Talvez haja algum interessado na lista que segue. Estão referidas todas as peças que, desde a sua fundação em Janeiro de 1904, o grupo cénico apresentou no seu palco e em variadíssimos palcos por esse País fora. É, unicamente, uma recordação do teatro apresentado pela colectividade durante cem anos de vida. Acrescento que totalizaram mais de 1450 espectáculos.
1904
Os Medrosos
Páscoa e Quaresma
Livrem-se Lá Desta!
1905
O Casamento da Grã-Duquesa
Dois Estudantes no Prego
Milagre de Santo António
Vida Airada
1906
Gaspar, o Serralheiro
O Rei Ló-Ló
1907
O Rei Ló-Ló
João, Corta-mar
Cabo de Ordens
1908
Espadelada
Influências Eleitorais
A Hospedaria do Tio Bonifácio
Olaré Quem Brinca
1909
Escravatura Branca
Influências Eleitorais
A Hospedaria do Tio Bonifácio
Malditas Letras
Zé d’Alhada
Milagre de Santo António
A Baronesa dos Dentes
Amor Maternal
Não é o Mel...
1910
Raros são... mas ainda os há
As Lutas Civis
O Tio Mateus
O Cornetim do meu Vizinho
Valente a Fingir
O Ressuscitado
A Filha do Saltimbanco
Como o Diabo as tece...
1911
Martírios e Rosas
Cada Doido...
Por Causa do Badalo!
Jocelyn, o pescador de baleias
Um Rapaz distraído
A Tomada da Bastilha
O Judeu
Casa de Babel
1912
A Tomada da Bastilha
Casa de Babel
Na Terra do Limonete
As Birras do Papá
O Judeu
A Mãe dos Escravos
Morte de Galo
D. Ferrabrás d’Alexandria
Ora esta...
1913
João José
D. Ferrabrás d’Alexandria
Uma Situação Complicada
Dona Várzea
Os Amores de Mariana
1914
Expediente de Sogra
Os Amores do Coronel
Os Amores de Mariana
Amanhã
Preciosidades de Família
O Voluntário de Cuba
Tire dali a Menina
Morte de Galo
Falsa Adúltera
1915
A Pupila do Corregedor
A Madrinha do Carlos
D. Ferrabrás d’Alexandria
Amor de Perdição
Os Amores de Mariana
O Cão e o Gato
Os Trinta Botões
1916
Entre Duas Avé-Marias
Expediente de Sogra
Os Trinta Botões
O Telefone
Patos Bravos
O Tio Mateus
O Gabinete do Sr. Regedor
O Presépio
1917
Os Milagres de Santo António
Os Amores do Coronel
Estudantes no Prego
Um Julgamento no Samouco
A Vida Airada
A Ceia Amargurada
1918
Honra e Dever
Um Julgamento no Samouco
1919
Um Servo Perigoso
Cada Doido...
Um Julgamento no Samouco
Entre Duas Avé-Marias
1920
Nono: Não Desejarás...
Entre Duas Avé-Marias
Depois de velhos... gaiteiros
D. Ferrabrás d’Alexandria
Os Amores de Mariana
O Grande Hotel de Sarilhos
1921
A Espadelada
Zázá
O Grande Hotel de Sarilhos
Um quarto de hora em Rilhafoles
Depois de velhos... gaiteiros
Loucuras de Amor
Uma Revolução
Sexta feita... e 13
1922
A Morte do Tibúrcio
O casamento do “Descasca-Milho”
Nono: não desejarás
1923
Rosas de Nossa Senhora
Os Amores de Mariana
1924
Máscara Verde
Sol de Ouro
Quem procura sempre alcança
Atribulações dum estudante
O casamento do “Descasca-Milho”
Amor tudo vence
O Genro do Caetano
Um casamento em Branc’Annes
Os Amores de Mariana
Noite de S. João
1925
Entre Duas Avé-Marias
Ninguém diga...
O casamento do filho do Vaqueiro
Em busca da Lúcia-Lima
Sol de Ouro
Um casamento em Branc’Annes
Os Mentirosos
Rosas de Nossa Senhora
1926
Má Sina
Os Mentirosos
Pátria Livre
Sol de Ouro
Ressonar sem dormir
Atribulações dum estudante
AMO
Noite de S. João
A porta falsa
1927
Uma Teima
Marido de duas mulheres
Simão, Simões & Cª
A porta falsa
Uns comem os figos...
Grão-ducado de Tavarede
Em busca da Lúcia-Lima
1928
Uma Teima
Retalhos e Fitas
Santos & Cª
D. Ferrabrás d’Alexandria
Uma Revolução
O Sonho do Cavador
1929
As duas mantas do Diabo
O Sonho do Cavador
O Grande Hotel de Sarilhos
A Cigarra e a Formiga
1930
O Caso de Consciência
Evocação
O 66
O casamento da Vasca
A Cigarra e a Formiga
O Sonho do Cavador
Noite de Agoiro
1931
Evocação
Noite de Agoiro
O 66
Luz de Alvorada
A Cigarra e a Formiga
Os Fidalgos da Casa Mourisca
1932
As Três Gerações
A Herança do 103
As Pupilas do Senhor Reitor
Os Fidalgos da Casa Mourisca
Canção do Berço
1933
Canção do Berço
As Três Gerações
Os Fidalgos da Casa Mourisca
O Senhor Roubado
A Morgadinha dos Canaviais
O 66
O Sonho do Cavador
1934
As Três Gerações
A Porta falsa
1935
O Cabelo Branco
Evocação
Justiça de Sua Majestade
A Cigarra e a Formiga
As Pupilas do Senhor Reitor
Os Fidalgos da Casa Mourisca
As Três Gerações
1936
A Cigarra e a Formiga
Canção do Berço
A Morgadinha de Valflor
As Três Gerações
O Sonho do Cavador
1937
O Sonho do Cavador
O Grande Industrial
A Morgadinha de Valflor
Justiça de Sua Majestade
1938
A Morgadinha de Valflor
Entre Giestas
Génio Alegre
1939
Génio Alegre
Entre Giestas
Recompensa
A Morgadinha de Valflor
1940
Recompensa
Sem mulher e sem dinheiro
Não subam escadas às escuras...
Génio Alegre
Entre Giestas
Envelhecer
O Presépio
1941
Envelhecer
Génio Alegre
Sonho duma Noite de Agosto
Recompensa
O Presépio
1942
Sonho duma Noite de Agosto
Génio Alegre
O Senhor Tibúrcio
A Morgadinha de Valflor
O Sonho do Cavador
Recompensa
Envelhecer
Entre Giestas
1943
Recompensa
Lá diz o ditado...
Um homem que nunca mente
Entre Giestas
Génio Alegre
A Nossa Casa
Envelhecer
1944
A Nossa Casa
O Grande Industrial
O Sonho do Cavador
Recompensa
A Morgadinha de Valflor
Entre Giestas
1945
A Morgadinha de Valflor
Horizonte
A Nossa Casa
Injustiça da Lei
1946
Génio Alegre
Injustiça da Lei
Horizonte
A Nossa Casa
Auto da Mofina Mendes
Cobardias
1947
Auto da Mofina Mendes
Cobardias
As duas bengalas
Uma teima
Os dois surdos
Noite de Teatro Português
O Natal no Teatro
1948
Oh! da Guarda... ladrões...
As duas bengalas
Não subam escadas às escuras...
O Nascimento do Messias
Noite de Teatro Português
Horizonte
1949
Todo o Mundo e Ninguém
Auto Pastoril Português
A Herança
As Três Gerações
Os dois Inseparáveis
Raça
Auto da Barca do Inferno
Uma Teima
Noite de Natal
Não mentirás
O lençol de noivado
1950
Raça
O Cão e o Gato
Pé de Vento
A Herança
As Três Gerações
Uma Teima
Chá de Limonete
1951
Pé de Vento
Na boca do lobo
Auto da Barca do Inferno
Horizonte
Chá de Limonete
Frei Luís de Sousa
1952
Horizonte
V.Exª desculpe...
Raça
Auto da Barca do Inferno
Auto da Mofina Mendes
As Três Gerações
Frei Luís de Sousa
1953
Pé de Vento
Casar por anúncio
Major!
A Inês do Castro
Cobardias
As Três Gerações
Chá de Limonete
Serão Homens Amanhã
1954
Serão Homens Amanhã
Os Medrosos
Revivendo o Passado
Comédia e Tragédia
Frei Luís de Sousa
Catão
D. Filipa de Vilhena
Um Auto de Gil Vicente
O Tio Simplício
1955
Serão Homens Amanhã
Major!
O Tio Simplício
Frei Luís de Sousa
Auto da Mofina Mendes
Entre Giestas
Israel
Ana Maria
1956
Entre Giestas
Israel
Peraltas e Sécias
Auto da Barca do Inferno
O Tio Simplício
Frei Luís de Sousa
1957
A Conspiradora
A Nossa Casa
1958
A Nossa Casa
Frei Luís de Sousa
Os Velhos
1959
Os Velhos
A Inês do Castro
As Árvores Morrem de Pé
Frei Luís de Sousa
1960
AsTrês Gerações
As Árvores Morrem de Pé
Frei Luís de Sousa
O Beijo do Infante
O Dia Seguinte
Os Velhos
1961
Terra do Limonete
1962
Terra do Limonete
O Escalda Favais
O Festim do Baltazar
A Conspiradora
1963
Farsa do Velho da Horta
Pranto de Maria Parda
Dom Duardos
O Fim do Caminho
A Conspiradora
1964
Romeu e Julieta
Uma Noite de Teatro Português
1965
Omara
Terra do Limonete
Auto da Barca do Inferno
Fragmentos Vicentinos
Auto da Feira
O Fim do Caminho
1966
Omara
Para cada um sua verdade
O Processo de Jesus
As Artimanhas de Scapino
1967
O Processo de Jesus
As Artimanhas de Scapino
Todos eram meus filhos
1968
Médico à força
Dente por dente
O Avarento
1969
O Avarento
Quem tem farelos?
