terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 6

Vou, em seguimento da nota anterior, referir-me hoje às primeiras revistas representadas na SIT e apontar as 'picadelas' dirigidas ao Grupo.

'Na Terra do Limonete', levada à cena nos dias 6, 13 e 20 de Abril de 1912, foi escrita por João dos Santos (da Quinta dos Condados) e musicada por Gentil Ribeiro. Era dividida em 2 actos e 6 quadros. (1º. - O relógio e seus componentes); 2º. - As eleições; 3º. - Pavilhão dos três vinténs; 4º. Soalheiro indígena; 5º. - Diplomacia de taberna; 6º. - Apoteose)

O primeiro quadro critica as ofertas que alguns tavaredenses fizeram para a compra de um relógio a colocar na torre da Igreja, um deu os ponteiros, outro uma pêndula (usada), etc. e alguns deram dinheiro, pouco pois não deu para pôr o relógio a funcionar convenientemente. Refiro este quadro para recordar o caso da subscrição, em dinheiro, que depois se verá o destino que teve. O quinto quadro aponta directamente para a nova colectividade concorrente:
.....

Bonifácio – (como que continuando conversa) Pois tu cuidas que se eu quiser a Sociedade d’Instrução não vai a terra? Vai e eu te digo a maneira: já que não pegou como eu queria d’antes, mando lá uns garotos apanhar dois bilhetes, mesmo que tenham o nome de sócios, porque isso não tem dúbida. Arranjo p’r’aí uns gândulos que vão dizer que a casa tem trezentos lugares, que é p’rá multa ser maior, junto-lhe nove récitas p’ra crescer o monte e zás... multa p’ra xima d’eles. Disse-me um fulano que save d’estas coisas, que a multa pode ir até cem mil reis por cada récita, e assim aonde hão de eles ir arranjar tanto dinheiro? Vão p’ra terra, com certeza! (com um sorriso de contentamento)

Aniceto – Falas com cadência. Bebe que a murraça não é má. Conta comigo p’ra t’ajudar na vingança. Eles têm medo de ti e com certeza vás dar-lhe um calor e botas com eles em terra, apesar de serem muitos.

Bonifácio – Vem bês, que eu cheguei a andar na escola que eles lá têm, mas não aprendi nada lá, porque sei mais do que todos eles. Sou muito bem capaz de lhes dar lições cá de certas coisas que tu também não perceves. Eu seja da cor d’este bonet se não acabar com aqueles cachorros com que não se pode caçar. Olha cá, a escola serve para alguma coisa? (gesto indiferente do Aniceto, com quem diz: é claro que não!) Pois é claro que não serve! Tudo se faz na boa harmónia. Arranja-se uma tuna que toque bonitas sinfónias, porqu’é assim com as melódias e com colmeias e semi-colmeias que o home toca no rabecão que se evitam estas questãos e as sensabórias e fica certo de que apanham a catastrófe. Oh! se apanham! Tenho cá a coisa preparada p’ra eles irem p’ra terra e nunca mais se levantarem.

D. Limonete – (que tem entrado e ouvido a conversa) Não vos reconheço direito para falarem assim. Deitar por terra uma instituição que procura arrancar das trevas da ignorância os filhos da sua terra, ministrando-lhes a luz bendita da Instrução, que procura a todo o passo substituir esta atmosfera pesada e perigosa que existe na taberna por outra mais suave e proveitosa que se encontra na Associação. É obra muito pesada para vocês, apesar de possuírem em elevado grau a astúcia necessária para praticarem o mal. Movei-lhe, embora, guerra sem tréguas, que ela aguardará o vosso ataque no seu posto d’honra, sem o temer, porque sabe que combatentes da vossa laia usam por balas as pedras da rua e por pólvora a areia das valetas, como os rapazes nas suas espingardas de cana, mas, depois do combate, o vosso sonho há-de desfazer-se, e então vereis que a Sociedade d’Instrução, longe, muito longe de caír moribunda, prossegue desafrontadamente a sua marcha pela estrada do Progresso. Como é triste o contraste que existe entre a Sociedade que vocês odeiam e a Taberna que lhe preferis: - Aqui, a corrupção, a intriga e a desordem. Acolá, a Paz, o Trabalho, a Instrução!

