sexta-feira, 11 de abril de 2014

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 15

         O Grupo Musical também organizava tais reuniões, onde seus sócios e sua famílias, folgavam e gozavam de um bem merecido descanso domingueiro. Mas a sua tuna, que foi considerada a mais completa do concelho, adquiriu outro costume: o passeio ao Buçaco ou às termas da Amieira, onde se exibiam apresentando o seu variado reportório, passando o resto do dia em alegre convívio. Estes passeios tinham lugar na quinta-feira da Ascensão.
         Acerca de um dos passeios que esta associação realizou à Serra da Boa Viagem, recolhemos o seguinte apontamento: “...Ficou bem memorável no espirito da família do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense aquele explendido passeio à Serra da Boa Viagem, em um dos últimos domingos.
A enorme caravana saiu e entrou aqui na melhor ordem e alegria, tendo a tuna tocado para a mocidade irrequieta, que naqueles momentos esquece sempre cuidados e afazeres para expandir a alegria bem própria do verdor dos seus anos. Os farnéis - suculentos e variados - foram gastronomizados no aprazível monte da Vela, donde se disfructam inebriantes paisagens, e num pinhal pitoresco próximo do Prazo de Tavarede, onde a folia teve largas até perto da noite.
Em conclusão. O passeio organisado pelo Grupo Musical redundou num dia de festa para os seus associados. As peripecias, os encantos de que foi revestido, constituíam uma bela crónica. Para isso era necessário que houvesse vagar e a nossa inteligência não fosse, como é, tão pobresinha de cultura intelectual...
Limitamo-nos pois, a registar, com subido orgulho e prazer, que as festas, - sejam elas de que espécie fôr - que o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense leva a efeito, são sempre caracterizadas por um tom alegre e feliz. Sim, senhores. Venham de lá novos convites para digressões desta natureza.. Porque, sejamos francos, nem só de pão vive o homem... “.
Por acaso, foi no dia da Ascenção de 1938, que a tuna do Grupo realizou a sua última saída para fora da terra. No ano seguinte acabou. Mas ainda damos conta do passeio realizado em 1942, que as duas colectividades tavaredenses levaram a efeito conjuntamente. “As colectividades locais - Grupo Musical e Sociedade de Instrução Tavaredense - organizam no próximo domingo, 21, o seu costumado passeio anual de confraternização. Foi escolhido para local de acampamento, o aprazível “Pinhal da Borlateira” próximo dos Condados, gentilmente posto à disposição dos organizadores, pelo seu proprietário, sr. dr. Manuel Gomes Cruz.
         Do programa elaborado por mão de mestre fazem parte, além duma formidavel “matinée dançante... ao ar livre”, abrilhantada pelo afamado jazz “Lúcia Lima ou Limonete”?, especialmente contratado para esse fim, estupendas e mirabolantes provas desportivas para ambos os sexos. Vai ser um dia de grande “ferróbódó”, a avaliar pelo enorme entusiasmo que reina entre a família associativa das duas populares colectividades”.
         Era durante estas confraternizações que se disputavam algums jogos tradicionais. Enquanto uns, mais apreciadores do descanso, jogavam uma ‘suecada’, outros optavam pelo clássico jogo da malha. Este, também chamado do ‘fito’, era um dos jogos mais costumados das nossas gentes. Todas as tabernas locais possuiam, em seus quintais, os tabuleiros necessários à prática da malha, que, durante as tardes dos domingos e dias feriados, estavam sempre ocupados travando-se rijas disputas.
         Outro jogo também muito praticado na nossa terra, era o chamado ‘jogo da pela’. Em plena Rua Direita, formados os dois grupos adversários e posto o pequeno banco de madeira no chão, de imediato a bola de trapos, lançada com força, dava início à partida.
         Muitos eram os tradicionais jogos populares que serviam de passatempo aos tavaredenses. Quanto a nós, é com imensa saudade que lembramos os nossos tempos de rapaz, quando também os jogávamos. E se recordo um, na década de 1940, com a engraçada ‘corrida das colheres’, transportadas na boca com um ovo em cima, é só para inserirmos uma fotografia tirada nessa tarde, da corrida de sacos.
 

                                              Corridas das colheres,dentro de sacos.

