sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete-63

         E houve nova deslocação a nova terra. Coube a vez à Marinha Grande. Embora sem o espectaculoso de que se revestem algumas vezes os chamados grandes acontecimentos, antes com a simplicidade que é o traço característico da gente do Povo, o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, ofereceu ao público da Marinha um desses momentos que bem se podem considerar de excepcionais para o meio.
         Já de há muito que ouvíamos falar do Grupo de Tavarede, sem, no entanto, termos tido ocasião de o ver representar. Dele nos tinham feito apreciações muito favoráveis, que nos aguçaram a atenção para o momento em que nos fosse possível assistir a um espectáculo seu. E foi sob esta influência, que presenciámos o espectáculo no Teatro Stephens, do domingo passado.
         E quando o pano desceu pela última vez, ficámos com a certeza de que as referências a este agrupamento estavam àquem das que de facto merecem. Como nós, pensaram todos os espectadores.
         “Horizonte”, de Manuel Frederico Pressler, é uma peça em 3 actos, simples, bem encadeada, em que as personagens se movimentam com graça e realidade. Apresentando como fundo um amor no Ribatejo, em que o pai da rapariga pretende – Oh! As tradições… - “casá-la” com rapaz do seu agrado, as cenas vão ganhando em emoção, que culmina no desespero do pai ante a fuga da filha com o rapaz dos seus sonhos. Nalguns períodos são de intenso dramatismo, noutros de confiante espectativa. Há nesta peça cenas que ficam gravadas, como a da “explosão” de sinceridade e de orgulho da protagonista.
         A realidade que ali atribuímos aos personagens não se entenda bem para o que nós desejaríamos que fosse a peça, nem para as realidades mais duras que sofrem tantos dos ribatejanos. Viu-se um desenrolar de acontecimentos em que a característica vida ribatejana não tem traços vincados. É mais à terra que, embora subsidiariamente, se refere quando se fala no meio. Mas é uma terra grata, que dá vida próspera e não esfumaça vidas. Há, sem dúvida, no Ribatejo, famílias que assim devem viver. A maioria, porém, rosto calcinado, corpo moído de tanto trabalho, leva bem mais dura (e Redol disse-no-lo em “Fanga”). Era antes a vida destes, eram antes as dificuldades que os trabalhadores têm, que nós gostaríamos de ver por tema do Ribatejo.
         O grande valor do espectáculo foi a representação do Grupo de Tavarede. Ela foi cuidada até ao mínimo pormenor. Não foi simplesmente um êxito de interpretação, que, diga-se, era primorosa. Cenários, trajes, tudo bom.
         Em primeiro plano está, indubitavelmente, Violinda Medina. Fulcro da peça, eleva-se a grandes alturas, àquelas aonde só pairam as artistas de gema. É verdadeiramente magistral a naturalidade com que se comporta em toda a peça, e, muito especialmente, quando põe a nu o seu talento dramático.
         João Cascão, no pai Firmino, dá-nos um homem de idade mas ainda de acção; faz ressaltar a indomabilidade que os trabalhos lhe transmitiram; baila-lhe no rosto a alegria das satisfações e mostra a carranca nos momentos de ira. É um artista de vulto para emparceirar com a protagonista.
         Não adianta apreciar, individualmente, mais do que o trabalho das duas “estrelas” da peça. Todos se houveram com brio, com galhardia, com plena consciência dos seus papéis. Não houve interpretações inferiores – podem qualificar-se, sem exagero, de todas boas, dentro das diferenças que a palavra possa permitir, bem pequenas, afinal.
         Tanto as caracterizações, como os cenários, de Reynaud, merecem os nossos aplausos. Aquelas, perfeitas; estes, sugestivos e belos.
         Se se tratasse da exibição dum grupo de profissionais, não caberiam aqui referências além daquelas que nos fossem pelo espectáculo, e só no espectáculo, recebidas na cadeira em que estivéssemos comodamente sentados. Mas no caso presente, a figura muda de roupagem…
         Foi muito agradável ver “Horizonte”. Muito grata, e muito louvada, a bela exibição. Foi agradável à vista e grato ao espírito. Mas importa que vejamos um pouco mais por trás, para lá do palco, nos bastidores. Que vamos mesmo até à base do agrupamento.
         Porque se encontra uma tal unidade? Ela não foi espontânea. Formou-se em anos de trabalho, em noites de canseira. Foi comentada. Deve ter tido os seus divulgadores. E hoje é uma agregação social, que tende para uma comunhão de recreio e cultura, ainda mais firme.
         Num lugar pequeno. Mas onde há uma escola de formação estética, que é o teatro.
         Entre pequena população. Mas onde a boa-vontade, a persistência, a continuidade, permitiram que se construísse um monumento para legar aos vindouros.
         Gente unida, que compreende o valor do teatro como cultura e como escola moral.

         E que tem a felicidade da direcção motora e incansável de – José Ribeiro.

