sexta-feira, 9 de maio de 2014

Usos e Costumes na Terra do Limonete 19

  Mas tu, meu velho santinho, que te agasalhavas com uma capa milagrosa e que em tempos idos nos davas sempre um verão delicioso, de dias amenos, sol d’oiro, noites tranquillas de puro ceu azul, illuminadas por estrellas que scintillavam lá no alto ou pela branca lua que campeava muda no espaço, - quão ingrato foste este anno para connosco! Tens-nos dado um tempo tristonho a que não faltam agrestes repellões de vento e frio, acompanhados de grossas bategas d’agua que tem cahido quasi todos os dias e noites, especialmente na passada. E se ella tem feito muito bem ás terras e ás novidades, desenvolvendo as couves e os nabos, crê tu, meu bom santo, que elle tem feito verter muita lagrima aos infelizes que vêem o lar sem pão e sem calor, e que passam o tempo espreitando as abertas que lhe permittam ganhar uns magros reaes. Intercede, pois, com o Senhor Supremo, solicitando-Lhe carinhosamente que governe tudo pelo melhor e que a sua grande bondade nunca esqueça tantas miserias que ahi vão por esse mundo fóra...”.
Comemorava-se, então, mais o vinho novo que o santo, pois “... já nu último domingo, graças ao ‘briol’ eleitoral, foi grande a animação. De todos lados surgiam ‘camoécas’ expontaneas que vinham de ‘satisfazer’ o pedido do amigo”. Pelos vistos, aproveitava-se o dia do Santo para distribuir uns bons copos em troca do voto eleitoralista...
         E foi no ano de 1915 que encontrámos esta nota. “Hontem foi aqui muito festejado o S. Martinho, orago d’esta freguezia. Em todos os lares houve lautas ceias, comendo-se castanhas e bebendo-se da nova pinga. Abriram-se os pipos, sendo a prova de primeira ordem, como era de esperar, em virtude da uva ser colhida sem que apanhasse chuva... Muitas pessoas no final das ceias queimaram foguetes quando souberam que a confraria de S. Martinho tinha reunido e fez a sua eleição, recahindo os cargos nos seguintes senhores: Juiz, Manél das Eguas; secretario, Manél Leonor; vogaes, Antonio Batina, Manél Geada e Zé Toquim; thesoureiro, Zé Cipriano; e andador, Manél Escaldado. Aos membros da nova confraria de S. Martinho as nossas felicitações”.
        A propósito desta ‘confraria’, achamos interessante transcrever um pequeno retalho da revista de costumes teatral, levada à cena no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense, ‘Pátria Livre’, da autoria de João dos Santos e musicada por Gentil Ribeiro.
Um Irmão da Confraria - Em nome da numerosa confraria de S. Martinho, vimos saudar Vossa Exa. e dar a nossa adesão à República. (fala com o Presidente)
Jornalista - Fala bem, este cidadão...
Governador - Ainda bebe melhor. Trazia o recado estudado.
Presidente - Agradeço-vos do coração as vossas saudações, e tenho em alto apreço a vossa adesão à jovem República. Espero que ajudareis o meu Governo a resolver a crise vinícola, tornando cada vez maior o consumo para que se valorize a produção.
Os Irmãos - Apoiado! Muito bem! Viva o nosso Presidente!
Presidente - Obrigado, muito obrigado.
Um Irmão - (um pouco bêbado) Viva a República vinhateira!
Todos os Outros - Viva. (cantam)
Um Grupo -   
     Nós somos da confraria
      Do adorado S. Martinho.
      As rezas de cada dia
      São sempre copos de vinho.

2º. Grupo -
       Do bendito S. Martinho
       Somos devotos fiéis.
       Emborcamos todo o vinho
       Até vazar os tonéis.

Todos - 
      Hoje à Pátria libertada
      Vimos dar o nosso apoio.
     A respeito de taxada
     São todos trigo sem joio.

