sexta-feira, 4 de maio de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Comentários - 26

1956.01.12 - À GUISA DE CRÍTICA (A VOZ DA FIGUEIRA)

No passado dia 5 esteve entre nós o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que trouxe ao palco do Teatro do Grande Casino Peninsular, a opereta em 3 actos e 5 quadros, “Ana Maria”, subscrita por Alberto de Lacerda, José Tocha e José Ribeiro, com música de Joel de Mascarenhas.

“Ana Maria”, como declararam os autores, não é peça histórica.

Baseia-se, no entanto, em factos ocorridos em França, por meados do século 18.

E, assim, temos como figuras principais, o famoso pintor Fragonard, a célebre bailarina Guimard e Ana Maria, discípula do Mestre, que depois se torna sua mulher.

Quem, como nós, já viu o Grupo de Tavarede brilhar a grande altura em muitas peças, não poude deixar de saír decepcionado deste espectáculo.

Opereta é, por definição, uma pequena ópera.

O seu texto era, outrora, simples e de feição popular. Com o andar dos tempos, porém, foi sofrendo modificações sucessivas e, hoje, opereta significa somente teatro musicado com libreto e partituras alegres, coros afinados e encenação de bom gosto.

Recordemo-nos das célebres operetas de Franz Lehar, compositor húngaro que foi um dos mais fecundos e brilhantes fundadores deste género teatral e ficaremos com a afirmação anterior cabalmente demonstrada.

Ora, “Ana Maria”, sofre, a nosso ver, de vários desequilíbrios que lhe ensombram as poucas qualidades.

Há música a mais e “falas” a menos em quase todos os actos.

Isto não estaria de todo mal se a partitura fosse agradável.

Mas, de princípio ao fim, as composições de Joel de Mascarenhas são monótonas (iamos a dizer, fúnebres). Pouco melodiosas, pouco acessíveis ao ouvido e não têm uniformidade musical.

No primeiro acto, por exemplo, por que razão se mistura uma espécie de Vira com um Minueto?

Tirando dois ou três coros mais felizes, os restantes vinte números são pífios e não servem, na sua maioria, o ambiente galante e frívolo da época.

As limitações que a Joel de Mascarenhas deveriam ter sido impostas por virtude das vozes serem fracas, não justificam a falta de melodia nem a ausência de introduções tão necessárias à gente que está em cena.

Por outro lado, a história, em si, tem pouco que se lhe diga.

É uma história banal, sem conteúdo.

São tão curtos os diálogos que o espectador nem consegue aperceber-se dos traços psicológicos das figuras.

São tão paradas certas cenas – sirva de exemplo a “Despedida do Pastorinho” – que a acção perde-se e o público arrefece.

Bem se esforçou Violinda Medina por servir a sua ingrata Maria Madalena Guimard!

Mas a sua actuação, com momentos bons, não se iguala àquelas tantas outras em que nos deu todo o seu talento de grande amadora dramática.

Os outros elementos procuraram cumprir, sendo justo destacar António Jorge da Silva, muito correcto, com autoridade pessoal de presença, com plástica vocal, é já um amador de grande merecimento.

José Ribeiro, a alma deste brioso grupo, pressentiu com o seu dedo de mestre, o fracasso da peça e como não podia puxá-la doutra forma, vestiu-a ricamente e encenou-a com todos os requintes do seu bom gosto.

Manuel de Oliveira, professor de cenografia, colaborou pintando cinco cenas de belo efeito.

A orquestra, regida por Anselmo Cardoso, nem sempre nos satisfez. Sabe-se que com má instrumentação é muito difícil dirigir e, em certas alturas, os metais, indiferentes à batuta, quizeram abafar os violinos arranhando-nos os tímpanos.

O Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense não foi feliz com esta peça, diga-se em abono da verdade.

Embora se divise através de tudo uma tentativa de trabalho sério e honesto, muito de apreciar e louvar, isso não basta para que esta “Ana Maria” consiga fazer carreira.

1956.06.14 - PERALTAS E SÉCIAS (A VOZ DA FIGUEIRA)

Os benefícios do chamado “Fundo de Teatro”, superiormente instituído para debelar as dificuldades em que se debate o teatro português, já concedidos a algumas companhias e negados ao “Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra” com 20 anos de glorioso passado, deviam estender-se às nossas cidades, vilas e aldeias onde grupos de amadores de comprovado merecimento confirmam aquele passo de uma comédia de Sacha Guitri: o teatro não é uma profissão, é uma paixão.

Demonstrado está que dos pequenos e anónimos grupos de amadores provincianos têm saído grandes figuras do nosso teatro profissional, inclusivamente notáveis encenadores, justo se tornava, como preito de gratidão a esses grupos que praticam a arte de representar por apaixonado amadorismo, lhes fosse dispensada protecção, concedendo-se-lhes carinhoso auxílio em vez de os desconhecer ou até enredar a sua acção em asfixiantes teias burocráticas.

Os grupos de amadores que à custa de heróicos sacrifícios, por afincada paixão pelo teatro, persistem em remar contra a maré, merecem, sem dúvida, essa homenagem de quem superintende nas coisas do espírito.

Acodem-nos ao bico da pena estas despretenciosas considerações, a propósito da reposição, pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, da comédia Peraltas e Sécias, de Marcelino de Mesquita, em comemoração do centenário do nascimento do insigne dramaturgo.

Depois do excepcional relevo dado pelo mesmo grupo às comemorações garrettianas, esta homenagem à memória de Marcelino de Mesquita, testemunha quanto o valoroso grupo de Tavarede se empenha em reacender no espírito do numeroso e selecto público frequentador dos seus espectáculos, a chama votiva do culto das grandes figuras da dramaturgia portuguesa.

O espectáculo agradou por todos os motivos. Desde o “Breve comentário”, com que o director cénico do grupo manteve presa e interessada a assistência, tudo contribuiu para que a boa disposição não faltasse.

Da peça não há que falar. A sua crítica está feita. É uma peça leve, tecida de “carapuças” e caricaturas. A sua maior desvantagem é desenrolarem-se os 3 actos num único cenário. O guarda-roupa é sumptuoso. Nada de improvisões. Tudo a rigor.

Quanto à interpretação, com mais ou menos engenho, todos se mostraram integrados na rúbrica da peça.

Violinda Medina, primeira figura feminina, foi uma Marquesa de Sande à altura da sua rara intuição artística.

Maria Isabel Reis compôs com graciosidade senhoril e apreciável auto-domínio uma Carlota de Sande apaixonada, bondosa e alegre ao mesmo tempo.

As três Sécias (Maria Aurélia Serra, Maria Rosa da Fonseca e Emília Fernanda Grilo) mantiveram apresentação agradável, com o pretenciosismo e futilidade aconselhados. O mesmo diremos dos três Peraltas (Vítor Medina, José Rodrigues Medina e Fernando Santos) merecendo o primeiro menção especial que soube tirar do papel surpreendente partido.

Fernando Reis, em Guilherme de Menezes e João de Oliveira Júnior em Miguel de Sande, foram dois intérpretes correctos, senhores da cena do princípio ao fim.

O Marquês de Sande (João Rodrigues Medina), promete um amador de futuro, em perdendo a timidez que por vezes mostrou – mais do que aquela que era exigida pela natureza do papel.

José Luís do Nascimento, Poeta Caldas – o Caldas Glutão, como lhe chamava, numa quadra célebre, o seu contemporâneo Bocage – também merece registo. É um amador consciencioso e de fácil adaptação.

José Maria Cordeiro, deu-nos um Intendente Diogo com nítida compreensão das suas responsabilidades. O papel não teve para ele dificuldades a vencer. Dir-se-ia estar-lhe a carácter.

Frei Tomaz e P. Teodoro (António Jorge da Silva e Carlos Conde) incarnaram dois clérigos de se lhe tirar o chapéu... Pertencentes àquela casta indesejável dos que se insurgem, barafustam, vociferam, contra os herejes e pedreiros livres mas se dão por satisfeitos e quites com a sua consciência desde que consiga subordinar à sua batuta temporal o rebanho que lhe foi confiado.

Marcelino Mesquita transportou para a sua peça dois espécimes desse tipo nefasto de que ainda no nosso tempo aparecem exemplares, não obstante a apertada selecção a que são submetidos.

Os restantes personagens cumpriram igualmente, dando à representação de “Peraltas e Sécias” aquela apreciável homogeneidade que se tornou apanágio do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que José Ribeiro manipula com segura mão de mestre e o público mais uma vez reconheceu chamando-o ao palco nos finais do 2º. e 3º. actos.

1956.06.30 - PERALTAS E SÉCIAS, NA FIGUEIRA (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Ainda ácerca do espectáculo, que a SIT, foi dar, no dia 6 do corrente, no Teatro do Grande Casino Peninsular com a engraçadíssima comédia “Peraltas e Sécias”, de Marcelino de Mesquita, o nosso ilustre conterrâneo, sr. José da Silva Ribeiro, director artístico daquela prestimosa colectividade, tem recebido as mais expressivas provas de estima e admiração de diversas personalidades, que assistiram à récita.

