profundezas do inferno, como castigo pelo seu atrevimento. Uma pena bem quente, mas que não satisfez o embaixador chinês que, de imediato, declarou ir buscá-los ao inferno para os levar a julgamento no seu país. Mas não vai só. Nêspera Cajú quer conhecer os deportados e acaba por ir com ele.

                                                                  * * *

         Nos seus domínios, Lúcifer está aguardando a chegada de novas almas. A próxima, assim o julgava, era a de um falsário, ladrão, assassino e incendiário, que era coisa que havia muito não chegava áquelas paragens.

         Lamentando-se, chega uma bruxa mestra que havia sido enviada pelo mestre a Tavarede: “Não pude entrar em casa do Atanázio. Durante duas horas voei em torno da casa, mas sem resultado! Quando ia a entrar pelo buraco da fechadura senti uma picada de alfinete que me fez cair; depois quis descer pela chaminé, mas qual? Vinha de lá um cheiro a alecrim e uma fumarada que me empurravam para fora. Não houve maneira”.

         Perante a admiração de Satanás, explica-lhe o que descobriu: “Depois de dar muitas voltas ao redor da casa, fui pôr-me mesmo por cima da cama dele e fiquei à escuta. E então ouvi a mulher a rezar esta oração:

                    Eu me entrego a S. Silvestre
                    E à camisa que ele veste.
                    S. Silvestre de Monte Maior
                    Livrai a minha casa de todo o redor,
                    De bruxas e feiticeiras
                     E caldeadeiras.
                     Côco, três vezes côco,
                     Chave na mão, cadiado na boca”.

         Com tal reza, dita três vezes a seguir, não havia bruxa que ali conseguisse entrar. Eram espertas as tavaredenses. Conheciam bem como lutar contra o diabo e suas ajudantes!

         Quando os visitantes chegaram ao palácio, mandaram pedir para serem recebidos. Ao ser Satanás informado de que iam de Tavarede não se conteve e disse: “Tavarede pode orgulhar-se de ser o Estado da Terra que mais estreitas relações tem com o Inferno”, e manda chamar os dois hóspedes.

         Depois deles entrarem, Lúcifer informa-os de que têm duas visitas e que também estava a chegar uma nova candidata a bruxa, ida de Tavarede. Os dois hóspedes pedem para assistir à cerimónia da entrada para a irmandade das bruxas, da tavaredense que está a chegar. Como eram bons rapazes, lá acedeu Satanás, mas tinham de se esconder.

Coro - (entram as bruxas)    
   Como os morcegos,
    Bruxas ligeiras
    Voam de noite,
    As feiticeiras
    Sem medo a chifres,
    A ferraduras,
    Entramos sempre
   P’las fechaduras.
   Senhor Rei das profundesas
   Supremo génio do mal,
   Abençoai esta irmã
   P’ró fadário infernal.
   Somos as bruxas
   Sempre a girar,
   Corremos mundo
   Sempre a voar.
   Se nos apraz
   E dá na bolha
   Vamos por cima
   De toda a folha.