Quanto à revista seguinte, 'Dona Várzea', dos mesmos autores e escrita com a colaboração de Arménio Santos (filho de João dos Santos), tinha um acto único e três quadros. Foi levada à cena no dia 22 de Março de 1913 e no dia 5 de Abril do mesmo ano. Do 1º. quadro 'O eclipse', recordo para a nossa história, estes fragmentos:
D. Várzea – (entrando perseguida por o fiscal do selo – calças à boca de sino, melenas e navalhão em punho. Atrás os denunciantes com orelhas de burro e cauda) A Sociedade d’Instrução, senhor, só trabalha pelo desenvolvimento intelectual das classes pobres, d’aqueles que desde o romper do sol até surgir a noite labutam nos seus domínios para adquirir o seu parco alimento. Perseguir tão prestante colectividade para lhe extorquir os recursos com que sustenta suas escolas, para satisfazer as ambições de gatunos e vingança de miseráveis que só albergam entranhas da mais requintada malvadez, é um crime infame que se pratica, senhor.

Fiscal – Mas quem é a srª da menina que tanto se interessa por essa gente que tem o mau gosto de abrir os olhos à canalha de pobretanas que em sabendo ler são os que mais engulhos nos fazem?

Várzea – Eu sou a Várzea, marida do sr. D. Limonete. Coitado; não sai há dias de casa porque sofreu um grande choque eléctrico quando estava a falar ao telefone pedindo à direcção do correio para a correspondência ser por aqui distribuída mensalmente, havendo assim mais vagar para a ler.

Fiscal – Estimo muito conhecê-la, minha rica menina, mas que quer? Eu preciso de chelpa para manter o meu cardanho e arriscar umas rodas em plenos da roleta. Nem eu, nem os cidadões que deram à dica este gancho, queremos saber de escolas nem de instruir os pobres. Olhe, vê-os, os cidadões? Eles não tiram os olhos e os narizes do fundo das minhas costas. A menina deve conhecê-los...

Várzea – Se conheço!... A alguns já a Sociedade que eles atraiçoam e apedrejam cobardemente mitigou a fome em ocasiões amarguradas. A eles e suas famílias. Serpentes abjectas, que bem depressa esqueceram os benefícios recebidos.

Fiscal – Serão tudo que a menina Várzea lhes quiser chamar, mas se eles não vissem ratos na lua não descobriam a maneira de eu vir aqui surripiar algum l’argent ós gajos da Instrução."


.....
"Lua – Tenho. Diz à Ricardina e ao Silvestre que d’aqui a 10 anos lá terão o telefone que requisitaram há 20 meses. Recomenda às mulheres ou senhoras que costumam ir ao teatro de Tavarede que nos teatros se devem tirar as tampadoiras da cabeça. Em cabelo ficavam mais bonitas e pareciam um bocado mais polidas. Diz-lhes também que nos bailes com os lenços nas cabeças parecem umas trouxas móveis. Encarrega d’esse serviço a D. Várzea, que é boa rapariga quando está a dormir. Se encontrares o D. Limonete, faz-lhe ver que no teatro, quando se bate com os pés, manifesta-se o desagrado e com as mãos é que se aplaude. Explica-lhe isto bem, porque tenho visto por vezes os espectadores no fim dos actos, baterem com as mãos e com os pés, o que significa que não sabem o que fazem. Eu incumbo este serviço a D. Limonete porque ele tem reparado com muita razão, na má educação d’alguns indivíduos que na parte superior do teatro conservam os chapéus na cabeça, mesmo nos intervalos, e outros que se descuidam com o cigarrinho aceso na plateia. Ele que tem frequentado lugares civilizados, revolta-se contra tais grosserias. Não te esqueças de me recomendar muito aos rapazes da Sociedade d’Instrução. Vai sempre dizendo ao Gentil que se não canse tanto com a música, porque se assim continua vai parar ao sanatório que o Tarouco ali tem na esquina; ao Ferreira diz-lhe que vá ensaiar para o raio que o parta e que seja mais cuidadoso. Ao Graça, ao Jaime, ao Coelho, à Eugénia e outros, dirás que escusam de ser tão assíduos aos ensaios, aliás, espera-os o alto de S. Martinho. Está a passar-se a minha hora. Adeus, pedaço d’asno, estimo que faças boa terressage".
E o certo é que a Sociedade de Instrução Tavaredense foi a tribunal, pela tal denúncia da venda de bilhetes e foi condenada a pagar uma multa. Parece, não o posso afirmar, que o dinheiro da cotização obtida para o sino acabou por ser aplicado neste pagamento. Veremos se assim foi...
Fotografias: 1 - Na antiga Fonte da Várzea; 2 - Lavadeiras no ribeiro de Tavarede, na Várzea.

