sábado, 15 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 45


1981.01.23     -     ECOS DA TERRA DO LIMONETE (O DEVER)

                Já 77 anos são passados desde que em 1904 nasceu na velha Tavarede a Sociedade de Instrução Tavaredense. 77 anos que tiveram o condão de operar a milagrosa transformação das suas gentes como nos foi dado observar no seu magnífico (mas já pequeno) Teatro. Não exageramos se afirmarmos que, naquela casa, não se fez teatro mas se escreveu história ao reviver-se todo um passado que se perde no distante século XI (Conde D. Sisnando). Aqueles homens, mulheres e crianças, escudadas embora no saber e perspicácia desse “quase lendário” José Ribeiro e que mesmo amparado à bengala continua a ser o Mestre insubstituível, parecem ter dentro de si a arte dos seus antepassados, tão perfeitas são as respectivas actuações.
                Em Tavarede não se aprende teatro, respira-se teatro!
                Mas vamos ao espectáculo.
                Com uma casa à cunha foi levada à cena a fantasia em 2 actos e 13 cenas, “Ecos da Terra do Limonete” que abriu com aplaudidas palavras de José Ribeiro. Desfilaram, em seguida, pelo famoso palco, mais de meia centena de personagens a quem a riqueza da indumentária de Alberto Anahory transmitia uma “realidade histórica” que transportava os espectadores àquele país de “fantasia-verdade” que julgávamos só estar ao alcance de profissionais.
                Como momentos mais altos daquela fantasia salientamos (embora reconhecendo o melindre da tarefa dado o excelente nível de toda a peça):
                = o Velho do Paço (João Oliveira) em que a espectral figura de velho se fundia com as funduras do “postal do Paço de Tavarede”;
                = a riqueza dos vestuários e adequado enquadramento das numerosas personagens em “Onde começa a História” e “O serão das Alfândegas”;
                = a sensibilidade e “vivência histórica” em “Dois Mortos sem sepultura” (João Medina, Antonino Santos e Helena Carvalho);
                = o “Zé da Gaita” (José Luís), “Vitorino da Vaca” (João Medina), “Horta da Figueira”, “Conversa na Rua”, “Canção da Fonte”, a bruxa (Otília Medina), “Milagre da Fonte”, etc. etc.

1981.03.06     -     TEATRO EM TAVAREDE (O FIGUEIRENSE)

                Verdadeiramente calorosos os aplausos com que o público tem acolhido, na sua triunfal carreira, a peça de Tavarede “Ecos da Terra do Limonete”. O facto plenamente se justifica: os 2 actos da peça, constituidos por 13 cenas de evocação histórica, de bela e rica fantasia e de comentário alegre e pitoresco, são aliciantes sugestivos – um desfile de figuras e de factos de ontem e de hoje, começando pela tão bela cena de “A Mãe e a Filha” (Tavarede e Figueira), como prolongando a história da vila de Tavarede e do lugar de S. Julião com o Conde D. Sisnando, o Abade Pedro e Cidel Pais em Coimbra, no ano de 1064; passando pelas ruínas do Paço dos Quadros com a sua falada torre com ameias; relembrando Fernandes Tomás; ouvindo o exportador de laranjas junto à casa da Câmara de Tavarede; e a conversa na rua, e o Capador e o Carreiro; e, a fechar, o rancho do 1º de Maio com os potes enfeitados. Tudo isto dentro de linda moldura cénica, com um conjunto de 60 figuras lindamente vestidas por Anahory e boa música enriquecendo e alegrando algumas cenas.
                Quem desejar ver ainda uma vez esta obra da SIT terá de ir amanhã a Tavarede. Será a despedida de “Ecos da Terra do Limonete”.

1981.04.06     -     V JORNADAS DE TEATRO AMADOR (MAR ALTO)

                Quando em 1664, em França, Molière apresenta a sua nova peça, estaria talvez longe de pensar que um escândalo iria abalar durante algum tempo a sociedade da época, mercê da intervenção do poderio eclesiástico face à exibição em Versalhes, pela primeira vez, da última comédia daquele que viria a ser um dos maiores nomes da comediografia francesa, conseguindo durante alguns anos a proibição da sua representação.
                A mais de trezentos anos de distância, a Sociedade de Instrução Tavaredense põe em cena essa polémica obra de Molière, “Tartufo”, uma comédia em 5 actos, numa adaptação literária de António Feliciano de Castilho.
                É evidente que a sociedade actual não comunga dos mesmos preconceitos daquela época, nem o clericalismo de hoje detém a força e a influência política capaz de cercear uma obra tão mordaz como “Tartufo”.
                Em “Tartufo”, Molière satiriza não só uma época, mas perpétua no tempo a visão sombria de todas aquelas figuras sinistras, repelentes, que sugam a cada passo os ingénuos e pobres de espírito que se deixam levar pela matreirice diabólica dos cínicos e oportunistas sem escrúpulos.
                Tartufo é a personagem central desta peça, um falso devoto que mercê das suas habilidades e valendo-se de falsos conceitos morais e religiosos de que se faz possuir, consegue albergar-se no seio de uma família cujas tradições religiosas do senhor e de sua mãe fazem dele a pessoa mais idolatrada da casa – um santo possuidor de todas as virtudes.
                Mas como em todas as histórias, a verdade se sobrepõe à hipocrisia e Tartufo é desmascarado e preso antes de se consumar a sua mais ignominiosa perfídia.
                A actuação da Sociedade de Instrução Tavaredense desempenhou o mais perfeito trabalho que até agora nos foi apresentado nestas Jornadas de Teatro Amador. Numa peça de difícil desempenho, quer pela extensão dos seus diálogos, quer pela extensiva permanência em cena de muitos dos seus personagens, obrigando-os a uma movimentada marcação, mantendo sempre viva a sua presença e a expressivos jogos mímicos de que aliás se saíram com perfeita execução, foi bem posto à prova um conjunto de artistas excelentemente dirigidos, denotando um saber e uma experiência notáveis para um agrupamento amador.
                No plano individual, assistimos a exibições francamente boas, onde não são de apontar excepções negativas à boa interpretação de todos os elementos. Refira-se no entanto a extraordinária interpretação de Ana Paula Fadigas no papel de Dorina, a criada da casa, que apenas como comentário nos apetece alertar os empresários de teatro profissional para, no caso de precisarem de artistas de primeiro plano, aparecerem por Tavarede.
                João de Oliveira, o Tartufo, que não é decerto um refinado hipócrita, fingiu-o muito bem.
                Para a figura irascível do velho Orgon, dono da casa,, também uma excelente interpretação de João Medina, apenas um reparo que não deslustra no entanto a sua boa actuação. Parece-nos que deveria pôr um pouco menos fulgor na voz e mais na expressão, quando Dorina lhe dava as novas da casa e ele apenas pretendia saber de Tartufo, perguntando por ele repetida e energicamente. Este é um dos momentos altos desta peça, pois traduz o desprezo pelos mais elementares deveres para com a família, contrastando com a obcecação fanática posta na veneração quase divina àquele homem que viria a portar-se como um símbolo de hipocrisia e traição.

