sábado, 25 de janeiro de 2014
Usos e Costumes da Terra do Limonete - 4
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Usos e Costumes da Terra do Limonete - 3
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Usos e Costumes da Terra do Limonete - 2
sábado, 12 de novembro de 2011
S. MARTINHO DE TAVAREDE
Não há memória ter-se realizado qualquer cerimónia litúrgica ao orago São Martinho da freguesia de Tavarede.
Esta imagem muito deteriorada, foi retirada da Igreja Paroquial há muitos anos para o Museu Municipal da Figueira, e agora restaurada, por iniciativa do Revdº Pároco sr. Manuel Joaquim da Costa Ferreira, conseguiu que ela voltasse para o seu lugar. Para festejar a sua colocação, que de novo ficará no culto da Igreja Paroquial, realiza-se no domingo, 30, às 10 horas: missa solene, sermão e comunhão geral. Cantará o grupo coral feminino de Tavarede; às 14 horas: chegada da Filarmónica Figueirense, que acompanhará a recolha das oferendas de Condados, Saltadouro e Tavarede, dirigindo-se, depois, à Chã, onde se juntarão as dos outros lugares: Caceira e Casal d’Areia, Carritos, Bairro da Estação e Bela Vista, Casal da Robala e Vergieira, Vila Robim e Várzea; às 15 horas: solene procissão, que percorrerá o itinerário do costume. No fim, leilão das fogaças dos vários lugares da freguesia.
O produto das oferendas destina-se a custear as despesas da festa e da reparação da veneranda imagem de São Martinho, que, de novo, ficará ao culto na Igreja Paroquial.
Festa de regosijo, foi a que se realizou no dia 30 do mês findo, com o regresso da imagem de São Martinho, orago da freguesia de Tavarede e que agora está de novo no culto da Igreja Paroquial.
Festa inédita nesta freguesia, que revestiu grande contentamento. A procissão de lindo efeito, com a apresentação de 11 andores todos ornamentados com as oferendas que despertaram os olhares do povo, assim como o que conduzia a imagem de São Martinho – Padroeiro da freguesia.
Está de parabéns o Revdº Pároco sr. Manuel Joaquim da Costa Ferreira por ter realizado esta festa integrada com o regresso do orago São Martinho – Padroeiro de Tavarede.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
VISITA A TAVAREDE
Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.
Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupede de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.
Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo. Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira. Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.
Quando o sol já era menos e permittia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Figueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir.
sábado, 16 de abril de 2011
ASCENÇÃO E PRIMEIRO DE MAIO
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Quinta-feira da Ascenção
Então Jesus Cristo, cumprindo as profecias que assim já o haviam prenunciado, reuniu os seus discípulos no Monte das Oliveiras, o mesmo onde Judas Iscariotes o havia entregado aos soldados, e levantando as mãos os abençoou. Enquanto os abençoava foi-se elevando à sua vista, e subiu ao céu onde está sentado à direita de Deus, donde voltará, no Dia do Juizo, da mesma maneira por que foi p
É assim que a Bíblia nos conta a Ascenção de Cristo ao céu.
Ora nesse dia, quinta-feira, cumpre-se, há já longos anos, uma tradição. É a apanha da espiga.
Esta, segundo os antigos, deve ser apanhada da parte da manhã e guardada em casa. Significa o guardar a espiga, pedir a Jesus Cristo a mercê de, durante o ano, nos não faltar com as coisas que ela simboliza e que são mais necessárias à nossa vida.
A espiga é composta do seguinte:
- Malmequeres amarelos e brancos - representam ouro e prata;
- Trigo - significa o pão;
- Papoulas encarnados - que pedem alegria;
- Um bocado de oliveira e parra - é o azeite e o vinho;
Além destas coisas, indispensáveis, há pessoas que também juntam centeio, aveia e até favas. Estas, assim como o trigo, representam o pão, que é o nosso principal alimento.
E é para pedir a Jesus Cristo que nunca nos falte com o ouro e com a prata, o azeite e o vinho, e finalmente com a alegria, que neste dia se vêem pelos caminhos dos campos, enormes grupos de raparigas que, alegremente, procuram aqui uma seara de trigo para apanharem uma espiga, além uma oliveira para colherem um bocadinho e mais adiante os malmequeres, as papoulas e as restantes coisas, para formarem assim a espiga, conforme manda a tradição.
O certo é que, por volta do meio dia, se vêem as raparigas regressar a suas casas, alegres e felizes, com o ramo na mão, no qual sobressai o vermelho garrido das papoulas, igual ao tom carminado das suas faces que o sol, atrevido, corou.
Ao chegarem a casa correm pressurosas a guardar a sua espiga, a qual só será atirada fóra quando no próximo ano for substituida por outra.
É assim ano após ano.
A tradição, já tão velhinha, continua. As raparigas não a deixam esquecer. É vê-las como anciosas esperam este dia.
Oxalá nunca a deixem morrer e que sempre possam continuar a ir apanhar a espiga com a paz e a alegria que a mesma representa. (escrevi isto em 1957)
Cada espiga que vão colhendo é uma esperança que se aglomera no cérebro, cada flor cortada é um facho de luz mais puro que o sol benfazejo da primavera, que se lhes ilumina a alma e faz tanger a corda mais íntima do seu coração. É, pois, amanhã um grande dia, um dia santo, que até o mais libertino deve respeitar como o dia da Ascensão do Mártir do Calvário. “Se os passarinhos soubessem…”.”
A espiga era colhida da parte da manhã e, da parte da tarde, havia saída para os pinhais, para mais uma costumada merenda. Algumas famílias optavam por ir passar o dia às termas da Amieira, onde se realizavam grandes festas, enquanto outras escolhiam uma ida ao Bussaco. Foi ali, aliás, na quinta-feira da Ascensão de 1938, que se fez ouvir, pela última vez, a tão afamada tuna de Tavarede.