Também o importante periódico “A Voz da Figueira”, num dos seus últimos números publicou uma judiciosa crítica, assinada por BP e encimada pela fotogravura de Marcelino de Mesquita, bastante honrosa para os modestos amadores tavaredenses.

Ainda bem que, apesar dos maus tempos que vão correndo para o Teatro, principalmente, de grupos de amadores, é consolador verificar que a distinta plateia figueirense, que foi sempre das mais exigentes do país, continue a saber apreciar o Teatro sério, encorajando, de tal modo, os que nas horas de ócio se dedicam à prática da arte de Talma.

A propósito devemos confessar, muito sinceramente, que, como filhos de Tavarede, não escondemos a nossa imensa satisfação pelos êxitos alcançados pelos nossos conterrâneos e a justiça que lhes é feita.

Já aqui o dissemos e nunca será demais o repetir-se: tanto as boas como as más acções praticadas por qualquer tavaredense se repercute no nome da nossa querida terra, que devemos procurar elevar cada vez mais, e não diminuir, como infelizmente, por vezes, alguns, embora em reduzido número, fazem.

Quanto aos primeiros elevamos as nossas preces a Deus para que continue a cobrir de bençãos o seu trabalho; quanto aos segundos rogamos que lhes perdõe.

1956.07.07 - A SIT EM LEIRIA (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Na terça-feira pretérita deslocou-se a Leiria, onde foi dar um espectáculo a favor do cofre da Associação Protectora dos Pobres, daquela cidade, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Antes de começar o espectáculo, o nosso particular amigo, sr. Miguel Franco, ilustre director do distinto Grupo Dramático “Miguel Leitão”, dissertou largamente sobre a obra de benemerência que vem sendo levada a efeito pela APPL; o extraordinário valor do autor da peça que ia ser representada “Peraltas e Sécias”, de Marcelino Mesquita, cujo centenário ocorre este mês e em cuja terra natal – Cartaxo – ia ser erigido um significativo monumento. Referiu-se ainda o orador à acção desenvolvida pela SIT, a bem da cultura do povo.

A selecta assistência, que enchia o Teatro D. Maria Pia, aplaudiu demoradamente os amadores tavaredenses, tendo o sr. Ramos Pinto, digníssimo Presidente da benemérita Instituição, no final do espectáculo, feito uso da palavra para saudar e agradecer as horas de bom teatro, que os nossos conterrâneos proporcionaram aos Leirienses. Foram oferecidos lindos ramos de flores, que Mestre José Ribeiro comovidamente agradeceu, sendo-lhe prestada calorosa ovação quando afirmou que o grupo que dirige há já longos anos se encontra sempre à disposição de qualquer Entidade, que necessite do seu modesto auxílio.

Terminado o espectáculo foram os componentes do grupo obsequiados por distintas senhoras da melhor sociedade Leiriense com uma explêndida ceia, feita das melhores iguarias, que deixou verdadeiramente confundidos os nossos conterrâneos, e que serviu de pretexto para o ilustre Director artístico da SIT, muito sensibilizado, num brilhante improviso, manifestar o seu sincero reconhecimento e de seus colaboradores pelo facto de tão distintas senhoras servirem tão modestos quão humildes amadores. Seguidamente o brilhante causídico, sr. Dr. Vasco da Gama Fernandes, agradecendo a colaboração da SIT, teceu os mais rasgados elogios ao seu digníssimo orientador.

É com o maior prazer que registamos o facto, apreciando o intercâmbio cultural que já há anos vem sendo realizado entre Leiria e Tavarede, pois temos bem presente no nosso espírito os inolvidáveis momentos de prazer espiritual que os Leirienses têm proporcionado aos sócios da SIT, mormente a valiosíssima colaboração prestada no serão de arte, que foi o espectáculo de gala, efectuado por ocasião das comemorações das bodas de ouro da nossa colectividade e em que ficou a perdurar, além do belo espectáculo que Miguel Franco nos ofereceu, a maravilhosa audição do brilhante agrupamento coral, que é o orfeão da nobre e poética cidade do Lis, de que era mui ilustre regente, o sr. D. José Pais.

1956.09.09 - PERALTAS E SÉCIAS E FREI LUÍS DE SOUSA, EM SINTRA)

Sr. Director: Dá-me licença? Não será demasiado abuso pedir-lhe um pouco de espaço para dizer duas palavras acerca das duas récitas que o Grupo Cénico de Amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense veio dar a Sintra? Se for abuso, há um remédio: o cesto dos papéis. Se o meu desejo merecer a aceitação, desde já o meu reconhecido agradecimento. E começo...

Duas peças de responsabilidade, duas peças daquelas que exigem qualidades: “Frei Luís de Sousa” e “Peraltas e Sécias”. Duas realizações bem merecedoras dos quentes aplausos com que o público justamente as premiou. Porque, mesmo abstraindo da ideia de que se trata de amadores, o que houve nesses aplausos não foi apenas simpatia por eles, foi também admiração sincera pelo que valem.

Na verdade, o Grupo conta com elementos geralmente valiosos, intuições, valores, que uma inteligente, uma competentíssima direcção artística coloca num plano a que, pelo menos no conjunto, não chegam, às vezes, honestos elencos profissionais, e dispõe de primeiras figuras capazes de vencer, como se viu, escolhos de respeito.

João Cascão fez um Manuel de Sousa Coutinho correcto e escorreito enquanto o poema para mais não deu; brilhante aquele passo em que a emoção atinge o máximo e o seu temperamento pôde afirmar-se, caíndo aos pés da cruz, perfeitamente integrado na personalidade de Manuel, sentindo a sua tragédia, dando absolutamente o que se lhe pedia. Foi pena que o chapéu, porventura muito certo em matéria de indumentária, mas consideravelmente inestético, o chapéu que lhe puseram, quebrasse à figura a linha de imponência que devia ter.

Violinda Medina e Silva foi uma distintíssima Madalena de Vilhena. Compreensão perfeita da psicologia da personagem, máscara cheia de expressão, um à-vontade de actriz consumda, um saber servir-se dos magníficos trajos que lhe vestiram, uma naturalidade em tudo, que não se pode manifestar quando não há verdadeiro talento de comediante. Menos exigente, o seu papel em “Peraltas e Sécias” foi igualmente perfeito.

Fernando Reis deu um Romeiro de que nada há dizer que não seja um merecido elogio. Não podia pedir-se mais. E, como em “Peraltas e Sécias” lhe coube um papel de feição completamente diversa, igualmente desempenhado com impecável correcção, teve ensejo, pelo contraste, de revelar o seu real merecimento.

Coisa parecida poderá dizer-se de António Jorge da Silva, que nos deu um Telmo Pais do melhor quilate, excelente retrato da personagem, a contrastar com a caricatura que é o Fr. Tomás dos “Peraltas”, desenhada pelo intérprete com perfeita correcção.

Maria Isabel Reis, a Maria de Noronha do “Frei Luís”, é outro valioso elemento do Grupo de Tavarede. Graciosíssima no seu papel de Carlota nos “Peraltas”, suportou com brio as dificuldades do seu papel no “Frei Luís”, talvez martelando demais as sílabas, e brilhou, brilhou intensamente, no final do drama, revelando, então, com perfeita naturalidade, a angústia da situação, provando assim o seu merecimento.

João de Oliveira Júnior, correcto no seu Frei Jorge do drama de Garrett, papel que, salvo melhor opinião, não é bem para o seu temperamento, foi excelentemente no Miguel de Sande dos “Peraltas”, mesmo a cantar o Fado, que Mestre Marcelino meteu na peça sem se lembrar de que o Fado só apareceu meio século depois...

Carlos Conde defendeu bem o seu papel de Padre Teodoro nos “Peraltas”, apesar de deslocado na interpretação de uma figur que não nos parece poder adaptar-se-lhe; José Maria Cordeiro no Intendente Diogo; Manuel Lontro no Desembargador Silvério; Francisco Carvalho no Pinto, ministro, devem citar-se, como João Rodrigues Medina no Marquês de Sande, pela perfeita correcção com que se houveram. Muito bem Vitor Manuel Medina e José Rodrigues Medina nos papéis de Benjamim e Narciso, que conseguiram distinguir no conjunto duma peça em que, pode dizer-se, nenhum papel dá ensejo a grandes voos.

Com diligente a acertada colaboração dos mais; com cenários apropriados, não falando em um outro pormenor menos feliz, que não chega a prejudicar; com excelentes adereços em que é justo destacar os quadros pintados por Alberto de Lacerda; com guarda-roupa de Alberto Anahory, bom apenas quanto aos trajos femininos no “Frei Luís”, muito bom de um modo geral. Quanto aos “Peraltas”, em que só a cor do vestido da Marquesa de Sande, pela semelhança com a da sotaina de Frei Tomás, merecia ter sido substituida; com o trabalho atento e seguro de Adriano Silva como contra-regra, os espectáculos não podiam deixar de ser o que foram: duas belas afirmações de merecimento artístico.

