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sábado, 25 de janeiro de 2014

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 4

No dia seguinte formou-se a cavalhada da bandeira, que visitou esta cidade e Buarcos, vindo n’ella encorporados muitos rapazes da Figueira, alguns dos quaes, em carros e a cavallo, apresentaram engraçadas exhibições. Cavalhada vistosa, na verdade, e que certamente agradou aos figueirenses, a julgar se pelos commentarios. De tarde, o competente arraial, fogo, danças, musica, numerosissimas petisqueiras por quintalejos e quintarolas, á sombra amiga das arvores, muito pó, muito sol e vinho em excesso e mal distribuido. A ordem publica, diga-se a verdade, foi por vezes alterada, e sete devotos de Bacho dormiram a noite de domingo na sombria masmorra, situada perto da rua Fresca, n’esta cidade. Mas não foi cousa de maior; apenas troca de varios tabefes e resistencia por parte d’alguns a quem o alcool excitou”.
         Como curiosidade, recordamos que nesse ano Tavarede teve duas festas, uma com a bandeira grande e, na semana seguinte, outra com a pequena.
         E foi com maior ou menor regularidade que o costume se manteve, algumas vezes sem as cavalhadas e limitadas à aldeia. Foi o que aconteceu no primeiro ano do século vinte. “A noite de sabbado e a tarde de domingo últimos, foram de verdadeira folia para os rapazes e raparigas, que durante longas horas se fartaram de dar á perna no Largo do Paço. Isto de fixar horas em divertimentos d’aquella natureza, é sempre querer ser-se mais papista que o papa. Falamos assim porque, dizendo nós que a dança começaria ás 10 horas da noite, ella só principiou a funccionar perto da meia-noite, hora a que abrandou mais a furiosa nortada que tinha soprado até ali, e que impedira que se fizesse a illuminação á hora annunciada. Dansou-se até perto das 4 horas da manhã, quando o dia rompia com os seus primeiros clarões auroriaes.
Na tarde de domingo vieram aqui algumas pessoas d’essa cidade, que, gosando não só o agradável passeio, manducaram bellas merendas e famosos petiscos, viram (aquellas que chegaram pelas 5 horas) as corridas de prémios, e, além d’isto, tiveram occasião de admirar depois, ás 6, o rancho de bonitas raparigas e sympathicos rapazes que até ás 9 horas da noite deu folgas á mocidade. E sabe Deus quantas palavrinhas doces sahiram de muitos lábios apaixonados que la havia, quanto prazer não sentiriam tantos pares que se estreitavam com ternura n’aquella massa de seres cheios de amor e de vida!...
É que n’aquella edade e n’aquelles momentos nada se sente. Todas as almas trasbordam de felicidade e toda a existência sorri repleta das venturosas esperanças! E assim é que para os corpos moços d’hoje, a dansa é a única distracção que os satisfaz para gosar e que lhes deixa sempre mais ou menos recordações saudosas. Por isso, com os louvores que rapazes e raparigas teceram aos promotores d’aquella festa, vão também misturados os nossos, porque, com a sua realisação, quebraram por algumas horas a monotonia que aqui se nota continuamente”.
A nossa terra chegou a ter concorrência na realização dos festejos. O vizinho Casal da Robala, durante alguns anos, também festejou S. João. No entanto, e segundo notícias colhidas, havia o costume de haver, igualmente, um arraial... de pancadoria! Em Tavarede, sempre os festejos se iam realizando, algumas das vezes com menos animação e... menos dinheiro para os gastos.
Regressando às festas sanjoaninas em Tavarede, recordo as notas recolhidas em 1917, pelas quais se verifica que o antigo brilho havia voltado. “Como estava annunciado, foi effectivamente nos preteritos dias 7 e 8 que aqui se dançou animadamente, ao som d’uma bem afinada orchestra, composta por rapazes do Grupo Musical e da Sociedade d’Instrucção.
         A commissão que promoveu estes festejos está empenhada para que os do dia 29 sejam revestidos do melhor exito, pois que, segundo nos informam, não só se dançará de 28 para 29, como tambem n’este dia se realisará, na egreja d’esta localidade, a communhão das creanças, que são em numero approximado a 40.
         Não quer a mocidade folgazã de Tavarede pôr no rol do esquecimento as tradiccionaes festas ao Santo Casamenteiro, outr’ora tão gabadas por toda a gente que a ellas assistia, como por exemplo um dos seus melhores numeros – senão o mais apreciado e melhor, incontestavelmente – as Cavalhadas, pela fórma pomposa como sempre se apresentavam.
         O itinerario que percorriam foi sempre este: - de Tavarede para a Figueira, onde davam o passeio, as voltas ás praças, á egreja; seguiam depois a Buarcos, onde rapazes e raparigas bebiam o seu copo d’agua – não esquecendo os homemsinhos do Zé P’reira, que bebiam copos d’ella em triplicado, porque, diziam elles, já não tinham tempo de molhar a palavra senão em Tavarede, que era o fim da caminhada, regressando depois a Tavarede, n’uma constante alegria, o que era proprio d’aquelles dias festivos e alegres.
         Por onde quer que passassem, haviam de deixar espalhado na atmosphera o cheirinho de todo o ponto agradavel das flôres, com que todos presumpçosamente ornavam as suas montadas: mas os que d’entre todos sobresahia era o do limonete, de que Tavarede é bem farta.
         Este anno não há nada d’estas coisas que com saudade recordamos, e a razão abstemo-nos de a explicar, porque é já bem conhecida de todos. Mas em compensação far-se-hão, como acima dizemos, apenas descantes populares e uma festinha dentro da egreja, na qual tomarão parte um organista e alguns musicos do Grupo Musical, que tocarão, durante o acto religioso, alguns dos seus allusivos numeros de musica, que as creancinhas em côro cantarão.
         Estamos, pois, convictos que os modestos festejos d’este anno decorrerão na melhor ordem, que é o que sinceramente desejamos”.
E o mesmo jornal figueirense voltou ao assunto dias depois. “Como annunciámos, realisou-se com effeito no preterito dia 29 a festa consagrada a S. João, que n’esta localidade soe fazer-se com a maior solemnidade, attingindo a d’este anno o mais elevado grau, como aliás era de esperar.
         Além dos diversos festejos caracteristicos, que constam de danças e descantes, houve a communhão ás creanças, que deu um cunho de maior solemnidade e mysticismo ás festas, e que se realisou na Egreja Matriz, pelas 13 horas.
         A egreja, ricamente adornada, achava-se replecta de fieis, tanto d’aqui como dos logares proximos, que não perderam o ensejo de vir assistir a estas festas tradicionaes, que os distrahe um pouco da labuta ardua e monotona da vida rude do campo.
         Era deslumbrante o aspecto festivo que animava as ruas!...
         N’um dos largos ostentava-se um elegante pavilhão, bellamente engalanado com flôres, bandeiras e balões... perdão, os balões, pertencentes a uma sociedade local, foram, a pedido da commissão do rancho, gentilmente cedidos pelo seu presidente, mas não chegaram a servir, e a razão é simples, como explico: - Uns sujeitos mandaram guizar um lanigero, com as indispensaveis batatas, em casa do sr. Francisco Cordeiro, e uma vez o bicho prompto, trataram, está clarissimo, de o comer, debaixo, até, das pereiras do quintal d’aquelle senhor, logar onde estavam, segundo informações por mim colhidas, os alludidos balões.
         Preso a um pau, estava um macaco, não sei de quem, com sentido no que os homensinhos comiam, e estes, lembrando se de dar lhe a roer alguma coisa, atiraram-lhe uma parte dura, durissima, do assassinado lanigero, o que causou o enfurecimento do mono, que immediatamente se desprendeu e se vingou despedaçando os balões, o que nada impediu que a mesma festa se fizesse e com brilhantismo, palavra de honra que com brilhantismo, apezar de estarmos... em tempo de Guerra!...
         Continuamos, pois, e esqueçamos estas mesquinhices... No elegante coreto tocaram, durante a noite de sabbado para domingo, alguns musicos, dançando-se até altas horas do dia. Seguiu-se mais tarde a communhão das creanças, que, como dizemos acima, decorreu com a maior solemnidade.
         Durante o acto tocaram uns musicos d’aqui e um organista de fóra, alguns bem afinados trechos, adequados a esta ceremonia, e que as creanças tambem cantaram com a maior correcção, graças ao incansavel e amigo padre Vicente.
         Seguiu-se o sermão, prégado pelo reverendo parocho-arcypreste Francisco dos Santos Branco, de Luso, que tem creado em Tavarede, de há annos para cá innumeras e bem merecidas sympathias.
         Após estes numeros da festinha de Tavarede, foi pelo nosso parocho, sr. Manuel Vicente, offerecido ás creanças um opiparo jantar, que teve logar na ampla plateia do Grupo Musical Tavaredense.
         Era bonito, encantador, vêr as creanças, nos seus trajes berrantes d’alvura, a destacar da luz fugidia que se infiltrava pelas largas janellas abertas, prestes a desapparecer para os lados do occidente, em scentelhas rubras e esbrazeantes...
         Recomeçaram, pouco tempo depois, as danças populares no mesmo recinto, e o declinar do dia punha termo aos festejos, que deixaram gravados no coração de todos quantos a elles assistiram, a impressão mais nitida e agradavel do bello dia passado, e que se rememorarão com saudade tempos em fóra!...
         = Nota – Depois de escrever esta carta, disseram-me que no proximo domingo, de tarde, há novamente danças populares... tambem sem balões.