Um Irmão - Excelência! Em nome da Confraria a que pertencemos, entrego nas mãos de V.Exa. esta representação. O que aí se pede é pouco, muito pouco, e esperamos que o Governo nos atenderá. Queremos que seja revogada a lei das tabernas; queremos que elas estejam abertas a toda a hora, de dia e de noite, como as boticas; queremos inteira liberdade de culto e que cada um possa adorar o orago da freguesia a toda a hora que lhe dê na gana; e pedimos também que o Governo dê um prémio por cada capela que de novo se abrir no território da nossa República.
Presidente - O meu Governo estudará o assunto.
Todos - (os da Confraria saem agradecendo) Obrigado Exa.

As Operetas em Tavarede - 16

Continuemos, agora, com outra personagem interessantíssima, “O Riso”.

            Riso 
       Quando alguém diz uma graça,
       É regra de educação
       Que toda a assistência faça
      A risonha saudação.

      Em qualquer parte
      O rir com arte
      É uma prenda.

     Meus amigos, atenção:
     Vou dar-vos uma lição
     E é útil que ela se entenda.

    (Nota parola)
    Numa saída inesperada
   = Piada só p’la piada,
    Sem se morder em ninguém =
    O riso é forte e a nota é fá
    E convém
     A vogal A
     Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

  Coro
    O riso é forte e a nota é fá
    E convém
    Vogal A
    Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! (bis)

   A gargalhada é mais fraca
   Quando há corte de casaca
   Dum inimigo feroz.
   Agora a nota é um ré,
   Menos voz
   E vogal E
  Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh!

Coro
   Agora a nota é um ré
    Menos voz
    A vogal E
    Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! (bis)

    Ferroada num amigo
     Dita quase p’ra consigo,
     Como a afectar inocência:
     Agora a nota é um mi
     E de urgência
     A vogal I
     Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih!

Coro
     Agora a nota é um mi
     E de urgência
     A vogal I
     Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! (bis)

    Na piada – casca grossa,
    Chalaça pura ou de troça,
    Anedota apimentada,
    Então a nota é um dó
    E adequada
    A vogal O
     Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!

   Coro
      Então a nota é um dó
      E adequada
      A vogal O
      Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! (bis)

         Não, não. É mesmo assim. Não havia versos para a vogal U. Já há muitos anos que não existe Ilda Stichini. Mas, felizmente, existem e existirão para sempre, os belos recitativos que ela disse naquele espectáculo. Depois de recordarmos o “Riso”, vamos ouvir o monólogo de “A Fantasia”.

     O homem mais terno, o ente mais boçal,
     Em cada ano tem, pelo menos, um dia
     De sonho e fantasia.
     Se ele é o beduíno e a vida é o areal,
     Sem esse oásis de oiro em que mana o Ideal
     = A vida o que seria?

    Vêde um acto qualquer duma vida modesta,
    Ou mesmo duma vida opulenta e sadia;
    Tirai-lhe a fantasia
    E dizei-me depois que beleza lhe resta.
    Despido do esplendor que a minha luz lhe empresta,
    Esse acto o que seria?

    Nasce um aborto vil, hediondo, anquilosado,
    E a dolorosa mãe o beija e acaricia!
    E, o que é a fantasia!
    No seu rebento vê, mas vê, um anjo alado!
    Aquele amor de mãe, o afecto mais sagrado,
     Sem mim... o que seria?

     Um dia de noivado... Um véu branco adejando,
      A flor da laranjeira... os cantos da alegria!...
      Que linda fantasia!
      Sem mim – sem esse véu tão delicado e brando –
      Que todas vós andais, cachopas, cobiçando,
     = Noivar... o que seria?

      Depois, ao acabar, no último momento,
      Uma crença no Além, na Luz, no Eterno-dia...
      Que santa fantasia!
      Já pensaste sequer no terrível tormento
      De ver a morte vir, sem esse pensamento?
      Morrer?... o que seria?

         E já que estamos com recitativos, aproveitemos. Ouçamos o que tem para nos dizer “A Tenacidade”.

   Não sabes o que é ter tenacidade?
   É ser uma formiga na labuta,
   É ter maior poder que a força bruta,
   Vencê-la pela força da vontade.

   Aquele que a tiver na vida há-de
   Dominar, embora pela manha astuta,
   Mas dominar, enfim, vencer a luta,
   Triunfar da restante humanidade.