Prato de Maria Parda
Chá e Terra do Limonete
Alguém terá de morrer
1970
O Tartufo
O Processo de Jesus
1971
O Tio Simplício
História... e histórias de Tavarede
A Forja
1972
Conto de Inverno
A Forja
Auto de El-Rei Seleuco
Camões e Os Lusíadas
1973
Médico à força
A Forja
1974
Auto da Barca do Inferno
Todo o Mundo e Ninguém
Pranto de Maria Parda
O último adeus
Uma teima
1975
Mesa Redonda
O jogo do amor e do acaso
1976
Monserrate
1977
Cântico da Aldeia
1978
Tudo está bem quando acaba bem
O Processo de Jesus
1979
Ontem, Hoje e Amanhã
O Processo de Jesus
1980
Rosalinda
Comédia da Vida e da Morte
1981
Ecos da Terra do Limonete
O Tartufo
1982
Viagem na nossa terra
O Fim do Caminho
1983
Manta de Retalhos
O Fim do Caminho
1984
Na Feira de Gil Vicente
D. Ferrabrás d’Alexandria
Viagem na Nossa Terra
1985
A Nossa Casa
1986
Chá de Limonete
As Artimanhas de Scapino
1987
O Sonho do Cavador
Alguém terá de morrer
1988
Horizonte
Mesa Redonda
1989
Noite de Teatro Português
1990
Os Velhos
Evocação de José Ribeiro
1991
Terra do Limonete
1992
O Avarento
1993
Tá Mar
1994
Omara
Os Amores do Coronel
Palavras de uma vida
1995
Palavras de uma vida
O Burrinho insatisfeito
É preciso dar as mãos
Estranhos amigos
O jardim do tio Ricardo
Pendurados na Lua
Raminho de Limonete
Natal Florido
1996
O Dia Seguinte
A história do pão
Lembranças
E nessa noite os animais falaram
1997
O Grilo e companhia
A Carochinha
O Livro e os Amigos
Na Feira dos Malandrecos
Um estranho no Natal
1998
A Forja
1999
O Festim do Baltazar
Recordando
A Forja
Na presença de Garrett
2000
Instantes de Teatro
Pranto de Maria Parda
O Pecado de João Agonia
2001
O Urso
O canto do Cisne
Um pedido de casamento
O meu caso
2002
O Homem, a Besta e a Virtude
É urgente o amor
Auto da Barca do Inferno
O Pranto de Maria Parda
A farsa de Inês Pereira
Auto da Visitação
A farsa do Velho da Horta
2003
Páginas arrancadas
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
José da Silva Ribeiro - 25 anos depois
1999.04.11 - A ALDEIA DO L1MONETE EVOCOU O GÉNIO DE JOSÉ RIBEIRO
A função do Teatro de Amadores, escrita pela pena brilhante do saudoso Mestre José da Silva Ribeiro, nascido, criado e sepultado na sua aldeiazinha chamada Tavarede e que alguém cognominou de "terra do limonete ", foi assim lida na cerimónia a que nos vamos reportar e que ocorreu na sede da SIT no passado dia 27:
A função do Teatro de Amadores, escrita pela pena brilhante do saudoso Mestre José da Silva Ribeiro, nascido, criado e sepultado na sua aldeiazinha chamada Tavarede e que alguém cognominou de "terra do limonete ", foi assim lida na cerimónia a que nos vamos reportar e que ocorreu na sede da SIT no passado dia 27:
O Teatro é Divertimento e Cultura. Temos por isso de considerar a sua influência no público a que se dirige como nos próprios elementos que o praticam.
O TEATRO é aquela eterna ARTE que desperta e apela para todas as faculdades da inteligência e para todos os sentimentos da alma.
Ver e compreender, interpretar, discutir, criticar, aprovar ou rejeitar, aplaudir ou censurar, aderir ou repudiar. Assim o Teatro estimula e valoriza o mais nobre sentimento do Homem, sentimento sem o qual verdadeiramente o Homem deixará de o ser: o da Dignidade da Pessoa Humana.
Na interpretação duma peça de teatro depara-se-nos aquela multidão de sentimentos e de desafios às faculdades da nossa inteligência: a alegria e a tristeza, amor e ódio, orgulho e humildade, calma e arrebatamento, tranquilidade e exaltação, firmeza e pusilanimidade, coragem e cobardia, renúncia e egoísmo. Entusiasmo, perseverança, desânimo, ansiedade, retraimento, angústia - toda a extensa gama dos sentimentos, dos conflitos e das reacções humanas.
Assim, o Teatro dá-nos enriquecimento do espírito, maleabilidade de raciocínio, alargamento de horizontes, mais amplo sentido de humana compreensão.
Constituíram a mesa as seguintes entidades: dr. Luís de Melo Biscaia, vereador do pelouro da Cultura; António Simões Baltazar, presidente da Junta de Freguesia; drª Ana Maria Caetano, palestrante oficial da sessão; drª Ilda Manuela Simões, e Manuel Gaspar Lontro, presidente da SIT.
Depois de breves palavras justificativas do presidente da SIT, a drª Ilda Simões leu uma mensagem alusiva ao dia e emanada da UNESCO.
A oradora oficial apresentou um valioso e profundo trabalho sobre o trajecto do Teatro em Tavarede (a merecer outro espaço mais dilatado nas nossas colunas, que não hoje devido à escassez do mesmo) desde o princípio do século (as salas de teatro nasciam como "tortulhos", chegando a haver mesmo seis), até aos nossos dias.
Enalteceu também o trabalho de tantos e tantos amadores que pisaram os palcos de Tavarede, destacando figuras como as de António Graça, Irmãos Broeiros, João Cascão, António Jorge da Silva, João de Oliveira Júnior, Nogueira e Silva, e, sobretudo, a grande dama do Teatro Amador Português que se chamou Violinda Medina e Silva.
A última intervenção foi a do dr. Luís de Melo Biscaia, que evocou figura de José da Silva Ribeiro e a Sociedade de Instrução Tavaredense, dada a sua actividade sempre perspectivando a elevação do nível cultural das gentes de Tavarede.
E para encerrar a sessão cultural, visionou-se um trabalho em vídeo, com extractos de entrevistas com José Ribeiro e de peças representadas no palco da SIT.
(A Voz da Figueira)
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Tavarede - histórias
Os Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro - 5
(continuação)
Em Março daquele ano, novas notícias davam conta do desenvolvimento desta cerâmica. “Para a Cerâmica e Exportadora, Limitada acaba de chegar um excelente motor Mietz de 36 HP destinado ao desenvolvimento da sua fábrica, ao Senhor da Arieira, Tavarede. É uma máquina aperfeiçoadíssima de procedência americana, fornecida pela importante firma Costa & Ribeiro, Limitada, de Lisboa, societária da Cerâmica e Exportadora, Limitada, e que pôs, neste fornecimento, como em todos de que se encarrega, os maiores escrúpulos e cuidados.
A Cerâmica e Exportadora, Limitada, que também acaba de adquirir, por compra, mais um importante barreiro não longe da sua fábrica, está imprimindo um notável desenvolvimento à montagem de instalações não só para a exploração da indústria cerâmica como de outras. Por estes dias deve vir à Figueira, a fim de visitar os terrenos da sociedade e delinear o plano das novas instalações, um conceituado engenheiro de casa Costa & Ribeiro, Limitada, que acaba de regressar duma larga viagem pelos mais importantes centros da Europa e da América, onde estudou os processos mais modernos de fabricação e o sistema de edificações mais simples e económicas que procurará adaptar, com grandes vantagens, entre nós”.
Com a vinda do mencionado engenheiro, foi delineado o plano de novas edificações e montagem de maquinismos para desenvolvimento das indústrias de cerâmica e derivados. “A fábrica ao Senhor da Arieira já hoje em nada se parece com as acanhadas instalações que ali havia há poucos anos ainda e em breve, com a realização dos planos já estudados, a Cerâmica disporá de uma fábrica com todos os recursos que permitam assegurar uma produção intensa e perfeita. Tudo indica que esta indústria vá ter, entre nós, um notável e bem necessário desenvolvimento”.
Eram muitas e bem fundamentadas as esperanças do desenvolvimento industrial daquele local. E vou agora abrir um pequeno parêntisis para justificar aqueles esperanças. Numa entrevista publicada em “A Voz da Justiça”, em Outubro de 1921, feita ao dr. Manuel Gaspar de Lemos, então vereador da Câmara Municipal, lê-se: “...A Beira Alta teria naturalmente todas as vantagens em a levar pela cidade, seguindo pela linha, ou antes, pela trajectória corrigida da actual linha dos americanos do Cabo Mondego, de preferência a levá-la por Tavarede. Você compreende, evitaria a reversão incómoda na actual estação do caminho de ferro, dispendiosas expropriações e creio que nivelamentos a que seria obrigada indo por Tavarede...........”
Mas o projecto já estava programado. “A linha, saindo da estação da Figueira por meio de uma reversão, utilizaria o vale da Várzea, ganhando cota, até atingir os quatro caminhos, na estrada da Figueira a Quiaios. Desse ponto em diante seguiria, provavelmente, o traçado da estrada de Tavarede a Buarcos, até ao entroncamento desta estrada com o caminho que prolonga a rua da Liberdade. Este ponto deve estar a uma altitude de cerca de 30 metros. Não disponho de planta, nem tenho do terreno um conhecimento suficiente, para imaginar qual seria o traçado da linha desde este ponto até ao Cabo Mondego. Mas quere-me parecer que teria de passar entre Buarcos e a Senhora da Encarnação, atingindo aí a cota de 40 metros, aproximando-se em seguida da orla marítima. O traçado pelo sul de Buarcos obriga a uma rampa muito áspera, que tornaria bastante precárias as condições de exploração. De um modo geral, pode ainda afirmar-se que este traçado por Tavarede exige obras de arte importantes e grandes movimentos de terras.
Segundo julgo, este traçado é o que tem mais adeptos na Figueira. E, não há dúvida que, para a cidade, oferece grandes vantagens, sendo a principal o deixar intacta toda a orla fluvial e marítima até bastante além de Buarcos. Com este traçado, seria de prever um rápido alargamento da cidade para os lados de Tavarede e a urbanização do vale das Abadias, onde deveria ficar instalada a estação de passageiros. Um dos defeitos que tenho visto imputar a esta solução, parece-me susceptível de ser corrigido: é o da reversão da estação da Figueira. A configuração do terreno permite perfeitamente que, a partir do entroncamento das duas linhas, da Beira e da Companhia Portuguesa, se dirija directamente uma curva de largo raio para o vale da Várzea. Bastaria, pois, remover a actual estação de passageiros para além dessa curva, despesa essa que, numa questão desta natureza, pouco pode influir. Note-se que a actual “gare” é insuficiente mesmo para o movimento de inverno; e que, se se construir um ramal ao longo da Avenida, para o serviço do porto, o acesso desta “gare” fica péssimo, por ter de cruzar esse ramal. Pelo contrário, seria fácil ligar de uma forma elegante a nova “gare” do vale da Várzea com o sistema de viação da Figueira. ..................O mais grave defeito, porém, que encontro na solução de Tavarede, é de servir mal o Bairro Novo............ Mas, independentemente deste defeito, aliás de natureza transitória, a solução de Tavarede podia ser considerada como boa para os interesses da cidade”.
