sábado, 7 de novembro de 2015

Os Quatro Caminhos - 3

A FEIRA DOS QUATRO CAMINHOS
  

         No jornal “Gazeta da Figueira”, de 17 de Abril de 1901, encontrámos a seguinte notícia: “Chega-nos aos ouvidos de que foi proibido fazer-se no Pinhal, dessa cidade, o antigo mercado de suínos que ali se efectuava todos os domingos, e cremos que se pensa agora em a continuar, mas aos quatro caminhos (Senhor da Arieira).

É boa a ideia, pois que, na verdade, a concorrência àquela feira, tanto de vendedores como de compradores, costuma ordinariamente ser feita por gente de Tavarede, Buarcos, Serra da Boa Viagem, Quiaios, Casal da Robala, etc, e por isso, estabelecendo-se naquele local o referido mercado, fica este decerto mais centralizado entre as povoações a que aludimos, e portanto mais comodidades se oferecem ao público.

         Parece-nos que isto qualquer pessoa julga e apoia, e recomendamos o caso ao nosso pároco e vereador da câmara o sr. Costa e Silva, que com certeza tratará de conseguir que a feira ali se estabeleça, mostrando assim a sua boa vontade em promover qualquer serviço a bem dos munícipes daquelas localidades”.

         Complementando a nota acima, publica dias depois, um extracto da acta da Câmara Municipal sobre a deliberação: “... deliberou a câmara, em virtude do dano que causa às árvores ultimamente plantadas no Largo do Pinhal desta cidade, a feira de gado suíno que ali costuma realizar-se, mudar o local da mesma feira um pouco mais para baixo, isto é, para os largos compreendidos entre as estradas do Casal do Mártir Santo à estrada real n° 49 e da Figueira ao Casal da Serra, mais conhecidos pelos largos do Senhor da Arieira”.

         Dias depois é publicado um aviso informando que “por resolução da Câmara Municipal pode já funcionar ao Senhor da Arieira (quatro caminhos) a feira de gado suino que se costuma realizar todos os domingos ao Pinhal e que dali foi mudada para aquele local”.

         A Junta de Paróquia de Tavarede, responsável pelo lugar onde estava a funcionar a feira, oficiou, entretanto, à Câmara Municipal “pedindo a vedação dum largo, ao Senhor da Arieira, para a realização das feiras de suínos, que se têm feito nas estradas que cruzam no mesmo local, impedindo o trânsito”. Esta petição, confirma o que já havia dito: naqueles tempos era um simples cruzamento de estradas.

         Mesmo sem grandes condições, a comissão paroquial resolveu mandar terraplenar o local “onde aos domingos se faz o mercado de gado suíno” e arborizá-lo ao mesmo tempo. E a mesma notícia comenta que “é uma boa medida, pois evita o impedimento de trânsito nas estradas durante as horas do mercado, embelezando muito o local”.

         Mas, como a Junta de Paróquia não tinha verba para a terraplenagem, solicitou à Câmara “o serviço braçal” para a terraplenagem “do terreno que lhe foi oferecido para ser apropriado à feira de gado suíno”.

         Quem havia feito a oferta do terreno para a feira fôra a senhora D. Maria Duarte Costa, viúva de João José Costa, da Quinta dos Condados, quando teve conhecimento da mudança da feira para aquele local. Havia-o feito “há um ano!” Apesar da boa vontade em arranjar o local, uma notícia comenta que “dizem-nos que não será tão depressa terraplenado devido à Câmara se achar deveras atrapalhada com a organização do serviço braçal. Há um ano, senhores, há um ano que está organizado o serviço braçal das freguesias do concelho da Figueira... Que vergonha!...”.

         Mas, em Agosto de 1912, já estava terraplenado metade do terreno para a feira. “Custou, mas foi...”.

         Depois deste apontamento só em Janeiro de 1918 é que voltamos a ter notícia sobre o assunto. Numa descrição da freguesia de Tavarede, publicada no Anuário Figueirense, refere-se que “todos os domingos aqui se efectua um mercado de porcos”.

Até que, em Fevereiro de 1921, temos uma nova notícia: “Na sessão de quarta-feira da Comissão Executiva da Câmara Municipal foi lida uma representação assinada por vários indivíduos da freguesia de Tavarede, pedindo a criação de uma feira de gado bovino, suíno, caprino e azinino e cereais e géneros de várias espécies, a qual deverá realizar-se nos dias 1 de cada mês, no lugar do Senhor da Arieira. A mesma comissão pediu ainda que a feira semanal de gado suíno fôsse transferida para o dia 1 e terceiros domingos de cada mês. A Comissão Executiva deliberou criar a feira, atendendo es prtição”.

