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sábado, 3 de outubro de 2015

No primeiro de Maio da Várzea - 25

No primeiro de Maio da Várzea!


         Já me alonguei demasiado. Muita coisa fica, no entanto, para recordar. Tenho intenção de ainda compilar mais um caderno. As colectividades tavaredenses, por exemplo, são manancial quase inesgotável em histórias e figuras que, sem dúvida, bem merecem ficar recordadas na história da terra do limonete. E, como prometi algures, transcrever, na íntegra, alguns documentos referidos ao longo destes cadernos e que, encontrando-se dispersos por antigas publicações, não são de fácil consulta.

         Mas vou terminar com mais uma viagem à célebre fonte da Várzea. É uma história, uma das muitas histórias que encontrei. Vem ela lembrar-nos um dito bem antigo e bem conhecido: “se deixas entrar o Maio, ficas amarelo todo o ano!”. Foi esta historieta escrita na “Gazeta da Figueira”, no dia 1º de Maio de 1918:

         Na Várzea – Clareava vagamente. Um tinta lilaz escorria do alto, lambia as silharias dos predios, punha nas casas um recorte vago de violeta, e cahia nas ruas n’uma côr indecisa, que já não era luar mas, que inda não era dia...
         Subiam as cinco em larga risada aquella ladeira ingreme da Baixa. Eram costureiras do Bairro Novo, modistas de seu officio. Companheiras de trabalho, unhas com carne, amigas tezas, tinham combinado uma volta á Várzea, na manhã clara do primeiro dia do mez. E iam por’li arriba, em cata da Amália, uma d’olhos de lume que morava no topo da subida, mesmo á esquina...
         = Truz... Truz... – duas lambadas rijas na porta pintada de verde.
         De dentro, a voz fanhosa e aguda da senhora Ignácia, dona do prédio, chiou:
         = Crédo! Quem é?...
         = Somos nós, ti’Ignácia! Então a Amália inda não está prompta?
         = Vae já, vae já, meninas...
         E de facto a Amália surgiu inda a compôr o lenço azul-pavão, c’o chale ‘ós hombros derreados. Foi um restolho, uma roda de beijocas, e ó depois um segredinho muito juntinho á orelha d’onde pendia uma argola d’oiro com pedrinhas azues:
         = Vão lá ter todos, sabes?...
         A Amália toda se lambeu de satisfeita. E abalaram de longada mais contentes que um bando de pardaes.
         Já a manhã se percebia. Um rosa leve rasgava no nascente sombras que se diluiam, que se evaporavam. N’uma sebe, há descida da Várzea, mesmo rente á quinta do senhor João Rocha, um melro assobiou uma cantiga d’amor. O ar cheirava a cravos, a rosmaninho, a Primavera. E nas boccas frescas que palravam, o som das fallas e dos risos, tinha um timbre novo, um novo timbre d’oiro...
         N’um muro esbarrigado, cá baixo, estavam elles, os seis, de galhofa. Mãosadas longas, longos bons-dias, muita festa, muita gargalhada. E enaipado e certo, o grupo abalou...
Tomavam a estrada toda, aos pares, n’um arrulhar cantado de casaes de pombos. Um sol muito loiro, como os cabellitos muito loiros da Isaura, uma d’olhos glaúcos que ia babadinha de todo ao lado do seu rapaz, pintava no cimo dos arvoredos faúlhas de lume. Passarinhada feliz ria e palrava nas nevruras frágeis dos ramos tenros. As folhas d’um verde moço e lavado moviam-se em acenos de acolhimento dôce. Um prado largo, p’r’as bandas de Tavarede, fulgia todo esmeralda como um tapete de musgo. E as seis cachopas a mai’l-os seus rapazes, iam caminho fora, rezando n’um murmurio de rega coisas muito suaves e lentas...
         Um rancho do Casal do Rato, c’os potes todos floridos de rosas, passou n’um andar ligeiro e lesto ao som breve d’uns ferrinhos tilintando vivezaz d’um vira. Uma cantiga palpitou, tremeu, ficou no ar como um farrapo doirado...

                       Minha mãe case-me cedo
                       Emquanto sou rapariga!
                                                                                                                                   
E já a perder-se na volta, ainda a voz límpida e fesca da cachopa, a saracotear-se, a cirandar na frente da malta: 

                    Que o milho sachado tarde
                  Não dá palha, nem dá espiga!


         ... Ficára no ar um suave perfume a rosas brancas. O sol subira. O céu tornára-se d’um azul mais claro que os olhos azues claros da Philomena, a mais esguia do grupo, com uma blouse branca de rendas onde o busto do moringue se desenhava com pureza. N’uma pereira toda cobertinha de flôr, branca como uma noiva, um roixinol ria, ria perdidamente. Dois pardaes presos pelos bicos, bulhavam n’uma nuvem delgada de poeira. Passava um cortejo de andorinhas abrindo as azas de velludo ao ar fino e forte. E para a fonte caminhando sempre, sempre devagar, ia o grupo d’amorudos...
         N’isto, mesmo a chegar ao largo, dão de caras co’a Felismina, aquella rapariguinha que trabalha ali na Praça Velha, baixa, redondinha com’uma rôla, de cabellos d’azeviche e olhos negros e fundos, como dois poços fundos e negros...
         = Ih cachopa!... – tão pallida!
         ... Fez a Maria Emilia n’um pasmo, a vêr as caras das outras muito vermelhas, a sentir-se ella própria cheiinha de calor, assim com muito dó por isso da côr de marfim velho da pobre Felismina...
         E logo a Elysa, a mais alta, uma fausse-maigre d’olhos castanhos de malícias, com uma risadinha de troça...
         = Ai, mulher, que deixás-te entrar o Maio!...
         Risada geral. E a Felismina, sempre d’uma lividez de cyrio, os olhos muito cavados nas olheiras muito roxas, muito fundas, sem perder a linha, a sorrir, no mesmo ar de ironia das mais:

         = Ai!... ‘stão enganadas filhas! Não foi o Maio... foi o Maia! 



sábado, 27 de junho de 2015

Tavarede no Teatro - 3

“Em busca da Lúcia – Lima”


         Foi no sábado 11 de Abril de 1925 que, pode dizer-se, se abriu a primeira página deste livro da história de “Tavarede no Teatro”. O prólogo, em 1912 e 1913, havia sido relativamente curto, aliás como devem ser todos os prólogos, mas agora já muito material passava a estar disponível.

         Pois naquele sábado houve mais um espectáculo no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense. Representou-se a opereta “Em busca da Lúcia-Lima”, em 3 actos e da autoria do distinto poeta e escritor figueirense João Gaspar de Lemos Amorim, que havia uns anos, e quando regressou de África, escolheu a nossa terra para viver, tendo para isso adquirido a Quinta da Mentana, que confrontava com o Largo da Igreja, com a estrada para a Chã até ao ribeiro do Pereiro, e com a estrada do Saltadouro. Ali tinha mandado construir uma vivenda no alto de uma pequena colina, rodeada de frondosas árvores.

         Foi ele que escreveu a referida opereta, a qual foi recheada com 23 números de música, original e coordenada pelo notável amador musical figueirense António Maria de Oliveira Simões, grande colaborador do teatro tavaredense durante toda a sua vida.

         Ao anunciar a sua estreia, o correspondente local de “A Voz da Justiça” escreveu, na edição de 10 daquele mês: “Dizem-nos que pela música, que é lindíssima, com alguns números duma grande beleza e magnífica orquestração, pelo libreto, de entrecho simples mas interessante e com certa cor local, e pela montagem, a representação desta opereta cairá no agrado da plateia figueirense”.