Bruxa Mestra - Comadre, fez o que lhe disse?
A Neófita - Sim, comadre. À meia-noite fui aos 4 caminhos, abri um pão ao meio, puz-lhe dentro sal e calquei-o a pés.
As Bruxas - Comadre, comadre, comadre, 3 vezes comadre.
Bruxa Mestra - Aqui lhe entrego este chavelho de carneiro onde guardará o óleo para se untar, que é feito de petróleo. banhas de cobra, e caldo de erva cidreira cozida com sapos e asas de morcego. Aqui lhe entrego este rabo de colher. Quando vier para o fadário passa com o rabo 3 vezes pela cara do seu homem e diz: “aqui te benzo c’o rabo desta colher. Não acordes senão quando eu vier”. Depois, despe-se, unta-se bem com o óleo do chavelho e diz: “avoa, avoa, por cima de toda a folha”. E pronto, fica a voar.
Poeta João - (deitando a cabeça, áparte) Há coisas que teem asas e não voam, estas voam e não teem asas.
Bruxa Mestra -(faz uma pirueta e dirige-se a Satanaz) Entrego-vos a nova comadre, Magestade. Peço para ela a vossa protecção.
Satanaz - (desce o trono e vem ao centro bradando, ao mesmo tempo que se produzem relâmpagos e as bruxas dão uivos) Bruxa! Bruxa! Bruxa! Tendes a protecção do Inferno.
Todas as Bruxas - Bruxa! Bruxa! Bruxa!
Satanaz - E agora ficai à vontade. (Satanaz sai)
Bruxa Mestra - Estavas com medo, comadre. Vês como o diabo não é tão mau como o pintam?
A Neófita - E ele bate na gente?
Bruxa Mestra - Não! E se batesse tu não estranhavas. O teu homem todas as semanas te dá uma sova.
Bruxa Francisca - Este fado é bom, comadre, mas é preciso ter cautela quando os mariolas dos nossos homens desconfiam.
Todas - Pois é.
Bruxa Francisca - Olhe, eu quando acabo o bruxedo, para ir meter-me outra vez na cama, tenho de bater três vezes com o trazeiro na pedra em que o meu homem bate a sola. Ele descobriu isto, e sabe o que fez uma noite?
A Neófita - Se calhar escondeu-lhe a pedra.
Bruxa Francisca - Pior ainda. Pôs a pedra numa fogueira, e quando vim... ai! nem quero que me lembre! Foi uma queimadela que me arrancou a pele. E assim andei mais de um mês.
Bruxa Aldegundes - A gente tem as famas de muita coisa que não fazemos. Qualquer coisa má que acontece dizem logo que foram as bruxas. O filho vai à salgadeira ao pai? Foram as bruxas. A mulher empenhou a roupa do homem? Foram as bruxas. Dão fome ao gado e o gado morre? Foram as bruxas. A filha anda esmiucada? É bruxedo.
Bruxa Mestra - É bruxedo, é... Também a filha do Zé da Matiôa tinha bruxedo, como a mãi dizia e eu bem vi sair de lá de casa um rapaz às 3 horas da madrugada. Diz que tinha sido o diabo e o diabo aqui a jogar às cartas muito descansadinho.
Todas - É verdade. Pouca vergonha!....

Bruxa Mestra - Bem, vamos cá a combinar o serviço para esta noite.

sábado, 19 de setembro de 2015

Tavarewde - A terra de meus avós -

Uma história da caça…


         Meu pai, Pedro Medina, era aquilo que se podia considerar como um irreverente e um repentista. Por índole, era uma pessoa bem disposta, sempre amigo do seu amigo, incapaz de causar problemas a quem quer que fosse, mas sempre pronto para pregar a sua “partidinha” inocente, mas cheia de oportunidade e graça. Poderia contar muitas historietas sobre ele, qual delas a mais engraçada. Vamos a esta, a que dou o nome de uma história da caça.

         Naqueles tempos, havia em Tavarede um grande número de caçadores. A partir do princípio de Outubro, quando abria a época da caça, era vê-los por esses pinhais e montes fora, espingarda pronta a disparar, enquanto outros batiam silvados e moitas com os seus varapaus e os cães farejavam, numa constante busca de coelhos e outras espécies.

         Eles próprios preparavam o seu equipamento. Hoje, a tanta distância, arrepio-me só de me lembrar o perigo que meu pai, e outros, igualmente, corria quando, ao serão, ia para o sótão da nossa casa, para numa pequena mesa, alumiada a candeeiro a petróleo, carregar algumas dezenas de cartuchos para levar para a caçada, na cartucheira que transportava à cinta.

         Uma lata com os chumbos, outra com a pólvora, a pequenita balança para fazer as pesagens, as buchas e outros acessórios, encontravam-se à sua frente. E, no meio de tudo isto, outra lata a servir de cinzeiro, pois meu pai era um fumador inveterado. Volta que não volta, parava o trabalho, tirava uma mortalha de papel fino, punha-lhe em cima a precisa quantidade de tabaco, que sacava da respective onça, enrolava com perícia, humedecia a cola do papel e estava pronto o cigarrito, que acendia na chaminé do candieiro, tudo isto com a lata da pólvora mesmo ao lado… Não tenho memória de ter ocorrido qualquer acidente, mas sem dúvida que o risco era bastante elevado e muito pouco acautelado.

Algumas, poucas, vezes os acompanhei aos domingos. Nunca me atraiu este desporto. Gostava, é certo, e muito, de passear pelos campos e pelos pinhais, mas apreciava muito mais uma pêra ou uma maçã que, de quando em quando, surripiava de uma árvore carregada de frutos, do que ouvir os disparos e, muitas vezes, ver os pobres dos coelhos tombarem feridos de morte.