         Emquanto cá estamos é que é dar-lhe!...”.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 3

      De igual modo era a ocasião das mascaradas, que algumas vezes chegaram a ter intervenção das autoridades citadinas. As cavalhadas, com o seu sempre enorme acompanhamento, ia primeiro dar as habituais volta à Igreja, com a filarmónica contratada a tocar animadamente, enquanto os sinos repenicavam na torre, descia depois até à praça da Reboleira, actualmente 8 de Maio, seguindo até Buarcos, regressando a Tavarede após um descanso para recuperar forças. Era longo o percurso.
         Depois só encontramos uma pequena nota, no ano de 1876, referindo que “houve numerosa concorrência, principalmente de pessoas desta vila”. Mas, no ano seguinte, as festas já tiveram maior brilho. “Tavarede offerecia então um espectaculo curioso. Pela comprida rua da terra, illuminada por vistosos balões venezianos suspensos de arcadas vestidas de buxo, acotovelava-se a multidão; nos largos a gente dos campos, a boa gente alegre e de consciencia tranquilla, entregava-se ao prazer da dança, atroando os ares com as canções poeticas do santo popular.
         No adro da egreja queimou-se o fogo de artificio. Era de bonito effeito e bastante variado. A philarmonica figueirense executou bastantes peças do seu reportorio. Da Figueira foi a Tavarede n’aquella noite quasi toda a gente.
         No dia seguinte a bandeira veiu em peregrinação á Figueira e a Buarcos. Era digna de ver-se aquella pittoresca caravana, que apresentava os mais extravagantes contrastes. Vinha alli de tudo. A sobrecasaca urbana e o chapeu fino dos padrinhos, os trajos domingueiros das frescas moçoilas de Tavarede, os vestidos de phantasia dos mascarados, e a sordidez plebêa dos aldeãos. E na frente de tudo aquillo a gaita de folles e o classico zabumbas.
         De tarde a Figueira despovoou-se, e encheu de novo a grande rua de Tavarede com  o seu hig-life e com o seu exercito de raparigas novas e alegres. Passou-se por lá uma tarde magnifica. Nem o sol nem a poeira prejudicaram a festa. O primeiro escondeu-se entre as nuvens; á segunda veiu cortar-lhe os voos incommodos uma chuva fresca e pouco massadora”.
         Recordemos, um pouco, as cavalhadas, também chamado cortejo da bandeira. Esta era um enorme pendão que seguia na frente, transportada por um cavaleiro, o qual tinha dois cordões que eram segurados por cavaleiros, um da cada lado.
  A bandeira grande


Havia, normalmente, duas bandeiras: a grande, que abria o cortejo, e a pequena, que seguia mais ou menos ao meio. As bandeiras de Tavarede, segundo se lê numa acta da Junta da Paróquia, tinham sido oferecidas por Tomás José Duarte, o edificador do palacete dos Condados e pai de Emília Duarte, que casou com João José da Costa, grande benemérito da nossa terra.
As duas bandeiras, e ainda segundo a mesma acta paroquial, deveriam ficar à guarda da Junta, mas, todavia, ficavam confiadas à Igreja, onde os festeiros as iam buscar para integração no cortejo. Mas, num ano... em 1889, sendo então pároco em Tavarede o reverendo Nobreza, natural de Quiaios, que resolveu recusar as bandeiras em depósito. Houve muitos protestos, mas o pior é que as cavalhadas não se podiam realizar sem as bandeiras, que estavam devidamente benzidas. Os festeiros, imaginativos, resolveram o assunto de uma forma bastante curiosa: arranjaram outras bandeiras e como elas tinham de ser benzidas, levaram-nas escondidas à missa dominical. Chegado o momento da benção sacerdotal, levantaram as bandeiras que, desta forma ardilosa, foram benzidas, podendo ser utilizadas no cortejo.



Ensaio para o cortejo (Ontem, hoje e amanhã - SIT 1979
  
Havia sempre uma filarmónica contratada para abrilhantar as festas. Depois de acompanhar, em parte do percurso, o cortejo das bandeiras, realizava um concerto, com as músicas mais populares, no Largo da Igreja, onde se apinhava o povo, aproveitando muitos pares para uns momentos de dança. Mais tarde, as danças passaram a ter lugar nos Largos do Forno e do Paço, onde eram armados vistosos pavilhões.
Algumas vezes houve problemas, como, por exemplo, no ano de 1891, em que o cortejo, ao passar em Buarcos, um dos burros atirou ao chão uma velhota que assistia ao desfile e que ficou gravemente ferida ao bater com a cabeça no chão. Outras vezes eram as desordens, pois as merendas eram “regadas copiosamente com goladas co licor divino”...

         E, ano após ano, as festas sanjoaninas continuaram a realizar-se na nossa terra. A Figueira despovoava-se nestes dias, aproveitando os passeantes para um descanso e uma merenda saborosa, nos pinhais vizinhos da aldeia. Ainda mais uma notícia recolhida, esta do ano de 1892. “Na noite de sabbado, a rua principal da terra (quasi que diriamos unica) achava-se lindamente illuminada a balões venezianos, desde o Paço até á egreja, o que produzia magnifico effeito, realçado pela belleza e serenidade do ceu. Fogo do ar, excellente. A cada passo formavam-se danças populares e no coreto, á entrada da aldeia, tocou durante algumas horas a nossa magnifica phylarmonica Dez de Agosto. Como era d’esperar, affluencia compacta.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 2

A primeira notícia encontrada referente às festas ao São João de Tavarede foi no periódico O Figueirense, na edição de 10 de Julho de 1864. “Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.
Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupede de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.
Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo.
Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira, Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.
Quando o sol já era menos e permitia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.
Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Figueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir”.
         Esta nota refere dados interessantes. É certo que não tem qualquer alusão a actos religiosos, no entanto, pelo menos era celebrada missa sanjoanina. Também se depreende da notícia, e o segundo período da mesma é elucidativa, estas festas já se realizariam haveria anos. Mas, desde quando?
         Pois a verdade é que não conseguimos encontrar quaisquer indicações do início de tais festejos, bem como o motivo da nossa terra, e outras do concelho, festejarem tão exuberantemente tais festejos.
         Na Figueira, como se sabe, ainda actualmente se realizam festas em honra do Santo, aliás, um dos três patronos venerados na cidade: o S. Julião, padroeiro da terra, o Santo António, e recordemos a figura de António Fernandes de Quadros, o fundador da Casa de Tavarede, e a quem se deve a construção do convento, e o S. João, com o tradicional ‘banho santo’, sempre atraíndo muito gente, velhos e novos, para se banharem nas águas frias da nossa praia.
         A Figueira sempre festejou no dia próprio, a 24 de Junho. Na primeira semana de Julho cabia a Buarcos realizar os festejos, que, na semana seguinte, acabavam em Tavarede.
         Tinham muita fama as festas ao S. João de Tavarede. Certamente que a sua realização não seria anterior à mudança da câmara da nossa terra para a Figueira, o que aconteceu no ano de 1771. Até então, ‘reinando’ despoticamente em Tavarede o morgado Fernando Gomes de Quadros, que tão triste memória deixou, não é crível que o povo tivesse qualquer vontade ou, até, autorização para tais festejos.
         Também é verdade que não interessa grandemente saber a data rigorosa do surgimento destas celebrações. Admitimos, sem qualquer segurança, que tenham começado nos inícios do século dezanove, talvez na segunda ou terceira décadas.
         Se as danças atraíam especialmente a gente nova, já os menos jovens teriam o ponto alto das festas nos costumados jogos tradicionais, especialmente a rosquilhada, que proporcionava momentos de boa disposição. Eram as cavalhadas, porém, que constituiam o pico dos festejos. Naqueles tempos, sendo a agricultura a principal actividade das gentes locais, a terra seria fértil em animais, indispensáveis ao cortejo. Burros e cavalos, além de montadas para muitos participantes, eram necessários para atrelar às carroças e trens, vistosamente ornamentados a preceito.
  


As cavalhadas na Figueira, no largo da Câmara

sábado, 12 de novembro de 2011

S. MARTINHO DE TAVAREDE

S. MARTINHO

Não há memória ter-se realizado qualquer cerimónia litúrgica ao orago São Martinho da freguesia de Tavarede.


Esta imagem muito deteriorada, foi retirada da Igreja Paroquial há muitos anos para o Museu Municipal da Figueira, e agora restaurada, por iniciativa do Revdº Pároco sr. Manuel Joaquim da Costa Ferreira, conseguiu que ela voltasse para o seu lugar. Para festejar a sua colocação, que de novo ficará no culto da Igreja Paroquial, realiza-se no domingo, 30, às 10 horas: missa solene, sermão e comunhão geral. Cantará o grupo coral feminino de Tavarede; às 14 horas: chegada da Filarmónica Figueirense, que acompanhará a recolha das oferendas de Condados, Saltadouro e Tavarede, dirigindo-se, depois, à Chã, onde se juntarão as dos outros lugares: Caceira e Casal d’Areia, Carritos, Bairro da Estação e Bela Vista, Casal da Robala e Vergieira, Vila Robim e Várzea; às 15 horas: solene procissão, que percorrerá o itinerário do costume. No fim, leilão das fogaças dos vários lugares da freguesia.