domingo, 29 de novembro de 2009

ANTÓNIO FERREIRA JERÓNIMO

Era natural de Santo Varão e filho de António Ferreira Menano e de Ernestina Simões Gonçalves. Nasceu no dia 23 de Novembro de 1903.
Empregado nos escritórios da Beira Alta, veio residir para o Alto de S. João, mudando-se mais tarde para a Vila Robim e, anos depois, para Tavarede, para uma casa na Rua Direita, relativamente perto do Largo do Paço. Casou com Laura Ramos, tendo dois filhos: Mário e Fermim. Faleceu na Salmanha, numa casa que ali mandou construir.
Foi músico de elevada categoria. Tocava na Tuna do Grupo Musical e fazia parte, tocando flauta, do quinteto da colectividade, a que nos temos referido várias vezes noutros trabalhos. Dedicou-se igualmente à composição musical, deixando a partitura de diversas canções, com versos dedicados à nossa terra, bem como de diversas danças para o Rancho Flores da Beira-Mar, de Buarcos, cuja orquestra dirigiu.
Durante vários anos colaborou com o grupo cénico da Sociedade de Instrução, tocando na sua orquestra e ensaiando os coros. Foi o organizador de um conjunto musical que tocava durante os espectáculos teatrais não musicados e que abrilhantava os bailes da colectividade.
Apesar da grande amizade que o unia a José Ribeiro, abandonou a colectividade em Setembro de 1945, por divergências surgidas com o director cénico aquando uma deslocação a Colares, Sintra, sentindo-se magoado por não ter sido convidado, nem, sequer, informado, para acompanhar, com a orquestra, esta deslocação.
Caçador de bom nível, era, também, um apaixonado pela columbofilia, tendo no seu quintal um pombal com algumas dezenas de pombos-correios, com os quais participou em várias provas.
Foi correspondente local de “O Figueirense”, onde manteve diversas e acesas polémicas, especialmente com Belarmino Pedro, seu adversário político, que lhe chamava “o bolchevista”, pela militância esquerdista de Ferreira Jerónimo. É muito curioso, por exemplo, um episódio ocorrido por ocasião de uma festa religiosa em Tavarede.
Passava a tradicional procissão na rua de Tavarede, fazendo o percurso costumado. A filarmónica tocava uma marcha apropriada. Ferreira Jerónimo assume a uma janela do primeiro andar da casa onde residia, de chapéu na cabeça. Era um ateu. Não se descobrindo, alguém que acompanhava a procissão lhe chamou a atenção. Não ligou qualquer importância, até que, quando o entendeu, se retirou para dentro da casa. O caso deu origem a mais uma polémica. Belarmino Pedro aproveitou a ocasião. Só houve resposta tempos mais tarde. “…assomou, de facto, à janela de chapéu na cabeça, mas não se debruçou, por ter ouvido a filarmónica no momento em que regressava do seu pombal, onde sempre entrava de chapéu na cabeça por motivos higiénicos”, disse ele e se não acedeu à observação que lhe fizeram da rua, “foi porque lhe fizeram uma intimação arrogante e da sua parte não houve intenção provocadora e em sua casa não recebe ordens de ninguém”.

Pequeníssimas questões religiosas e políticas, que eram aproveitadas ao máximo para se fazerem ataques pessoais, sem qualquer proveito para a terra.
Fotos: 1 - António Ferreira Jerónimo; 2 - Uma procissão passando no Largo do Paço, perto da casa de A. F. Jerónimo.

ANTÓNIO GRAÇA


Natural do Tavarede, onde nasceu no ano de 1887, era filho de Manuel Graça.
Foi empregado nas oficinas dos caminhos de ferro e ocupava os seus tempos vagos no amanho das suas terras.
Aprendeu as primeiras letras na escola nocturna da Casa do Terreiro, iniciando-se nas lides teatrais no ano de 1902, num sarau promovido pelos alunos daquela escola. E em 1906 encontrámos a seguinte nota, relativa à realização de uma ”Festa da Árvore”: “… depois de, pelo antigo aluno da escola nocturna e actualmente nela professor, sr. António Graça, ser recitada a poesia Escola da Minha Infância, que disse muito bem…”.
Fez parte da 1ª. Comissão Paroquial Republicana, eleita depois da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910.
Até final da sua actividade artística, interpretou cerca de 50 personagens em peças como Os Amores de Mariana, Entre duas Ave-Marias, Em busca da Lúcia-Lima, O Sonho do Cavador, Os Fidalgos da Casa Mourisca, O Grande Industrial, Entre Giestas, A Morgadinha de Valflor, etc. Em 1950 participou na fantasia Chá de Limonete, com o papel de Tio João da Quinta, figura da célebre opereta O Sonho do Cavador, que Mestre José Ribeiro fez reviver, certamente para homenagear o final da carreira deste dedicado amador. Era uma figura extraordinária, de um velho cavador, com a enxada ao ombro, sempre ovacionado quando entrava em cena.
Morreu no dia 19 de Julho de 1960, com 73 anos de idade.