         Nunca mais vimos os rapazes da nossa terra jogarem ao pião, ao berlinde, ou fazerem as disputadas corridas de pés atados ou com o arco, que acabávamos sempre cobertos de suor. Tantos e tão variados jogos... Mas ainda vamos recordar dois deles.
         Nas tabernas era habitual o jogo de cartas, especialmente o chamado ‘liques’, quando disputado por quatro jogadores, ‘garujo’, por seis, ‘zangarelho’, por oito e até ‘ganipo’, quando se agrupavam dez jogadores. Constantemente se ouviam as cantigas a ‘seis’, ‘nove’, até terminarem a ‘moca’, que, à melhor de três, dava direito a bebida paga pelos perdedores.
         Outro jogo, também muito popular entre nós, era o chamado do ‘caqueiro’. Naquele tempo ainda não havia água canalizada nas casas, pelo que era a água da nossa fonte a utilizada e que as mulheres iam buscar, com os seus potes à cabeça. Naturalmente que, e como diz o velho ditado, ‘tantas vezes o pote vai à fonte que lá deixa a asa’. Eram as vasilhas de barro que rachavam e que eram postas de lado.
         Pelo período carnavalesco jogava-se, então, o ‘caqueiro’. A rapaziada ia de casa em casa recolhendo potes, cântaros e bilhas rachadas, e até velhas caçoilas de barro, todas cobertas exteriormente de fuligem negra, servindo tudo para o jogo.
         Formada a roda, raparigas e rapazes logo começavam a atirar aquelas peças de barro de um lado para o outro. Se alguns conseguiam agarrá-las inteiras e as atiravam para outro parceiro, outros haviam que, talvez mais desajeitados, a deixavam cair ou partir-se nas suas mãos. No fim era uma caqueirada infernal.

         Recordámos alguns dos nossos jogos tradicionais. Outros nos esqueceram, talvez, atér, os mais usuais... 

Operetas em Tavarede - 12

         O segundo acto começa noutro palácio, este o da Grã-Duquesa de Tavarede. O governo encontra-se reunido de urgência.

Presidente do Ministério 
Deveras atrapalhado
Eu não sei como isto conte.
Foi uma calamidade
Fugir o Manuel da Fonte.

Coro
Pode até causar revolta
Esta fuga singular.
Pois não se vê cá na aldeia
Quem fique no seu lugar.

Ministro da Guerra
C’os meus tesos batalhões
Acachapo os refilões.

Coro 
Fala bem, colega amigo,
Mas esta gente da enxada
Fica logo endiabrada
Quando falta a pinga e o trigo.
Se fosse no mês do figo
Era cada barrigada
Que desandava em tachada
Conforme o costume antigo.
Por isso, colega amigo,
Para evitar qualquer p’rigo
Tenha pronta a força armada.

Ministro da Guerra
Não haja medo!
Tenho um segredo
Que val’milhões.
Os meus soldados
São reforçados
Com bons canhões
Que esguicham vinho
Aos borbotões
Sobre os focinhos
Dos malandrões.

         A crise estava instalada em Tavarede. A partida do Manuel da Fonte era a ruína da freguesia. Havia que se tomar medidas imediatas, de contrário, e especialmente com a falta de vinho, seria certo e sabido que a irmandade do S. Martinho, cada vez mais numerosa, levaria o povo à revolta.

         Saltadouro, Várzea e Quintal do Ferreira pedem audiência. Exigem que o governo faça voltar Manuel da Fonte. Todos se queixam do mesmo. A enxada do cavador é indispensável, de contrário, couves, feijão, batatas, novidades, tudo vai acabar. Só ele, com a sua enxada poderosa, os pode salvar. E fica decidido. A Grã-Duquesa manda fazer uma última tentativa diplomática, junto da Figueira, para que Manuel da Fonte seja obrigado a voltar a Tavarede sem mais demora. Se não resultar, a Figueira sofrerá as consequências. Corta-se-lhes a água; manda-se arrasar a central eléctrica; e não deixarão os figueirenses fazer enterramentos no cemitério novo. Se não se conseguir fazer as coisas com jeito, far-se-ão à força! Tinham que prender Manuel da Fonte e obrigá-lo a regressar à aldeia.

         Ignorando o que se estava a passar, Manuel da Fonte procura a casa da famosa bruxa figueirense, a Rita Galinha, a quem pretende pedir conselho. Quer saber se ela lhe diz para seguir a caminho do Brasil... África... América... Ela haveria de o aconselhar.