Mas foram, acima de tudo, duas belas lições de teatro, graças à direcção competentíssima de José da Silva Ribeiro, que ensina, explica, esclarece, resolve, com a infinita paciência de um apaixonado pela arte teatral, e que realiza com o brilho que se viu, assim provando a absoluta necessidade de uma orientação superior que descubra intuições ou vocações, que as eduque e as eleve ao máximo.

Há por aí leitores que se lembrem das peças “Entre Giestas”, dirigida por António Pinheiro; “A Conspiradora”, dirigida por Lucinda Simões; “A Garra”, dirigida por Araújo Pereira?

Dizer que os espectáculos do Grupo de Tavarede nos fizeram lembrar essas excepcionais realizações é dizer tudo quanto ao sincero agrado com que os vimos. Bem haja, José Ribeiro pela sua obra magnífica!

1956.09.15 - A SIT EM SINTRA (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Regressaram na passada terça feira a esta localidade os componentes do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que, como haviamos referido, se deslocaram a Sintra, nos dias 2 e 3 do corrente, para representar, no Teatro Carlos Manuel, em benefício da Santa Casa da Misericórdia, daquela vila, as peças “Frei Luis de Sousa” do genial escritor Almeida Garrett e “Peraltas e Sécias” do extraordinário dramaturgo Marcelino de Mesquita.

Descrever o que foi a visita dos tavaredenses àquela encantadora vila transcende, pelo entusiástico e carinhoso acolhimento que lhes foi dispensado, o reduzido âmbito da nossa modesta carta, tal a agradabilíssima impressão causada nos seus espíritos e que dificilmente esquecerão.

Antes de subir o pano para a representação de “Frei Luis de Sousa”, o nosso prezado amigo e conterrâneo, sr. António Medina Júnior, que ali fundou há já anos o “Jornal de Sintra”, hoje justamente considerado um dos melhores periódicos da província, e foi o promotor dos referidos espectáculos, proferiu um interessante discurso de saudação aos amadores da sua e nossa terra, enaltecendo a notável obra que, a bem da cultura do Povo, vem sendo realizada pela SIT, sob a proficiente direcção do ilustre ensaiador e Mestre de teatro, que é o nosso prestigioso conterrâneo, sr. José da Silva Ribeiro, que agradeceu as elogiosas referências.

No dia seguinte, 3, representou-se “Peraltas e Sécias”, com a presença da veneranda Senhora, D. Inês Ressano Garcia, filha do saudoso autor da graciosa comédia e a quem, num dos intervalos, foi oferecido um lindo ramos de flores, tendo feito uso da palavra, nesse momento, para prestar a homenagem devida ao talentoso escritor e agradecer a visita do nosso apreciado grupo, o vice-Provedor da Misericórdia, sr. Eduardo Frutuoso Gaio.

Seguidamente o Presidente da Câmara, sr. dr. César Moreira Baptista, o digno Provedor, sr. Capitão Américo dos Santos e demais mesários fizeram entrega a todos os elementos do grupo cénico da medalha de “gratidão”, instituída há mais de duas centenas de anos por aquela Casa de Caridade, e ainda de uma fita para o estandarte da SIT.

José Ribeiro, num improviso empolgante, que causou a mais viva impressão na selecta assistência que enchia o majestoso Teatro, agradeceu as homenagens que acabavam de ser prestadas aos modestos componentes do grupo, que dirige, demorando-se em considerações sobre o valor extraordinário da obra literária e dramática do notável escritor, que foi Marcelino de Mesquita.

O seu discurso, proferido com aquela sinceridade que lhe é peculiar, mereceu-lhe calorosa e entusiástica ovação por parte dos espectadores que, em elevado grau, admiraram a sua fulgurante eloquência e os seus vastos conhecimentos literários.

Às representações, que agradaram plenamente como o demonstraram os quentes e fartos aplausos com que os intérpretes foram saudados, assistiram algumas altas individualidades nos meios artísticos, destacando-se o sr. dr. Vasco Mendonça Alves, autor da peça “A Conspiradora”, cujos ensaios devem começar brevemente no teatro da SIT, os ilustres actores, srª. D. Brunilde Júdice e seu marido, sr. Alves da Costa, o prestigioso crítico teatral, sr. dr. José Tocha, o considerado indumentarista, sr. Alberto Anahory e o distinto artista pintor, sr. Alberto de Lacerda, grande amigo da nossa colectividade e de Tavarede.

Ainda uma nota curiosa: na “Tabela” da esplêndida casa de espectáculos surgiu, depois da primeira representação, um significativo soneto assinado “Espectador”, pondo em relevo a actuação dos nossos amadores.

Enfim, a par de mais uma inolvidável jornada de propaganda de teatro sério feita por amadores de condição humilde, como os que constituem o grupo dramático da SIT, a visita de agora à poética e encantadora vila de Sintra, de que os excursionistas guardam as mais emotivas recordações, ficará a marcar como expressiva demonstração de quanto pode a vontade e a persistência de um Homem, animadas por uma superior inteligência ao serviço de nobres e generosos Ideais – Cultura do Povo e Benemerência – José Ribeiro.

Pena é que as ocupações e a situação económica dos despretenciosos amadores não permitam à SIT aceitar todos os convites que lhe são dirigidos para representar em várias localidades do País, como presentemente sucede, pois ainda agora não pôde aceder a 3 convites.

Com as nossas cordeais saudações a todos os que com o seu esforço e inteligência contribuiram para honrar e dignificar, mais uma vez, as tradições da SIT e, consequentemente, da nossa querida Terra, vão os sinceros desejos de mais e melhor.

1956.10.20 - A SIT EM TOMAR (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Das terras do País onde Tavarede conta maior número de admiradores e firmes amizades, Tomar, deve, certamente, figurar num dos primeiros lugares.

Para tanto muito têm contribuido os espectáculos que ali têm sido levados a efeito para os cofres de diversas colectividades recreativas e instituições de beneficência, daquela artística cidade, no montante de algumas dezenas de contos.

Mas ainda além desse facto, que não podemos nem devemos deixar de considerar, existe entre Tomarenses e Tavaredenses uma comunhão de sentimentos que os irmana no mesmo elevado Ideal – o amor do próximo pela prática da Caridade e da Cultura do Povo.

Ainda agora a nossa modesta maneira de ver obteve confirmação com as atenções de que foi alvo a caravana tavaredense, a propósito dos dois espectáculos – “Israel”, no sábado e “Peraltas e Sécias”, no domingo – para a Misericórdia daquela cidade que, como anunciámos, ali foi dar o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

O autocarro, que conduziu os nossos conterrâneos e havia largado da Figueira por volta das 14,30 horas, de sábado, foi aguardado à entrada da cidade pelos ilustres componentes da Mesa daquela Instituição, Filarmónica Gualdim Pais, União Futebol Comércio e Indústria e muito Povo.

Organizado o cortejo, teve lugar, na Misericórdia, uma breve sessão de boas vindas, tendo usado da palavra o digno Provedor, sr. dr. António Quitério, para saudar os visitantes, respondendo-lhe o Director do grupo, sr. José da Silva Ribeiro.

À noite, no majestoso Cine-Teatro, representou-se a consagrada peça “Israel”. Porém, antes de subir o pano veio ao proscénio o sr. Provedor da Misericórdia, para proferir algumas palavras de apresentação e agradecimento por tão honrosa visita.

No final do espectáculo gentis menonas acompanhadas da Mesa da Misericórdia ofereceram uma fita para o estandarte da SIT, lindos ramos de flores à inteligente amadora, srª. D. Violinda Medina e Silva e sr. José Ribeiro, que ouviu da numerosa assistência calorosos e entusiásticos aplausos pelo brilhante improviso que proferiu de agradecimento pelas significativas recordações recebidas e exaltação das nobres virtudes civicas e hospitalidade manifesta do bom Povo da cidade Nabantina.

No esplêndido salão de recepções do belo Teatro foram os nossos representantes obsequiados com um bem servido “copo de água”, que a todos deixou encantados.

No domingo subiu à cena a engraçada comédia do glorioso dramaturgo Marcelino de Mesquita, “Peraltas e Sécias”.

O desempenho das duas representações agradou plenamente, pois que a assistência não se cansou de aplaudir com o maior entusiasmo os amadores, tendo tido chamadas especiais de simpatia, o nosso ilustre conterrâneo e prestigioso Director do grupo cénico da SIT, sr. José da Silva Ribeiro.

Era já madrugada alta quando os nossos conterrâneos regressaram, satisfeitos, a Tavarede, depois de terem efectuado mais uma jornada em benefício dos infelizes que necessitam de recorrer àquela modelar Casa de Caridade.

A distinta Banda Republicana Marcial Nabantina de que a SIT é sócio honorário, aliás, como da Filarmónica Gualdim Pais, teve a gentileza de, também, ir saudar, no sábado, e antes do início do espectáculo, o sr. José da Silva Ribeiro e os seus humildes colaboradores.

Ainda em homenagem ao grupo tavaredense o artístico Castelo dos Templários encontrava-se feericamente iluminado, como nos grandes dias festivos.

Com um sincero bem haja aos bons Amigos Tomarenses, apresentamos aos briosos componentes do grupo cénico as nossas cordeais saudações por mais este seu novo êxito.