         Parece que, realmente, o público gostou do espectáculo. Antes de entrarmos na análise da peça, o que espero fazer de forma simples mas de maneira a dar a conhecer a mesma, e de alguns apontamentos críticos sobre interpretação e montagem, começo por transcrever um apontamento que encontrei na “Gazeta da Figueira” de 2 de Maio de 1925:

         “Por intermédio do nosso colaborador Raymundo Esteves tivémos a honra de ser apresentados ao ex.mo sr. João Gaspar de Lemos, distintíssimo poeta e auctor da opereta “Em busca da Lúcia-Lima” que ultimamente tem sido representada com agrado no theatro da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Gaspar de Lemos, sem de longe pensar que o estamos entrevistando, vae-nos dando, na sua agradabilíssima conversação, todos os elementos de que carecemos, apenas um pouco ennublados na parte respeitante ao valor da peça, que segundo outros é bem moldada, mas que a sua modéstia, que bem se coaduna com o seu valor, faz ver eivada de erros a que só (expressões suas) a técnica e boa vontade de José Ribeiro e a explêndida música de António Simões, poderiam salvar.
         Descreve-nos a peça. E o assumpto, certamente bem tratado, é tão curioso, tão interessante, tem tanto theatro, tamanha beleza, que a gente logo vê quanta modéstia o auctor tem falando da sua peça do modo ligeiro como o fez.
         Começamos então a sentir verdadeiro desgosto por a não termos visto em scena e Gaspar de Lemos dá-nos umas leves esperanças de que ella seja aqui representada em récita de homenagem à Santa Casa da Misericórdia, e volta-nos a falar com entusiasmo do valor da música, da inteligente encenação, do seu explêndido desempenho que representa uma verdadeira consagração para José Ribeiro pelo triunfo obtido d’aquelles rudes e pouco cultos amadores que por única arma de combate para vencer tanta dificuldade, possuem a boa vontade e o grande desejo de progredir.
         Que Gaspar de Lemos nos perdoe a traiçãosinha e fique certo que aguardamos ocasião de podermos satisfazer o desejo de ver na ribalta a sua “Em busca da Lúcia-Lima”.

         Na semana seguinte é publicada uma carta de Gaspar de Lemos respondendo:

         “Sim, senhores, a cilada foi bem planeada e bem levada a effeito, pondo por isso em evidência que o Raymundo Esteves, o estratégico do ardil, mostra natural vocação para bandoleiro. Não quer isto dizer que o cúmplice entrasse subalternamente no caso como Pilatos no Crédo. Mas estão perdoados! Fiquem, porém, certos de que ao largar os dois e ao afastar-me do local do sinistro, já no meu espírito eu tinha aprehensões e suspeitas da nefaria trama. E sem laivos de rancor, sem sombras d’azedume ou leve ressentimento sequer, dei logo por bem empregado os poucos minutos gastos por nós trez a palrar sobre o assumpto provocador da cilada. Como bem comprehendem, esta deu ensejo a que eu prestasse homenagem bem convictamente ao maestro António Simões, pessoa da minha maior estima, cuja nítida percepção das situações e fino sentimento artístico lhe deram azo a ornar o libretto com deliciosa e captivante música, e bem assim ao José Ribeiro, admirável rapaz que realisou prodígios d’ensinamento na declamação e marcação da peça, manifestando mais uma vez a sua capacidade comprehensiva da technica theatral, não deixando escapar as mais subtis minucias, e tudo isto conjugado com heróica paciência e uma vontade férrea que contrariedade alguma conseguiu quebrantar.
         Exaro aqui o meu agradecimento sincero pelas boas palavras que me dispensa e que se me afiguram excessivas. Não ignoro, é certo, que nas produções literárias d’esta natureza o libretto (enredo e afabulação) constitue  quasi um simples pretexto para exhibir música e indumentária, já vê, pois, meu caro sr. Sobral, que para o êxito da opereta Em busca da Lúcia-Lima e agrado com que nas trez récitas ella foi ouvida, eu contribuí com diminuta quota. Longe de mim o propósito de querer adornar-me com vistosas plumas de enfatuado pavão. Desde o primeiro ensaio d’apuro reconheci logo que o valiosíssimo concurso dos meus amigos e collaboradores evitaria o fracasso da peça. E d’esta vez fui profeta na minha terra. De resto nunca tive pretensões a lançar a público, já não digo uma obra prima (crédo!) no género mas qualquer cousa com o fim d’engodar a notoriedade.
         Creia-me com muita consideração seu creado e admirador, J. Gaspar de Lemos”.

         Houve mais espectáculos em Tavarede nos dois sábados seguintes, e no mês de Julho, foi o grupo cénico tavaredense dar uma representação, com esta peça, no teatro do Parque-Cine, na Figueira, cuja receita reverteu a favor do Hospital da Santa Casa da Misericórdia local.

         Sobre este espectáculo, são muito interessantes as críticas publicadas nos três jornais então publicados na Figueira. E se em “A Voz da Justiça”, relativamente à peça, se diz “era esta opereta, de entrecho simples, com muita cor local, alguns tipos trazidos para o palco com felicidade, e em cujos três actos as brilhantes qualidades de poeta de Gaspar de Lemos se afirmam com pujança. Os versos da Lúcia-Lima fogem ao ramerrão das rimas forçadas, têm sentimento, têm princípio, meio e fim, são espontâneos, ajustando-se perfeitamente à acção da peça e à oportunidade em que são cantados”, e na “Gazeta da Figueira” se escreve “numa opereta, vulgarmente, há apenas um motivo ligeiro, um leve fio de entrecho, para se fazer ouvir música, “Em busca da Lúcia-Lima” tem mais do que isso, tem seu enrêdo, começo, meio e fim, tudo afinado e certo, como é próprio do talentoso autor”, já em “O Figueirense” não se alinha no mesmo estilo e escreve “a peça não está mal feita e melhor posta em cena, mas nasce dum disparate carnavalesco e quase todo o seu enredo é um disparate completo. Não é admissivel, nem mesmo em teatro, que um anúncio carnavalesco publicado num jornal de província, trouxesse a Tavarede, e de aeroplano, dois comerciantes brasileiros, para verem uma mulher que o já referido anúncio dizia ser formosa... Como se no Brasil não houvesse mulheres bonitas!...”.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 3

       Que transacções mantém Tavarede com Mira, Quiaios e Brenha, povoações a quem servirá a estrada distrital?
         Que produtos de indústria poderão trocar com aquelas povoações? Ao nosso mercado concorre diariamente com duas ou três dúzias de cestas de produtos hortenses. Para isto, lá tem a boa estrada que já possui.
         Que Tavarede precise dalguns melhoramentos dentro de si, concordo; que lhe seja de absoluta necessidade passar por dentro a estrada distrital, privando dela os centros mais importantes da sua freguesia, não se pode admitir á face da boa razão.
         Lancemos a vista sobre a bacia em que assenta Tavarede, povoação que é hoje objecto de infundamentadas questões sobre a conveniência de trazer por dentro dela a estrada distrital que há-de ligar-nos a Aveiro.
         Analisemos primeiramente os montes que a rodeiam, as vias de comunicação que encerra, as produções da agricultura do terreno que a forma, e com esse conjunto de apreciações poderemos mais uma vez avaliar a razão de obrigar a um desvio o traçado já estudado.
         Tavarede está situada no fundo da bacia em um vale profundo, apenas a quatro metros acima do nível do mar, na direcção do poente ao nascente até á Cumieira, a serra da Boa-Viagem.
         Duas ramificações desta serra partem - uma do ponto da povoação da Serra, prolongando-se pelos Condados para o sul, até chegar ao lugar do Senhor do Areeiro a 600 metros ao poente de Tavarede, onde termina limitando o horizonte dessa povoação por este lado; - outra - partindo da mesma serra e na direcção de Cabanas, estende-se pelo Saltadouro, Prazo, Araújo, Casal da Robala, e principiando a deprimir-se neste último ponto acaba na margem do Mondego, junto dos Estaleiros.
         Um outro monte principia a elevar-se junto do lugar do Senhor do Areeiro, continuando a ramificação da serra perdida naquele ponto. A partir dali, o monte continua por alguma distância e divide-se depois em três partes: uma que segue para o Sudoeste, e é aquela em que assenta a nossa igreja matriz; a outra, paralela a esta, é a base da rua da Lomba; a terceira, crescendo do Pinhal para Sueste, assenta nela o casal da Lapa, indo depois perder o nome junto dos estaleiros.
         A bacia em que assenta Tavarede, emoldurada do norte, nascente e poente, pelos montes que designei, é aberta ao sul do lado onde passa o Mondego, a dois quilómetros abaixo daquela povoação. Tem de comprimento, do norte a sul 2:500 metros, e de largura 700, sendo atravessada longitudinalmente por um ribeiro que recebe as águas das vertentes da Serra da Boa-Viagem, e do Saltadouro, e, passando á extremidade do lado do nascente de Tavarede, deslizando pela planície abaixo, vai pela fonte da Várzea a desaguar no Mondego. No decurso do trajecto do ribeiro estão montadas três azenhas. A bacia, é em grande parte destituída de terreno próprio para ser agricultado, a parte mais próxima do rio é ocupada por marinhas de sal, cujas propriedades pertencem a indivíduos desta vila, e terá uma área de 150:000 m.q. Segue-se-lhe para o norte quase outro tanto de superfície de terreno em parte apaúlado, e abandonado a pousio e á espontânea vegetação de juncais. Mais para acima, - talvez não erre a estima - um terço da superfície total da bacia que envolve Tavarede serve ao cultivo de cereais e produtos hortenses, mas em tão pequena quantidade, que mal compensam o trabalho do lavrador, tanto que, os proprietários, na maior parte da Figueira, têm preferido trazer arrendadas essas terras a cultivá-las por sua conta. Os rendeiros, não obstante correr por suas mãos todo o serviço do cultivo, tiram bem magros recursos desse trabalho, e tanto que uma grande parte deles, não podendo viver unicamente destes proventos, vem aqui empregar-se quase todo o ano, prestando os seus serviços braçais nos armazéns de vinhos, como carreiros, ou em outros misteres.
         Quase toda aquela planície possui para esta vila um magnífico caminho a macadame, que, partindo da proximidade da quinta do sr. dr. Borges, a quatrocentos metros abaixo de Tavarede, vem para o sul, em volta, a encontrar a fonte da Várzea, e para diante daqui sobe a um alto onde se bifurca para o sul a encontrar a extremidade desta vila pelo lado do Mato, e para o poente vem encostado ao cemitério, a sair do Pinhal.

