sexta-feira, 14 de março de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 67

   É muito dificil, para nós, seleccionar um apontamento publicado e relativo a esta peça. Por isso, e porque se refere a outros assuntos que reputamos de interesse, transcrevemos uma nota recolhida no diário ‘República’, em Novembro de 1952. Entre os muitos deslumbramentos que em mim causou a viagem aos países nórdicos, ocupa um lugar destacado a protecção do Estado e das comunas ao teatro do povo, dando à expressão o seu verdadeiro significado – artistas do povo representando para o povo. Particularmente na Finlândia, onde me apercebi com mais detalhe do problema, essa protecção ultrapassa o dever do estado para atingir as culminancias duma verdadeira consagração nacional. São às dezenas os grupos de amadores que, desde as regiões polares até Helsínquia, se dedicam, no intervalo das suas vidas de trabalho afadigado e operoso, a fornecer ao público o precioso alimento espiritual de que, só o teatro, na sua simplicidade e na sua estreita comunhão, é capaz. Não posso, é claro, pronunciar-me sobre o valimento desse teatro, pelo desconhecimento completo da língua arrevezada e difícil, mas o que posso garantir é que ouvi a artistas finlandeses as melhores referências e a afirmação de que são esses núcleos os permanentes mantenedores do prestígio dum espírito sem o qual o teatro acaba por estiolar-se! E é precisamente desses núcleos que saem os grandes artistas profissionais, para os quais, segundo parece, se não exige um exame declamatório e enfatuado…
      Por aquilo que ouvi, não é possível fracassar na Finlândia uma iniciativa deste género, a não ser por incapacidade congénita dos amadores, pois as facilidades económicas são tão grandes e o acesso aos teatros tão acentuado que, agrupados os artistas e expostas as suas pretensões, o ambiente oficial ou comunal e a compreensão pública se manifestam, não no campo das promessas, mas sim no das certezas e realidades.
      Parece-me ser este o caminho e esta a única solução. Se assim sucedesse, entre nós, é natural que o Teatro não apresentasse o aspecto confrangedor que o arrasta pelo Parque Mayer ou que as iniciativas altas e honradas de alguns homens sérios morressem desfalecidas e sem protecção. Isto no que respeita à compreensão oficial do papel dos pequenos núcleos porque, como é óbvio, o que se passa com os grupos profissionais excede todas as críticas.
      Mas vem isto a propósito de dois acontecimentos ocorridos no nosso meio artístico, para os quais chamo a atenção dos interessados e dos próprios poderes políticos.
      O primeiro é do conhecimento geral:
      A grandeza do Teatro dos Estudantes de Coimbra, dirigidos pelo saber e pelo sacrifício do professor Paulo Quintela, cuja fama ultrapassa as fronteiras e constitui grande jubilo para todos os portugueses, através da atmosfera de entusiasmo que o envolveu na sua digressão pela Alemanha, Itália e Espanha, sobretudo nos dois primeiros países, em que a cultura teatral faz parte integrante da cultura geral.
      O segundo é a arte excepcional do grupo de Tavarede, cujo “Frei Luiz de Sousa”, recentemente representado em Leiria, demonstra a que altura pode chegar a massa anónima do povo quando iluminada pelo trabalho persistente e pela humana cultura dum José Ribeiro.
      No primeiro caso há que contar, sem dúvida, com a preparação dos jovens artistas, estudantes universitários, conhecedores do ambiente e da literatura, ou, pelo menos, acessíveis à compreensão dos temas e dos personagens. É um facto a contar que não desmerece do valor e da beleza desse agrupamento de “elite”.
      Mas o segundo?
      Haverá melhor expressão de riqueza popular do que esses artistas proletários, debruçados dia a dia, nos trabalhos duros da profissão e entregues nos longos serões à “compreensão” dos seus papéis, sem cultura, alguns analfabetos e outros sabendo ler mas ilaqueados pelas dificuldades intelectuais duma rápida assimilação?
      Mesmo que tenham à sua frente um homem invulgar como José Ribeiro, seu mestre e companheiro, como desconhecer o esforço hercúleo dessa massa erguendo-se à contemplação da beleza e sabendo-a transmitir de forma a causar inveja a alguns filiados no Sindicato profissional?
      Só quem, como nós, assistiu à representação do “Frei Luiz de Sousa” pode avaliar da emoção, da verdade e da sinceridade, que esses proletários-artistas põem ao serviço duma arte, que eles tanto sentem nos recessos das suas almas de eleição, embora tocados por uma simplicidade comovedora e aliciante.
      Por aqui se aquilata a necessidade de proteger esses núcleos, tal como se pratica nos países do norte europeu. Protecção que terá de ser eficiente no aspecto das facilidades oficiais, na isenção de taxas e sobretaxas, no acesso aos teatros, na oferta de literatura especializada e na abertura de pequenos anfiteatros, onde os responsáveis e os esclarecidos exponham, em conversa fácil, os problemas da arte teatral.
      O mesmo principio deverá ser aplicado a todas as manifestações de arte do povo, sejam eles os orfeãos magníficos que possuímos e que vivem uma hora difícil e agónica, as orquestras populares e as manifestações plásticas dos nossos artistas populares e desconhecidos.
      A “carolice” não pode fazer milagres e não é justo exigir-se das bolsas particulares e do suor não compensado de meia dúzia, todo um trabalho em beneficio da Nação e, portanto, de todos nós.
      É esta uma das modalidades duma política do espírito, a que daríamos a nossa adesão se alguém se lembrasse de a efectivar.
         Quando será?