Cada um levava o seu bornal com o correspondente farnel para o almoço e o cantil, ou cabaça, cheio de vinho, quase sempre da lavra própria, pois praticamente todos amanhavam pequenos pedaços de terra onde, invariavelmente, tinham uma dúzia de cepas que, por ocasião das vindimas e com a ajuda de alguns cântaros de água da nossa fonte, as uvas eram transformadas numa deliciosa água-pé, pois que de vinho não se podia intitular.

Quando a hora chegava, procuravam um dos locais conhecidos, propícios à pausa para a petiscada e um pouco de descanso, sempre tendo por perto uma fonte ou bica, de água fresca e pura, de que a nossa zona era bem fornecida. Comiam, os animais também, descansavam um bom bocado e, já refeitos, continuava  a caçada, agora no sentido do regresso à aldeia.

Nem sempre traziam caça pendurada no cinto. Muitas vezes, coelhos e perdizes não colaboravam nada com os caçadores. Mas, apesar disso, regressavam felizes e satisfeitos por mais um dia passado no meio da natureza, em alegre convívio. E não me esqueça uma coisa: algumas vezes vinham sem caça, é certo, mas os bornais quase sempre vinham cheios de boa fruta. Aquelas encostas do Prazo, dos Condados, do Saltadouro e dos Pejeiros, entre muitas outras, eram enormes pomares onde a fruta não faltava, em quantidade e em variedade.

A historieta que vou contar refere-se a uma das tais caçadas, mas a essa eu não assisti, pelo que a recordo pelo que me contaram. Foi para o lado sul do Mondego, para as bandas do Alqueidão, e era um enorme grupo de caçadores daqui que se reuniram, em caçada previamente combinada, com companheiros de trabalho e de caça, daquela zona.

Desta vez, por esquecimento, ou já por malandrice, meu pai não pediu para lhe arranjarem o farnel. De madrugada, à hora de partir para a caçada com os amigos, vai ao armário onde estava a bolsa do pão, agarra num dos grandes, daqueles a que se chamavam “casqueiros” e abre-o ao meio, para fazer uma enorme sandes. Em seguida, apanha uma broa das que estavam na tábua, a broa era amanhada lá em casa, e, com muito cuidado, corta a parte de baixo, o lar da broa, e apara-a muito bem. Feito isso, mete a côdea da broa dentro do pão, embrulha tudo num grande guardanapo branco e guarda tudo no bornal. O cantil também já estava em ordem de marcha.

Foram de bicicleta até ao ponto de encontro, no Alqueidão. À hora marcada estavam todos reunidos e dirigiram-se ao local onde começava a caçada. Tiro daqui, tiro dali, confesso que me não recordo o que é que apanharam naquele dia, e, horas depois, chegam ao local previamente escolhido para o almoço.

Cada um tira o seu farnel e coloca-o à sua frente. Na sua maior parte levavam fritos, peixe, pastéis de bacalhau, pataniscas e omoletas. Outros optavam pelos enchidos ou umas fatias de carne assada. Meu pai tinha-se sentado, bornal ao lado, mas não se resolvia. Os outros estranharam. “Oh! Pedro, então não comes? O que é o teu petisco?”. Como que um pouco enfadado, responde que ainda não tinha vontade de comer, mas, para lhes fazer companhia, também se resolveu e tirou o embrulho do guardanapo para a sua frente. “Era para ter feito uma omeleta, mas lembrei-me que tinha lá um bom naco de presunto e, olhem, resolvi fazer esta sandes”, disse mostrando o guardanapo bem enrolado no pão.

Os outros estranharam. Ele levar presunto? E logo um pedação daquele tamanho? Não acreditavam. Então ele, cheio de paciência e abrindo um pouco o embrulho, mostra um dos lados em que ser via o pão aberto ao meio e com uma coisa escura dentro, que se lhes afigurou ser realmente presunto. Do imediato logo lhe disseram: “Oh! Pedro, deixa isso para o fim. Cortamos o pão com o presunto às tiras e é mesmo bom para acabarmos o petisco. Vai saber bem para um último copo”.

É claro que, interiormente, meu pai terá sorrido ao ouvir aquilo que já esperava. E vai daí, embrulha novamente o pão e, pastel daqui, uma fatia de carne dali, deu a volta a todos, não se mostrando nada sem vontade, como havia dito antes.

