sábado, 13 de agosto de 2011

GRUPO MUSICAL E DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE



Está a comemorar o seu primeiro centenário. Em tempos idos, esta coletividade teve uma actividade muito brilhante. Um grupo dramático de muito valor, e no qual se verificaram extraordinárias revelações, tanto de amadoras como de amadores, uma tuna considerada como a mais c ompleta e bem organizada do concelho, um conjunto musical, o Lúcia Lima Jazz, que rivalizou com os melhores conjuntos musicais da região, e uma actividade associativa digna de registo, com a sua escola noturna, ensino de música, ginástica e folclore.





Editou, agora, uma pequena brochura com a sua história. Julgo que valerá a pena adquirir a mesma, pois ajuda a associação e fica a conhecer-se um belo passado no campo do Associativismo.



Como recordação, vou copiar a reportagem da primeira saída que o grupo cénico fez para fora da região. Foi à Marinha Grande e já lá vão oitenta e tal anos...~



“Noticiou o “Figueirense” a ida do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, com a sua tuna e secção dramática, á laboriosa e sempre hospitaleira Marinha Grande. Todavia, o mesmo jornal não disse - a partir do principio de que não tinha procuração para o fazer - que o povo excursionista da minha terra regressou da Marinha cumulado de indeleveis gentilezas e cativantes provas de amizade.


Ora eu, como excursionista e na qualidade de rabiscador de noticias para o “Figueirense”, já de há muito devia ter cumprido a obrigação de dizer aos meus prezados leitores, embora ligeiramente, o que foram esses momentos de verdadeira apoteose para a colectividade tavaredense. Mas, por falta de vagar, e ainda por uma simpática constipação que me converteu em um dos mais impacientes escritores..., eu tenho imperdoavelmente cometido essa falta, que certamente nesta altura a Consciencia me relevará.

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A excursão á Marinha, leitor amigo, levada a efeito há proximo de 15 dias, tinha em mira duas coisas: - proporcionar aos socios da simpática colectividade que na minha terra vive do povo e para o povo, alguns momentos de alegre e feliz passa-tempo espiritual; e dar ali dois espectaculos para adquirir fundos de receita com que, conjunctamente com outros que da mesma honesta fórma noutras partes tem auferido, possa ir amortizando a sua dívida - que não é pequena, mas que já foi maior, pois ainda não há um ano que inaugurou a sua nova séde, que é vistosa e decente, e já amortizou proximo de 10 contos.


E tudo se conseguiu na Marinha Grande. Tudo. Os tavaredenses souberam ser tavaredenses, pois se conduziram sempre com garbo e com aprumo, motivo porque colheram loiros para si e para a terra que orgulhosamente representavam.

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À chegada da excursão - sábado á noite, 10 - a tuna, sob a proficiente direcção do amigo sr. Pinto d’Almeida, executou uma “marcha” de saudação á Marinha. Percorreu as ruas principais da vila, no meio das maiores aclamações, sempre acompanhada de muito povo conduzindo archotes acêsos. Deu ingresso na benemérita e simpática colectividade dos Bombeiros Voluntários, onde lhe foram dadas as boas vindas, sendo-lhe servido um “copo d’água”, após o que se dirigiu ao teatro “Stephens”, tendo pouco depois começado o espectaculo, que agradou plenamente.
António d’Oliveira Lopes apresentou no palco, antes desse espectaculo, todos os amadores dramaticos e o regente da tuna da sua terra, e um dos mesmos amadores leu uma saudação ao povo marinhense.


Seguiu-se depois o espectaculo, que felizmente decorreu á medida dos desejos de todos que nele tomaram parte. Houve chamadas especiais e muitas aclamações. Alguem me disse:- “O espectaculo de hoje foi o melhor réclame para o de ámanhã. Vão ter uma casa á cunha, com certeza”. E, digo-o com satisfação, assim sucedeu, pois nunca o teatro Stephens deu uma verba tão bôa, tão rechonchuda como no domingo, 11 de Outubro, em que os humildes amadores dramaticos e musicaes da minha colectividade viram coroada de exito toda a sua espectativa, dando por abençoado o tempo que ali fôram.


Chegada a hora do espectaculo d’este dia, uma comissão de cavalheiros pediu encarecidamente que alterassemos a ordem do programa e representassemos o drama da vespera, ao que gostosamente acedemos. A tuna, fazendo a sua apresentação no palco, tocou várias peças, constituindo um acto. Seguiu-se “O Erro Judicial”, em 3 actos, e a terminar a hilariante operêta em 1 acto “Herança do 103”, ornada de 7 lindos numeros de musica, tudo tendo agradado plenamente. Houve tambem um grande pedido, no sentido de a excursão se prolongar por mais um dia, afim de dar outro espectaculo - que pela certa redundava em nova enchente. Todavia, não poude ser, em atenção aos compromissos morais de cada um.

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A tuna, com todos os demais tavaredenses, cumprimentou, durante o dia de domingo, a Camara Municipal, todas as colectividades e algumas entidades marinhenses, tendo sido recebidos duma maneira verdadeiramente cavalheiresca - apanágio do povo da laboriosa Marinha Grande. Em todas as colectividades houve trocas de inequivocas provas de franca e sincera cordealidade para de futuro.


Aos Bombeiros Voluntarios, em cuja séde formava aprumadamente uma pleiade de benemeritos que tem por diviza dar a “vida por vida”, foi pela Direcção do Grupo Musical Tavaredense oferecida uma fotografia da sua Tuna, com amavel dedicatoria. Não podemos explicar o que foi esse momento - dos mais solénes e imponentes que se gosaram naquela viagem feliz que jámais se apagará dos espíritos de todos os rapazes do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense. O brioso comandante dos Bombeiros, meu amigo sr. Joaquim de Carvalho, aceitou, vizivelmente comovido, essa singela oferta, que perpetúa a data em que um punhado de tavaredenses soube ir nobremente apertar, cada vez mais fortemente ainda, o laço da antiga amizade que une a Marinha Grande á Figueira da Foz. Ora Tavarêde é uma ramificação das mais vitalicias do concelho da Figueira da Foz e não a desprestigiou. Houve uma troca de abraços, muitos abraços, emquanto os “urrhás” se confundiram com as notas vibrantes do Hino do Grupo Musical.

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No domingo, em pleno palco do teatro José Stephens, que funciona por conta dos Bombeiros, foi esta colectividade nomeada socia honorária do Grupo Musical Tavaredense, como preito de gratidão e respeito por tão filantropica e benemerita instituição marinhense, a quem a excursão deve, em parte, os maiores loiros e os maiores triunfos ali alcançados. Pois a Direcção dos Bombeiros Voluntários, em face disto, quiz provar-nos ainda, e doutra fórma, a sua maior estima, a sua maior admiração. Ofereceu-nos, tambem em pleno palco, uma bela fotografia do seu corpo activo e respectiva direcção, com penhorante dedicatória.


A imensa massa de espectadores irrompe então em delirantes aclamações e a comoção dos tavaredenses não consente que doutra fórma se agradeça aquele nobre gésto dos beneméritos marinhenses - a não ser com uns abraços bem fortes, bem cordeaes - com uns abraços bem significativos.

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Em conclusão, leitor amigo. Se esta noticia não foi por mim dada ha mais tempo, e duma fórma mais completa, é porque o tempo me escasseiou para o fazer. Mas como vale mais tarde do que nunca, eis o motivo porque eu não quiz, embora extemporanea e pálidamente, contarte algo do que os meus olhos viram na feliz excursão do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense - a que me honro de pertencer desde ha 14 anos, quando a ajudei a fundar.

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Singular coincidencia. Um méro acaso disse-nos na Marinha, na segunda-feira, 12, que fazia anos o nosso regente - o amigo sr. Eduardo Pinto d’Almeida. Imediatamente a Direcção do Grupo, representada por João d’Oliveira, José Francisco da Silva e António Medina, por António Lopes e ainda pelo despretencioso autor destas linhas, da assembleia geral do mesmo Grupo, comprou numa fabrica um bonito objecto de vidro a que fez gravar a seguinte dedicatória: -”Ao maestro Pinto d’Almeida, no dia do seu aniversário natalicio - 12-X-925 - oferece a Direcção do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense”, que lhe foi oferecida, bem como uma batuta artística, na séde do mesmo Grupo, em Tavarêde, sob a influencia dos loiros colhidos na Marinha Grande, que tambem foi fartamente aclamada.