E, já agora, mais um pequeno extracto do relatório da Direcção do exercício de 1951. Vós que assististes cómoda, ou incomodamente instalados na plateia à representação do “Frei Luís de Sousa”, não podeis avaliar, e pena é que assim seja, porque se o pudesseis fazer isso significaria interesse pela vossa Sociedade e estimular-nos-ia a vossa presença amiga, não podeis avaliar, como se ia dizendo, a soma de sacrifícios, de desânimos, de estudo, de energia e trabalho enfim, despendidos na montagem desta peça inolvidável. Todos os amadores colaboraram com o seu saber e com a sua melhor boa vontade. Mas é, sem dúvida, e desnecessário seria dizê-lo porque todos vós o sabeis bem, ao dinamismo, à cultura, aos profundos conhecimentos das coisas de teatro, à superior inteligência do director cénico, que se fica devendo mais este triunfo da nossa Sociedade, delirantemente aplaudido por quantos assistiram ao Frei Luís de Sousa.
         Quem, como nós, acompanhou a evolução do que se apresentava como um sonho pelo muito que tinha de arrojado, até à admirável realidade que todos presenciastes, tem por força de admirar e avaliar o enorme trabalho levado a efeito pelo nosso director cénico. A quantidade assombrosa de correspondência trocada para recolha de elementos necessários; a probidade com que a peça foi montada e posta em cena, levando o seu escrúpulo até à observância dos mais ínfimos pormenores, causando a admiração dos próprios profissionais de teatro; o dispêndio de importâncias do seu próprio bolso para correspondência, etc., e, sobretudo, o trabalho gigantesco e exaustivo, duma persistência única, realizado como encenador, impõem-no à nossa admiração e gratidão.

Não, nem todas as associações podem representar Frei Luís de Sousa. E nenhuma, por certo, o levaria à cena com o rigor e êxito com que nós o fizemos. Para isso seria necessário que pudessem contar com um elemento tão precioso como esse Homem que todos nos orgulhamos de ter por consócio e conterrâneo. Para o senhor José da Silva Ribeiro vai todo o nosso agradecimento de directores pelos seus ensinamentos, pelos seus preciosos conselhos e pela maneira generosa como sempre colaborou connosco; e as nossas homenagens de homens que muito querem à sua terra, pelo seu grande talento.