“Uma figura curiosa de tavaredense. Verdadeiro misantropo, era, dentro da sua modéstia, uma pessoa inteligente e bondosa. António Graça deixou bem vincada a sua passagem na secção dramática da SIT, onde actuou, durante muitos anos, como elemento de grande relevo. Sóbrio, de presença agradável, todos os seus tipos eram desempenhados com consciência, o que lhe permitia brilhar em todos os papéis que lhe eram confiados”.
Sócio honorário da colectividade, desde 1928, fez parte dos seus órgãos dirigentes por várias vezes.

Caderno: Tavaredenses com História

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 3

Mas em Tavarede, terra pequena onde todos se conheciam e eram familiares, parece ter sempre havido o mau costume dos ditos e mexericos”, à mistura com um pouco de inveja e uma boa dose de má-língua.

Ora apreciem este retalho escolhido de um jornal figueirense, de Junho de 1912. “Pedem-nos um reparo pelas palavras alguem, que se enfeita com pennas de pavão, escreveu sem repugnacia de mentir. Ora lêiam:
-”Poucos são os domingos, à noite, em que não haja desordens começadas nos estabelecimentos locaes ou nas danças que alguns garotos promovem em plena rua.
Bom será que a auctoridade administrativa ponha cobro a taes abusos”.

É mentir descaradamente, dizendo que tem havido desordens nas danças ultimamente realisadas. Nas tabernas sim, é verdade, porque é costuime da terra que a regedoria-sapateira não deixa desapparecer, nem a marmeleiro.
A causa, caros leitores, que levou esse alguem a escrever esta mentira - insulto a considerados filhos d’esta terra - pedindo a prohibição das danças na arteria publica, é simplesmente um odio que corroe o coração d’essa creatura, que claramente vê dia a dia prosperar a lovem collectividade, á qual pertencem os promotores dos divertimentos domingueiros; sociedade, onde se encontram associados os mais dilectos filhos d’esta povoação, que com amor a defendem e trabalham para a sua felicidade, e a unica que mais esperanças dá para o futuro do povo de Tavarede, que lhe dedica toda a sua sympathia e applausos.
Teem-se dado tantas desordens em Tavarede sem que, ao menos, uma palavra escrevesse sobre isso o pacato que muito bem sabia que ellas se davam, devido aos maus conselhos da nossa real auctoridade local. Porque não se referiria a ellas? É porque o regedor seja dos seus ou o periodico para onde escreve não lhe consentiria amargos a tão alta pessoa? Porque esse alguem não combateu tambem, como era de justiça, visto ser uma provocação, uma dança que a Sociedade d’Instrução promoveu, quando d’uma merenda, que mais tarde resultou uma séria desordem? Porque não chamou a toda essa gente garotos e imbecis? Não responde, porque não terá razão para isso...
Comprehende-se bem todo este odio. Trata-se de combater o sympathico Grupo Musical, que todos os bons tavaredenses apoiam; trata-se de chamar garotos a homens que se prézam de ser honrados e considerados, que estimam e são leaes para com os adversários que sem pejo e vergonha, os anavalham traiçoeiramente.
Valha-nos ao menos, estamos certos d’isso, termos uma auctoridade administrativa que providenciará as desordens, mas não evitará a alegre mocidade de gozar em franca harmonia.
Ainda bem, porque assim o odio ha-de pouco a pouco elevar o pobre alguem ao cemiterio mysterioso onde dorme o somno eterno a benemérita commissão do relogio da torre, que é caminho traçado por elle proprio...
Mais... nada”.

Pode dizer-se que foi o início das hostilidades entre as duas colectividades locais que durante bastantes anos mantiveram uma rivalidade muito pouco pacífica. É certo que algumas vezes os responsáveis pelas mesmas, compreenderam que, para um melhor desenvolvimento sócio-cultural da terra, era bem mais importante a união do que a desunião e a guerrilha. E, então, havia períodos de bom entendimento e mútua colaboração. Mas, volta que não não volta, tudo regressava à forma antiga.