1981.05.01     -     TARTUFO DE MOLIÈRE À JOSÉ RIBEIRO (O DEVER)

                O famoso grupo cénico da S. I., Tavaredense desceu à Figueira, mais uma vez, para, com todo o valor que lhe é justamente reconhecido, levar à cena a conhecida comédia de Molière, Tartufo, na versão de António Feliciano de Castilho.
                Obra célebre, de autor célebre, encontrou no experimentado Grupo de Tavarede e estudo abalisado de José Ribeiro o pulso forte que a sua erudição exigia e possibilitou uma exibição de nível e que apenas estará à mercê de equipas altamente profissionalizadas. Os amadores (?) de Tavarede mostraram, assim, ter atingido um grau de maturidade teatral tal que só estará ao alcance de minguado número de grupos cénicos no nosso país.
                Tartufo não é uma peça fácil. Não sei mesmo se é possível vê-lo, com tal nível, em Portugal. Só artistas evoluídos, estudiosos, superiormente dirigidos, têm acesso a Molière. Ora, todo o elenco que pisou o palco do Peninsular, sem excepção, chegou a Molière. Assim – e porque seria injustiça realçar nomes – aqui fica a lista de todas as personagens que tornaram possível tal espectáculo que entusiasmou a numerosa assistência que quase enchia a sala e dispensou ao famoso grupo calorosa ovação que só terminou quando José Ribeiro, principal responsável pelo êxito obtido, apareceu no palco.
                Personagens: Madame Pernelle, mãe de Orgon, Lurdes Lontro; Orgon, marido de Elmira, João Medina; Elmira, esposa de Orgon, Maria Conceição Mota; Damis, filho de Orgon, Vitor Medina; Mariana, filha de Orgon, Ana Maria Bernardes; Valério, noivo de Mariana, José Manuel Vitorino; Cleanto, cunhado de Orgon, José Luis Nascimento; Tartufo, falso devoto, João de Oliveira; Dorina, creada de Mariana, Ana Paula Fadigas; Leal, oficial de diligências, Manuel Lontro; Meirinho, Antonino Santos e Filipa, creada de Mme. Pernelle, Teresa Lontro.

1981.05.07     -     JORNADAS DE TEATRO AMADOR (A VOZ DA FIGUEIRA)

                O teatro aconteceu no passado dia 27 com a apresentação do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Esta é a “troupe” do concelho com mais experiência de palco e de maiores créditos dados até agora.
                Não por isso, mas pela linha de conduta imposta ao grupo, ele constitui um grande exemplo a seguir pelos demais. Desde a subida do pano (rigorosamente à hora marcada) até ao final da peça, respirou-se disciplina.
                Qualquer pessoa, habituada a ver teatro, notou ali a mão de um mestre conduzindo cada elemento e a harmonizar o todo da encenação. No final, alguém nos informou que, efectivamente, a venerável figura que apareceu em palco, trazida pelos actores, era o devotado artífice de tão homogéneo grupo: - José Ribeiro.
                Verdadeiro sacerdote do teatro, ele conseguiu, ao longo dos anos, uma obra que poderá (e quanto a nós DEVERÁ) apresentar em qualquer festival de teatro, mesmo no estrangeiro.
                Talento e bom senso demonstraram todos os elementos em palco, mas – que me perdoem os demais – João Medina, na figura de Orgon fez-nos lembrar Jacinto Ramos. E não temos dúvida nenhuma em afirmar que Ana Paula Fadigas (na criada Dorina) poderá ser se o quizer – um grande vulto do teatro português.
                E que bem que Lurdes Lontro traçou a figura da mãe de Orgon! O próprio Tartufo, cuja aparência de João Oliveira igualmente ajudou, além da rigorosa interpretação.
                Tão emocionada nos deixou o vosso esforço, tavaredenses – ele bem se adivinha pela obra apresentada – que um dia vos procuraremos.

1981.05.15     -     TARTUFO (BARCA NOVA)

                ... o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense optou por ser “fiel à obra”, o que não surpreende por estar de acordo com os seus trabalhos anteriores e as ideias do se encenador. Apesar de fazer apenas dois intervalos, entre o 2 e 3º actos e o 4º e 5º actos, o pano de boca desce sempre no final de todos os actos e não podem ser designados por intervalo só porque os espectadores não saiem da sala. Pequeno pormenor sem interesse pensarão alguns, mas que demonstra bem que nem todas as novas técnicas de produção teatral foram seguidas neste espectáculo. No final desta montagem de Mestre José Ribeiro tivemos a sensação de que Tartufo não tinha mostrado a sua verdadeira face dos dias de hoje, apesar de todas as qualidades que o espectáculo encerra.
                O bom trabalho da maioria dos actores, apesar da sua representação convencional não impede a impressão de termos estado na sala de um museu onde às obras expostas não são fornecidas as melhores condições para serem admiradas na sua plenitude. Porém, tudo isto não nos impede de afirmar que este é até agora o melhor espectáculo destas V Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, e que Ana Paula Fadigas confirma as suas grandes potencialidades como actriz.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 21


            
              
              Depois do falecimento de seu marido resolveu vir viver para Tavarede. Chegada à nossa terra, decidiu passar peocuração a seu primo António Xavier Juzarte de Quadros, morador em Coimbra, que, anos mais tarde, acabaria por ter grande influência nos factos que ocorreram e que tiveram enorme consequência no seu destino.        Também foi em Tavarede que D. António Madalena tomou amizade com João Anselmo de Melo Barreto de Eça, natural de Águeda, que adiante participará na história e o qual viria a ser nomeado seu mordomo e administrador.

            Embora possuidora de rendimentos elevados, isto durante os anos de 1805 a 1809, várias foram as causas que, especialmente a partir dos finais de 1807, trouxeram a decadência à Morgada de Tavarede. … As dívidas que ficaram de seu marido, a necessidade (e vontade) de viver de acordo com a sua condição social, a necessidade de dar destino aos filhos, alguma inabilidade e a certa falta de preparação para a gestão dos seus bens, os muitos interesses de terceiros que giravam à volta dessa administração e principalmente as consequências locais das invasões francesas serão as causas mais seguros para o descalabro económico… (A Casa de Tavarede).

            Terá sido para sua segurança que D. Antónia Madalena resolveu ir para Lisboa, por volta do ano de 1810, acompanhada de sua filha, a qual, por ordem do principe regente D. João, havida sido recolhida no convento da Visitação, em Lisboa, como educanda, tendo seu filho sido educado no Colégio dos Nobres.

            Entretanto seu filho, feito barão e mais tarde conde de Tavarede, como veremos, casou em 1810, tendo então 16 anos, com D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araujo e Meneses, de Trancoso, tendo D. Antónia Madalena dotado seu filho com a propriedade e o usufruto de um terço dos bens livres e administração e uso da Casa de Tavarede, vínculos e prazos, bens livres, em cujo governo entraria logo que casasse… … ficando este obrigado a pagar-lhe 2 800 000 reis anuais, em mesadas iguais… vivendo ela separada do filho.

            No caso de seu filho faltar às obrigações nomeadas no dote, D. Antónia Madalena poderia tomar de novo a administração da casa de Tavarede, ficando, no entanto, com a obrigação de lhe dar 6 000 cruzados anualmente, a título de alimentos.

            O jovem casal passou a residir em Tavarede, conjuntamente com os  pais da noiva. Desentimentos vários, inclusivé a falta do pagamento das verbas estipuladas, levaram D. Antónia Madalena a ir residir para Lisboa, acolhendo-se no Convento de Santos, juntamente com sua filha, pois tivera de a retirar do convento da Visitação, por não ter possibilidades económicas de ali a manter.