   Gota a gota, se forma a estalactite,
   A grão e grão, a duna sem limite
   = Modelos naturais do meu celeiro.

    Por ser tenaz, casmurro, persistente,
    É que pode grimpar, tornar-se gente
    Qualquer João-Ninguém, qualquer sendeiro.

         E o primeiro acto termina com uma apoteose ao trabalho, que a Formiga apresenta como suprema aspiração de todas as pessoas de bem.

     Lá vão!...
     Lá vão
    Os ranchos do labor
    Fazer
    Nascer,
    Colher
    O grão.

      Assim...
      Assim
      Mostrando o seu valor,
      Que é
      Ter fé
      Até
      Ao fim.

      Lá vão!...
      Lá vão
     Tirar da terra o pão.
     Depois...
     Depois
     Alguns vão supor
     Montar
      Lagar,
      Comprar
      Os bois...

     Lá vão!...
     Lá vão
     Tirar da terra o pão.

      Lá vão!...
      Lá vão
      Com ar dominador
      De quem
      Já tem
      Seu bem
      Na mão!










sexta-feira, 2 de maio de 2014

Operetas em Tavarede - 15

   

             Poeta e pintor Alberto de Lacerda

   Antes de avançarmos na nossa narração, queremos recordar um acontecimento, com esta peça, que, sobremaneira, honrou o nosso grupo. No dia 18 de Julho de 1931, a Sociedade de Instrução Tavaredense foi ao Casino Peninsular, na Figueira, representá-la, em espectáculo de benefício ao Jardim-Escola João de Deus. Honrosamente, quis colaborar neste espectáculo a famosa actriz Ilda Stichini. Era uma grande admiradora do nosso teatro e, por mais de uma vez, esteve aqui, em Tavarede, visitando-nos. Vamos ler um pedacinho que extraímos duma crítica.
       “No primeiro acto houve a nota culminante daquela noite de festa: Ilda Stichini disse primorosamente, com o seu formoso talento e as suas poderosas faculdades de interpretação, A Fantasia e O Riso, belos versos dum artista de pintura que é também um distinto poeta – Alberto de Lacerda. Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida da plateia figueirense. Os versos da Fantasia, disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do Riso, que Alberto de Lacerda escrevera expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que o ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e expontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido”.

         Vamos, então, à história de “A Cigarra e a Formiga”. A primeira personagem a surgir em cena é o “Prólogo”. Ouçamo-lo.

       Ora então...
       Santas noites nos dê Deus!
       Sabeis porque estou contente?
       =Porque estou co’a minha gente,
       Porque me vejo entre os meus,
       No meu torrão!
       O que venho cá fazer?
       Na aldeia como na aldeia:
       Vim aqui, depois da ceia,
       Ao cavaco, p’ra entreter...
       Se havia de ir à taberna
       E sair em pura perda
       A dar a direita à esquerda,
       Trocando perna com perna,
       Vim ao teatro. E então?!...
       Cada um faz o que pode...
       Como o povinho está junto
       E eu tirei cá do bestunto
       Uma formosa invenção
       P’ra divertir o pagode,
       Vou contar-lhes uma história,
       = Coisa tão nova e tão linda
       Que ninguém ouviu ainda
       E doutra não há memória.
       Eu até aposto a cabeça
       (De qualquer dentre vocês...)
       Se houver alguém que a conheça
       E a ouvisse alguma vez.
       P’lo nome parece antiga.
       Mas é novinha, palavra!
       Pensei-a ontem, na cama,
       E é toda da minha lavra.
       E se querem que lhes diga
       Como se chama,
       = Isso é p’ra já:
       “A Cigarra e a Formiga”,
       Ora aí está.

       A Cigarra, velha amiga
       De jovial
       Cantoria.
       Para que o mundo conheça,
       Representa nesta peça
       O ideal,
       A fantasia.
       E esta cara de fuínha,
       “A opulenta
       Vizinha
       Dona Formiga de tal”,
       Vereis o que representa,
       E cotejai os valores
       = Que cada qual tem o seu =
       Enquanto eu
       Me recolho aos bastidores.