É natural que a jovem colectividade, mostrando, desde logo o seu início, uma enorme actividade cultural, no teatro e na música, suscitasse um pouco de inveja. Diga-se com justiça, no entanto, que não era a totalidade dos respectivos elementos que fomentavam tais questões. Muitos deles até eram sócios das duas associações e desejavam o seu progresso, pois isso reflectir-se-ia na qualidade de vida dos tavaredenses de então. Mas um ou outro lá havia que, intencionalmente, procurava lançar a confusão.

Foi assim que em Novembro de 1912, o então secretário da Assembleia Geral que, pelo aniversário comemorado três meses antes, tão elogioso se mostrara para com os seus colegas da Direcção, fez publicar uma declaração na imprensa em que informa pedir a demissão daquele cargo “por não querer estar onde predominam absolutos e ignorantes, que combatem a instrução e apoiam o vício da taberna!!!”. Algo de grave deveria ter ocorrido, tanto mais que na edição seguinte do mesmo jornal, é o próprio presidente da Assembleia Geral quem lhe vem dar razão, afirmando mesmo que não era da opinião do que se “fez naquele Grupo”.

Nota - Procurei transcrever todos os apontamentos recolhidos, com a ortografia então em vigor. Mas, como compreenderão, é difícil evitar alguns erros, pelo que peço desculpa.
Como lemos acima, a rivalidade era grande, mas com boas abertas... Dissémos, na história da SIT, que as suas duas revistas levadas à cena, eram de 'ataque' ao Grupo. Veremos isso, mais detalhadamente, no próximo capítulo.
Fotografias- 1 . Largo do Paço. A sede do GMIT era na segunda casa à esquerda; 2 - Um piquenine organizado pelo Grupo.




Sociedade de Instrução Tavaredense - 5

Os espectáculos musicados eram, então, muito do agrado do povo. Depois de “Na Terra do Limonete”, os mesmos autores escreveram e musicaram uma nova revista, a que deram o título de “Dona Várzea”. E, em 1913, Vicente Ferreira ensaia e faz representar aquele que seria o primeiro grande êxito do grupo cénico, a opereta “Os Amores de Mariana”.
Não se encontraram quaisquer comentários a esta estreia. Mas, no ano de 1915, esta opereta é reposta em cena. Como protagonista surge Helena de Figueiredo, que substitui, no papel de Mariana, Eugénia Tondela, que abandonara o grupo depois do seu casamento. Foi um sucesso. E nos dias 9 e 23 de Maio daquele ano, os amadores tavaredenses foram representá-la à Figueira, ao teatro da Filarmónica Figueirense. O primeiro espectáculo reverteu a favor desta Filarmónica e o segundo rendeu, ao cofre da SIT, a quantia de 21$08.

No entanto, no dia 18 de Outubro do ano anterior, o grupo tavaredense já se havia deslocado àquele teatro, onde apresentou duas comédias: “Tire dali a menina”, em 2 actos e “Morte de Galo”, em 1 acto, cuja receita reverteu em benefício da manutenção da aula de música daquela colectividade. Foi esta a primeira saída da sua sede, em Tavarede.