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 11

     “Por mero acaso, e não porque esperasse emproadas replicas à minha inocente carta de 24 do mês último, é que vi, depois de decorridos alguns dias, referências abespinhadas de um quidam que entende na sua, e lá isso entende muito bem, não merecer sequer uma simples designação, embora ela seja tão estapafúrdia como a sua figura picaresca do pingurrio que veio de reforço… ao mestre.
         De resto, cá na minha também opino porque o interessantíssimo anónimo, heróico defensor das prendas e mais partes que concorrem na pessoa das desempenhantes do Bijou, se alaparde o mais possível por detrás do mais bem vedado tapume. Quem me diz a mim que não poderia eu tomar a nuvem por Juno e o mestre António pelo mestre João? Nada mais fácil do que querer filar um farçola emproado e pimpão e, em vez disso, deitar os gatazios a um pândego que conheça a gramática… parda (?) tão bem como o Mandarim The-chin-pó sabia de cor as máximas do moralista Confúcio. Isso nunca! O mais prudente é uma pessoa não se arriscar da zona da certeza e não avaporar a imaginação pelas regiões mortiféras onde brilham sideralmente as pedras finas do decantado Bijou, parte das quais têm sido lavradas pela mão (?) do primeiro mestre – o que tem pouca gramática – e não pela do segundo, - que tem a gramática toda! – e que afinal, bem se vê, segundo afirmam testemunhas oculares e guturais, costuma escrever de um borco e com rara perfeição.
         Eu, se neste momento, ou em qualquer outro, me achasse com tendências para responder à carta-dueto do ninguém, ver-me-ia, declaro-o com toda a franquelidade, seriamente atrapalhado, porque por mais que se faça suar o topete, por mais agudeza que um cérebro possua, é verdadeiramente impossível ajudar o que haja de fino espírito no remelgueiro mistifório do púfio. Chega até uma pessoa a pensar que quem aponta à execração pública os crimes (isso é o que nós havemos de ver?) gramáticos dos outros, não deve declinar a obrigação de perpetrar correspondências com algum bom senso.
         Terminando por agora: Tavarede não está tão cheia de pobres de espírito que não comporte de vez em quando mais alguns, os quais em tardes amenas costumam, para refrescar a amizade, ir libar do divino licor… arranjando assim forças para bem desempenhar o papel de Cireneu nas estrambólicas epístolas fabricadas nesta aldeia e exportadas para a Gazeta.
         E adeusinho até breve. (Pum)”. (O Povo da Figueira)
        Relativamente à parte religiosa, lê-se numa nota publicada em 1893: “Consta-nos que na noite do passado Natal, na Igreja de Tavarede se exibia uma caprichosa iluminação a balões à veneziana, e... mais alguma coisa: troféus de bandeiras de diferentes nações e galhardetes. A pouco e pouco o progresso vai invadindo tudo. Os nossos parabéns ao sr. padre ‘nobre’ que, assim, vai abrindo o caminho à secularização da igreja”.
         Não se encontram muitas notas quer referentes a espectáculos, quer a celebrações religiosas, até ao fim do século dezanove. Mas, segundo se depreende de posteriores notícias, foi uso e costume do nosso povo sempre levado a efeito.
         Mas, ainda naquele século, encontramos duas notas que consideramos de interesse aqui incluir. Uma é referente ao Natal de 1899. “Sentamo-nos hoje à mesa para lhes escrever, mas, francamente, não sabemos bem com que encher estes pobresitos linguados. Tudo é pasmaceira, tudo é aborrecimento! O dia de Natal, esse dia tão solemnisado e commemorado pelo chistianismo, passou entre nós sem deixar grande rasto da sua passagem. Sómente à missa conventual d’aquelle dia os fieis assistentes beijaram com frenezim o Menino Jesus, e algumas familias saboriaram os tradiccionaes filhós e brôas doces, guloseimas com que os pastores e pastoras do presepio costumam brindar o Redemptor. Que saudades nos deixaram aquelles tempos em que aqui se celebrava a representação dos autos pastoris, a que sempre se assistia com prazer. Hoje, nada d’isso. Todos alcunham aquella peça de estopante e aborrecida, sem se lembrarem de que por muitos espectaculos que se dêem n’esta occasião nenhum d’elles attrahirá tanto espectador como o da representação das scenas dos autos pastoris e dos Reis Magos.
         N’estas circunstancias, o que quereis que vos digamos? Só se falarmos das choradeiras dos contribuintes, por este anno, a uns, os terem sobrecarregado mais nas suas já pesadas contribuições, e a outros lhes lançarem novas collectas, que nos parecem ser immerecidas. Resultados das boas informações d’aquelles que, sem interesse proprio, vão assim satisfazendo pequenas vingançasinhas, sem se importarem com os transtornos que virá originar o pagamento d’essas collectas aos que as não deviam pagar. Mas emfim, elles fazem bem, porque a Fazenda Nacional, com aquella gratidão que lhe é caracteristica, há-de pagar-lhes bem os seus bellos serviços...
         Tambem se realisa aqui na noite de domingo para segunda-feira proxima a missa que por ordem papal foi mandada rezar em todas as egrejas parochiaes, para commemorar a entrada do Anno Bom”.
         Antes de transcrevermos a outra nota, recordamos que na mesma publicação da nota acima, há apontamento de que, em Buarcos, o Presépio e os Reis Magos foram ali ensaiados pelo tavaredense António Almeida Cruz, que é ‘um rapaz bem conhecido nesta cidade’. E a outra nota conta a festa natalícia em Tavarede em Dezembro de 1900.
         “Foi extraordinario, muito grande, como nunca vimos, o numero de fieis que correram á nossa egreja para assistir á festividade que ali se fez na noite de 24 para 25, celebrando o nascimento do Menino-Deus.
         Era meia noite quando, desvendado o throno do altar mór, disfructámos um espectaculo sublime: um pequenino presepio rodeado de dezenas de lumes que reluziam brilhantemente por entre aquelle bello quadro, que a todos os christãos inspira tanta fé e ardente commoção.
         Echoou então por todo o templo a Gloria in excelsis Deo, e continuou em seguida a cantar se a missa, que findou ás 2 horas, sendo celebrante o revdº vigario d’esta freguezia sr. Costa e Silva; serviram de acolytos os coadjuctores de Quiaios e das Alhadas.
         Prégou o revdº Pimenta, de Verride, versando o seu discurso sobre: o providencial nascimento do Redemptor, os feitos de Jesus e o martyrio a que foi condemnado, soffrendo sempre as mais crueis amarguras, sacrificado a isso pelas suas ideias alta e verdadeiramente sublimes.
         A decoração dos altares mór e lateraes revelava bem o gosto artistico do sr. Bernardo da Cruz, que, em trabalhos d’aquelle genero, o tem já demonstrado, quer aqui, quer n’essa cidade. O effeito produzido pelo altar mór, visto a distancia, era deveras attrahente.
         O côro estava bem organisado, tanto na parte instrumental como vocal, e, diga-se a verdade (que não podemos occultar), se não fôra o estar n’uma festa d’aldeia, pelo que alguns musicos costumam desempenhar os seus papeis com bem pouco esmero, teria jus a ser geralmente apreciado.
         Cremos bem que isto não deixa de lhes saltar aos olhos, como não deixa de saltar aos dos que assistem áquelles actos e tenham ouvido já, pelos mesmos musicos, córos e orchestras magnificas, merecedoras de incontestavel applauso.
         Entendem-nos, decerto.
         O Menino foi beijado com fervor e alvoroço, pois todos queriam ser os primeiros a depor-lhe o quente beijo d’amor.
         = À missa conventual do dia 25 tocou um pequeno grupo dirigido pelo nosso conterraneo João Prôa.
         = N’este dia á noite, no theatrinho Duque de Saldanha, representaram-se algumas scenas do presepio, ante o qual as pastoras e os pastores, cheios d’alegria, saudavam reverentemente o Recemnascido, offertando lhe muitas prendas.

         Acabou este espectaculo pela 1 hora da noite, assistindo a elle muitas pessoas, que enchiam a pequenina casa de recreio da Estudantina Tavaredense”.

As operetas em Tavarede - 8

      Chegam, finalmente, ao Paço. Nespera Cajú, que também já havia regressado, faz as despedidas e prepara-se para regressar ao Brasil. Mas, antes, a Grã-Duquesa ainda lhe quer mostrar uma outra beleza de Tavarede: os nossos jardins.