Quando já estava bem almoçado, estende-se à sombra de uma árvore e diz: “Eh! rapazes, agora já não consigo comer mais nada. Tomem lá o meu farnel e comam à vontade o pão com o presunto”.

Os outros, ávidos pela perspectiva de saborearem tão boa sobremesa, agarram de imediato o embrulho e com uma navalha bem afiada, preparam-se para a distribuição. Oh! Céus! Então não é que, mais uma vez, o Pedro os havia enganado? O tal presunto não era mais do que a côdea da broa e ele, que acabara de almoçar à grande e à francesa, à borla, tinha-os deixado a chuchar no dedo, agarrados a um bocado de pão que nem sequer cheirava a presunto! Disseram-lhe das boas, mas, pouco depois, tudo acabou às gargalhadas.  Mais uma das brincadeiras dele, que teve graça e não ofendeu ninguém .


Tavarede no Teatro - 15

1º. Vendedor - Olha o “Mangerico” e a “Nabiça”.
2º. Vendedor - O “Rambóia” à última hora, o “Veneno” e o “Amigo do Povo”.
Comissário - (tem entrado com o Nêspera) Oh! rapaz, dá-me o “Veneno” e a “Nabiça”. (recebe os jornais e paga)
Nêspera -  São jornais da terra?
Comissário - Sim, senhor. O “Mangerico” é um jornal todo cheiroso. Mas eu gosto mais da “Nabiça” temperada com o molho do “Veneno”.

         Ainda se encontram no caminho com um novo par, uma sopeira e seu impedido, talvez os mesmos da história contada e que, mais uma vez, vêm à fonte de Tavarede, e, logo o seguir, passam pelo tio Francisco, o velho cavador, sempre agarrado à sua enxada.

         “É a minha companhia e o meu brasão. Os titulares têm brasões, coisas lindas que eu não entendo, mas que dizem que falam das grandes acções dos seus avós. Eu tenho a enxada que é também o meu brasão e me conta a história dos que me trouxeram ao mundo”.

         E respondendo à questão de que, com a sua idade, já tinha direito ao descanso, retorquiu o tio Joaquim:

“O trabalho é a lei da vida. Sou pobre e os meus filhos não podem ajudar-me. Mas, ainda que fosse rico, não abandonaria a terra. A terra é o meu martírio e a minha alegria, dou-lhe o suor do meu rosto e ela dá-me a escasso pão de cada dia. Sou o seu senhor e o seu escravo. Com a minha enxada abro-lhe as entranhas, entrego-lhe a semente e obrigo-a a dar-me o fruto. Ela, por seu lado, consome todas as minhas forças, mata-me os braços de cansaço e prende-me a ela com uma grilheta que eu não posso quebrar. Entreguei-me à terra desde rapaz, dei-lhe o vigor da minha mocidade e agora não quero negar-lhe os carinhos da minha velhice. Caminhamos juntos desde pequenos. Conheceu-me ainda no berço. Irei com ela até ao fim, para que me dê a sepultura.

         Quero-lhe tanto como à luz dos meus olhos, tanto como aos meus filhos e aos meus netos. O que nós fazemos por um bocado de terra! E quanto mais ingrata ela se mostra, mais lhe queremos cá de dentro. Nem sei dizer-lhe o que isto é. E não pense que o trabalho nos faz tristeza. Não! O trabalho é pesado, mas é alegre. Dá saúde ao corpo e à alma. Depois de um dia inteiro de trabalho, a gente ainda tem alegria para cantar, e sente o desejo de viver. Eles aí vêm contentes em rancho alegre e feliz. Olhe para eles, os cavadores, como vêm contentes, e elas, as raparigas, como riem. Trazem nos olhos o lume do sol, nas bocas vermelhas uma cantiga de amor. É a alegria do trabalho!”.

         O primeiro acto acaba com a entrada do rancho das ceifeiras e dos cavadores que, regressando de mais um dia de árduo trabalho, à torreira do sol, ou com as velhas roupas ensopadas da chuva impiedosa, voltam felizes da sua vida difícil, mas com a alegria bem visível nos seus rostos, esperançados no futuro e cantando, sempre cantando:

                                     “Desde manhã ao sol posto,
                                      Arado ou foice na mão,
                                      Seja Inverno ou seja Agosto
                                      Ceifamos a loira espiga
                                      Ou pomos à terra o grão”.