         Aprovada a petição, a Câmara Municipal fez publicar o seguinte edital: A Comissão Executiva da Câmara Municipal da Figueira da Foz:
        
         “Faz público que em sua sessão de 2 do corrente mês, deliberou criar uma feira mensal no lugar da Arieira, freguesia de Tavarede, deste concelho, que terá lugar nos dias 1º de cada mês, e que constará de gado bovino, vacum, suíno e asinino, além de géneros de todas as qualidades e espécies, quinquilharias, fazendas, etc. Para constar se passou o presente e outros idênticos, que vão ser afixados nos lugares públicos do costume”.

         A comissão organizadora marcou, então, o dia 1º. de Maio de 1921 para a inauguração da nova feira. “Inaugura-se no próximo dia 1º de Maio a feira mensal de gados, géneros e fazendas que ultimamente foi criada e que deve realizar-se todos os dias 1 de cada mês, no lugar do Senhor da Arieira, próximo de Tavarede.

         Sabemos que a comissão organizadora desta feira está trabalhando com vontade para que no próximo dia 1º de Maio afluam ao Senhor da Arieira avultadas quantidades de géneros alimentícios, gado bovino, caprino, azinino, suíno e outros artigos, como quinquilharias, etc., tudo deixando prever a realização de vantajosas transacções. Procura ainda conseguir que a inauguração da feira seja abrilhantada por uma banda de música”.

         Segundo informações obtidas, a feira estava a despertar o maior interesse, prevendo-se que os povos limítrofes iriam acorrer àquele novo mercado para efectuar transacções “sobretudo de cereais e gados”. Esperava-se, aliás, que a nova feira de Tavarede viesse a ser um valioso melhoramento para a freguesia e que muito beneficiaria os povos vizinhos, “pois é de há muito notada a falta de um mercado perto da sede do concelho, onde todos, sem dificuldades nos meios de transporte, façam as suas transacções”.

         E a inauguração ocorreu no dia marcado.     “Excedeu toda a expectativa a concorrência de gado de todas as espécies e géneros de todas as qualidades que no domingo inaugurou a feira do Senhor da Arieira, em Tavarede.

         Além de muito povo, que afluiu dos arredores, não faltou a nota alegre, que foi dada pela filarmónica de Quiaios.

          As transacções, como era natural, foram importantes, tendo aqueles que ali foram negociar constatado as vantagens daquele novo mercado, que poderá vir a ser um dos melhores dos arredores da Figueira.

         Felicitamos os seus promotores, que devem continuar as suas diligências para manter os créditos da feira”.

         Para a feira seguinte, 1 de Junho, uma nota escreve que “vai realizar-se ao Senhor da Arieira, Tavarede, o mercado mensal inaugurado sob os melhores auspicios o mês passado e que terá lugar sempre no dia 1 de cada mês. As transacções de gado de todas as espécies, cereais, legumes, quinquilharias, etc., então efectuadas, atingiram importância elevada, animando os feirantes a continuarem a ir ali.

         Por isso se espera que o mercado de amanhã continue a demonstrar a sua vantagem, dele beneficiando todos – vendedores e compradores”.

         Dias depois, tivémos o comentário de que “foi concorridíssimo, sobretudo de gados de todas as espécies, o mercado anteontem realizado ao Senhor da Arieira, Tavarede, avultando as transacções. Congratulamo-nos com o facto, pois achamos vantajoso o desenvolvimento daquela feira nos aros da cidade, para isso trabalhando solicitamente os seus promotores, que continuam a ser dignos de ver bem sucedidos os seus esforços”.

         Em finais de Julho surge nova notícia. “No dia 1 de Agosto, segunda-feira, realiza-se ao Senhor da Arieira, Tavarede, a feira mensal que desde Maio ali se vem efectuando com o mais lisonjeiro resultado. O mercado de segunda-feira não deixará de ser por igual concorrido, devendo por isso avultar as transacções. 

         Mas parece que o entusiasmo despertado estava a adormecer. Esta última feira “esteve pouco animada, fazendo-se transacções quase exclusivamente de gado suíno”.

         Não havia dúvidas. O mercado ambicionado e que tanto prometera, não vingou. Vejamos o que nos diz uma notícia de Agosto de 1923:
        
         “Realizou-se mais uma vez, no dia 1 do corrente, a feira mensal de gados, cereais, géneros alimentares, etc. (?), que funciona no Senhor da Arieira, desta localidade, a qual foi inaugurada no dia 1º. de Maio de 1921, ao som de música e foguetes, e a que acorreram todos os lavradores desta freguesia, com os seus gados, para dar mais brilhantismo à referida feira naquele primeiro dia, o que despertou algum entusiasmo nos tavaredenses, por verem naquela iniciativa um engrandecimento para a sua terra.