E em Maio de 1922, o Inspector Geral da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, durante uma visita que fez a esta cidade, informou que, em reunião com as autoridades locais “resultou assentar-se na construção da linha férrea até ao Cabo Mondego, seguindo por Tavarede”. Não se encontrou mais nada sobre o assunto. E a linha de caminho de ferro até ao Cabo Mondego, passando por Tavarede ou por outro lado, acabou no esquecimento. Não vou especular sobre o assunto, mas ponho uma questão: se tivesse sido concretizada esta linha, facilitando assim o transporte, quer das matérias primas quer dos produtos acabados, a fábrica de cerâmica, dado o desenvolvimento que adquirira, teria acabado logo nos finais da década de 1930/1940? Ou o desenvolvimento industrial daquela área e mesmo da nossa terra não teria sido uma realidade?
É que, curiosamente, em Novembro de 1922, um edital tornou pública a informação de ter sido requerida licença, por Herculano de Matos Sarmento Beja, para pesquisas de “uma mina de ouro e outros metais”, no Alto de S. João, ali mesmo ao lado...
A Cerâmica e Exportadora, Limitada, que também acaba de adquirir, por compra, mais um importante barreiro não longe da sua fábrica, está imprimindo um notável desenvolvimento à montagem de instalações não só para a exploração da indústria cerâmica como de outras. Por estes dias deve vir à Figueira, a fim de visitar os terrenos da sociedade e delinear o plano das novas instalações, um conceituado engenheiro de casa Costa & Ribeiro, Limitada, que acaba de regressar duma larga viagem pelos mais importantes centros da Europa e da América, onde estudou os processos mais modernos de fabricação e o sistema de edificações mais simples e económicas que procurará adaptar, com grandes vantagens, entre nós”.
Com a vinda do mencionado engenheiro, foi delineado o plano de novas edificações e montagem de maquinismos para desenvolvimento das indústrias de cerâmica e derivados. “A fábrica ao Senhor da Arieira já hoje em nada se parece com as acanhadas instalações que ali havia há poucos anos ainda e em breve, com a realização dos planos já estudados, a Cerâmica disporá de uma fábrica com todos os recursos que permitam assegurar uma produção intensa e perfeita. Tudo indica que esta indústria vá ter, entre nós, um notável e bem necessário desenvolvimento”.
Eram muitas e bem fundamentadas as esperanças do desenvolvimento industrial daquele local. E vou agora abrir um pequeno parêntisis para justificar aqueles esperanças. Numa entrevista publicada em “A Voz da Justiça”, em Outubro de 1921, feita ao dr. Manuel Gaspar de Lemos, então vereador da Câmara Municipal, lê-se: “...A Beira Alta teria naturalmente todas as vantagens em a levar pela cidade, seguindo pela linha, ou antes, pela trajectória corrigida da actual linha dos americanos do Cabo Mondego, de preferência a levá-la por Tavarede. Você compreende, evitaria a reversão incómoda na actual estação do caminho de ferro, dispendiosas expropriações e creio que nivelamentos a que seria obrigada indo por Tavarede...........”
Mas o projecto já estava programado. “A linha, saindo da estação da Figueira por meio de uma reversão, utilizaria o vale da Várzea, ganhando cota, até atingir os quatro caminhos, na estrada da Figueira a Quiaios. Desse ponto em diante seguiria, provavelmente, o traçado da estrada de Tavarede a Buarcos, até ao entroncamento desta estrada com o caminho que prolonga a rua da Liberdade. Este ponto deve estar a uma altitude de cerca de 30 metros. Não disponho de planta, nem tenho do terreno um conhecimento suficiente, para imaginar qual seria o traçado da linha desde este ponto até ao Cabo Mondego. Mas quere-me parecer que teria de passar entre Buarcos e a Senhora da Encarnação, atingindo aí a cota de 40 metros, aproximando-se em seguida da orla marítima. O traçado pelo sul de Buarcos obriga a uma rampa muito áspera, que tornaria bastante precárias as condições de exploração. De um modo geral, pode ainda afirmar-se que este traçado por Tavarede exige obras de arte importantes e grandes movimentos de terras.
Segundo julgo, este traçado é o que tem mais adeptos na Figueira. E, não há dúvida que, para a cidade, oferece grandes vantagens, sendo a principal o deixar intacta toda a orla fluvial e marítima até bastante além de Buarcos. Com este traçado, seria de prever um rápido alargamento da cidade para os lados de Tavarede e a urbanização do vale das Abadias, onde deveria ficar instalada a estação de passageiros. Um dos defeitos que tenho visto imputar a esta solução, parece-me susceptível de ser corrigido: é o da reversão da estação da Figueira. A configuração do terreno permite perfeitamente que, a partir do entroncamento das duas linhas, da Beira e da Companhia Portuguesa, se dirija directamente uma curva de largo raio para o vale da Várzea. Bastaria, pois, remover a actual estação de passageiros para além dessa curva, despesa essa que, numa questão desta natureza, pouco pode influir. Note-se que a actual “gare” é insuficiente mesmo para o movimento de inverno; e que, se se construir um ramal ao longo da Avenida, para o serviço do porto, o acesso desta “gare” fica péssimo, por ter de cruzar esse ramal. Pelo contrário, seria fácil ligar de uma forma elegante a nova “gare” do vale da Várzea com o sistema de viação da Figueira. ..................O mais grave defeito, porém, que encontro na solução de Tavarede, é de servir mal o Bairro Novo............ Mas, independentemente deste defeito, aliás de natureza transitória, a solução de Tavarede podia ser considerada como boa para os interesses da cidade”.
E em Maio de 1922, o Inspector Geral da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, durante uma visita que fez a esta cidade, informou que, em reunião com as autoridades locais “resultou assentar-se na construção da linha férrea até ao Cabo Mondego, seguindo por Tavarede”. Não se encontrou mais nada sobre o assunto. E a linha de caminho de ferro até ao Cabo Mondego, passando por Tavarede ou por outro lado, acabou no esquecimento. Não vou especular sobre o assunto, mas ponho uma questão: se tivesse sido concretizada esta linha, facilitando assim o transporte, quer das matérias primas quer dos produtos acabados, a fábrica de cerâmica, dado o desenvolvimento que adquirira, teria acabado logo nos finais da década de 1930/1940? Ou o desenvolvimento industrial daquela área e mesmo da nossa terra não teria sido uma realidade?
É que, curiosamente, em Novembro de 1922, um edital tornou pública a informação de ter sido requerida licença, por Herculano de Matos Sarmento Beja, para pesquisas de “uma mina de ouro e outros metais”, no Alto de S. João, ali mesmo ao lado...
E, entretanto, a Cerâmica Exportadora, Lda., dotou a Figueira de mais um melhoramento. “... nas suas fábricas do Senhor da Arieira iniciou o fabrico, diariamente, de gelo da melhor qualidade, pois encontrou na água de Tavarede um excelente componente que dá ao produto da sua nova indústria um aspecto apreciável e, portanto, digno de recomendar-se”.
Em pleno funcionamento, no mês de Setembro de 1922, a imprensa local foi convidada para uma visita às suas instalações. A reportagem foi a seguinte: “A convite do sr. dr. Ernesto Gomes Tomé, activo gerente da Cerâmica e Exportadora Lda, desta cidade, visitámos, segunda-feira passada, todas as instalações da fábrica do Senhor da Arieira.
Fabricava pela primeira vez louça branca, razão porque o activo gerente convidou os representantes dos 3 bi-semanários locais. A secção de louças, primeira instalação que visitámos, estava engalanada com verduras, flores e bandeiras. Pelo chão em pequenos montes, estendia-se a louça da primeira fornada, fabricada com perfeição, que se nota, fazendo-a vibrar, tocando-a. Além de pratos, malgas, canecas, bacias e jarros de pintura vulgar, notou-se a tentativa que alguns operários fi

Jarra fabricada na Cerâmica e Exportadora, Lda.
em alguns pratos, pintando figuras nuns e frases ingénuas noutros, com sejam, Amor, Vivam os Noivos, etc.
Depois de constatarmos a perfeição do fabrico e tomarmos nota de todas as fases por que passa o barro até se tornar na louça perfeita que saiu dos fornos da Cerâmica e Exportadora Lda., visitámos um operário que com o auxilio da roda modelava um vaso e que à nossa vista modelou diversas peças de louça vermelha. Seguidamente visitámos as instalações do motor, da máquina do gelo, do moinho de fazer pão, das oficinas de serralharia, etc, sempre acompanhados na visita pelos sócios gerentes da Cerâmica, srs. dr. Tomé e Cardoso Sant’Iago.
E depois de termos percorrido todas as dependências da fábrica, tivemos de confessar que estávamos muito longe da vida industrial que a pouco e pouco ali se tem desenvolvido, à custa de muito esforço e dedicação pela indústria da louça e cerâmica. A produção das fábricas, segundo confissão dos gerentes, está toda vendida, lutando com muita falta de pessoal para satisfazer as encomendas que diariamente chegam ao seu escritório.
O Figueirense, que tem como principal objectivo do seu programa, o progresso moral e material desta cidade, folga imenso por ter ocasião de poder constatar os progressos da fábrica Cerâmica e Exportadora Lda., desta cidade, e faz votos para que os desejos dos seus gerentes, de mais e muito mais produzir, em breve seja uma realidade que possamos constatar. Numa dependência da fábrica foi servido aos representantes da imprensa e outros convidados, champagne e bolos, tendo o sr. dr. Tomé brindado pela imprensa e agradecido o concurso que esta tem prestado à sua empresa, brinde que foi retribuído pelos representantes dos 3 jornais, com as afirmações de que nada mais tem feito do que ajudar uma iniciativa feliz que caminha a passos seguros”.