         A extremidade norte da bacia tem a boa estrada a macadame que de Tavarede vem á Figueira.
         Além dessas estradas existem ainda uns caminhos menos importantes; um deles tem origem na estrada da Várzea, apoia-se na vertente do monte que limita a bacia pelo poente, e segue àquela povoação. Esta é muito concorrida pela gente que se dirige á Figueira. Pelo lado do sul temos a estrada dos Estaleiros, por onde é feito o serviço das marinhas que há naquele local.
         Aí deixo esboçada a região que deverá servir de base a qualquer argumento material, atinente a querer forçar o traçado a passar por Tavarede.
         Também pretendem trazer a lume, em abono do pretendido desvio, o facto de que ao povo de Quiaios, que agora vai por um ramal ser ligado á estrada de Aveiro, lhe fica muito extenso o caminho que não vem por Tavarede.
         Nunca ninguém se lembrou de tal circunstância, quando se tratou de ligar directamente aquele povo com esta vila, pois que, podendo ir a estrada daqui pelos Condados á Serra e a Quiaios, o que encurtaria em alguns quilómetros a sua distância, foram antes levá-la por Buarcos á Senhora da Encarnação, e deste ponto pela Serra a Quiaios, dando assim uma volta que a torna mais extensa dois quilómetros!
         Agora faz-se questão por que esse povo não pode andar mais uns 800 metros, pois tanto é a diferença que há entre a extensão dos dois projectos pelo Casal da Robala a Tavarede.
         Quem contemplar a sangue frio esta contradança de argumentos fica duvidando da sinceridade das intenções que nutrem os que especulam com a ignorância do povo, fazendo-o pedir o que não deve. Pobre povo! infelizes ignorantes que sempre hão-de representar um papel de actividade nas coisas, quando a sua gerência é passiva e ilusória. Um outro poder especula, movendo esses pobres autómatos a acreditarem na justeza dos princípios pregados por alguns apóstolos dos modernos tempos! Oh luz! quanto tempo estarás velada para deixares nas trevas essas obscuras inteligências?
         Quando se pretendeu dar uma estrada a Buarcos, quebraram-se lanças para que os estudos mandados por ali fazer para uma estrada que daqui seguisse a Quiaios fossem aprovados, e para isso, invocou-se nessa ocasião a representação do clero, nobreza e povo. É aprovado o projecto; fez-se a estrada na parte compreendida entre esta vila e Buarcos, continua depois até á Senhora da Encarnação, e pára neste ponto porque nasceu a ideia de abandonar o traçado por parecer irracional a continuação dele por ali.
         Dorme a lembrança do povo de Quiaios.
         Necessita-se de reparar o caminho que desta vila vai pelos Condados á Serra; faz-se valer o motivo da utilidade para os povos da Serra da Boa-Viagem e Quiaios. Repara-se o caminho até aos Condados, pára a obra, e esquecem os povos que a utilizavam! Trata-se agora da estrada distrital de Aveiro a esta vila, e ressuscita a ideia do ramal que vá ligar Quiaios àquela estrada no lugar de Cabanas! Parece-me que aquela malfadada povoação de Quiaios é o salvatério em todos os apertos, porque só vem a pelo para servir de medianeira e contrapeso a interesses secundários.
         Pode julgar-se de nenhuma importância a consideração de que a estrada deverá tornar-se menos extensa pelo motivo que torna maior a distância a um povo que a ele se liga por um ramal que nela se encontra a seis quilómetros de distância desta vila. E mesmo quando lhe ficasse mais distante o caminho pelo lado de Brenha, poderiam faze-lo pela sua estrada em projecto por Buarcos, por que foi essa que lhe mereceu a sua atenção e desvelo representando na ocasião oportuna pela sua execução, o que lhe era de máxima utilidade indo por aquele lado.
         Sobre esse, teria a povoação de Quiaios e circunvizinhos interesse e autoridade mais directa, ao passo que a sua influência num ponto que lhe fica mais distante não tem o valor que julgam - é menos autorizada por indirecta.
         Ainda assim, pesando em seu favor que lhe ficará por Brenha mais distante o caminho uns 800 metros, tendo o traçado de seguir pelo Casal da Robala e não por Tavarede - ficam bastante compensadas as fadigas dessa distância pela suavidade que deve oferecer-lhes o traçado que reprovam. É preciso que tenham em vista, que o traçado que desejam teria uma subida mais custosa de vencer, do que a distância a maior que pelo outro teriam de percorrer.
         A partir da igreja de Tavarede, pelo caminho em direcção ao Saltadouro, há uma elevação constante de terreno de quase sete por cento por uma distância de 1:600 metros, o que equivale a uma subida de 109 metros de nível de Tavarede ao Saltadouro! Não acham contraproducente o argumento e uma utopia o que desejam!
         Os peões quando carregados e obrigados a subir a uma elevação daquelas que possui o máximo de inclinação que o regulamento de estradas permite chegaria esbaforido ao termo maldizendo dos homens e das coisas.
         Há gente que tudo põe em jogo para conseguir um fim, embora o resultado seja só partilhado por um pequeno número dos meios.
         Aduz-se para aí também ou lançam mão do facto da Figueira possuir uma estrada distrital que lhe dá ingresso pelo nascente, levando a utilidade a essa parte da vila. Outra, municipal, pelo poente, na qual concorre a mesma razão, e só não tem uma estrada distrital que entre na povoação pelo Pinhal!
         A isto anteponho um argumento caseiro. Suponhamos uma casa, com uma única porta por onde diariamente entram doze pessoas levando-lhe para dentro doze mil réis - mil réis cada pessoa. Abram-se nessa casa em vez duma doze portas e faça-se entrar por cada uma sua pessoa e por conseguinte mil réis. Temos obtido o mesmo resultado por que não aumentou a quantia entrando juntos por uma ou em parcelas divididas pelas doze portas.
         Ora, os interesses que resultam á Figueira da sua ligação com Aveiro e outros povos, não ficarão prejudicados por a estrada entrar pelo norte ou nascente, salvo se a parte mais comercial desta povoação está aglomerada em algum daqueles pontos, nas extremidades dela.
         Passaremos agora em revista o terreno que a directriz estudada atravessa, seguindo pelo Saltadouro, Prazo, Araújo e Casal da Robala. Se formarmos um trapézio cuja base maior tenha um dos extremos apoiado na antiga ponte dos Estaleiros, e outro em Brenha; a base menor na Caniveta e Caceira; um dos lados formado por uma linha tirada de Caceira a Brenha, e outro que da ponte dos Estaleiros toque a Caniveta; teremos, circunscrita por esse quadrilátero, uma região agricultada, medindo a nível 9:240000 m.q. que a 60 rs. o metro, valor na verdade insignificante, perfazem a importante quantia de 554:400$! Este valor está muito aquém da verdade, porque só exprime o valor do terreno, sem atenção á parte móbil da região, como pinhais, pomares, casas, etc., e ao aumento de superfície, proveniente das ondulações do terreno. Quando mesmo aqueles terrenos não dêem um rendimento superior a três por cento, esta percentagem dá-lhes um rendimento anual de 16:632$000 réis.
         É, pois, esta importante região agricultada, possuindo excelentes terrenos, mesclada aqui e acolá de vinhas, pinhais, pomares, etc., que querem privar da utilidade da possessão duma estrada!
         Não preciso encarecer a vantagem resultante de cortar aquele grande trato de terreno por uma estrada: ela é manifesta. Naquele espaço há excelentes quintas, bons terrenos produtivos; o que lhe falta são estradas que lhe facilitem os transportes.
         Indo dos Estaleiros para o Casal da Robala, principia-se a caminhar por aqui e ali, marinhando, saltando como as cabras sobre a terra solta dos desaterros duma pedreira em actividade de extracção de pedra que facilita atoleiros, ou sobre as ribas em desagregação dessa eminência, sujeito a precipitar-se; depois entra-se em uma azinhaga dum metro de largo, pouco mais, ladeada de valados de piteiras, que de quando em quando vão cravar os seus bicos no corpo do caminheiro menos cauteloso.
         Antes de entrar nos assordeiros - se não é um assordeiro toda a azinhaga até ao Casal da Robala - o sujeito tem que escolher entre as seguintes contingências: - ficar enterrado na lama até aos joelhos, subir a um dos valados que borda a azinhaga, passar entre as piteiras e ficar cheio de rasgões no fato e no corpo, por último saltar para dentro duma propriedade estranha e sujeitar-se aos enxovalhos do proprietário!
         Quando passar um carro a bois, ter-se-á de optar por qualquer dos meios que indiquei ou voltar para traz, isto sem remissão. Assim todo o caminho!
         Todos sabem que no decurso dos meus escritos apenas expus a verdade. Não me servi de exageros nem tampouco de asserções gratuitas; aí estão os factos, pensem sobre eles para que aqueles a quem interessa a questão possam resolver da forma mais racional.