O produto das oferendas destina-se a custear as despesas da festa e da reparação da veneranda imagem de São Martinho, que, de novo, ficará ao culto na Igreja Paroquial.


Esta festa está a despertar grande entusiasmo nas Comissões, qual delas melhor apresentará nos seus andores as oferendas em honra do São Martinho, Padroeiro de Tavarede, que no seu divino altar volta a presidir aos solenes actos ali a realizar.



(O Figueirense - 29.11.1958)





S. MARTINHO

Festa de regosijo, foi a que se realizou no dia 30 do mês findo, com o regresso da imagem de São Martinho, orago da freguesia de Tavarede e que agora está de novo no culto da Igreja Paroquial.


Festa inédita nesta freguesia, que revestiu grande contentamento. A procissão de lindo efeito, com a apresentação de 11 andores todos ornamentados com as oferendas que despertaram os olhares do povo, assim como o que conduzia a imagem de São Martinho – Padroeiro da freguesia.


Está de parabéns o Revdº Pároco sr. Manuel Joaquim da Costa Ferreira por ter realizado esta festa integrada com o regresso do orago São Martinho – Padroeiro de Tavarede.



(O Figueirense - 13.12.1958)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

VISITA A TAVAREDE

Andamos a dar volta aos nossos velhos apontamentos, rebuscados na imprensa figueirense e referentes a 'coisas' da nossa aldeia (hoje, novamente vila), e já alguns temos publicado, referindo o jornal e a data da publicação. Desta vez, e porque a achamos muito interessante, vamos copiar uma pequena reportagem inserida em 'O Figueirense', de 10 de Julho de 1864. Trata-se de uma festa ao S. João de Tavarede. Já estamos fora do tempo, mas, como sabemos, o S. João a todo o tempo tem vez:


Ora vejamos se no meio d'esta extraordinária escassez de noticias em que nos achamos, podemos dizer alguma cousa que entretenha o espirito dos nossos leitores. Há de ser difficil, mas experimentemos sempre.


Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.


Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupede de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.


Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo. Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira. Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.


Quando o sol já era menos e permittia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Figueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir.

sábado, 16 de abril de 2011

ASCENÇÃO E PRIMEIRO DE MAIO

QUINTA FEIRA DE ASCENÇÃO


Pela tradição do costume foram ranchos de pessoas pela fresca manhã de quinta-feira d’Ascenção colher ás cearas raminhos de espigas de trigo e ramadinhas d’oliveira para que o anno corrente seja prospero e feliz. Grupos de raparigas entoavam canções alegres fazendo um maravilhoso conjunto com os seus maviosos trinados dos rouxinoes e d’outros passarinhos que saltitavam nas ramadas das floridas arvores do campo.

Á tarde merendaram muitas pessoas á sombra saudavel de pinheiros e um rancho de raparigas, acompanhado d’um grupo musical, foram ás Caldas d’Amieira, dançando ali e regressando a Tavarede á noitinha. Ao Bussaco tambem foi bastante gente d’aqui. (Gazeta da Figueira)


1º DE MAIO


Sim, minha amiga, póde chamar-lh’o, é um costume feliz da minha terra. Sempre assim foi acolhido aqui o primeiro dia de Maio, entre risos e cantares, na folga d’umas danças vermelhas, junto á fonte d’agua clara da varzea de Tavarede.

...Este uso lindo que tanto a maravilhou e tanto a seduziu, é um velho uso que vem de muito longe. Teria, a minha deliciosa amiga, de volver os olhos para os luminosos tempos do paganismo, se a sua curiosidade irrequieta e nervosa lhe quizesse conhecer a origem. Era-lhe preciso evocar um quieto e calmo canto do socegado Lacio. Seria n’uma azulada paysagem d’ecloga. D’entre arvoredos longos, ver-se-ia surgir a cabeça velha de Pan, seguida da montada madraça de Silêno. Rondas de Nimphas, ligeiras como azas, bailariam dançares de belleza e graça n’algum tranquillo valle. Por bosques de loureiros, em florestas de platanos, por rentes de araucarias e romanzeiras em flôr, olhos vivos de Satyros espreitariam cubiçosos, carnes perfeitas de Deusas confiadas. Faunos, caprinos, hirsutos, cornicabros, pulariam pela macieza dôce dos pomares. E Venus, coroada de rosas, á frente d’uma procissão lasciva e devota da sua côrte suprema viria, ao som lento de citharas d’oiro, proclamar a chegada do Amor e da Primavera...

...Deve ter sido assim o inicial começo d’este costume feliz da minha terra...

E pela conta dos annos, sempre que chegado é o feliz dia d’hontem, se formam n’aquella estrada calma, junto á fonte d’agua clara da varzea, por entre os campos ferteis e humidos de Tavarede, as rodas largas de namorados que a minha excellente amiga encantadamente viu... N’uma viola, em violões floridos e afestoados de fitas, alguem faz vibrar, zangarrear as notas vermelhas e fortes do Vira. Vozes limpidas de raparigas, atiram ao alto, ao vasto ar perfumado a cravos, limpidas cantigas de Amor e Desvario. E no sacudido, no lesto farandoral da dança rubra, enquanto no ar volteiam petalas de rosas e tilintam sonoras risadas de crystal, corpos juntam-se, mãos enclavinham-se, boccas approximam-se, e é assim, - como os seus lindos olhos deslumbrados viram, - que a gente moça da minha terra festeja e acolhe a primeira alvorada de Maio florido, o mez das Rosas e do Amor!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quinta-feira da Ascenção

Se os passarinhos soubessem
Quando é dia da Ascenção
Não punham o pé no ninho
Nem o biquinho no chão

Quarenta dias haviam decorrido após a Sua ressurreição.
Então Jesus Cristo, cumprindo as profecias que assim já o haviam prenunciado, reuniu os seus discípulos no Monte das Oliveiras, o mesmo onde Judas Iscariotes o havia entregado aos soldados, e levantando as mãos os abençoou. Enquanto os abençoava foi-se elevando à sua vista, e subiu ao céu onde está sentado à direita de Deus, donde voltará, no Dia do Juizo, da mesma maneira por que foi para lá.
É assim que a Bíblia nos conta a Ascenção de Cristo ao céu.
Ora nesse dia, quinta-feira, cumpre-se, há já longos anos, uma tradição. É a apanha da espiga.
Esta, segundo os antigos, deve ser apanhada da parte da manhã e guardada em casa. Significa o guardar a espiga, pedir a Jesus Cristo a mercê de, durante o ano, nos não faltar com as coisas que ela simboliza e que são mais necessárias à nossa vida.
A espiga é composta do seguinte:
- Malmequeres amarelos e brancos - representam ouro e prata;
- Trigo - significa o pão;
- Papoulas encarnados - que pedem alegria;
- Um bocado de oliveira e parra - é o azeite e o vinho;
Além destas coisas, indispensáveis, há pessoas que também juntam centeio, aveia e até favas. Estas, assim como o trigo, representam o pão, que é o nosso principal alimento.
E é para pedir a Jesus Cristo que nunca nos falte com o ouro e com a prata, o azeite e o vinho, e finalmente com a alegria, que neste dia se vêem pelos caminhos dos campos, enormes grupos de raparigas que, alegremente, procuram aqui uma seara de trigo para apanharem uma espiga, além uma oliveira para colherem um bocadinho e mais adiante os malmequeres, as papoulas e as restantes coisas, para formarem assim a espiga, conforme manda a tradição.
O certo é que, por volta do meio dia, se vêem as raparigas regressar a suas casas, alegres e felizes, com o ramo na mão, no qual sobressai o vermelho garrido das papoulas, igual ao tom carminado das suas faces que o sol, atrevido, corou.
Ao chegarem a casa correm pressurosas a guardar a sua espiga, a qual só será atirada fóra quando no próximo ano for substituida por outra.
É assim ano após ano.
A tradição, já tão velhinha, continua. As raparigas não a deixam esquecer. É vê-las como anciosas esperam este dia.
Oxalá nunca a deixem morrer e que sempre possam continuar a ir apanhar a espiga com a paz e a alegria que a mesma representa
. (escrevi isto em 1957)

Bastante mais interessante, é este apontamento que recolhi da imprensa figueirense de 1928:

É amanhã, quinta-feira da Ascensão, em que bandos de raparigas moças, de lábios rubros, faces rosadas e olheiras fundas, correm estonteantes, borboleteando em redor das searas como uma nuvem de daninhos e alados pardais, na faina voluptuosa e risonha de colher a Espiga, que depois entrelaçam com as mais belas flores silvestres.
Cada espiga que vão colhendo é uma esperança que se aglomera no cérebro, cada flor cortada é um facho de luz mais puro que o sol benfazejo da primavera, que se lhes ilumina a alma e faz tanger a corda mais íntima do seu coração. É, pois, amanhã um grande dia, um dia santo, que até o mais libertino deve respeitar como o dia da Ascensão do Mártir do Calvário. “Se os passarinhos soubessem
…”.”