            Devido a várias tropelias cometidas por seu filho e, especialmente, pelo pai de sua nora, retirados, entretanto, para Trancoso, D. Antónia, na tentativa de evitar que a Casa de Tavarede, da qual recobrara a administração, fosse consumida pelas exigências dos credores, recorreu à administração judicial de sua casa. A administração foi concedida por provisão de 12 de Novembro de 1810, tendo sido nomeado juiz administrador o Desembargador José António da Silva Pedrosa.

            Foram duas as causas principais para a grande quebra de rendimentos da Casa de Tavarede. A primeira causa era devida às invasões francesas que trouveram grande instabilidade a quem vivia de seus rendimentos. A segundo, e principal, terá sido o péssimo exercício da administração que, sendo exercida por juizes residentes em Lisboa, permitiam negócios e concluios altamente lesivos da a Casa.

            Parece que a culpa de tudo o que se passava era do Desembargador Pedrosa, que passou a julgar-se dono e senhor da Casa de Tavarede. Deixou de cumprir o pagamento da pensão a que D. Antónia tinha direito, ficando esta de tal forma que, em Julho de 1811, teve de sair do convento de Santos, visto não ter com que ali pudesse sobreviver decentemente.

            Por aviso régio de Fevereiro de 1811, obtivera o favor de mandar recolher, até ao final de Março, sua filha no convento da Visitação, a título de acabar a sua educação. A pensão estabelecida era de 60 000 reis mensais, que só davam para tenda, aguadeira e lavadeira.

            De qualquer forma procurava não descurar os negócios da Casa de Tavarede. Diz D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, Senhora de Tavarede, viúva de Francisco der Almada e Mendonça, que tendo obtido de Sua Majestade a graça de lhe conceder uma administração judicial para a sua Casa de Tavarede, de que V.Exª. é digníssimo Juiz, vem a Suplicante informar que representam a sua Casa com mágoa e defraudação, pelo que a sua Casa está sofrendo em alguns dos seus direitos. E principia, agora no presente requerimento, pelo abuso que várias pessoas da Figueira, Lavos e Vila Verde, têm feito da passagem para a Ínsua da Morraceira, sem reconhecimento, licença ou facultado deste Juizo ou da Suplicante.
            Entre os bens desta Casa se compreende a dita Ínsua da Morraceira, que é uma ilha próxima à foz do Mondego, cuja ilha é toda da Suplicante, e compondo-se de salinas, é a passagem para a dita ilha privativa da Casa da Suplicante, e ninguém pode atravessar por ela senão nos barcos estabelecidos para esse fim, e de cuja passagem pagam direitos, desde tempo imemorial, à Casa da Suplicante, tendo havido já sentenças obtidas pela Suplicante e seus antepassados a favor destes direitos.
            Acontece, pois, que ao presente muitas pessoas, com ofensa destes direitos, põem barcos para a passagem para a Morraceira, sem quererem reconhecer este Juizo ou a Suplicante, como senhora exclusiva deste direito, e por isso ela recorre a esta administração para que se digne mandar ordem ao Juiz de Fora da Figueira, a fim de se evitar este abuso, fazendo-se citar quaisquer pessoas que tenham barcos para a dita passagem, para mais o não praticarem, sem reconhecimento a este Juizo ou à Suplicante, com a pena de que fazendo o contrário lhe serem apreendidos e inutilizados os barcos, intimando-se igualmente Domingos José da Costa, da vila da Figueira, actual recebedor das rendas da Casa da Suplicante, para que com o seu conhecido zelo, fiscalize o exacto cumprimento da ordem sobredita, pondo os barcos necessários, fazendo os ajustes convenientes e recebendo o produto destes direitos, da mesma forma que recebe as mais rendas da Casa da Suplicante.
            A V.Senhoria se digne assim o haver por bem. D. António Madalena de Quadros e Sousa

            D. Antónia Madalena nunca negou as dificuldades que passou e que, para lhes fazer face, tivera de vender bens e contrair dívidas. … ocultava a venda do prazo de Torres Vedras e a das jóias, móveis, carruagens e bestas… E para encobrir a sua prodigalidade fingia despesas arbitrárias que jamais poderia comprovar… (A Casa de Tavarede)

            Entretanto o Desembargador Pedrosa foi substituido, em Dezembro de 1811, pelo Desembargador da Casa de Suplicação José Guilherme de Miranda. E em Março de 1813, a morgada regressou a Tavarede, onde passou a viver.e em Junho daquele ano tem lugar o casamento de sua filha, D. Ana Felícia, com D. Tomás da Cunha Manuel Henriques de Melo e Castro, senhor do morgadio da Roliça, moço fidalgo da Casa Real, tenente coronel do Regimento de Milícias da Figueira da Foz, condecorado com a medalha da Guerra Peninsular e que havia nascido em 1777.

sábado, 8 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 44


1979.05.11     -     O PROCESSO DE JESUS (BARCA NOVA)

                “... se existe perfeição e harmonia, tanto na peça como na sua interpretação dependem um do outro e têm valor por si próprios. Não pode assim existir uma reprodução fiel, objectiva, duma obra teatral: não teria interesse, nem sequer como ideal”. Assim, assistimos a um espectáculo bem elaborado nos seus múltiplos aspectos, ainda que se possa afirmar que a nível do texto dramático a argumentação feita pelo Intelectual não seja profunda, do que resulta a defesa aberta da religião.
                Como resultado do perfeito conhecimento da função de um encenador e de acordo com a opção estética feita, este espectáculo tem uma encenação correcta e equilibrada, o que não surpreende ninguem, pois o seu responsável é um profundo conhecedor da técnica teatral.
                Quanto ao trabalho dos actores é homogéneo, havendo uma boa construção de todas as personagens. Porém, as falas de João são excessivamente gritadas, o que denota mau controlo da voz e (ou) nervosismo do intérprete. O trabalho dos actores é homogéneo, mas não podemos deixar de salientar a interpretação de João de Oliveira Júnior e dessa grande senhora de teatro que é Violinda Medina e Silva, de quem nunca esqueceremos a sua interpretação do “Pranto de Maria Parda”, de Gil Vicente.

1980.02.22     -     SHAKESPEARE EM TAVAREDE (O FIGUEIRENSE)

                Prossegue amanhã, dia 23, a carreira da nova peça da Sociedade de Instrução Tavaredense, “Rosalinda”, encantadora comédia romântica do genial Shakespeare, adaptação em 5 actos e 12 cenas da célebre peça “As You Like It”.
Um grande e belo espectáculo o que está em cena no Teatro de Tavarede. E o brilhante êxito alcançado – com lotações esgotadas – plenamente se justifica pela beleza, ternura e graça da peça, construída no riquíssimo e vigoroso estilo do imortal dramaturgo, recheada de situações de grande efeito teatral.
A montagem da peça honra a tradição tavaredense: interpretação excelente de um conjunto de 30 figuras, primorosamente vestidas com rico e belo guarda-roupa histórico do grande artista Anahory, e cenários de grande beleza nas 12 cenas em que se desenvolve a acção – fins do século 16.