         Na secretaria do ministério das obras publicas existirão dados, mais que suficientes, para bem poder definir a justiça que há em trazer a estrada distrital de Aveiro para esta vila seguindo-se a directriz já estudada pelo Casal da Robala e não por Tavarede, como se pretende”.

mº. 3 (continua)

sábado, 28 de maio de 2011

UMA VISITA À IERAX



Saímos da Figueira em direcção a Tavarede. Esperámos que os semáforos passassem a verde, atravessámos a povoação e deparámos com a igreja. Subimos a estrada que se situa ao meu lado direito e, poucos metros volvidos, eis a IERAX – a fábrica que faz os sacos de plástico, no dizer do leigo – o nosso destino. Ora vamos lá ver como se fazem os sacos.


Começamos por ser extremamente bem recebidos pelo sócio-gerente sr. Fernando J. Ferreira da Silva, que tirando uns bons nacos ao tempo de trabalho absorvente, nos forneceu as informações pretendidas bem como nos acompanhou na visita às instalações da fábrica. Ao santuário do plástico afinal.


O início da construção do complexo fabril remonta a 1968, ainda que nessa altura as dependências fossem reduzidíssimas. A sua laboração teve início ainda nesse ano, em pequena e rudimentar escala. Foi adquirida por esta gerência em 1978 tendo, então sim, beneficiado de profundas e progressivas obras bem como sido alargado o parque industrial e a problemática do fabrico.


A sua área – contando com a vastidão dos terrenos circundantes – é de 67 000 m2 sendo a área coberta superior a 6 000 m2.


Situação exacta, já a demonstrámos em “croquis”, no início desta crónica. É fácil lá se chegar.


Número inicial de postos de trabalho (em 1968) – 10.
Em 1978: 50.
Em 1981: 91, sendo 67 homens e 24 mulheres.


Vamos agora tentar explicar, por palavras simples, o que existe de maquinaria: máquinas de extrusão (já explicaremos o palavrão) – 7, de injecção – 4. De impressão e flexografia (até 6 cores) – 4. Corte, soldagem e rebobinagem – 7. De acabamentos – 26. Total – 50, exceptuando as de pequeno porte e de escritório. E ainda as do parque automóvel e de armazém.


Todas estas máquinas juntas formam uma autêntica linha de produção não sendo aproveitáveis sem a ajuda de outras. São de produção sequencial, em espessuras e larguras de filmes e mangas para os diversos fins de aplicação.


E, como é óbvio, vai a administração da fábrica acompanhando a evolução do país tentando desde já preparar o futuro com a procura de novas e actuais máquinas para um melhor acompanhar da produção – isto em forma, também, de novos processos. Faz-se notar que o mercado externo tem outras exigências e qualidades, e desde já se procura emparceirar com a própria CEE.


E a CEE tem muito que se lhe diga. As peças produzidas nos países desta organização têm de ser embaladas em sacos especiais, o mesmo acontecendo aos produtos portugueses, sendo necessário nova maquinaria tendente a cobrir tudo isto. Enfim, toda uma exigência de um saco próprio com as características exigidas – o saco artístico industrial que cobrirá todas as exigências.


Estes irão servir para tudo. Saiem da fábrica em filme técnico, que são umas folhas de plástico bem compridas e largas, que depois, nas fábricas que possuem as máquinas necessárias as vão fechando já com o produto dentro e pronto a seguir para o mercado.


Encontrámos um exemplo deste sistema na fábrica de arroz de Ernesto Morgado, no Alqueidão.


Resumindo: a IERAX produz sacos artísticos e industriais, para uso comercial, e embalagens para fins industriais e agrícolas, quer para consumo interno, quer externo.


Aqueles nossos conhecidos sacos das compras são aqui feitos.


Se seguirmos a linha de produção constatamos que se trabalha principalmente em polietilenos de alta e baixa densidade, que já são produzidos em Portugal pela CNP (Companhia Nacional de Petroquímicos, EP). Depois da entrada deste produto na fábrica, segue para a extrusão, que é a fusão das resinas (polietilenos). Nesta operação as resinas são transformadas em “mangas” e filmes de diversas espessuras, aptos para os fins a que se destinam. Segue-se a impressão, o corte, soldagem e rebobinagem (esta no caso de filmes técnicos).


Produzem cem toneladas mensais. A exportação apenas tem expressão na que provém de valores acrescentados e que a empresa considera exportação indirecta, isto é, produzem-se embalagens para produtos agrícolas, do mar e têxteis, entre outros, que depois são exportados. Consequentemente, o plástico também o é.


A situação económica? Enfim, a crise portuguesa reflecte-se nas empresas. No entanto, os ordenados, caixas, impostos e afins, encontram-se em dia. No dizer do administrador da IERAX as dificuldades provém da própria CNP, que em dificuldade dificulta todas as outras empresas. É que a inflação atinge os 300 por cento. Não sendo da ordem dos 28-30 por cento como por aí tentam fazer crer.