A espiga era colhida da parte da manhã e, da parte da tarde, havia saída para os pinhais, para mais uma costumada merenda. Algumas famílias optavam por ir passar o dia às termas da Amieira, onde se realizavam grandes festas, enquanto outras escolhiam uma ida ao Bussaco. Foi ali, aliás, na quinta-feira da Ascensão de 1938, que se fez ouvir, pela última vez, a tão afamada tuna de Tavarede.
E como era a merenda grande?:

Hontem, ao inicio da tarde, quiz-nos parecer que os nossos visinhos figueirenses tinham julgado ser dia de S. João cá na parvonia.
Por essas estradas além viam-se ranchos e ranchos de pessoas, e aqui na povoação passavam igualmente muitos outros com cestos enfeitados de verdura e flôres e recheiados de saborosos petiscos, que iam manducar á sombra d’árvores dispersas por ahi fóra.
Não era porém dia de S. João, mas sim o da festejada merenda grande, tão suspirado por todos os operarios que até Setembro gosam 2 horas de sesta.
Tavarede offerecia-nos mais um tom de quem estava em festa, do que a sua apparencia habitual de monotona pacatez.
Um grande cortejo de meninas e meninos, alumnos da nossa escola elementar, conduzindo cestos caprichosamente engrinaldados de flôres, percorreram muitas ruas da localidade. Á noite a exma. srª. D. Maria Amalia de Carvalho, sua intelligente professora, reuniu em sua casa muitas meninas suas discipulas e outras das suas relações, e ali estiveram em animado convivio até perto da meia noite.
Festas e mais festas!


Na Escola Primária da nossa terra, este dia era sempre de grande animação e alegria. Bem de ver que isto era naqueles recuados tempos. Vejamos uma nota sobre um desses dias da nossa escola. Foi em 1917.

Na escola mixta desta freguezia todos os anos se costuma festejar o dia da merenda grande. Fomos convidados pela digna professora, srª. D. Maria José M. Santos, a assistir a este grande ato d’alegria das creanças, que é, para elas, um dos melhores.
Assistimos, pois, à sua merenda grande, que foi revestida de bela animação das creanças, com os seus cestos lindamente enfeitados.
Antes da merenda viam-se na sala as creanças, de pé, formadas numa roda, cantando varias cantigas populares. Seguiu-se a merenda. Cada creança foi então buscar os seus cestos cobertos de flôres, sentando-se, e cada uma tirando deles o seu variado sortido de comida. Os sorrisos despendiam-se de todos os rostos. A chilreada daquele viveiro encantava toda a gente que o admirava. Após a refeição novas canções entoaram, dançando tambem alegremente, comunicando a sua alegria ao espirito dos assistentes.
Assim se passou na escola desta localidade a tarde da merenda grande. A petizada divertiu-se até fartar e a todos deixou a melhor recordação o seu aprasivel festival.
Daqui felicitamos a distinta professora srª. D. Maria José Martins Santos por ter realisado na sua escola uma festa cheia de alegria e disciplina.

Nesse dia era também costume, como acima se refere, fazer excursões às termas da Amieira e ao Bussaco. A esta última, durante muitos anos se manteve a tradição de ali ir a tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense. Era uma oportunidade para a direcção desta colectividade retribuir a dedicação e a colaboração dos seus componentes. Infelizmente, em 1938 e sob a regência de Carlos Rodrigues dos Santos, foi a última vez. Ainda fizeram mais um ou dois serviços, na Chã, e a tuna calou-se para sempre.

Agora, passados tantos anos, resta a recordação. Acabou-se a espiga, acabou-se a merenda grande e acabou-se a famosa tuna de Tavarede.
Fotos: 1 - A espiga; 2 - Cortejo da Merenda Grande (de 'O Sonho do Cavador' em 1928; 3 - A tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, com alguns acompanhantes, no Bussaco, em 1938.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ranchos do S. João

Encontramos muitas notas sobre a exibição dos ranchos que se organizavam em Tavarede por ocasião das festas ao São João, e não só. Algumas dessas notícias são bastante curiosas. Normalmente, e nos principios do século vinte, havia dois pavilhões: um no largo do Paço e outro no largo do Forno. Também muitas vezes tinham lugar no Terreiro e no largo da Igreja e a rivalidade não tinha limites. Desta vez vamos até ao ano de 1906, há, precisamente, cento e quatro anos.
Eis a primeira nota:
Lavra grande discordia entre as raparigas que fizeram parte dos dois ranchos que se exibiram na noite de S. João. Todas querem a primazia, e d’ahi lançam mão de certos meios que não depõem nada a favor d’umas e outras. Os epítetos grosseiros e obscenos de que se servem, são improprios de raparigas honestas e sobretudo das que possuam uns rudimentos de boa educação.
Lamentamos estes factos e para eles chamamos a atenção dos chefes de familia afim de evitarem que suas filhas, sem o minimo vislumbre de pudor, usem publicamente d’uma linguagem só adequada a colarejas.
Todas dançaram muito bem, e se tivessem cantado, melhor seria, porque lhes faltava agora a corda e falariam menos.
Na segunda feira realisou-se a costumada corrida de burros. Com grande animação, a rapaziada divertiu-se muito bem, havendo peripecias que despertaram a gargalhada. E assim fecharam as festas de S. João, por este ano.

Mas a má língua continuava...

Continuam as dessidencias entre as dançarinas dos ranchos de S. João. D’uma sabemos nós que foi consultar a Santinha, do Saltadouro e parece que esta afamada feiticeira lhe aconselhou um passeio no dia 25, à Ferreira, e depois de dar ali tres voltas no exterior da egreja com um pé no ar e uma agulha de fazer meia atravessada na lingua, à laia d’arganel, pôr o barrete de S. Tomé na cabeça e à saida do templo lavar a bôca na pia d’agua benta. Deve levar na algibeira um chifre de carneiro de quatro annos d’edade.
Deus permita que a receita dê bom resultado para descanço de tão laxativas pessoas.
O caso, porém, agravou-se...
Prosseguiu hontém a luta entre os dois ranchos dançarinos da localidade. À meia noite começou a campanha e ao raiar a manhã ainda os pares se seracoteavam com toda a galhardia ao som dos trombones, que, sem cessar, nos aturdiam os ouvidos.
Vencido era o primeiro rancho que suspendesse a dança, mas às nove horas da manhã nem um nem outro davam signal de baquear, embora interviessem por vezes algumas potencias estranhas, aconselhando o armistício.
-”É tempo de usar dos direitos que me são concedidos pela lei fundamental da nação portugueza e códigos apensos”, exclamou o nosso conspícuo regedor, que é homem a bulhas contrário, como dizia Tolentino. Dirigindo-se com toda a diplomacia aos chefes das duas facções, com eles parlamentou largamente, e às dez horas, no relógio do António Mota, o mesmo sr. regedor lançava aos ares um foguete, os trombones roncaram o hino da carta adorada, terminando assim a memorável batalha d’hontem.
Vencedores - os donos dos estabelecimentos locaes.
Vencidos - os chefes de família e a ala de tuberculosas d’amanhã.
O pavilhão da vitória deve ser arvorado no alto de S. Martinho e o registo de recompensas faz-se no livro negro dos taberneiros.
Dizem-nos que os ranchos se denominam: um - das solteiras, outro - das casadas. Vae crear-se outro - de viúvas... bem conservadas.
Tem sido muito censurado o procedimento do sr. regedor, dizendo algumas pessoas que ele devia ser enforcado ou metido perpetuamente na penitenciaria. Veremos se o não matam este anno.
Em breve tudo estaria em paz e, no ano seguinte, novamente os ranchos teriam semelhantes notícias.