O amigo Pinto d’Almeida, agradeceu comovido a amavel lembrança do Grupo Musical, que ele acompanhou com todo o gosto para a Marinha e que acompanhará com toda a satisfação seja para onde fôr. Porque - disse - a companhia dos rapazes do Grupo Musical honram seja quem fôr, demais nos seus casos.

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Muito propositadamente, guardei para o fim os especiaes agradecimentos do Grupo Musical Tavaredense, de quem tenho procuração para o fazer, aos srs. Joaquim Carvalho e Luiz António Faria, da Marinha, pela fórma incansavel e deveras penhorante como ali auxiliaram a excursão da minha terra. Eles foram, sem desprimor para ninguem, os melhores cooperadores do feliz sucesso obtido pelos tavaredenses na sua linda terra, encantadora e hospitaleira.
Obrigado, pois, amigos Joaquim Carvalho e Luiz Faria, obrigado. E creiam que a minha colectividade jámais esquecerá os vossos preciosos favores. E obrigado, tambem ao sr. Guilherme Roldão, que na sua colossal fabrica de vidros quiz mimozear todos os excursionistas com lembranças da Marinha Grande. Esses agradecimentos ainda são extensivos a António Fonte, a Alvaro Roldão, e seu cunhado Barros, a José Barosa e ao bom Carlos d’Almeida Galo, etc. - todos amigos de ha muitos anos e que na sua terra em muito nos auxiliaram tambem”.



O Figueirense, Outubro de 1925.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NOTÍCIAS CURIOSAS - MAIS DUAS

Estava hoje a folhear o jornal 'O Conimbricense' do ano de 1868, quando, no dia 25 de Abril daquele ano, deparei com duas notícias que achei muito interessantes. Não dizendo respeito à nossa terra natal, são de uma terra vizinha e amiga, Alhadas.



Portanto, aqui vão os dois recortes:



Vive no lugar das Alhadas de Baixo, concelho da Figueira da Foz, uma mulher de nome Engrácia, mais conhecida por Engrácia do Roque, na avançada idade de 107 para 108 anos. Casou com José Roque, tendo então 30 anos; foi casada mais de 30 e está viúva há 40.



Nunca teve filhos, nem tomou remédio de botica. Ainda vê; está em seu perfeito juizo; anda por sua casa; e há um ano ainda ia com o seu sacho apanhar batatas.



Ela mesmo fez a sua mortalha há mais de 30 anos e a põe ao sol de tempo em tempo, para lhe evitar a traça.



Nasceu em 1761 e, portanto, a sua longa vida tem abrangido: 16 anos do reinado de D. José I; o reinado de D. Maria I; a regência e reinado de D. João VI; a regência de D. Isabel Maria; o reinado de D. Pedro IV; a regência de D. Miguel por sua sobrinha; o governo da Junta Provisória do Porto; a regência da ilha Terceira em nome da Rainha; a regência do Duque de Bragança na menoridade de sua filha; o reinado de D. Maria II; a regência de D. Fernando; o reinado de D. Pedro V; e seis anos e meio do reinado de D. Luís I.



Esta Engrácia Roque promete, com o auxílio divino, igualar a Ana Maria Oliveira, que faleceu no dia 20 de Janeiro de 1744, na Rua da Adissa, freguesia de S. Pedro de Alfama, em Lisboa, na idade de 112 anos.


A outra notícia tem o título de 'coisa notável':



No lugar das Alhadas de Cima, concelho da Figueira da Foz, vive Hermenegildo Gomes, cego de há 10 para 12 anos.



No domingo de Páscoa, tendo ido à festa da Ressurreição, ao voltar para casa, se lhe queixou a mulher de que um rapaz lhe tinha desobedecido, e que por isso o devia castigar.



O dito Hermenegildo disse à mulher que lhe desse a rapaz à mão. Ela assim fez. E quando ele lhe puxava uma orelha, escapou-lhe a mão e veio dar com ela sobre um dos seus próprios olhos. Passado algum tempo saíu à rua e com a maior admiração notou que já via pelo olho em que tinha batido. Ele que até então nada via, agora conhece já as pessoas que se lhe apresentam.



Sabemos este facto de pessoa fidedigna, que conhecia o dito Hermenegildo quando cego e agora lhe falou quando já com vista.



Nota: Limitei-me a copiar e nada mais!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CULTURA DE ESPÍRITO


É por demais sabido, e, por isso, não gera controvérsia de qualquer espécie, que a cultura é o predicado que mais distingue os homens. E sabido é também, que os povos cultos, são, por via de regra, povos equilibrados, pacíficos, preocupando-se especialmente do seu bem-estar e das suas comodidades.


Hoje em dia, os problemas sociais são a pedra de toque dos povos civilizados. Variados como são, evoluindo a cada passo, trancendentes uns, mais simples outros, mas todos a solicitar urgente e sábia solução – precisam os homens a quem está cometida a tarefa de os resolver, de estarem apetrechados de uma cultura profunda. Superficialidades hoje não marcam. O progresso não se compadece com elas, porque elas só complicam os problemas, e dão lugar à anarquia que tudo destrói, quando o que se precisa é construir, solidamente a obra do futuro, donde irradie luz para todas as criaturas – luz que seja pão, que seja conforto, que seja alegria, que seja ventura.


Os problemas que assoberbam o mundo neste momento, são variados e dificieis. Chega a pensar-se, às vezes, que eles transcendem a inteligência do homem.


Ora, sendo assim, como poderão os povos incultos dar-lhes solução que se traduza em benefícios gerais? Ora sendo assim, como está provadíssimo que é, como podem os povos incultos apreender-lhes sequer os enunciados e tirar deles os proveitos que lhes oferecem?


Não. Os povos de cultura precária, não estão à altura da missão que a vida actual impõe. Neste mar alto de civilização que se vive hoje, os povos de pouca cultura, arriscam-se a ficar para trás, a serem espezinhados e olhados desprezivelmente.


Só a cultura torna os povos grandes, respeitados, admirados. Só a cultura abre aos povos amplas portas que vão dar aos palácios da ventura, do amor, da justiça – tudo isto absolutamente preciso ao homem, além do pão, que é a sua primeira necessidade, como afirmava Danton.


Estas consideraçãos vêm a propósito de uma récita que o grupo de Tavarede, veio dar à minha terra, num dos dias da semana passada. Como se sabe, o grupo é dirigido pelo valoroso democrata e jornalista José Ribeiro, que com a sua inquebrantável perseverança, tem marcado uma posição de relevo na sua terra, no meio figueirense e em muitas terras do país que conhecem a acção benemerente do grupo e bem assim a sua acção sempre norteada no caminho do bem fazer e, digamos também, a esplêndida exibição com que se apresenta, fazendo sombra a muitos conjuntos chamados profissionais.


A peça que o grupo cénico Tavaredense veio representar, era uma peça de tese, de fundo, focando um problema delicadíssimo, qual o da situação de certos filhos atirados para o Mundo, mercê das leviandades dos pais que se esquecem de que eles “Serão homens amanhã” – título da peça. José Ribeiro falou. Em cena aberta e no meio do espectáculo, ao agradecer a oferta de umas fitas coloridas que foram oferecidas ao grupo para se juntarem às tantas que cobrem o seu estandarte, disse palavras correctas, entusiásticas como sempre, e, como sempre, mostrando um conhecimento profundo dos assuntos do seu teatro, dos homens, dos acontecimentos.


A certa altura proferiu este conceito: “Têm-se construído muitos estádios municipais, mas até hoje, desconhece-se que se tenha construído um Teatro Municipal, no país”. Conceito lapidar, porque é infelizmente verdadeiro e porque põe em foco um problema de suma importância – o da cultura do espírito do povo.