A maioria do pessoal pertence a Tavarede, exceptuando algum pessoal especializado, que vem de fora. Orgulham-se de nunca terem sofrido nenhuma greve ou paralização laboral e consideram-se bem vistos pela população local, para a qual nunca faltam com donativos para as suas beneficências. Acompanham sempre os contratos colectivos de trabalho, não dando azo a reinvindicações.


A empresa IERAX possui ainda um gabinete de desenho, uma secção fotográfica para trabalhos a cores e artes finais e possui fabrico próprio de clichés de fotopolímeros. Os escritórios são computadorizados, possuindo uns vastos arquivos extraordinariamente bem organizados prontos a acudir rapidamente a qualquer solicitação.
Vejam bem: em terrenos, maquinaria e computadores, estão ali quase um quarto de um milhão de contos, isto aos preços de alguns anos atrás! É obra!


A nossa obra, de entrevistar e visitar todo aquele vasto complexo, chegou ao fim. Saímos satisfeitos. Constatámos, mais uma vez que a indústria, no nosso concelho, não se encontra inerte.


(A Voz da Figueira - 3 Maio 1984)

sábado, 2 de abril de 2011

CASA SALGUEIRO - 100 ANOS




Não posso dizer que seja um caso de Tavarede. No entanto, sendo um estabelecimento comercial da Figueira da Foz, pertença de familiares tavaredenses, não podia deixar de aqui referir o facto desta casa de fazendas e atoalhados, comemorar ontem, dia 1 de Abril, o seu centésimo aniversário da sua fundação.


Não foram tavaredenses os seus fundadores. Mas eram da nossa terra os dois irmãos que, sendo empregados da casa, adquiriram o estabelecimento, quando do falecimento do seu fundador, José Antunes Salgueiro.


É, sem dúvida, caso raro na Figueira. Igualmente raro, mesmo raríssimo, o facto de um dos irmãos, José da Silva Cordeiro Júnior, começar a trabalhar da casa com 11 anos de idade, tendo falecido recentemente (30 de Dezembro do ano passado) com a idade de 88 anos. 77 anos de uma vida inteiramente dedicada ao mesmo estabelecimento, como empregado e como patrão.



Seu irmão, Raul da Silva Cordeiro, embora menos tempo, também ali trabalhou durante várias décadas.


Ao deixarmos aqui expressos os nossos parabéns e votos de que continue por muitos e bons anos, sob a gerência actual das herdeiros, Otília Maria e Cristina Maria, também queremos lembrar um caso curioso: tendo em conta a sua dedicação à nossa terra e às suas coletividades, aquele estabelecimento era conhecido como a sucursal na Figueira da Sociedade de Instrução Tavaredense.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Até Deus querer, senhor Administrador!


Senhor Administrador!!! Era o meu cumprimento diário. Durante tantos anos...

Há muito que estou habituado a sair de casa, por volta das 9 horas da manhã, ir beber o cafézito (a indispensável bica) à Santa Maria e, logo a seguir, visita à Casa Salgueiro. Cumprimentava o primo Zé Cordeiro, a Lita e a Sílvia. Era o costumado "Bom dia, senhor Administrador! Então de que se queixa?". Ele encolhia os ombros e eu completava "De nada, graças a Deus!".

Quando, por qualquer motivo eu não aparecia por lá da parte da manhã, ficavam em cuidados e telefonavam a saber se havia algum problema... Já era um hábito velho.

Pois o senhor Administrador, o meu primo Zé Cordeiro, partiu agora para a tal viagem para a qual todos nós temos bilhete reservado. É curioso: era o mais velho de três irmãos e foi o último a partir. Tinha 88 anos, completados no passado mês de Setembro.

Era um homem extraordinário. Bom e educado, estava sempre receptivo para com todos, amigos ou simples conhecidos. A Sociedade de Instrução Tavaredense era uma das suas paixões. Aliás, o Zé Cordeiro vivia para a Família, para a sua loja e para a colectividade. Foi um grande colaborador de mestre José Ribeiro. '... Em Tavarede, naquele tempo, ainda não havia automóveis e, então, lá ia o Zé Cordeiro levar a Violinda, na vespa, a sua casa na Rua da Fonte. Já os amadores tinham regressado a suas casas depois do ensaio, e só eu e José Ribeiro e a Violinda, à minha espera para a ir levar... Algumas vezes aconteceu com uma outra amadora, por sinal muito boa a representar, a Inês, que vivia no Casal da Robala, ser acompanhada a casa, a pé, por José Ribeiro. Eu ia à Figueira levar a Violinda e depois regressava pelo caminho do Casal da Robala, ao encontro do Mestre. para o trazer de volta para sua casa. Vezes sem conta isso aconteceu...". Este retalho faz parte do depoimento que escreveu para o livro do Centenário da SIT. É suficiente para mostrar a sua dedicação àquela casa.

Chegou, agora, a sua hora. Deixa imensas saudades. Que descanse em paz, é o que sinceramente deseja este velho primo, companheiro e amigo.
A fotografia acima terá sido a última que tirou. Foi no seu estabelecimento, na Casa Salgueiro.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

NATAL


A todos os meus Amigos Leitores, suas Famílias e para todos os Tavaredenses, em geral, e figueirenses, desejo que passem com a maior Paz e Tranquilidade a quadra Natalícia que nos está a chegar.

Igualmente aproveito para desejar um Novo Ano de 2011 bastante melhor do que este que está a terminar.

Saúde para todos e, aproveitando a oportunidade, agradeço o me terem acompanhado nestas minhas histórias sobre a minha Terra, Tavarede, terra do limonete, e, em especial, sobre a vida das nossas Colectividades e aqueles que, embora já tenham partido, nos deixaram o exemplo da sua vida dedicada à sua terra.

Boas Festas para todos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

CANTIGAS DE TAVAREDE

Que me seja perdoada esta pequena vaidade, mas não se pode ignorar o êxito que o coral 'CANTIGAS DE TAVAREDE' alcançou, ontem, em Beja, na sua apresentação no teatro 'Pax Júlia', numa iniciativa que o INATEL levou a efeito.


Já tinha sido muito bom a classificação anteriormente alcançada em Seia, ficando apurado com representante dos grupos corais da zona centro do País. Mas, havendo só um primeiro prémio (que, segundo informações colhidas foi muito bem atribuído), não deixa de ser muito satisfatório e honroso para a nossa terra, levar o júri a atribuir uma 'menção honrosa' especial ao nosso Coral, pela sua originalidade, categoria e a alegria apresentada, atributos que, já anteriormente, pessoas altamente classificadas, classificaram o nosso Coral como UNICO no género.

Merecem, pois, parabéns todos os componentes, o dedicado e competente Maestro João Cascão, a Sociedade de Instrução Tavaredense e Tavarede.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CANTIGAS DE TAVAREDE


Sob o título 'CANTARES DE TAVAREDE ESTÃO CADA VEZ MELHOR' o Diário de Coimbra de 20 do mês corrente, noticiando mais uma edição dos 'Serões do Mondego', que, numa feliz iniciativa do Casino e da Associação das Colectividades do Concelho, têm sido efectuados no Salão Café do Casino da Figueira.
Estes 'serões' têm a colaboração das colectividades concelhias, que têm a oportunidade de apresentar naquela sala o melhor das suas actividades. Sempre fui colaborador e adepto do Associativismo. E o nosso concelho, nesse campo, dá cartas a qualquer outro. Felizmente.
Mas voltando àquela notícia, ficámos imensamente satisfeitos com a referência feita ao grupo coral da Sociedade de Instrução Tavaredense. E vamos aqui transcrevê-la: '... Se o concerto da Filarmónica Verridense, dirigido pelo maestro Duarte Garcia, constituíu uma surpresa agradável, a presença em palco dos "Cantares de Tavarede" sob a mestria de João Cascão, encantaram e encheram o público de alegria com temas teatrais conhecidos de muitos, com destaque para o guarda-roupa vistoso de todo o grupo. É bem visível que de espectáculo para espectáculo, o grupo está cada vez melhor".