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 7

Chamavam ‘santo casamenteiro’ ao S. João. Será que fazia concorrência ao Santo António? Do que não há dúvida é que em Tavarede, por costume bem antigo, fez festa rija em 1920. “Como estava annunciado, nos preteritos dias 17, 18 e 19 do corrente, tiveram aqui logar os tradicionaes festejos ao Santo Casamenteiro, os quaes foram revestidos de grande brilhantismo e luzimentos.
         No sabbado, alem da recepção ao Zé Pereira, houve exposição da egreja, que estava ricamente armada pelo habil armador d’essa cidade e nosso amigo Adelino Faria; concerto pela acreditada banda Philarmonica Figueirense, que executou com muita proficiencia um repertorio escolhido que muito agradou á enorme assistencia de povo que da Figueira e logares limitrophes aqui affluiu.
         O concerto, que teve logar n’um coreto expressamente armado para esse fim no Largo do Rio, foi acompanhado com a queima de 4 peças de fogo preso e d’algumas duzias do do ar, o que agradou em extremo, dando honras ao afamado pyrotechnico que o manufacturou.
         Em seguida, e ao som de parte da tuna do Grupo Musical Tavaredense, deu-se inicio no Largo do Forno aos descantes populares, que se prolongaram até á manhã de domingo, reinando sempre em todos os corações da mocidade folgazã a mais franca e sincera alegria.
         Ás 13 horas teve logar a missa solemne, tocando no côro elementos da nossa terra e d’essa cidade.
         Após a missa tiveram logar as cavalhadas, incontestavelmente o numero mais synpathico dos festejos.
         Depois da entrega aos mordomos das bandeiras e guias, organizou-se na rua Direita o enormissimo cortejo, o qual se dirigiu para essa cidade a percorrer o itinerario do costume.
         Uma vez na Figueira, os sinos da Matriz annunciaram ao povo figueirense, sempre ávido de curiosidade para apreciar as cavalhadas de Tavarede, a chegada da Bandeira, que ao som da Figueirense, que aguardava a sua chegada ao quartel d’artilharia, deu as praxistas 3 voltas á Egreja, ás Praças Nova e Velha, etc. etc.
         Deixando a Figueira, dirigiram-se as cavalhadas a Buarcos, onde deram tambem as voltas do Ritual, não faltando a vizita á capella da Senhora da Encarnação.
         N’aquella villa como na Figueira, gentis senhoras despejaram sobre as bandeiras muitas bandejas de flores.
         Houve em Buarcos um pouco de descanço e tudo se preparou para regressar a Tavarede; e sempre na melhor ordem deslizaram as cavalhadas para o ponto de partida, onde as esperava a Figueirense, que as acompanhou até á Egreja, depois das voltas da praxe.
         A commissão fez solemnemente a entrega das bandeiras, depois do que fez a Pega para o proximo anno outra commissão, que sahiu a pé, a percorrer as ruas da localidade, acompanhada tambem pela Figueirense, que executava um passo-dobrado.
         Em seguida deu-se principio novamente aos descantes populares, que tiveram fim muito depois da meia-noite.
         Na segunda-feira foi o verdadeiro dia de festa para os rapazes que trabalharam e cooperaram nos sympathicos festejos a S. João.
         Á tarde houve a rosquilhada, á qual concorreram muitas pessoas montadas em gericos.
         Houve corridas de saccos, de três pernas, de velocidade, resistencia, etc, tendo sido conferidos valiosos premios a todos os vencedores.
         Por fim, juntaram-se alguns elementos da tuna do Grupo Musical Tavaredense e tocaram, na rua Direita, até altas horas da noite, dançando se sempre com a maior animação.
         E assim terminaram este anno as festas a S. João Baptista, as quaes deixaram em nós e em todos que n’ellas tomaram parte, as mais gratas saudades, pois ficaram bem vinculados no nosso espirito aquelles dias de verdadeira felicidade e alegria em que tudo se esquece para dar largas á folia...”.
1921 não esqueceu tal costume, mas as cavalhadas... “A minha terra, que outr’ora como no presente foi uma das freguezias que no concelho da Figueira da Foz sempre caprichou em promover as festas annuaes em honra do popular S. João, parece que este anno as deixa ficar no olvido.
         Parece, digo eu! É certo. Certissimo. É com imensa mágua que tal noticio. Os affamados ranchos, os praxistas concertos de musica pelas bandas civis d’essa cidade, a festa religiosa, a queima de fogos e, sobretudo, as tradicionaes Cavalhadas, que indubitavelmente eram o clou da festa; as corridas de saccos, de tres pernas, de potes, etc., e a célebre Rosquilhada, em que grande numero de pessoas passava horas e horas envolvido na mais franca e sincera alegria, tudo isto passa despercebido aqui, este anno!
         Depois os descantes populares, que attrahiam a Tavarede algumas centenas de forasteiros que jámais se cançavam de dar largas á folia...
         Emfim, tudo o que na minha terra se fazia n’aquelles dias para divertimento da mocidade indigena como da que aqui affluia de todos os logares limitrophes, este anno fica, como usa dizer-se, em aguas de bacalhau...
         Eu, na minha qualidade de moço, com sanguinho na guelra, podia, conjunctamente com outros, constituir uma commissão e fazermos os alludidos festejos; mas, como a minha, as opiniões partem de todos: - não devemos fazel-os.
         E o motivo é explicavel: É que o anno passado, a quando da entrega da Bandeira pela commissão respectiva ao parocho de Tavarede, meu prezado amigo sr. Manuel Vicente, após, claro está, as Cavalhadas terem percorrido pomposa e galhardamente o costumado itinerario, uns cavalheiros d’aqui e d’essa cidade apressaram-se a formar commissão, depois do que foram á egreja, pegaram na Bandeira, na qualidade, bem entendido, de festeiros prematuros d’este anno, e sahiram a percorrer as ruas da localidade acompanhados pela Philarmonica Figueirense, ao mesmo tempo que estoiravam no ar algumas boas duzias de foguetorio rijo.
         Precisamente n’aquella altura estava a minha pessoa com uns poucos de rapazes amigos, cá do burgo, a resolver se iriamos novamente fazer a festa, se cederiamos a Bandeira a outros que a quizessem conduzir, mas os corajosos mordomos nem tempo nos deram para reflectir no assumpto, pois, como digo, apressaram-se a ir de vespera fazer a péga da Bandeira.
         Ao vêr tal disparate garanti logo que aquelles cavalheiros, a mór parte dos quaes em magnifico estado comatoso, outros illudidinhos com musica e foguetes, não levavam ávante o seu proposito, o que infelizmente succedeu.