Dois anos depois, Fevereiro de 1924, nova actividade ali começou a ser exercida. “A Cerâmica e Exportadora, Lda que tem as suas importantes instalações ao Senhor da Arieira, Tavarede, ensaiou há dias, com resultado satisfatório, o fabrico de azulejos. Vimos já duas interessantes amostras de azulejos com pinturas diferentes, ambas, a par da competência do pessoal, demonstrando a excelência da matéria prima e dos fornos de que a Cerâmica dispõe. Sabemos que aquela empresa vai completar a aquisição do material necessário ao desenvolvimento do fabrico de azulejo, estando esperançada em tornar tal indústria uma das suas mais importantes secções. Oxalá a esses esforços corresponda o mais lisonjeiro êxito”.
Até que, em Novembro de 1929, encontrei esta notícia: “A primeira notícia que ontem de manhã amargamente nos surpreendeu foi a da morte do nosso prezado amigo e patrício António Pereira Correia. .................. Regressando depois à Figueira, as iniciativas organizadas durante a guerra prenderam-no à exploração da Cerâmica e Exportadora, Lda., instalada ao Senhor da Arieira, em Tavarede, onde se conservara até agora, como seu gerente; e, não obstante as condições a que actualmente tem de subordinar-se a acção destas empresas, o extinto procurou desenvolver as suas instalações e acreditar a sua produção por forma a converter aquela fábrica num excelente elemento de trabalho.................... Que nos recorde, vimos representar as suas operetas Princesa de Caceira (esta escrita de colaboração com o sr. João Gaspar de Lemos), o Barão de Antanholes, e Os Vidinhas, a revista Zás! Trás!, a peça burlesca O Casamento da Vasca, etc.”.
Entretanto, em Março de 1927, uma nota do correspondente local informa que “o sr. Arlindo Ferreira da Paz tenciona abrir ao público no próximo domingo 3 de Abril, um estabelecimento de mercearias e vinhos numa casa que acaba de construir no Senhor da Arieira, perto da Cerâmica Exportadora, Lda. Como se vê, é mais um melhoramento com que a nossa terra fica dotada. Que seja muito feliz nesta sua iniciativa é o que lhe desejamos”. O antigo estabelecimento que a família Russo ali abrira e explorara, certamente teria sido encerrado para dar lugar a algumas das novas instalações da fábrica de cerâmica.
A esperança depositada no desenvolvimento industrial diluiu-se para sempre. Anos mais tarde, uma empresa de Matosinhos, a firma Lopes Valeiras, Lda., adaptou um dos edifícios para o fabrico de conservas de peixe. Não durou muito tempo... E acabo este capítulo, também com um belo trecho de Mestre José Ribeiro, “O Pardieiro”, incluído na peça “Cântico da Aldeia”. Foi seu intérprete o também saudoso João de Oliveira Júnior.
Junto a ti, ó velha Quinta saudosa,
Aqui me tens - o Pardieiro,
Teu vizinho e na desgraça dolorosa
Companheiro.
Também saudades são meu alimento.
O que eu fui... e o que hoje sou!
O recordar, para mim, é tormento...
No tempo de meu avô,
Dos Ruços, do Serol, vindos de Brenha,
Meus fornos queimaram muita lenha
A cozer barro vermelho,
Telha e tijolo, cerâmica grosseira
Que se espalhava por todo o concelho
Da presunçosa Figueira.
Vieram depois outros oleiros
E com os Ribeiros
Surgiu a faiança, barata e graciosa:
Travessas e pratos bem pintados,
Os potes vidrados,
Louça para a cozinha e para a mesa,
De pintura ingénua e maliciosa,
Com arte e com beleza.
Depois... nos fornos o fogo se apagou,
E na mão hábil do oleiro
- Dedos cariciosos, o pé ligeiro -
A roda enfim parou.
Do barro dúctil não mais saíram peças
De variado jeito:
Os pratos, as canecas, as travessas,
As cântaras airosas,
Com pinturas ingénuas, caprichosas,
De pitoresco efeito,
Ricas de intenção e vária fantasia...
Morreu a olaria!
Depois... Da cerâmica a outras mãos passei.
Que alvoroço! Que nova e grande esperança!
Vinha a indústria, o progresso, a abastança,
Nem eu sei!
E uma outra fábrica se ergueu!
E levantou-se a grande chaminé
Que, como em grito de fé,
Parecia assim anunciar ao céu:
- Eu sou a Fábrica de Conservas, de sardinha
E de outros peixes também!
Aqui não faltará trabalho a ninguém!!
Mas... má sina atrás de nós caminha...
Parece que medonho vendaval,
Terramoto brutal,
Em campo de ruínas a Fábrica mudou!
Triste pardieiro - eis o que ora sou!
Depois de constatarmos a perfeição do fabrico e tomarmos nota de todas as fases por que passa o barro até se tornar na louça perfeita que saiu dos fornos da Cerâmica e Exportadora Lda., visitámos um operário que com o auxilio da roda modelava um vaso e que à nossa vista modelou diversas peças de louça vermelha. Seguidamente visitámos as instalações do motor, da máquina do gelo, do moinho de fazer pão, das oficinas de serralharia, etc, sempre acompanhados na visita pelos sócios gerentes da Cerâmica, srs. dr. Tomé e Cardoso Sant’Iago.
E depois de termos percorrido todas as dependências da fábrica, tivemos de confessar que estávamos muito longe da vida industrial que a pouco e pouco ali se tem desenvolvido, à custa de muito esforço e dedicação pela indústria da louça e cerâmica. A produção das fábricas, segundo confissão dos gerentes, está toda vendida, lutando com muita falta de pessoal para satisfazer as encomendas que diariamente chegam ao seu escritório.
O Figueirense, que tem como principal objectivo do seu programa, o progresso moral e material desta cidade, folga imenso por ter ocasião de poder constatar os progressos da fábrica Cerâmica e Exportadora Lda., desta cidade, e faz votos para que os desejos dos seus gerentes, de mais e muito mais produzir, em breve seja uma realidade que possamos constatar. Numa dependência da fábrica foi servido aos representantes da imprensa e outros convidados, champagne e bolos, tendo o sr. dr. Tomé brindado pela imprensa e agradecido o concurso que esta tem prestado à sua empresa, brinde que foi retribuído pelos representantes dos 3 jornais, com as afirmações de que nada mais tem feito do que ajudar uma iniciativa feliz que caminha a passos seguros”.
Dois anos depois, Fevereiro de 1924, nova actividade ali começou a ser exercida. “A Cerâmica e Exportadora, Lda que tem as suas importantes instalações ao Senhor da Arieira, Tavarede, ensaiou há dias, com resultado satisfatório, o fabrico de azulejos. Vimos já duas interessantes amostras de azulejos com pinturas diferentes, ambas, a par da competência do pessoal, demonstrando a excelência da matéria prima e dos fornos de que a Cerâmica dispõe. Sabemos que aquela empresa vai completar a aquisição do material necessário ao desenvolvimento do fabrico de azulejo, estando esperançada em tornar tal indústria uma das suas mais importantes secções. Oxalá a esses esforços corresponda o mais lisonjeiro êxito”.
Até que, em Novembro de 1929, encontrei esta notícia: “A primeira notícia que ontem de manhã amargamente nos surpreendeu foi a da morte do nosso prezado amigo e patrício António Pereira Correia. .................. Regressando depois à Figueira, as iniciativas organizadas durante a guerra prenderam-no à exploração da Cerâmica e Exportadora, Lda., instalada ao Senhor da Arieira, em Tavarede, onde se conservara até agora, como seu gerente; e, não obstante as condições a que actualmente tem de subordinar-se a acção destas empresas, o extinto procurou desenvolver as suas instalações e acreditar a sua produção por forma a converter aquela fábrica num excelente elemento de trabalho.................... Que nos recorde, vimos representar as suas operetas Princesa de Caceira (esta escrita de colaboração com o sr. João Gaspar de Lemos), o Barão de Antanholes, e Os Vidinhas, a revista Zás! Trás!, a peça burlesca O Casamento da Vasca, etc.”.
Entretanto, em Março de 1927, uma nota do correspondente local informa que “o sr. Arlindo Ferreira da Paz tenciona abrir ao público no próximo domingo 3 de Abril, um estabelecimento de mercearias e vinhos numa casa que acaba de construir no Senhor da Arieira, perto da Cerâmica Exportadora, Lda. Como se vê, é mais um melhoramento com que a nossa terra fica dotada. Que seja muito feliz nesta sua iniciativa é o que lhe desejamos”. O antigo estabelecimento que a família Russo ali abrira e explorara, certamente teria sido encerrado para dar lugar a algumas das novas instalações da fábrica de cerâmica.
A esperança depositada no desenvolvimento industrial diluiu-se para sempre. Anos mais tarde, uma empresa de Matosinhos, a firma Lopes Valeiras, Lda., adaptou um dos edifícios para o fabrico de conservas de peixe. Não durou muito tempo... E acabo este capítulo, também com um belo trecho de Mestre José Ribeiro, “O Pardieiro”, incluído na peça “Cântico da Aldeia”. Foi seu intérprete o também saudoso João de Oliveira Júnior.
Junto a ti, ó velha Quinta saudosa,
Aqui me tens - o Pardieiro,
Teu vizinho e na desgraça dolorosa
Companheiro.
Também saudades são meu alimento.
O que eu fui... e o que hoje sou!
O recordar, para mim, é tormento...
No tempo de meu avô,
Dos Ruços, do Serol, vindos de Brenha,
Meus fornos queimaram muita lenha
A cozer barro vermelho,
Telha e tijolo, cerâmica grosseira
Que se espalhava por todo o concelho
Da presunçosa Figueira.
Vieram depois outros oleiros
E com os Ribeiros
Surgiu a faiança, barata e graciosa:
Travessas e pratos bem pintados,
Os potes vidrados,
Louça para a cozinha e para a mesa,
De pintura ingénua e maliciosa,
Com arte e com beleza.
Depois... nos fornos o fogo se apagou,
E na mão hábil do oleiro
- Dedos cariciosos, o pé ligeiro -
A roda enfim parou.
Do barro dúctil não mais saíram peças
De variado jeito:
Os pratos, as canecas, as travessas,
As cântaras airosas,
Com pinturas ingénuas, caprichosas,
De pitoresco efeito,
Ricas de intenção e vária fantasia...