Como tavaredense, sempre orgulhoso da Terra do Limonete, saúdo todos e todas os/as participantes no Grupo e o seu maestro, o nosso amigo João Cascão. E desejo, como certamente todos os meus conterrâneos, que continuem com o melhor ânimo.


domingo, 17 de outubro de 2010

CAPELA DO S. PAIO

Constou, há dias, que tinham assaltado a casa dos Monteiros, no Prazo, e vandalizado a capela do S. Paio. Teria sido um acto de puro vandalismo.

Esta semana, para esclarecer o caso, desci o caminho que desce da rua dos Pejeiros até ao vale, onde tem ligação com a estrada do Saltadouro. É um caminho impossível, diga-se desde já. Só de tractor ou à pé, que foi o que fiz. Mas a idade não perdoa e as 'dobradiças' queixaram-se bastante durante a subida que tive de fazer no regresso.
Mas, felizmente, tive uma boa compensação. A capela está intacta, pelo que parece ter sido rebate falso. Para confirmar publico fotos que tirei. A propósito, também publico mais duas fotos que vão destinadas ao Brasil, a quem peço o favor de as identificar.



































quarta-feira, 30 de junho de 2010

João Carlos Oliveira Santos


João Carlos


Chegou a tua hora. Foi agora a tua vez de partir. Um a um, aquele grupo de crianças amigas que viviam nas proximidades da Sociedade de Instrução Tavaredense, vão desaparecendo. É pena, mas a vida é mesmo assim.

Recordo, com que imensa ternura, aqueles bocados da nossa meninice, em que brincávamos todos juntos. Tu moravas com os teus avós, na casa da SIT, com a entrada junto ao terreno onde jogávamos à bola (de trapos), e onde mais tarde fizeram um campo de basquete e, já recentemente, um pavilhão gimnodesportivo.

Quando o tempo não permitia brincadeiras na rua, juntávamo-nos naquele quartito, logo à entrada e do lado esquerdo, onde estava guardada, entre muitas bugigangas, uma velha máquina de projectar. E também lá havia umas bobines de filmes, bem antigos. Tu eras muito habilidoso e conseguias pôr a velha máquina a projectar aqueles filmes. O écran era a parede.

Lá havia, ainda, uma velha grafonola, daquelas que era preciso dar à manivela para trabalhar, e alguns discos. Tu lá conseguias arranjar música. Para dar ambiente às nossas sessões cinematográficas...

Uma vez, a SIT realizou um baile de passagem do ano. Ainda era a casa antiga. Uma janela que do palco dava para a rua, tinha sido tapada com papel de cenário. Quando tocaram as doze badaladas, uma criança, vestida como um 'S. João', rompe o papel e salta da janela para o palco. Eras tu, que figuravas o Novo Ano acabado de entrar...

Fizémos parte do grupo cénico. Uma vez, por um Carnaval, o Mestre José Ribeiro ensaiou-nos aos dois para representarmos 'As Comadres' do Sonho do Cavador. Nunca me esqueceu. Eu, com o pote da água à cabeça e de chinelas e tu com o molho da lenha... Quando recordo tudo isto não posso deixar de me comover. Mas a verdade é que, a pouco e pouco, aquele grupinho brincalhão vai desaparecendo para sempre...

Como habilidoso que eras seguiste a música. Além de bom executante, o que não admira pois teu Pai havia sido músico da Orquestra Ginásio e foi o último regente da célebre tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, também foste compositor. Tinhas talento.

Mas agora, e depois de, infelizmente, longo período de sofrimento, partiste e não mais regressas. Os teus amigos e companheiros da actual tuna de Tavarede vão sentir a tua falta. Paciência, é a lei da vida.

Até sempre, João Carlos.

domingo, 13 de junho de 2010

A Escola dos Quatro Caminhos

Há poucos dias fui à Escola Primária dos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro conversar com alguns alunos sobre o teatro em Tavarede e outros assuntos que ocorriam de momento.

Está quase a fazer 68 anos em que eu, pela primeira vez, entrei naquela Escola para frequentar a instrução primária. Mas, exteriormente, embora tenham sido feitas algumas alterações, o edifício está absolutamente reconhecível. Interiormente é que não. Está muito diferente, para melhor, naturalmente.

No fim da conversa houve algumas perguntas. Entre elas achei deveras curiosa a seguinte: "Para si, qual é a melhor época da história de Tavarede?". Não tive qualquer dúvida na resposta. "Para mim, a época que é mais interessante de estudar e conhecer, é a década de 1920 a 1930".

É claro que para muitos tavaredenses aquela década pouco ou nada diga. Têm as suas razões, assim como eu tenho as minhas. Mas, vejamos os motivos que me levaram a escolher aquele período.

E começo pelo associativismo. A Sociedade de Instrução Tavaredense, depois do regresso de Mestre José Ribeiro do serviço militar, iniciava um percurso extraordinário. Além da reposição e estreia de algumas operetas, começou, em 1925, a representar peças escritas propositadamente para o seu grupo cénico, versando os temas da história, dos costumes e dos usos e tradições, com a peça "Em busca da Lúcia-Lima", de Gaspar de Lemos, a que se seguiram "Pátria Livre", "Grão Ducado de Tavarede" (já com a colaboração no texto de José Ribeiro), "Retalhos e Fitas" e dois grandes êxitos que ainda hoje são recordados "O Sonho do Cavador", em 1928, e "A Cigarra e a Formiga", em 1929. Destas peças, todas elas com música do saudoso maestro amador António Maria de Oliveira Simões, são agora recordadas, felizmente, pelo grupo coral "Cantigas de Tavarede", daquela colectividade, muitas das canções que, quando escutadas pelos mais saudosistas, sempre lhes trazem, ao canto do olho, algumas lágrimas saudosas.

A outra colectividade, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, teve o seu períodio áureo naquela época. O seu grupo dramático, onde estava integrada a enorme e talentosa amadora Violinda Medina e Silva, dirigido, então, por Vicente Ferreira e, entre mais alguns, por Raul Martins, conheceu enormes triunfos, com a representação de dramas, comédias e operetas, a maior parte também escritas propositadamente por este grupo cénico. Outra actividade da colectividade foi a música. A sua tuna, considerada a mais bem organizada deste concelho, obteve constantes êxitos
nas terras para onde era convidada a actuar. É desta época, depois de uma actuação em Martingança, que a tuna do Grupo Musical entregou, no Mosteiro da Batalha, uma placa de homenagem ao Soldado Desconhecido e que ainda lá existe.

Também em 1921 foi fundado o Grupo Musical Carritense, que manteve, durante muitos anos, uma tuna que igualmente teve muita fama, e um grupo de teatro, ainda em actividade.

No desporto recordamos o Atlético Clube Tavaredense, o Sportzinhos Futebol Clube e o Tavarede Futebol Clube. Embora modestas, exerceram a sua actividade desportiva durante vários anos e não só no futebol.

Política e religiosamente, também foi um período extraordinariamente importante para Tavarede. O movimento do 28 de Maio de 1926, e a posterior implantação do chamado Estado Novo, de Salazar, foi movimento de enormes desavenças na nossa terra. Coincidiu com a morte do padre Vicente e a vinda, para paroquiar Tavarede, do padre José Martins da Cruz Dinis. As questões emergentes daquele movimento foram muitas. O conservadorismo que o padre Dinis quis fazer renascer, o liberalismo e o republicanismo da maioria dos tavaredenses foram motivo de duras lutas, especialmente em várias polémicas travadas nos jornais figueirenses.



Claro que muitos outros assuntos, vividos naqueles conturbados anos, são aliciantes para um estudo mais detalhado. Para mim, naturalmente.

Mas foi, principalmente, o associativismo, a política e a religião os temas que me levaram a considerar a década de 1920 a 1930 como a mais aliciante da história da minha terra natal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Novas e velhas notas de Tavarede

Peço desculpa aos meus possíveis visitantes mas, devido a um problema verificado com o disco do meu computador, teve o mesmo de ser substituido e ainda estão a ver se conseguem a recuperação do que lá tinha, tanto de textos como de fotografias.
Terei, agora, de ter algum tempo e disposição para fazer uma busca nos meus CD, DVD e pen's para reconstituir alguns trabalhos.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Rui Monteiro de Sousa

A Junta de Freguesia de Tavarede vai levar a efeito, nos próximos dias 29 e 30 do corrente mês de Maio, uma exposição de "Artesanato em madeira", sob o nome de "A VIDA FEITA PELA PONTA DE UMA NAVALHA".