segunda-feira, 15 de março de 2010

S. João de Tavarede

Nem todos os anos se realizaram os festejos ao S. João de Tavarede, até ao ano de 1927 em que acabaram de vez, conforme já aqui contei há tempos.
Em 1923 também não se realizaram. "Não queremos acreditar que, como nos disseram há dias, se realisem este anno, na nossa parvonia, os tradicionaes festejos a S. João, simples e unicamente por na épocha actual ninguem se dispôr a trabalhar sem a respectiva remuneração, motivo porque aquela festa não mais se realisará aqui segundo crêmos.
Para o anno de 1921 organisou-se uma brilhante comissão para levar a efeito aquelles festejos, começando por pegar na bandeira, após a entrega da mesma ao nosso paroco, pela comissão de 1920, mas só para meter figura na ocasião, visto que era acompanhada por musica e foguetes, a percorrer as ruas da terra, fazendo depois fraca figura perante os seus conterraneos, por nada mais ter feito, seguindo-se aquele numero as festas do anno citado.
D’ali para cá nunca mais se pensou em tal assumpto, razão porque não acreditamos que este ano hajam creaturas que pensem em realisar os tradicionaes festejos ao santo casamenteiro da nossa terra, sendo para lastimar que tal não aconteça, pois que, em muitas povoações deste e outros concelhos, se realisam todos os anos as costumadas festas, e só aqui se veja no esquecimento a do S. João, que sempre eram tão ambicionados pela gente moça, para dar largas á sua alegria!...".
Mas, se naquele ano não houve festas em Tavarede, nem por isso deixou a freguesia de festejar o Santo casamenteiro. "Varios logarejos desta freguezia, até os mais minusculos, tem este ano conseguido organisar o seu festivalsinho, com danças populares e foguetorio.
Compreende-se apezar de já o termos ouvido dizer – que os seus habitantes resolveram promover aquelas festitas para vergonha dos de Tavarede e ao mesmo tempo com o intuito de os entusiasmar, tirando-os da apatia em que se teem conservado há 3 anos, para levarem a efeito os tradicionaes festejos a S. João.
Com bastante magoa notámos que quasi todos não se incomodaram, não obstante ter havido alguns – muito poucos – com vontade de pôr mãos á obra e trabalhar de fórma a não deixar passar em branco, mais um ano, as festas dedicadas áquele santo (que nos anteriores a 1921 deixaram boa impressão em todos os forasteiros que a ellas assistiram), não vendo realisados os seus desejos, por não terem encontrado quem os auxiliasse e por ficarem para muito tarde, apezar do S. João a todo o tempo ter vez.
Que tenham paciencia todos os apreciadores das festas realisadas na nossa terra, e que esperem até ao ano de 1924, que, estou por certo, se converterão no mesmo das do corrente: em nada".
Foi no Casal da Robala, depois na Chã e ainda no Casal dos Piratas. No meio destas realizaram-se iguais festejos na Ferrugenta. Eis o recorte que recolhi sobre estas últimas:
Desta vez foi na Ferrugenta, que é um logarejo ali à beira da estrada que vai para Brenha. Meia dúzia de casas, cujas paredes são duma alvura invulgar e invejável, aliás muito dignas do nome do casal...
Não lhes serve de nada as nuvens espessas de poeira clara da estrada, que nortadas fortes dos lados de Brenha sobre elas arremessam, como que a dizer-lhes: lavem a cara, oh porcas...
Mas vivem bem naquele antro do chalé compadre Casimiro, que é, além da Ti’Maria da Ferrugenta, mulher entendida em curativos da espinhela e pragas de bruchas, a figura de relevo do logar, pois que até tem tasca.
Calhou a fazerem no domingo ultimo a sua festa... a Bacho, a qual constou, ao que me dizem, de danças de sábado para domingo e neste dia de tarde até altas horas da noite. Tocaram num elegante coreto, armado sob uma figueira de S. João, que é d'aquelas que dá figos graúdos, 4 (!!) rapazes de Tavarede. Queimaram foguetes em barda. A iluminação chegou a ser de candeias de azeite penduradas na arvore que servia de tecto aos muzicos e dançarinos... O Fandango mais o Mocho eram também da comissão. Como não sabem lêr prescindiram do lápis e do papel e fizeram contas a traços na estrada, tendo por caneta um cajado do primeiro, que é um dos bons pastores do logar. Os músicos tremeram por momentos ao soar-lhes aos ouvidos estas negras e ingramaveis palavras: - o dinheiro não chega; faltam 17 melreis...
Mas os homens pagaram-lhes honradamente, como bons patrões que foram...
Conclusão. Por todos os cantos há festanças, há folguedos, e só o coração da freguezia anda negro como as habitações da Ferrujenta, não acordando de vez da letargia em que jaz vai para 3 anos.
Parece-nos que também vai haver bródio num outro logar denominado Casal dos Piratas.
Se olharem bem para o nome, os forasteiros são capazes de para lá irem armados até aos dentes, afim de, prevendo qualquer eventualidade, poderem bem gosar amanhando-se mutuamente...
Eu é que não ia nesse bote...
Ora os piratas!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Festa da Árvore - 1916

Tavarede esteve em festa no último domingo com a Festa da Arvore, que resultou ser muito concorrida por innumeras pessoas tanto dos casaes vizinhos como d’essa cidade, o que era de esperar, em vista do esmerado programma, que prometia dar uma festa excellente.
E foi-o sem duvida, deixando boa recordação na memoria das pessoas que n’ella tomaram parte, principalmente das creancinhas.
O programma marcava para as 14 horas o cortejo civico, em que tomariam parte os alumnos das escolas official-mixta e nocturna, e outras associações locaes com os seus estandartes, mas devido ao mau tempo, só se organisou pelas 15 horas, approximadamente, sahindo da escola official em direcção ao Largo do Paço, onde foram plantadas duas arvores.
Ali, a srª. D. Maria José Paula Santos, illustre professora, recitou a poesia allusiva á Arvore, que os ouvintes no final muito applaudiram.
Em seguida, o cortejo dirigiu-se ao Largo do Forno (em frente á escola official), onde se plantaram mais quatro arvores. Alguns musicos do Grupo Musical encorporaram-se n’elle, executando a marcha A Arvore, que as creancinhas cantaram com todo o enthusiasmo.
O jantar dos alumnos das duas escolas, que estava marcado para as 16 horas, e que era servido no Grupo Musical, foi magnifico.
A commissão encarregou-se de comprar um lanigero, que, assado e guisado com as respectivas batatas, exhalava um cheirinho, que era sem duvida de todo o ponto agradavel, estando o palco replecto de creanças, que lindamente fizeram as honras da meza.
A plateia e galeria encontravam-se apinhadas de curiosos, que todos se regalavam em vêr comer.
A algumas pessoas de fora, que após o jantar retiraram, e que foram muito bem impressionadas, ouvimos nós dizer que até parecia impossivel n’uma pequenina aldeia, fazer-se assim uma festa que sem duvida foi excellente.
Às 21 horas principiou o sarau dramatico-musical no theatro da Sociedade de Instrucção Tavaredense, em que tomaram parte, alem das mesmas creanças, uma orchestra do Grupo Musical, sob a regencia do distincto professor, sr. Antonio Rodrigues Paula Santos, d’essa cidade.
O programma era dividido em 3 partes, e da seguinte forma:
1ª. parte, A Portugueza, cantada por todas as creanças. N’esta altura, o sr. dr. José Gomes Cruz, pronnunciou um breve e patriotico discurso, vivas a Portugal, á Republica, etc., que muito enthusiasmou o publico. S. exª. falou sobre aquella festa e sobre a nossa situação, sendo no final muito applaudido.
Em seguida, a menina Maria Ribeiro, recitou a poesia As Arvores, discursando depois o sr. Marcial Ermitão sobre variados assumptos, principalmente da participação de Portugal na guerra. Foi por varias vezes interrompido e no final tambem foi muito ovacionado.
Seguem-se a Luz do A B C, poesia, pelo menino Manuel Nogueira e Silva, Anjo da Guarda, uma canção, cantada por todas as creanças, Na Escola, poesia recitada pelo sr. Francisco Loureiro, e Os Luziadas, marcha, cantada por todas as creanças, finalisando assim a 1ª. parte.
A 2ª. parte, abriu com o Hymno das Arvores, entoado por todas as creanças, seguindo-se a poesia Às Arvores, pelo menino Antonio da Silva Broeiro, o monologo Pois sim senhor... pela menina Eduarda F. Serra, a canção O Ninho, entoada por todas as creanças, Ao rebentar da seiva, poesia, pela menina Maria Nathalia Victorina, O Pintasilgo, canção, entoada por todas as creanças, improvisando n’esta altura o sr. José Ribeiro, um brilhante discurso, explicando aos pequenitos o que era a festa da Arvore, falando tambem da guerra, etc., sendo no final calorosamente applaudido, seguindo-se depois as poesias Ás creanças e A Escola, recitadas respectivamente pelo sr. Antonio Medina Junior e pela menina Emilia Cardosa, e a canção A Escola, entoada por todas as creanças, finalisando a segunda parte com um discurso do sr. dr. Manuel Gomes Cruz, que fez vêr ao publico varias phases da guerra, falando tambem sobre a ligação das Sociedade d’Instrucção e Grupo Musical, que durante muito tempo andaram indifferentes, e agora na séde d’aquella colectividade tinham cruzados os seus estandartes, acabando o seu discurso por dizer que estava muitissimo satisfeito, não só por isto, mas por vêr uma festa d’aquella ordem na sua terra.
O hymno da Maria da Fonte, entoado por todas as creanças, dá começo á 3ª. parte, seguindo-se a Poesia Infantil, pela menina Emilia d’Oliveira, Engeitadinha, pela pequenina Adelaide da S. Flôr, A Madrugada, canção entoada por todas as meninas, o A B C, poesia, pelo sr. Antonio da Silva Coelho e depois Portugal, poesia, pela sua interessante filhita Izaura.
Finalmente representou-se a comedia drama em 1 acto, As Arvores, representada pelos meninos Aurelia Cascão e seu mano João, que tambem foram muito applaudidos, ponde termo ao sarau o hymno A Sementeira.
Ah! não nos esqueça dizer que antes do panno cahir, o sr. Marcial Ermitão veiu ao palco ler o seguinte telegramma de saudação a sr. Presidente da Republica:


Presidente da Republica - Palacio de Belem - Lisboa. - Povo de Tavarede, reunido para celebrar festa da Arvore, vibrando mais intenso enthusiasmo patriotico, applaude Portugal na guerra. A Commissão.