Por essas estradas além viam-se ranchos e ranchos de pessoas, e aqui na povoação passavam igualmente muitos outros com cestos enfeitados de verdura e flôres e recheiados de saborosos petiscos, que iam manducar á sombra d’árvores dispersas por ahi fóra.
Não era porém dia de S. João, mas sim o da festejada merenda grande, tão suspirado por todos os operarios que até Setembro gosam 2 horas de sesta.
Tavarede offerecia-nos mais um tom de quem estava em festa, do que a sua apparencia habitual de monotona pacatez.
Um grande cortejo de meninas e meninos, alumnos da nossa escola elementar, conduzindo cestos caprichosamente engrinaldados de flôres, percorreram muitas ruas da localidade. Á noite a exma. srª. D. Maria Amalia de Carvalho, sua intelligente professora, reuniu em sua casa muitas meninas suas discipulas e outras das suas relações, e ali estiveram em animado convivio até perto da meia noite.
Festas e mais festas!
Assistimos, pois, à sua merenda grande, que foi revestida de bela animação das creanças, com os seus cestos lindamente enfeitados.
Antes da merenda viam-se na sala as creanças, de pé, formadas numa roda, cantando varias cantigas populares. Seguiu-se a merenda. Cada creança foi então buscar os seus cestos cobertos de flôres, sentando-se, e cada uma tirando deles o seu variado sortido de comida. Os sorrisos despendiam-se de todos os rostos. A chilreada daquele viveiro encantava toda a gente que o admirava. Após a refeição novas canções entoaram, dançando tambem alegremente, comunicando a sua alegria ao espirito dos assistentes.
Assim se passou na escola desta localidade a tarde da merenda grande. A petizada divertiu-se até fartar e a todos deixou a melhor recordação o seu aprasivel festival.
Daqui felicitamos a distinta professora srª. D. Maria José Martins Santos por ter realisado na sua escola uma festa cheia de alegria e disciplina.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Ranchos do S. João
Lamentamos estes factos e para eles chamamos a atenção dos chefes de familia afim de evitarem que suas filhas, sem o minimo vislumbre de pudor, usem publicamente d’uma linguagem só adequada a colarejas.
Todas dançaram muito bem, e se tivessem cantado, melhor seria, porque lhes faltava agora a corda e falariam menos.
Na segunda feira realisou-se a costumada corrida de burros. Com grande animação, a rapaziada divertiu-se muito bem, havendo peripecias que despertaram a gargalhada. E assim fecharam as festas de S. João, por este ano.
Mas a má língua continuava...
Continuam as dessidencias entre as dançarinas dos ranchos de S. João. D’uma sabemos nós que foi consultar a Santinha, do Saltadouro e parece que esta afamada feiticeira lhe aconselhou um passeio no dia 25, à Ferreira, e depois de dar ali tres voltas no exterior da egreja com um pé no ar e uma agulha de fazer meia atravessada na lingua, à laia d’arganel, pôr o barrete de S. Tomé na cabeça e à saida do templo lavar a bôca na pia d’agua benta. Deve levar na algibeira um chifre de carneiro de quatro annos d’edade.
Deus permita que a receita dê bom resultado para descanço de tão laxativas pessoas.
Vencido era o primeiro rancho que suspendesse a dança, mas às nove horas da manhã nem um nem outro davam signal de baquear, embora interviessem por vezes algumas potencias estranhas, aconselhando o armistício.
-”É tempo de usar dos direitos que me são concedidos pela lei fundamental da nação portugueza e códigos apensos”, exclamou o nosso conspícuo regedor, que é homem a bulhas contrário, como dizia Tolentino. Dirigindo-se com toda a diplomacia aos chefes das duas facções, com eles parlamentou largamente, e às dez horas, no relógio do António Mota, o mesmo sr. regedor lançava aos ares um foguete, os trombones roncaram o hino da carta adorada, terminando assim a memorável batalha d’hontem.
Vencedores - os donos dos estabelecimentos locaes.
Vencidos - os chefes de família e a ala de tuberculosas d’amanhã.
O pavilhão da vitória deve ser arvorado no alto de S. Martinho e o registo de recompensas faz-se no livro negro dos taberneiros.
Dizem-nos que os ranchos se denominam: um - das solteiras, outro - das casadas. Vae crear-se outro - de viúvas... bem conservadas.
Tem sido muito censurado o procedimento do sr. regedor, dizendo algumas pessoas que ele devia ser enforcado ou metido perpetuamente na penitenciaria. Veremos se o não matam este anno.
segunda-feira, 15 de março de 2010
S. João de Tavarede
Para o anno de 1921 organisou-se uma brilhante comissão para levar a efeito aquelles festejos, começando por pegar na bandeira, após a entrega da mesma ao nosso paroco, pela comissão de 1920, mas só para meter figura na ocasião, visto que era acompanhada por musica e foguetes, a percorrer as ruas da terra, fazendo depois fraca figura perante os seus conterraneos, por nada mais ter feito, seguindo-se aquele numero as festas do anno citado.
D’ali para cá nunca mais se pensou em tal assumpto, razão porque não acreditamos que este ano hajam creaturas que pensem em realisar os tradicionaes festejos ao santo casamenteiro da nossa terra, sendo para lastimar que tal não aconteça, pois que, em muitas povoações deste e outros concelhos, se realisam todos os anos as costumadas festas, e só aqui se veja no esquecimento a do S. João, que sempre eram tão ambicionados pela gente moça, para dar largas á sua alegria!...".