É autor dos trabalhos a expôr o nosso conterrâneo e amigo Rui Monteiro de Sousa. Colega de trabalho durante dezenas de anos, nunca me passou pela cabeça que o Rui tivesse tal dom para trabalhar bocados de madeira, com a ponta do seu canivete. Já tinha visto alguns trabalhos seus, no Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro, na Sociedade de Instrução Tavaredense e numa montra de um estabelecimento na Rua da República. Mas, segundo o folheto distribuido, o Rui vai apresentar novos trabalhos e, pela amostra, serão dignos da maior admiração.


Se a Junta de Freguesia de Tavarede merece parabéns pela iniciativa, não podemos deixar de louvar o trabalho, a dedicação e a arte do nosso amigo Rui.


Permito-me aqui apresentar alguns dos trabalhos a expôr para que possam ser admirados por aqueles que costumam dar uma vista de olhos por este blogue.


Os pais do Rui Monteiro de Sousa tinham umas terras no vale de Sampaio, que amanhavam carinhosamente. Praticamente todos os dias lá iam os pais (Benjamim e Isabel), acompanhados pelos filhos, tratar dos amanhos necessários. O trabalho acima é uma visão estilizada daquela zona pelo Rui. Ao centro lá está a capela do S. Paio, à direita a casa da srª Aurora (tia), e à esquerda o pequeno edifício da entrada da mina da captação das águas para fornecimento à Figueira. Em baixo, ao centro, é a velha azenha, defronte da bica, com a caleira aérea que transportava a água que fazia movimentar a roda. Até a pequena casa de arrumações não foi esquecida.
Durante muitos anos o Rui foi músico do Rancho Etnográfico Os Cavadores do Saltadouro, do Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro. É de apreciar os pares dançando. O colorido é muito bom e dá grande realce aos bonecos.


O Rui também foi remador da Naval 1º. de Maio. E reproduziu um barco com a sua tripulação de remadores.


Como músico que foi, alguns dos seus companheiros mereceram a sua homenagem. Este boneco estilizado, representa o saudoso amigo António de Sousa 'Bichão', falecido já há alguns anos e que foi grande compositor e excelente intérprete musical, grande amigo da nossa terra, em cuja 'tuna' participou muito tempo.

Nesta fotografia da 'tuna' de Tavarede, vimos, em primeiro plano, à esquerda, o António Bichão, e, lá atrás, tocando bombo, o Rui de Sousa.

Termino estes breves apontamentos com uma fotografia do saudoso 'Lúcia-Lima-Jazz', de que o Rui Monteiro de Sousa fez parte. Aqui, tocava rabecão. O Helder (terceiro da esquerda) e o Rui (primeiro à direita), são os sobreviventes. Que o sejam por muitos e bons anos. E muitos parabéns ao Rui e que continue a dar que fazer ao seu canivete para nos recordar mais alguns pedaços da nossa terra.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Toquins - Família Migueis Fadigas

É, talvez, a família mais característica da terra do limonete.
Não sabemos a origem da alcunha por que ficaram e são conhecidos em Tavarede.
Na fantasia Chá de Limonete, José Ribeiro dedicou-lhe um quadro. “… Há aí uma família que realmente é já uma tradição local, uma dinastia heróica nestes tempos do automóvel e do avião. Uma dinastia valente, corajosa, que trabalha sem desânimo e resiste ao tempo e ao progresso: a grande e laboriosa dinastia dos Toquins!”.
Era uma família de lavradores. Além de amanharem as suas terras, trabalhavam para outros com as suas juntas de bois, nas lavras para as sementeiras.
Manhã cedo, iam com seus carros de bois para a estação de caminho de ferro, para fazerem a distribuição das mercadorias chegadas nos comboios. Também já acabou esta tradição em Tavarede.


Caderno: Tavaredenses com história

Como acima se refere, esta família, grande e laboriosa, deixou uma enorme 'história' na Tavarede dos meus tempos de criança e anteriores. Principalmente, eram lavradores e trabalhadores na agricultura. Os seus descendentes, felizmente ainda são muitos, e embora não se dediquem à actividade dos seus avós e pais, são, nas actividades que exercem, trabalhadores e honrados como o foram os seus antepassados.

É verdade que Tavarede já não é uma terra de agricultores. Mas, hoje, vou recordar esta Família, publicando duas fotografias actuais que mostram bem o abandono que presentemente as terras, todas cultivadas antigamente, agora se encontram.

Uma delas é da antiga eira da Família Migueis Fadigas, perto do cemitério. Recorda-nos de ali ver, por ocasião das ceifas, as récuas de cavalos e éguas, contratadas na Quinta de Foja, salvo erro, e que, volteando naquela eira, faziam a debulha do trigo, centeio e outros cereais.

Também me lembro de algumas vezes em que a debulha era feita manualmente, com os velhos manguais. Esta Família tinha uma velha tradição: iam à festa de S. Tomé, na Ferreira, com os carros de bois enfeitados com colchas e verduras, onde a família pernoitava na noite da festa. No regresso, quando chegavam a Tavarede, percorriam a aldeia, do Rio ao Paço, com a alegria da tradição cumprida, e com os bois chocalhando alegremente os guizos pendurados no cachaço.

Agora já não há bois a lavrarem as terras, cavalos a calcarem os cereais para os descascar, nem os transportes pachorrentos na Figueira, nem as peregrinações ao S. Tomé.

Mas, julgo que é sempre interessante recordar estas 'histórias'.

Carreiro - ‘Stá o Toquim no seu posto,
Na mão a vara do mando,
Falador e bem disposto,
Seu carro de bois guiando.

Eixe, Cabano!
Vá p’ra diente...
Asta, Castanho...
Ah! boi valente (bis o coro)

Vão os Toquins p’rá Figueira
De inverno como de v’rão,
E por lá ganham o pão
No serviço da ribeira...

Coro - Mas p’ra lavrar terra sua
E também a terra alheia,
São lavradores de mão cheia
Que pegam bem na charrua!

Carreiro - Eixe, Cabano!
etc. etc. etc.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Vitalina Gaspar Lontro

Recordei, ainda não há muito tempo, a minha estreia como amador teatral, pelo Natal de 1949.

Fazia o papel de minha mãe a Vitalina. Faleceu ontem, 20 de Fevereiro e foi hoje a sepultar no cemitério da sua e nossa terra: Tavarede.


Como todas as raparigas e rapazes dos anos 20, 30, etc., fez parte do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, fazendo a sua estreia em 1936, na peça 'Canção do Berço', com o papel de Sóror Maria de Jesus. Ainda no mesmo ano representou na reposição de 'O Sonho do Cavador'.

A partir de então e até 1955, muitas foram as peças em que interveio. A Morgadinha de Valflor, Entre Giestas, Recompensa, Envelhecer, O Grande Industrial, Horizonte, Génio Alegre, Raça, Pé de Vento, Serão Homens Amanhã, Ana Maria (que foi a última, em 1955), passando por muitas outras, como comédias, autos de Gil Vicente, etc.

Na primeira série do 'Chá de Limonete' fez os papéis de Chá, Sebastiana Luiz, A mulher da gamela, etc.
Em 1952 os amadores tavaredenses foram a Leiria apresentar a peça 'Raça'. Eis a nota que o crítico Miguel Franco, escreveu sobre a Vitalina: "D. Vitalina Lontro, curiosa na 'Viscondessa': duma comicidade, às vezes hesitante, mas sempre sóbria, elegante até. Merece felicitações especiais por ter conseguido dominar o quantas vezes indomável: o 'fácil' da figura, e ainda por outros motivos que se prendem com a estrutura da sua personagem e a maneira como foi compreendida, quando teria sido tão natural interpretá-la de modo diverso'.