         E com franqueza, em que cabeça cabe que uns rapazes figueirenses como os em questão, lá por terem muitos conhecimentos na cidade, onde aliás se arranja uma boa verba, fossem capazes de fazer como nós, os tavaredenses – que conhecemos bem a freguezia -, uma relação de todos os fogos respectivos e ir percorrel-os por varias vezes na acquisição dos dinheiros indispensaveis para a festa? Sim, porque não é só com o dinheiro que se aufere no commercio figueirense, que aliás é um optimo auxiliar, que em Tavarede se faz uma festa de S. João. São indispensaveis as voltas á freguezia, na pedincha, porisso que é d’ahi que sahe a maior quota. É d’ella que a gente ouve muitos sins e muitissimos nãos. É d’ella que nós, os tavaredenses e consequentemente os mais relacionados, formulamos e ouvimos muitas exigencias. Com que cara ficariam os rapazes figueirenses ao ouvirem d’um fulano – rico que nem um suino... – na occasião em que lhe pedissem qualquer obulo para a festa de S. João, - “que se se quizessem embebedar fossem primeiro cavar por conta d’elle...”, ou então – “que não estava p‘ra sustentar... animaes á argola”!!

Operetas em Tavarede - 4

       Pouco depois do seu regresso a Tavarede, dão uma festa na Quinta do Peso, onde se haviam instalado. Eduardo Leirosa, o tal que viera em busca da Lúcia-Lima, casou com Flor de Chá. O outro brasileiro, Tomás Castanho, agradou-se de Capitolina, pediu a sua mão ao regedor e igualmente se casaram, com grande desgosto do Pinga-Amor.

         Na referida festa, para que é convidada toda a população da aldeia, os noivos e noivas são apresentados. Cheia de contentamento, Capitolina dá um beijo da face de Flor de Chá, que fica muito surpreendida. Na China, diz ela, tal não é permitido. Só os esposos se beijam, mas não em público. O marido, Eduardo Leirosa, explica-lhe então: “Em Portugal há o beijo infantil que é puro; o beijo maternal que é santo; o beijo conjugal que é postiço e da moda; o beijo entre amigas que destila fel; o beijo furtivo entre namorados que sabe a licor de mel; e finalmente o beijo entre amantes que é o rastilho para uma descarga de... dinamite”.
Flor de Chá                                    
Um beijo dar, na China toda,
É uma excepção.
Só noivo à noiva, ao fim da boda,
Lhe beija a mão.
Leirosa
Um beijo assim não tem agrado,
Não tem sabor
Como o que furta o namorado
Ébrio d’amor.
Flor de Chá
Então o beijo
Em Portugal,
Pelo que vejo
Deve ter sal...
Corar o rosto
Que o recebeu
Ter tanto gosto
Que eleve ao céu!
Capitolina
Beijo d’encanto
Que d’alma vem,
É beijo santo,
Beijo de mãe.
Um dá loucura,
Outro arrebata...
Se muito dura
Quase que mata.
Flor de Chá
Quando em terno devaneio
E junto de quem se ama,
Qual o modo, qual o meio,
D’acender ardente chama?
Castanho
Se ela não é macambúzia
Ele todo aberto em sorrisos,
De beijos furta uma dúzia
Todos
Um beijo em carinha cheia
Vagaroso e bem cantado,
Sabe a quem o saboreia
A leite creme queimado...
Há beijos muito apressados
E beijos que não têm fim,
Mas os mais saboreados
Cá p’ra mim
São assim!
Assim!

         Finalmente tudo se esclarece. Pinga-Amor acaba por ser desmascarado. Eduardo Leirosa e Tomás Castanho, que haviam encontrado a felicidade, em parte devido à “tramóia” urdida, perdoam-lhe. Mas... então e a tal Lúcia Lima? É o sacristão quem conta toda a história. A tal Lúcia Lima era nada mais nada menos que o nosso limonete. O senhor cura, que havia posto o anúncio, pelo Carnaval, para ver se “engatava” um amigo do Casal dos Piratas, dera-lhe o seguinte bilhete: Lúcia Lima, arbusto verbanáceo, de perfume agradável e intenso, vegetando bem nos terrenos frescos. Foi importado do Malabar em 1502 pelo capitão-mor D. Sancho Fagundes de Encerrabodes, que residiu em Tavarede há mais de três séculos. Serve para dar cheiro aos baús de roupa e é usado para fazer ramos nas burricadas de Buarcos. Há quem faça dele chá contra as prisões de ventre”.

Coro
Das plantas que tem a aldeia
Outra não há de mais gala;
E em noites de lua cheia
Tem um cheiro que regala.

Quem fizer um ramalhete
Para dar à sua amada,
Se ele não tiver limonete
É coisa desconsolada

Uma Voz
Das burricadas luzidas
Da festa de S. João
Trazem as moças garridas
Um grande ramo na mão.

Coro 
O limonete caseiro
É talvez neto da lima...
Quem quizer sentir-lhe o cheiro
Basta pôr-lhe a mão por cima.

Se uma donzela travessa
Quer-se com ele enfeitar
Com três folhas na cabeça
Fica bonita a matar.

Uma Voz
Eu não sei de flor mais bela
De quantas há no jardim.
Anda sempre na lapela
De quem suspira por mim.