         Mas... como o que é bom acaba depressa, como costuma dizer-se, é certo que nos meses seguintes se transformou apenas em feira de gado suíno, aliás com pouca concorrência, desaparecendo assim quase da ideia de todos a existência da mesma.

         Em nossa opinião, diremos que o povo desta freguesia não sabe bem compreender quais os beneficios que advêem daqueles mercados, para o desenvolvimento do comércio e muito em especial da agricultura, pois que, podendo adquirir ao pé da porta o que lhe é necessário, tem de procurar em outras localidades onde também se realizam, o que representa, para ele, grande sacrificio com a sua deslocação; e que, a continuar assim, melhor seria que acabasse de vez a feira mensal, visto haver a semanal, que só consta de gado suino, ou então prestar o seu concurso de forma a dar-lhe um certo incremento, de futuro, para assim chamar farta concorrência que efectue algumas transacções importantes e ao mesmo tempo tornal-a conhecida, o que, decerto, só beneficiará e dará nome a Tavarede”.

         Entretanto havia sido decretado o descanso semanal ao domingo. Em Maio de 1929, o correspondente em Tavarede do jornal “O Figueirense” lamentava-se: “os comerciantes de Tavarede, só porque, perto daquela povoação se realiza ao domingo uma pseudo feira de porcos, mercado esse que dura duas ou três horas da manhã, goza o privilégio de se manter aberto todo o domingo, com manifesto prejuízo dos comerciantes da cidade que são obrigados a estar encerrados”. Era sempre um dia de bom negócio, pois os copos de vinho eram muito requisitados...

         E acabaram-se as notícias sobre as feiras na nossa terra, primeiro, de gado suíno, aos domingos, depois mais uma feira/mercado no dia 1 de cada mês, e para acabar, novamente semanal, só de porcos.

         As Juntas de Freguesia seguintes bem tentaram a sua continuidade. Fizeram-se alguns melhoramentos, como, por exemplo, instalaram um chafariz, com uma bacia, para os animais beberem, mas não resultou. Bem sabemos que as condições não eram as ideais, especialmente higiénicas. E a forma de comercialização e industrialização
tornaram obsoletas e impróprias estas feiras. Mas eram características...

         Mas não quero acabar este capítulo sem um comentário. Muitas eram as famílias tavaredenses, sempre de poucos rendimentos e de muito trabalho, que tinham ali o seu “mealheiro”. Compravam um ou dois bácoros acabados de desmamar, tratavam deles durante uns meses e, quando precisavam de realizar algum dinheiro, muitas vezes por causa de doenças, levavam o animal à feira, vendiam-no e voltavam para casa com um novo bácoro, a que se seguia o mesmo percurso. Além deste pecúlio, tinham também o proveito dos estrumes, que eram o adubo utilizado mas pequenas hortas que cultivavam.

         Duas recordações aqui deixo. Uma, a de que havia então em Tavarede uma sociedade protectora de gado suino (compromisso), na qual, mediante uma quota mensal, garantiam o “seguro” do animal. A outra, é uma palavra de admiração à memória de tantas mulheres tavaredenses, pela sua luta e trabalho com a criação caseira dos porcos. Por conhecimento próprio, não posso deixar de recordar minha mãe e uma vizinha, a senhora Isaura, mulher do saudoso Manuel Lindote, que, diariamente e por vezes de manhã e à tarde, iam à Figueira, com um latão à cabeça (cerca de 20/25 quilos), a casa de famílias conhecidas, que lhes guardavam os restos e sobras de comida e que elas traziam à cabeça em prodígios de equilíbrio. Cito estas duas, como disse, por conhecimento próprio. Mas outras mais faziam o mesmo. De inverno ou de verão, chovesse ou fizesse sol, tinham mesmo de o fazer, para que aquelas sobras se não estragassem.

         Que mais não fosse do que por estas singelas recordações, a feira dos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro tinha que fazer parte destas histórias. E não me esqueceram ainda os tremoços e as camarinhas que lá se vendiam e que tão bem nos sabiam!...