         Mas, enquanto procura, encontra ele um figurão da cidade, o Papo-Seco. Ao saber das pretensões do cavador facilmente o convence a ficar. Era aqui, na Figueira, que ele encontraria o que procurava. No jogo, a riqueza, e com a riqueza, os divertimentos.

   Na antiguidade eram faladas
   As bravas amazonas
   E nas furiosas galopadas
   Sempre foram pimponas.

   Denodadas
   Valentonas
   Nunca monas
   Nem cansadas;
   Com destreza
   Em concurso
   Não fazemos
   Papel d’urso.
   Que os nossos ginetes
   Nunca dão falsetes.

   Famosos no mundo
   Nada os ultrapassa.
   Que os nossos cavalos
   São de pura raça;
   Os altos valados,
   As largas trincheiras
   Num pulo atravessam.

   Por isso somos
   Valentonas
   Denodadas
  Amazonas!
   
                                                               A Batota

         Entusiasmado, deixa-se conduzir ao jogo onde “arriscando um tostão pode ganhar um milhão”.

  Ninguém aos meus encantos
  Consegue resistir.
  Os mais virtuosos santos
  Não podem de mim fugir.

  Com sorte, num momento,
  Quem puxa à sota o rabo
  Torna-se opulento
  Como um nababo.
  Se joga na roleta,
  Na vermelha ou na preta
  Um tostão
  Sem ter vento d’azar,
  Com vagar
  Até pode
  Alcançar
  Um milhão;
  E com tamanha massa
  Fazer figurão.


         Tudo perde. Os dez contos de reis, que era toda a sua fortuna, perdeu-os ao jogo. Ficou mais pobre, sem nada. E agora? Chegou a pensar em ir atirar-se ao rio. Pois como é que agora havia de ir para o Brasil, sem dinheiro para a passagem? Como ir buscar a riqueza? Como encontrar a felicidade?

sexta-feira, 4 de abril de 2014

As operetas em Tavarede - 11

         Como? Dando-lhe o pão de cada dia e fazendo dele um trabalhador honrado. Mas riqueza, como ele queria, isso não. Por isso queria ir embora. Bem lhe pediram que não partisse. Primeiro foram os milhos.
Milho Branco -
Feito em farinha,
Branca, mimosa,
Sou, bem cozido,
Broa gostosa

Milho Amarelo -
Na nossa aldeia
Sou muito usado.
Muitos me chamam
Pão de soldado

Milho Encarnado -
Nas desfolhadas,
Eu, nas espigas,
Sou o regalo
Das raparigas.

Os Três -
Branco e amarelo,
Mesmo encarnado,
Vamos à mesa
Do mais pintado.

Milho Branco -
Pareço espuma
Vindo da azenha
Sai obra fina
Cozido em Brenha.

Milho Amarelo -
Sou redondinho,
Vistoso e loiro.

Milho encarnado  -
Posto no lume
É cada estoiro!

Os Três -
Branco e amarelo,
Etc. etc. etc.

         Não os escuta. Há-de ser rico. Também a vinha, que só ele sabia tratar como ela queria, com todo o seu saber e carinho. Na empa e na poda não tinha igual. E a farturinha de cachos, que eram sempre um regalo para os olhos, iria acabar se ele for embora.

Não tem o nome na história
Quem primeiro nos provou.
O que é certo é que o farçola
Colheu, comeu e gostou.

Com a bela descoberta
Do patriarca Noé,
Nasceu o licor divino
Que às vezes causa banzé.

Bendito seja
O pai Noé
Que de nós tirou o vinho
E água-pé.

 O vinho alegra
 Mais que o café.
 Se é bom impele à folgança
 Sem banzé.

Tratadas com mil desvelos
Nas Beiras, no Douro e Minho,
Tanto espremem que nos tiram
O mais variado vinho.

Há quem coma nas vindimas
Uma cestada de cachos.
Nalguns vem dor de barriga
Mas nunca ficam borrachos.

Bendito seja, etc. etc.

         Nada. Não quer ouvir mais nada. Chega de tanto trabalhar para os outros. Até a couve, o feijão e o repolho lhe rogam que fique.