1980.05.08     -     JORNADAS DE TEATRO AMADOR (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Distribuição: Camila de Almeida, viúva inconsolável de Plácido de Almeida, Maria da Conceição Mota; Maria Joana, amiga íntima de Camila, Maria de Lurdes Lontro; Becas (Maria José de Meneses) filha de Camila e de Vasco Meneses, Ana Paula Fadigas; Ângela, afilhada de Plácido de Almeida, Ana Maria Bernardes; Madalena, Condessa de Laranjeiro, Maria Adelaide Carvalheiro; uma criada, Helena Carvalho; Cândido Ventura, João Medina; Vasco Meneses, 1º. marido de Camila, João de Oliveira; Conde de Laranjeiro, Fernando Reis; Luisinho, filho de Camila e Vasco, Francisco Carvalho; Pitó, noivo da Becas, João José Silva; Negrão, proprietário da agência funerária, José Luís Nascimento; e Valadas, repórter, Antonino Santos.
                Foi o ponto final que se esperava, a preencher a 10ª. e derradeira sessão das jornadas teatrais deste ano, que as colectividades do concelho levaram, cada uma com os cabedais de que dispunha, ao palco do Casino Peninsular, por iniciativa, nunca assás louvada, do Lions Clube da Figueira da Foz, iniciativa que é de prosseguir para estímulo das actividades culturais, tão carecidas de positivo apoio.
                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, a que José Ribeiro imprime a sua dedada de mestre inconfundível e incontestado, era aguardado com singular expectativa. A representação da “Comédia da Morte e da Vida” constituiu vigorosa sessão de teatro, levada a um nível e homogeneidade difíceis de atingir.
                Novos e velhos brilharam a grande altura.
                Entre os novos, justo se torna enaltecer o excelente trabalho de Ana Paula Fadigas, Ana Maria Bernardes, Maria da Conceição Mota e Francisco Carvalho. Este último parece ter sido talhado para o papel.
                Dos antigos assinalem-se presenças inesquecíveis, tantas vezes reveladas no palco de Tavarede, escola de autênticos artistas que não destoariam nos palcos de teatro profissional. Citemos os seus nomes com a merecida admiração: Maria de Lurdes Lontro, Helena Carvalho, João Medina, João de Oliveira, Fernando Reis, José Luís do Nascimento.
                O público aplaudiu e, no fim, não se dispensou de fazer uma chamada a José Ribeiro, cuja cadeira na plateia não ocupou desta vez como espectador fiel, para dentro do proscénio estar atento ao desenrolar da representação – mais uma que o seu talento e inexcedível devoção ao teatro proporcionaram aos seus admiradores.
                Da peça nos apraz notar que é bem construída, com excelentes diálogos e vincada intenção crítica.
                Henrique Galvão – o antigo director da Emissora Nacional, mais tarde tresloucado chefe do assalto ao paquete “Santa Maria” – era um escritor bem dotado e em “Comédia da Morte e da Vida” mostrou que possuia garra de dramaturgo. Podia ter deixado obra mais extensa, se não fosse a vida aventurosa em que nos últimos anos se lançou.

1980.05.09     -     COMÉDIA DA MORTE E DA VIDA (BARCA NOVA)

                ... A encenação de Mestre José Ribeiro está dentro da linha e do nível a que nos habituou, apresentando uma leitura correcta e um bom equilíbrio entre todos os seus elementos: o estilo, o ritmo e o tempo, a distribuição, a implantação da cena e a marcação.  A representação é homogénea, havendo uma boa construção de todas as personagens, apesar de algumas falhas nas personagens do Cone do Laranjeiro, do Pitó e de Valadas. Pensamos que actores como João Medina e João de Oliveira além dessa grande senhora que se chama Violinda Medina e Silva, têm garantida a sua sucessão com Ana Paula Fadigas e Ana Maria Bernardes. Fazemos votos para que o mesmo possa suceder com Mestre José Ribeiro para glória da Sociedade de Instrução Tavaredense e do teatro de amadores da região.

1980.05.14     -     COMÉDIA DA MORTE E DA VIDA (MAR ALTO)

                Verdadeiramente excepcional o êxito alcançado pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense com a representação da notável peça de Henrique Galvão – Comédia da Morte e da Vida.
                Trata-se, na verdade, de uma autêntica obra-prima de teatro, forte, vigorosa, de primoroso diálogo e acção empolgante – uma peça actual, de ontem e de hoje. O grupo de Tavarede apresenta-a num conjunto de tal modo equilibrado que a representação constituiu um verdadeiro triunfo dos amadores tavaredenses.
                Comédia da Morte e da Vida pode ainda ser vista uma vez, no próximo sábado, dia 17, às 21,45 horas.

1980.05.16     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                Verdadeiramente excepcional o êxito alcançado pelo grupo da Sociedade de Instrução Tavaredense com a representação da notável peça de Henrique Galvão, “Comédia da Morte e da Vida”.
                Trata-se, na verdade, de uma autêntica obra-prima de teatro, forte, vigorosa, de primoroso diálogo e acção empolgante – uma peça actual, de ontem e de hoje. O grupo de Tavarede apresenta- num conjunto de tal modo equilibrado que a representação constituiu um verdadeiro triunfo dos amdores tavaredense

1980.06.25     -     GRUPO DE TAVAREDE EM TOMAR (MAR ALTO)

                No passado dia 5 de Junho, deslocou-se a Tomar a grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, representando na cidade do Nabão a bela obra de Henrique Galvão Comédia da Morte e da Vida, em benefício da Filarmónica Gualdim Pais.
                Tomar foi uma cidade onde os amadores de Tavarede sempre se deslocaram com certa frequência, já que foram imensas as representações ali efectuadas. Muitas das vezes, com a chegada da embaixada de Tavarede, o comércio fechava, a cidade parava, as Filarmónicas e os carros dos Bombeiros vinham para a rua, e os humildes amadores da SIT eram disputados, pois todos os pretendiam fazer deslocar para os seus carros.
                Houve um grande interregno, e há já muitos anos que a SIT se não deslocava a Tonar. No passado dia 5 os jovens amadores – jovens de todas as idades, onde permanece firme mestre José Ribeiro – foram recebidos com as manifestações de carinho de sempre.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 20


António Leite de Quadros e Sousa

9º. Senhor de Tavarede – Morgado
  
            D. Brites Josefa da Silva e Castro faleceu em Tavarede a 16 de Janeiro de 1781, sendo sepultada no convento de Santo António, da Figueira da Foz. Foi então que seu segundo filho, António Leite de Quadros e Sousa herdou o senhorio de Tavarede e o morgado.

            Em 13 de Janeiro de 1753, por mercê régia, foi moço fidalgo da Casa Real, sendo dotado com 1 000 reis de moradia por mês e um alqueire de cevada por dia. Seguiu a carreira militar, assentando praça, voluntariamente, como cadete no regimento de Cavalaria de Dragões. Foi promovido a tenente em Junho de 1759. Serviu no regimento da guarnição da Corte, com cuja companhia marchou para o acantonamento do Ribatejo e esteve na campanha da guerra.

            Regressando à Corte, foi promovido a capitão, por patente de 1 de Junho de 1769. Esteve colocado em Lisboa até Janeiro de 1770, data em que passou a Capitão do Regimento de Cavalaria de Elvas.

            Em Elvas estava ainda colocado em 1779, mostrando porém as várias licenças que o puzeram inactivo durante quase todo esse ano, que as aproveitava para se deslocar a Tavarede. A expectativa de suceder na Casa de Tavarede, agora aumentada pela prisão do irmão, são sem dúvida a causa de ter requerido em Outubro de 1779, que os seus 21 anos de serviço sem remuneração fossem compensados pela mercê de um hábito da Ordem de Cristo, com a tença efectiva que lhe competia e a faculdade para renunciar. Não pretendia certamente abandonar o serviço militar, onde militara ‘sempre com distinta honra e louváveis procedimentos, sem nota ou baixa em seus assentos’, sem receber qualquer compensação, escreve-se em ‘A Casa de Tavarede’.