N’esta altura, o enthusiasmo de todos quantos assistiam á festa redobou de intensidade, ouvindo-se constantes acclamações a Portugal, á Republica, á Inglaterra, á França, etc., tocando a orchestra por varias vezes o hymno nacional.
Na mesma orchestra tambem executado piano a distincta professora srª. D. Maria José Paula Santos, filha do sr. Antonio R. Paula Santos, que muito mais abrilhantou a Festa da Arvore de Tavarede, no dia 19 de Março do anno de 1916, dia que jámais esquecerá às pessoas de Tavarede, principalmente às creancinhas que n’ella tomaram parte.

Pelo bom exito d’esta festa, não podemos deixar de felicitar a digna professora official d’esta localidade, srª. D. Maria José Paula Santos e seu pae, o distincto professor de musica, sr. Antonio Rodrigues Paula Santos, incançaveis de tenacidade e trabalho, envolvendo tambem nas nossas felicitações a commissão organisadora da festa, que não se poupou a esforços e sacrificios para que ella resultasse, como resultou, brilhante e inolvidavel. (Gazeta da Figueira)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Festa do Santíssimo

Como estava anunciado, realizou-se effectivamente no sabbado e domingo ultimos a festa em honra do SS. Segundo o que dissémos, a festa foi promovida por esta irmandade, ha pouco fundada n’esta freguezia, para assim festejar a sua inauguração official.
No sabbado, pelas 8 horas e meia da noite, chegou a esta risonha aldeia a philarmonica das Alhadas. Á sua chegada foram lançados ao ar muitos foguetes e deu-se começo aos festejos.
A noite apresentou-se feia, de um tempo chuvoso e acompanhado de vento sul que soprava com alguma violencia, dando-nos apenas um pequeno aguaceiro, que ainda assim fez desanimar os promotores da festa.
No largo em frente da egreja, onde se deviam realisar os festejos, o vento soprava com mais força, visto aquelle local se achar desabrigado, não podendo por isso illuminar-se convenientemente tanto a frontaria da egreja, como um pequeno pavilhão que se achava armado para a musica tocar, e por cujo motivo não o poude fazer.
A egreja esteve exposta é veneração dos fieis desde as 8 horas da noite até ás 11, sendo muito visitada.
O fogo foi regular.
Danças, apenas um pequeno rancho dansou na rua Direita, desde as 11 horas da noite até á 1 e meia da madrugada, mas muito desanimado em consequencia do tempo.
Domingo, o dia esteve lindissimo, celebrando-se com a maior pompa e solemnidade a missa e procissão. Era quasi meio dia quando se principiou a dizer a missa, acabando perto das 3 horas da tarde. O templo regorgitava de christãos. Foi cantada pelo revº. Manuel José da Cunha, que actualmente está fazendo as vezes de parocho da freguezia, por este se achar ausente, acolytando sua reverencia n’este acto religioso os srs. padres Fortunato das Neves, das Alhadas, e Emygdio, d’essa cidade. Ao Evangelho subiu ao pulpito o revº. parocho da Ferreira, sr. Manuel Vicente, que prégou muito bem.
Acabada a missa formou-se a procissão que foi concorridissima, e sempre na melhor ordem. N’ella viam-se encorporados além dos respectivos sacerdotes, um grande numero de irmãos e muitas creancinhas vestidas de anjo. Fechava a procissão a philarmonica Alhadense, tocando uma bonita marcha adequada a este acto. A procissão recolheu á egreja pelas 4 horas.
O côro era, como dissemos, composto por distinctos cantores e musicos de Coimbra e d’essa cidade. Foi magnifico. É digno de muito elogio o nosso conterraneo sr. José Gomes Cruz, um bom amador musical, que empregou todos os esforços para arranjar um excellente côro, para cujo serviço se tinha promprificado gratuitamente.
O sr. Horta a quem estava confiada a decoração da egreja, mais uma vez revelou as suas aptidões para este serviço, pois que a armação tinha um aspecto elegante.
Durante o resto da tarde o templo foi muito visitado.
A Estudantina Tavaredense tambem formou um rancho no mesmo local onde tinha dansado o outro na vespera e madrugada, estando sempre muito animado e dansando-se até ás 8 horas da noite.
E assim acabou esta festa, que agradou muito, louvando nós desde já a irmandade promotora, e desejando que ella para o anno se faça com o mesmo esplendor.

(Gazeta da Figueira - 23.Setembro.1896)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O S. João de Tavarede

Hoje vou recordar a primeira nota que encontrei sobre as festas que se realizavam em Tavarede, em honra do Santo casamenteiro. Foi no jornal 'O Figueirense', em Julho de 1864.
"Ora vejamos se no meio d'esta extraordinária escassez de noticias em que nos achamos, podemos dizer alguma cousa que entretenha o espirito dos nossos leitores. Há de ser difficil, mas experimentemos sempre.
Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.
Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupere de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.
Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo.
Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira. Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.
Quando o sol já era menos e permirtia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.
Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Ftgueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir".

sábado, 20 de junho de 2009

A romaria ao S. Paio



Para nós era sempre um dia de festa. Chovesse ou fizesse sol, era certo e sabido que iamos sempre, no primeiro domingo de Julho, em romaria, vale acima, pelas Azenhas, até à capela do S. Paio, no Prazo.
Manhã ainda cedo, iam os homens, mota acima, caminhando e conversando, até lá acima, para preparar as coisas. Como de costume, a senhora Aurora, dos Monteiros, que tomava conta da capela, tinha tudo muito arranjadinho. A capela muito limpinha, o altar com alva toalha rendada, flores e a lamparina do azeite acesa.
Meu Pai era, como os irmãos e muitos amigos, caçador. Ou, pelo menos, um curioso pela caça. Não era, propriamente, para apanhar coelhos ou perdizes que, na respectiva época, lá ia com os amigos, espingarda ao ombro ou, como algumas vezes, sem espingarda mas com um varapau, como batedor. Para ele era um prazer o contacto com a natureza. Alguns episódios espero recordar.
Como tal, conhecia todos os recantos onde, no meio dos montes ou nas baixas férteis, havia fontes de água pura. Naquele tempo ainda as fontes corriam água e não conheciam a poluição! E no vale de S. Paio, pouco antes de chegarmos à capela, havia, e felizmente ainda existe, uma pequena bica, de água pura e fresquissima, que nos deliciava quando a bebiamos por uma folha de couve ou horto a servir de copo.


Uma pequena gruta, interiormente recoberta de avenca, por cujas folhas se via a água a pingar para uma pequena bacia escavada na rocha e de onde corria em fio para uma vala, com uma telha a servir de cano.
Estava, um dia, meu Pai internado no hospital da Universidade de Coimbra, onde tinha sido operado ao estomago. Em Julho o calor era bastante e, não podendo beber água, a sede atermentava-o. Prometeu, então, que se corresse tudo bem, ele iria com a família, no primeiro domingo de Julho, passar o dia ao S. Paio e beber um pouco daquela fresca água que ali tanto lhe lembrava.
Foi assim que começou. Ao princípio só alguns, poucos, familiares lá iam. Depois mais familiares e amigos começaram, também, a esperar ansiosamente este dia de confraternização.
Como atrás ia dizendo, mal os homens chegavam lançavam ao ar dois ou três foguetes, que estralejavam alegremente no ar, como que querendo anunciar, á aldeia lá em baixo, que já tinham chegado.
Preparavam-se os locais para depois se estenderem as colchas e as toalhas e o sítio onde se iriam disputar as provas desportivas, normalmente partidas de malha.
Entretanto o tempo ia correndo e às tantas, começava-se a olhar, com alguma ansiedade, cá para baixo, para a mota, procurando vislumbrar a vinda das mulheres que, saindo mais tarde, depois de arranjarem o farnel, tinham que subir até à capela mais pachorrentamente, pois as cestas à cabeça ou os cestos nas mãos, iam bem carregadinhos com os comeres. Os garrafões com o vinho já os homens tinham levado mas, mesmo assim, a peso certamente era muito.
Quando chegavam junto à capela eram horas de almoço. Apetite era coisa que não faltava. Os ares puros e frescos faziam mais efeito que o melhor aperitivo! No entanto, primeiro, era sempre o tempo das orações ao Santo.