Compreende-se apezar de já o termos ouvido dizer – que os seus habitantes resolveram promover aquelas festitas para vergonha dos de Tavarede e ao mesmo tempo com o intuito de os entusiasmar, tirando-os da apatia em que se teem conservado há 3 anos, para levarem a efeito os tradicionaes festejos a S. João.
Com bastante magoa notámos que quasi todos não se incomodaram, não obstante ter havido alguns – muito poucos – com vontade de pôr mãos á obra e trabalhar de fórma a não deixar passar em branco, mais um ano, as festas dedicadas áquele santo (que nos anteriores a 1921 deixaram boa impressão em todos os forasteiros que a ellas assistiram), não vendo realisados os seus desejos, por não terem encontrado quem os auxiliasse e por ficarem para muito tarde, apezar do S. João a todo o tempo ter vez.
Que tenham paciencia todos os apreciadores das festas realisadas na nossa terra, e que esperem até ao ano de 1924, que, estou por certo, se converterão no mesmo das do corrente: em nada".
Não lhes serve de nada as nuvens espessas de poeira clara da estrada, que nortadas fortes dos lados de Brenha sobre elas arremessam, como que a dizer-lhes: lavem a cara, oh porcas...
Mas vivem bem naquele antro do chalé compadre Casimiro, que é, além da Ti’Maria da Ferrugenta, mulher entendida em curativos da espinhela e pragas de bruchas, a figura de relevo do logar, pois que até tem tasca.
Calhou a fazerem no domingo ultimo a sua festa... a Bacho, a qual constou, ao que me dizem, de danças de sábado para domingo e neste dia de tarde até altas horas da noite. Tocaram num elegante coreto, armado sob uma figueira de S. João, que é d'aquelas que dá figos graúdos, 4 (!!) rapazes de Tavarede. Queimaram foguetes em barda. A iluminação chegou a ser de candeias de azeite penduradas na arvore que servia de tecto aos muzicos e dançarinos... O Fandango mais o Mocho eram também da comissão. Como não sabem lêr prescindiram do lápis e do papel e fizeram contas a traços na estrada, tendo por caneta um cajado do primeiro, que é um dos bons pastores do logar. Os músicos tremeram por momentos ao soar-lhes aos ouvidos estas negras e ingramaveis palavras: - o dinheiro não chega; faltam 17 melreis...
Mas os homens pagaram-lhes honradamente, como bons patrões que foram...
Conclusão. Por todos os cantos há festanças, há folguedos, e só o coração da freguezia anda negro como as habitações da Ferrujenta, não acordando de vez da letargia em que jaz vai para 3 anos.
Parece-nos que também vai haver bródio num outro logar denominado Casal dos Piratas.
Se olharem bem para o nome, os forasteiros são capazes de para lá irem armados até aos dentes, afim de, prevendo qualquer eventualidade, poderem bem gosar amanhando-se mutuamente...
Eu é que não ia nesse bote...
Ora os piratas!
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Festa da Árvore - 1916
E foi-o sem duvida, deixando boa recordação na memoria das pessoas que n’ella tomaram parte, principalmente das creancinhas.
O programma marcava para as 14 horas o cortejo civico, em que tomariam parte os alumnos das escolas official-mixta e nocturna, e outras associações locaes com os seus estandartes, mas devido ao mau tempo, só se organisou pelas 15 horas, approximadamente, sahindo da escola official em direcção ao Largo do Paço, onde foram plantadas duas arvores.
Ali, a srª. D. Maria José Paula Santos, illustre professora, recitou a poesia allusiva á Arvore, que os ouvintes no final muito applaudiram.
Em seguida, o cortejo dirigiu-se ao Largo do Forno (em frente á escola official), onde se plantaram mais quatro arvores. Alguns musicos do Grupo Musical encorporaram-se n’elle, executando a marcha A Arvore, que as creancinhas cantaram com todo o enthusiasmo.
O jantar dos alumnos das duas escolas, que estava marcado para as 16 horas, e que era servido no Grupo Musical, foi magnifico.
A commissão encarregou-se de comprar um lanigero, que, assado e guisado com as respectivas batatas, exhalava um cheirinho, que era sem duvida de todo o ponto agradavel, estando o palco replecto de creanças, que lindamente fizeram as honras da meza.
A plateia e galeria encontravam-se apinhadas de curiosos, que todos se regalavam em vêr comer.
A algumas pessoas de fora, que após o jantar retiraram, e que foram muito bem impressionadas, ouvimos nós dizer que até parecia impossivel n’uma pequenina aldeia, fazer-se assim uma festa que sem duvida foi excellente.
Às 21 horas principiou o sarau dramatico-musical no theatro da Sociedade de Instrucção Tavaredense, em que tomaram parte, alem das mesmas creanças, uma orchestra do Grupo Musical, sob a regencia do distincto professor, sr. Antonio Rodrigues Paula Santos, d’essa cidade.
O programma era dividido em 3 partes, e da seguinte forma:
1ª. parte, A Portugueza, cantada por todas as creanças. N’esta altura, o sr. dr. José Gomes Cruz, pronnunciou um breve e patriotico discurso, vivas a Portugal, á Republica, etc., que muito enthusiasmou o publico. S. exª. falou sobre aquella festa e sobre a nossa situação, sendo no final muito applaudido.
Em seguida, a menina Maria Ribeiro, recitou a poesia As Arvores, discursando depois o sr. Marcial Ermitão sobre variados assumptos, principalmente da participação de Portugal na guerra. Foi por varias vezes interrompido e no final tambem foi muito ovacionado.
Seguem-se a Luz do A B C, poesia, pelo menino Manuel Nogueira e Silva, Anjo da Guarda, uma canção, cantada por todas as creanças, Na Escola, poesia recitada pelo sr. Francisco Loureiro, e Os Luziadas, marcha, cantada por todas as creanças, finalisando assim a 1ª. parte.