         Cigarras e Formigas, figuras simbólicas, na presença umas das outras, tentam fazer valer os seus predicados e mostrar os defeitos das rivais.

     Coro
     Cigarras e formigas
     Não têm o mesmo ideal:
      Os cantos e as fadigas
      Ligam mal.
       Porém, talvez um dia,
       A alguém que tenha jeito,
       A sua companhia
       Dê proveito.
       As qualidades boas
       Que cada uma tem,
       Talvez que nas pessoas
        Liguem bem.

        Cigarra, formiga,
        Afinal
        Talvez façam liga
        Menos mal.

 Cigarra
         Assim,
         Com minha alegria...

Formiga
          Assim,
         Com minha porfia,

Coro
           Talvez um dia,
           Em liga bizarra,
           Formiga e cigarra
           Façam companhia.

         Em casa da Cigarra e da Formiga começam, então, a passar algumas figuras simbólicas que, cantando ou recitando, se apresentam ao público. Não vamos recordar todas essas figuras. Quase que aleatoriamente, fizemos uma pequena escolha. A primeira a apresentar-se foi a “Alegria de Viver”

  Em tudo pôs a mão do Criador
  Um filtro singular!
  A essência da ventura e do Amor
  Respira-se no ar!
  O Eden, afinal,
  É este ambiente
  Que o homem consciente,
  Para obter,
  Dispende unicamente
  O esforço de nascer.
  Para quem fôr
  Da alheia dor
  A caridade,
  É sempre o amor
  O mor factor
  Da f’licidade.
  Pois cada dia
  Que se porfia
  Nessa virtude,
  É, por magia,
  Só de alegria
   E plenitude.