José Ribeiro não quis desdenhar, certamente, da cultura física, pois não desconhece o quanto ela é necessária ao homem, mas quis antes que entre uma e outra haja um justo equilíbrio e se siga a regra que fixou o velho Juvenal na sua célebre frase . “Mens sana in corpore sano”.


De facto, em Portugal, o problema da cultura está errado – errado porque a cultura física que se ministra é atrabiliária, errado porque essa mesma cultura física, sendo feita apenas à base da força muscular desordenada, tapa as portas à cultura do espírito, quando a sua acção era abrir-lhas amplamente.


O Teatro é realmente um meio muito profícuo de desenvolver entre o povo a cultura do espírito, que tão precisa lhe é, pois ela é a base de todas as virtudes, nela assenta toda a sã moral e dela usufrui os prazeres e encantos da vida – que nem só de pão vive o homem. O teatro instrui, o teatro educa, o teatro é escola magnifica onde o homem purifica os seus sentimentos, onde aprende a ser digno, a não ser egoísta, a fazer o bem, a solidarizar-se com as desventuras do seu semelhante, ou a compartilhar, igualmente, das suas alegrias, pelas relações de amizade que estabelece.


A ideia, pois, da criação de um – digo – de vários teatros municipais no país, seria um impulso dado para a cultura espiritual do povo e, consequentemente, para o progresso da Nação e completaria a obra da criação dos estádios de desportos – duas forças que, conjugadas, redundariam nos mais benéficos resultados. Que bela ideia! Fazemos votos, os mais acalorados, por que tenha plena realização um dia, em Portugal.



(República - 27.09.1954)

De Casa de Cultura a... Taberna! (14)

(continuação)


“O Dever”, em 16 de Dezembro:

“ Em seu número de 3 de Dezembro, o nosso prezado colega local “O Figueirense” assentou tôdas as suas baterias contra O Dever mas, a metralha não correspondeu ao barulho. De certo, no desejo de nos maltratar, utilizou mais literatura do que argumentos, não se esquecendo de tudo aromatizar com o apreciado limonete. De todo o artigo, a única coisa que poderia parecer um argumento contra a nossa tese: - que a casa do antigo Grémio de Tavarede não foi prometida a ninguém; é o número dois da declaração que se diz jurada, sob palavra de honra, atribuida a um senhor Domingos Afonso Condado.


Mas trata-se duma declaração tardia, e por isso, desenxabida como fruto de outono. Não acreditamos no seu valor objectivo pela simples razão de que se “O Figueirense” a considerasse boa, teria feito uso dela na discussão anterior. Se tinha e julgava bom um tal testemunho porque o não apresentou em lugar de falar na promessa de apoio? A questão, na imprensa, está julgada e foi julgada com as palavras, o testemunho do próprio “O Figueirense”. “O Figueirense” disse a verdade quando referiu a promessa de apoio, mas falta á verdade quando fala de quaisquer outros compromissos tomados.


Não vale, porém, a pena gastar tempo com a questão. A palavra do sr. Bispo, que ninguém medianamente bem constituído sob o aspecto psicológico, se atreverá a pôr em dúvida, tem mais valor objectivo do que a do estudante Domingos. Ora S. Exª. Revmª. vai dentro em breve, dizer aos informadores de “O Figueirense” que não prometeu a casa nem fez outras promessas formais, além da sua boa vontade em atender os pedidos formulados; por isso mesmo que nunca mentiu nem faltou aos seus compromissos. O resto do artigo é um enrêdo de ilogicidades, chicanices e de ridículo.


É ilógico atribuir-se-nos indevido isolamento de frases; fomos tão corretos que numeramos as linhas e limitamo-nos a destacar os argumentos de referências estranhas ao assunto ou magras literaturas. Fizemos o que ensinam os compêndios da lógica. Ainda ilógico é pretender-se concluir da carta do sr. Bispo, publicada pelo “O Figueirense”, que S. Exª. fez qualquer promessa. Diz essa carta: “Cª. 10-VII-938 Exmo. Sr. Recebi a carta de V.Exª. Como estamos em deficit e grande, depois de ouvir o Conselho Diocesano, resolvi não fazer obras por falta de recursos, o que muito me penaliza. Se houver necessidade de proceder à caiação, V.Exª. terá a bondade de prevenir o sr. Vice-Reitor do Seminário. Os membros do Conselho inclinam-se à venda do prédio por entenderem que não é possível começar com novas despesas. De V.Exª. Mt. Attº e Obgd. a) + António, B. de Coimbra “

Onde está formulada explicita um implicitamente qualquer promessa? Não há promessa, há só uma informação. Mais uma vez é ilógico, e desta vez irrisoriamente ilógico: a pretensão de fazer crer que a promessa de apoio devia consistir na promessa da casa, por não ter sido feito outro pedido senão a cedência da casa. Não, não queira emendar porque não tem emenda, nem queira iludir ninguém. A promessa de apoio exclui totalmente a da casa. Quando se promete apoio é porque se não promete ou mesmo se não pode dispôr sòsinho, do que outrem pede.


O resto é chicana de argumentador perdido, que não merece discussão. Não está em causa nem concordâncias, nem promessa de obras - que não foi feita - nem interpretação de textos biblicos, nem nomeação de párocos nem... tantas outras fanfarronices. Mas é altamente ridículo que se corrija o período de 15 dias para 11, tão falso como o primeiro, pois foi um dos membros da falada Comissão Organizadora da Casa do Povo de Tavarede - que ainda não foi nomeada por quem de direito, e por isso não existe - quem deu lugar à nossa notícia de 30 de Setembro, indo barafustar com o seu pároco em Tavarede por causa da venda da casa. Riam-se povos...


Quem deu origem á nossa notícia de 30 de Setembro, aliás inexacta, foi um membro da decantada Comissão; é ridículo, é hilariante que o informador de “O Figueirense” nos venha impingir o êrro grosseiro de que foi a nossa notícia quem deu a certeza da venda á tal imaginada Comissão!... É de estôfo!... E que ridículo não é falar duma comissão que carece totalmente de nomeação ou ao menos de confirmação de quem de direito!... Presunção e água benta!... E é tolice chapada discretear sôbre a doação do sr. Pe. Manuel Vicente ou a situação da “Predial Económica”. As nossas informações são exactas e baseiam-se em documentos públicos arquivados na Administração do Concelho, Cartório do sr. Dr. Pinho, e outras repartições oficiais. Esses documentos valem um pouco mais do que qualquer informação de esquina.


Da “Predial” foi fundador e principal cotista o senhor Presidente do Conselho, a cuja honestidade tôda a gente presta homenagem. Mas “O Figueirense” quere ver-nos esmagados de baixo da sua metralha literária embalsamada de limonete. Gostosamente lhe fazemos a vontade. Declaramos publicamente não dispor de armas equivalentes para guerrear com o colega amigo: ilogicidade, chicanice e redícula insensatez. Só nos sabemos bater com quem produz argumentos e a tempo e horas. Abandonamos o campo e não voltaremos”.

Novo comunicado em “O Figueirense”, de 17 de Dezembro:

“ No jornal de V... de 3 do corrente, vem um “Comunicado” em que o sr. Belarmino Pedro, que o subscreve, pretende atacar-me, talvez mesmo expôr-me à irrisão e execração do público, com uma fertil produção de dislates e inexactidões, para o que tem muito engenho. De princípio pensei levá-lo à barra do Tribunal para ali provar certas afirmações injuriosas, mas, lembrado de que a minha atitude poderia ser tomada à conta de falta de caridade, desisti, porque, enfim, um padre deve ser generoso. Passou-me ainda pela mente negar-lhe resposta, mas isso poderia ser considerado pusilanimidade ou cobardia da minha parte, de forma que decidi-me a responder.


É o que venho fazer, esperando da lealdade de V... o subido obséquio de inserir já no próximo número, esta carta. Começa S. Senhoria por dizer “que em tempos bem recentes” o tratei por amigo e lhe fiz “lisongeiras referências” mas desde que se “intrometeu a pugnar pela criação da Casa do Povo de Tavarede” na persuasão de que “prestava à sua freguesia (êle é de Almalaguês, mas os tavaredenses que lhe agradeçam tão generoso interesse), um bom serviço”, tenho mostrado por todos os meios a minha boa vontade contra êle, que se confessa “obscuro paroquiano”: (obscurecido deveria dizer).