Coro 
Veio das matas frondosas
Da costa do Malabar,
Para as donzelas vaidosas
Cheirarem bem ao seu par.

         E tudo acabou em bem!

 

António Maria Oliveira Simões
(autor da partitura)
          Da mesma parceria, João Gaspar de Lemos Amorim e António Maria de Oliveira Simões, é levada à cena, no dia 16 de Janeiro de 1926, integrada no espectáculo de gala do 22º aniversário, uma nova e fantasiosa revista, “Pátria Livre”. Pequena, só tem um acto e três quadros, narra a hipotética independência de Tavarede, que, após uma revolução triunfante, se autoproclama como República do Limonete.

Duas notas: O meu querido amigo Maestro João Cascão alertou-me para o erro que cometi ao escrever que a estreia do 'Cantigas de Tavarede' referi 2006 quando foi em 2007. Lapso meu que espero me seja desculpado.

Também me informou que recentemente, aquele Coral deu a sua centésima exibição. Parabéns e... Tavarede marca!!!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 62

         Pela primeira vez, o teatro da SIT representou Gil Vicente, com o Auto da Mofina Mendes ou Os mistérios da Virgem. Foi mais um sucesso a juntar a muitos outros.
         Em Outubro de 1947, Tavarede prestou pública homenagem a D. Maria Amália de Carvalho, a primeira professora oficial que deu aulas de instrução primária em Tavarede, à qual deram a sua colaboração as associações da freguesia. Houve uma sessão solene realizada no Grupo Musical e um dos seus antigos alunos publicou a notícia de que recortamos a seguinte passagem: Efectivamente, na consagração prestada nesse dia em Tavarede à ilustre mãe espiritual de umas poucas de gerações de tavaredenses, em que os nobres sentimentos do reconhecimento e da sua gratidão andaram de mãos dadas; em que os esforços se congregaram e os corações se juntaram uns aos outros, fraternalmente, irmãmente, a freguesia de Tavarede soube demonstrar, de uma maneira clara e insofismável, que neste mundo de maldades, de egoísmo e de traições, ainda nem tudo está conspurcado e vilipendiado.
         De facto, assim é. Tavarede, pela tocante solidariedade do seu povo à brilhantíssima e apoteótica homenagem prestada há dias, lá, à muito querida e muito amada professora, srª. D. Maria Amália de Carvalho, provou ser (ou pelo menos desejar ser) excepção à regra no capítulo da maldade e da ingratidão humanas.
         Devem os tavaredenses estar satisfeitos por isso. Devem os meus conterrâneos sentir-se vaidosos por isso. Eu – seria falsa modéstia afirmar o contrário – sinto-me cada vez mais orgulhoso da linda terra em que nasci. Pelo salutar empreendimento que pensou e realizou há dias, em legítima homenagem a uma adorável e veneranda professora a quem tanto ficámos devendo...
         ... e pelo muito mais de bom e de útil que, tanto no campo da música como do teatro, por lá semeia, por lá cria, por lá come – e dá a comer aos outros... No Grupo Musical encontra-se, no seu livro de honra, uma honrosa mensagem escrita e assinada por aquela distinta professora.