Em 1994, comemorando os 100 anos do nascimento de Mestre José Ribeiro, a nossa conterrânea Ana Maria Caetano escreveu 'Palavras de uma Vida', na qual a Vitalina Lontro regressou ao palco da SIT para interpretar o papel dela própria, num acontecimento a que assistiu, aquando da prisão de Mestre José Ribeiro, quando ia com ela, a pé, para Tavarede, depois de um dia de trabalho.

A Sociedade de Instrução Tavaredense concedeu-lhe o diploma de Sócia Honorária em 1946.

Emigrante durante vários anos, regressou definitivamente à sua terra natal, onde viveu até agora. Que descanse em paz esta nossa conterrânea que agora nos deixou.
É muito interessante o seu depoimento publicado no livro do Centenário da SIT.
Fotos: 1 - Auto da Barca do Inferno "Anjo"; 2 - Chá de Limonete "O Forno da Poia" (segunda da direita); 3 - Em Tomar, nos anos 40 (primeira da direita)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

João Rodrigues Medina

O meu primo João Medina é um dos mais antigos amadores do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense ainda vivos, felizmente. Embora retirado do palco, a última vez que representou foi na peça "Marcha do Centenário", em 2004, onde reviveu o papel do 'pai Malafaia, que já havia representado, trinta anos antes, ao lado da inesquecível Violinda Medina.


Começou a representar no ano de 1948, julgo que num espectáculo intitulado 'Noite de Teatro Português', como participante na peça 'Entre Giestas'. A partir de então nunca mais parou. Pelos meus apontamentos (falíveis) representou 108 personagens, nalgumas dezenas de peças.

Será dificil, mesmo para ele, destacar quais as suas melhores e mais bem sucedidas criações. "... Naqueles tempos já distantes (em 1948), era normal os rapazes e as raparigas da minha idade começarem a fazer parte dos elencos teatrais da SIT. Coneçávamos como meros figurantes, cantávamos nos coros, numa ou noutra peça, e conforme o jeito que Mestre José Ribeiro descobria em nós, lá nos dava um pequenino papel, com meia dúzia de falas... Era o rastilho! Começávamos a sentir a responsabilidade de pisar o palco, de representar ao lado daquele extraordinário grupo que, durante tantos anos, formaram um conjunto bem raro em grupos de amadores, e com eles aprendemos a falar, a gesticular e, sobretudo, a ouvir. Era uma honra para nós, rapaziada ainda quase imberbe, estar no mesmo palco em que estavam Violinda Medina, minha saudosa prima, Maria Teresa de Oliveira, João Cascão, António Graça, Fernando Reis, António Jorge, João de Oliveira Júnior e tantos mais. Que me desculpe a memória dos muitos outros que não recordo, mas foram muitos, foram muitos, elas e eles, que acompanhei ao longo de toda a minha carreira teatral e que, com o seu exemplo, tanto me ensinaram, sempre com a melhor amizade e boa vontade...". (retirado do depoimento que escreveu para o livro do centenário da SIT).


Mestre José Ribeiro encontrou no João Medina uma verdadeira aptidão para papéis de composição. Seria hereditário... Mestre José Ribeiro já havia ensaiado seu avô, José Medina, de quem referiu ser "um amador dotado de excepcionais faculdades histriónicas, cómico de grande naturalidade e que no drama se impunha pelo vigor e verdade da sua representação". Tinha a quem sair, não haja dúvidas. Aliás, e da sua família, muitas e muitos foram os amadores que se distinguiram na representação teatral. Temos o exemplo de seu irmão, José, que ainda hoje é dos principais elementos daquele grupo cénico.


No ano de 1998, comemorando os seus 50 anos de actividade teatral, a Sociedade de Instrução Tavaredense prestou-lhe uma justíssima homenagem. Eis um breve comentário da imprensa figueirense: "Podemos dizer que o ponto alto da sessão solene do 94o aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, (ocorrida na tarde do dia 21) foi atingido com a homenagem a um dos seus mais dedicados amadores a pisar palco, sem desfalecimentos, vai para 50 anos: João Medina, o barbeiro-artista da terra do limonete.
Efectivamente, a emoção do momento contagiou tudo e todos, e o próprio amador não resistiu a ela, deixando brotar ao canto do olho a lágrima de quem vive e sente a arte de Talma com aquela humildade que lhe conhecemos... ... Posteriormente, a directora cénica Ilda Simões, disse algumas palavras sobre a récita apresentada anteriormente, assim como sobre o grande amador teatral, João Medina, distinguido nesta sessão.

Também o Lion Clube da Figueira da Foz lhe prestou homenagem: "... Assim, o que era, tradicionalmente, um circunspecto acto transformou-se numa festa em honra do teatro e da solidariedade, com diversas gerações a marcarem consoladora presença, não regateando aplausos tanto aos que serviram sob a bandeira de modestas colectividades como aos que se guindaram aos pináculos da fama, como é o caso de Eunice Muñoz e Rui de Carvalho.
E foi assim que Jorge Bracourt (Caras Direitas), João Medina (Sociedade de Instrução Tavaredense) e Alfredo Cardoso (Troupe Recreativa Brenhense) puderam constatar que não foi em vão que se dedicaram de alma e coração à mais humana das formas de arte, quando tiveram a honra de receber as Medalhas de Mérito com que foram agraciados pela Câmara, das mãos de Eunice…., sem qualquer vislumbre de representação, encheram de emoção e beleza a sala do Casino na forma como se identificaram como “amadores teatrais”.

Muito mais haveria a contar sobre este excepcional amador dramático. Mas, hoje, ficamos por aqui. Recordamos somente um pequenino apontamento escrito sobre a sessão solene em que foi homenageado pela SIT:

"Para exaltar o amor que há 50 anos João Medina dedica ao teatro e aproveitar o sucesso da sua interpretação modelar em “A Forja” representada na véspera (30 anos depois de a ter representado pela mão dessa saudade, sempre presente que foi Mestre José Ribeiro) para lhe prestar comovente homenagem bem expressa na “placa de prata” da SIT a que a Junta de Freguesia se associou com uma “salva de prata” e os familiares com um quadro alusivo à sua passagem pelo palco, a drª Ilda Manuela aproveitou a oportunidade – saudada de pé pelo público ao som do hino da colectividade pela Tuna – para transmitir aquele nobre exemplo aos muitos acomodados que hoje põem em risco a continuidade do teatro em Tavarede com o seu alheamento e críticas".

E mais um retalho sobre a homenagem do Lions de Santa Catarina:

" João Medina –cidadão figueirense/99 – Celso Morais, responsável pela direcção da sessão, deu então conhecimento da escolha de João Medina, essa dedicação de meio século à causa do teatro, para a distinção de Cidadão Figueirense/99 com que o Clube honra, anualmente, aqueles que se evidenciam na nossa comunidade, traçando o percurso daquele “homem que trata o teatro por tu” e fez do palco da S.I.Tavaredense “a universidade da sua vida”, em que representou mais de sessenta peças.
E foi com indisfarçável emoção que João Medina recebeu a “Placa de Cidadão Figueirense” afirmando no acto de agradecê-la que “eu é que muito devo ao teatro, o teatro nada me deve!”. E depois de associar à homenagem a figura inesquecível de Mestre José Ribeiro, disse ainda que “o teatro tem sido a razão da minha vida”, razão por que “gostaria de continuar a representar até ao fim da vida”, deixando como desabafo aos presentes que “o teatro é uma mensagem de amor!”.
Associando-se à homenagem o grupo cénico de Tavarede representou, no intervalo do jantar, excertos de peças onde João Medina havia alcançado grandes êxitos – Frei Luís de Sousa, A Forja, e uma comédia – numa actuação brilhante a constituir momento alto da sessão
.".
Fotos: 1 - No papel de Velho da Horta; 2 - Com José Luís do Nascimento, durante a homenagem prestada a estes amadores; 3 - A ser caracterizado por Mestre José Ribeiro, para uma peça de Shakespeare; 4 - Com seu irmão José, protagonistas da peça 'Monserrate'.