         Manuel da Fonte – “A couve é macia, mas enquanto os outros comem as folhas eu tenho de contentar-me com os talos; o feijão é lindo e graúdo, mas para mim fica o miúdo e o que está furado; e o repolho sai fechado das minhas mãos para outros abrirem. Não, quero mudar de vida, estou cansado de ser pobre e escarnecido.
          
Moinhos 
Lá no alto da serra as velas do moinho
Rodam, rodam sem cessar

Coro
Sim, as velas do moinho

Moinhos
Coração bate mansinho
Não te queiras apressar (bis, o coro)

Lá no alto da serra as rodas do moinho
Moem, moem sem cessar.

Coro
Sim, as rodas do moinho

Moinhos
Teu segredo nem baixinho
Lho podemos confiar (bis, o coro)

Coro
Trigo loiro, trigo bendito
Cresce, cresce, cresce sem cessar.
No teu mistério, mistério infinito
Para a vida hás-de tornar (bis)

         Seus ouvidos estão fechados. Não ouve nada. A sua decisão é inabalável. Nem quando o Ti João da Quinta, o pai de Rosa, o tenta chamar à razão, não acede. “Não há felicidade com a pobreza”. Aquela voz que lhe oferece oiro aos punhados há-de encontrá-la. E quando fôr rico, muito rico, havia de voltar. Não esquecia a Rosa, não senhor. Mas, primeiro, havia de achar a fortuna. Iria em sua busca e depois voltaria.

         Vendeu, por dez contos de reis, a terra que seu pai lhe deixara, vestiu o seu fato domingueiro e, trouxa na mão com os seus poucos haveres, aí vai ele, deixando a aldeia.

  Parto e não levo saudades
  Terra de miséria e dor.
  Tu fôste sempre madrasta
  Deste infeliz cavador.

  Vou em busca da ventura
  E de riqueza também.
  Pode ser que em terra estranha
  Ache os carinhos de mãe.

   Nasci pobre e sempre pobre
   Numa vida amargurada,
   Do sol nado até à noite
   Vergado ao peso da enxada.

   Sem pai nem mãe nem amigos
   Sem grata recordação
   Parto e não levo tristeza
   Levo livre o coração.

         No palácio da Rainha das Flores, a corte está reunida.              (com fundo musical próprio, declama-se o poema da história do Pagem)

   Tendes a alvura do lírio
   E a forma esbelta da rosa
   Sois a Rainha das Flores
   Porque sois a mais formosa
   Mais formosa.

   Uma andorinha
   Vinda do sul
   Quando voava
   Em pleno azul,
   Ouviu o canto
   Dum rouxinol
   Que da alvorada
    Ao pôr do sol,
    Soltava meiga
   Canção d’amor,
   Aos tristes ecos
   Do pinheiral.
   Pobre andorinha!
   Ouvindo tal,
   Ficou rendida
   Duma paixão
   E se escondeu
   Na solidão.
   Em poucas horas
   Ali morreu (bis)
   Dessa paixão.

   Abelhas, flores
   E borboletas,
   São sempre encanto
   Para os poetas.
   Somos da natureza
   Brilho, aroma e beleza.


         O segundo acto começa noutro palácio, este o da Grã-Duquesa de Tavarede. O governo encontra-se reunido de urgência.

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 14

         Em 1918 ainda se festejou, na nossa escola, o habitual uso e costume. “Como de costume, as crianças da escola mista desta freguesia apareceram na segunda-feira com os seus cestinhos enfeitados e dentro levando a respectiva merenda. Passaram a tarde na melhor alegria, entre os risos encantadores que saiam dos seus lábios. Também, pelos pinhais, aqui vimos bastante gente com merendas a solenizar o dia”.
         A transferência desta professora acabou com a realização desta animada festa. Como referimos ao princípio, tal costume ainda se manteve por mais alguns anos, com algumas famílias a irem merendar aos pinhais. Mas, o cortejo nunca mais se realizou em Tavarede.



Pic-nics e jogos tradicionais

“As panelas fumegam, e refervem, e os pitéus, feitos ali, num alegre convívio e à sombra amiga dos pinheiros amigos, parece que têm melhor sabor, o sabor da liberdade com que são comidos. Depois há baile. Alegre baile, em que se bate, com mestria, o vira e o estalado. E é vê-los, os pares, novos e velhos numa porfia, rodopiando a lançando ao ar embalsamado pela seiva dos pinheiros, as cantigas que dizem da alegria dos seus corações sempre moços. São, assim, alegres, os pic-nics da minha terra”.
  