                                           A Quinta da Borlateira

Tavarede no Teatro - 21

         “Se lá no seu planeta não as há, mal sabe Vossa Senhoria do que está livre. Há lá nada pior que as bruxas! Coisas que por aí se vêem e que se não sabe quem as faz, já se sabe que é obra das bruxas. Em tomando uma pessoa à sua conta, dão cabo dela. E então fazem cada patifaria... Uma vez entraram no curral do Fadigas, montaram a cavalo num boi, e tanto lhe chuparam o sangue que o boi ficou que parecia um carneiro. Outra: O Zé Augusto foi para o Brasil e deixou cá a mulher. Voltou daí a quinze meses, e quando chegou a casa, a mulher tinha um filho. O rapaz quis divorciar-se, mas, por fim, acomodou-se porque aquilo foi... tinham sido as bruxas. As bruxas! Ui! Que praga! E ladras?!... Nas fazendas faltam batatas, aparecem roubados os couvais: e sabe quem é o ladrão? São as bruxas. Às vezes leio nos jornais: Um grande furto na ourivesaria tal: No Banco qualquer coisa verificou-se um desfalque de duzentos contos. Descobriu-se uma importante falsificação de notas. A polícia faz várias diligências sem resultado, mas espera descobrir os criminosos. Ah! Ah! Ah! Pois, sim, espera, vai esperando que hás-de descobrir boas coisas... Como há-de descobri-los se os criminosos são as bruxas? Tudo obra das bruxas, tudo bruxarias!”.

         Pois Mercúrio quer conhecer as bruxas de Tavarede e começa a chamá-las. Não se fazem rogadas e aí estão elas, cantando:

Coro das Bruxas -      
            A nossa alegre,
            Risonha vida
            É agradável,
            É divertida:
            Sobre os telhados
            Voar, voar;
            E numa eira
            Dançar, dançar...

             Neste baile do Sabá
             De bruxas e diabitos,
             Haja risadas macabras,
             Haja uívos, haja gritos,

              Haja guinchos de vampiros,
              Do morcego e da serpente,
              Em homenagem infernal
              A Satan omnipotente.

              A nossa alegre
              Risonha vida
              É agradável,
              É divertida:
              Sobre os telhados
    Voar, voar;
              E numa eira
                   Dançar, dançar...

Mercúrio -
              Lindas bruxas,
               Lindas bruxas feiticeiras!
              Dou-vos as minhas asas
              E voareis sem mais canseiras!...

Bruxas -
              Somos as bruxas
              Sempre a girar,
              Corremos mundo
              Sempre a voar.
              Se nos apraz
              E dá na bolha,
              Vamos por cima
              De toda a folha.

         E tanto gostou delas que as levou para o seu planeta. Mas, agora, iriam fazer muita falta na terra. Quem passaria a carregar com as culpas? Estava o Tio Joaquim a pensar como se havia de resolver o problema, quando chega até ele uma linda senhora.

                                               “Mensageira do destino
                                               Sou a princesa das fitas.
                                               Espalho por toda a gente
                                               Fitas feias e bonitas.

                                               As velhorras e os caturras
                                               Nem sequer merecem fitas.
                                               Para a doida mocidade
                                               Eu reservo as mais bonitas.

                                               No colorido das fitas
                                               É que está o meu segredo.
                                               Uns apanham a taluda,
                                               Os outros, chucham no dedo”.

         As bruxas tinham ido embora? Não faziam falta. Ainda ficaram os lobisomens. E havia as fitas. Por exemplo, a dos milagres. Tudo aquilo que explicavam com as bruxas podem, a partir de agora, explicá-lo como milagre...

         Uma das fitas crónicas cá da terra era a dos “Borrachos”. Lembremo-nos do José Borrachão e do João Borracho, sempre com os copos e a reclamarem contra os falsificadores do vinho. E também reclamavam contra as falsificações de dinheiro, que estavam muito apuradas... Era cá uma fita! Falsificavam as notas grandes e as moedas pequenas: “olhe que há dez reis falsos, vintens falsos, patacos falsos, meios tostões falsos, e não falsificam três vintens porque é moeda que não existe!”. É caso para dizer: mas que grande fita!

         Mas também Tavarede tinha fitas tristes, mesmo dramáticas. Vou recordar uma. A tragédia da Maria da Chã.