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 18



s. Martinho – padroeiro de Tavarede
  
         Há mais de mil e vinte anos que o nome de São Martinho é parte integrante de Tavarede, pois, segundo o documento mais antigo conhecido, é numa doação, que a filha do conde D. Sisnando fez, no ano de 1092, do então chamado lugar de S. Martinho de Tavarede.
  Mas, na verdade, foi só na década de sessenta do século vinte, que a nossa terra começou a comemorar, condignamente, o dia do seu santo padroeiro.” Como haviamos anunciado, realizou-se no último domingo a festa em honra de S. Martinho, padroeiro da nossa freguesia, cujo programa inserimos. Dada a sua finalidade - honrar S. Martinho e adquirir, com o saldo que fosse obtido, mobiliário para a Igreja, - a festa trouxe muita gente a Tavarede, dos lugares da freguesia, especialmente, que marcaram presença com os seus andores ornamentados transportando os mais variados produtos para serem leiloados. A Filarmónica Figueirense emprestou brilho à solene procissão, que percorreu as ruas do costume, dentro do maior respeito”.
  Realmente, é verdade que desde o século dezanove, pelo menos, o dia deste Santo não era esquecido pelos nossos antepassados, pois era ocasião de recordar o velho ditado de “no dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho”. E, em Tavarede, eram muitos aqueles que fabricavam o seu barrilzito de vinho, mais água-pé que vinho, e poucos aqueles de amanhavam vinhas suficientes para algumas pipas de bom tinto.
“Deixai-nos, velho santo, que vos apresentemos aqui reverentemente os nossos respeitosos cumprimentos, pela chegada do dia 11, dia em que o Borda d’Agua regista a vossa passagem pela galeria dos santos.
         Grande data, para as gentes da freguezia de Tavarede, por ser a do dia do seu querido orago! Não lhes passa ella desapercebida, e por isso n’aquelle dia à noite se costuma ouvir aqui o festivo estralejar de grande foguetorio, lançado em honra do celebre protector dos amigos do divino Bacho...
         Vê se muita alegria, fazem se importantes magustos, dá-se cresta às roliças farinheiras feitas pelas mais recentes matanças de nutridos cevados, e quasi todos espicham os vinhos da sua ultima colheita.
         Aqui tinhamos nós agora uma bella occasião para attrahir a esta localidade milhares e milhares de pessoas, se soubessemos celebrar ruidosamente o dia de S. Martinho, estabelecendo-se para esse fim um programma deslumbrante que annunciasse grandes procissões, Te Deuns, missas acompanhadas por grandes córos e orchestras, espaventoso arraial, admiraveis fógos d’artificio, musicatas, exposição do Deus Bacho em capellas appropriadas, magustos offerecidos ao publico, etc., etc., etc. Fizesse-se depois constar por toda a parte esta festança e veriamos se accorriam ou não aqui forasteiros dos cantos mais reconditos do mundo!...
         Porém, nunca ninguem se lembrou para isso d’este pobre santo, que no seu tempo foi tão milagroso, e que hoje tem a sua imagem desprezada e esquecida a um canto da sacristia da egreja de que elle é patrono, como se tivesse sido um personagem sem importancia que não legasse à posteridade, como elle fez, tamanha nomeada.
         Bem se vê que estamos nos tempos da ingratidão...
         = É pena dizer-se que muitos dos vinhos novos estão por aqui um tanto deteriorados, em resultado, segundo o que ouvimos, da alta temperatura que attingiram alguns dias por occasião das ultimas trovoadas d’outubro.
         =Estamos em pleno verão de S. Martinho. Depois d’uns dias muito chuvosos succederam outros de verdadeira primavera, vindo o astro-rei, com os seus raios quentes e vivificantes, dar viço às sementeiras.
         A manhã de hontem é que se nos apresentou um pouco fria, vendo se luzir além, nos pastos, uma leve pontinha de geada cahida durante a noite, e que o sol depois bem depressa dissipou.
  O caso é que o tempo corre excellentemente para a agricultura e é bonito admirar a faina em que andam os lavradores cá pelos nossos sitios”.
A partir desta, são muitas as notas encontradas recordando o S. Martinho. Deixai-nos, então, recordar esta nota encontrada no ano de 1902. “Creio bem que muito poucos leitores ignorarão que é hoje dia do bemaventurado S. Martinho, o orago querido cá da minha terra natal. Eu sei que há de haver muita gente com inveja de o não ter egualmente por patrono, mas deixem-me dizer-lhes tambem que elle era digno de exercer as suas funcções n’uma freguezia onde melhor soubessem admirar os seus milagres e virtudes... Porque aqui, agora ás 9 horas da noite, por exemplo, deitam-se foguetes, fazem-se lautos magustos, espicha-se o vinho novo, e, enfim, quasi todos se alegram, mas a verdade é que não há um único devoto que vá festejar o santinho á egreja, onde jaz esquecido, não obstante as capellas terem sempre quem as visite. E isto porque lá entendem que o S. Martinho a que o calendario consagra o dia de hoje ficará mais satisfeito por ali lhe prestarem respeitoso culto. E é por isso que em muitos templos do celebre Deus Bacho se commemora ruidosamente a passagem do nosso adorado orago, não faltando cantochão acompanhado por estes versos caracteristicos há muito soltados por uns inspirados devotos:
                            ... Viva S. Martinho...
                            Reine a santa frescata... e chova vinho...
                            Ajoelhemos, tirando a barretina,
                            Ante o santo que a todos nós domina.
                            Juremos, pondo a mão sobre o barril,
                            De fazer das guelas um funil
                            Quando o vinho corra... Viva! Viva
                            S. Martinho qu’os bebedores captiva!...

         Pois aqui mesmo, vá lá tambem um viva! E juntamente um rogo benemerito: que S. Martinho se compadeça dos seus admiradores que por ahi andam aos trambolhões e que tantas vezes dão causa a funestas desgraças.