            No ano seguinte, 1780, esteve colocado em Lisboa como capitão de cavalos das tropas da Rainha, tendo regressado a Tavarede nos princípios de 1781.

            Havia constituído seu procurador o seu capelão, o reverendo José Vieira Pinto, residente em Tavarede, habilitando-o a celebrar escrituras de aforamento e para efectuar reconhecimentos e pedir a renovação dos prazos da Morraceira e de Lares, caso as vidas estivessem extintas.

            Durante os anos de 1780 a 1785 novos aforamentos foram feitos no Figueira. As escrituras relativas a estes aforamentos revelam que no tempo de António Leite de Quadros e Sousa se concediam para construção de casas terrenos de 40 palmos de frente para as ruas que iam sendo abertas

            Também continuou com a administração dos fornos de poia, mediante arrendamentos ou aforamentos. Em 1785 requereu à Câmara da Figueira licença para mudar o seu forno sito na Rua Bela para a Ladeira da Lomba, tendo o pedido sido deferido com a condição de reparar o caminho para o local da nova construção.

            Faleceu em Tavarede no dia 10 de Outubro de 1785, solteiro e sem deixar descendência. Parece que estava para casar. Foi o último da família a ser sepultado na capela mor do convento de Santo António, da Figueira.

            Antes de falecer fez testamento deixando como sua sucessora e herdeira a sua sobrinha D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa.

sábado, 1 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 43


1976.06.04     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense estreia amanhã, no seu teatro, a peça em 3 actos “Monserrate”, original de Emmanuel Robles e tradução de Francisco Mata.
                “Monserrate” é uma peça de construção clássica, nela se reunindo as três unidades – de tempo, de lugar e de acção. Decorre toda ela na sala da guarda da Capitania General em Valência de Venezuela e sem interrupção. O ponto de partida desta acção refere-o a rubrica da peça:
                “Julho de 1812. O chefe venezuelano foi batido e capturado na grande batalha de 11 de junho pelo Capitão-General Monteverde. Simão Bolívar, lugar-tenente de Miranda, conseguiu pôr-se em fuga. Escondido pelos patriotas, escapa às buscas dos perseguidores. Os espanhóis ocupam três quartos do país. A repressão é terrível. Sucedem-se os massacres e pilhagens”.
                Bolívar, o “Libertador”, é a grande figura da obra, sempre presente, embora nunca apareça em cena. Duas personagens dominam os três actos, Monserrate e Izquierdo, travando-se espantoso e aliciante duelo, numa linguagem que o Autor dá rica de beleza, de vigor e de verdade, cheia de força dramática, em que se aliam a violência e a ironia, num realismo sem quebra.

1976.09.10     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                No último sábado o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense teve uma grande enchente: lotação esgotada, e muitos pedidos de lugar só poderão ser atendidos na próxima representação.
                “Monserrate” dominou a assistência, que no 3º acto se não conteve e interrompeu a representação com calorosa salva de palmas. Esses aplausos repetiram-se no final, mais demoradamente e com entusiasmo.
                Isto quer dizer que no próximo sábado, dia 11, terá nova enchente o Teatro de Tavarede.

1978.01.25     -     EM TAVAREDE MORA O TEATRO (MAR ALTO)

                Tal como “Mar Alto” noticiou no seu último número, estreou-se na Sociedade de Instrução Tavaredense, em récita de aniversário, a peça do conhecido dramaturgo inglês William Shakespeare – “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.
                Estivemos presentes a mais esta noite de teatro em Tavarede, e sem pretendermos ser crítico teatral – porque o não somos – mas porque gostamos de teatro, não podemos deixar de aqui expor as nossas opiniões sobre mais esta obra de um clássico, que o grupo cénico da SIT nos proporcionou.
                À hora pontual, como é hábito na Sociedade de Instrução Tavaredense, teve início a récita com uma exposição de mestre José da Silva Ribeiro, que a jeito de intróito nos situou dentro da obra que se iria representar, e que simultaneamente, numa intencional linguagem simples e compreensível, nos deu uma bela lição de teatro. Se mais não valesse, só para ouvir mestre José Ribeiro, valeu bem deslocarmo-nos à SIT, pois que de um agradável espectáculo de teatro se tratou.
                É evidente que não poderemos comparar esta peça de Shakespeare a um “Romeu e Julieta”, mas sem dúvida que se trata de uma bela peça. A mensagem trazida até nós, tem ainda actualidade, se atentarmos na frase colocada na boca do Rei de França – que aliás traduz o sentimento de toda a peça – em que ele, insurgindo-se contra um dos seus fidalgos, por não querer casar com a filha de um plebeu – “filha de um simples médico” – pergunta irritado se o sangue dela não será igual ao seu – dele Rei – se há diferença na cor, no peso ou no aspecto. – Quando se pretende criar uma sociedade igualitária entre os homens, ainda hoje se poderia citar esta frase a muito boa gente.
                Só quem, como nós, conhece o trabalho de bastidores, poderá compreender o esforço necessário para que, comodamente instalados nas nossas cadeiras, pudéssemos apreciar esta representação. – É todo um trabalho persistente de estudo, ensaios, o montar e desmontar das cenas – que não quebraram o ritmo do espectáculo – é enfim um mundo de ocupações.
                Foi com simpatia que vimos no palco da SIT alguns jovens – hoje que a juventude se espalha por diversas ocupações, nem sempre as mais recomendadas – que a par de alguns “velhos”, nos deram um belo exemplo e nos fazem confiar no futuro da nossa juventude. Lado a lado com os já consagrados – João Medina, Fernando Reis, José Medina, Manuel Lontro, vimos, entre outros, os jovens Ana Paula Fadigas e Francisco Carvalho – que julgamos serem estreantes – e que julgamos serem promissoras as suas aptidões para o teatro, – nunca a coragem e boa vontade vos falte. – Uma palavra ainda para Maria Conceição Mota, que para nós foi uma agradável revelação.
                Tratou-se de uma estreia, e estamos certos, ou não conhecessemos os métodos de trabalho da SIT, de que algumas arestas serão ainda limadas. Para todos os que gostam de teatro, aconselhamos a que em sessões futuras se desloquem a Tavarede e a par de um belo espectáculo, aceitem uma boa lição de teatro, pois que “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.

1978.04.13     -     CORRIGINDO UM LAPSO DO PROF. PAULO QUINTELA (A VOZ DA FIGUEIRA)