A 2ª. parte, abriu com o Hymno das Arvores, entoado por todas as creanças, seguindo-se a poesia Às Arvores, pelo menino Antonio da Silva Broeiro, o monologo Pois sim senhor... pela menina Eduarda F. Serra, a canção O Ninho, entoada por todas as creanças, Ao rebentar da seiva, poesia, pela menina Maria Nathalia Victorina, O Pintasilgo, canção, entoada por todas as creanças, improvisando n’esta altura o sr. José Ribeiro, um brilhante discurso, explicando aos pequenitos o que era a festa da Arvore, falando tambem da guerra, etc., sendo no final calorosamente applaudido, seguindo-se depois as poesias Ás creanças e A Escola, recitadas respectivamente pelo sr. Antonio Medina Junior e pela menina Emilia Cardosa, e a canção A Escola, entoada por todas as creanças, finalisando a segunda parte com um discurso do sr. dr. Manuel Gomes Cruz, que fez vêr ao publico varias phases da guerra, falando tambem sobre a ligação das Sociedade d’Instrucção e Grupo Musical, que durante muito tempo andaram indifferentes, e agora na séde d’aquella colectividade tinham cruzados os seus estandartes, acabando o seu discurso por dizer que estava muitissimo satisfeito, não só por isto, mas por vêr uma festa d’aquella ordem na sua terra.
O hymno da Maria da Fonte, entoado por todas as creanças, dá começo á 3ª. parte, seguindo-se a Poesia Infantil, pela menina Emilia d’Oliveira, Engeitadinha, pela pequenina Adelaide da S. Flôr, A Madrugada, canção entoada por todas as meninas, o A B C, poesia, pelo sr. Antonio da Silva Coelho e depois Portugal, poesia, pela sua interessante filhita Izaura.
Finalmente representou-se a comedia drama em 1 acto, As Arvores, representada pelos meninos Aurelia Cascão e seu mano João, que tambem foram muito applaudidos, ponde termo ao sarau o hymno A Sementeira.
Ah! não nos esqueça dizer que antes do panno cahir, o sr. Marcial Ermitão veiu ao palco ler o seguinte telegramma de saudação a sr. Presidente da Republica:
Presidente da Republica - Palacio de Belem - Lisboa. - Povo de Tavarede, reunido para celebrar festa da Arvore, vibrando mais intenso enthusiasmo patriotico, applaude Portugal na guerra. A Commissão.
Na mesma orchestra tambem executado piano a distincta professora srª. D. Maria José Paula Santos, filha do sr. Antonio R. Paula Santos, que muito mais abrilhantou a Festa da Arvore de Tavarede, no dia 19 de Março do anno de 1916, dia que jámais esquecerá às pessoas de Tavarede, principalmente às creancinhas que n’ella tomaram parte.
Pelo bom exito d’esta festa, não podemos deixar de felicitar a digna professora official d’esta localidade, srª. D. Maria José Paula Santos e seu pae, o distincto professor de musica, sr. Antonio Rodrigues Paula Santos, incançaveis de tenacidade e trabalho, envolvendo tambem nas nossas felicitações a commissão organisadora da festa, que não se poupou a esforços e sacrificios para que ella resultasse, como resultou, brilhante e inolvidavel. (Gazeta da Figueira)
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Festa do Santíssimo
No sabbado, pelas 8 horas e meia da noite, chegou a esta risonha aldeia a philarmonica das Alhadas. Á sua chegada foram lançados ao ar muitos foguetes e deu-se começo aos festejos.
A noite apresentou-se feia, de um tempo chuvoso e acompanhado de vento sul que soprava com alguma violencia, dando-nos apenas um pequeno aguaceiro, que ainda assim fez desanimar os promotores da festa.
No largo em frente da egreja, onde se deviam realisar os festejos, o vento soprava com mais força, visto aquelle local se achar desabrigado, não podendo por isso illuminar-se convenientemente tanto a frontaria da egreja, como um pequeno pavilhão que se achava armado para a musica tocar, e por cujo motivo não o poude fazer.
A egreja esteve exposta é veneração dos fieis desde as 8 horas da noite até ás 11, sendo muito visitada.
O fogo foi regular.
Danças, apenas um pequeno rancho dansou na rua Direita, desde as 11 horas da noite até á 1 e meia da madrugada, mas muito desanimado em consequencia do tempo.
Domingo, o dia esteve lindissimo, celebrando-se com a maior pompa e solemnidade a missa e procissão. Era quasi meio dia quando se principiou a dizer a missa, acabando perto das 3 horas da tarde. O templo regorgitava de christãos. Foi cantada pelo revº. Manuel José da Cunha, que actualmente está fazendo as vezes de parocho da freguezia, por este se achar ausente, acolytando sua reverencia n’este acto religioso os srs. padres Fortunato das Neves, das Alhadas, e Emygdio, d’essa cidade. Ao Evangelho subiu ao pulpito o revº. parocho da Ferreira, sr. Manuel Vicente, que prégou muito bem.
Acabada a missa formou-se a procissão que foi concorridissima, e sempre na melhor ordem. N’ella viam-se encorporados além dos respectivos sacerdotes, um grande numero de irmãos e muitas creancinhas vestidas de anjo. Fechava a procissão a philarmonica Alhadense, tocando uma bonita marcha adequada a este acto. A procissão recolheu á egreja pelas 4 horas.
O côro era, como dissemos, composto por distinctos cantores e musicos de Coimbra e d’essa cidade. Foi magnifico. É digno de muito elogio o nosso conterraneo sr. José Gomes Cruz, um bom amador musical, que empregou todos os esforços para arranjar um excellente côro, para cujo serviço se tinha promprificado gratuitamente.