         Variando o seu reportório, o grupo dramático da Sociedade de Instrução apresentou um novo e original espectáculo: Noite de Teatro Português. E de uma ida a Coimbra, respigámos a seguinte notícia: Aqueles fugazes momentos de grande prazer espiritual que nos proporcionou o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, representando, no Teatro Avenida, na noite de segunda-feira última, Teatro Hierático – Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente; Teatro Romântico – 2º acto do drama A Morgadinha de Valflor, de Pinheiro Chagas; e Teatro Realista – 3º acto da peça Entre Giestas, de Carlos Selvagem, sob a direcção artística do nosso antigo e brilhante camarada José Ribeiro a quem a plateia de Coimbra não se cansa de aplaudir pelo muito que tem feito e continua fazendo, num afã prodigioso, em beneficio da Instrução do povo, … - esses rápidos momentos de deleite, -  para nós que tantas e tão grandes coisas más e coisas boas temos experimentado -, vieram-nos relembrar aquela pergunta feita, aqui há tempos, num colega – não sabemos por quem, nem isso nos interessa -: se amadores podem representar teatro clássico…?
         Dizemos nós:
         Podem, e tanto podem – sem grande dano da Arte e do Classicismo – que, a representação, agora, do Auto da Barca do Inferno, pelo Grupo Tavaredense – como, anteriormente, com a Mofina Mendes e no mesmo palco – é a sua última ratio.
         Podem, desde que tenham um José Ribeiro, pleno de competência, de zelo, e da probidade que deve assistir a tais representações: - José Ribeiro, que, mercê do seu valor intelectual posto à prova como jornalista e dramaturgo, nos tem proporcionado, através de mensageiros desse valor intelectual, momentos muito deleitosos, e que é um autodidacta que domina um auditório, com a sua palavra fluente, e que desse dom usou para nos dar, na abertura do Serão de Arte a que nos estamos referindo, e nos dois intervalos que se seguiram, uma bela lição da história do teatro.
         Porventura, em 1517, quando Gil Vicente fez representar este auto, bem vicentino “para consolação da muito católica rainha dona Maria…”, seriam letrados todos os seus intérpretes?...
         Estamos em crer que não, e que Gil Vicente, como bom ourives que era, teve de contentar-se com a “prata da casa”: o mesmo que acontece a José Ribeiro, que, além dum ótimo ensaiador, é um grande modelador, e que no caso em causa não se esquivou a testemunhar, publicamente, o que deve ao sr. Dr. Paulo Quintela que muito bem conhece o teatro vicentino, o muito que lhe deve na respectiva encenação.
         A obra cénica de José Ribeiro, fez-nos lembrar aquela Descrição do Estatuário: que da pedra dura, bruta e informe tira uma imagem perfeita e até um Santo que se pode pôr num altar…
         Podem amadores, mesmo iletrados, representar teatro clássico, ou hierático – como o Grupo de Tavarede agora nos deu entre calorosos aplausos dos espectadores que enchiam a trasbordar o Teatro Avenida, numa festa de Arte, em beneficio do Asilo da Infância Desvalida, em que, também, foi homenageado o seu muito querido Presidente, o grande Filantropo sr. Dr. Elísio de Moura, protector amicíssimo de mais de dois centos de meninas, desvalidas, que se acolheram sob a sua asa de Caridade e de Amor.
         Mas não devem: por que, no nosso parecer, esse teatro exige um ambiente que os muitos anos que lá vão transformou completamente, não obstante…
         Esse teatro – como aqui já dissemos – fez o seu tempo: como as candeias de azeite, - In illo tempore, em antes da luz fluorescente.
         São peças de Museu, para serem admiradas, e em que só se deve tocar com mãos purificadas pelo incenso da veneração por tudo o que é antigo e digno de respeito.
         Os calorosos aplausos que festejaram o Grupo de Tavarede na sua nova exibição no nosso palco – exibições que são sempre acontecimento teatral que chega a sobrelevar a noticia da vinda de qualquer companhia de renome -, muito ardorosos no final da Barca do Inferno, aumentaram         de intensidade no final da representação do excerto da A Morgadinha de Valflor: - prova provada de que o Teatro Romântico, numa das suas peças mais interessantes e festejadas, tem bons intérpretes, modelados por José Ribeiro: Luiz Fernandes, pintor, interpretado por João Cascão, D. Leonor Coutinho, por D. Violinda Medina e Silva, e pelos restantes: Fernando Reis, António Santos, Manuel Nogueira, João de Oliveira Júnior, D. Maria Teresa de Oliveira e D. Maria Dias – ou sejam: bons amadores que honram o Mestre, e que, vivendo o 2º acto de A Morgadinha num décor bem cuidado, e vestindo um luxuoso guarda-roupa, segundo figurinos da época, propriedade da Sociedade de Instrução Tavaredense, mereceram, pelo seu trabalho, calorosos aplausos.
         Fechou o espectáculo do Teatro Realista – o 3º acto da Entre Giestas, de Carlos Selvagem: acto duma grande intensidade dramática, em que António Geadas e Clara, jornaleira – interpretados, respectivamente, por João Cascão e D. Violinda Medina, mostraram, mais uma vez, o seu valor; e Fernando Reis, António Santos, Manuel Nogueira, José Vigário, José Santos, Fernando Santos, DD. Maria Teresa, Celeste Dias, Vitalina Lontro, Maria da P. Lontro, Idalina Dias e Maria Dias – todos amadores muito distintos – nos deram um conjunto muito bem afinado e dum realismo em que nada escapou à encenação: inclusive, num cenário, bem próprio, duma aldeia da Charneca, Beira Baixa – actualidade, nem sequer faltava uma meda à sombra da qual uma junta de bois ruminava, e olhava, de quando em vez a plateia, indiferentes… ao juízo que nós fazemos da vida.
         Tanto o cenário do Barca do Inferno como o do 3º acto da Entre Giestas, muito interessantes, são do distinto Artista Rogério Reynaud, bem como a montagem cénica.
         O cenário do Barca do Inferno…, talvez um pouco realista demais; mas, com a sua feéria, remediou quaisquer faltas que os mais exigentes pudessem notar.
         Na abertura, tivemos, na orquestra, nº 225 do Cancioneiro de Barbieri (Séc. XV e XVI) – João Badajoz, e À laia de prólogo – duas palavras que por sinal foram muitas e muito aplaudidas, pelo Director do Grupo Cénico.
         Na II parte, pela orquestra: Minueto – José Henriques dos Santos e, novamente, palavras por José Ribeiro acerca do Teatro Romântico.
         Na III parte, pela orquestra: Sobre canções populares da Beira – António Simões, e, finalmente, mais palavras, muito festejadas, do Director do Grupo Cénico, sobre o Teatro Realista.
         Fechamos estas nossas impressões, transcrevendo, com a devida vénia, fazendo nossas, as palavras com que terminava o prospecto do espectáculo:
         “Três épocas diferentes; Três géneros diferentes; Três estilos diferentes, reunidos num programa expressivo do teatro português e que constitui – que constituem, acrescentamos nós – ao mesmo tempo um soberbo espectáculo teatral”.
         Que pena, não termos muitos Josés Ribeiro assim, para se fazer reviver o amadorismo dramático…

         Mas… “Cesse tudo quanto a antiga Musa canta…”.

Operetas em Tavarede - 3

       No dia 11 de Abril de 1925, subiu à cena a opereta “Em busca da Lúcia-Lima”. Com libreto de João Gaspar de Lemos Amorim, foi musicada por um grande músico figueirense, o saudoso professor António Maria de Oliveira Simões. Recordemos um pouco desta peça.

         Começava a acção no largo do rio, junto da Igreja. Estavam em cena as figuras importantes da aldeia, entre as quais o regedor “Zé Badaleiro”. Este havia acabado de receber um telegrama, vindo de Lisboa, no qual era informado da visita à aldeia de dois brasileiros, riquíssimos, Eduardo Leirosa e Tomás Castanho, que aqui se deslocavam à procura duma determinada pessoa.