         Comissário – “E é grande, imenso, inesgotável de beleza e perfume o nosso jardim. Parece que a nossa terra foi tocada pela varinha mágica da fada das flores. Pode ser frouxa a seara do trigo, podem as geadas ter derretido as hortaliças, pode a estiagem ter dizimado os milharais, que por toda  parte, no recanto duma leira, no abrigado dum valado, contra os muros dos quintais, nos canteiros talhados junto à horta e por todos os quintalejos das casas, a natureza se mostra generosa e bela na abundância de flores, as mais variadas na forma, na cor e no aroma. Veja, admire-as: o crisântemo imponente falando-nos com orgulho das coisas orientais; a graciosa papoila; a rosa delicada; a modesta violeta; o malmequer simbólico; a perfumada glicínia; o doirado girassol, sempre voltado para o astro-rei. Aromas diferentes, diferentes cores e variadas formas e todas igualmente belas”.

 Não há fidalgo ou brasileiro
 Que em seu jardim
 Possa mostrar assim
 Tantas graças num canteiro.
 A rosa, flor arrogante,
 Disputa a palma ao girassol
 O petulante
 Que julga ser um sol.
 Rubra e farfalhuda
 A papoila alegre, em festa,
 Nem olha a violeta muda
 Que se esconde modesta.
 Quem não tiver
 Um malmequer
 Não chega a fazer sentido
 Se é ou não correspondido.
 Moça taful
 Que quer marido
  Abre os braços à glicínia azul.

         E estamos a chegar ao fim desta nossa primeira viagem. O serão, aliás, já vai longo. Vamos terminar estas histórias de hoje, a que demos o título de “O teatro de João José”, o teatro de João Gaspar de Lemos Amorim e de José da Silva Ribeiro, com a fantasia “Retalhos e Fitas”,que se seguiu a “O Grão-Ducado de Tavarede”.

         É muito pequena, mesmo a mais pequena desta parceria de autores. Teve a sua estreia a 14 de Janeiro de 1928. Devemos esclarecer, no entanto, que o teatro de João José não se esgotou com estas peças. O seu maior êxito, “O Sonho do Cavador”, aquela que é a mais conhecida e representada, será evocada na primeira parte do próximo serão. A segunda parte terá outro grande triunfo do nosso grupo cénico, “A Cigarra e a Formiga”, da parceria Eu e Ele, pseudónimo dos autores José da Silva Ribeiro e Alberto de Lacerda.

         Depois de “O Grão Ducado de Tavarede”, foi a nossa aldeia visitada por uma nova personagem. Desta vez, não se tratou nem de um brasileiro, nem de um jornalista. Desta vez o visitante era bastante mais importante, pois tratou-se do “deus Mercúrio”, o chamado “Deus do Comércio e dos Ladrões”. Numa das suas viagens pelo Olimpo, quando mais próximo passava do planeta Terra, chegou-lhe aos ouvidos a fama das grandes fitas de Tavarede. Ficou de tal forma curioso que não resistiu. Desceu e veio conhecer tal terra tão falada.

         Foi recebido, naturalmente, na sala de visitas da aldeia, no Largo da Igreja, onde se encontrava concentrada praticamente toda a população. Foi recebido pelo Tio Joaquim. Quem era o Tio Joaquim? Ele mesmo nos vai dizer.

         Tio Joaquim – “É como me tratam: tio Joaquim. Cá na terra há mais Joaquins, mas tio Joaquim há só um, que sou eu! Até os correios assim me conhecem. Os avisos da décima trazem só: Tio Joaquim – Tavarede. E cá vêm ter. Não é para me gabar, mas, graças a Deus, sou pessoa de alta importância. Abaixo do senhor Vigário, sou eu. Cá na terra toda a gente me consulta, toda a gente quer saber a minha opinião, todos querem o meu conselho. Sou eu quem regula o amanho das terras da freguesia: Oh! João, aproveita esta estiada para a sementeira da leira da baixa. Ó Manel, trata-me da vinha, que se vai embora se lhe não acodes com o sulifate. Não te descuides c’os tomates, Zé da Estina, amarra-os se os queres ter grandes, etc. Eu é que digo o que se há-de semear neste crescente, eu é que aviso se vem chuva ou se temos bom tempo p’ró minguante. E às vezes não basta o conselho. É preciso obrar. E eu obro muitas vezes nas terras dos outros. E se são precisos louvados para avaliações ou para partilhas, vêm-me chamar; e nos compromissos de gado nada se faz sem mim. Não há curral de porcos em que eu não tenha entrado. Em questões de porcaria ninguém me leva a melhor”.

         É um bom cicerone. Mostra-lhe as principais fitas da aldeia. A das bruxas e o roubo do dinheiro das festas da Igreja com a sacristia fechada. A fita das tabernas, onde reina o alcool e o jogo. A fita da miséria, na casa daqueles que gastam a féria em vinho e se esquecem da mulher e filhos. Enfim, tudo o que havia na nossa aldeia naqueles recuados tempos. Nem se esqueceu, até, de lhe mostrar as nossas hortas, com a fita dos nabos e das couves.

Nabo
Não é basófia
Nem eu me gabo
Mas meio mundo
Gosta do Nabo.

Couve
Vem toda a gente
À minha missa.
Vendo a beleza
 Desta hortaliça.

 Nabo
Quem tem o gosto apurado,
Seja cristão, seja mouro,
Saboreia regalado
O nabo do Saltadouro.

  Couve
  Esse teu pregão é baldo
  E a minha fama é tão forte
  Que ninguém despreza o caldo
   Da rica couve de corte.