                                                           Bailarico de piquenique

 O escrito acima, tirámo-lo da reportagem que António Broeiro, sobrinho, publicou no Jornal de Sintra, tempos depois de para ali ter migrado e que nunca se esqueceu da sua terra natal.
A nossa aldeia era fértil em agradáveis locais, que convidavam ao descanso e a saborear fartas merendas preparadas cuidadosamente em casa e que eram levadas num enorme cesto de verga. As bebidas iam à parte. Os mais frequentados seriam o pinhal da Borlateira, ao poente da quinta, hoje junto ao parque de campismo, e a saudosa mata, da Quinta do Paço, no caminho da Várzea.
         Mas, quando a folga era domingueira, costumavam ir um pouco mais longe. Nestes casos, a mata dos cedros, pertinho da capela do Santo Amaro, na Serra da Boa Viagem, ou a mata junto às lagoas de Quiaios, eram usualmente os lugares preferidos.
As nossas colectividades organizavam, habitualmente, um passeio anual. Era a maneira de compensar os seus amadores teatrais ou musicais, pelo seu esforço e dedicação durante todo o ano. Foi o que sucedeu, por exemplo, no verão de 1928. Aqui deixamos a nota encontrada.
Excedeu tôda a espectativa o passeio que no domingo último se realizou à Serra da Boa Viagem, promovido pela Sociedade de Instrução Tavaredense e dedicado ao seu grupo dramático e aos elementos que lhe têm prestado colaboração.
         Foi uma festa encantadora, que decorreu no meio da mais franca alegria e animação e que não teve a empanar-lhe o brilho qualquer nota discordante, por insignificante que fôsse.
         Além das pessoas especialmente convidadas pela direcção da Sociedade, entre as quais tôdas as raparigas e rapazes do grupo dramático, tomaram parte no passeio muitas famílias de sócios. O transporte fez-se em camionettes e camião adaptados a êsse fim, os quais partiram de Tavarede pelas 14 horas.
         Na Serra formaram-se vários grupos que percorreram alguns dos mais lindos sítios; e às 16 horas e meia todos se reuniram no aprazível local do Covão das figueiras, onde, em vez de figueiras, há cedros que dão ao vale uma sombra e frescura convidativas. A todos os convidados, cêrca de 100, foi servida uma esplêndida merenda, em seguida à qual, na melhor das disposições, a gente moça dançou emquanto no gramofone giravam discos apropriados. Foram horas de inesquecível e fraternal alegria as que ali passaram.
         Às 19 horas fez-se o regresso, entrando todos os veículos em Tavarede ao fim da tarde, formando ruidoso cortejo de businas e cantigas e despertando as atenções e o entusiasmo da população, que acudiu à passagem do alegre cortejo.

         Felicitamos a direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense pela encantadora festa de confraternização que dedicou às amadoras e amadores do seu grupo dramático – que bem a mereceram, deve dizer-se – a qual, repetimos, não teve a prejudicar-lhe o brilho a mais ligeira nota discordante que prejudicasse a alegria sã e a perfeita ordem que de princípio a fim se notaram. Nem outra coisa era de esperar dos briosos elementos da Sociedade de Instrução, que inteiramente são merecedores da simpatia e do conceito público de que se vêm rodeados. Tiraram-se na Serra algumas fotografias e uma fita cinematográfica que reproduz interessantíssimos aspectos e episódios do passeio.       Há um vivo interêsse pela sua passagem, que se fará no écran da Sociedade, num dos próximos dias, juntamente com a nova projecção, a pedido, das cento e tantas fotografias da peça O Sonho do Cavador”.

O Associativismo na Terra do Limonete - 70

         Reparamos, agora, que tivemos uma enorme falha. Não se pode, nem deve, esquecer a magnífica campanha que a SIT levou a efeito, no ano de 1952, levando o seu teatro a diversas localidades do nosso concelho. O programa constava, além de uma pequena palestra pelo director cénico, da representação dos autos de Gil Vicente, Barca do Inferno e Mofina Mendes, da peça As três gerações. De notar que o produto líquido de cada representação reverteu a favor, integralmente, para a colectividade visitada, sendo de admitir que numa ou noutra localidade a visitar, dada a sua pequena população e a pobreza do meio, a receita não chegará para as despesas; mas nem mesmo esta circunstância impedirá a visita dos tavaredenses, pois o “déficit” que se verificar será coberto pela Sociedade de Instrução Tavaredense.