                A propósito da divulgação do teatro de Gil Vicente e uma entrevista dada pelo prof. Paulo Quintela ao jornal “Diário de Notícias”
                .........................
                Ora a verdade é que a velhinha Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada ali na vizinha e ridente povoação de Tavarede, a “Terra do Limonete”, em 1904 e desde então ininterruptamente dedicada, sem quebras nem desfalecimentos, a uma louvável obra de educação e cultura do povo, desfruta também de inteiro e inegável direito a figurar entre os agrupamentos cénicos que, de forma efectiva e permanente, têm dado notável contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente, fazendo-o com elevado nível artístico e invulgar persistência e dedicação.
                Há 62 anos sob a orientação do mesmo director artístico, José da Silva Ribeiro, um verdadeiro mestre de teatro e que o serve com uma devoção e uma competência inexcedíveis, bem pode afirmar-se, sem receio de contestação, que o grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, se conta hoje entre os melhores do país.
                Mas este homem, dominado pela profunda convicção de que, perante os incapacitados para a leitura, a arte dramática deve ser, tem de ser, precioso elemento da grande obra de difusão da cultura, não podia deixar de dedicar particular atenção à escolha do respectivo reportório. E assim é que, para além de ter levado à cena, mais de uma dúzia de originais da sua autoria (só ou em colaboração) e mais de meia dúzia de traduções e adaptações por ele efectuadas, fez representar pelo menos quatro peças de Shakespeare, outras tantas de Molière e também dos Irmãos Quintero, além do teatro de Almeida Garrett, D. João da Câmara, Marcelino Mesquita, Pinheiro Chagas, Chagas Roquette e uma infinidade de outros mais, tanto portugueses como estrangeiros, mas sujeitos todos a criteriosa escolha e selecção. E toda essa vasta, vastíssima, galeria de obras, autores e personagens, encenada com rigorosa subordinação ao princípio de que, sobre as tábuas dum palco, os defeitos da representação atingem tal relevância, que chegam a perverter as próprias virtudes dos textos.
                Do que fica dito já será fácil de prever que um homem de teatro como José da Silva Ribeiro dificilmente poderia deixar de dar no seu teatro, a Gil Vicente, o lugar de relevo que ele merece e toda a dimensão que estivesse ao seu alcance.
                Assim, portanto, nenhuma admiração nos deve causar que ele tenha feito representar pelos seus amadores tavaredenses nada menos de onze originais vicentinos. A começar do “Auto da Mofina Mendes”, seguido do “Auto da Barca do Inferno”, de “Todo o Mundo e Ninguém” (do “Auto da Lusitânia”), do “Auto Pastoril Português”, da “Farsa do Velho da Horta”, do “Pranto da Maria Parda”, do “Dom Duardos”, de fragmentos do “Auto Pastoril Português”, “Romagem dos Agravados” e “Breve Sumário da História de Deus” e a acabar no “Auto da Feira”.
                Extraordinária sim, temos de considerar a divulgação desse repertório para além de Tavarede. Através de famosa “campanha vicentina” em redor do concelho e visando as suas aldeias rurais. De deslocação a Coimbra, ao Teatro Avenida, com “Noite de Teatro Português”. De comemoração do “Dia Mundial do Teatro”. E de comemoração do “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente”. Em qualquer dos casos em espectáculos realizados nesta cidade e promovidos pelos Serviços Culturais da Biblioteca Municipal da Figueira. Um repertório que havia também de dar lugar a uma admirável, inesquecível e verdadeira criação artística de Violinda Medina, no “Pranto da Maria Parda” e numa interpretação com a qual, sem o mínimo de exagero se pode dizer, poucas e destacadas profissionais seriam capazes de ombrear.
                Para além do que fica referido, quanto não poderia e deveria ainda escrever-se sobre o assunto. Se para tanto houvesse maior jeito e o espaço o permitisse.
                Cremos, no entanto, que mais não será preciso para comprovar que houve lapso do Prof. Doutor Paulo Quintela quando não incluiu os amadores tavaredenses, de José da Silva Ribeiro, entre os que muito se empenharam em dar o seu contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente.

1978.04.27     -     TEATRO AMADOR DA FIGUEIRA DA FOZ (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Não podia ter sido escolhido melhor título nem mais nivelado grupo de amadores (nivelamento por cima) para fecho das II Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, do que o grupo cénico de José Ribeiro, que nas I Jornadas, por motivos alheios à sua vontade, esteve ausente.
                A presença dele nas Jornadas deste ano enriqueceu-as. É que o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense pode chamar-se um grupo padrão.
                A peça escolhida – a comédia em 5 actos e 13 quadros, de Shakespeare, pode não cair no pleno agrado de todos os espectadores. Mas não deixa por isso de ser uma peça de difícil execução, o que para José Ribeiro nunca constituiu motivo de recusa. Ele até faz gala em transportar as dificulades que se lhe apresentam. E vence-as sempre, sejam elas de que natureza forem.
                “Tudo está bem quando acaba bem” foi montada com dignidade e representada ao nível do grupo cénico tavaredense, com muitos figurantes ainda noviços, mas já bem seguros e conscientes das suas responsabilidades.
                Dos velhos há que assinalar, nos principais papéis, a excelente presença de João Medina, José Medina, Fernando Reis, Manuel Lontro e José Luís do Nascimento, no naipe masculino. No feminino, Maria de Lourdes Lontro e outras.
                Ana Paula Fadigas, Ana Maria Bernardes e Maria Conceição Mota, as mais novas, vão muito bem nas figuras que compuseram.
                Parabéns a todos, porque todos deram, como dissemos, um contributo nivelado para a construção deste espectáculo.

1978.05.03     -     II JORNADAS DE TEATRO AMADOR (O FIGUEIRENSE)

                “Tudo está bem quando acaba bem”. Assim diz o povo e assim se intitula a comédia que a Sociedade de Instrução Tavaredense trouxe no dia 25, ao palco do Teatro Peninsular, para encerramento das II Jornadas de Teatro Amador, em boa hora organizadas pelo benemérito Lions Clube da Figueira da Foz.
                Pode dizer-se que esta benéfica manifestação de actividade cultural em que participaram onze colectividades do nosso concelho, terminaram, também, como soi dizer-se, com “chave de ouro” e com dedo de mestre. José da Silva Ribeiro, considerado como um dos mestres do teatro português, ofereceu ao público que durante quase três meses semanalmente foi dar incitamento aos amadores figueirenses, uma excelente peça da autoria do imortal Shakespeare, com adaptação do ilustre tavaredense. E do espectáculo a que assistimos, não sabemos o que mais elogiar: se a representação em si admirável, pois todos os amadores, a maioria com craveira artística, foram contribuintes do êxito que ele alcançou, se da encenação em que tudo foi condigno, cenários e riquíssimo e variado guarda-roupa.
                Uma bela noite de teatro. Parabéns aos distintos amadores, ao mestre José Ribeiro, à SIT e ao Lions, que se propõe continuar, no próximo ano, esta bela iniciativa.

1978.05.05     -      II JORNADAS DE TEATRO AMADOR (BARCA NOVA)

                Com William Shakespeare e o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, terminaram no passado dia 25 de Abril as II Jornadas de Teatro Amador, uma organização do Lions Clube desta cidade, como temos vindo a referir.
                Tudo está bem quando acaba bem foi a peça à qual couberam as honras do encerramento das jornadas e com a qual, teatralmente, foi atingido o ponto mais elevado deste certame.
                Partindo de um texto menos conhecido de Shakespeare, os amadores tavaredenses souberam construir um espectáculo, sem dúvida belo, beleza essa que assenta principalmente na sumptuosidade do guarda-roupa e na diversificada cenografia. Sobre a peça, não vale a pena determo-nos na sua análise, pois ela foi escrita por um dos “grandes génios literários e dramáticos da literatura mundial de todos os tempos”, talvez por ter sabido captar, como poucos, o particular e o universal simultaneamente.
                É justo realçar a magnífica interpretação dos amadores tavaredenses, que bastante contribuiu para o elevado nível artístico do espectáculo apresentado. Sem desprimor para nenhum dos outros elementos do elenco tavaredense, registem-se as intervenções de João Medina, José Medina, Fernando Reis, José Luís do Nascimento e Ana Paula Fadigas.