Antes de mais seria interessante saber-se a data recente em que o tratei por amigo e fiz as tais referências, e a data remota ou recente em que êle começou a pugnar pela Casa do Povo, para depois poder alguém averiguar da verdade das suas alegações. Parece-me bem que falta à verdade, pois o tratamento a que se refere é posterior ao início do seu entusiásmo pela Casa do Povo. Assim é que está certo e não minta que é feio. De resto, não sei por que meios empreguei a boa vontade contra êle, mas êle lá o sabe e o dirá. Diz que o insultei “numa epístola destrambelhada” mas não vejo o insulto. Estará êle no facto de lhe haver exigido em determinado praso e por escrito a entrega das chaves do Grémio que, havia mêses, tinha em seu poder, visto haver-lhas pedido anteriormente em cartão amável (com o sr. B.P. é necessário usar de todas as amabilidades), mas debalde?


Mas isso não foi um insulto foi a reprovação da pouca consideração que lhe mereceu o meu pedido, aliás justificado no mesmo cartão. Diz depois que “teci intrigas à sua volta e recorri à calunia”. (Olhe que isto é matéria criminal, ouviu?) e não sem em quê. Seria por ter afirmado que do gabinete da direcção do Grémio tinham desaparecido os volumes duma pequena biblioteca e os próprios livros da sociedade justamente no período de cinco mêses em que as chaves estiveram na sua mão? Mas eu não calunio, digo simplesmente a verdade. Lá que êles desapareceram, é certo; se foi o sr. B.P. ou qualquer mafarrico não o afirmei, não sei, e nem me interessa, porque tal assunto poderá interessar, quanto muito, aos... colecionadores de livros.


Afirma depois o sr. B.P. que eu “na mais ignóbil cópula com o insultador” do meu colega Cruz Diniz, andei a pescar pelos saguões anti-clericais um acervo de falsidades, (olhe que êste período envolve matéria criminal, ouviu?). Até parece que o sr. B.P. já conhece os caminhos de que fala, mas não me recordo, confesso, de ter percorrido tais saguões de mãos dadas com quem quer que seja. Decerto o sr. B.P. quere referir-se a um individuo a quem, por sinal, avisou amigavelmente para que não prosseguisse nas obras da antiga casa do Grémio porque... a casa seria expropriada (talvez à ordem do sr. B.P.) individuo que corroborou certas afirmações produzidas por outros individuos (que não são anti-clericais, note bem!) e se encontram reduzidas a escrito... lude irae!!!


Mas olhe o sr. B.P. se o individuo é ou não insultador de padres, ignoro-o como ignoro que seja anti-clerical. A mim nunca me insultou. Mas deixe-me dizer-lhe que há anti-clericais mais honestos que muitos católicos que batem do peito e não será de estranhar que êles insultem os padres (estão no seu papel, são anti-clericais) o que me causa admiração é que haja clericais que levem a sua audácia ao ponto de insultarem... os próprios Bispos. É verdade que está concluido um processo contra o sr. B.P. e seu companheiro de feitos valerosos, ordenado pelo Exmo. Prelado da Diocese, não para premiar os seus serviços à causa católica, é certo, mas para averiguar do catolicismo do sr. B.P. e camarada, que, um dia, numa conversa telefónica para o Seminário, se estendeu razoavelmente, sem saber que falava com o Prelado da Diocese.


Mas vamos adiante. Quanto a pedrinhas no bolso da batina é coisa que não uso; trago comigo o terço que reso habitualmente por aquêles também que andam fora da graça de Deus, que de resto eu não sou da igualha do sr. B.P., compreende? Depois o sr. B.P. restabelece a verdade dos factos, àcêrca do desaparecimento da Conferência de pobres, conta como entrou para ela, como chegou a presidente, quanto fez, os seus sacrifícios, perigos, trabalhos, a sua prosperidade, etc... etc... só não fala nos relatórios que deixou de fazer e enviar ao conselho particular da Figueira por ocasião das respectivas reuniões. E aproveita a descrição para elogiar o sr. Pe. Cruz Diniz e prestar homenagem ao meu antecessor sr. Pe. Bastos, embora algumas vezes tivesse, com um e outro, os seus desaguizados.


Mas, enfim, folgo com isso porque imaginei que os padres eram todos bandidos e canalhas, a começar por mim e a acabar nos meus predecessores em Tavarede. Ainda bem que me enganei! Adeante faz referências a um individuo com quem ando de “testo e pucarinho” e na verdade sempre vivi com êle em boas relações. É o sr. José Maria de Carvalho, não é verdade? Mas o sr. B.P. também viveu com êle em boas relações, pelo menos até há pouco tempo antes da publicação em “O Dever” daquele célebre conto De Cordeiro e Lobo, em que o sr. B.P., aliás iludindo a boa fé do chefe da redacção, dá largas aos seus instintos, fazendo por sinal, referências desprimorosas ao antigo patrão daquêle senhor e, finalmente, depois de haver dito a quem quiz que aquilo era uma carapuça para o Zé Maria, veio num dos números seguintes do mesmo jornal, e iludindo, mais uma vez, a censura da redacção, declarar que o referido conto fôra transcrito do “Diário de Notícias” e se referia a um facto ocorrido na capital. Recorda-se sr. B.P. ou estarei eu a tecer intrigas à sua volta?


Voltemos porém ao fio da meada. A Conferência foi-se abaixo porque, enfim o sr. B.P. não conseguiu, apesar de todos os seus esforços, apaziguar os confrades; (nem juntar à sua volta ao menos mais dois? - como sabe três chegam para haver reuniões regulares). Estava desfalcada dos seus elementos mais activos, como diz, e também de dinheiro, segundo me consta, ficando a dever certa quantia (que suponho já foi saldada, não sei por quem) numa casa de comércio do lugar. Afirma ainda que com a minha nomeação luziu no seu espírito uma nova esperança convencido de que eu empenharia o meu esfôrço “para reanimar os organismos católicos adormecidos” (adormecidos ou mortos?, pergunto eu) e diz que se enganou porque, para tal não arrisquei um passo.


Mas... valha-nos Deus, ao menos diga a verdade tôda. Diga que procurei e consegui reanimar a associação do Coração de Jesus que em 1928, após a trágica morte do saudoso vigário Revº. Vicente, fundei no período em que estive encarregado daquela freguesia, e a qual conta já noventa associados inscritos. Diga sr. B.P., diga que até o sr. e sua esposa, embora não fôssem dos primeiros, mas quási dos últimos se inscreveram nesta associação que eu considero absolutamente necessária para a obra de recristianização duma freguesia, assim os católicos a compreendessem e acarinhassem... Mas ela vai singrando... apesar dos amúos de certas pessoas.


Diga também que um dia - talvez um ano após a minha posse - o senhor me procurou na secretaria para me dizer que tinha lá os livros da conferência e os nomes dos confrades e que m’os traria para eu fazer uma exortação a todos, à hora da missa paroquial comprometendo-se a apresentá-los no domingo imediato para eu tratar de reanimar a Conferência e... ainda hoje aguardo que o senhor apareça a desempenhar-se do que combinámos. Recorda-se sr. B.P.? recorda-se disto? veja lá se puxa pela memória - que até me disse que a Conferência estava a dever (quanto, não sei precisar) numa loja do lugar e eu lhe disse que isso era uma vergonha? Depois o sr. B.P. afirma com entono que logo de entrada as minhas preocupações foram a venda da casa do Grémio a o magro rendimento da freguesia.


Não minta, sr. B.P., que é muito feio mentir. O senhor sabe perfeitamente que só um ano depois da minha nomeação é que, por escrito e oficialmente, expuz aos meus superiores o estado em que se encontrava a casa e o senhor sabe e conhece a resposta. Recorda-se sr. B.P. que até por sinal saíu da Igreja quando eu, à leitura do meu ofício e subsequente resposta acrescentei uns ligeiros comentários?