Nabo
Esses teus ditos
São palanfrórios.
Querem-me sempre
Para os casórios.

Couve
Diz-se da moça
Fresca e papuda:
Que boa couve

Tão repolhuda.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Operetas em Tavarede - 7

         Velhos costumes da nossa aldeia. Da nossa... e das outras. E a má-língua não era só enquanto lavavam  roupa no rio e a punham a corar ou bebiam o café de Tavarede! E a visita continua. O Comissário, cheio de orgulho, não regateia os elogios.

         Comissário – “Como vê, a Exposição Internacional do Grão-Ducado de Tavarede é uma coisa notável em qualquer parte do mundo. Estão aqui representadas as mais poderosas nações, a França, a Inglaterra, a Alemanha, a China, o Japão, os diversos países da África, da América e da Oceania. A secção pecuária é vastíssima. Há animais de todas as espécies, tamanhos e feitios; mamíferos, insectos e batráquios, peixes e anfíbios, terrestres, aquáticos e aéreos, a aranha, a rã, a formiga, o elefante, o mosquito, o hipopótamo, a galinha, o bacalhau, o leão, o burro... em burros, então, é um sortido variadíssimo: Temo-los manhosos e medraços, espertos e teimosos, filósofos e tapados como um burro; variam na cor, no tamanho e na educação. Temos o burro preto, o burro branco, o burro malhado e o burro cor de burro quando foge; o burro pequenito como um burrito de mama, o burro de tamanho natural e o burro como umas casas; o burro que nem zurra, nem morde, nem dá coice; o burro que não morde, nem dá coice mas zurra; e o burro que zurra, que dá coice e que morde. Burricalmente falando, pode dizer-se que esta secção constitue para o nosso Grão-Ducado um verdadeiro sucesso burrical!”.

         Pelo que se vê, a nossa terra estava bem servida de burros. Só assim, aliás, se compreende o sucesso que eram as cavalhadas pelo S. João. Chegavam a ir “desde o rio até ao paço!”. Tiveram fama e deixaram muitas saudades!

         Depois da visita, passaram pela nossa fonte, beberam da fresca água e seguiram para o Paço, onde o conselho estava reunido.

         Quando chegaram, a Grã-Duquesa estava a receber a delegação dos três estados vizinhos: Brenha, Quiaios e Buarcos:

            Brenha     
           Comigo ninguém caçôa.
            Quiaios                                                 
            Pois comigo ninguém zomba.
           Buarcos 
           Sou um mar de levadia.
            Os três          
            São três estados d’arromba.

            Brenha  
            Sai dos meus quarenta fornos
            A broa mais afamada.
            Quiaios               
            Tenho chouriço de palmo.
            Buarcos               
            Eu tenho a raia escalada.

            Os três 
            Broa, lavadeiras,
            Pencas e pescada.
            Ranchos, ferraduras,
           Ai que trapalhada.

            Brenha                 
            E a pinga
            Que eu guardo nas minhas adegas
            Quiaios          
            Melhor o sumo cá do meco.
            Buarcos           
            Que o digam as minhas broégas.

         Satisfeito com o que viu, o brasileiro faz a entrega do donativo de dois mil contos e descreve como está maravilhado com a capital do Grão-Ducado, a cidade do Limonete, terra asseada e civilizada. As grandes avenidas, como a do Outeiro e a do Santo Aleixo; os excelentes carros eléctricos da Companhia Fadigas & Toquim, Limitada; os grandes e ricos estabelecimentos do Cascato e António Amaro; o elevador para o Alto de S. Martinho; os belos monumentos históricos como o Paço do Conde, o Arco do Caminho dos Canos e tantas outras maravilhas. E sugere que o donativo seja utilizado para a conclusão do caminho de ferro para o Cabo Mondego.

         Muito reconhecida, a Grã-Duquesa nomeia o cidadão Nespera Cajú “cidadão tavaredense honorário e benemérito”. E logo se resolve que nas fábricas do Senhor da Arieira seja fundida uma estátua, em barro, do tavaredense Manuel Pereira da Nespera, em que este figurará “montado num cavalo, a toda a brida, segurando numa das mãos as rédeas e na outra um ramo de limonete”. Significará o progresso de Tavarede a galope...

         
Estavam a tomar estas decisões quando chega o  embaixador da China. Vinha pedir uma explicação e fazer uma exigência. Acabara de receber da China a seguinte comunicação: “averiguou-se que uma peça representada em Tavarede, chamada Lúcia-Lima, produziu na Rússia extraordinária impressão. A China é nessa peça metida a ridículo e isto fez com que os bolchevistas russos fomentassem a guerra que lavra no Celeste Império para lá implantarem o bolchevismo. Os autores da escandalosa obra são um poeta que esteve na terra dos pretos – tem o nome do rei preto e um maestro muito conhecido pela sua batuta fina e leve”. Exigia, então, a entrega dos dois facínoras ou uma indemnização de 10 milhões de libras.

         Pois sim! Os tais facínoras, o poeta e o maestro, haviam fugido e sabem para onde? Para o Inferno! Foram para o Diabo! E o embaixador, com a companhia de Nespera Cajú, decidiram ir à sua procura.

            Coro – Diabitos e Bruxas   
            A nossa alegre,
            Risonha vida,
            É agradável,
            É divertida:
             Sobre os telhados
             Voar, voar;
             E numa eira
             Dançar, dançar.