A última peça ensaiada por Vicente Ferreira, antes da reposição de “Os Amores de Mariana”, foi o drama “Amor de Perdição”. “A noite de sábado último conseguiu fazer reviver no nosso espírito essa figura sublime do grande Camilo. E tanto mais que Teresa e Mariana, Simão Botelho e João da Cruz apareceram ali, naquele delicioso recinto da terrinha do limonete, encastoadas em Clementina de Oliveira e Helena de Figueiredo, José Ribeiro e Vicente Ferreira, de tal forma que justamente nos entusiasmou. Sem querermos estar a alongar-nos, prevenimos o público de que no mesmo teatrinho, no próximo sábado, há outra vez espectáculo, e que se não perde de todo o tempo em assistir, em Tavarede, à representação do Amor de Perdição”.
Diga-se, porém, que, na parte administrativa, o ano de 1914 terá sido algo turbulento. Numa assembleia geral, o presidente da direcção, João de Oliveira, faz “um breve mas significativo elogio” a Vicente Ferreira, referindo que “só um homem da sua têmpera, com uma vontade igual à sua, seria capaz de tantas canseiras em prol duma terra que lhe era desconhecida. Tanta noite perdida, indo longe de sua casa, muitas vezes debaixo de chuva, levar aos outros o produto do seu recurso intelectual, só da sua candura de alma se poderia obter”.
Nesta mesma assembleia, houve, depois, uma enorme discussão. Estava presente, entre outros, o padre Manuel Vicente que, segundo o cobrador, se recusara a pagar as quotas em atraso. Tanto ele, como outros sócios, alegaram que a falta era do cobrador, que os não procurava em devido tempo e os ânimos chegaram a exaltar-se. Acrescentemos que, pouco depois, o presidente da direcção acima referido e o presidente do conselho fiscal, demitiram-se dos seus cargos e de sócios e passaram-se para o Grupo Musical onde, conjuntamente com o professor António Vítor Guerra e outros fundadores desta colectividade, desempenharam notável actividade recreativa e cultural.
Na sessão solene comemorativa do 10º aniversário, o tavaredense dr. José Gomes Cruz, que presidiu, teve uma intervenção de muito interesse e de que destacamos este apontamento: “... depois de agradecer o convite para presidir àquela sessão, diz encontrar-se ali plenamente satisfeito, muito à sua vontade, pois está sempre à vontade e satisfeito quando assiste a festas como estas que se realizem na sua terra. Fala largamente sobre instrução e educação, demonstrando que para bem empregar a primeira é necessário aliar-se a segunda. Dirige-se aos seus patrícios e pede-lhes que se instruam para assim não poderem ser explorados por aqueles que se escudam na ignorância dos outros e que fazem da religião a alma dos seus interesses. Bem sabe que lhe chamam ateu, que o apelidam de pedreiro-livre, que o insultam; mas que podem importar-lhe esses insultos se tem a consciência de ter cumprido sempre o seu dever? Tem também as suas igrejas, mas essas são mais sagradas do que aquelas de que os padres se servem para explorar as crianças do povo ignorante, porque são frequentadas por crianças tão puras como as flores – as escolas”.
O dr. José Cruz desenvolveu uma notável acção de propaganda cívica e educativa. A Sociedade de Instrução sempre teve nele um amigo e um colaborador. Aqui realizou uma série de palestras dirigidas aos seus conterrâneos. A primeira versou o tema Alcoolismo, seguindo-se outras sobre Pátria, Formas de Governo, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, etc.

Este período, década de 1911/1920, é riquíssimo em episódios nos quais os principais protagonistas são elementos, directivos e amadores, das duas colectividades tavaredenses. Foi uma luta interessante, nem sempre muito leal, mas que acabou por trazer benefícios para o associativismo tavaredense, pois deu lugar, com a rivalidade, a que ambas as associações atingissem elevado grau cultural, quer no Teatro quer na Música. Contaremos alguns episódios, integrados nestes apontamentos associativos. Diga-se, desde já, que as duas revistas acima referidas, 'Na Terra do Limonete' e 'Dona Várzea', eram, em grande parte, de acerbada crítica ao rtival Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
Fotografias: 1 - Helena Figueiredo Medina; 2 - João de Oliveira

sábado, 28 de novembro de 2009

DIVISÃO MOTORIZADA AVANÇA SOBRE ESTARREJA


O nosso conterrâneo António Miguéis Fadigas, conhecido na nossa terra por 'António Noca', era empregado nas oficinas do caminho de Ferro, na Figueira. Casado e pai de três filhos: Manuel (pai do nosso amigo João Fadigas), Lídia e Carlota, foi também, nos seus tempos livres, devotado colaborador da Sociedade de Instrução Tavaredense, onde exercia funções no 'bufete', especialmente nas noites em que havia teatro ou baile.

Durante muitos anos fez parte do saudoso agrupamento 'Os Inseparáveis' que, como já contámos, se reunia, em confraternização, todos os anos no dia 1º. de Maio. Um dia, já não sabemos se devido a doença ou desastre, sofreu amputação de uma perna, passando a andar de muletas. Entretanto os filhos fizeram suas vidas e, quando ficou viúvo, teve de abandonar a sua casa na Rua Direita e deixar Tavarede, indo viver para Estarreja, onde residia sua filha nais nova, a Carlota, com seu marido, o Eduardo Panão.