Tio Joaquim - Olha, quem ela é, a pobre da Maria da Chã. É uma tragédia. (entra a Maria da Chã) Olha cá, Maria, a pequena está melhor?
Maria da Chã - Desculpe, ti Joaquim, nem tinha reparado. A minha Júlia? Isso sim. Apaga-se, coitadinha. É só a pele em cima do osso, e aquela tosse maldita! (chora)
Tio Joaquim - Tornáste ao médico?
Maria - Não, senhor, não tornei lá. P’ra quê? Da outra vez receitou um frasco que custou dezoito mil reis que tive de ir pedir emprestados ao senhor Francisquinho, e mandou dar bom tratamento, ovos, leite, uns bifesinhos. Mas eu posso com isto? (chora) Triste vida a minha! Não tenho cinco reis! Na venda já não me fiam nada. Tenho empenhado tudo, por causa desta maldita doença. Agora lá deixei o meu chaile do casamento para ver se a tia Rosa me larga um quartilho de leite. Não tenho mais nada! E a minha filha morre! (chora)
Tio Joaquim - Então o teu homem...
Maria - O meu homem, ti Joaquim?... (um sorriso de profunda amargura) Bem se importa ele com isso. (com mais veemencia) Não me dá cinco reis, A féria fica-lhe toda na taberna, derrete-a em vinho, em borgas c’os amigos. No domingo pedi-lhe que me desse alguma coisa para tratar a Júlia. (com amargor) E o malvado pôs-se a rir e disse que o dinheiro era mal empregado para gastar na botica. E foi derretê-lo na venda, com os outros, aquele desalmado!
Tio Joaquim - Malandro! Ainda agora aqui passou a caír de bêbado, o estupôr...
Maria - É todos os dias assim. Tudo quanto tem e não tem é p’rá vinhaça. Ontem chegou a casa e pediu a ceia: - “Não tenho ceia p’ra te dar! Ainda não me deixáste a féria da outra semana. Eu vou roubá-lo?”. (chora) E bateu-me, e atirou-me ao chão. Queria a ceia... Eu em todo o dia não provei uma migalha de pão, e a minha filha só comeu um caldinho de arroz que a senhora Joana me levou por esmola...
Tio Joaquim - Raios os parta! Cães! Vai a minha casa e diz à ti Joaquina que te dê de jantar, e vá à capoeira buscar um frango. Leva-o para a pequena.
Maria - Deus lhe pague, tio Joaquim. Mas a minha filhinha morre... (chora) Também, se ela há-de viver para ter a vida amargurada que tem a mãe... (numa convulsão de choro) Antes Deus Nosso Senhor ma leve.

Tio Joaquim - Deixa-te de parvoeiras rapariga. Vai lá a minha casa anda..

domingo, 25 de outubro de 2015

Senhor do Aeeiro . 3

         Será bom que este caso se deslinde por homens que prezam os interesses e haveres da sua terra, e que não querem deixar-se lograr por quem não tem escrúpulo em praticar actos tão melindrosos”.

         No dia seguinte (19 de Novembro de 1899) e no jornal “O Povo da Figueira”, surgiu uma nova notícia sobre o assunto. Vejamos:

         “Devido a várias pesquisas que tenho feito, e a informações que de fontes limpas tenho recebido, acabo de saber de mais um escândalo para não chamar dois crimes. Eil-os:
        
         Em tempos remotos, ouve um devoto nesta freguesia que mandou fazer uma capela no lugar do Arieiro (encruzilhada das estradas que vai da Figueira a Quiaios e de Tavarede a Buarcos). Este devoto mandou fazer um crucifixo para a dita capela, a que pôs o nome de – Senhor do Arieiro.
                  
         Esta imagem é dum trabalho admirável, em pedra, que na actualidade não era feito por 70$000 reis.
        
         Passado pouco tempo desta acção religiosa ser feita, o devoto morria não estando a capela perfeitamente acabada.
        
         Os herdeiros do falecido tomaram conta dos bens, entre eles a citada capela e a imagem que dentro dela estava.
        
         Nesse tempo era pároco desta freguesia, o padre Bernardo da Silva, filho desta terra. O padre Bernardo lembrou-se de a pedir aos novos donos, o que fez e do que foi bem sucedido.
        
         O crucífixo veio pois, em procissão do Arieiro para a nossa igreja onde muito tempo esteve exposta, sendo depois retirada com destino à capela do nosso cemitério, o que se não fez, por ainda não estar acabada.
        
         Há poucos dias fomos passear ao cemitério dessa cidade, e na casa dos depósitos deparamos com o nosso Senhor do Arieiro! Sabem os leitores quem o mandou para lá?
        
         Foi o nosso bom pároco Joaquim da Costa e Silva!!
        
         O facto repugnou-nos tanto, que fomos ter com o guarda do cemitério a perguntar-lhe como tinha ido para ali aquela imagem; dizendo-nos em resposta foi em troca do sino que estava nos antigos Paços do Concelho (na Praça Nova).
        
         Ora, o sino já cá está há muito mais dum ano. E a imagem está lá há poucos dias. Mas isto não basta.
        