O sr. Horta a quem estava confiada a decoração da egreja, mais uma vez revelou as suas aptidões para este serviço, pois que a armação tinha um aspecto elegante.
Durante o resto da tarde o templo foi muito visitado.
A Estudantina Tavaredense tambem formou um rancho no mesmo local onde tinha dansado o outro na vespera e madrugada, estando sempre muito animado e dansando-se até ás 8 horas da noite.
E assim acabou esta festa, que agradou muito, louvando nós desde já a irmandade promotora, e desejando que ella para o anno se faça com o mesmo esplendor.
(Gazeta da Figueira - 23.Setembro.1896)
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O S. João de Tavarede
Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.
Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupere de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.
Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo.
Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira. Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.
Quando o sol já era menos e permirtia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.
Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Ftgueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir".
sábado, 20 de junho de 2009
A romaria ao S. Paio
Para nós era sempre um dia de festa. Chovesse ou fizesse sol, era certo e sabido que iamos sempre, no primeiro domingo de Julho, em romaria, vale acima, pelas Azenhas, até à capela do S. Paio, no Prazo.
Manhã ainda cedo, iam os homens, mota acima, caminhando e conversando, até lá acima, para preparar as coisas. Como de costume, a senhora Aurora, dos Monteiros, que tomava conta da capela, tinha tudo muito arranjadinho. A capela muito limpinha, o altar com alva toalha rendada, flores e a lamparina do azeite acesa.
Meu Pai era, como os irmãos e muitos amigos, caçador. Ou, pelo menos, um curioso pela caça. Não era, propriamente, para apanhar coelhos ou perdizes que, na respectiva época, lá ia com os amigos, espingarda ao ombro ou, como algumas vezes, sem espingarda mas com um varapau, como batedor. Para ele era um prazer o contacto com a natureza. Alguns episódios espero recordar.
Como tal, conhecia todos os recantos onde, no meio dos montes ou nas baixas férteis, havia fontes de água pura. Naquele tempo ainda as fontes corriam água e não conheciam a poluição! E no vale de S. Paio, pouco antes de chegarmos à capela, havia, e felizmente ainda existe, uma pequena bica, de água pura e fresquissima, que nos deliciava quando a bebiamos por uma folha de couve ou horto a servir de copo.
Uma pequena gruta, interiormente recoberta de avenca, por cujas folhas se via a água a pingar para uma pequena bacia escavada na rocha e de onde corria em fio para uma vala, com uma telha a servir de cano.
Estava, um dia, meu Pai internado no hospital da Universidade de Coimbra, onde tinha sido operado ao estomago. Em Julho o calor era bastante e, não podendo beber água, a sede atermentava-o. Prometeu, então, que se corresse tudo bem, ele iria com a família, no primeiro domingo de Julho, passar o dia ao S. Paio e beber um pouco daquela fresca água que ali tanto lhe lembrava.
Foi assim que começou. Ao princípio só alguns, poucos, familiares lá iam. Depois mais familiares e amigos começaram, também, a esperar ansiosamente este dia de confraternização.
Como atrás ia dizendo, mal os homens chegavam lançavam ao ar dois ou três foguetes, que estralejavam alegremente no ar, como que querendo anunciar, á aldeia lá em baixo, que já tinham chegado.
Preparavam-se os locais para depois se estenderem as colchas e as toalhas e o sítio onde se iriam disputar as provas desportivas, normalmente partidas de malha.
Entretanto o tempo ia correndo e às tantas, começava-se a olhar, com alguma ansiedade, cá para baixo, para a mota, procurando vislumbrar a vinda das mulheres que, saindo mais tarde, depois de arranjarem o farnel, tinham que subir até à capela mais pachorrentamente, pois as cestas à cabeça ou os cestos nas mãos, iam bem carregadinhos com os comeres. Os garrafões com o vinho já os homens tinham levado mas, mesmo assim, a peso certamente era muito.
Quando chegavam junto à capela eram horas de almoço. Apetite era coisa que não faltava. Os ares puros e frescos faziam mais efeito que o melhor aperitivo! No entanto, primeiro, era sempre o tempo das orações ao Santo.
Estendidas as toalhas, onde se dispunham os tachos com a comida, os talheres, pratos, copos, etc., sentávamo-nos nas colchas e eis-nos saboreando o almoço. Havia variedade, pois um dia não são dias. Peixe frito, galinha assada no forno ou de cabidela, coelho, etc. A sobremesa é que não era muito variada, normalmente arroz doce. E fruta, que sabia muito bem.
Bem comidos e bem bebidos, havia que passar o tempo até à tarde. Uns, especialmente as mulheres, depois de arrumados os tachos e lavada a louça, cá em baixo no ribeiro, aproveitavam para uma soneca. Algumas, por embirração às formigas, não dormiam mas faziam renda. Os homens, esses, dormiam, jogavam às cartas ou à malha, bebiam um copito de vez em quando...
A partir de determinado ano já havia bailarico. Do grupo passou a fazer parte o Diamantino Rocha, o Diamantino alfaiate ou Diamantino coxo, como lhe chamavam, que não se esquecia em casa da sua sanfona, e era ouvi-lo a tocar, sentado num pequeno tronco à sombra, e a dar e dar ao fole. Havia, algumas vezes, mais músicos. Meu Pai e meu Tio José tocavam bandolim e viola, respectivamente. O Manuel Lindote tocava viola e ou pífaro. E havia mais. Parece que estou a ver dançar aquelas danças de roda (polcas e mazurcas) que eram as modas dos arraiais de então...