O Associativismo na Terra do Limonete - 74

               
A Conspiradora 


          É assim de resto e só assim, que se operam “milagres” do género dos conseguidos pelos amadores de Tavarede. “Milagres” que deixam sobretudo surpresos aqueles que pela sua craveira intelectual, estão em melhores condições para lhes apreender, em toda a sua extensão, o valor e significado.
         Não pode pois com verdade dizer-se, que na pobreza actual das suas manifestações culturais, nomeadamente no género artístico, a Figueira não tenha presentemente quem lhe garanta uma projecção muito acima do vulgar, pelo brilho e fulgor duma destacada e louvável actuação, toda ela ao serviço da cultura popular, da benemerência e da divulgação do bom teatro.
         Ainda que para tal, como se verifica, a cidade tenha de socorrer-se da subida valia e dos invulgaríssimos méritos do grupo cénico de modesta aldeia do seu termo.
         Para seu lustre e justa fama perante estranhos.
         E confrangedora humilhação aos próprios olhos.
         Não fosse o “milagre” de Tavarede a condenação mais formal da indolente apatia que, em flagrante contraste, há muito invadiu e domina a cidade…

E após as habituais deslocações a Coimbra e a Tomar, o grupo cénico foi, pela primeira vez a Torres Novas. Conforme havia sido noticiado, veio no passado dia 27 do mês findo a esta Vila para dar um espectáculo no Teatro Virginia em homenagem à Comissão de Honra do Virgínia, Clube Desportivo de Torres Novas e Grupo de Senhoras Dirigentes da Colónia Infantil de Férias, o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que chegou ao Largo do Paço cerca das 19 horas. Aguardavam-no, a Banda Operária Ribatejana, Bombeiros Voluntários e muito povo. Dali, o cortejo dirigiu-se à Câmara Municipal onde os componentes do Grupo Cénico foram recebidos pelo sr. Presidente, Vereadores e outras entidades. O sr. dr. Alves Vieira apresentou-lhes as boas vindas, a que o orientador e ensaiador do simpático grupo, sr. José Ribeiro, agradeceu.
         À noite, com o nosso excelente Teatro repleto, realizou-se o espectáculo. Antes, porém, mais uma vez, falou o sr. Presidente da Câmara que fez o elogio do Grupo Cénico de Tavarede. O sr. José Lopes dos Santos dirigiu também algumas palavras de saudação em nome dos antigos amadores torrejanos e recitou um soneto dedicado ao Grupo de Tavarede e ofereceu-o ao sr. José Ribeiro. O Presidente do Clube Desportivo, sr. Manuel Vences entregou uma lembrança. Por fim, agradeceu o sr. José Ribeiro em nome do Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, todas as provas de simpatia dispensadas desde a chegada, e, num empolgante improviso, falou das belezas de Torres Novas, da grande obra que é aquele Teatro que os seus olhos contemplavam e enalteceu as qualidades dos torrejanos. E imediatamente principiou a representação da peça “A Conspiradora”, a que o nosso colaborador F.F. faz a seguir as suas apreciações.
Conhecendo já, de tradição, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e, informados – quer por leitura de notícias críticas publicadas na imprensa quer por referências orais que me foram feitas por pessoas que assistiram a alguns dos espectáculos promovidos por esse Grupo – da qualidade, merecimento, importância e significado da obra levada a cabo pelo seu director artístico, o jornalista José Ribeiro, foi com alertado interesse e em alvoroçada expectativa que nos dirigimos no passado sábado ao Teatro Virgínia para assistirmos à representação de “A Conspiradora”.
         Devemos dizer, antes de mais, em homenagem à verdade, que esse interesse teve uma compensação positiva e essa expectativa não foi iludida nem ludibriada. De facto, valeu a pena ir ao Virgínia ver e ouvir o grupo de Tavarede!
         Diremos mais: - Dos conjuntos de teatro de amadores que já vimos actuar, tais como o Grupo Dramático Lisbonense quando ainda era dirigido pela malograda e inolvidável Manuela Porto e o Grupo Dramático da “Sociedade de Instrução Guilherme Cossul” orientado por Jacinto Ramos (hoje director do Teatro Experimental de Lisboa), aquele que, a nosso ver, traduz e consubstancia um maior mérito cultural é, sem dúvida, o agrupamento de que José Ribeiro é o grande animador.
         Não por ser o mais homogéneo, disciplinado e coeso. Não, também, por possuir um mais elevado grau de afinação artística, de maturidade interpretativa, de consciência teatral, de equilíbrio cénico.