Morreu a olaria!
Depois... Da cerâmica a outras mãos passei.
Que alvoroço! Que nova e grande esperança!
Vinha a indústria, o progresso, a abastança,
Nem eu sei!
E uma outra fábrica se ergueu!
E levantou-se a grande chaminé
Que, como em grito de fé,
Parecia assim anunciar ao céu:
- Eu sou a Fábrica de Conservas, de sardinha
E de outros peixes também!
Aqui não faltará trabalho a ninguém!!
Mas... má sina atrás de nós caminha...
Parece que medonho vendaval,
Terramoto brutal,
Em campo de ruínas a Fábrica mudou!
Triste pardieiro - eis o que ora sou!
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
SOCIEDADE FILARMÓNICA GUALDIM PAIS
Assim que ele foi iniciado, ficámos logo com a certeza de se tratar de um agrupamento de real categoria.
E a presença desta banda, que foi fundada no ano de 1877, contanto portanto 104 anos, constituiu um acontecimento artístico que atraiu ao teatro de Tavarede, numerosa assistência.
Tendo dado inúmeros concertos em Portugal, nomeadamente na nossa terra, no Grande Casino Peninsular e em Espanha, e agora, pela segunda vez, na sede da Sociedade Teatral (perdoem-nos o baptismo...) como que um encontro emocionante, como um abraço fraternal de velhas amizades entre as duas antigas associações, conquistou o 1º. prémio no concurso das bandas musicais do concelho de Santarém, tendo sido finalista no Concurso das Bandas Portuguesas.
Trata-se de uma banda experiente, contando imensos sucessos em outros tantos concertos, que lhe concederam justificado prestígio.
A execução dos números do programa, além da linda marcha de abertura “Margens do Tejo”, de Sousa Morais; “Alto Minho”, de Miguel de Oliveira; “Campo das Flores”, de Sousa Morais; “Alma Maiato”, e, no final, o hino da Sociedade de Instrução Tavaredense, foram escrupulosamente interpretados.
Uma prova bem significativa do que dizemos, em toda a sua verdade. A Filarmónica Gualdim Pais honra a linda cidade de Tomar, onde, por motivos de deveres profissionais, vivemos durante nove anos.
Mas, voltando ao concerto, foi pena – que nos perdoe o seu insigne maestro – que dadas as possibilidades artísticas, o grande sentido musical de cada instrumentista, apesar de se tratar de simples amadores (o que lhes confere maior mérito) não tivesse presenteado o numeroso auditório com a execução de, pelo menos, uma peça de um autor célebre, cujo teor, no que respeita a dificuldades técnicas e interpretativas, pusesse à prova as tendências e as aptidões de todos os elementos, proporcionando-nos uma completa imagem do seu real valor.
A música não é algo mais ou menos limitado e sonoro. É bela, transcendente. Sublime, desde que a entendamos por música e nos seja transmitida como obra de arte e consciência.
Consideramos o maestro – sublinhe-se – como um dos bons regentes portugueses da actualidade. Para ele os nossos parabéns pela perfeição obtida nos vários naipes, responsabilidade, saber profissional, regência e eficiente uniformidade de conjunto, confirmando o prestígio de que muito justamente disfruta.
O público gostou. Compreendeu. Aplaudiu calorosamente todos os números neste excelente concerto.
(A Voz da Figueira - 29 Janeiro 1981)
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Os Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro - 4
O SENHOR DO ARIEIRO INDUSTRIAL
Pelos nossos apontamentos, sabemos que, em 1892, já existia uma cerâmica, no Senhor do Arieiro, pertencente a Joaquim Russo, e que, em Novembro daquele ano, ali fora instalada uma máquina para fazer tijolo furado, que havia sido feita nas Oficinas Mota de Quadros, da Figueira da Foz.
Diz a notícia que esta máquina “é notável, pela rapidez e excelência do trabalho”, produzindo diariamente 3.500 tijolos e que “já por capricho dos operários fabricou 4.800 tijolos num dia do estio passado”.
Não encontrámos mais elementos na imprensa figueirense do século dezanove, sobre este assunto. Mas, em 1906, uma notícia diz-nos que, nos Carritos, existia uma fábrica de faiança e que, pertencentes ao mesmo dono, existiam, no sítio do Senhor do Arieiro, três fornos de cozer telha ordinária e depois descreve-nos um pouco da actividade destes fornos.
“ Estes fornos têem dois pavimentos, sendo o inferior a fornalha e o superior a câmara de cozedura, sendo muito abobadados; a comunicação do fogo da fornalha com a câmara de cozedura não é feita por pequenos buracos espalhados por toda a abóboda da fornalha, mas por um buraco maior colocado no centro dessa abóboda; o fogo, atravessando esse buraco, vai bater na abóboda da câmara e, reflectindo-se, vai então espalhado por entre as telhas efectuar a cozedura. Apesar de não ser perfeito, este sistema de cozedura é inquestionavelmente o melhor dos usados e a telha sai bem cozida, obtendo um preço bastante elevado para telha desta natureza.
O barro empregado no fabrico é extraído na mesma propriedade onde estão os fornos, é branco com uns pequenos laivos vermelhos. Para darem à telha uma cor vermelha mais intensa, pintam-na depois de mais de meio secas, com lambugem de barro (água muito grossa de barro vermelho que vão buscar a Caceira). Os utensilios empregados e o processo de fabrico são os usuais, não tendo por isso nada a acrescentar ao que já por várias vezes tenho dito. Os produtos fabricados e os preços de venda são os seguintes:
Telha ordinária, a 5$000 reis o milheiro.
Tijolos cheios, de 0m,22 por 0m,11 por 0m,06, a 6$000 reis o milheiro.
Tijolos ocos, de 0m,24 por 0m,12 por 0m,7, a 6$000 reis o milheiro.
Ladrilhos, de 0m,15 por 0m,25 ou 0m,30 por 0m,30, de 20 a 30 reis cada um.
Telhões, a 90 reis cada um.
Manilhas, de 0m,05 ou 0m,18 de diâmetro, 70 a 200 reis cada uma.
As manilhas são vidradas a zarcão.
A produção anual deve ser pouco mais ou menos a seguinte:
Manilhas, 400.
Telhões, 400.
Telha: 60 milheiros.
Tijolos e ladrilhos, 200 milheiros.
O rendimento anual pode calcular-se em 1:700$000 reis.
Os mercados de venda são a própria freguesia e as vizinhas, mas principalmente a Figueira da Foz.
Os operários que estes fornos empregam são 5 homens, 2 rapazes e 2 mulheres.
Os jornais dos diferentes operários são os seguintes: 400 reis para os homens, 160 reis para as mulheres e 100 reis para os rapazes”.
No ano de 1916 lemos a seguinte notícia: “Ouvimos que o sr. José Russo, de sociedade com o sr. Luís João Rosa, querem explorar na propriedade desde nosso amigo o fabrico de telha e tijolo, montando para isso ali o respectivo forno e necessárias dependências. A instalação será feita na parte da quinta junto ao Senhor da Areeira, que é onde abunda mais o barro próprio para tal indústria. A confirmar-se esta informação, será de louvar a iniciativa dos srs. Rosa e Russo, porque são louváveis todos os esforços tendentes a desenvolver o trabalho local”. Mas, dias depois, José Russo (devia ser o filho e herdeiro do primeiro dono dos fornos acima referidos) anuncia que tinha resolvido não se associar para montar uma tijolaria na Quinta de Luís João Rosa embora, na verdade, tenham pensado nisso em tempos passados.
No “Anuário Figueirense”, em 1918, numa descrição da nossa freguesia, vem o seguinte apontamento: “... além dos trabalhos agrícolas a que esta povoação principalmente se consagra, há aqui um regular número de operários de diversas indústrias que trabalham na ou para a Figueira, havendo também uma fábrica de tijolo dos srs. José Russo & Companhia”.
Alguns dias depois, e num semanário figueirense, o correspondente local insere a seguinte nota: “ Ao Senhor da Arieira, nas instalações do forno da telha do nosso bom amigo José Russo, tem este activo cidadão feito algumas obras, para estabelecer-se com forno para cozer pão e broa, venda de vinho, tabaco, etc. etc. A sua abertura será no dia 1º. de Maio, e ali apresentará o bom vinho de Brenha. Local de bastante movimento, não deixará de ser muito concorrido, principalmente aos domingos, pelos apreciadores da bela pinga, que ali se farão acompanhar das respectivas merendas. Ao nosso amigo José Russo desejamos bastas felicidades no seu empreendimento”.
Noticiando a abertura do estabelecimento, encontrámos a seguinte nota: “... abriu naquele pitoresco recinto e no dia primeiro de Maio corrente, um estabelecimento comercial no qual vende as afamadas pinguinhas de Brenha, tabacos, petiscos, etc., não faltando uma bem montada padaria, indispensável na nossa terra, que de uma carecia há já muitos anos”.
A propósito deste estabelecimento, não resisto a transcrever aqui uma nota, de Dezembro de 1918, relatando uma caçada que terminou em patuscada na loja do Senhor do Arieiro:
“Aqui na nossa terra há, como se sabe, grande número de caçadores dignos deste nome, que este ano têem abatido muitos coelhos, perdizes, etc., etc. Nesse número de bons caçadores figuram os srs. Manuel Leonor, Manuel Migueis, José Russo, e tantos outros cujos nomes agora nos não recorda que, ainda num dos dias da pretérita semana, reunidos em grupo, resolveram fazer uma caçada ao coelho, levando na sua companhia grande número de principiantes na caça, como Amaral, Arménio, A. Silva, Zé Noca, etc., e o impagável António Cação Russo, mais conhecido por Antonio da Quinta.
Nas alturas do Prazo, o perspicaz e fino olho de detective deste nosso amigo avistou uma galinhola e, não se fiando em si mesmo, diz aos seus mestres que lhe atirem, porque a ave está boa. Há uma artilharia pegada e a galinhola sempre se vai embora. Eis porém que o António da Quinta, ripando da sua bela espingarda de dois canos, dispara sobre o pássaro um bem acertado tiro que, alvejando-o (diz ele) o fez cair imediatamente!... Morta a galinhola, foi pelos velhos caçadores conferido ao herói da tarde um diploma de atirador especial, dando-lhes todos a sua direita...