             Neste baile do Sabá
             De bruxas e diabitos,
             Haja risadas macabras,
             Haja uivos, haja gritos,
             Haja guinchos de vampiros,
             De morcego e da serpente,
             Em homenagem infernal
             A Satam omnipotente.

             A nossa alegre,
             Risonha vida,
             É agradável,
             É divertida:
             Sobre os telhados
             Voar, voar;
             E numa eira
             Dançar, dançar.

            Satanaz 
            É bailar,
             Divertir
             Sem descansar.
             Que outra alma
             Há-de vir
              Há-de vir
             Aqui
             Aqui parar.

            Bruxas e Diabitos   
            Bailam as bruxas
             E Satanaz,
             Bom tocador,
             Ouvir-nos faz
             Do violão
             Estranho som:
             Dom, dom, dom, dom
             Dão, dão, dão, dão.

Entretanto, os fugitivos, julgando-se já esquecidos, agradecem a estadia no Inferno e regressam à terra do limonete. Vinham saudosos e, para matar saudades, foram dar uma volta pela velha aldeia, agora Grão-Ducado.

         No caminho encontram dois figurões: o João Borracho e o José Borrachão. Caminhavam cambaleando, como era normal neles, frequentadores ferrenhos das tabernas tavaredenses. Ouçamos um pouco da sua conversa.

 – “Cá p’ra mim, isto não tem conserto nem nas Caldas”.

 João – “Qual quê, isto há-de entrar nos eixos”.

  – “Não entra, que lhe digo eu. Isto está torto de todo e já não há nada capaz de o endireitar. Falsificam tudo, tudo”.

 João – “Nem o pão escapa. E o pão é uma coisa sagrada. O pão é o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

  – “E o vinho, amigo João? O vinho é ainda mais sagrado do que o pão, porque se o pão é o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o vinho é o sangue. E eu cá se fosse juiz mandava enforcar os falsificadores do vinho num candeeiro. (dá um tombo)”

 João – “Olhe lá esse candeeiro”.

– “Vê? Você pensa que eu estou bebado? Bebado, eu! O que estou é incomodado do estomago por causa da zurrapa da taberna. Aquilo não é vinho, é uma potreia. Mais de metade é água do poço. E depois fica a gente assim incomodada e aos tombos. Se fosse vinho, só do que dá a cepa, isso até faz endireitar os velhos”.

João – “Ó compadre, olhe que as falsificações de dinheiro também estão muito apuradas”.

– “Pois estão. Falsificam tudo, as notas graúdas e as moedas pequenas; olhe que há dez reis falsos, vinténs falsos, patacos falsos, meios tostões falsos e não falsificam três vinténs porque é moeda que não existe”.

João – “Estão ali à escuta. Vamo-nos andando”.

– “Vamos lá. Mas você não pense que eu estou bebado, ahn! Isto é da porcaria da água que misturam com o vinho”.

         Claro que era das misturas. E logo a seguir, os nossos amigos encontram uma outra figura importante na vida da aldeia. A taberna.

Domingo à noite
Na nossa aldeia
Esta igrejinha
É sempre cheia.
Aqui se adora
 O S. Martinho,
A quem dedicam
Preces de vinho.
Muitos devotos,
Finda a oração,
Jogam marimbo
E o chincalhão.

Neste escuro santuário,
À luz da velha candeia,
Gente há de tipo vário
Dos mais famosos d’aldeia.
Vê-se palrar o sapateiro
Junto dum cavador
Matreiro,
E um zanaga carpinteiro
Ao ferrador
Descreve uma caçada
D’alta monta.
E o bom do taberneiro ao balcão
Calcula e conta
 O que lhe rende o carrascão.