Pela tarde, e porque o almoço já lá ia, era tempo de vir toda a gente para baixo, para junto da azenha, perto da fonte, onde novamente se estendiam as toalhas e se atacava as sobras do almoço, numa merenda farta. Havia sempre comer com fartura e era ver os homens olharem para os farnéis dos vizinhos à procura dum petisco diferente, que lhes fizesse boca para mais um copito. Era mais fácil acabar a pinga do que o comer. Vinham sempre ainda os tachos com alguma coisa que se não estragava, pois no dia seguinte já havia o jantar feito.
Quando se começava a avizinhar a noite, embora ainda com bastante ar de dia, porque o caminho era estreito e algo acidentado, até aos Canos, eis-nos de regresso. Era sempre cantando que se efectuava a caminhada até Tavarede.
Chegados a casa, mal havia tempo de lavar. O sono, activado pelo passeio e pelos abusos dos petiscos e das pinguitas, obrigava a fechar os olhos e o corpo pedia o descanso da cama.
No dia seguinte a vida recomeçava com a rotina habitual. Trabalho e mais trabalho. E, entretanto, começava-se a contar o tempo em falta para a romaria seguinte...
Até que um dia a romaria acabou. Chegou um ano em que alguém entendeu que o que era uma romaria familiar ou de amizade, também havia de ser de negócio. Foram para lá, armaram uma tenda, e vá de vender vinho e outras bebidas às imensas pessoas que entretanto iam até lá, especialmente depois de almoçarem em casa. Pessoas estranhas. É claro que, copo atrás de copo, acaba por dar mau resultado. Tudo com estranhos, mas houve zaragata e pancadaria. Resolveu-se, de comum acordo, acabar com a romaria ao S. Paio.
No ano seguinte, somente meu Pai com os familiares mais chegados, é que foram dar cumprimento à promessa. Enquanto foi vivo e teve possibilidades físicas o fez. Foi pena!
Era um dia diferente e, se não fosse a ambição do negócio, tudo teria continuado. Talvez, até, a promessa que um dia meu Pai fez se tivesse transformado, após a sua morte, numa verdadeira romaria da aldeia. Em Tavarede não há outra.
E agora, tantos anos depois, a capela lá continua. Ainda há pouco tempo lá estive. Muito arranjadinha mas já não no meio dos pinheiros e das acácias, mas de eucaliptos que também chegaram à encosta da capela do S. Paio.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
As festas ao S. João de Tavarede
Já não são do meu tempo as grandes festas populares em Tavarede. No primeiro caderno, e com base nas notícias colhidas na imprensa figueirense, recordei as principais. E, segundo os elementos disponíveis, em lugar bem destacado, encontravam-se as festas ao S. João. Destas, o número que tinha mais fama eram as cavalhadas. Na terceira parte deste caderno, entre as diversas histórias que conto, volto a recordar estas festividades, especialmente para dar a conhecer como e quando acabaram.
Mas as cavalhadas foram recordadas num dos primeiros anos de 1940. Lembro-me muito bem de ver desfilar o cortejo frente a minha casa, com a bandeira à frente, a caminho da Figueira e Buarcos, para dar a antiga volta. E, assim, também aqui vou recordar as festas ao Santo Precursor, como o farei a outras que, de alguma forma, ainda se efectuavam ou foram evocadas nos meus tempos.
Das festas sanjoaninas, vou transcrever uma nota escrita por Mestre José Ribeiro.
“As chamadas festas de S. João em Tavarede tiveram sempre carácter religioso e profano. Com mais propriedade lhes chamaríamos – São João do Limonete.
O número de maior realce e que mais avultava nestas festas de S. João, e as tornava bem conhecidas em toda a aldeia e arredores, foram, incontestavelmente, as cavalhadas ou, como mais singelamente se designava o conjunto daqueles festejos – a Bandeira. E, já que referimos a Bandeira, melhor se dirá as bandeiras, porque de duas bandeiras se tratava. Seja-nos permitido ler o que consta da acta da sessão da Junta da Paróquia de Tavarede, de 26 de Junho de 1889:
“As bandeiras de S. João são trastes ou objectos da paróquia, tendo o padre obrigação de fazer a sua entrega aos forasteiros que se apresentarem para fazer a festa, visto que o fim principal destas funções é um divertimento de arraial com fogueiras no mês de Junho, onde se salta, canta e dança estouvadamente; iluminações nas ruas, cavalhadas em toda a qualidade de alimárias, mascaradas grotescas, com folganças e exibições fantasiosas, tudo para entreter, divertir e fazer rir”.
Antes do início das festas fazia-se a chamada pega da bandeira, às vezes com cerca de um ano de antecedência sobre a nova festa de S. João.
Na manhã do primeiro domingo da festa havia a função religiosa, com aparatosa ornamentação da igreja, missa cantada e sermão. Vinha também orquestra, e alguns cantadores de Coimbra.
As cavalhadas eram o prato forte da festa, com o grande cortejo equestre, assim formado: abrindo o cortejo, em nota cómica e com sabor carnavalesco, vinha numerosa burricada, em jeito de guarda-avançada da cavalaria que abria com dois guias, assim chamados os dois cavaleiros que iniciavam o solene cortejo hípico e exibiam cada um a sua vara de 2 metros, pintada de branco e com um lacinho de fita de cor. Seguia-se então a cavalaria, em duas filas que marginavam as ruas do percurso; nesse conjunto destacavam-se dois grupos de 3 cavaleiros: o porta-estandarte da bandeira pequena, ao centro e os dois padrinhos, um de cada lado, e grupo semelhante com a bandeira grande. Era um cortejo extenso, vistoso e imponente.