Chegou a noite e, deviam ser aproximadamente 7 horas, começaram todos os caçadores por comer o opíparo jantar que haviam mandado fazer em honra de António da Quinta, isto em casa do Zé Russo, ao Senhor da Arieira. A ampla sala achava-se ricamente engalanada com colchas de damasco, flores naturais e artificiais, balões à veneziana, etc., tudo a incitar para a festa e para a alegria, pois é incontestável que foi um dia festivo e alegre para todos que naquela caçada haviam tomado parte...
Ao toust usaram da palavra vários convivas, brindando todos em honra do António da Quinta, que no fim comovidamente agradeceu aos seus amigos as “imerecidas palavras com que o haviam distinguido”. Hurras e mais hurras, aclamações, etc., põem termo à festa, tudo na melhor... ordem e harmonia, todos no mais elevado grau de alegria, ficando gravado no espírito de todos o memorável dia em que António da Quinta foi honrado com um diploma, com um jantar, e com discursos, por ter dado provas abundantes da sua audácia e finura na soberba caçada em que tomou parte num dos dias da semana que passou. Sabendo isto, não podemos de forma alguma deixar de felicitar o nosso amigo, e com um abraço vão os nossos mais ardentes desejos de que este ano mate mais galinholas, mas que já estejam, porém, com 7 ou mais tiros na pele, como sucedeu àquela que o amigo António da Quinta matou um destes dias, graças a um certeiro tiro disparado pelo exímio caçador Zé Russo, pois foi ele quem primeiro a alvejou e que ficou sendo alvo da inveja e do despeito...”.
Passados dois anos já estava constituida uma firma, sob a denominação de “Cerâmica Exportadora, Lda”, e, em Agosto desse ano, “as instalações continuavam a ser ampliadas e melhoradas mal podendo, pela afluência de pedidos, satisfazer as encomendas de telha e tijolo que diariamente lhe chegam”.
Pelos nossos apontamentos, sabemos que, em 1892, já existia uma cerâmica, no Senhor do Arieiro, pertencente a Joaquim Russo, e que, em Novembro daquele ano, ali fora instalada uma máquina para fazer tijolo furado, que havia sido feita nas Oficinas Mota de Quadros, da Figueira da Foz.
Diz a notícia que esta máquina “é notável, pela rapidez e excelência do trabalho”, produzindo diariamente 3.500 tijolos e que “já por capricho dos operários fabricou 4.800 tijolos num dia do estio passado”.
Não encontrámos mais elementos na imprensa figueirense do século dezanove, sobre este assunto. Mas, em 1906, uma notícia diz-nos que, nos Carritos, existia uma fábrica de faiança e que, pertencentes ao mesmo dono, existiam, no sítio do Senhor do Arieiro, três fornos de cozer telha ordinária e depois descreve-nos um pouco da actividade destes fornos.
“ Estes fornos têem dois pavimentos, sendo o inferior a fornalha e o superior a câmara de cozedura, sendo muito abobadados; a comunicação do fogo da fornalha com a câmara de cozedura não é feita por pequenos buracos espalhados por toda a abóboda da fornalha, mas por um buraco maior colocado no centro dessa abóboda; o fogo, atravessando esse buraco, vai bater na abóboda da câmara e, reflectindo-se, vai então espalhado por entre as telhas efectuar a cozedura. Apesar de não ser perfeito, este sistema de cozedura é inquestionavelmente o melhor dos usados e a telha sai bem cozida, obtendo um preço bastante elevado para telha desta natureza.
O barro empregado no fabrico é extraído na mesma propriedade onde estão os fornos, é branco com uns pequenos laivos vermelhos. Para darem à telha uma cor vermelha mais intensa, pintam-na depois de mais de meio secas, com lambugem de barro (água muito grossa de barro vermelho que vão buscar a Caceira). Os utensilios empregados e o processo de fabrico são os usuais, não tendo por isso nada a acrescentar ao que já por várias vezes tenho dito. Os produtos fabricados e os preços de venda são os seguintes:
Telha ordinária, a 5$000 reis o milheiro.
Tijolos cheios, de 0m,22 por 0m,11 por 0m,06, a 6$000 reis o milheiro.
Tijolos ocos, de 0m,24 por 0m,12 por 0m,7, a 6$000 reis o milheiro.
Ladrilhos, de 0m,15 por 0m,25 ou 0m,30 por 0m,30, de 20 a 30 reis cada um.
Telhões, a 90 reis cada um.
Manilhas, de 0m,05 ou 0m,18 de diâmetro, 70 a 200 reis cada uma.
As manilhas são vidradas a zarcão.
A produção anual deve ser pouco mais ou menos a seguinte:
Manilhas, 400.
Telhões, 400.
Telha: 60 milheiros.
Tijolos e ladrilhos, 200 milheiros.
O rendimento anual pode calcular-se em 1:700$000 reis.
Os mercados de venda são a própria freguesia e as vizinhas, mas principalmente a Figueira da Foz.
Os operários que estes fornos empregam são 5 homens, 2 rapazes e 2 mulheres.
Os jornais dos diferentes operários são os seguintes: 400 reis para os homens, 160 reis para as mulheres e 100 reis para os rapazes”.
No ano de 1916 lemos a seguinte notícia: “Ouvimos que o sr. José Russo, de sociedade com o sr. Luís João Rosa, querem explorar na propriedade desde nosso amigo o fabrico de telha e tijolo, montando para isso ali o respectivo forno e necessárias dependências. A instalação será feita na parte da quinta junto ao Senhor da Areeira, que é onde abunda mais o barro próprio para tal indústria. A confirmar-se esta informação, será de louvar a iniciativa dos srs. Rosa e Russo, porque são louváveis todos os esforços tendentes a desenvolver o trabalho local”. Mas, dias depois, José Russo (devia ser o filho e herdeiro do primeiro dono dos fornos acima referidos) anuncia que tinha resolvido não se associar para montar uma tijolaria na Quinta de Luís João Rosa embora, na verdade, tenham pensado nisso em tempos passados.
No “Anuário Figueirense”, em 1918, numa descrição da nossa freguesia, vem o seguinte apontamento: “... além dos trabalhos agrícolas a que esta povoação principalmente se consagra, há aqui um regular número de operários de diversas indústrias que trabalham na ou para a Figueira, havendo também uma fábrica de tijolo dos srs. José Russo & Companhia”.
Alguns dias depois, e num semanário figueirense, o correspondente local insere a seguinte nota: “ Ao Senhor da Arieira, nas instalações do forno da telha do nosso bom amigo José Russo, tem este activo cidadão feito algumas obras, para estabelecer-se com forno para cozer pão e broa, venda de vinho, tabaco, etc. etc. A sua abertura será no dia 1º. de Maio, e ali apresentará o bom vinho de Brenha. Local de bastante movimento, não deixará de ser muito concorrido, principalmente aos domingos, pelos apreciadores da bela pinga, que ali se farão acompanhar das respectivas merendas. Ao nosso amigo José Russo desejamos bastas felicidades no seu empreendimento”.
Noticiando a abertura do estabelecimento, encontrámos a seguinte nota: “... abriu naquele pitoresco recinto e no dia primeiro de Maio corrente, um estabelecimento comercial no qual vende as afamadas pinguinhas de Brenha, tabacos, petiscos, etc., não faltando uma bem montada padaria, indispensável na nossa terra, que de uma carecia há já muitos anos”.
A propósito deste estabelecimento, não resisto a transcrever aqui uma nota, de Dezembro de 1918, relatando uma caçada que terminou em patuscada na loja do Senhor do Arieiro:
“Aqui na nossa terra há, como se sabe, grande número de caçadores dignos deste nome, que este ano têem abatido muitos coelhos, perdizes, etc., etc. Nesse número de bons caçadores figuram os srs. Manuel Leonor, Manuel Migueis, José Russo, e tantos outros cujos nomes agora nos não recorda que, ainda num dos dias da pretérita semana, reunidos em grupo, resolveram fazer uma caçada ao coelho, levando na sua companhia grande número de principiantes na caça, como Amaral, Arménio, A. Silva, Zé Noca, etc., e o impagável António Cação Russo, mais conhecido por Antonio da Quinta.
Nas alturas do Prazo, o perspicaz e fino olho de detective deste nosso amigo avistou uma galinhola e, não se fiando em si mesmo, diz aos seus mestres que lhe atirem, porque a ave está boa. Há uma artilharia pegada e a galinhola sempre se vai embora. Eis porém que o António da Quinta, ripando da sua bela espingarda de dois canos, dispara sobre o pássaro um bem acertado tiro que, alvejando-o (diz ele) o fez cair imediatamente!... Morta a galinhola, foi pelos velhos caçadores conferido ao herói da tarde um diploma de atirador especial, dando-lhes todos a sua direita...
Chegou a noite e, deviam ser aproximadamente 7 horas, começaram todos os caçadores por comer o opíparo jantar que haviam mandado fazer em honra de António da Quinta, isto em casa do Zé Russo, ao Senhor da Arieira. A ampla sala achava-se ricamente engalanada com colchas de damasco, flores naturais e artificiais, balões à veneziana, etc., tudo a incitar para a festa e para a alegria, pois é incontestável que foi um dia festivo e alegre para todos que naquela caçada haviam tomado parte...
Ao toust usaram da palavra vários convivas, brindando todos em honra do António da Quinta, que no fim comovidamente agradeceu aos seus amigos as “imerecidas palavras com que o haviam distinguido”. Hurras e mais hurras, aclamações, etc., põem termo à festa, tudo na melhor... ordem e harmonia, todos no mais elevado grau de alegria, ficando gravado no espírito de todos o memorável dia em que António da Quinta foi honrado com um diploma, com um jantar, e com discursos, por ter dado provas abundantes da sua audácia e finura na soberba caçada em que tomou parte num dos dias da semana que passou. Sabendo isto, não podemos de forma alguma deixar de felicitar o nosso amigo, e com um abraço vão os nossos mais ardentes desejos de que este ano mate mais galinholas, mas que já estejam, porém, com 7 ou mais tiros na pele, como sucedeu àquela que o amigo António da Quinta matou um destes dias, graças a um certeiro tiro disparado pelo exímio caçador Zé Russo, pois foi ele quem primeiro a alvejou e que ficou sendo alvo da inveja e do despeito...”.