Quanto ao rendimento da freguesia o sr. B.P. chama-lhe magro e eu apelido-o de gordo. Quer vêr? O sr. Pe. Vicente, de saudosa memória, se não fôra o quintal a cuja cultura se entregava teria morrido de fome. O sr Pe. Cruz Diniz, para poder sustentar-se teve de dedicar-se ao magistério no então Colégio-liceu. O sr. Pe. Bastos, se não fôra a prègação a que se entregava, teria de mendigar e saíu da freguesia empenhando-se até às orelhas! no curto espaço dum ano que lá esteve. Foi então que o Exmo. Prelado, informado do gordo rendimento da freguesia, houve por bem anexá-la a Buarcos.


E já não quero referir-me aos peditórios anuais para o Seminário, Boa Imprensa, Missões, Clérigos, etc... e rendimento da bula duma freguesia que tem mais de seiscentos fogos - tão irrisórios eles são! Mas o sr. B.P. só viu em mim preocupações de dinheiro... Seria por eu não ter anuido aos seus desejos quando dias antes, no cartório paroquial da Figueira me pediu para fazer gratuitamente o casamento - o 1º. após a minha entrada em Tavarede - dum servo lá da casa e cujos padrinhos eram o pai e o sôgro do sr. B.P., pessoas, aliás abastadas, a quem competiam as despezas? Recorda-se sr. B.P.? Pois eu lembro-me muito bem, que no domingo imediato, lá estavam todos de automóvel à porta da Igreja.


Não, sr. B.P., nunca me deixei cegar pelo dinheiro, mas também não quero ser iludido por cantos de sereia. A quem não pode pagar, presto da melhor vontade os meus serviços, gratuitamente; êsse é o meu dever e se quizer provas disso peça-as. De resto, o sr. B.P. o tem grandes razões de queixa, porquanto, há um ano, apadrinhou com sua esposa o batismo dum pequeno, filho de gente pobre, e nada pagou, enquanto o pai entrava com a multa de 5$00 para o Seminário (!)... Recorda-se, sr. B.P.?


E vamos a ver se consigo levar esta cruz ao fim... Diz o sr. B.P. que não fez parte da última direcção do Grémio e... respira fundo. Mas eu não o acusei disso, simplesmente escrevi que não podia dar o meu apoio “a individuos que tendo responsabilidades a dentro (está assim no original) do extinto Grémio não dispuzeram de influência bastante, nem arriscaram um centavo para evitar a sua ruína, ao menos conseguindo a ligação da luz”, etc. Ora o sr. B.P. e seu parente eram lá da casa, foram apaixonados construtores da obra, devotados e infatigáveis organizadores, influentes propagandistas e exerceram, por isso mesmo, a dentro do Grémio, grande actividade.


Não, sr. B.P., não deturpe a ideia expressa nas minhas palavras. Não fuja, que o senhor tem também responsabilidades na sua ruína; foi dos poucos que se evidenciaram e também foi dos poucos que pensaram em reorganizá-lo, depois de esfacelado, quiçá para... gozar a corôa de louros. Mas o que não é honesto é que o senhor pretenda envolver no sarilho e ajustar o remoque que a si e ao seu primo dirigi, a outras personalidades que... não foram do Grémio nem da Conferência. Não; não destaque o último período do contexto. Leia tudo, pois não é necessário ser muito esperto para perceber onde e a quem pretendi dirigir-me.


De resto, não continue a falar em comissão organizadora da Casa do Povo que isso é coisa que não existe, creia, para que a sua expressão: isto significa que os católicos de Tavarede são todos uns sarrafaçais, indignos de ter à sua frente um pároco tão ilustre não vá recair, como de recochete, sôbre pessoas que deviam merecer-lhe tôda a consideração. Com tal caso, seria a si, e não a mim que deviam agradecer a amabilidade... inventada pelo sr. B.P. Não fale no sr. Conego que levou a sua lealdade ao ponto de procurar-me para saber qual a minha opinião sôbre a ida dos senhores ao sr. Bispo a quem iria apresentá-los, e ao qual respondi que só me interessava cumprir em tudo as ordens do meu Prelado. Não, os senhores dois não foram leais nem sérios para comigo.


Quanto à expressão parodianos que o sr. B.P. atribuiu às minhas conversas com os meus colegas, confesso lealmente que a empreguei naquele célebre dia em que o sr. B.P. e seu primo foram ao antigo colégio-liceu em busca do sr. Dr. Mendes Pinheiro, onde eu me encontrava com colegas e só dessa vez a empreguei para os dois a ouvirem. Mas olhe que aquilo foi piada, sr. B.P... Para que a tomou a sério? Decerto para fechar o seu comunicado. E já agora, para meter também um naco de latim: Jam satis, prata bibernut...


Eu nunca viria a público beliscar o sr. B.P. se êle não me tivesse chamado à pedra. O diabo foi o tal “ponto nevrálgico” que ocasionou tudo isto. Termino declarando sinceramente ao sr. B.P. e a seu primo que não lhes quero mal nem lho desejo, nem com esta exposição tive intento de maguar um ou outro, tão sòmente fazer-lhes compreender que estão fóra da razão quando se permitem atacar-me. Ao sr. B.P. dou-lhe um conselho: deixe-se destas pretensões a pessoa importante; olhe que isso fica-lhe mal, torna-se ridículo, até aos olhos dos seus muitos compatrícios. E V.. senhor Director, perdõe o ter-lhe roubado tanto espaço, mas eu tinha de dizer estas coisas senão para dar uma satisfação ao sr. Belarmino Pedro, pelo menos para gaudio dos leitores de “O Figueirense”. Muito reconhecido lhe fica pela publicação desta o que é De V... etc. Buarcos, 6 de Dezembro de 1938 O prior de Buarcos e encarregado de Tavarede Pe. Alfredo de Melo Abrantes Couto”.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

VISITA A TAVAREDE

Andamos a dar volta aos nossos velhos apontamentos, rebuscados na imprensa figueirense e referentes a 'coisas' da nossa aldeia (hoje, novamente vila), e já alguns temos publicado, referindo o jornal e a data da publicação. Desta vez, e porque a achamos muito interessante, vamos copiar uma pequena reportagem inserida em 'O Figueirense', de 10 de Julho de 1864. Trata-se de uma festa ao S. João de Tavarede. Já estamos fora do tempo, mas, como sabemos, o S. João a todo o tempo tem vez:


Ora vejamos se no meio d'esta extraordinária escassez de noticias em que nos achamos, podemos dizer alguma cousa que entretenha o espirito dos nossos leitores. Há de ser difficil, mas experimentemos sempre.


Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.


Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupede de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.


Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo. Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira. Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.


Quando o sol já era menos e permittia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Figueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir.

domingo, 31 de julho de 2011

Nas Bodas de Ouro da SIT

Na histórica e aprazível povoação de Tavarede, há meio século que se vem erigindo, pedra sobre pedra, com inteligência e tenacidade, vultuosa obra colectiva e teatral pouco vulgar, cremos que única, no meio provinciano. Se algum dia ao historiador do teatro português interessar fazer o balanço do contributo prestado à arte dramática, pelo ignorado amadorismo, onde esse mesmo teatro foi recrutar, tantas vezes, as suas grandes figuras, que para serem grandes não careceram das luzes do Conservatório, porque as tinham já consigo desde nascença, ver-se-á no dever de consagrar capítulo especial à vida e obra da Sociedade de Instrução Tavaredense, de preclaras tradições e que tem levado a numerosos e apartados pontos do país a galhardia da sua arte de representar, e, com ela, um rosário apreciável de benemerências a favor de instituições de caridade e utilidade pública.


Sabendo que a prestante colectividade vai comemorar no mês decorrente as Bodas de Oiro da sua fundação, julgámos de interesse para os nossos leitores ouvir alguém que nos elucidasse acerca das actividades da mesma e outros pormenores relacionados com a tradição teatral da pitoresca Aldeia do Limonete. E não havia que hesitar: só uma pessoa reunia plenamente as condições necessárias para satisfazer a nossa curiosidade e interesse - o seu dinâmico e prestigioso director cénico José da Silva Ribeiro.