No asínino grupo da guarda-avançada já referida destacava-se o muito simpático, e sempre alegre e desejada presença, representante da famosa e estimadíssima dinastia dos Toquins de Tavarede. Este vistoso cortejo passava por Buarcos, ia dar volta à Praça Nova, na Figueira, e vinha de seguida a Tavarede, a dar as tradicionais 3 voltas à igreja, enquanto festivamente repicavam os sinos da torre.
Emudecidos os sinos, era a pausa do cortejo. Os cavaleiros abalavam por instantes largando rédeas; as mesmo tempo, ao longo da rua, desde a Igreja ao Paço, vão-se abrindo as portas e aparecem as moradoras, mulheres e raparigas, sobraçando limonete, erguendo e oferecendo, em alegria ruidosa, ramos de limonete, braçadas de limonete, numa apoteose de verdura rústica e bem cheirosa. O silêncio tristonho da rua mudou-se em animação de vozear alegre; dominava já a mocidade de Buarcos, gente moça que aproveitava o passeio e homens e mulheres que vinham à feira do limonete. Pequenos quintais de residências, leiras do Quintal Ferreira, retalhos de várzeas em redor da aldeia, eram pródigos em limonete: fosse velhos troncos que a poda impiedosamente fizesse reverdecer e enfeitar-se de novos e sempre renovados ramos, ou novos e generosos limoneteiros que já exibiam ramos vigorosos, alguns prestes a enfeitarem-se de pequeninas estrelas nas pontas dos ramos franzinos, em flores ternadas ou binadas, dispostas em espigas frouxas, formando panícula piramidal.
Nesta pausa do cortejo, intervalo obrigatório, os cavaleiros não se ficavam quedos, que o não consentiam os cavalos frenéticos, talvez já embriagados com o cheiro da lúcia-lima, a bela-luísa, a doce-lima, a erva-luísa, o pessegueiro inglês – que tudo é limonete.
Alguns dos cavaleiros vestiam fraque e chapéu alto, e era vê-los abalarem, velozes, pela rua cheia de gente, aproveitando o intervalo para uma fuga em visita-relâmpago aos arredores da aldeia.
A cerimónia religiosa, na igreja primorosamente ornamentada para o efeito, realizava-se com toda a pompa e respeito. Orquestra e cantores fizeram-se ouvir no coro. No púlpito, um sacerdote proferiu adequado sermão. A cerimónia decorria sob a invocação de São João Baptista. Não me lembro de ter ouvido referir no sermão o nome de Herodíase que no meu espírito vinha sempre ligado ao da luxuriosa Salomé e ao martírio de São João Baptista, o profeta Yokanaan. A propósito, direi que vi a cabeça degolada do puro e austero pastor que vivia no deserto e se alimentava de mel silvestre e gafanhotos. Posso garantir que vi a cabeça de S. João Baptista – moldada em barro, naturalmente... e muito bem pintada -, já colocada sobre o grande prato de cobre que servia ao sedutor bailado da Salomé, no caso interpretada pela exímia, rica e formosa bailarina Sara Sevilha, que teve luxuosa habitação na Figueira, no chalé da quinta do Pinhal, muito falada então bailarina famosa que tivemos oportunidade de apresentar aos leitores de “A Voz da Justiça”, neste nosso jornal nos dias 9, 20 e 30 de Maio de 1922.
Passaram 60 anos...
Terá envelhecido a sempre jovem, brilhante e formosa Salomé do chalé luxuoso e rico do Pinhal?”.
Quase tão desejadas quanto as festas a S. João, eram as madrugadas do primeiro de Maio, estas com a particularidade de inspirarem poetas. E se já transcrevi alguns trechos bem poéticos, muitos mais encontrei e que merecem ser recordados. O poeta e escritor figueirense António Augusto Esteves, que usou o pseudónimo de Carlos Sombrio, deixou-nos descrito a primeiro de Maio na fonte da Várzea.
“Quem não conhece, na madrugada de amanhã, a Fonte da Várzea da Figueira?
Ranchos alegres que apregoam, nas cantigas repassadas de côr, a alegria salutar do amor, da vida, da felicidade!...
Cântaros à cabeça, transformados em maciços de flôres, elas lá vão em busca da água fresquinha que hão de trazer no regresso, depois de bailarem a alegria que lhes vai nas almas e de folgarem tôda a mocidade que vive nos seus corações amorosos.
É que aquela Várzea é bem, neste dia, um altar onde as moças poisam as melhores preces de seu amor feliz, e onde fazem as preces da sua alegria venturosa.
Reboam ali, naquele largo, pertinho da Fonte, cantigas desfiadas por fieiras de oiro, correndo, como veios de água cantante e fresca, cada vez mais felizes, cada vez com mais encantos.
E quando o sol se ergue para doirar a folhagem tenra dos arbustos, a desafiar o viço e a roubar a frescura das rosas – manchas de neve, pintas de oiro ou pontos vermelhos, sensuais, de fogo aveludado -, em que a palidez da madrugada empresta às moças desaparece, para as fazer de olhar mais perturbante, mais amoroso e mais feiticeiro, a ventura, a saúde, o prazer de gosar a liberdade, de cantar e de viver, assim, à sôlta, - viver que não extenua, que não cansa, que perturba e entontece, - então os corações erguem-se mais altos, tão altos como
Pudessem muitos mentir, e na madrugada de amanhã, o riso a florir nos lábios, a alma, lá dentro, a brincar contente, satisfeita e feliz, ir até à Várzea, nos ranchos alados da mocidade, e dizer às rosas, no seu dia, o que sentem e o que não podem dizer!...
Se assim fôsse, todos seriamos felizes, todos seriamos alegres, contentes, pelo menos, aparentemente.
E as rosas, no dia do seu culto, teriam, naturalmente, mais beleza, mais frescura e mais perfume!...”.