* * *


Quando reabre a cena, estão em palco, no palácio da Grã-duquesa, alguns membros do governo e muitas senhoras da mais alta craveira social, como a Condessa do Saltadouro e a Baronesa de Caceira, etc.

         Conversam sobre um possível ataque das forças do Pandorgas. O secretário da guerra procura sossegar as damas, pois respondia pelas “preciosas vidas”, como respondia pela segurança do Grão-ducado. E, para melhor tranquilizar, explica o seu plano de defesa terrestre, que foi estudado com toda a segurança.

         “Temos artilharia no alto de S. Paio e no Saltadouro. E vai ser ocupado o Vale de Porco. Se as tropas do Pandorgas vierem por Brenha faremos ir pelos ares a ponte do Saltadouro. Pelo Vale de Porco não caiem em vir, porque é aí que a porca torce o rabo... Pela estrada de Mira, impossível... É uma estrada de guerra. Quer dizer, uma estrada por onde se não pode passar senão de aeroplano. Por onde hão-de vir então? Pelo ar, não, que os de Foja não têm asas”. Em conclusão: o plano era sempre o mesmo, tinha que estar mesmo bem estudado!

         Não havia dúvidas, podiam dormir descansadas com tal defesa. E como o secretário da marinha igualmente respondia pela defesa das costas marítimas, nada de preocupações. Pode festejar-se, tranquilamente, o aniversário da soberana.

         O Comissário da exposição entra acompanhado pelo brasileiro Nêspera Cajú. E faz as apresentações. Ao sr. Conselheiro Paulino Feijó, presidente do governo; ao sr. general Cornélio Manso, bravo militar e secretário de estado da guerra; e ao sr. almirante Francisco Cuco Serrano, secretário de estado da marinha.

         Ainda mal terminadas as apresentações, entra o embaixador da Inglaterra que, depois de cumprimentar os presentes no seu português “macarrónico”, declara: “Mim trazer bem notícias. Mim ter comunicado minha governo London que ex-presidente Pandorgas querer atacar territórios de Grão-ducado de Tavareda com grande esquadra. Governo inglês ter dado ordem imediata para vir fazer cruzeira águas territoriais Tavareda, dez cruzadores, 20 destroyers, 30 submarinos”.

         Logo que entra a Grã-duquesa, e, depois de saber de tão importante ajuda militar, no meio dos entusiásticos aplausos, atribui ao embaixador o título de “Marquês de Casal de Pirata, oh!, mim estar muito grato a Vossa Alteza. Marquês Pirata, mim. Yes!”. A soberana sabia ser reconhecida. E quando depois ouviu de Nêspera Cajú:

         “Alteza. Meu pai me encarregou, antes de morrer, de vir a Tavarede fazer a entrega de dois mil contos, como parte da sua fortuna que reservou a melhoramentos da sua terra natal. Meu pai me contou a história da sua terra, que era uma pequenina aldeia, suja e pobre, do concelho da Figueira da Foz. Me surpreende o que tenho visto, porque Tavarede é hoje um Estado independente. A capital deste Grão-ducado, esta linda cidade do limonete, é uma terra asseada, cuja civilização atinge elevado grau. Grandes avenidas, como a do Outeiro e a do Santo Aleixo; excelentes carros eléctricos da Companhia Fadigas & Toquim, Limitada; grandes e ricos estabelecimentos como os de Cascato e António Amaro; elevador para o alto de São Martinho; belos monumentos históricos como o do Paço do Conde, o arco do Caminho dos Canos; telefones e telegrafia sem fios, etc., etc. Estou encantado e peço a Vossa Alteza se digne aceitar o oferecimento dos meus capitais para a conclusão do caminho de ferro para o Cabo Mondego, já tão adiantado”.

logo deu instruções ao seu Conselheiro para sair na “Folha do Limonete” um despacho, considerando o senhor Nêspera Cajú, cidadão Tavaredense honorário e benemérito.


         Reconhecimento que se estendeu à memória do doador, com “uma estátua fundida em barro, na fábrica do Senhor da Areeira, em que o sr. Manuel Nêspera deverá ser representado montado num cavalo, a toda a brida, segurando numa das mãos as redeas e na outra um ramo de limonete”. Significaria, isso, o progresso de Tavarede, a galope. E todos ficaram encantados, tanto mais que, atendendo a várias sugestões, a Grã-duquesa resolveu trocar o cavalo por um burro e, em vez das redeas, um cabresto! Era mais adequado!...