No próximo sábado teremos o festejado grupo dramático na Marinha Grande a tomar parte num programa cultural organizado pelo simpático Sport Operário Marinhense e em que será representado “Peraltas e Sécias”.

1956.11.14 - PERALTAS E SÉCIAS, EM COIMBRA (O DESPERTAR)

Mais uma vez o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense veio ao palco do Avenida dar o seu esforço desinteressado em favor da Obra, que dispensa adjectivos, de Elísio de Moura (assim mesmo, sem Professor nem Doutor a antecederem o nome, pois o Homem, pela sua acção, de qualificativos também não carece) – O Asilo da Infância Desvalida.

Deu-nos, desta vez, o grupo de José Ribeiro (e também agora os adjectivos são inúteis) a comédia “Peraltas e Sécias”, de Marcelino Mesquita, o que deu aso à evocação da obra daquele notável dramaturgo do fim do século XIX, este ano que se comemorou o centenário do seu nascimento, pelo dr. Carlos de Figueiredo Nunes, nas palavras que pronunciou antes de abrir o pano.

E não deixa de ser notável verificar desde já que para Coimbra ter a possibilidade de compartilhar, de algum modo, nas cerimónias evocativas, que algumas terras do país levaram a cabo, do autor de “Leonor Teles”, de “O Regente”, de “Envelhecer”, de “A Pérola”, foi necessária a vinda de um conjunto, embora valiosíssimo (isso é outra questão), de uma localidade suburbana da Figueira da Foz, apresentar uma das peças vulgarmente consideradas como das mais representativas daquele Autor.

Não é, infelizmente, a primeira vez que isto acontece, pois já há dois anos, qundo o País inteiro comemorou o centenário da morte de Almeida Garrett, para que o público de Coimbra pudesse assistir à representação do “Frei Luís de Sousa” foi necessário também que o grupo cénico de Tavarede o trouxesse ao palco do Avenida.

Honra, pois, e em primeiro lugar, à memória desses 2 pedreiros, 1 torneiro, 1 serralheiro, 1 carpinteiro, 3 cavadores, 1 ferreiro, 2 ferroviários, 1 canteiro, 1 tanoeiro e 1 comerciante, que há pouco mais de cinquenta e dois anos fundaram a SIT e tão longe deviam estar de supor que os mantenedores da secção dramática, que logo no artº 3º estatuíram, haviam de vir dar lições à chamada Cidade Doutora.

É tarde para se esboçar uma apreciação de “Peraltas e Sécias” mas não podemos deixar de consagrar meia dúzia de linhas à maneira feliz como Marcelino conseguiu dar a justa nota, em ambiente teatral, da alta sociedade portuguesa dos fins do Século XVIII, dividindo a sua actividade por festividades ou deveres religiosos, touradas, outeiros e reuniões onde se cantava o lundum e diziam adivinhações, enquanto além-Pirinéus se desenvolvia uma das maiores tormentas político-sociais que a História tem registado, qual foi a da conquista violenta do poder pela burguesia ascendente, confiada em que bastaria toda a actividade do senhor Intendente D. Diogo Inácio de Pina Manique e dos seus moscas para isentar o País das consequências da evolução inelutável dos acontecimentos.

Ora neste ambiente, magistralmente dado, há uma personagem que, a nosso ver, falha algum tanto – a de Guilherme de Meneses. Realmente, até ao fim do II acto, o recém-chegado de Paris tem uma actuação, umas opiniões dadas com um tal tom de sinceridade que de forma alguma fazem prever a revelação do III acto e, mais, que o tornam incongruente – se Guilherme era convictamente monárquico, ainda que tolerante e compreensivo, pela ideologia oposta, não se admite a forma como inicialmente agiu; se acreditava, de facto, nas afirmações que inicialmente fazia, é forçada a situação que decorre do relatado ao texto d carta de que é portador.

Pinheiro Chagas, em “As duas flores de sangue”, com todas as limitações que o romance possue, foi mais feliz ao descrever a luta emocional que se trava no espírito do jovem fidalgo português, Jaime de Noronha, intelectualmente preso pelas doutrinas republicanas e que se confrange ao assistir às cenas do terror revolucionário, vermelho, em França, culminando com a morte da princesa de Lamballe, mas, logo a seguir, se horroriza ante as cenas do terror branco, contra-revolucionário, em Nápoles, que culmina com o enforcamento da nossa compatriota Leonor da Fonseca Pimentel.

Evidentemente, que se Marcelino não desse aquela solução ao problema, a peça deixaria de ser uma comédia para passar a ser um drama...

Deixemos, então, a peça em sossego e vamos anotar as ideias que a apresentação do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense nos proporcionaram.

O desempenho foi correcto e dificilmente se pode destacar o trabalho de qualquer dos amadores. Violinda, alardendo toda a sua capacidade já plenamente demonstrada, fez uma boa Marquesa de Sande; Amélia, Natália e Emília foram três Sécias que pareciam arrancadas de um quadro da época; a Isabel Reis coube o osso dos papéis femininos – o de Carlota de Sande, a jovem que, vivendo no ambiente que atrás mencionámos, consegue não se deixar submergir – e logrou desembraçar-se dele a contento.

Reis fez bem o Guilherme de Meneses, particularmente na primeira fase de pseudo-jacobino; Silva foi o Frei Tomaz que convinha, tal como Conde, no Padre Teodoro; João Medina fez muito bem o Marquês de Sande, mesmo tendo em conta que o seu papel é um dos mais simpáticos e isso predispõe às boas impressões; Oliveira Júnior fez o requerido Miguel de Sande, estouvado de bom coração; Cordeiro usou com desenvoltura a autoridade que lhe dava o seu bastão de Intendente; Nascimento conseguiu ser o árcade consentido na boa roda sem ridicularizar demasiado o personagem; igualmente deram o tom, que nos pareceu justo, de ridículo não exagerado os três Peraltas, Vitor, José e Fernando; compuzeram bem as suas figuras de Pinto, ministro de Estado e o de Desembargador Silvério, respectivamente Carvalho e Lontro; completaram o elenco masculino Oliveira, Vigário e Simões, em três episódicos serviçais da casa dos Marqueses de Sande.

A cena única em que se desenvolvem os três actos da comédia é um belo trabalho de Manuel de Oliveira e de Alberto de Lacerda e conhecendo nós as dificuldades que surgem sempre que se pretende conseguir os móveis a carácter de uma época, só podemos manifestar a nossa pena (certamente não maior que a dos organizadores do espectáculo) por não condizer com o resto do mobiliário o sofá que, não obstante todas as tentativas em contrário, teimava em mostrar a sua presença mesmo por detraz do cravo.

O guarda-roupa de Anahory e as cabeleiras de Vitor Manuel colaboraram eficazmente para o brilhantismo do espectáculo, outro tanto tendo conseguido os caracterizadores, aliás não mencionados no programa. Merecem referência também a contra-regra atenta de Adriano Silva e a tarefa do Ponto Lourenço Domingues. Este começou, talvez, um pouco alto mas quase logo deixou de se dar pela sua presença.

O programa vendido durante o espectáculo informava-nos da constituição das beneméritas Comissão Organizadora e Comissão Auxiliar tão prestimosa; fornecia uma nota biográfica do autor da peça e dizia-nos qual a distribuição dos papéis e alguns colaboradores técnicos e artísticos; recordáva-nos o essencial do que é o Asilo da Infância Desvalida; esclarecia os que ignoravam a acção da SIT no capítulo “Teatro”, mas não mencionava o Director Artístico do grupo, encenador e ensaiador da peça a que o público assistia tão interessado. Desnecessário era fazê-lo, de resto, pois, quem conhece o Grupo de Tavarede, sabe perfeitamente o que para ele representa José Ribeiro.

Todo o público imagina, com maior ou menor aproximação, o que é – ou deve ser – o trabalho de um director artístico que acumula as funções de encenador com a de ensaiador, mas, em boa verdade, só quem conheça o Teatro por dentro e saiba quanto custa pôr de pé a obra teatral mais simples, é que pode valorizar com justeza o esforço enorme que é preciso dispender para se levar um conjunto de pessoas, dos mais diferentes temperamentos e com os mais diversos graus de cultura, a conjugarem os seus esforços para a obtenção do resultado final que é o bom êxito do espectáculo.

José Ribeiro trabalha com amadores que, mercê de circunstâncias económicas e ambientais, não lograram alcançar elevado nível de cultura oficial (aquela alta roda do século XVIII era constituída por costureiras, trabalhadores rurais e operários do século XX), mas isso que poderia parecer uma desvantagem transforma-se numa consoladora e benéfica vantagem pelo grau de interesse de acertar que domina os amadores.

O que acabamos de escrever não é pura divagação teórica, mas factos que pessoalmente pudemos já verificar – e o caso do grupo de Tavarede é mais uma prova insofismável em favor da nossa tese.

