terça-feira, 18 de maio de 2010

O Rancho das Rosas em Tavarede

Com uma manhã verdadeiramente primaveril, visitou no passado domingo a nossa encantadora aldeia, o formoso Rancho das Rosas, da Figueira, que sob as perfumadas “Bellas Olivias” da aprazivel matta da quinta do Paço, saboreou com appetite e no meio de franca alegria um lauto almoço, cujo menú – genuinamente portuguez – era o seguinte:
“Bacalhau e batatas d’olho rôxo (á gandareza), fructas e vinho por conta do lavrador”.
Era de primeira ordem, porque os escudeiros souberam pôr tudo na perfeição.
O almoço decorreu sempre entre grande enthusiasmo, dando a nota synpathica á festa intima as esbeltas raparigas, que de mistura com estridentes gargalhadas – proprias d’almas gentis que esvoaçavam sobre os corações dos apaixonados, teciam elogios ao Santos pela sua habilidade de cosinheiro ajudante, e ao Paschoal pela sua vontade de aço na realisação da festa. Os rapazes, sempre promptos a fazerem rendilhadas declarações de amor, manducavam alegremente a bacalhoada que regavam com côcos da boa pinga. Festa da mocidade jámais nos recordamos de se realisar.
Depois da barriga cheia, dançou-se ao som d’uma fanfarra que tinha acompanhado o Rancho, sendo ainda prestada uma manifestação de agradecimento ao sr. João Luiz Rosa, que n’aquella occasião tinha apparecido no local.
Foi em seguida o garboso Rancho cumprimentar o Grupo Musical Tavaredense, que se achava ornamentado de bandeiras, sendo recebido pela direcção que agradeceu a amavel visita e levantaram vivas ás duas sociedades.
Retirou para essa cidade pelas 12 horas, levando d’esta pittoresca povoação as melhores impressões.
Oxalá que voltem a Tavarede, porque gosarão os melhores bocadinhos da vida...


Aconteceu esta visita em Maio de 1912. Há 98 anos...

Como não podia deixar de ser, esta notícia provocou-nos tantas recordações... Aquela mata, tão agradável e tão antiga, substituida há poucas dezenas de anos, por um bairro que não deixou a mínima recordação do passado. Nem, sequer, os azulejos da pequena e fresca fonte que ali existia...

Também as árvores desapareceram todas. Nós chamávamos àquele local 'a mata do Rosa', isto porque a propriedade havia sido adquirida, nos finais do século 19, por Luís João Rosa. Mas, na verdade, era a célebre mata da quinta do Paço, pertença dos senhores de Tavarede, os fidalgos 'Quadros e Sousa' e onde, no dizer de Ernesto Fernandes Tomaz, terá andado D. Maria Mendes Petit carpindo a morte afrontosa de seu filho, Pero Coelho, a quem o rei D. Pedro I mandou arrancar o coração pelas costas, como castigo pelo assassinato de D. Inês de Castro, a que foi 'rainha depois de morta'. Será verdade? Será lenda? Aquela senhora era uma fidalga que possuia em Tavarede diversas propriedades, que mais tarde legou ao convento das religiosas Donas Pregaratas, da Ordem de S. Domingos de Santarém, sito em Vila Nova de Gaia.

A realidade é que era um sítio muito agradável, onde se passavam tardes cheias de alegria, como aquela acima descrita. Aproveito para recordar o Rancho das Rosas, da Figueira da Foz. Teve uma existência de cerca de meio século e hoje é recordado pela rua que tem o seu nome, ali junto ao Vale. Deste rancho, recordo aqui duas das canções que se tornaram verdadeiros hinos do mesmo, melodias lindíssimas que foram escritas por um tavaredense: João Nunes da Silva Proa. Quanto mais não fosse, só por isso merecia a nossa recordação. E uma das letras é também dum figueirense muito querido a Tavarede: Manuel Cardoso Marta.



São recordações e nada mais do que isso...



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