Usos e Costumes da Terra do Limonete - 10

Era uma quadra do ano que o povo de Tavarede sempre vivia com imenso agrado. Embora se não saiba desde quando, o Presépio era um espectáculo teatral que esgotava sempre as lotações das salas, mesmo ainda no tempo dos antigos ‘cardanhos’, pois há um apontamento que nos diz que, em tempos bastante distantes, e estamos a relatar um facto de 1865, se chegaram a representar seis Presépios ao mesmo tempo, o que vem confirmar aquele curioso escrito onde se refere que em Tavarede ‘as sociedades dramáticas vegetavam como tortulhos’.
No entanto, diga-se que não era só o teatro que atraía os tavaredenses. A Igreja igualmente comemorava o nascimento de Jesus com muito brilho. O principal acto religioso era a chamada ‘missa do galo’, que, abrilhantada a grande instrumental, por uma filarmónica contratada, era igualmente muito concorrida, como no ano de 1880 em que, apesar de estar ‘uma noite terrível e chuvosa’, encheu totalmente a nossa Igreja com fiéis e alguns curiosos desejosos de ouvir a actuação da Filarmónica Figueirense.
Sabemos, por exemplo, que o ‘velho’ Joaquim Águas era um fervoroso e entusiasta apreciador do Presépio, que fazia representar, com a participação de seus filhos e filhas, no teatro que havia instalado em sua casa, na Rua Direita, perto do Largo do Forno. A peça, naqueles tempos, tinha menos cenas, pelo que não preenchia totalmente o serão, o qual terminava então com uma comédia. Também encontrámos uma local, publicada na imprensa figueirense, referindo que, na noite de Natal de 1884, houve representação do Presépio mas, ‘no meio do espectáculo, abateu uma parte do soalho da casa, indo parar à loja alguns espectadores’.
No ano de 1894 um apontamento informa que “não é só n’esta cidade que a reproducção dos autos pastoris vem lembrar-nos antigas e saudosas recordações, que não esquecem nunca, e que o Nascimento do pequenino Deus é saudado pelo povo ingenuo... Em Tavarede, aldeia suburbana d’esta cidade e que é quasi um seu arrabalde, tambem o Menino Deus é festejado em dois presépios, não querendo nenhum d’elles ficar atraz na commemoração festiva que se prepara”.
Foi então que se encontrou a primeira referência à representação do ‘Auto dos Reis Magos’. Foi no teatro Bijou Tavaredense, que estava instalado no antigo teatro de Joaquim Águas. Embora no segundo volume do caderno ‘Tavarede - a terra de meus avós’ o caso já esteja contado, pela sua curiosidade vamos transcrever novamente a polémica que este espectáculo ocasionou.
“Temos gosado os differentes espectáculos que ultimamente se têm representado no theatro “Bijou Feminino”, cujo desempenho tem sido na verdade surprehendente
         O desempenho d’alguns papeis na representação dos Reis, por pessoas mal educadas… queremos dizer, por pessoas que não têm educação própria para o theatro, não nos pareceu… nem bom nem mau – antes pelo contrario, ainda que houve varias incorrecções exaggeradas, devidas com certeza à maneira como a peça s’acha escripta.
         Em todo o caso estas incorrecções foram resalvadas, devido à intelligencia dos desempenhantes, sobresahindo especialmente o papel de Rachel que foi distribuído a um desempenhante que conseguiu arrincar da plateia os mais avaporados applausos que reduplicaram com muito mais enthusiasmo quando arrincou um dos innocentes dos braços mortiféros de Luciféro que… ficou atrapalhado ao fazer d’aquella…
         Foi o melhor espectáculo de Reis que este anno se representou na Figueira, Carritos e Cova da Serpe”. (O Povo da Figueira)
         “Acabamos de ler uma correspondencia d’esta povoação para o “Povo da Figueira”, datada de 24 do corrente, que nos surpreendeu... por sabermos que n’esta pequena terra ha um rival do tão festejado Caracoles da Folha do Povo, tal é o chiste da graça avaporada com que o tal correspondente critica o espectaculo dos Reis no theatro Bijou Feminino
         Com .certeza certa que os desempenhantes eram mal educados... para o theatro; mas isso não é razão para critica, porque tambem o sr. correspondente está mal educado... para escrevinhador de correspondencias, em que a nossa lingua é torpemente assassinada, sem haver uma alma caridosa que a livre de tal verdugo, mandando-o para a Cova da Serpe, onde, com o seu fino espirito, póde representar algum papel de grande effeito, na peça de sensação - Judas... no deserto; ou então s’achar batatas para os Carritos.
         Em todo o caso, não me lembra que nenhum desempenhante arrincase coisa alguma, pois que a peça era desempenhada por pessoas do sexo feminino, que, se disseram mortiféros, conseguiram tambem justos applausos, mas não avaporados (que não sabemos o que seja, a não ser alguma subida de vapores que fazem ver as coisas d’este mundo em duplicado ou reduplicado, conforme a quantidade).
         Assim o sr. Pum (que pseudonymo tão avaporado!) com a sua intelligencia, não contente em criticar, o que certamente não viu (temos a certeza d’isso) e o que não percebe, não satisfeito em escavacar a pobre grammatica, que não tem culpa alguma da pouca intelligencia de qualquer quidem, que se arvora em critico... de si mesmo, ainda (naturalmente por estar avaporado) confunda Lucifér ou Luciféro, com o executor das ordens de Herodes, que, em vez de mandar degollar os innocentes, devia mandar cortar o pescoço a certos criticos... que nós conhecemos. Diz elle (correspondente) que viu (pelo telephone?) um desempenhante (que por sinal não estava avaporado) arrincar os mais avaporados (?) applausos que reduplicaram (por causa da avaporação) quando elle, aliás ella, arrincou um dos innocentes dos braços do capitão da guarda de Herodes a quem o sr. Pum, certamente por ignorancia, chama Lucifer! Oh! homem de Deus, olhasse-lhe para a cabeça e para os pés... a ver se assim o não confundia!
         Ora... abobora, sr. Pum.; trate d’outro officio por que esse não lhe serve; metta-se com a sua vida e deixe divertir os outros, muito embora digam calinadas; olhe para si antes de criticar os outros; ponha a mão na consciência (caso não esteja avaporada) e... durma, que isso é somno, e olhe que de pobres de espirito está cheio o reino dos ceus... e tambem Tavarede.

         Fique-se em paz”. (Gazeta da Figueira)