José Ribeiro há muito que trabalha em Teatro e isso ressalta, por exemplo, na maneira como movimentou todas aquelas figuras – sem atropelos, com leveza de movimentos, sem prejudicar, minimamente que fôsse, o interesse pelo desenrolar da acção. Se alguma dúvida pudesse haver quanto à sua capacidade de direcção, aquelas cenas de conjunto resolviam-na cerce. E justamente por que temos por José Ribeiro a consideração que lhe é muito justamente devida, permitimo-nos chamar a sua atenção para cinco pormenores mas que, a nosso ver, conviria serem limados: o movimento do vai-vem demasiado repetido da cadeira que está encostada ao cravo; algumas entradas e saídas de cena em fila indiana; a pouco convicente gravação da música do cravo; a falta de segurança de alguns cantores; e as marcações do III acto em que Carlota está junto de Guilherme quando, dada a tensão ambiental e as intimativas maternas, o lógico era que, ao menos em frente da Senhora Marquesa, os dois namorados mantivessem uma prudente distância a separá-los.

Vão longas estas considerações mas não queremos concluir sem mais uma vez agradecer ao Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense o espectáculo que nos proporcionaram e a lição que nos deram.

Oxalá que os grupos de amadores de Teatro que existem em Coimbra se compenetrem do que devem à Cultura do Povo e a si próprios – e marquem as posições que devem!

E que mais vezes o Grupo Cénico da SIT venha até nós mostrar-nos bom Teatro e auxiliar as nossas obras de benemerência mas que, entre os grupos de amadores de Teatro, seja mais um grupo e não só o único grupo.

QUADROS - Os Senhores de Tavarede - 2

RECUANDO NO TEMPO

Tavarede e seus princípios

 
“… é vasto, formoso e salubre, com boas vistas do mar e terra; o território da freguesia é fértil, principalmente em milho, trigo, batata, feijões e grande quantidade de hortaliças, com que fornece abundantemente a praça da Figueira da Foz. O mar e o Mondego abastecem de peixe esta freguesia”.

Foi esta a forma que Pinho Leal, no século dezanove, utilizou para descrever o lugar da nossa terra, Tavarede, no seu Dicionário Portugal Antigo e Moderno. Embora este trabalho tenha outra finalidade, ou seja, procurar historiar um pouco a nobre e poderosa família dos Quadros, que dominou Tavarede durante cerca de dois séculos e meio, entendemos que devemos fazer uma brevíssima viagem aos tempos mais antigos. Como todos sabemos, Tavarede é uma povoação antiquíssima, remontando, possivelmente, as suas origens aos tempos em que os Fenícios dominavam estes mares, procurando negociar com os povos residentes.

A localização de Tavarede era excelente sob o ponto de vista defensivo. Ligada ao oceano, através de um largo esteiro que, pelas actuais várzeas, vinha do Mondego à nossa terra, tornava-se lugar seguro para refúgio, assim como para estabelecer posto de transacções comerciais. Presume-se, portanto, que era local habitado e que, de crença cristã, já teria a sua igreja, sob o padroado de S. Martinho, célebre santo e bispo de Tours, muito venerado por aqueles tempos.

“ … o que se sabe é que a povoação é de origem antiquíssima, tendo sido despovoada pela acção dos muçulmanos que, presume-se, além de terem dado origem ao despovoamento pela fuga das populações, terão destruído a mesma, incluindo a já então existente igreja de S. Martinho de Tavarede…”. Foi no ano de 1064 que, reinando Fernando I, o Magno, Sisnando Davidiz, moçárabe nascido em Tentúgal cerca do ano de 1025, tomou a cidade de Coimbra aos mouros, libertando todo o território até à foz do rio Mondego. Aquele rei de Leão e Castela, resolveu fundar, após esta reconquista, dois vastos condados: o condado da Galiza e o condado Portucalense, ficando este localizado entre os rios Douro e Mondego.

O Conde D. Sisnando, que havia sido agraciado com o título de Conde de Coimbra e nomeado governador deste vasto território reconquistado, terá procurado repovoar e desenvolver o mesmo, nomeando, para esse fim, cavaleiros e abades seus validos. Para o lugar de S. Julião da foz do Mondego, mandou o Abade Pedro, que reconstruíu a igreja e ficou célebre pelas suas ‘vinhas’, localizadas perto da igreja de S. Julião, na encosta das actuais Abadias. Para reconstruir e repovoar o lugar de S. Martinho de Tavarede, encarregou Cidel Pais, também ele um moçárabe.

Sabemos que terá sido Cidel Pais o repovoador e reconstrutor de Tavarede pois, na carta de doação feita por D. Elvira (ou Gulvira) Sisnandis, filha do Conde D. Sisnando, e seu marido Martim Moniz, governador de Coimbra após o falecimento de seu pai e sogro, refere-se que “… concedemos-te na mesma já mencionada vila de S. Martinho (de Tavarede) todos que outrora aí recebeu Cidel Pais do Conde D. Sisnando, que Deus tenha, e estão situados no território de Montemor para o lado da praia ocidental…”. Esta doação, feita a João Gondesindiz, do lugar de S. Martinho da vila de Tavarede, foi feita no dia quarto dos idos de Fevereiro da era de 1130 (10 de Fevereiro de 1092, da era de Cristo).
O lugar voltou à posse real e, em Novembro de 1191, o segundo rei de Portugal, D. Sancho I e sua mulher, a rainha D. Dulce, juntamente com seus filhos e filhas, coutaram e doaram à Igreja de Santa Maria de Coimbra “a vila que se chama Tavarede e está situada na borda do mar”.
Esta posse foi confirmada pelo rei D. Pedro I, no ano de 1358, pela sua carta de confirmação dos Coutos e jurisdições da Sé de Coimbra, onde se refere que “… mando que na vila de Tavarede tragam a jurisdição civel e que os feitos criminais os ouçam e livrem em Montemor-o-Velho…”.
O cabido da Sé de Coimbra tinha, então, o direito de dispor dos bens doados bem como certos privilégios, como, por exemplo, o de aqui cobrar impostos. Um destes privilégios era o chamado ‘imposto da colheita ou jantar’. Consistia, este imposto, no seguinte: Todos os anos o Deão da Sé de Coimbra visitava este lugar para receber o jantar, imposto pelas filhas do rei D. Sancho, D. Teresa e D. Branca, confirmado pelo rei D. Afonso III, o Bolonhês, e, posteriormente, modificado pelo rei D. Manuel I, que, em 9 de Maio de 1516, deu ‘Foral’ a Tavarede. Até que um dia…
Dom João, por Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio na Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. A Vós, Juizes do Couto de Tavarede, jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra e a todos os outros juizes e justiças, oficiais e pessoas dos meus reinos e senhorios a quem esta minha carta de sentença fôr mostrada e ao conhecimento dela por qualquer guisa que seja feita, saúde.

Faço-vos saber que perante mim, nesta minha Corte, e Casa de Suplicação e Juizes dos meus feitos, nela foi apresentado um instrumento de agravo que diante Vós tirou o Cabido, Dignidades e Cónegos da dita Sé, aos oito dias do mês de Julho de presente ano de mil quinhentos e trinta e seis, no qual se continha, entre outras muitas coisas nele contidas, que os ditos Suplicantes vieram com um requerimento por escrito, a Vós ditos Juizes, dizendo nele que o dito Couto era obrigado pagar de colheita e jantar ao dito Cabido, a seu recado para os visitar e lhes administrar justiça, por serem seus vassalos e sujeitos a toda a jurisdição cível ser sua, e sendo visitados em cada ano, até ao S. João de cada ano, e então eram as colheitas seguintes, a saber: dos moradores do dito lugar de Tavarede sem os do termo, pagavam pelos seus livros dos Direitos Alfandegários, seiscentos e oitenta reis da moeda ora corrente, e mais, pelas heranças do lugar da Chã e casais de cada um, dois carneiros e dois cabritos, e seis almudes de vinho da medida corrente, e dez galinhas e um quarteiro de cevada pela medida corrente de Coimbra, e mais cem pães ou por cada pão dois reis da sobredita moeda ora corrente, cinco reis para especiarias ou por elas cinco reis da sobredita moeda ora corrente, e meio alqueire de manteiga e outras coisas e vinagre que baste para as ditas coisas se cozinharem, a qual colheita ou jantar Vós Juizes e oficiais em cada ano fintáveis pelo concelho e pelo povo dele, segundo acima ficava declarado, e era tão antigo que não havia memória dos homens em contrário e o preço era notório dever-se, e assim o tinham por leis na sua Câmara, e ora findo como foram em nome do dito Cabido, Francisco Monteiro e Henrique de Sá e Jerónimo Salvado, cónegos, a visitar o dito Couto antes do S. João, neste ano de quinhentos e trinta e seis, no primeiro dia de Junho da dita era, e visitando e provindo em tudo o que era necessário, os ditos Juizes e oficiais punham dúvida a pagarem e lhe darem a dita colheita e não eram obrigados, pelo que vos requeria lhe desseis e pagásseis a dita colheita e o jantar deste ano de quinhentos e trinta e seis, como em cima era declarado…
Tudo se esclareceu. Os Juizes, vereadores e oficiais da Câmara de Tavarede não se negavam ao dever que tinham de pagar a referida colheita e jantar. Mas era paga ao Deão da Sé e não aos cónegos. Esta foi a dúvida levantada e que foi necessário o rei D. João III confirmar que o imposto devia ser pago à Sé de Coimbra ou aos seus mandatários. Continuemos a nossa história. É claro que, pela doação de D. Sancho I, o Cabido de Coimbra detinha o senhorio do território de Tavarede e, como tal, exigia ‘terrádego’ e ‘ração’ pelas transacções que os seus enfiteutas faziam de parcelas aforadas, segundo costume e direito. E tudo correu mais ou menos bem, até à chegada dos Quadros, pois “… os morgados de Tavarede, constituindo no panorama social da freguesia, um caso isolado de nobreza orgulhosa dos seus domínios e direitos, não reconhecendo qualquer suzerania nas suas terras, que com eles colidisse, negava correlativamente ao Cabido o direito às aludidas cobranças, que as leis lhe conferiam. Os Quadros de Tavarede tinham-se por dispensados da observância dos preceitos da enfiteuse…” (A população da freguesia de S. Martinho de Tavarede de 1700 a 1749, da drª. Maria Adriana Beirão Gonçalves).