Jornalista distinto, culto noutros aspectos do saber humano - é vastíssima a sua cultura neste ramo por que se apaixonou desde novo. Como crítico teatral, quando exercia a crítica, a sua opinião era considerada e temida pelos “ases” da cena portuguesa, ao apresentarem-se, com as suas companhias, perante a exigentíssima plateia figueirense. Conversador sugestivo e atraente, torna-se, pela lhaneza do seu trato, acessível e pronto a quem quer que necessite dos seus prestimosos serviços.


E fomos ouvi-lo. Encontrámo-lo absorvido pelos cuidados do seu novo trabalho - 50 Anos ao Serviço do Povo - no qual evoca e passa em revista os factos da Sociedade de que tem sido o infatigável, o grande, o maior de todos os obreiros. Mas nem isso o impediu de gentilmente nos acolher. Depois de lhe transmitirmos os nossos propósitos e removermos o obstáculo sério das suas ocupações de momento, disparámos-lhe, para principiar, duas perguntas:


- É muito remota a tradição teatral em Tavarede? Lemos algures que já em 1877 existia em Tavarede um teatro de amadores que por causa das desordens que sempre havia nas noites de espectáculo foi mandado encerrar pelo Governador Civil do Distrito. Tem fundamento histórico esta notícia?


- Efectivamente, - começa o nosso interlocutor - a tradição teatral é aqui bem vincada. Já Ernesto Fernandes Tomaz, na descrição que fez de Tavarede numa série de artigos publicados na Gazeta da Figueira em 1896, dizia que as sociedades dramáticas vegetavam em Tavarede como tortulhos. O episódio do encerramento dum teatrito que aqui havia, vem referido, como verdadeiro, por Pinho Leal no seu dicionário geográfico Portugal Antigo e Moderno. O teatro foi mandado fechar pelo Governador Civil em 1877, por motivo das desordens que se verificavam na noites de espectáculo. No livro comemorativo das “bodas-de-ouro” da Sociedade de Instrução Tavaredense - 50 Anos ao Serviço do Povo - a aparecer dentro de poucos dias, indicam-se os diversos locais onde se apurou que funcionaram teatros no século passado.


- É verdade que as gentes de Tavarede manifestaram sempre natural pendor para o teatro?


- Vem de longe o gosto dos tavaredenses pelo teatro. Esta gente tem-se mostrado muito inclinada às artes do teatro e da música. Alcançaram fama os teatros e as tunas de Tavarede. Não obstante a vizinhança de paredes-meias com a cidade, a um tempo benéfica e prejudicial, o sentimento associativo perdura na população desta velha e pobre aldeia.


- Quais os nomes que no passado revelaram, de facto, decidida intuição para a arte dramática?


- Amador de grandes méritos, característico solicitado por todas as companhias do seu tempo, foi nos meados do século passado José Luís Inácio, casado com Luísa Genoveva, que foi também amadora. Na segunda metade do século, brilharam à luz da ribalta tavaredense - de cebo e petróleo - muitos actores e actrizes, dentre os quais se destacavam António de Oliveira, Ricardo Nunes de Oliveira (o tio Ricardo da Margarida), José Vigário e António da Silva Coelho (que todos conheceram por António da Barra), estes dois, respectivamente, pais dos amadores do mesmo nome ainda hoje no activo; Manuel de Oliveira Bertão e António Cruz (pai dos ilustres e saudosos tavaredenses drs. Manuel e José Gomes Cruz), insubstituível nos papeis de Jerónimo e Moço da Passarola do Presépio. No elenco feminino faziam figura Maria da Luísa Marcelina e Eduarda Matoso. Mais recentemente, já no começo do século actual, José Medina, excelente amador tanto no género dramático como no cómico, e ainda mais perto de nós, os dois irmãos António e Jaime Broeiro, para só falarmos dos que já não existem. Os vivos, todos os conhecemos, e alguns deles, tendo começado com a Sociedade de Instrução Tavaredense, ainda hoje dão as suas provas sobre as tábuas do palco.


- Arriscamos mais duas perguntas: - Porque não se abalançou até hoje a S.I.T. a construir sede própria se dispõe de condições primordiais, para isso, pela actividade e valor do seu grupo cénico? Não haveria vantagem em construir uma sede maior para reunir numa só récita o público que, por exiguidade do seu teatrinho – como V. lhe chama – tem que ser distribuido por vários espectáculos?


- A Sociedade de Instrução Tavaredense está instalada no edifício do Largo do Terreiro que foi, como sabe, a velha casa chamada de Ourão, transformada por João José da Costa - esquecido mas inesquecível benemérito - num, para o tempo e para a terra, óptimo teatro. A grande aspiração da sociedade era adquirir o prédio, para viver em casa sua: realizou-a, comprando o prédio. Depois, dado o desenvolvimento da actividade associativa e as responsabilidades e anseios do grupo cénico, outra aspiração surgiu: ampliar e transformar a sede, melhorando as instalações de uso permanente dos sócios e dotando-a com um teatro maior, um palco bem apetrechado que permitisse alargar e aperfeiçoar a obra de cultura que a Sociedade de Instrução Tavaredense vem desenvolvendo através do teatro. Este projecto é, de momento, irrealizável. Seriam precisas 3 a 4 centenas de contos. Onde ir buscá-las? Não esqueçamos que Tavarede é uma terra muito pequena e de população pobríssima. Não há aqui beneméritos ricos. E beneméritos... sem dinheiro não podem fazer obras que só com dinheiro se fazem...


- Pomos uma objecção: - Mas o grupo cénico tem uma actividade invulgar, e conquistou merecidamente um público entusiasta que acorre a aplaudi-lo...


- É certo. Note-se, porém, que as récitas na sede são para sócios e famílias, e raramente pagam a montagem de cada peça. E dos espectáculos em teatros públicos são poucos aqueles cujas receitas revertem para o cofre da associação. Pode objectar-se que é excepcionalmente elevado o número de espectáculos de beneficência. Na verdade, uma lista, aliás incompleta, das récitas de beneficência realizadas na Figueira e noutras localidades pelo grupo tavaredense, mostra que o seu número se eleva a 98. Pelos elementos de que dispomos, e pelo valor actual da moeda, podemos sem exagero avaliar em mais de 400 contos o produto líquido entregue pela Sociedade de Instrução Tavaredense a obras de beneficência e a instituições de utilidade pública. Mas não sejamos ingénuos ao ponto de supormos que esta importante soma poderia também o grupo cénico alcançá-la para as obras da sua sede...


- Mas, aproveitando o verão, não seria possível obter receitas importantes com representações nos teatros da Figueira? - interrompemos.


- Oiça-nos com paciência. Nem tudo o que luz é oiro. Realmente, alguns anos atrás o verão era pródigo. Dávamos dois espectáculos em Agosto e dois em Setembro com casas cheias e resultados tão animadores, que se chegou a alimentar a esperança de ganhar em 10 anos o preciso para as obras. Mas... era a época das vacas gordas, que passou depressa. De há um tempo a esta parte verifica-se que sobem as despesas e descem as receitas. Posso citar-lhe um espectáculo de que, pagas as várias despesas e 5 contos do aluguer do teatro, ficaram para o cofre 350$00. E como não haveria de ser assim com as nossas representações, se é assim também com o teatro profissional? Uma boa parte do antigo público esqueceu o teatro; o novo - nem sequer o conhece. Solicitam-no a doença nacional do futebol (repare que nos referimos a doença) e a exploração industrial do cinema; e os organismos oficiais facilitam e auxiliam a fuga dos velhos e a ignorância dos novos. Se o objectivo do Estado e das autarquias locais fosse a extinção do teatro em Portugal, não poderiam fazer melhor do que estão fazendo. É certo que a Sociedade de Instrução Tavaredense não sacrifica aos deuses da bilheteira, e podia, com outra orientação, melhorar bastante os resultados materiais da sua actividade teatral; mas, fazendo-o, traía a sua função. Ao programa educativo e cultural que a Sociedade de Instrução Tavaredense procura realizar através do teatro, não se ajustam transigências de género parquemaieresco nem exibições estilo retiro da Severa ou variedades da rádio.