         Com que autorização trocou o padre Silva a imagem pelo sino sem ao menos a Junta de paróquia ter sido consultada? E com que auctoridade desapareceu da nossa igreja a velha Senhora do Rosário, que agora está substituída por uma que custou a um devoto 120$000 reis no Porto?
        
         A primeira foi trocada por um sino que o povo sempre dispensou e dispensará.
        
         A outra foi… naturalmente trocada a farrapos?
        
         Isso não creio eu.
        
         Não comento estes factos, apenas chamo para eles a atenção dos meus patrícios e em especial dos que pugnam pelos bens da terra que lhes serviu de berço.
        
         Soma e segue”.

         Durante a missa conventual de domingo, 19, foi dito pelo pároco, Joaquim da Costa e Silva, presidente da Junta de Paróquia de Tavarede, “que da melhor vontade auxiliaria a comissão que nos dizem ir preparar-se aqui para acabar as obras da capela que está sendo edificada no cemitério desta povoação”. Depois, e referindo-se ao caso da imagem do Senhor do Arieiro, disse que “se efectivamente ela estava exposta no cemitério ocidental dessa cidade, fôra para lá por algum tempo, voltando para Tavarede logo que isso fosse exigido. E agora, visto que se vai tratar de acabar a capela do nosso cemitério, e que é para ali que o Senhor da Arieira está destinado, ele viria imediatamente da Figueira”.

         Acrescentou depois “o facto que o levara a dispensar para ali a referida imagem fôra apenas por saber que ela não era aqui necessária por enquanto e tanto mais por a ver desprezadíssima numa casa contígua à igreja paroquial. Como o Senhor volta para Tavarede, fica sanada esta questão e oxalá agora que a capela do cemitério se conclua”.

         E não encontrei nada mais nos jornais figueirenses, nenhuma alusão ao caso da imagem do Senhor Crucificado, também chamado Senhor do Arieiro ou Arieira.


Tavarede no Teatro - 20

         E fazem-se as apresentações. O Paço do Conde

                                      “Amigo d’outrora,
                                      Vê minha figura!
                                      Sou um pardieiro
                                      Sem arquitectura.

                                      Brilhei muito em festas...
                                      Hoje abandonado...
                                      Sou podre palheiro,
                                      Sou curral de gado!”

         O Rio Velho também se lamenta. E responde:

                                     “Tenha paciência, fidalgo,
                                      Também tive a minha conta:
                                      Vê-me estreito, porco e seco,
                                      Pois fui rio d’alta monta.

                                      De mim era a terra ufana,
                                      Tive cais, tive aduana,
                                      Fui muito tempo feliz.
                                      Agora é grande desgraça.
                                      Quem me busca ou por mim passa
                                      Tem de tapar o nariz”.

         Sim, senhor. Era verdade. E a sua história bem triste, por sinal. “Fui nobre e generoso. Acolhi em meu seio os Condes de Tavarede, tive luxo, fortuna e privilégios. Eram sagrados os meus velhos muros, e mancebo que a eles se encostasse, estava livre de ser soldado. De simples e despretencioso solar, transformaram-me em imponente palácio. Lavraram-me cantarias, ergueram sobre os meus ombros arrogantes torreões. Ai! Pobre de mim! Embranqueceram-me os cabelos e senti-me abandonado ao tempo. A chuva repassou-me as carnes, penetrou-me até aos ossos, e hoje tenho o cavername apodrecido. O grande torreão, desapareceu. Os salões arruinaram-se. E hoje não sou mais do que uma ruína aproveitada para curral de bois e carneiros para o matadouro. Ao que cheguei!”. Ao que tinha chegado o nobre solar quinhentista. E isto, não esqueçamos, há já mais de setenta anos!

         Mas o Rio Velho não estava melhor. “Dê cá a mão, amigo. Somos irmãos na desgraça. Fui mar, e até mim chegavam as embarcações carregadas de mercadoria. Nos meus domínios estava a Alfândega de Tavarede. E hoje? Não passo de um ribeiro sujo onde só navegam barquitos de casqueira, e de uma viela porca para onde despejam cascas de mexilhões, e... o resto. Agora chamam-me Rio Velho e quando passam por mim tapam o nariz. Eu que fui rico e forte, reduzido a beco da Dona Lúcia!”.

         Pobres velhos e curiosas histórias. Falam do passado e das tradições da terra com imensa saudade. Havia outros monumentos. Também havia a fonte, mas esta tinha o defeito de ser muito escorregadia, o que fazia com que algumas raparigas caissem e, ao cair, partiam as bilhas ou, pelo menos, rachavam-nas. Apegavam-se então ao santo António, mas até o Santo se queixava de que eram muitas bilhas para um Santo só...