sexta-feira, 27 de abril de 2012

QUADROS - Os Senhores de Tavarede

Não foram santos, antes, pelo contrário, alguns foram verdadeiros tiranos, opressores do povo tavaredense. Mas também tiveram os seus heróis, mortos nos campos de batalha, e virtuosos. Mas, em 1771, com a mudança da Câmara e suas Justiças para a recém-criada vila da Figueira da Foz do Mondego, acabou-se o seu poder em Tavarede, o sistema que aqui existia e que havia sido um verdadeiro feudalismo. Mas foi a Família Quadros, a partir dos fins do século dezoito, amiga e protectora dos habitantes da nossa terra. É a eles que Tavarede deve, de alguma forma, os princípios da Instrução, Cultura e Associativismo, que tanto elevaram a TERRA DO LIMONETE. Por isso, e embora de forma despretenciosa e muito incompleta, pretendo aqui honrar a memória de tão ilustre Família, recordando um pouco da sua História.

 

Paço de Tavarede, vista pelo pintor António da Piedade

Nota introdutória - Um breve comentário
Foi no ano de 1950, quando começaram os ensaios da peça-fantasia “Chá de Limonete”, no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, que comecei a conhecer a história da minha pequena e linda aldeia. Mestre José da Silva Ribeiro, Homem de uma cultura extraordinária e vastíssima, e que acabou, em consequência de circunstâncias conhecidas, por se dedicar, quase que em exclusividade ao teatro, à colectividade e a Tavarede, sua terra natal, foi o grande professor.

Tinha uma forma muito especial de nos ensaiar. Principalmente nos chamados “ensaios de mesa ou de leitura”, ele aproveitava para nos instruir e ensinar, muitas vezes não só sobre a acção da peça em ensaios, mas, também, divagando e esclarecendo a história, não só local, costumes e usos de outros povos e de outras gerações, criando em nós um verdadeiro interesse em aprender e a conhecer muito além daquilo que aprendíamos nos bancos das escolas.

Por outro lado, sempre que ia para a escola primária, sita aos Quatro Caminhos do Senhor da Areeira, olhava, com verdadeira admiração, para aquele enorme casarão, já em não muito bom estado de conservação, onde a tradição da terra dizia ter vivido uma importante família de fidalgos.

Naquele tempo, é verdade, aquela casa pouco nos dizia. Prestávamos mais atenção, é certo, aos pavões que abriam os seus lindíssimos leques no terraço da casa e ao pequenino macaco que, preso por uma corrente, passava o tempo a subir e a descer o pau a que se encontrava preso, descansando no topo do mesmo, sentado sobre um pedaço de tábua ali pregado.

Mas, quando comecei a ouvir, na peça acima citada, falar dos Morgados, da doação feita por um rei, do jantar ou colheita do Cabido, nos fornos da poia e, sobretudo, no terceiro acto, aquele magnífico poema do “velho palácio” – pedindo que, depois dos saraus gloriosos que vivera e que recordava, o deixassem apodrecer em paz, no chiqueiro infecto dos currais -, passei a olhar de forma bem diferente para o tal casarão e a desejar saber mais, muito mais, sobre aqueles fidalgos que ali viveram e, igualmente ambicionei, conhecer a história da minha terra, cujas origens perdem-se na noite dos séculos, conforme nos dizia Mestre José Ribeiro pela boca do personagem “Velho-Tavarede”.

Os anos foram correndo e sempre íamos escutando atentamente os ensinamentos que nos eram proporcionados. Até que um dia, foi uma das surpresas encontradas na minha já longa vida, dei por mim, devido à disponibilidade de tempo, procurando na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz e na biblioteca da Sociedade de Instrução Tavaredense livros, jornais e revistas ali existentes e que tratassem da história de Tavarede.

Encontrei muita coisa, especialmente na imprensa figueirense. Consultei atentamente todas as coleções dos jornais locais ali existentes, desde meados do século dezanove até à actualidade (esta actualidade, esclareço, refere-se ao ano de 2000). Achei tão interessantes os conhecimentos que fui adquirindo (copiava todas as notas encontradas referentes a Tavarede) que, a determinada altura, comecei a pensar se não seria bastante interessante ordenar aquelas notas, por temas, e fazer uns cadernos, onde fosse possível consultar o que se sabia sobre a história da minha terra, tão diferente actualmente que se tornava, na prática, impossível descobrir o que era nos meus tempos de criança.

Assim fiz e, sem verdadeiramente o ter procurado, surgiu a publicação de dois livros. Um sobre a história e outro sobre o associativismo em Tavarede e recordando algumas ilustres figuras, tavaredenses e não tavaredenses, que marcaram algo em vida em prol da nossa terra. Mas continuei sempre à procura de mais elementos, pois ainda havia muita coisa a consultar e a aprender. O que estava era muito disperso, tornando a busca mais difícil. Além dos jornais, nos trabalhos feitos por estudiosos investigadores e historiadores figueirenses, que se encontravam em vários livros publicados, a história de Tavarede ia-se abrindo para mim.

Uma fonte, verdadeiramente preciosa, está contida nos cadernos e livros manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo, um brenhense que, profissionalmente, se embrenhou, na Torre do Tombo e nos arquivos em Coimbra, nos velhos papéis e pergaminhos que por lá estão guardados e que teve a paciência e o trabalho de copiar, manuscritamente, para os citados cadernos e livros que doou à Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.

São verdadeiras preciosidades. Pena é que sejam, a maior parte deles, de leitura bastante difícil, pelo menos para nós, leigos e apenas curiosos na matéria. Naturalmente, pelo que me diz respeito, terei cometido alguns erros de transcrição. Julgo, porém, que em nada alterei o sentido do que lá está escrito.

Mas, evidentemente, por muito boa vontade que haja, da parte dos investigadores, não raras são as vezes em que se deparam com lapsos, lapsos estes que, na minha ignorância, copiei. Não têm, no entanto, gravidade de maior. A propósito da família Quadros, os célebres fidalgos de Tavarede, encontram-se algumas incorrecções nos cadernos acima mencionados, salvo o devido respeito à memória do Dr. Mesquita de Figueiredo, e que serviram de fonte informativa não só para mim, mas, também e por exemplo, para Mestre José Ribeiro.

Vejamos: na fantasia “Chá de Limonete”, numa das cenas do primeiro acto em que estão alguns populares a conversar com o Rendeiro do Cabido da Sé de Coimbra, sobre o pedido que este fizera ao Rei para mudar a Câmara de Tavarede para o lugar da Figueira da foz do Mondego, para acabar com o poder, verdadeiramente feudal, dos fidalgos Morgados de Tavarede, quando entra em cena o fidalgo este diz: Eu, Fernão Gomes de Quadros, oitavo senhor de Tavarede, não consentirei…

A questão está naquele oitavo senhor de Tavarede. A sua origem esteve nos famosos cadernos manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo. Também eu, no primeiro livro publicado, ao descrever a genealogia dos fidalgos Quadros, considerei aquele Morgado como o oitavo senhor de Tavarede. Parece, no entanto, ter havido erro e vou agora procurar esclarecer o caso.

Segundo o Dr. Pedro de Quadros Saldanha, descendente daquela ilustre família e que teve a trabalhosa tarefa de compilar e publicar um muito bem elaborado estudo, a que deu o título de ‘A Casa de Tavarede (1540 – 1906), de que existe uma cópia na Biblioteca da Figueira da Foz, que atentamente li e estudei, aquele seu ascendente não teria sido o oitavo mas, isso sim, o sétimo senhor de Tavarede. E, sinceramente, acredito que a razão estará do seu lado.

O Dr. Mesquita de Figueiredo refere Pedro Lopes de Quadros, o segundo do mesmo nome, como o quinto Morgado de Tavarede. Acontece, porém, que este morreu ainda em vida de seu pai, logo não herdando o morgadio, que passou, por morte de seu pai, para o seu filho primogénito Fernão, tal como seu avô. Esta a razão do fidalgo acima passar de oitavo para sétimo.