1978.11.16     -     UMAS BODAS DE DIAMANTE NOTÁVEIS (A VOZ DA FIGUEIRA)

                A história dos primeiros 50 anos de vida dessa prestigiosíssima colectividade que é a Sociedade de Instrução Tavaredense, está fielmente retratada num livro comemorativo das respectivas “Bodas de Ouro”, da autoria do distinto jornalista, nosso conterrâneo, José da Silva Ribeiro, que propositadamente a escreveu em linguagem escorreita e cuidada, mas num estilo singelo, que revela clara intenção de pretender interessar pessoas de todos os graus de cultura e ser perfeitamente entendido mesmo pelos mais humildes dos seus leitores. Ela apenas pecará por uma sobriedade da apreciação de excepcional e admirável Obra levada a cabo, que bem se compreende e aceita, por o autor ser desde longa data o grande, esclarecido e proficiente mentor, guia e esteio dessa mesma Obra. O que a nós, estranhos a ela, mas seus incondicionais admiradores, nos cumpre suprir.
                Foi a 15 de Janeiro de 1904, que em Tavarede, ridente povoação dos arredores da Figueira, mas modesto aglomerado rural de menos de mil habitantes, catorze homens, todos de humílima condição social, parcos meios e modestíssimas profissões, resolveram fundar a Sociedade de Instrução Tavaredense. Finalidade: servir de suporte a uma escola para ensino dos sócios e seus filhos. Mas porque na terra havia largas tradições teatrais, logo elas foram reatadas com a criação de brioso grupo dramático, que ainda nesse ano deu o seu primeiro espectáculo.
                Os benefícios prestados à instrução pela escola nocturna desta prestimosa colectividade, no meio em que actuava e durante um período de 38 anos, em que funcionou, ininterruptamente, foram incalculáveis. Infelizmente, porém, em 1942, exigências de legislação totalitária do “santa combismo” forçaram a pôr termo a essa verdadeira campanha de combate ao analfabetismo.
                Apesar das dificuldades e encargos que, em lugar de estímulos e auxílios, lhe foram, num crescente, sendo impostos, o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense é que, longe de perder vitalidade ou mesmo soçobrar, cada vez em ritmo mais acelerado prosseguiu, tão resoluta como triunfantemente, e sob todos os aspectos, a sua brilhante carreira ascencional. Cresceu de maneira notável o seu nível artístico, tanto de reportório como de interpretação. Alargou-se a sua esfera de acção, ultrapassando a própria sede e área do concelho, com várias deslocações a terras como o Porto, Coimbra, Leiria, Tomar, Torres Novas, Pombal, Soure, Marinha Grande, Pampilhosa, Colares, etc., sendo de registar, neste capítulo, que todas essas deslocações foram sempre para fins de beneficência e atingiram o número de 20 pelo que se refere a Coimbra e de 16 pelo que diz respeito à cidade de Tomar. Chegou-se mesmo ao ponto de levar a cabo uma campanha vicentina que, com o maior êxito e todo o mérito, se tornou extensiva às freguesias rurais do concelho.
                Ao fazer a resenha dos primeiros cinquenta anos de actividade do grupo cénico, que dirigia há já 38 anos, José da Silva Ribeiro interrogar-se-ia: “Como irá ser o futuro?”.
                Mas ele em nada desmereceu do passado. Muito pelo contrário.
                O seu famoso agrupamento manteve o mesmo ritmo de intenso labor. Requintou em primores de interpretação e montagem. Levou à cena cada vez reportório de mais alto nível, categoria e responsabilidade. Representou, entre muitos outros, Almeida Garrett, Luís de Camões, Marcelino Mesquita e D. João da Câmara, novas e várias peças de Gil Vicente, “Romeu e Julieta”, “Dente por Dente”, “Conto de Inverno”, “Tudo Está Bem Quando Acaba Bem”, de Shakespeare, “As Artimanhas de Scapino”, “Médico à Força”, “O Avarento” e “Tartufo”, de Molière. Além de umas tantas peças de José da Silva Ribeiro, que com elas totalizou 19 originais, adaptações e traduções destinadas ao seu grupo cénico.
                Não devendo esquecer-se as suas intervenções valiosas em comemorações como as do: “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”; “Dia Mundial do Teatro”; “IV Centenário de Shakespeare”; “5º. Centenário do nascimento de Gil Vicente”; e “4º. Centenário da publicação dos Lusíadas”.
                Quem ousará, portanto, pôr em dúvida que são na verdade notáveis as “Bodas de Diamante” da Sociedade de Instrução Tavaredense? Ou negar que elas constituem a concludente e irrefutável prova do invulgar amor ao teatro, do bairrismo e da perseverança no esforço colectivo, mesmo dirigido apenas às coisas do espírito, da gente da terra do limonete?
                Entre a qual, neste caso ocupa o primeiro lugar por direito próprio, que ninguém jamais tentou negar-lhe, José da Silva Ribeiro, nobre figura de indefectível democrata, com carácter espartano, que o emérito professor Joaquim de Carvalho considerava seu “companheiro de sentimentos e propósitos”.
                Um homem de invulgar inteligência e craveira intelectual, associadas a perfeita noção da perenidade dos autênticos valores espirituais e sociais, que há 62 anos, com notável estoicismo, é o grande arquitecto de tão admirável Obra, que no presente caso põe em jogo e acção todas as faculdades do espírito tanto de intérpretes como de espectadores. Facto que naturalmente leva a concluir que o teatro, como a música, deveriam fazer parte integrante da cultura geral dos indivíduos.
                Por tudo o que fica dito e o muito mais que ficou por referir, nos parece serem as próximas “Bodas de Diamante”, da Sociedade de Instrução Tavaredense, o ocasião mais oportuna para que a Figueira preste à referida colectividade e ao seu devotado director cénico as homenagens a que ambos têm inteiro jus.
                Com o que, por múltiplas razões, se cumprirá apenas um dever.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 19


Seguem-se as assinaturas de mais de trinta pessoas, residentes em Tavarede, Buarcos, Figueira e Maiorca. Não deixa de ser curioso que um destes assinantes terá sido João Adolfo de Crato, Juiz da Alfândega da Figueira, amigo e ‘banqueiro’ do morgado de Tavarede, talvez a maior fortuna local e que veio a adquirir grande parte dos bens da família Quadros.

            Segundo o Dr. Rocha Madahil, a primeira redação deste extraordinário e quase inacreditável libelo… … foi, depois retocada: cortaram-se alguns períodos e o articulado relativo ao desacato feito a Bento da Cunha Terrão e a Bernardo da Cunha; substituiu-se o termo vergalho, com receio, talvez que soasse mal… … toda a palavra vergalho trocada por chicote. Mas, de qualquer forma, chega a impressionar a opressão, crimes e maldades cometidas sobre o pobre e indefeso povo.

            E não se julgue que a posição assumida pelo Cabido era total a favor do povo. Estavam crentes de que, passando a Câmara e Justiças para a Figueira, se acabaria com o despótico poder dos fidalgos. Isso era verdade, mas o Cabido desejava para si continuar a ser o donatário do Couto de Tavarede, continuando a ter direito aos seus privilégios. Falharam os seus cálculos, mas a história de Tavarede, uma história de mais de sete séculos, deixou de ter qualquer significado, ficando dependente da nova vila da Figueira da Foz.