         Recordo-me que Tavarede tinha grande quantidade de gado leiteiro. Manhã cedo, ainda escuro, lá iam as leiteiras, carregadas com os latões bem cheinhos de leite fresquinho, fazer a sua venda. Tinham as suas freguesas certas, já habituais. Mas, um belo dia, surgiu um novo problema. Então não é que os latões tinham de ser selados e o leite inspeccionado? Nem todas aceitaram o facto de boa-mente.

Leiteira - Éh! seu raio! Largue o latão. Seu alma danada... Antão, hein!
Polícia - Não refile já lhe disse. Escusa de estar a fugir com o latão à torneira, porque não tem remédio senão aguentar com ela.
Leiteira - O raio que o parta!

Leiteira -                        Seu basculho!
                                      Seu masmarro!
                                     Outra vida!
                                     Ora o alma de chicharro!
                                    O polícia
                                    Patarata
                                    Quer que eu meta
                                    Uma torneira na lata!
                                    Com tal birra
                                    Não se enfeite
                                    Que tem fama
                                    A pureza do meu leite.
                                    Forte bruto!
                                    Vai p’ró raio
                                    Que te parta!
                                    Nessa fita é que eu não caio.

Polícia -                       Oh! grande malcriada,
                                    De ti não tenho dó.
                                    Aplico-te a postura
                                    E vais p’ró chelindró!
                                    Tapa-me essa buzina,
                                     Basta de baboseira.
                                     Já te disse e repito:
                                     Vou meter a torneira.

Leiteira -                       Seu basculho!
                                     etc. etc. etc.

Tio Joaquim - Mas vamos lá a saber, o que vem a ser isso?
Leiteira - Pois... Já a gente não pode usar o que é seu. Não deixam vender o leite em latões abertos. Querem que a gente vá todos os dias à revista c’os latões.
Polícia - Olá! O leite todos os dias analisado para se saber se é leite ou o que é. Pois então! É da nova postura. A boca dos latões fechada e selada, e em baixo mete-se-lhe a torneira por onde sai o leite, que é para evitar falsificações. Mas isto é que menina não quer nem à mão de Deus Padre. Queria continuar a envenenar a Humanidade, misturando no leite água e outra coisa que parece água mas que não é água. Com que então, vender o leite com o latão aberto?... Mas isso não era leite, era queijo...
Leiteira - Oh, seu raio! Você não me esteja a tentar. Olhe que eu já não o vejo bem.
Polícia - (cantarolando) Maria, são teus olhos azeitonas...
Leiteira - Vá fazer pouco da sua geração. Por causa da torneira ainda você há-de saber quem eu sou.
Polícia - Você é que não tarda muito que vá de ventas à torneira com uma traulitada nos queixos. Ande lá para diente. Em chegando à Figueira eu lhe contarei um conto. Ande lá para diente.

         Segundo diz o Tio Joaquim, as falsificações estavam muito desenvolvidas cá na terra. Era o leite, o vinho, o azeite, o açúcar, a manteiga... Os comerciantes não resistiam. Mas agora, com as fiscalizações que havia, o lucro fácil tinha acabado. Se se descuidavam, pumba, multas para cima. E bem pesadas.

         O “Mercúrio”, como deus do comércio, é que lhes podia acudir com um milagresinho. “Por esse país fora, uma grande parte do comércio está na estica. Houve um tempo em que tudo eram lucros. Foi encher... encher, e tanto encheram que muitos rebentaram. Os preços subiram por aí acima, voavam que até se perdiam de vista. Nem admira, era Vossa Senhoria que lhes dava asas... Costuma dizer-se que para baixo todos os santos ajudam, mas neste caso para baixo custa mais a vir...”.

         Não podiam faltar a Sopeira e o seu Impedido. Vinham à fonte, à água pura e fresca. Mas, cuidado, menina, não vá rachar a sua bilha...

         Encontram depois o Aeroplano, alcunha daquele tavaredense que andava sempre nas núvens, triste e pensativo. Era o mordomo das festas da Igreja e, coitado, agora tinha bastantes motivos para andar triste e pensativo. Pois se o dinheiro do peditório, que havia sido levado para a sacristia, tinha desaparecido misteriosamente! Quem roubaria o dinheiro, e logo diante da imagem do Senhor dos Aflitos? Bem aflito estava o pobre do Aeroplano. Pudera, aí à volta de uns duzentos mil reis... Ná! Aquilo era bruxedo, pela certa. Mas em Tavarede havia assim tantas bruxas, pergunta o deus Mercúrio?


sábado, 17 de outubro de 2015

O Senhor do Areeiro - 2

O SENHOR DO ARIEIRO

  
         “... recorda-nos uma outra (capela), que existiu, também para o lado poente de Tavarede. Era situada no cruzamento do caminho directo desta cidade aos Condados, e que daquele que vai de Tavarede a Buarcos, próximo da quinta de Luís António de Sousa e a uns quatrocentos metros para o lado do poente de Tavarede.
        