Também terá havido lapso com os três seguintes. Tendo sido Fernão (ou Fernando) Gomes de Quadros o sétimo, o oitavo foi seu primeiro filho, Pedro Joaquim. Mas, como veremos no capítulo próprio, este terá sido uma “espécie” rara nesta família. Por ter assassinado um tio seu, que era frade, foi condenado à pena de prisão perpétua. Logo, não podia ser o herdeiro, mas sim seu irmão, António Leite, que assumiu o cargo sob a tutela de sua mãe.

Mas o homem põe e Deus dispõe. Por amnistia decretada pela Rainha D. Maria I, Pedro Joaquim foi libertado. E foi com muita surpresa de sua mãe e de seu irmão, que o recém-liberto apareceu em Tavarede e reivindicou para si a herança de seu pai, passando a ser, logicamente, o oitavo senhor de Tavarede. Mas foi-o por pouco tempo. Voltou à libertinagem e à bebida e fez tais desacatos, que aquela amnistia foi revogada e foi novamente conduzido à prisão, não mais voltando a Tavarede, pois faleceu na cadeia.

E então, com toda a legitimidade, seu irmão, António Leite, foi o seu herdeiro, passando ele a ser o nono senhor de Tavarede. Este, militar de carreira, acabou por morrer solteiro, não deixando, portanto, descendência. Mas deixou testamento, legando o morgadio e o título a sua sobrinha, D. Antónia Madalena, filha de sua irmã, D. Joana Madalena. Está refeita a sequência cronológica e D. Antónia Madalena foi a 10ª. senhora de Tavarede, como vulgarmente é conhecida. Lá mais para a frente veremos toda esta história mais desenvolvidamente.

Surgiu-me, ao ler tudo isto, a vontade de fazer mais um caderno para tentar deixar escrita, de forma simples, a história desta família. Dei-lhe o título de “QUADROS – OS SENHORES DE TAVAREDE”. É claro que se trata, única e exclusivamente, de copiar trabalhos de outrém ou de aproveitar-me deles. De origem minha muito pouco será encontrado. Mas serei perdoado pela ousadia. Na verdade, a vida destes fidalgos durante cerca de dois séculos e meio, teve enorme importância na história tavaredense. Alguns, todos o sabem, foram mesmo maus, egoístas, déspotas e tiranos. Abusaram altamente de hipotéticas regalias e procederam de tal forma que chegaram a cumprir penas de prisão e de degredo em África. Mas nem todos terão sido assim.

Há casos, e refiro-me somente, por aqui, a D. Antónia Madalena, a décima senhora de Tavarede, que, diz a lenda, foi enterrada ainda com vida… Terá sido a verdadeira antítese dos seus antecessores. Chegam a ser comoventes algumas situações que teve de suportar e viver. E logo ela, que foi casada com um dos mais ilustres fidalgos portugueses daquele tempo! Veremos, contudo, se serei capaz de levar a efeito a tarefa a que me propuz e meti ombros.


Teatro da S. I. T.- Notas e Críticas - 25

1955.02.03 - SERÃO HOMENS AMANHÃ, EM MARINHA GRANDE (REGIÃO DE LEIRIA)

Mais uma vez o “Teatro de Tavarede” na Marinha Grande, sob os bons auspícios do SOM e habilmente guiado pelas “mãos milagrosas” do exmo.sr. José da Silva Ribeiro, competentíssimo director, ensaiador, alma do “Grupo Cénico de Instrução Tavaredense”.

Este grupo que já nos tinha dado um esplêndido e invulgar “Frei Luís de Sousa”, trouxe-nos desta vez a peça argentina “Serão homens amanhã”. O seu autor apresenta-nos um drama da vida real, o velho tema dos filhos ilegais, inocentes vítimas das irregularidades da carne, cujo problema é de ontem, de hoje, de amanhã e de sempre, e será pelos tempos fora de palpitante actualidade.

O seu autor (da peça) mostra-nos o drama que se desenrola, surdamente, num entrechocar de paixões, à volta de três inocentes crianças, que vivem felizes, alheias às misérias humanas, ignorando-as completamente, bem como a sua pecaminosa origem, pois são filhos de uma mulher solteira e dum homem com um lar exterior legalmente constituído, que se serve de vários embustes para mascarar a sua paternidade.

O drama inevitável surge e um temporal desfeito fustiga inexoravelmente o pseudo-casal, como um látego justiceiro, até que uma alma generosa – outra vítima desses embustes – salva a situação, levando a todos uma regeneração digna, a bonança enfim, acabando tudo em bem. O autor da peça resolveu aquele difícil problema, com um final bastante simpático, o público gostou, aplaudiu e saiu satisfeito.

Porém, na vida real, raramente aquilo sucede, e no geral, as crianças, as inocentes vítimas do pecado, são como que uma bola de futebol, aos pontapés de uns e outros, no terrível jogo da vida, em que o árbitro é o Destino, o público – a sociedade que os despreza, e o resultado da luta – inferioridade em que são colocadas em relação aos filhos do matrimónio. E para todos, afinal, são os filhos dum pecado que eles não cometeram...

Na peça “Serão homens amanhã” tudo acaba em bem, graças a Deus. A interpretação....(falta texto)....... Cró Brás (Chiquinho), João José Nogueira e Silva (Eduardinho) e a mais velhinha, Maria Natália Santos (Mariazinha); a caminhar assim e dirigidos por mão de mestre, dentro em pouco serão realmente “os homens de amanhã”. Enternece vê-los e dá vontade de abraçá-los!

O sr. João Cascão (Carlos) é outro grande esteio do grupo. É um verdadeiro actor. Chega a convencer que não faz outra coisa que representar! Ele foi o anjo salvador daquelas crianças e da mãe, de uma derrocada moral e social, e tão bem o fez, que nos pareceu realmente o pai dos três filhos...

O sr. Fernando Reis (Luís Reys), o verdadeiro pai e o maior pecador da peça, foi, por fim, e com muita verdade, a alma que se sacrifica pela felicidade dos filhos, recebendo como castigo da sua falta, a grande chicotada do Destino e que foi a destruição do seu lar verdadeiro.

O sr. António Jorge da Silva (Hermenegildo) e D. Maria Teresa de Oliveira (Delfina) são os pseudo-avós dos pequenos; foram dois velhotes impagáveis, alegrando a peça com a sua graça e ingenuidade provincianas, sem ao de leve suspeitarem da tragédia de que estavam sendo comparsas. Também e com toda a justiça merecem parabéns.

A criada Joana (D. Vitalina Lontro) foi uma verdadeira criada, até no simples gesto de atar o avental, e os srs. António da Silva Coelho e João de Oliveira Júnior, em dois papéis episódicos, não desmancharam aquele belo conjunto, bem como o sr. José Luís do Nascimento, no criado. Cenários magníficos, modernos, vistosos, do prof. sr. Manuel de Oliveira.

O arranjo das cenas, a decoração do palco com um esmero escrupuloso nos mais pequenos pormenores, tornando os interiores de agradabilíssimo aspecto.

Mais uma vez o “Grupo Cénico de Instrução Tavaredense” venceu na Marinha Grande e por isso estão todos de parabéns bem como o seu Director exmo. Sr. José da Silva Ribeiro, e... até à próxima!

1955.03.24 - TAVAREDE, ALDEIA-ESCOLA DE TEATRO! (JORNAL DE ACTUALIDADES)

Quando aceitámos a direcção desta página, imediatamente nos propusemos cumprir uma missão que há muito desejávamos realizar: a utilização deste espaço que o destino nos oferecia para, sempre que fosse possível, acompanharmos o esforço do teatro amador português. No meio de tanta desorganização, indisciplina e comercialismo – o barómetro parece indicar sensível melhoria de tempo... – determinados grupos de amadores representam uma luz muito viva a pretender atravessar o nevoeiro que, desde há um certo tempo, caíu sobre alguns dos poucos palcos da nossa terra.

Para o leitor desprevenido o facto de iniciarmos esta primeira fase de colaboração com os amadores teatrais, escolhendo um grupo duma modesta aldeia beirã, Tavarede, poderá causar uma relativa estranheza. Mas Tavarede é um nome a fixar por todos quantos ainda sentem forças para lutar pelo progresso duma arte que é um dos pilares mais sólidos da cultura dum país!

A aventura maravilhosa daquela aldeia pobre, a espreitar a Figueira da Foz, é uma verdadeira gesta de amor e de dedicação. Noite caída e ceia tomada, rapazes e raparigas de Tavarede, trabalhadores do campo e das oficinas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros dirigem-se para o pequeno palco-escola da Sociedade de Instrução Tavaredense, uma associação cultural e recreativa fundada em 1904, que tem, desde a sua fundação, mantido um extraordinário labor.

Esta associação derrama a sua benéfica e luminosa actividade numa aldeia muito pequena e esse mesmo motivo faz com que poucas famílias não tenham representação no seu grupo de amadores teatrais.