Estendidas as toalhas, onde se dispunham os tachos com a comida, os talheres, pratos, copos, etc., sentávamo-nos nas colchas e eis-nos saboreando o almoço. Havia variedade, pois um dia não são dias. Peixe frito, galinha assada no forno ou de cabidela, coelho, etc. A sobremesa é que não era muito variada, normalmente arroz doce. E fruta, que sabia muito bem.
Bem comidos e bem bebidos, havia que passar o tempo até à tarde. Uns, especialmente as mulheres, depois de arrumados os tachos e lavada a louça, cá em baixo no ribeiro, aproveitavam para uma soneca. Algumas, por embirração às formigas, não dormiam mas faziam renda. Os homens, esses, dormiam, jogavam às cartas ou à malha, bebiam um copito de vez em quando...
A partir de determinado ano já havia bailarico. Do grupo passou a fazer parte o Diamantino Rocha, o Diamantino alfaiate ou Diamantino coxo, como lhe chamavam, que não se esquecia em casa da sua sanfona, e era ouvi-lo a tocar, sentado num pequeno tronco à sombra, e a dar e dar ao fole. Havia, algumas vezes, mais músicos. Meu Pai e meu Tio José tocavam bandolim e viola, respectivamente. O Manuel Lindote tocava viola e ou pífaro. E havia mais. Parece que estou a ver dançar aquelas danças de roda (polcas e mazurcas) que eram as modas dos arraiais de então...
Pela tarde, e porque o almoço já lá ia, era tempo de vir toda a gente para baixo, para junto da azenha, perto da fonte, onde novamente se estendiam as toalhas e se atacava as sobras do almoço, numa merenda farta. Havia sempre comer com fartura e era ver os homens olharem para os farnéis dos vizinhos à procura dum petisco diferente, que lhes fizesse boca para mais um copito. Era mais fácil acabar a pinga do que o comer. Vinham sempre ainda os tachos com alguma coisa que se não estragava, pois no dia seguinte já havia o jantar feito.
Quando se começava a avizinhar a noite, embora ainda com bastante ar de dia, porque o caminho era estreito e algo acidentado, até aos Canos, eis-nos de regresso. Era sempre cantando que se efectuava a caminhada até Tavarede.
Chegados a casa, mal havia tempo de lavar. O sono, activado pelo passeio e pelos abusos dos petiscos e das pinguitas, obrigava a fechar os olhos e o corpo pedia o descanso da cama.
No dia seguinte a vida recomeçava com a rotina habitual. Trabalho e mais trabalho. E, entretanto, começava-se a contar o tempo em falta para a romaria seguinte...
Até que um dia a romaria acabou. Chegou um ano em que alguém entendeu que o que era uma romaria familiar ou de amizade, também havia de ser de negócio. Foram para lá, armaram uma tenda, e vá de vender vinho e outras bebidas às imensas pessoas que entretanto iam até lá, especialmente depois de almoçarem em casa. Pessoas estranhas. É claro que, copo atrás de copo, acaba por dar mau resultado. Tudo com estranhos, mas houve zaragata e pancadaria. Resolveu-se, de comum acordo, acabar com a romaria ao S. Paio.
No ano seguinte, somente meu Pai com os familiares mais chegados, é que foram dar cumprimento à promessa. Enquanto foi vivo e teve possibilidades físicas o fez. Foi pena!
Era um dia diferente e, se não fosse a ambição do negócio, tudo teria continuado. Talvez, até, a promessa que um dia meu Pai fez se tivesse transformado, após a sua morte, numa verdadeira romaria da aldeia. Em Tavarede não há outra.
E agora, tantos anos depois, a capela lá continua. Ainda há pouco tempo lá estive. Muito arranjadinha mas já não no meio dos pinheiros e das acácias, mas de eucaliptos que também chegaram à encosta da capela do S. Paio. (Tavarede-A terra de meus Avós - 1º. volume)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As festas ao S. João de Tavarede


Estamos a chegar ao S. João. As festas sanjoaninas em Tavarede chegaram a ser muito famosas. Normalmente tinham lugar na segunda semana de Julho, no domingo imediato às festas realizadas em Buarcos. Vem, a propósito, recordar as célebres cavalhadas. As de Tavarede eram der uma fama enorme. Acabaram em 1927. O seu final teve uma história muito interessante que prometo contar daqui por uns tempos. Hoje é só para recordar.
Já não são do meu tempo as grandes festas populares em Tavarede. No primeiro caderno, e com base nas notícias colhidas na imprensa figueirense, recordei as principais. E, segundo os elementos disponíveis, em lugar bem destacado, encontravam-se as festas ao S. João. Destas, o número que tinha mais fama eram as cavalhadas. Na terceira parte deste caderno, entre as diversas histórias que conto, volto a recordar estas festividades, especialmente para dar a conhecer como e quando acabaram.
Mas as cavalhadas foram recordadas num dos primeiros anos de 1940. Lembro-me muito bem de ver desfilar o cortejo frente a minha casa, com a bandeira à frente, a caminho da Figueira e Buarcos, para dar a antiga volta. E, assim, também aqui vou recordar as festas ao Santo Precursor, como o farei a outras que, de alguma forma, ainda se efectuavam ou foram evocadas nos meus tempos.
Das festas sanjoaninas, vou transcrever uma nota escrita por Mestre José Ribeiro.
Cortejo S. João - 1948

Cavalhadas – Bandeira grande

“As chamadas festas de S. João em Tavarede tiveram sempre carácter religioso e profano. Com mais propriedade lhes chamaríamos – São João do Limonete.
O número de maior realce e que mais avultava nestas festas de S. João, e as tornava bem conhecidas em toda a aldeia e arredores, foram, incontestavelmente, as cavalhadas ou, como mais singelamente se designava o conjunto daqueles festejos – a Bandeira. E, já que referimos a Bandeira, melhor se dirá as bandeiras, porque de duas bandeiras se tratava. Seja-nos permitido ler o que consta da acta da sessão da Junta da Paróquia de Tavarede, de 26 de Junho de 1889:


“As bandeiras de S. João são trastes ou objectos da paróquia, tendo o padre obrigação de fazer a sua entrega aos forasteiros que se apresentarem para fazer a festa, visto que o fim principal destas funções é um divertimento de arraial com fogueiras no mês de Junho, onde se salta, canta e dança estouvadamente; iluminações nas ruas, cavalhadas em toda a qualidade de alimárias, mascaradas grotescas, com folganças e exibições fantasiosas, tudo para entreter, divertir e fazer rir”.
Antes do início das festas fazia-se a chamada pega da bandeira, às vezes com cerca de um ano de antecedência sobre a nova festa de S. João.
Na manhã do primeiro domingo da festa havia a função religiosa, com aparatosa ornamentação da igreja, missa cantada e sermão. Vinha também orquestra, e alguns cantadores de Coimbra.
As cavalhadas eram o prato forte da festa, com o grande cortejo equestre, assim formado: abrindo o cortejo, em nota cómica e com sabor carnavalesco, vinha numerosa burricada, em jeito de guarda-avançada da cavalaria que abria com dois guias, assim chamados os dois cavaleiros que iniciavam o solene cortejo hípico e exibiam cada um a sua vara de 2 metros, pintada de branco e com um lacinho de fita de cor. Seguia-se então a cavalaria, em duas filas que marginavam as ruas do percurso; nesse conjunto destacavam-se dois grupos de 3 cavaleiros: o porta-estandarte da bandeira pequena, ao centro e os dois padrinhos, um de cada lado, e grupo semelhante com a bandeira grande. Era um cortejo extenso, vistoso e imponente.
No asínino grupo da guarda-avançada já referida destacava-se o muito simpático, e sempre alegre e desejada presença, representante da famosa e estimadíssima dinastia dos Toquins de Tavarede. Este vistoso cortejo passava por Buarcos, ia dar volta à Praça Nova, na Figueira, e vinha de seguida a Tavarede, a dar as tradicionais 3 voltas à igreja, enquanto festivamente repicavam os sinos da torre.
Emudecidos os sinos, era a pausa do cortejo. Os cavaleiros abalavam por instantes largando rédeas; as mesmo tempo, ao longo da rua, desde a Igreja ao Paço, vão-se abrindo as portas e aparecem as moradoras, mulheres e raparigas, sobraçando limonete, erguendo e oferecendo, em alegria ruidosa, ramos de limonete, braçadas de limonete, numa apoteose de verdura rústica e bem cheirosa. O silêncio tristonho da rua mudou-se em animação de vozear alegre; dominava já a mocidade de Buarcos, gente moça que aproveitava o passeio e homens e mulheres que vinham à feira do limonete. Pequenos quintais de residências, leiras do Quintal Ferreira, retalhos de várzeas em redor da aldeia, eram pródigos em limonete: fosse velhos troncos que a poda impiedosamente fizesse reverdecer e enfeitar-se de novos e sempre renovados ramos, ou novos e generosos limoneteiros que já exibiam ramos vigorosos, alguns prestes a enfeitarem-se de pequeninas estrelas nas pontas dos ramos franzinos, em flores ternadas ou binadas, dispostas em espigas frouxas, formando panícula piramidal.
Nesta pausa do cortejo, intervalo obrigatório, os cavaleiros não se ficavam quedos, que o não consentiam os cavalos frenéticos, talvez já embriagados com o cheiro da lúcia-lima, a bela-luísa, a doce-lima, a erva-luísa, o pessegueiro inglês – que tudo é limonete.
Alguns dos cavaleiros vestiam fraque e chapéu alto, e era vê-los abalarem, velozes, pela rua cheia de gente, aproveitando o intervalo para uma fuga em visita-relâmpago aos arredores da aldeia.
A cerimónia religiosa, na igreja primorosamente ornamentada para o efeito, realizava-se com toda a pompa e respeito. Orquestra e cantores fizeram-se ouvir no coro. No púlpito, um sacerdote proferiu adequado sermão. A cerimónia decorria sob a invocação de São João Baptista. Não me lembro de ter ouvido referir no sermão o nome de Herodíase que no meu espírito vinha sempre ligado ao da luxuriosa Salomé e ao martírio de São João Baptista, o profeta Yokanaan. A propósito, direi que vi a cabeça degolada do puro e austero pastor que vivia no deserto e se alimentava de mel silvestre e gafanhotos. Posso garantir que vi a cabeça de S. João Baptista – moldada em barro, naturalmente... e muito bem pintada -, já colocada sobre o grande prato de cobre que servia ao sedutor bailado da Salomé, no caso interpretada pela exímia, rica e formosa bailarina Sara Sevilha, que teve luxuosa habitação na Figueira, no chalé da quinta do Pinhal, muito falada então bailarina famosa que tivemos oportunidade de apresentar aos leitores de “A Voz da Justiça”, neste nosso jornal nos dias 9, 20 e 30 de Maio de 1922.
Passaram 60 anos...
Terá envelhecido a sempre jovem, brilhante e formosa Salomé do chalé luxuoso e rico do Pinhal?”.