         Ainda no mesmo ano, comemorou-se o primeiro centenário da morte de Almeida Garrett. Estas comemorações, além da sede em Tavarede, também tiveram lugar na Figueira, Condeixa, Alhadas, Quiaios, Marinha Grande, Soure e Coimbra. Além do Frei Luís de Sousa, foi preparado um espectáculo com programa especial. Seria irrealizável se não contássemos com colaborações e dedicações valiosas. A tragédia “Catão” decorre em Útica, no ano 46 AC; “D. Filipa de Vilhena”, no século 17; “Um auto de Gil “Vicente”, no século 16 e “O Tio Simplício”, no século 19, em plena época do próprio Garrett. Veja a variedade e a riqueza do guarda-roupa, cenários e cabeleiras de cada época. O acto de Um auto de Gil Vicente passa-se a bordo da nau “Santa Catarina do Monte Sinai”, na antecâmara da que é já Duquesa de Sabóia, onde se encontra o rei D. Manuel, a infanta sua filha D. Beatriz e Bernardim Ribeiro, cujos amores lendários são o motivo da peça; o almirante da esquadra Conde de Vila-Nova; o Bispo de Targa; o velho Garcia de Rezende, que nos deixou descrição minuciosa daquele quadro da época manuelina; os embaixadores do Duque de Sabóia; Paula Vicente, a filha de Gil Vicente, apresentada por Garrett como grande intérprete na representação das obras vicentinas, etc. São quatro obras diferentes, com acção em quatro épocas diferentes, apresentadas num só programa, exigindo a presença de mais de 30 intérpretes, porque cada um deles não pode interferir em mais de uma peça. Isto bastará para se avaliar da complexidade 

Um auto de Gil Vicente

quantos problemas a resolver! – e da grandeza do empreendimento a que a Sociedade de Instrução Tavaredense se lançou, ensaiando um programa tão difícil e dispendiosa montagem. Alberto Anahory, que é uma autoridade em guarda-roupa histórico, está a tratar da indumentária com o seu belo gosto e sentido artístico; e o professor Manuel de Oliveira, artista consagrado na cenografia, estuda já os cenários a pintar, cujas “maquettes” em breve serão expostas. Estes dois artistas dão-nos colaboração preciosa, com uma simpatia que excede os limites de simples probidade profissional. Sem eles, e sem outras devoções carinhosas, não chegaríamos ao fim.