Finalmente, mais uma vez recorro a Mestre José Ribeiro. Aliás, foi ele quem em 1950, na sua peça “Chá de Limonete”, fez reviver o rancho dos potes floridos de Tavarede.
“Passaram agora sob a nossa janela as raparigas do rancho do Maio.
O rancho do Maio!
Todos os anos se organiza este cortejo florido. E quando passa nas ruas, deixando no ar o eco das cantigas e o perfume das rosas – é Primavera!
Quando Abril começa a despedir-se, as raparigas animam-se, combinam, organizam o rancho. E na véspera do dia ansiosamente esperado, pedem às vizinhas, correm aos jardins, vão ao mercado – e levam para casa arregaçadas de flores. Arranjam os trajos. Enfeitam os potes, que desaparecem sob os desenhos caprichosos das rosas e malmequeres. Mal pregam olho durante a noite. E quando a manhã só é adivinhada pelo seu espírito em alvoroço, erguem-se, chamam-se umas às outras, reúnem-se – e as suas vozes fazem a alvorada antes que o chiar das rabecas e o tom-tom dos violões arrepie o ar nos estremeções da afinação.
E marcham. Estrada fora, marcam em piso leve, airosas e frescas, o compasso da marcha que as suas vozes erguem no espaço, subindo alto, levada muito alto no perfume das flores, até fundir-se na atmosfera da madrugada húmida e ainda pesada dos orvalhos da noite. Sobre as cabeças inquietas levam os potes floridos. Dentro dos peitos arquejantes uma ansiedade, uma aspiração indecisa que toma forma nas suas bocas e é Amor nos seus lábios vermelhos sem pintura...
... Cantigas de amor!
... E a Vida aparece-lhes clara e transparente como a água das fontes que cai das bicas e canta com elas, luminosa e brilhante como a luz que começa a entornar oiro fluído sobre o azul do céu e o verde tenrinho, muito tenro e muito verde, da planície viçosa.
Este ano o Abril foi de inverno. Frio e vendaval, chuvas teimosas que não tinham fim. Os rapazes da música não queriam sair: - Tenham juízo, não sejam malucas! Apanhar uma chuvada e ficarmos como pintos...
Mas elas, enfeitando os cântaros, vendo-se no espelho das flores e recebendo destas a alegria e a certeza da primavera, viam lá a chuva, sentiam lá a chuva, queriam lá saber da chuva!... O 1º. de Maio era sempre o 1º. de Maio. No 1º. de Maio há sempre sol. Elas não acreditam na chuva. E se a chuva vier – há-de desfazer-se ao calor das suas vozes, dos seus corações ansiosos, da sua mocidade ardente. Elas acreditam no 1º. de Maio – e porque acreditam nele, vencem a chuva e vencem a dúvida e o medo dos rapazes das violas que parecem velhos – como o Velho-do-Restelo...
Passou agora o rancho sob a nossa janela. Lá de cima do céu, que parece mais baixo todo forrado de chumbo, cai uma chuva miúda, muito leve e muito fina, como poeira de prata. Mas não desce além dos telhados, fica-se no ar, suspensa sobre a camada de som e de perfume que enche a rua numa alvorada de sol.
... Os cântaros enfeitados!
... E as raparigas dos cântaros!
Há neste conjunto de flores e gente moça que não sente a chuva e que vence a chuva, qualquer coisa
Quantos não vêem o sol porque se assustam com a chuva?
Quantos homens poderiam aprender no riso fresco, na chama da vida, na certeza da Primavera destas raparigas que vão lá adiante no cortejo florido dos cântaros, a vencer a dúvida e a edificar por suas mãos o triunfo da sua crença?”.
Prossigo, agora, com mais uma evocação ainda comemorada nos meus tempos de criança. A tarde da chamada “merenda grande” era de ida aos pinhais onde, sob a sombra acolhedora e fresca, eram comidos alguns petiscos. O pinhal mais frequentado era o da quinta da Borlateira, aos Quatro Caminhos. Com o farnel acondicionado no cesto, lá íamos à procura de poiso onde pudessemos estender a toalha e umas velhas mantas, onde nos sentávamos confortavelmente. Claro que também esta “merenda grande” já era uma pálida amostra das antigas, como se pode adivinhar por este recorte, publicado em 1902.
“Diz-se, e com razão, que esta vida são dois dias... É um pensamento que não oferece dúvida, e eis porque muito boa gente não perde um momento em que os possa levar regaladamente. Assim, é ver como alguns andam á espreita dos dias de folgança, para gozar e divertirem-se; há uma festarola, lá vão - em massa, cheios de alegria, farnel aviado e ideia fixa no santinho que os arrasta áquela adoração - esquecer por umas horas as tristezas e amarguras da atribulada vida...
E aqui estava eu a começar um banal aranzel, quando afinal o meu intento é falar da merenda grande, que foi na segunda-feira, e que, como é da praxe, atraíu á minha risonha terra bastante gente que gosta da pandega. Isto contaram-mo, porque a pouca sorte não me deu a felicidade daquelas venturosas creaturas...
Mas as locandas animaram-se; por essas quintarolas fora dizem-nos que houve regabofe desmedido; as pequenas alunas da escola oficial cantavam as estopinhas pelas ruas da povoação, cestinho á cabeça, qual deles enfeitado com mais capricho; nas lautas merendas devoradas com apetite á fresca sombra de copadas árvores ou entre o inebriante perfume exalado dos canteiros e vergéis engrinaldados de lindas rosas, ou ainda nas eiras, onde corria brandamente a pura viração do norte, tudo concorreu para deliciar os ditosos visitantes da minha estremecida e bem amada ald
Rancho 1º. de Maio - 1975