         Enquanto esperavam os visitantes e faziam os preparativos para a recepção, as lavadeiras tavaredenses iam lavando as roupas das suas freguesas, nas águas frescas e limpas do nosso ribeiro.           

A roupa que nós lavamos
É de vária freguesia.
O sabão não chega a meio
Para tanta porcaria.

Lavamos muita fraldinha
De pintinhas salpicada...
À força d’ensaboadela
Fica sempre obra asseada.

As águas desta ribeira
Conhecem muito segredo
Das meninas que namoram
Escondidas no arvoredo.

De noivas e de casadas
Toda a roupa aqui vem ter
Por isso sabemos coisas
Que se não devem dizer.

As nódoas que traz a roupa
Nos fartamos d’esfregar.
Estas pedras se falassem
Tinham muito que contar.

         Logo de seguida aparecem os dois brasileiros, acompanhados pelo seu criado, o muleque “Dominus Técum”. Haviam aterrado o seu aeroplano na Várzea e são recebidos festivamente, no largo do rio, por toda a população local. Afinal, eles eram portugueses, naturais, um do Minho e o outro de Trás-os-Montes. Haviam emigrado para o Brasil. A vida correra-lhes bem, amealharam grossa fortuna e, agora, queriam casar.

         Num jornal desta região, que haviam recebido, encontraram o seguinte anúncio: “Senhora nova, sem fortuna mas formosa, de boa reputação e muito prendada, deseja contraír matrimónio com cavalheiro respeitável e em condições de manter o decoro e decência de família digna de toda a consideração. Quem pretender, dando referências idóneas, queira dirigir-se a Lúcia Lima, Beco das Poias, Tavarede”.

         Não hesitaram. Meteram-se dentro do seu aeroplano e aqui chegaram em busca da tal senhora. O pior é que de ninguém era conhecida. E enquanto aguardavam mais informações, foram provar um copo “do bom”, à adega do senhor regedor.

         Havia na aldeia um tal “Pinga-Amor”, amador dramático e conquistador dos “quatro costados”. Este, temeroso que algum dos brasileiros requestasse a bela Capitolina, a filha do regedor que ele pretendia para noiva, especialmente pelo dote dela, logo arquitectou um plano para os afastar daqui, fazendo constar que a tal Lúcia Lima havia ido para a China, na companhia de um irmão, capitão da tropa destacado para Macau.

         Engoliram a patranha. E logo decidiram. Se ela foi para a China, vamos nós, também, à sua procura. O aeroplano estava pronto para a viagem.

         O segundo acto é passado nos jardins do Mandarim de Tching Fou. Comemorava ele, nessa dia, as suas 59 “primaveras” e havia ordenado grandes festejos. Todavia, sua filha, Flor de Chá, estava triste. Havia-se apaixonado por um dos brasileiros. Estes, porém, ao aterrarem o seu aeroplano, fizeram-no com tal infelicidade que partiram umas pendurezas do templo e estragaram o arrozal sagrado, o que causou enorme ira ao Mandarim, que determinou a sua prisão e que, em julgamento mais que sumário, havia determinado a sua execução.

         Flor da Chá, que seu pai havia prometido em casamento ao seu valido Chi-Fan-Tu, mas que se apaixonara por um dos brasileiros, canta a sua tristeza:

 Sonhos dourados, grata alegria,
 Que em mim senti; sempre a brilhar
Mundo d’ilusões em que eu vivia...

Oh! voltai, voltai, e sem tardar
Que eu desfaleço nesta agonia,
Nesta tristeza d’amargurar!

Que vale ser nova, ser cortejada,
 Ser rica e filha dum mandarim,
Se a alma trago atormentada
Duma tristeza que não tem fim!

Viram meus olhos um estrangeiro;
Presos ficaram, presos d’amor,
Como no encanto dum feiticeiro.

Não sei que chama, que estranho ardor
Fez em meu peito letal braseiro,
Que é vida e morte, prazer e dor!

Buda clemente minha alma implora
Do vosso poder a protecção.
Tirar-me o fogo que me devora
D’ardor intenso meu coração.

         Mas a festa continuava. Emtretanto, Flor de Chá tinha conseguido subornar o Comandante Ferraóbico. Projectaram a fuga dos prisioneiros. Por sua vez, o Consul de Portugal, que tivera conhecimento do sucedido, vai interceder junto do Mandarim, a quem oferece algumas garrafas de vinho do Porto que ele muito apreciava.

         Mas não era só a liberdade dos brasileiros que Flor de Chá pretendia. Queria mais, queria casar com Eduardo Leirosa, que também por ela se apaixonara. A festa prosseguia, mas, antes da execução e com o auxílio do Comandante Ferraóbico, conseguem fugir para Portugal, trazendo com eles a apaixonada Flor de Chá.

 Eu tinha numa gaiola
 Uma linda cotovia,
 Era uma delícia ouvi-la
 Chilreando todo o dia.

 Não era só meu o encanto:
 O maroto dum pardal
 Vinha fazer-lhe namoro
 Debruçado no beiral.

 Desde a alvorada
 O tal tratante
 Sempre no posto
 Era constante
 A confessar
 Seu terno amor,
 E a cotovia
 Fazia ouvidos
 De mercador!
 Mas passados tempos
 O tal mariola
 Conseguiu beijá-la
 Fora da gaiola

 E fugiu.