Um belo dia, e porque a amizade de muitos anos assim o exigiu, um grupo de amigos seus da Terra do Limonete resolveu fazer-lhe uma visita, de surpresa. E um belo domingo, eis que partiu da nossa terra um grupo de ciclistas (mas ciclistas motorizados) em direcção a Estarreja, com o fim de dar um abraço ao nosso patrício e familiares. Os jornais figueirenses noticiaram o facto. Foi esta aventura em Abril de 1956.
No passado domingo, um numeroso grupo de Tavaredenses, conduzindo-se integralmente em bicicleta motorizada, deslocou-se à vila de Estarreja, em visita ao nosso conterrâneo sr. António Migueis Fadigas, que ali reside, há tempos, com sua filha Carlota e seu genro sr. Eduardo Panão.
A “divisão” motorizada era constituída por 11 unidades, a saber: Ricardo Medina, Pedro Medina, Vitor Medina, José Medina, Alvaro Simões, Manuel Esteves Ferrão, Manuel Lindote Pinto, Manuel Nogueira e Silva, João Mendes e Amilcar Vaz de Oliveira e seu filho.
Após a visita, que provocou lágrimas de alegria e emoção, os excursionistas regressaram por Aveiro, onde presentemente funciona a sua afamada “Feira de Março”.

Tudo correu bem e por assim dizer “milagrosamente”, pois não obstante um dos veiculos ter regressado com peças a menos nem por isso deixou de cumprir rigorosamente a sua obrigação, para o que influiu, certamente, a boa marca de “gasolina” usada pelo motorista.. (A Voz da Figueira)"

Foi um dia bem passado pois mataram-se saudades, trocaram-se abraços e comeu-se bem (o almoço, como não podia deixar de ser foram enguias fritas e salada) e regressou-se sem problemas.
Fotos: 1 - António Miguéis Fadigas; 2 - Jogando fuitebol no grupo de 'Os Inseparáveis'; 3 - Os excursionistas em Estarreja.

sábado, 21 de novembro de 2009

Os Broeiros

ANTÓNIO DA SILVA BROEIRO

Natural de Tavarede, nasceu no dia 25 de Abril de 1886, filho de José Maria da Silva Broeiro e de Adelaide Oliveira. Foi casado com Rosa Oliveira e faleceu na Figueira da Foz, em 6 de Março de 1945.


De origem muito humilde, aprendeu o ofício de sapateiro, abrindo, posteriormente, um estabelecimento do ramo, a Sapataria Elite, na Figueira da Foz, que granjeou enorme popularidade e cujos clientes nele apreciavam as suas excelentes qualidades de trabalho, honestidade e simpatia.
Desde muito novo que colaborou com o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e, antes da sua fundação, com o grupo dirigido por João dos Santos, na casa do Terreiro.
Na sua longa carreira de amador, encarnou e deu vida a mais de 60 personagens, em peças como Em busca da Lúcia Lima, Noite de S. João, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Os Fidalgos da Casa Mourisca, A Morgadinha dos Canaviais, O Grande Industrial, Génio Alegre, Entre Giestas, A Morgadinha de Valflor e A Nossa Casa, peça em que participou, pela última vez, em 1943.
Foi director durante vários anos e tem o seu retrato exposto no salão nobre da colectividade.
Deste tavaredense, merecem ser recordadas algumas das palavras que pronunciou numa sessão solene da SIT, poucos anos antes de falecer:
“Eu sou o que a Sociedade de Instrução Tavaredense de mim fez. Devo-lhe tudo. Comecei lá em baixo, na escola da noite, onde me ensinaram a ler, escrever e contar. Só à noite podia ir à escola: teria ficado analfabeto se não fosse a escola nocturna. Depois trouxeram-me para o teatro, ensinaram-me a compreender o que lia, ensinaram-me a falar, a conversar, a ouvir. Aqui fui instruído e educado. Recebi lições, aprendi coisas, tive ensinamentos, fixei exemplos que me serviram pela vida fora. A acção da Sociedade de Instrução Tavaredense exemplifico-a em mim próprio”.


JAIME DA SILVA BROEIRO

Natural de Tavarede, onde nasceu no ano de 1887, filho de José Maria da Silva Broeiro e de Adelaide Oliveira. Faleceu em Lisboa, a 19 de Agosto de 1945, com 58 anos de idade.
Sapateiro de profissão, aprendeu a ler e a escrever na escola nocturna da Sociedade de Instrução Tavaredense.