            Apesar da defesa que, a mando de El-Rei, a nobreza e o povo (?) de Tavarede deram, quanto ao pedido do Cabido para a mudança da Câmara e Justiças, não resultou…. É a Justiça inexpugnável fortaleza que não teme os rebates falsos; é Vossa Majestade o sagrado da mesma Justiça, como fonte e manancial dela; esta certeza, e a de que é próprio da real protecção de Vossa Majestade defender os oprimidos das violências, nos constitue na esperança de sair escusado o requerimento do reverendíssimo suplicado que só se induz de circunstâncias inatendíveis e não verdadeiras, e se o foram não podia competir com o direito adquirido e radicado na imemorial posse em que estamos da conservação da casa da Câmara neste Couto, desde a sua fundação, por cuja razão e pelo mais que com pura verdade expomos na presente resposta, deve ser desprezada a suplica, denegando-se ao reverendíssimo suplicado a provisão que intenta e assim o esperamos da equidade com que é distribuida a mesma Justiça pela real mão de Vossa Majestade não obstante a resposta da Câmara, cujos oficiais são este ano as daquele lugar

            Além da mudança da Câmara, as tropelias e crimes do fidalgo morgado de Tavarede não podiam ficar impunes. Acabou por ser levado a julgamento e condenado, tendo acabado os seus dias na cadeia da portagem em Coimbra.
  

 Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa
 8º. Senhor de Tavarede - Morgado
  
            Fernão Gomes de Quadros e Sousa faleceu, como atrás foi referido, na cadeia da portagem em Coimbra, no dia 15 de Março de 1767, tendo o seu corpo sido trasladado para ser sepultado na capela do Convento de Santo António, na Figueira da Foz. Já não assistiu, portanto, à concretização da mudança da Câmara de Tavarede para a Figueira da foz do Mondego, em 1771.

            Seu filho primogénito, Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, que, como herdeiro, deveria tomar posse do morgado e da Casa de Tavarede quando seu pai morreu, não o podia fazer, pois estava preso.

            Como seu pai, havia sido uma pessoa de péssimos instintos. Já na exposição feita pelo Cabido a El-Rei D. José I, são denunciados diversos crimes praticados por ele. O mais grave, todavia, terá sido a morte de seu tio, Frei Aires de Santa Ana, religioso no convento de S. Francisco, em Lisboa. Consta que … morreu, infelizmente, de um tiro de pistola que lhe deu seu sobrinho Pedro Joaquim, estando rezando a uma varanda, por ter sido repreendido de uma desobediência a seu pai… Esta repreensão devia-se aos seus maus procedimentos que vinha de fazer no lugar da Figueira… andando pelas tabernas emborrachando-se. Aliás, diversos autores referem que Pedro Joaquim terá cometido o assassínio num excesso de vinho.

            Creio, porém, que Pedro Joaquim de Quadros foi de facto, pouco tempo após a morte que praticou, remetido preso para a Berlenga Maior, em cujo espaço, que não ultrapassa alguns poucos quilómetros quadrados, viveu do final da sua juventude até ao final da idade madura, escreveu o Dr. Pedro Quadros Saldanha em ‘A Casa de Tavarede’.

            Com a morte de seu pai e com a sua prisão, perpétua, nas Berlengas, foi sua mão que assumiu o governo do morgadio, ajudada pelo seu segundo filho, António Leite. Este, devido às circunstâncias verificadas, estaria crente que seria declarado o herdeiro da casa de Tavarede, certo que seu irmão não viveria muitos anos nas Berlengas.

            Terá sido enorme a sua surpresa, bem como a de sua mãe, D. Brites Josefa da Silva e Castro, quando, já reinando a rainha D. Maria I, apareceu em Tavarede Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, então com 46 anos de idade, e liberto graças a um perdão real que lhe fôra concedido.

            Pouco foi o tempo em que Pedro Joaquim esteve de posse do seu morgado. Nos cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo refere-se que … fez tais loucuras que foi mandado de vez para ela (prisão das Berlengas), onde morreu. A verdade é outra. Ele foi, na realidade, preso, mas foi encarcerado em Coimbra, na mesma prisão onde seu pai morrera.

            Tentou a sua defesa, como é natural. As acusações, no entanto, foram fortes. Como exemplo disso, transcrevo a informação que foi prestada pelo então Corregedor de Coimbra. O suplicante matou um tio seu religioso com um tiro por cuja causa se mandou para a Fortaleza das Berlengas, em que esteve muitos anos e dela saíu na ocasião do indulto geral do Fidelíssimo Senhor Rei D. José I. Veio para a sua casa de Tavarede e companhia de sua mãe, e se entregou a vícios, andando publicamente e escandalosamente amancebado e frequentemente ébrio. Costuma trazer consigo armas de fogo e em uma noite estando umas criadas de sua mãe à janela e desconfiando que elas o estavam espreitando e a uma concubina lhe atirou um tiro, mas não as ofendeu. E por estes factos é temido não só dos estranhos como também dos domésticos. Apareceu nesta cidade continuando a sua irregular vida, e imprópria do seu nascimento, causando escândalo e temor que rompesse nos seus costumados excessos e para se evadirem achando-me eu na comerca em correição e o juiz do crime doente, se deliberou o juiz de fora do cível mandá-lo prender e dar conta a Vossa Majestade pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, que me veio a informar, e remeti a informação em 14 de Dezembro próximo passado de 1778. Já anteriormente o juiz de fora da vila da Figueira representou a Vossa Majestade as desordens do suplicante e o temor daquele povo, que vindo-me também a informar expedi em 19 de Outubro do dito ano sem que de uma ou da outra tenha havido resolução. Não consta que o suplicante tenha culpas judicialmente formadas nem é razão esteja perpetuamente preso em uma cadeia pública; porém para se evadir a própria injúria e a de seus parentes, e eminente perigo da sua liberdade, me pareceu ser justo se tornasse a mandar para as Berlengas ou para outra alguma fortaleza deste reino onde se lhe administrasse o necessário para a conservação da vida, como já informei a Vossa Majestade ou dar alguma outra providência e sobre tudo mandará Vossa Majestade o que for servido.

            Pode depreender-se de tudo isto, que a própria família o desejava preso. E apesar do recurso apresentado e do testemunho favorável de pessoas influentes, a rainha não concedeu perdão. Mas, talvez até por simples curiosidade, transcrevo uma pequena parte dos testemunhos de sua defesa. 1 . O suplicante é quieto e pacífico e não costuma nem descompuzera pessoa alguma, antes acomoda as desuniões e rixas que sucede haver no dito couto e nesta vila e suas circunvizinhanças, sem que para este fim use de despotismos e tenha espancado pessoa alguma que não queira obedecer-lhe nos seus petitórios. Com bons modos pede que se acomodem algumas desuniões pois ‘o seu génio é de acomodar várias rixas que há entre algumas pessoas’. 2 . O couto de Tavarede é lugar triste e esta vila muito alegre por ser porto de mar, aonde entram várias embarcações com gentes civilizadas com quem o suplicante trata, sem que haja notícia tenha ofendido pessoa alguma. Tavarede era lugar pequeno e o suplicante tem algumas vezes vindo passear a pé e de cavalo à Figueira, sem que nela tenha ofendido pessoa alguma, antes tratando todos com muita cortesia. 3 . O suplicante é morgado e senhor da sua casa e por ser muito obediente a sua mãe, D. Brites Joséfa da Silva e Castro, lhe tem largado a administração de toda sua casa, sem que em nada encontre as determinações da referida sua mãe. Tem desistido da administração da casa, que entrega à mãe.

            Alguma coisa não está certa. Mentia o Corregedor de Coimbra ou mentiam as testemunhas de defesa?