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 6

          Muitas vezes temos referido o facto de Tavarede, em tempos que já lá vão, ser uma pequena aldeia cujos habitantes viviam e trabalhavam, na sua maioria, na agricultura. Por conta própria, nas suas terras, ou por conta alheia, eram muitos os cavadores que tiravam, do seu trabalho agrícola, o sustento de sua família.
         Era uma vida bastante dura, muitas vezes trabalhando sob um sol abrasador, enquanto noutras tinham que suportar um frio que enregelava. Além disso, e isto ainda durante a primeira metade do século vinte, não tinham horário, trabalhando de sol a sol, cujo relógio era o sino da torre da igreja, tocando as trindades para o início do trabalho ainda o sol estava a despertar, bem como para anunciar o fim do trabalho, quando o sol já desaparecia no poente.
         No mês de Abril os dias começavam a ser maiores, pelo que foi necessário estabelecer um período de descanso a meio da tarde, para recuperarem um pouco das forças dispendidas. Terá sido esta a necessidade de estabelecer este costume e, assim, surgiu o uso de festejar a tarde estabelecida para a chamada ‘merenda grande’. A nossa terra, seguindo o exemplo geral, também celebrava esta tarde.
         Foi um costume que perdurou durante muitos anos, pois ainda nos recorda, e com saudade, confessamos, quando íamos em ‘ranchada’ merendar fora, normalmente no pinhal sito aos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro, bem perto da velha escola primária.
         A primeira nota que encontrámos respeitante a esta celebração, foi em Abril de 1899. “A srª D. Maria Amália de Carvalho, digna professora da povoação de Tavarede, offereceu na passada segunda feira – dia da merenda grande – uma soirée familiar, que decorreu animadíssima entre despretencioso convívio, até perto da uma hora da madrugada.
         O sr. A. Rodrigues recitou o monologo em verso “O Terrível”, entre francas gargalhadas, sendo também bastante palmeado o sr. A. Proa nas suas cartas de magia. Durante o baile esteve tocando, sob a direcção do sr. João Proa, um quintetto que muito agradou.
         De tarde estivera alli executando algumas musicas a “Troupe Gounod”, sendo-lhe offerecido um abundante copo d’agua. Muito mais tínhamos que dizer, mas o espaço de que dispomos n’este jornal não nos deixa alongar mais”.
         O costume já seria antigo pois, no ano seguinte, mereceu uma nota um pouco maior, num periódico figueirense. “Hontem, ao inicio da tarde, quiz-nos parecer que os nossos visinhos figueirenses tinham julgado ser dia de S. João cá na parvonia. Por essas estradas além viam-se ranchos e ranchos de pessoas, e aqui na povoação passavam igualmente muitos outros com cestos enfeitados de verdura e flôres e recheiados de saborosos petiscos, que iam manducar á sombra d’árvores dispersas por ahi fóra.
         Não era porém dia de S. João, mas sim o da festejada merenda grande, tão suspirado por todos os operarios que até Setembro gosam 2 horas de sesta. Tavarede offerecia-nos mais um tom de quem estava em festa, do que a sua apparencia habitual de monotona pacatez.
         Um grande cortejo de meninas e meninos, alumnos da nossa escola elementar, conduzindo cestos caprichosamente engrinaldados de flôres, percorreram muitas ruas da localidade. Á noite a exma. srª. D. Maria Amalia de Carvalho, sua intelligente professora, reuniu em sua casa muitas meninas suas discipulas e outras das suas relações, e ali estiveram em animado convivio até perto da meia noite. Festas e mais festas”.
         Um outro periódico refere “... houve a costumada romaria, dando a Figueira o seu ‘contigente’ avantajado. Muita alegria; muita festa”. Os figueirenses, como se depreende, aproveitavam aquela tarde para recuperarem forças e procuravam os sítios mais aprazíveis da nossa terra, para saborearem as fartas merendas à sombra das árvores ramalhudas. “Foi grande a concorrência de figueirenses que na segunda feira vieram aqui passar a tarde e festejar a merenda grande. Locandas cheias de freguezes, homens de banza á cinta, mulheres sobraçando cestos recheados de acepipes, danças, vozes argentinas soltando cantigas alegres, um movimento desusado nas ruas, emfim, um bocado de tudo se viu aqui n’aquella tarde. As meninas da escola andaram com cestos enfeitados a percorrer as ruas, depois de terem merendado com alegria E era bonito admirar aquelle grupo de gentis creanças, todo coberto de flores, risonho, cheio de candura, a offerecer-nos um quadro simplesmente bello!. Finalmente, uma tarde bem passada para os felizões que vêem com razão que esta vida são dois dias”.

A professora D. Maria Amália de Carvalho, a quem já atrás aludimos, havia estabelecido o costume de, pelas crianças da sua escola, se festejar este dia. Pelos apontamentos transcritos, percebe-se que o cortejo infantil, com os seus cestos cheios de flores, espalhavam alegria pela rua principal da aldeia até ao local escolhido para a confraternização.




sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 5

No ano de 1919 as notícias são escassas. “Foram sempre, no nosso concelho, os melhores festejos para a mocidade alegre os do S. João da visinha e pitoresca freguezia de Tavarede.
O Santo da terra do limonete é talvez, o que dá melhores dias de folia e que mais "milagres" tem feito à gente casamenteira. Por isso é bastante querido e as suas festas são bastante concorridas.
Da cidade, ranchos familiares vão com merendas até àquela bonita aldeia, onde sob frescas sombras passam horas de alegria e conforto. Pelas estradas que se estendem como fitas brancas até Tavarede, passam ranchos cantando, floridos de limonete e de dálias...
No pequeno largo da ermida e pelas ruas da povoação raparigas trigueiras pelo sol de julho vendem aos forasteiros braçadas de flores. E no altar, todo cheio de luzes, de damascos e de flores garridas, S. João é festejado com crença e fé pela gente moça que regressou da guerra e por aquela que foi atendida nas suas promessas...
Tudo é alegre! - Tudo ri e tudo canta!
Garbosos rapazes, montando cavalos enfeitados, percorrem as ruas da terra, da Figueira e de Buarcos com as bandeiras de S. João, acompanhando-os as raparigas caprichosamente vestidas, a musica e o gaiteiro!
A tradição do S. João de Tavarede aponta-nos, pois, dias de franca alegria!...
Este ano realizam-se os seus festejos nos próximos sábado, domingo e segunda-feira, cujo programa é o seguinte:
Dia 26 - De manhã, chegada do tradicional "Zé Pereira" e à noite concerto pela excelente filarmónica "Figueirense", iluminações, fogo de artifício, ranchos populares, concerto pela apreciada tuna do Grupo Musical Tavaredense, etc, etc.
Dia 27 - Às 10 horas, imponente ceremonia religiosa na egreja paroquial, assistindo uma orquestra da Figueira; às 15 horas, entrega das bandeiras pelo reverendo pároco de Tavarede aos promotores dos festejos, que, em cavalhadas, percorrerão as ruas da localidade, Figueira e Buarcos, às 20 horas, concerto pela "Figueirense", corridas de cavalos, danças e descantes populares.
Dia 28 - Alvorada pelo "Zé Pereira" e à tarde corridas de gericos, de sacos, de potes e pau "cognac".
A politiquice começou a interferir com as festas, especialmente com a parte religiosa. “Os fervorosos católicos que tiveram a infeliz ideia da procissão do S. João trabalham afanosamente para levarem por diante o seu intento. Até se chegou já a afirmar que a procissão se faria – desse por onde desse.
         Nós continuamos a supôr o contrário, não só porque a autoridade não dará, certamente, a necessária licença, visto que êsse acto religioso assume o carácter duma especulação política que aqui tem causado indignação, mas ainda porque as pessoas que de boa fé acompanham os promotores da função acabarão por reconhecer os inconvenientes dum número que se não justifica e que nem os verdadeiros católicos, nem mesmo os velhos organizadores dos pomposos festejos de outros tempos, vêem com bons olhos.
         Pois se se não trata duma questão religiosa mas sim dum acto com que se pretende atingir determinado fim político!...
         No dizer dêsses velhos, as festas de S. João tinham sempre uma parte religiosa, mas nunca nela figurava uma procissão. Havia, sim, as novenas, que sempre se realizavam, e que êles justificadamente estranham se não realizem agora. E se bem que quanto a nós o caso seja indiferente, pois não assistimos às novenas, êle merece registo, porque vem confirmar o que aqui dissémos quanto aos intuitos dos promotores da procissão.
         Onde está, então, o fervor religioso desta gente, levado até ao excesso com a introdução dêste novo número na parte religiosa e pôsto de parte na realização das novenas, que a tradição justifica? Não faz sentido.
         Ouvimos que as novenas se não efectuam porque o sr. Padre Vicente não tem vagar para isso, “porque as terras lhe dão muito trabalho”. Nós não o censuramos por isso, outro tanto não fazendo várias pessoas que não dispensam a prática de certos actos religiosos, mas achamos que há razão para que os que não conhecem a hipocrisia de certos sujeitos estranhem que se não façam novenas e se queira uma procissão.
         Nós não estranhamos, porque conhecemos o jôgo. Se até sabemos que os anjos que deviam figurar na procissão que se não realizou na Figueira, figurarão na que se procura realizar em Tavarede!...
         Veremos e diremos”.
Mas, na verdade, as festas ainda foram bastante animadas. “"O S. João a todo o tempo tem vez!" - diz na sua o povo. Vai, em Tavarede, ainda domingo se festejou com luzida festança o bom do casamenteiro. Estiveram ruas enfeitadas. Zabumbou noite e dia um riquíssimo gaiteiro. Fêz-se festa de igreja com repicares de sinos e missa trauteada por uns casais de senhores priores. Subiram foguetes ao fino ar, que o bom sol empoalhava de oiro. Toda a noite um vistoso fogo de artificio riscou o espaço em fantamasgorias de lumes. Moças bailaram c'os cachopos, - "... E agora viras tu! E agora viro eu..." Tremoceiras, mulheres das freirinhas de milho, tascos em que o palhete correu em barda, não tiveram mãos a medir.
E até cá ao burgo chegou o rijo festejar da linda aldeia aqui à ilharga, com a esperada passagem dum pomposo cortejo a que soiam chamar cavalhadas, e que com muito mais propriedade se devia denominar - burricadas...
Iam mais gericos, que os que aí andam à solta, zurrando à nossa volta, - "que o fado é a canção nacional..." - com lágrima lamecha ao canto da pupila revirada.. Eram tantos, tantos burros, que faziam sombra e inveja aos que afirmam e batem fé, por barbeiros e poisos de má-lingua, - que os pobres rabiscadores destas prosas lassas, só para irritar, por folice, por snobismo condenam e abominam o trilo ignóbil que os contenta e maravilha.
E cá andou tudo aquilo em torno das praças, pelas ruas costumadas - zus-que-truz! Zus-que-truz! - num chouto apressado e sacudido, as alimárias tagatadas com furia levando em riba, içadas em ceirões, espalhadas por colchas vermelhas, cada rapariga de deslumbrar! - moças tão lindas de tão apetecida brancura e beleza tão grande, que o António Piedade, artista como os que o são, ainda há bocado, ali à porta do Adelino, de mão no peito e olhos no céu, ia rezando com entusiasmo a sua admiração apaixonada pelo encantador grupo de raparigas, que seus olhos miravam com adoração e ternura, nas brilhantes cavalhadas das terras do limonete...”.