         E a nossa terra teve a honra de receber uma embaixada coimbrã, que aqui se deslocou propositadamente para homenagear a Sociedade de Instrução. Tavarede viveu no passado domingo, com a visita da embaixada que de Coimbra se deslocou para homenagear a Sociedade de Instrução Tavaredense, algumas horas de inefável alegria.
         Pouco antes das 4 horas, começou a juntar-se muito povo no Largo do Paço, para receber os visitantes, vendo-se ali os estandartes da Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, Grupo Musical de Instrução Tavaredense e da Sociedade de Instrução Tavaredense. Chegada a caravana, constituída por mais de 20 automóveis conduzindo cerca de 100 pessoas, organizou-se um cortejo em direcção da sede da S.I.T., levando na frente a Filarmónica 10 de Agosto que, com a sua presença, muito contribuiu para o êxito da brilhante recepção.
         Ao longo do percurso, pendiam das janelas vistosas colchas, e, à passagem do cortejo, caíam sobre os visitantes pétalas de flores que sopradas pelo vento, em torvelinho, sugeriam a ideia duma maravilhosa chuva multicor.
         Chegados à S.I..T., realizou-se uma sessão solene, que aberta pelo sr. Rui Fernandes Martins, Presidente da Assembleia Geral da Sociedade homenageada, constituiu a mesa, à qual convidou a presidir o sr. dr. Elísio de Moura, nela tomando parte os srs. dr. Fernandes Martins, dr. Manuel dos Santos Duarte, dr. Celestino Maia, dr. Armando Boaventura, do Teatro dos Estudantes; Abílio dos Santos Júnior, José Castilho, do “Diário de Coimbra”; e António de Sousa, do “Despertar”. Depois de saudar os visitantes, o sr. Prof. Rui Martins prestou homenagem ao sr. dr. Elísio de Moura, afirmando que a Sociedade de Instrução Tavaredense se sentia altamente honrada com a sua presença.
         Falou em seguida o sr. dr. Fernandes Martins que pronunciou um discurso cheio de lirismo, focando vários aspectos do problema da assistência, tendo no final do seu discurso convidado o sr. dr. Elísio de Moura a descerrar uma lápide de que a embaixada coimbrã era portadora e que é uma réplica daquela com que a S.I.T. foi homenageada em Coimbra e se encontra colocada no salão nobre do Teatro Avenida, contendo a inscrição:
         “À Sociedade de Instrução Tavaredense nas suas Bodas de Ouro. Homenagem de: Asilo da Infância Desvalida; O Enxoval do Recém-Nascido; Associação de Socorros Mútuos dos Artistas, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários; Delegação dos Inválidos do Comércio; Associação Protectora dos Diabéticos Pobres; Os empregados do Teatro Avenida”.
         Falou depois o advogado sr. dr. Roque Paim acerca do papel desempenhado pela S.I.T. em prole da beneficência e da cultura, sendo o seu discurso muito apreciado pela sua forma elegante e burilada.
         Seguiu-se no uso da palavra o sr. dr. Elísio de Moura, que se espraiou em considerações acerca da S.I.T. e da sua acção, dirigindo palavras de muito apreço ao sr. José Ribeiro, alma da Sociedade que se estava homenageando.
         Antes de encerrar a sessão o sr. Rui Fernandes Martins convidou o sr. José Ribeiro a dizer algumas palavras, tendo este traçado o perfil do sr. dr. Elísio de Moura e da sua obra, e afirmando a grande honra que constituía para Tavarede a presença de tão ilustre sábio na modesta sede da S.I.T.. E, assim, terminou esta brilhante e memorável sessão solene.
         Antes de se retirarem para Coimbra, foram os visitantes obsequiados com um “copo de água”, que serviu de pretexto para se trocarem amistosas saudações.

         E é chegada uma nova deslocação do grupo cénico. Há muitíssimo tempo que a Marinha Grande não recebia uma lição de bom teatro, e, caso curioso mas não único, essa lição foi-lhe dada magistralmente pelo nosso já conhecido, simpático e valoroso grupo cénico de Tavarede!
         No mais curto espaço que nos é possível, resumiremos:
         Festejou-se na noite de 30 de Outubro último, no Teatro Stephens, o centenário da morte de Almeida Garrett com a representação do seu drama imortal “Frei Luís de Sousa”, e, desse empreendimento difícil e assustador para muitos profissionais, encarregou-se corajosamente o “Grupo Cénico de Instrução Tavaredense”. Ele tomou conta do teatro, da peça Garrettiana e... do público!
         Abriu o espectáculo o exmo. sr. dr. Acácio de Calazans Duarte, Director do Teatro Stephens, que em breves palavras apresentou o grupo, fazendo a sua história desde a fundação até nossos dias. Depois o exmo. sr. José da Silva Ribeiro, Director do Grupo Cénico de Tavarede, numa brilhantíssima alocução, quase uma oração de sapiência, fez o elogio de Almeida Garrett, como homem, como político e como escritor, terminando por se referir à peça que se iria representar e ao modesto grupo disso encarregado, que, quanto a nós, será modesto nas suas figuras, mas grande na sua arte, disciplina e força de vontade! As suas palavras prenderam a assistência que as ouviu gostosamente e nós, que com prazer o ouviríamos largo tempo, gostaríamos até de saborear uma conferência sua sobre qualquer tema histórico e instrutivo. Depois, pelo nosso conterrâneo dr. José Henriques Vareda foi-lhe oferecido um artístico jarrão em vidro e pela menina Maria Madalena Monteiro Medina um lindo ramo de flores.
         Seguiu-se a representação de “Frei Luís de Sousa”.
         Sobre a peça não nos atrevemos tocar, pois é sobejamente conhecida e já nos foi apresentada em cinema. Só podemos acrescentar que é um mimo de literatura e construção.
         É puro Garrett e avisadamente andou a Direcção do SOM em trazer até nós esta agrupamento e esta deliciosa peça, e se alguém não foi vê-los não podendo ou não querendo, perdeu uma boa oportunidade para a vista e para o espírito, pois o saber não ocupa lugar...