O Associativismo na Terra do Limonete - 66

         Igualmente a Direcção da  colectividade se associou ao êxito desta peça, tendo registado no seu relatório anual um agradecimento a todos os seus colaboradores. Esta peça exigiu dos seus Autores um trabalho exaustivo, só muito palidamente avaliado por quem de mais perto com eles tratava. Tanto os amadores antigos como os que agora entraram de novo, tiveram nesta peça ensejo de demonstrar a sua boa vontade ensaiando sem descanço, todas as noites, durante cerca de dois meses, para que a peça fosse apresentada na data marcada, o que, por várias razões, era muito importante. Foi um esforço fora do vulgar que a direcção muito sinceramente agradece e que torna os componentes da nossa já famosa secção dramática cada vez mais dignos do reconhecimento da assembleia geral.
         Na impossibilidade de registar aqui os nomes de todos os figurantes e demais os numerosos amigos que, de qualquer forma, prestaram o seu concurso, contribuindo assim para o êxito que “Chá de Limonete” obteve, seja-nos permitido citar o sr. José Nunes Medina que, tomando a seu cargo a parte musicada, foi um bom auxiliar do sr. José Ribeiro. Quando se pensou pôr em cena esta peça, foi posta de parte qualquer ideia de lucro; antes pelo contrário: contava-se em que a receita nunca chegaria a cobrir a elevada despesa que a mesma acarretaria. Porém, como se tratava duma peça educativa, com fundo histórico, que mostrava aos tavaredenses (e aos estranhos) muita coisa que desconheciam sobre a sua terra, resolveu-se ir para a frente, isto é, pô-la em cena, embora o resultado financeiro fosse mais que duvidoso”.
         Verificou-se, porém, que depois de 14 representações seguidas, uma das quais no Casino Peninsular, sempre com o maior agrado do público e as mais elogiosas, e algumas delas, honrosas referências, tanto à peça como ao desempenho, “Chá de Limonete” não só está pago mas ainda apresenta saldo.
        
         A colectividade, considerando o enorme interesse dos tavaredenses em conhecer a história da sua terra, mandou editar Chá de Limonete em livro. Tanto a imprensa como diversas entidades, prestaram públicos elogios ao trabalho. Transcrevemos, somente, uma das notas publicadas da imprensa diária.
                Mais e mais temos de nos convencer de que Portugal não é só Lisboa: está ante nós uma xícara do delicioso “Chá de Limonete”, que é uma lição muito para meditar…
         Em uma pequenina aldeia, lá para as bandas da Figueira da Foz, existe uma agremiação notável: deve ser pobre, pelo modesto centro onde actua e pela exiguidade das quotas dos seus sócios mas é rica de boa vontade e dedicação; é rica pelo fim que tem em vista e cumpre denodadamente – é a Sociedade de Instrução Tavaredense. A forma de cultura que adotou é a instrução pelo teatro. E assim instrui, educa e distrai.
         Mantem o seu grupo cénico mas, para bem cumprir o seu mandato, cada peça a representar é o pretexto para uma alegre e proveitosa lição, desde a explicação dos vocábulos pouco acessíveis aos menos cultos, até ao estudo da divergência de géneros e estilos, ao esclarecimento de épocas, usos e costumes.
         E há 30 anos que dura esta acção cultural!
         Pois foi ao serviço da simpática e prestimosa Sociedade Cultural de Tavarede que José da Silva Ribeiro colocou o seu mérito de escritor dando ao grupo cénico a fantasia “Chá de Limonete”. E aqui, com esse trabalho, surge outra lição – lição de aprumo, lição de moral. O “Chá de Limonete” prova aos nossos revisteiros, que tão frequentemente recorrem à obscenidade, que se pode fazer trabalho meritório, teatro movimentado, atraente, sem abandonar a linha de decoro, sem esquecer que a principal e mais alta missão da cena é educar e moralizar, que para criar a beleza não é necessário estadear no palco montes de carne nua.
         Às qualidades apontadas, o reconfortante “chá” junta ainda a alegria e a arte.
         Esta peça tem uma curiosa novidade: é uma proveitosa lição de história. Levezinha, que o público a quem se destinou não está ainda em condições de profundar muito. Poderíamos chamar-lhe revista histórica ou monografia teatralizada.
         Os sucessos, interessando o local, desde a sua antiquíssima origem, vão sendo referidos pelo “Velho Tavarede”, o respeitável ancião que tudo presenciou… E os quadros vão-se sucedendo, na mutação de revista e o público vai tomando conhecimento, a sorrir, do que foi a sua terra.
         Original e muito interessante.
         Mas o “Velho Tavarede” é tão velho, tão velho, que embora sabedor e de memória prodigiosa, já vai tendo lapsos, percalços de senilidade… E, por isso, e só por isso, se lhe teria varrido da ideia aquele convento das freirinhas da Esperança e o outro, o convento quinhentista e ainda, esquecimento de maior monta, o nome do nobre, douto e piedoso Dom Francisco de Mendanha, talvez o mais notável filho de Tavarede, que, depois de ter cursado letras em Paris, como ao regressar à pátria já tivesse falecido seu avô, renunciou ao Mundo procurando a paz do claustro. Mas aí, o douto cruzio, teve de exercer cargos de alta importância na sua Ordem.
         Facto interessante: foi D. Francisco de Mendanha quem assistiu como Cancelario da Universidade de Coimbra ao acto de “Mestre em Artes” do infeliz Rei D. António, Prior do Crato.
         Mas a mão já trémula do simpático Velho Tavarede deixaria cair de entre os outros o pergaminho onde em letras de oiro estava escrito o nome do culto e piedoso D. Francisco de Mendanha.
         Bastaria a cena do acto de “Mestre em Artes” de D. António, com a assistência do Cancelario D. Francisco de Mendanha, para dar um final grandioso a qualquer dos actos da sua fantasia.
         E poderia talvez influir com esse trabalho para se dar a uma rua de Tavarede o nome do nobilíssimo e notável padre cruzio D. Francisco de Mendanha.
         “Chá de Limonete”… Limonete, Lúcia-lima, erva-luísa, bela-luísa, doce-lima… Chá perfumado que o nosso paladar muito aprecia e que recomendamos como remédio já muito antigo contra as dores de estômago, especialmente as desses estômagos delicados que não conseguem digerir as revistas que por aí pululam…

         Muito digno de leitura por elucidativo e bem escrito, o prefácio.