Passados dois anos já estava constituida uma firma, sob a denominação de “Cerâmica Exportadora, Lda”, e, em Agosto desse ano, “as instalações continuavam a ser ampliadas e melhoradas mal podendo, pela afluência de pedidos, satisfazer as encomendas de telha e tijolo que diariamente lhe chegam”.
Fábrica da Cerâmica e Exportadora, Lda., ao Senhor do Arieiro (foto da Junta de Freguesia)
No início de 1921, esta empresa sofreu um grande impulso nas suas diferentes secções e aumentou o capital social para 150 contos. “... Além da fábrica de telha, tijolo e telhões, ao Senhor da Areeira, Tavarede, de cujos fornos sai diariamente larga produção, faz a Cerâmica importantíssimas transacções com a venda de óleos, gasolina, material eléctrico, etc., tendo a representação de algumas das mais consideradas casas de Lisboa, Porto e estrangeiro. A gerência da Cerâmica está confiada ao sr. António Pereira Correia, a cuja iniciativa ela muita deve já, e agora, mais larga e desafogadamente desenvolvidos os seus negócios, não deixarão estes de acentuar-se com correspondente recompensa para os que pugnam pelos seus progressos. É este o nosso desejo”.
Como mera curiosidade, aqui dou nota dos sócios e gerência da sociedade, conforme a escritura daquele aumento: “dr. Ernesto Ferreira Gomes Tomé, 15.000$00; António Pereira Correia, 15.000$00; Frutuoso Veiga da Silva Gomes, 15.000$00; António Justino da Costa, 15.000$00; Costa & Ribeiro, Lda., 10.000$00; Joaquim Reis Pinto, 9.000$00; Pessoa & Veiga, 10.000$00; Alfredo Pedro de Almeida, 10.000$00; Filipe Manuel da Silva, 9.000$00; Fernando Alves de Azevedo, 6.000$00; António Ferreira da Assunção, 8.000$00; José Martins, 5.000$00; José Maria Costa, 5.000$00; Joaquim Alfredo Pessoa, 4.000$00; Julio Leopoldo Fernandes de Matos, 3.000$00; Alberto Perreira Correia, 6.000$00; e D. Celeste Vieira Gomes, 5.000$00. A gerência e administração, cujos escritórios funcionavam no Largo do Carvão, na Figueira, sem remuneração e com dispensa de caução, incumbia especialmente ao sócio António Pereira Correia, “que será auxiliado, quando o julgue conveniente, pelos sócios Filipe Manuel da Silva e António Justino da Costa”. O presidente do conselho fiscal era o dr. Ernesto Gomes Tomé”.
No início de 1921, esta empresa sofreu um grande impulso nas suas diferentes secções e aumentou o capital social para 150 contos. “... Além da fábrica de telha, tijolo e telhões, ao Senhor da Areeira, Tavarede, de cujos fornos sai diariamente larga produção, faz a Cerâmica importantíssimas transacções com a venda de óleos, gasolina, material eléctrico, etc., tendo a representação de algumas das mais consideradas casas de Lisboa, Porto e estrangeiro. A gerência da Cerâmica está confiada ao sr. António Pereira Correia, a cuja iniciativa ela muita deve já, e agora, mais larga e desafogadamente desenvolvidos os seus negócios, não deixarão estes de acentuar-se com correspondente recompensa para os que pugnam pelos seus progressos. É este o nosso desejo”.
Como mera curiosidade, aqui dou nota dos sócios e gerência da sociedade, conforme a escritura daquele aumento: “dr. Ernesto Ferreira Gomes Tomé, 15.000$00; António Pereira Correia, 15.000$00; Frutuoso Veiga da Silva Gomes, 15.000$00; António Justino da Costa, 15.000$00; Costa & Ribeiro, Lda., 10.000$00; Joaquim Reis Pinto, 9.000$00; Pessoa & Veiga, 10.000$00; Alfredo Pedro de Almeida, 10.000$00; Filipe Manuel da Silva, 9.000$00; Fernando Alves de Azevedo, 6.000$00; António Ferreira da Assunção, 8.000$00; José Martins, 5.000$00; José Maria Costa, 5.000$00; Joaquim Alfredo Pessoa, 4.000$00; Julio Leopoldo Fernandes de Matos, 3.000$00; Alberto Perreira Correia, 6.000$00; e D. Celeste Vieira Gomes, 5.000$00. A gerência e administração, cujos escritórios funcionavam no Largo do Carvão, na Figueira, sem remuneração e com dispensa de caução, incumbia especialmente ao sócio António Pereira Correia, “que será auxiliado, quando o julgue conveniente, pelos sócios Filipe Manuel da Silva e António Justino da Costa”. O presidente do conselho fiscal era o dr. Ernesto Gomes Tomé”.
Escritórios da Cerâmica e Exportadora, na Figueira (foto Arquivo Municipal)
(continua)
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Tavarede - histórias
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Fernando da Silva Ribeiro
Filho de Gentil da Silva Ribeiro e de Emília Coelho de Oliveira, casou com Maria de Jesus Fernandes Serra, tendo duas filhas: Fernanda e Aurélia.
Faleceu no dia 9 de Setembro de 1978, com a idade de 79 anos.
Foi aferidor da Câmara Municipal da Figueira da Foz, pelo que percorria, frequentemente e de mota, que era o seu meio de transporte habitual, todo o concelho, para aferição de pesos e medidas dos diversos estabelecimentos.
Elemento preponderante do grupo cénico da Sociedade de Instrução, onde se evidenciou como ponto. Também exerceu as funções de professor na antiga escola nocturna desta colectividade, “tendo conquistado a simpatia de todos os seus conterrâneos e de inúmeras pessoas que a ele recorriam para tratar de assuntos comerciais”.
Aliás, foi dele a iniciativa da construção de um estrado em madeira para cobertura da plateia da sala de espectáculos que, em dias de bailes, transformava aquela sala num enorme salão de dança. Ainda nesta colectividade, foi, durante vários anos, o responsável pela biblioteca. Em sua memória, foi dado o seu nome à sala onde a mesma se encontra instalada. Foi sócio honorário em 1974.
Além de se dedicar, nos tempos livres, à carpintaria e ao amanho de umas terras de cultura, era emérito caçador e sócio dedicado do grupo de amigos “Os Inseparáveis”.
Ainda foi, por algumas gerências, presidente da Assembleia Geral do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
Caderno: Tavaredenses com História
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Tavaredenses com história
Os Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro - 4
A QUINTA DO PAÇO
De frente da escola primária situava-se a Quinta do Paço. Estendia-se desde a estrada para a Figueira da Foz, até ao palácio dos Condes de Tavarede, ao princípio da povoação, vindo do lado poente. Do sul, era limitada pelo caminho da Várzea, naquele tempos um caminho bastante impróprio para qualquer viatura, e pela Quinta da Esperança.
Desde a estrada da Figueira, logo acima dos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro, até ao caminho da Várzea e ladeando a Quinta da Esperança, ficava a mata, então conhecida pelo nome de “mata ou pinhal do Rosa”. Era a velha mata da Quinta do Paço onde, fazendo fé em Ernesto Fernandes Tomás, nas suas “Recordações de Tavarede”, deveria ter andado a fidalga D. Maria Mendes Petite, chorando e lamentando a morte de seu filho Pero Coelho, “um dos carrascos de D. Inês de Castro”, a mando do rei D. Afonso IV e mandado justiçar pelo rei D. Pedro I.
A mata, nos tempos do morgadio, deveria ser bastante maior, abrangendo terrenos que teriam, depois, sido desanexados. Perto do caminho da Várzea já referido, ficava uma pequena fonte, com azulejos bastante antigos, que no meio de enormes acácias e pinheiros, era um local muito frequentado por grupos familiares, e não só, que ali iam, devidamente autorizados pelo dono, merendar e passar uma bela tarde de descanso, nos dias encalorados do verão. Muitas vezes se organizavam lá festas, com danças e jogos populares.
Junto aos Quatro Caminhos e logo no início da subida para o Alto de S. João, havia um enorme barranco que as chuvas do inverno enchiam de água. Era um barranco resultante da extracção de barro para o fabrico de telha e tijolo na cerâmica sita em frente. Como ficava junto ao pinhal, ou mata, muitas eram as vezes que para ali iam, nos dias em que o calor era intenso, alguns tavaredenses armar um bebedouro e montar a respectiva rede para caçarem pardais e, sobretudo, rolas, que haviam em abundância naquela zona muito arborizada. Era proibido e arriscado pois ficava mesmo à beira da estrada, mas... “quem não arrisca, não petisca!”...
De frente da escola primária situava-se a Quinta do Paço. Estendia-se desde a estrada para a Figueira da Foz, até ao palácio dos Condes de Tavarede, ao princípio da povoação, vindo do lado poente. Do sul, era limitada pelo caminho da Várzea, naquele tempos um caminho bastante impróprio para qualquer viatura, e pela Quinta da Esperança.
Desde a estrada da Figueira, logo acima dos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro, até ao caminho da Várzea e ladeando a Quinta da Esperança, ficava a mata, então conhecida pelo nome de “mata ou pinhal do Rosa”. Era a velha mata da Quinta do Paço onde, fazendo fé em Ernesto Fernandes Tomás, nas suas “Recordações de Tavarede”, deveria ter andado a fidalga D. Maria Mendes Petite, chorando e lamentando a morte de seu filho Pero Coelho, “um dos carrascos de D. Inês de Castro”, a mando do rei D. Afonso IV e mandado justiçar pelo rei D. Pedro I.
A mata, nos tempos do morgadio, deveria ser bastante maior, abrangendo terrenos que teriam, depois, sido desanexados. Perto do caminho da Várzea já referido, ficava uma pequena fonte, com azulejos bastante antigos, que no meio de enormes acácias e pinheiros, era um local muito frequentado por grupos familiares, e não só, que ali iam, devidamente autorizados pelo dono, merendar e passar uma bela tarde de descanso, nos dias encalorados do verão. Muitas vezes se organizavam lá festas, com danças e jogos populares.