Perguntamos a José Ribeiro: - O campo em que recruta os intérpretes para as suas peças tem qualquer particularidade que o distinga dos outros meios associativos do concelho?


- De maneira nenhuma. Os elementos do grupo cénico são recrutados na população tavaredense, indistintamente. Desde os cavadores de enxada, passando pelos vários ofícios e pela vida comercial na cidade vizinha; desde as raparigas da lavoura que passam o dia no amanho das terras e no trato dos animais, até às costureiras dos alfaiates e das modistas e às que labutam na vida doméstica, de tudo se encontra na companhia de Tavarede.


- Pode citar-nos os êxitos teatrais mais salientes alcançados pelo seu grupo cénico?


- Como êxito de público, O Sonho do Cavador ocupa o primeiro lugar, com mais de 50 representações. Mas se bem interpretamos a sua pergunta, devemos citar Entre Giestas, Recompensa, A Nossa Casa, Horizonte, Canção do Berço, Génio Alegre, Auto da Barca do Inferno, Chá de Limonete e, o mais recente, Frei Luís de Sousa.


Continuamos a inquirir: - Quais as peças que até hoje representou cuja acção decorre em Tavarede?


- Com acção passada em Tavarede - Na Terra do Limonete, de João dos Santos e Dona Várzea, de João dos Santos e José Ribeiro, musicadas por Gentil Ribeiro; Pátria Livre e Em Busca da Lúcia-Lima, de João Gaspar de Lemos Amorim; A Cigarra e a Formiga, de Alberto de Lacerda e José Ribeiro; Grão-Ducado de Tavarede, O Sonho do Cavador, Evocação, Retalhos e Fitas e Chá de Limonete, de José Ribeiro - todas musicadas por António Simões. Além destas, outras peças se escreveram propositadamente para a Sociedade de Instrução Tavaredense: Histórias da Roberta, O Nascimento do Messias e as adaptações Morgadinha dos Canaviais e Justiça de Sua Magestade.


Não resistimos a perguntar: - Com a sua acção educativa a S.I..T. tem conseguido sensível melhoria na educação do povo e morigeração dos costumes locais?


- Não pode negar-se a influência da actividade da Sociedade de Instrução Tavaredense na população de Tavarede. Muitos foram os que aprenderam a ler ou se aperfeiçoaram na escola nocturna que funcionou até 1942. É também elevado o número dos que, passando pela secção dramática, beneficiaram da acção cultural e educativa que ali se desenvolve com uma continuidade verdadeiramente excepcional. E é igualmente de considerar a influência exercida sobre o público que lhe frequenta os espectáculos e as palestras.


- Porque deixou de manter a sua escola nocturna?


- Porque não foi possível dar cumprimento a certas exigências de carácter legal. Também no livro 50 Anos ao Serviço do Povo se indicam as razões que impediram a Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense de manter a escola, inteiramente gratuita, que funcionava desde a sua fundação em 1904, com uma frequência de cerca de 50 alunos, menores e adultos.


- Verifica-se que a S.I.T. restringiu notavelmente o número de bailes realizados anualmente na sua sede. Obedece isso a medida de carácter económico ou ao reconhecimento da vantagem moral de sacrificar o baile ao teatro?


- Eis uma pergunta agradável de ouvir, porque revela um interesse honroso, que contrasta com a indiferença de muitos. Mas... é bom esclarecer. Os bailes nas associações proporcionam algumas horas de recreio à massa associativa. O recreio também é necessário. É certo que algumas associações fazem do baile semanal, ou pouco menos, a razão de ser da sua existência. Se não fazem mais nada, havemos de concluir que fazem pouco e que sendo sociedades de recreio, não o são de educação. Por isso nos não interessam na mesma medida. Mas... será mais prejudicial à saúde física e moral, o baile ao sábado ou ao domingo na sociedade de recreio da aldeia, do que o baile diário, durante 3 meses consecutivos no casino da cidade? Quanto à Sociedade de Instrução Tavaredense, não há senão que louvar o critério dos seus directores considerando suficiente a meia dúzia de bailes que durante o ano oferece aos associados na sua sede.


- Estamos de pleno acordo - acrescentámos. E permita-me outra pergunta: Tem sentido dificuldade na escolha de peças para o seu grupo?


- É sempre um grande problema. Independentemente do valor da peça como obra de arte teatral, há que ter em conta certas limitações e contra-indicações que resultam do meio em que nos encontramos, dos elementos de que dispomos e dos fins que nos determinam. São cada vez maiores as dificuldades. Algumas peças que nos serviriam estão-nos interditas, porque o empresário que as representou em Portugal não nos permite a sua representação. Veja-se a estreiteza deste critério, que, generalizado, extinguiria no nosso país o teatro de amadores, uma vez que não pode esperar-se dos autores dramáticos – coitados deles, apertados já em tantos condicionamentos!... – que escrevam peças só para amadores...


- Só mais uma pergunta para terminar: - Acha que são demasiado pesados os encargos que recaiem sobre os espectáculos de amadores?


- Partimos do princípio de que o teatro de amadores, praticado com devoção quase heróica pelas sociedades de educação e recreio espalhadas pelas vilas e aldeias de Portugal, constitui valioso elemento de cultura e recreio do povo, que interessa à nação manter em actividade. É assim que o Estado o encara? É seu dever, nesse caso, facultar-lhe e facilitar-lhe meios de vida. Presentemente as coisas passam-se como se os espectáculos de amadores fossem apenas... matéria colectável; cobram-se licenças, censura das peças, vistos dos programas, imposto sobre espectáculos públicos (!) e contribuições para a Caixa Sindical de Previdência dos Profissionais do Teatro (!!). Uma carga asfixiante! Não está certo. Se o estado não presta outro auxílio, que ao menos não queira fazer dinheiro da actividade desinteressada do teatro de amadores. O regime da cobrança dos direitos de autor continua a ser o mesmo - não obstante terem decorrido dois anos desde que foi nomeada uma comissão para estudar o assunto -, permitindo a fixação arbitrária de taxas em muitos casos proibitivas. E, a carregar ainda mais as tintas do quadro, aí temos agora a lei que regula a assistência de menores a espectáculos, tão louvável nos princípios com que se apresenta como lamentável e perniciosa na forma da sua aplicação. Podíamos apresentar-lhe casos concretos e bem expressivos, mas... iríamos muito longe. Não lhe parece que já lhe dissémos o bastante para se concluir que, na verdade, é precisa uma devoção quase heróica para continuar a manter entre as povoações rurais o fogo sagrado do teatro?


Não podíamos deixar de concordar com o nosso entrevistado, de quem nos despedimos, profundamente reconhecidos e sensibilizados pelo prazer que nos deu e que sabemos ir igualmente proporcionar aos nossos estimados leitores com o conteúdo desta entrevista. Para fecho, só nos resta fazer votos que a velha Sociedade de Instrução Tavaredense possa continuar - e continue sempre - na sua activa e contínua acção de bem-fazer, pois na vida dos homens e das instituições só tem verdadeiro mérito o que se faz bem feito e o que se faz por bem.


(A Voz da Figueira - Janeiro de 1954)

De Casa de Cultura a... Taberna! (13)

No mesmo jornal e na mesma data:

“ Não tencionavamos, nem desejavamos voltar a êste assunto, mas “O Dever” veio à estacada com um acêrvo de sofismas, que podem parecer aos olhos do leitor incauto uma resposta, para chegar à conclusão ingénua e luminosa, de que nos retratámos em pontos onde ficou patente expressamente o contrário.


O processo não é novo nem original. A-fim-de iludir realidades demasiadamente fortes, em atitudes de prestidigitador, o articulista recorreu a expedientes que só servem para nos revelar a sua atrapalhação. A hostilidades reduz-se a mero quixotismo: num esfôrço desesperado, pour èpartir le bourgeots foi-se ao texto do nosso artigo, truncou, mutilou, mistificou, deu-lhe tratos de polé para o obrigar a dizer o contrário do que ali se demostra duma maneira inequívoca.