 
                                       Frei Luís de Sousa – 1º acto

          A peça está rica e luxuosamente posta em cena, rigorosamente à época, tanto nos cenários belíssimos do mestre cenógrafo do Teatro D. Maria II, Manuel de Oliveira, como a indumentária de Alberto Anahory, rica e vistosa. Os vestidos de D. Madalena de Vilhena são alguma coisa de belo e de raro em teatro de amadores. O desempenho atingiu uma alta craveira artística, principalmente por parte da exma. srª D. Violinda Medina e Silva. Esta senhora que já conhecíamos de outras vezes que nos visitou, bem como seu marido(?) o sr. António Jorge da Silva, é uma artista na verdadeira acepção da palavra e que representa, sem exagero, como uma Amélia Rei Colaço ou como uma Palmira Bastos! É preciso vê-la para acreditar! A sua D. Madalena de Vilhena arrebatou o público, fazendo-o chorar e sofrer, nos lances mais dramáticos e trágicos da peça, e não sabemos se qualquer das artistas que mencionámos, o fariam melhor!
         No final do 2º acto e todos os 3º e 4º, até o pano descer, arrancou-nos os nervos, torceu-os, obrigou-nos a chorar e a viver consigo toda a imensa tragédia que Garrett escreveu! Parabéns, minha senhora!
         O sr. António Jorge da Silva em “Telmo Pais” deu-lhe réplica condigna e foi também um “grande actor”. Tudo nele esteve certo, venceu e convenceu. O sr. João Cascão em “Frei Luis de Sousa”, com um timbre de voz mais grave e mais cheia, seria um impecável Manuel de Sousa, mas, mesmo assim, foi subindo gradualmente até ao fim da peça em que nos deu o dramatismo requerido que nos comoveu e também convenceu! Óptimo!
         A jovem Maria Isabel Reis “Dona Maria de Noronha” evidenciou bastantes qualidades e poderá, de futuro, vir a ser uma bela “artista”. Um pouco indecisa a princípio, talvez uma questão de nervos, foi também subindo até ao trágido desfecho da peça, sendo na cena da morte uma digna discípula de seus mestres, imprimindo a essa cena lancinante a patética dor do desabar estrondoso de quatro vidas despedaçadas pela força do Destino! Muito bem, Maria Isabel! O “romeiro”, sr. Fernando Reis, também bastante bem. A sua frase “Ninguém!” a clássica frase que amedronta os artistas, foi bem pronunciada. A sua voz é a requerida. Só o achámos por vezes, ainda muito vigoroso, após tantas vicissitudes e trabalhos. Frei Jorge Coutinho – sr. João de Oliveira Júnior, foi um frade que atravessou a peça como se fosse um frade autêntico e nisso está o nosso melhor elogio e todo o mérito que poderia ter. Os restantes intérpretes srs. José Maria Cordeiro – Prior de Benfica -, António Paula Santos – um irmão converso -, António da Silva Coelho – Miranda -, José Vigário – Arcebispo de Lisboa -, Maria Teresa de Oliveira – Doroteia -, todos acertadamente nos seus papéis secundários, concorrendo muito para o bom êxito de “Frei Luís de Sousa”.
         Todas as cenas foram admiravelmente planeadas e executadas. Até aquelas em que seria fácil cair no ridículo, pela diferença da época em que vivemos, foram de forma a passar com naturalidade. O incêndio do 1º acto, muito bem, e principalmente a cena final da tragédia, passada no altar do Convento de S. Domingos, é uma chave de ouro no fim do espectáculo!
         Teve a grandiosidade religiosa requerida, a que não faltou o coro dos frades, acompanhado a orgão pela nossa conterrânea e também distinta amadora srª D. Maria Hermínia Roldão.
         O público marinhense, este nosso público por vezes tão frio e reservado, aplaudiu de pé e quando um público aplaude de pé é porque está salva a reputação dos intérpretes, das peças e a honra e o prestígio do Teatro Português!

         Ao “Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense” um abraço de parabéns do público marinhense e o sincero desejo de em breve o podermos aplaudir novamente, porque serão sempre benvindos a esta laboriosa terra!