         Existiu sob a invocação do Senhor da Arieira ou do Arieiro, naturalmente por ser edificada em um lugar aonde o povo ia extrair areia ou saibro para construcção de alvenarias. Em 186.. só existiam dela, no local, uns restos de alicerces e algumas pedras aparelhadas, soltas. Mais nada.
        
         Contava-se na povoação que havia sido interdita e depois demolida em virtude dum sacrilégio cometido: Um desvairado qualquer foi em uma noite pendurar um enxalavar de caranguejos sobre uma cruz que lá existia, profanando assim aquele lugar sagrado, e daí a interdição.
        
         O povo de Tavarede atribuíu o sacrilégio a algum pescador de Buarcos.
        
         Ao certo nada sabemos desta narrativa, contentando-nos apenas da dicção da tradição como era contada entre o povo das proximidades da capela”.

         Antes de continuarmos com a história do Senhor do Arieiro (preferimos esta forma à de Arieira, mas é só uma questão nossa), também queremos referir que, respondendo ao inquérito paroquial de 1721, o então pároco de Tavarede informa que “estava antigamente um nicho com Senhor Crucificado, no fim da terra para a parte do ocidente, que representava ser muito antigo; que hoje está fechado com porta e com toda a decência; que tem obrado muitos milagres; e vai obrando – suando a sua Santa Imagem e a coluna em que está posto, como se tem visto em certos dias”.

         Nas “Memórias Paroquiais de 1758”, o cura Anacleto Pinto refere a ermida do “Senhor dos Milagres ou Arieira”, contigua a Tavarede, mas fora da povoação.

         Depreende-se do exposto, que o nicho com a imagem do Senhor Crucificado foi transformado numa pequena ermida onde estava devidamente resguardada e protegida, a qual, depois do “sacrilégio” do “enxalavar”, foi demolida.

         Quanto à imagem, uma notícia de 1899, publicada na “Gazeta da Figueira”, diz o seguinte: “Acabamos de saber que alguns paroquianos desta freguesia se vão agregar em comissão para colher dos habitantes da mesma freguesia donativos suficientes para o acabamento interior da capela do nosso cemitério, mandada edificar pela junta de paróquia presidida pelo saudoso e benemérito cidadão sr. João José da Costa.
        
        Foi este malogrado cavalheiro quem teve a louvável ideia de se mandar ali construir aquela capela, com o propósito de nela ser colocada a veneranda imagem do Senhor da Arieira, e de servir também para lá instalar o Santíssimo Sacramento e as imagens que se vêem na igreja, quando por qualquer motivo isso fosse necessário.


         Capela do cemitério actual, mandada construir por João José da Costa, presidente da Junta de Paróquia, para lá se colocar a imagem do Senhor do Arieiro
        
A comissão a que nos referimos vai oficiar à junta de paróquia, a fim de esta conceder autorização para levar a cabo os seus honrosos intentos, visto ela não ter até hoje, passados que são uns poucos de anos depois da morte do iniciador da construção da capela, o sr. João José da Costa, conseguido lançar nos seus orçamentos uma pequena verba destinada a acabar tão útil obra, começada por um homem a quem se deviam acatar e respeitar as intenções.
        
         Honra seja, portanto, àqueles que vão concluir a capela, e oxalá que todas as pessoas desta freguesia contribuam para tal fim.
        
         Agora há uma coisa séria a resolver e de que a mesma comissão vai tratar, que é de averiguar a forma como a imagem do Senhor da Arieira, dada a Tavarede pelos proprietários da extinta capela daquele nome, foi ter à casa de depósito do cemitério ocidental dessa cidade, sem que, segundo o que ouvimos, fosse autorizado para o fazer qualquer dos membros da junta.
        
         Eis um assunto que aqui tem levantado grande celeuma, porque não só a imagem representa para os paroquianos de Tavarede um grande valor, mas também porque estava destinada a ocupar um lugar determinado por um homem cuja memória é sempre invocada com todo o respeito.
        

         E, francamente, também não admitimos que a junta de paróquia ou algum dos seus membros possa assim fazer, leviana e inconscientemente, oferta duma imagem daquelas, como se fôra uma coisa sem valor e que de direito não pertencesse à nossa freguesia, que é como quem diz aos tavaredenses.