O primeiro de Maio e os potes floridos de Tavarede


Rancho 1º. de Maio - 1954


Quase tão desejadas quanto as festas a S. João, eram as madrugadas do primeiro de Maio, estas com a particularidade de inspirarem poetas. E se já transcrevi alguns trechos bem poéticos, muitos mais encontrei e que merecem ser recordados. O poeta e escritor figueirense António Augusto Esteves, que usou o pseudónimo de Carlos Sombrio, deixou-nos descrito a primeiro de Maio na fonte da Várzea.

“Quem não conhece, na madrugada de amanhã, a Fonte da Várzea da Figueira?
Ranchos alegres que apregoam, nas cantigas repassadas de côr, a alegria salutar do amor, da vida, da felicidade!...
Cântaros à cabeça, transformados em maciços de flôres, elas lá vão em busca da água fresquinha que hão de trazer no regresso, depois de bailarem a alegria que lhes vai nas almas e de folgarem tôda a mocidade que vive nos seus corações amorosos.
É que aquela Várzea é bem, neste dia, um altar onde as moças poisam as melhores preces de seu amor feliz, e onde fazem as preces da sua alegria venturosa.
Reboam ali, naquele largo, pertinho da Fonte, cantigas desfiadas por fieiras de oiro, correndo, como veios de água cantante e fresca, cada vez mais felizes, cada vez com mais encantos.
E quando o sol se ergue para doirar a folhagem tenra dos arbustos, a desafiar o viço e a roubar a frescura das rosas – manchas de neve, pintas de oiro ou pontos vermelhos, sensuais, de fogo aveludado -, em que a palidez da madrugada empresta às moças desaparece, para as fazer de olhar mais perturbante, mais amoroso e mais feiticeiro, a ventura, a saúde, o prazer de gosar a liberdade, de cantar e de viver, assim, à sôlta, - viver que não extenua, que não cansa, que perturba e entontece, - então os corações erguem-se mais altos, tão altos como a alegria juvenil da mocidade – tal qual como os braços espinhosos das roseiras, e contam á água fresca que os cântaros levam, a sua alegria que, por ser muita, é sempre pouca – tão curta é a hora feliz que os venturosos julgam descuidadamente viver!
Pudessem muitos mentir, e na madrugada de amanhã, o riso a florir nos lábios, a alma, lá dentro, a brincar contente, satisfeita e feliz, ir até à Várzea, nos ranchos alados da mocidade, e dizer às rosas, no seu dia, o que sentem e o que não podem dizer!...
Se assim fôsse, todos seriamos felizes, todos seriamos alegres, contentes, pelo menos, aparentemente.
E as rosas, no dia do seu culto, teriam, naturalmente, mais beleza, mais frescura e mais perfume!...”.

Finalmente, mais uma vez recorro a Mestre José Ribeiro. Aliás, foi ele quem em 1950, na sua peça “Chá de Limonete”, fez reviver o rancho dos potes floridos de Tavarede.

“Passaram agora sob a nossa janela as raparigas do rancho do Maio.
O rancho do Maio!
Todos os anos se organiza este cortejo florido. E quando passa nas ruas, deixando no ar o eco das cantigas e o perfume das rosas – é Primavera!
Quando Abril começa a despedir-se, as raparigas animam-se, combinam, organizam o rancho. E na véspera do dia ansiosamente esperado, pedem às vizinhas, correm aos jardins, vão ao mercado – e levam para casa arregaçadas de flores. Arranjam os trajos. Enfeitam os potes, que desaparecem sob os desenhos caprichosos das rosas e malmequeres. Mal pregam olho durante a noite. E quando a manhã só é adivinhada pelo seu espírito em alvoroço, erguem-se, chamam-se umas às outras, reúnem-se – e as suas vozes fazem a alvorada antes que o chiar das rabecas e o tom-tom dos violões arrepie o ar nos estremeções da afinação.
E marcham. Estrada fora, marcam em piso leve, airosas e frescas, o compasso da marcha que as suas vozes erguem no espaço, subindo alto, levada muito alto no perfume das flores, até fundir-se na atmosfera da madrugada húmida e ainda pesada dos orvalhos da noite. Sobre as cabeças inquietas levam os potes floridos. Dentro dos peitos arquejantes uma ansiedade, uma aspiração indecisa que toma forma nas suas bocas e é Amor nos seus lábios vermelhos sem pintura...
... Cantigas de amor!
... E a Vida aparece-lhes clara e transparente como a água das fontes que cai das bicas e canta com elas, luminosa e brilhante como a luz que começa a entornar oiro fluído sobre o azul do céu e o verde tenrinho, muito tenro e muito verde, da planície viçosa.
Este ano o Abril foi de inverno. Frio e vendaval, chuvas teimosas que não tinham fim. Os rapazes da música não queriam sair: - Tenham juízo, não sejam malucas! Apanhar uma chuvada e ficarmos como pintos...
Mas elas, enfeitando os cântaros, vendo-se no espelho das flores e recebendo destas a alegria e a certeza da primavera, viam lá a chuva, sentiam lá a chuva, queriam lá saber da chuva!... O 1º. de Maio era sempre o 1º. de Maio. No 1º. de Maio há sempre sol. Elas não acreditam na chuva. E se a chuva vier – há-de desfazer-se ao calor das suas vozes, dos seus corações ansiosos, da sua mocidade ardente. Elas acreditam no 1º. de Maio – e porque acreditam nele, vencem a chuva e vencem a dúvida e o medo dos rapazes das violas que parecem velhos – como o Velho-do-Restelo...
Passou agora o rancho sob a nossa janela. Lá de cima do céu, que parece mais baixo todo forrado de chumbo, cai uma chuva miúda, muito leve e muito fina, como poeira de prata. Mas não desce além dos telhados, fica-se no ar, suspensa sobre a camada de som e de perfume que enche a rua numa alvorada de sol.
... Os cântaros enfeitados!
... E as raparigas dos cântaros!
Há neste conjunto de flores e gente moça que não sente a chuva e que vence a chuva, qualquer coisa

de profundamente simbólico.

Quantos homens fogem à vida, e não a constroem e não a vivem.
Quantos não vêem o sol porque se assustam com a chuva?
Quantos homens poderiam aprender no riso fresco, na chama da vida, na certeza da Primavera destas raparigas que vão lá adiante no cortejo florido dos cântaros, a vencer a dúvida e a edificar por suas mãos o triunfo da sua crença?”.

Prossigo, agora, com mais uma evocação ainda comemorada nos meus tempos de criança. A tarde da chamada “merenda grande” era de ida aos pinhais onde, sob a sombra acolhedora e fresca, eram comidos alguns petiscos. O pinhal mais frequentado era o da quinta da Borlateira, aos Quatro Caminhos. Com o farnel acondicionado no cesto, lá íamos à procura de poiso onde pudessemos estender a toalha e umas velhas mantas, onde nos sentávamos confortavelmente. Claro que também esta “merenda grande” já era uma pálida amostra das antigas, como se pode adivinhar por este recorte, publicado em 1902.

“Diz-se, e com razão, que esta vida são dois dias... É um pensamento que não oferece dúvida, e eis porque muito boa gente não perde um momento em que os possa levar regaladamente. Assim, é ver como alguns andam á espreita dos dias de folgança, para gozar e divertirem-se; há uma festarola, lá vão - em massa, cheios de alegria, farnel aviado e ideia fixa no santinho que os arrasta áquela adoração - esquecer por umas horas as tristezas e amarguras da atribulada vida...
E aqui estava eu a começar um banal aranzel, quando afinal o meu intento é falar da merenda grande, que foi na segunda-feira, e que, como é da praxe, atraíu á minha risonha terra bastante gente que gosta da pandega. Isto contaram-mo, porque a pouca sorte não me deu a felicidade daquelas venturosas creaturas...
Mas as locandas animaram-se; por essas quintarolas fora dizem-nos que houve regabofe desmedido; as pequenas alunas da escola oficial cantavam as estopinhas pelas ruas da povoação, cestinho á cabeça, qual deles enfeitado com mais capricho; nas lautas merendas devoradas com apetite á fresca sombra de copadas árvores ou entre o inebriante perfume exalado dos canteiros e vergéis engrinaldados de lindas rosas, ou ainda nas eiras, onde corria brandamente a pura viração do norte, tudo concorreu para deliciar os ditosos visitantes da minha estremecida e bem amada aldeia.






Rancho 1º. de Maio - 1975