Junto aos Quatro Caminhos e logo no início da subida para o Alto de S. João, havia um enorme barranco que as chuvas do inverno enchiam de água. Era um barranco resultante da extracção de barro para o fabrico de telha e tijolo na cerâmica sita em frente. Como ficava junto ao pinhal, ou mata, muitas eram as vezes que para ali iam, nos dias em que o calor era intenso, alguns tavaredenses armar um bebedouro e montar a respectiva rede para caçarem pardais e, sobretudo, rolas, que haviam em abundância naquela zona muito arborizada. Era proibido e arriscado pois ficava mesmo à beira da estrada, mas... “quem não arrisca, não petisca!”...
Ora desse local e até ao edifício do Paço, a quinta, do lado da escola, era limitada por um velho muro. Pouco ou nada cuidado, o muro era “habitado” por imensos lagartos, os sardões, que aproveitavam o sol para se aquecerem no cimo do muro. Era uma quantidade enorme destes bichos. A rapaziada divertia-se a atirar-lhe pedras, fazendo-os fugir para as suas tocas. Alguns, mais habilidosos, usavam as suas fisgas e muitas vezes acertavam em cheio nos inofensivos répteis. Mas, voltemos à Quinta do Paço.
Como sabemos, o fundador da Casa de Tavarede, o fidalgo António Fernandes de Quadros, casou com D. Genoveva da Fonseca, uma rica fidalga de Montemor-o-Velho, que era proprietária de vastos bens patrimoniais na nossa terra. “Foi António Fernandes de Quadros, senhor da Casa de Buarcos e Vila Verde, sendo esta a base e fundamento de sua Casa de Tavarede..... …...mandou fazer naquele lugar de Tavarede umas casas nobres, que para aquele tempo em que a vaidade não lançava os seus alicerces, são em tudo grandes: tem uma torre com ameias, o que não se permitia senão a pessoas de grande qualidade, e são o solar desta família neste reino”.
Tinha uma torre com ameias e tinha, também, nas suas fundações, “uns estreitos cárceres com argolões que se desfaziam ao tocar-lhe, como se fora madeira podre – resistindo, aliás, muito bem à oxidação o chumbo que os fixava à pedra, e que se achou perfeitamente conservado”.
Diz a tradição que o poderio dos Senhores de Tavarede era tanto que, quando procurados pelas autoridades reais, os mancebos que se encostassem ao muro da quinta não poderiam ser recrutados para prestação do serviço militar.
Como sabemos, o fundador da Casa de Tavarede, o fidalgo António Fernandes de Quadros, casou com D. Genoveva da Fonseca, uma rica fidalga de Montemor-o-Velho, que era proprietária de vastos bens patrimoniais na nossa terra. “Foi António Fernandes de Quadros, senhor da Casa de Buarcos e Vila Verde, sendo esta a base e fundamento de sua Casa de Tavarede..... …...mandou fazer naquele lugar de Tavarede umas casas nobres, que para aquele tempo em que a vaidade não lançava os seus alicerces, são em tudo grandes: tem uma torre com ameias, o que não se permitia senão a pessoas de grande qualidade, e são o solar desta família neste reino”.
Tinha uma torre com ameias e tinha, também, nas suas fundações, “uns estreitos cárceres com argolões que se desfaziam ao tocar-lhe, como se fora madeira podre – resistindo, aliás, muito bem à oxidação o chumbo que os fixava à pedra, e que se achou perfeitamente conservado”.
Diz a tradição que o poderio dos Senhores de Tavarede era tanto que, quando procurados pelas autoridades reais, os mancebos que se encostassem ao muro da quinta não poderiam ser recrutados para prestação do serviço militar.
Além disso, a velha quinta também era coito de famílias ciganas, que ali procuravam, e obtinham, a protecção dos morgados. Nesta quinta, e noutras propriedades do morgadio, os ciganos encontravam segurança, mesmo quando foragidos às autoridades. De alguns, até, parece que os fidalgos chegaram a ser compadres, como padrinhos dos filhos...
Nos finais do século dezanove, o terceiro Conde de Tavarede vendeu ao negociante de gado e comerciante Luís João Rosa, o solar e a quinta. A escritura foi feita no dia 24 de Fevereiro de 1898, tendo a venda sido efectuada pelo valor de 5.000$000 reis.
Nos finais do século dezanove, o terceiro Conde de Tavarede vendeu ao negociante de gado e comerciante Luís João Rosa, o solar e a quinta. A escritura foi feita no dia 24 de Fevereiro de 1898, tendo a venda sido efectuada pelo valor de 5.000$000 reis.
O terceiro Conde de Tavarede
Após o seu falecimento, em Outubro de 1916, os seus herdeiros venderam a propriedade a Marcelino Duarte Pinto, também ele comerciante e negociante de gado. O solar deixou de ser habitado, pelo que a sua degradação, já iniciada no tempo do anterior proprietário, embora ali residisse, foi-se acentuado cada vez mais. A enorme quinta já não era cultivada... Eram terrenos de pastagem para os gados.
Ainda teve outro proprietário que, em permuta feita com a Câmara Municipal da Figueira da Foz, cedeu o velho e ruinoso solar e a quinta que, posteriormente, foi urbanizada, recebendo o nome de 'urbanização da Quinta do Paço'.
Foi um episódio bastante complicado a referida urbanização. Não interessa, agora, detalhar a mesmo. Vou somente, para terminar este capítulo, recordar um belo poema que Mestre José Ribeiro escreveu e integrou na peça “História... e histórias de Tavarede”, que intitulou “Elegia da Quinta do Paço” e que foi interpretado pela saudosa actriz-amadora Violinda Medina e Silva.
Nobre Quinta do Paço, tão famosa,
Tão alegre e buliçosa,
Hoje és silêncio e tristeza.
Morta é já tua passada beleza
Em tristeza foi cruelmente mudada:
Eis-me de luto vestida.
Minha graça é já perdida.
Desolada,
Ao peso da desdita assim sofrida,
Cobre-me negro véu.
E eu, que altiva olhava o céu,
Agora, sucumbindo à desventura,
Olho a sepultura.
De quão longe minha memória vem...
Saudades de alegrias, e tristezas também.
Ai! com que enorme ansiedade
Eram esp’rados os serões
Que enchiam de alegre mocidade,
De risos e de vozes, os salões
Onde brilhava a graça feminina
Da Isabel Peregrina
E das irmãs Alfândegas, gentis,
Maliciosas, subtis
Na arte de queimar os corações!
A quinta silenciosa
É o refúgio do par enamorado
Que vem sonhar, e amar
À luz cariciosa
Do indiscreto luar...
Do recreio passáste à agricultura,
E os frutos do pomar
E o vinho do lagar
Foram beleza, alegria e fartura.
Sombras, verduras prateadas,
Amorosas terras cultivadas,
Canteiros perfumados de mil flores
Em opulentas manchas de mil cores...
Árvores e arbustos em recantos
Que o sol desconhece
E a amável lua esquece,
Caminhos atraentes
P’rá verde mata de acácias frondentes
Que tem pertinho a fonte graciosa
Que por mão do Senhor Conde ali nasceu...
Já nada existe, tudo ali morreu!...
Que vejo agora? Uma desolação!
Ouço chorar, dorida, a magoada terra,
Como se ali passara o turbilhão da guerra!...
Sucumbe à dor meu pobre coração!
(Canção da Quinta do Paço)
Quinta do Paço velhinha
Que viveste qual rainha
E agora descaída
Em tristeza e saudade!
Foi-se a tua majestade,
Tua nobreza é vencida
Quinta do Paço velhinha!...
Quinta do Paço velhinha,
Pobrezinha,
Hoje caída em desgraça!
Choras tua desventura.
Foi-se a beleza e a graça...
És a Quinta da Amargura,
Quinta do Paço velhinha.
Ainda teve outro proprietário que, em permuta feita com a Câmara Municipal da Figueira da Foz, cedeu o velho e ruinoso solar e a quinta que, posteriormente, foi urbanizada, recebendo o nome de 'urbanização da Quinta do Paço'.
Foi um episódio bastante complicado a referida urbanização. Não interessa, agora, detalhar a mesmo. Vou somente, para terminar este capítulo, recordar um belo poema que Mestre José Ribeiro escreveu e integrou na peça “História... e histórias de Tavarede”, que intitulou “Elegia da Quinta do Paço” e que foi interpretado pela saudosa actriz-amadora Violinda Medina e Silva.
Nobre Quinta do Paço, tão famosa,
Tão alegre e buliçosa,
Hoje és silêncio e tristeza.
Morta é já tua passada beleza
Em tristeza foi cruelmente mudada:
Eis-me de luto vestida.
Minha graça é já perdida.
Desolada,
Ao peso da desdita assim sofrida,
Cobre-me negro véu.
E eu, que altiva olhava o céu,
Agora, sucumbindo à desventura,
Olho a sepultura.
De quão longe minha memória vem...
Saudades de alegrias, e tristezas também.
Ai! com que enorme ansiedade
Eram esp’rados os serões
Que enchiam de alegre mocidade,
De risos e de vozes, os salões
Onde brilhava a graça feminina
Da Isabel Peregrina
E das irmãs Alfândegas, gentis,
Maliciosas, subtis
Na arte de queimar os corações!
A quinta silenciosa
É o refúgio do par enamorado
Que vem sonhar, e amar
À luz cariciosa
Do indiscreto luar...
Do recreio passáste à agricultura,
E os frutos do pomar
E o vinho do lagar
Foram beleza, alegria e fartura.
Sombras, verduras prateadas,
Amorosas terras cultivadas,
Canteiros perfumados de mil flores
Em opulentas manchas de mil cores...
Árvores e arbustos em recantos
Que o sol desconhece
E a amável lua esquece,
Caminhos atraentes
P’rá verde mata de acácias frondentes
Que tem pertinho a fonte graciosa
Que por mão do Senhor Conde ali nasceu...
Já nada existe, tudo ali morreu!...
Que vejo agora? Uma desolação!
Ouço chorar, dorida, a magoada terra,
Como se ali passara o turbilhão da guerra!...
Sucumbe à dor meu pobre coração!
(Canção da Quinta do Paço)
Quinta do Paço velhinha
Que viveste qual rainha
E agora descaída
Em tristeza e saudade!
Foi-se a tua majestade,
Tua nobreza é vencida
Quinta do Paço velhinha!...
Quinta do Paço velhinha,
Pobrezinha,
Hoje caída em desgraça!
Choras tua desventura.
Foi-se a beleza e a graça...
És a Quinta da Amargura,
Quinta do Paço velhinha.
Palácio dos Condes de Tavarede – frente – desenho de António da Piedade
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