Era de esperar. Dum tema falso não podem sair senão arrasoados falsos. Um exemplo:


Haviamos nós escrito, referindo-nos à representação lida e entregue ao sr. Bispo de Coimbra por dois membros da Comissão Organizadora da Casa do Povo de Tavarede:
S.Exª. Revª. concordou plenamente com os pontos de vista da Comissão, prometendo-lhes todo o seu apoio e declarando-se disposto a mandar proceder, em devido tempo, às obras necessárias, nomeando a seguir o pretendido pàroco para Tavarede.


“ O Dever” a-pesar da sua coragem não se atreveu a desmentir, mas agarrou-se a um expediente capcioso: isolou a frase prometeu-lhe todo o seu apoio e sentenciou fanfarrão: “a casa não foi prometida a ninguém, pois o sr. Bispo só prometeu o seu apoio; não se pode confundir apoio com casa”.


É singular êste nosso colega e singularíssimas as leis da sua polémica! Se usa da mesma liberdade e escrúpulos na interpretação dos textos bíblicos não tarda que tenhamos a lamentar a mais horripilante das heresias de que a história resa. É capaz de chegar à conclusão de que o Evangelho foi escrito antes de Cristo!... Com esta sencerimónia tôda é natural que lá chegue.


Continúa céptico “O Dever” - escudado não sabemos em que provas - quanto à promessa da casa do Grémio. Nem a carta do sr. Bispo, tão simples e tão clara, o convenceu. Pobres pecadores somos nós e... ficámos convencidos. Isto é, merece-nos absoluta confiança o testemunho de S. Exª. Revmª.


Talvez o documento que vamos publicar a seguir consiga o milagre da sua conversão. É o depoimento do Académico de Ciências Domingos Afonso Condado a que já nos referimos, em que êste aluno da nossa Universidade Coimbrã declara por sua honra de cidadão e católico praticante, que na audiência concedida pelo sr. Bispo aos dois membros da Comissão Organizadora da Casa do Povo foram por S. Exª. Revmª., finda a leitura da representação que lhe foi lida e entregue, tomados os seguintes compromissos:
1º- Mandar proceder às obras necessárias no edifício do Grémio de Tavarede, a-fim de ser nele instalada a séde da Casa do Povo;
2º- Cedê-lo em boas condições à Comissão Organizadora;
3º- Nomear pároco novo para Tavarede. Sôbre êste ponto disse S. Exª. Revmª. que se não tivesse, na altura própria, pároco disponível, como era natural, encarregaria da freguesia de Tavarede um dos sacerdotes em serviço no Seminário ali existente, solução que os portadores da representação aplaudiram sem reservas.


O depoimento que aí fica não se destina ao público que já está suficientemente elucidado. Publicamo-lo especialmente para “O Dever” que nestas coisas é pior que S. Tomé... Está tão céptico, tão céptico, que põe em dúvida as afirmações do seu próprio Prelado.


Isto não o impedirá certamente de continuar a afirmar com o costumado amor... à sua verdade: “Sabiamos há muito que o sr. Bispo mostrara boa vontade e tinha prometido o seu apoio e sabemos que cumpriu até onde poude, mas igualmente que não prometeu a casa”.


Seria caso então para perguntar em que consistiria o seu apoio (não lhe foi pedido outro além da cedência da casa e da nomeação de pároco novo) e até que ponto cumpriu a sua promessa. Quer-nos parecer que “O Dever” está a prestar um péssimo serviço ao seu Prelado. Se fôssemos a dar crédito às suas engenhosas explicações, tinhamos que concluir que o sr. Bispo cometera um grave deslise prometendo sem condições expressas uma coisa que não era sua e portanto não podia prometer. Esta é que é a duríssima verdade.


Tem depois uma série assombrosa de explicações sôbre as relações entre a Diocese, o Prelado e a Predial Económica, proprietária, à face da lei, da chamada Casa do Grémio. Não se canse o colega a explicar-nos o que é a Predial Económica. Sabemos muito bem o que é juridica e religiosamente aquela sociedade e até a razão da sua existência. As suas explicações só podem servir para convencer algum pobre diabo mal precavido. Se as fôssemos a aceitar chegariamos à convicção absurda de que “O Dever” sabe melhor o que é a Predial Económica do que o seu próprio Prelado.


Não gaste o seu latim, colega! Quanto mais explica... pior se coloca. Depois de negar à gente de Tavarede categoria para se corresponder com o Exmo. Prelado, afirma “O Dever” que a carta a pedir as condições em que seria vendido o edifício do Grémio, não foi recebida por S. Exª. Revmª. Vinha talvez a propósito fazer aqui duas considerações sôbre o remoque infeliz do nosso colega. Mas adeante. Não nos cabe discutir se sim ou não os queixosos (a quem foi reconhecida categoria para desempenhar os mais altos cargos na direcção dos organismos católicos de Tavarede) teem categoria para se corresponder com o sr. Bispo. Só a S. Exª. Revmª. compete decidi-lo. E está provado pelo documento que publicámos no Figueirense de 12 de Novembro que S. Exª. Revmª. respondeu à carta enviada pela mesma via e pessoa, a solicitar a realização das prometidas obras na chamada Casa do Grémio.


Se respondeu à primeira é porque aos queixosos foi reconhecida categoria e nesse caso a segunda também devia ter resposta ainda que por intermédio do seu secretário. Em que se firma “O Dever” para asseverar que S. Exª. Revmª. não recebeu esta carta? Não estaremos nós em presença duma restrição mental de que se abusa em certas esferas? Não teria o articulista pretendido dizer na sua que quem recebeu a carta foi o criado do Seminário ou o Secretário episcopal? Sendo assim... passe, embora não seja correcto nem de bom gôsto.


Nada de mistificações. Nós estamos informados de que a carta chegou ao seu destino. Foi recebida não há dúvida nenhuma. Se o articulista duvida, pergunte ao sr. Director de “O Dever”. Talvez êle saiba até porque não teve resposta. Ancioso de colher-nos em falso em qualquer coisa, “O Dever” agarra-se a um êrro dactilográfico aliás sem valor para a causa em discussão e atreve-se a afirmar, muito contente, que faltámos à verdade.


Haviamos escrito, na nossa péssima caligrafia: “Podemos asseverar que a Comissão Organizadora... quinze dias depois de fechado o negócio ainda o ignorava”. E não faltámos à verdade. Há só uma diferença, é que na passagem do manuscrito o dactilógrafo trocou o numeral onze por quinze. E assim a nossa informação está rigorosamente certa. É que só quando “O Dever” o noticiou, a 30 de Setembro, houve a certeza do disparatado negócio. Foi então que a Comissão Organizadora, composta por 15 pessoas, tomou inteiro conhecimento. Não quiz “O Dever” encerrar a sua pseudo-resposta sem brincar mais uma vez com a credulidade dos seus leitores. Diz que o falecido Padre Manuel Vicente não doou ao Seminário de Coimbra mas ao Bispo D. Manuel Luiz Coelho da Silva, de saudosa memória, a residência paroquial de Tavarede (aqui já se pode falar em propriedade dum alto dignitário?...) - a qual foi vendida (!!!) mais tarde à Predial Económica. Já sabiamos que “O Dever” tem artes para explicar o inexplicável. Em mais duma emergência o tem demonstrado.


É curioso notar que o falecido Padre Manuel Vicente, nos últimos anos da sua vida manifestou a várias pessoas das nossas relações o inabalável prepósito de doar por sua morte ao Seminário de Coimbra - ao qual devia a sua ordenação - a propriedade dos seus bens. E mais curioso ainda é que na altura em que foi vendida e Casa do Grémio um herdeiro e afilhado do Padre Manuel Vicente dirigiu-se a Coimbra para obter por compra a referida residência paroquial, e ali, a-pesar da Diocese viver em déficite e grande, foi regeitada a sua proposta com fundamento de que a residência paroquial, sendo um legado ao Seminário do falecido Padre Vicente, mal parecia que fôsse vendida!!! Não foi alegada, que nos conste., qualquer outra razão.
Como se vê permanece de pé tudo o que afirmámos. O resto nem fôgo de vistas chega a ser. É do mais pobresinho... E... sans rancune...