Desde muito novo começou a entrar no teatro. Foi um dos melhores amadores do seu tempo, desempenhando, com a maior naturalidade, os papéis de “característico”.
Amor de Perdição, Em busca da Lúcia-Lima, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Os Fidalgos da Casa Mourisca, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, A Morgadinha de Valflor e O Grande Industrial, foram algumas das peças em que participou.
Representou pela última vez em 1937, na peça Entre Giestas, desempenhando o papel de Simão Geadas.
Fez parte dos corpos directivos da Sociedade de Instrução Tavaredense durante vários mandatos. Esta colectividade distinguiu-o como “Sócio Honorário”, no ano de 1931. Tem o seu retrato no salão nobre da colectividade.
“… Justa homenagem a quem tanto tem trabalhado pela colectividade. … Soldado defensor da Sociedade está no seu posto, sem um único ressentimento nem desfalecimento, desde a fundação da Sociedade. Era a consagração, o prémio ao trabalho, à devoção. Aquela homenagem tinha, além dessa significação, o exemplo às gerações vindouras que veriam, sempre que houvesse motivo para isso, o preito de reconhecimento da colectividade”.
Era casado com Ana Broeiro e teve quatro filhos: António, Felismina, Laura e Joaquim Broeiro.

ANTÓNIO DA SILVA BROEIRO (SOBRINHO)

Nasceu em Tavarede, no ano de 1909, filho de Jaime da Silva Broeiro e de Ana Broeiro.
Depois de concluída a instrução primária, tirou o curso da Escola Industrial da Figueira da Foz. Empregou-se, como tipógrafo, na Tipografia Popular, tendo sido um dos fundadores do jornal “Domingo”.
Colaborou, como amador dramático, no grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense (A Cigarra e a Formiga e O Casamento da Vasca) e como cenógrafo e decorador. Nestas duas actividades, também colaborou com o Sporting Clube Figueirense.
Em 1921, portanto com 12 anos incompletos, representou numa peça intitulada A Espadelada, que foi ensaiada por José Ribeiro e interpretada por crianças.
Desta representação temos o seguinte apontamento: “… fez um galã ingénuo e apaixonado, com arranques de alma tirados sem aparente dificuldade, movendo-se no seu papel amorudo, como se em vez dos seus dez ou onze anos, já uns dezoito ou vinte lhe trouxessem a cabeça a juros e o coração agarrado a saias em vez de a peões e papagaios ligeiros”.
Fixou residência em Sintra, onde trabalhou na Colónia Agrícola Penal António Macieira. Foi colaborador e secretário da redacção do “Jornal de Sintra”. Nesta vila “conquistou muitas simpatias e pôs em relevo a sua inteligência e aptidões, tanto no jornalismo como na execução de trabalhos artísticos. Escreveu uma peça de teatro que foi representada por amadores de Sintra”.
A Espadelada (1921)


“… E eu lembro a minha aldeia! A aldeia onde nasci, onde me criei, onde corri, despreocupado e feliz, pelos outeiros e pelos serrados; pela várzea e pela colina; ora caçando rãs nos valeiros, ora subindo aos choupos à caça de ninhos de pardal!...
... e as manhãs doiradas do sábado de aleluia em que os sinos repicavam festivos, e eu e os cachopitos da minha idade, esbaforidos, corríamos à igreja com uma caneca de água colhida no rio para que o senhor vigário Manuel Vicente no-la benzesse para as nossas mães borrifarem as casas para que o espírito maldito do bruxedo lá não entrasse...
... e nas manhãs radiosas de domingo de Páscoa, eu ia, de fato novo à marinheira, de colar engomado muito branco e laçarote pendente do pescoço, até à igreja, ouvir missa e beijar o menino Jesus que estava deitado numas palhinhas...
... mas meia hora depois, quando eu estivesse farto de andar na brincadeira, com o fato enxovalhado e porco, eu dava um doce a quem fosse capaz de olhar para mim sem sentir vontade de me bater... Era uma dó! Um fato tão bonito...
Como eu brinquei! Como eu fui feliz...”.
Casou com Laura Cândida Mendes da Silva Broeiro e teve um filho. Faleceu em Lisboa, no Hospital de S. José, no dia 13 de Dezembro de 1943.

Fotos: 1 - António da Silva Broeiro; 2 - Jaime da Silva Broeiro (em 'Ti João da Quinta', na peça 'O Sonho do Cavador - desenho do prof. Alberto de Lacerda); 3 - Na peça 'A Espadelada - 1923 - Maria José Figueiredo, António da Silva Broeiro (Sobrinho), Maria Teresa de Oliveira e António Cordeiro.

Caderno : Tavaredenses com História