         Muito menos pela superioridade intrínseca dos textos dramáticos que constituem o seu repertório.
         Tão-pouco pela maior justeza técnica, audácia intelectual, sentido rítmico, originalidade formal, poder imaginativo, consistência interna das suas encenações (neste particular, Manuela Porto, rasgou amplas e fecundas perspectivas no Grupo Dramático Lisbonense que foram, de modo algum, aproveitadas, continuadas e até enriquecidas pelo Teatro Experimental do Porto da direcção de António Pedro).
         O que, em nosso entender confere ao Grupo Cénico de Tavarede um significado e um alcance pedagógico-culturais ainda não logrados em associações congéneres é o facto de o referido grupo ter surgido numa pequena aldeia, portanto num reduzido aglomerado populacional e ali recrutar os seus elementos e, ainda, nesse meio rural, encontrar o público bastante (em número, em devotamento e em compreensão) para apoiar e proteger, moral e materialmente, os seus empreendimentos teatrais.
         Eis o que se nos afigura singular, admirável, único, na geografia cultural do nosso país.
         Que prodigiosa escola de cultura popular, de pedagogia social, de educação estética, de convivência cívica, de cooperação humana ergueu José Ribeiro em Tavarede com o seu grupo de amadores teatrais, onde os instintos se sublimam, os sentimentos se enobrecem, os impulsos naturais se refreiam, as forças inatas do espírito se desenvolvem, os recursos da inteligência se valorizam, as virtualidades artísticas da sensibilidade se consciencializam, tudo dentro duma disciplina, livremente consentida, duma convergência voluntária de esforços, de um trabalho colectivo, desinteressado, heróica e despretenciosamente efectuado; disciplina, convergência, trabalho estes que sobre as tábuas de um palco assumem uma harmoniosa e construtiva expressão de paz espiritual, de saúde mental, de beleza plástica e vivência emotiva.
         Que dizer do nível da representação de “A Conspiradora” no passado dia 27 de Abril?
         Dizer que esse nível foi óptimo, excelente, impecável, seria mentir desnecessária e inutilmente e, além do mais prestar um mau serviço ao grupo de Tavarede.
         Mas, sem sombra de complacência ou ponta de exagero, podemos tranquilamente afirmar, seguros de que ninguém nos contestará a asserção, que tal nível foi francamente satisfatório se não nos esquecermos (e não o devemos honestamente fazer) que os rapazes e as raparigas que vimos representar no Virgínia a peça de Vasco Mendonça Alves não só são amadores, mas também e, muito principalmente, são homens e mulheres de modesta condição social (quase todos eles operários) e de escassa instrução.
         De uma maneira geral, todos os intervenientes na representação da peça possuem uma dicção correcta, uma articulação e colocação de voz aceitável que, embora apresentando deficiências e quebras, muito raramente caiem na melopeia silábica, num enfatuamento declamatório, na tonitruância oratória.
         Quase todos com jogo fisionómico expressivo (alguns até, forçando a nota, acentuando caricaturalmente o recorte já de si pitoresco e anedótico de certas personagens – por exemplo: - o cónego Raimundo, Governo, A Morgada de Loures).
         Há que destacar, porém, por um acto de justiça, os amadores que encarnam os personagens da Marquesa do Souto dos Arcos, de Clara e do Padre António, que deram mostras duma capacidade histriónica e de uma desenvoltura interpretativa pouco vulgar entre amadores.
         Quanto à peça, achamo-la, para nosso gosto, pobre de miolo dramático, frouxa de autêntica teatralidade e de coerente acção dialogal, aliterada e de indigesta dialéctica verbalística, superficial e demagógica no tocante ao seu conteúdo ideológico, demasiadamente descritiva e retoricamente (tão só, não mais!) evocadora dum acontecimento histórico que merecia e consentia um mais hábil, flexível, penetrante e consequente tratamento cénico.

         Terminando, formulamos um voto de esperança: - é o de que, muito em breve, existam em Portugal, disseminados pelas suas cidades, vilas e aldeias, muitos grupos de teatro de amadores que seguindo o exemplo do de Tavarede desmintam aqueles que, com certa razão, melancolicamente o reconhecemos, afirmam que o movimento associacionista entre nós quase sempre se vem confinando aos clubes desportivos.