José da Silva Ribeiro tem conseguido o milagre de num espaço de trinta anos manter o fogo sagrado do Teatro em Tavarede. A sua invulgar têmpera e tenacidade, o seu sentido de orientação fez com que peças como “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “A Nossa Casa” de George Michel, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler e “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça fossem representadas no minúsculo palco da Sociedade de Instrução Tavaredense. O drama “Frei Luís de Sousa” de Garrett – que ainda há pouco tempo foi apresentado em Coimbra – mereceu uma montagem que a todos tem deixado em espanto, pela verdade minuciosa da sua expressão plástica. E Gil Vicente, nos Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” encontrou na boca do povo que ele tanto amou, o eco imortal das suas frases eternas.

Mas o aspecto para nós de maior realce na actividade de José da Silva Ribeiro está consubstanciado na sua ideia de tornar os amadores de Tavarede intérpretes conscientes das personagens, dos seus sentimentos, das ideias que as determinam na época em que vivem e do ambiente em que essas mesmas personagens se movem. Tudo lhes é indicado através de pequenas palestras durante os ensaios, palestras que são esquematizadas sem ar de lição mas que são compreendidas pelo seu heterogéneo grupo de amadores.

Parece-nos que mais não será necessário escrever para que fique esclarecido porque chamámos a TAVAREDE, a aldeia-escola de Teatro.

E para começarmos o nosso entusiástico roteiro não poderíamos deixar de escolher esse admirável agregado beirão, composto de gente que trabalha arduamente todo o dia e que, à noite, procura no Teatro a sua fonte de saúde mental.

Falámos de TAVAREDE. E isso muito nos honra.

1956.01.08 - ANA MARIA, NA FIGUEIRA (DIÁRIO DE COIMBRA)

A função da crítica em presença duma obra é da sua análise profunda baseada numa observação sistemática. Para toda e qualquer manifestação de arte o crítico tem de se situar nesse plano e só a partir dele deve actuar. Qual será então o motivo porque nas críticas teatrais feitas neste jornal a primeira coisa que se escreve é: Teatro de Amadores ou Teatro de Profissionais?

Se vivessemos num país onde o Teatro constituísse uma séria e portanto basilar manifestação artística ter-se-ia de estabelecer a mesma separação?

Evidentemente que sim. O profissional de teatro é o trabalhador de teatro como o cavador é o profissional da enxada e o intelectual o do livro. Já viram como o homem da cidade pega numa enxada? e a dificuldade com que o nosso trabalhador do campo lê um jornal?

Há portanto que destrinçar. Em países de fraca tradição teatral, com raras excepções, tem sido sempre o teatro de amadores que cria as grandes renovações. Desde há uns trinta anos a esta parte que o arrojo, principalmente da juventude, tem lançado esta arte na conquista de novas posições. Teatros experimentais ou de vanguarda – teatros de amadores – (a comercialização vem depois), foram trampolins para muitos êxitos, êxitos devido à estagnação de processos, o fraco nível moral e intelectual, os iletrados arrivistas dirigindo a mais complexa das artes, às sujeições de toda a espécie sem excluir a censura, etc., etc., etc. O Fundo de Teatro recentemente criado no nosso país o que visa a defender? O teatro? Qual teatro? Com t ou T? Onde ir buscar os alicerces que faltam para se criar um verdadeiro teatro? As respostas a estas perguntas deu-as aquele Fundo concedendo subsídios a Companhias Teatrais lisboetas que pelo que me foi dado observar até hoje não merecem de forma alguma esse subsídio. Qual o critério utilizado pelo Fundo para essa concessão? Que garantias recebeu das Companhias que subsidiou? Quais as pessoas capazes onde garantiu as centenas de contos concedidos em dois anos de trabalhos ineficazes e circunscritos à Capital? (Acaso a Província não terá categoria para apreciar esses espectáculos ou os espectáculos não terão categoria para vir à Província?).

Coimbra há quatro anos que não vê teatro declamado por uma companhia portuguesa ou pelo menos por um conjunto que mereça esse nome. O Fundo de Teatro não terá nada que ver com isso? Não falamos é claro no Teatro dos Estudantes que apesar dos seus dezoito anos de trabalho incessante em prol do Teatro Português aquém e além fronteiras, onde actuou de molde a envaidecer o Mestre que o dirige e os estudantes que o compõem e que representando este podre teatro português conseguiu que as gazetas o distinguissem sem ter que levar as notícias às agências telegráficas nem pagar aos críticos dos jornais. E qual a razão por que este grupo não foi subsidiado? Dará menos garantias artístico-culturais que os beneficiados ou a sua obra estará para além da compreensão daqueles a quem compete zelar pela valorização do teatro português?

E como pode o Fundo de Teatro alhear-se do que se passa com o Conservatório?

Para uma verdadeira ressurreição do teatro em Portugal não seria necessário uma valente vassourada, naquela casa? Quando é que o Conservatório se lembrará de apresentar espectáculos teatrais com os seus alunos, de forma a poderem apreciar-se os métodos e observar-se as revelações?

E não seria uma obra de largo alcance social e de profunda projecção nessa mesma valorização do teatro português que o Fundo de Teatro providenciasse a criação da Casa do Actor Profissional para onde fossem levados aqueles actores que todos reconhecem estarem já incapacitados de representar mas que as condições de vida obrigam a trabalhar e os críticos (?) a aplaudir devido ao seu passado?

E basta de considerações que não caberiam num jornal inteiro quanto mais num artigo.

Por tudo isto se vê que aos profissionais há que exigir a apresentação de espectáculos impecáveis e incentivar e aplaudir todas as manifestações honestas que dentro do campo do amadorismo (e bem poucas são) existem no nosso país. São estas que ainda constituem a pedra de toque (ainda que fraca) que nos permite verificar a pobreza do que os profissionais mostram sobre as tábuas.

Fomos à Figueira ver o “Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense”. José Ribeiro com uma persistência todos os títulos notabilíssima tem mostrado à gente da sua terra quase todos os aspectos por que o teatro se desdobra. Não pára. Agora foi uma opereta. Diga-se desde já – para além das restrições que se façam – que no estado actual do teatro português poucas terras do nosso país com a matéria prima de que podem dispôr, apresentariam um espectáculo como o que vimos. Quero com isto dizer que o espectáculo é uma perfeição? De maneira nenhuma; até porque não é este o género de teatro a que José Ribeiro se tem dedicado e uma opereta necessita antes de tudo o mais de vozes. José Ribeiro sabe-o bem e por isso mesmo procurou compensar esta falta que os ouvidos acusam com um guarda-roupa e caracterizações que os olhos apreciam. Quanto ao original surge-nos desiquilibrado. Há cantores a mais no 1º acto e muitas palavras no 1º quadro do 2º, equilíbrio dos segundos quadros do 2º e 3º actos.

A música de Joel de Mascarenhas é fraca e não ajuda em nada a criar o ambiente em que a peça se situa. Os cenários agradáveis. A orquestra à parte um ou outro descontrole dos instrumentos de sôpro teve nos violinas e no flauta o seu melhor.

A movimentação de cena esteve de uma maneira geral certa faltando às raparigas do coro naturalidade de salão em certas marcações musicais; aliás é a música que convida o “passo de rancho” em alguns momentos.

Na interpretação António Jorge da Silva, Vitalina Gaspar Lontro, Violinda Medina e Silva, Maria Isabel Reis e José Maria Cordeiro notabilizaram-se; a Manuel Gaspar Lontro faltou a convicção que caracteriza todos os malabaristas de feira; quando a arranjar fará um papel à altura dos primeiros.

É mais um espectáculo do Grupo de Tavarede que merece ser visto e aplaudido, um espectáculo escrito, musicado e representado por portugueses e que por isso mesmo não interessa ao Fundo do Teatro.

Quando manifestações como esta e como poucas mais merecerem o amparo e carinho dos que têm por obrigação defender o teatro em Portugal então pode ser que começando-se pelo princípio se faça obra de projecção. De outra maneira é tempo e feitio perdidos. Crie-se público em todo o país; criem-se actores dignos desse nome; mandem-se aprender ao estrangeiro os poucos que podem ser directores de cena no nosso país; expulsem-se os vendilhões do templo e só então se poderá começar a marchar rumo a um teatro – representado, escrito ou representado e escrito – em Portugal.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

O episódio último, publicado no jornal 'Gazeta da Figueira' no dia 5 de Dezembro de 1896, foi o fim destas 'Recordações' que Ernesto Fernandes Tomás nos deixou e que tão úteis se têm revelado para todos quantos procuram conhecer um pouco da história próximo passada da terra do limonete.
Ernesto Tomás, que assinava os seus escritos, sob o pseudónimo de 'Estoern', sofreu um grande desgosto com a morte de um filho e a partir daquela data, a doença apoderou-se dele tendo falecido pouco tempo depois.

Irei, seguidamente e a partir da próxima semana, publicar um pequeno 'trabalho' que escrevi sobre os 'Quadros - Os Senhores de Tavarede'.

sábado, 7 de abril de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas -

1953

TEATRO

De Buarcos – Conforme noticiámos, veio no passado domingo ao Teatro Trindade, desta vila, o distinto Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que honrou a terra com o célebre drama “Frei Luiz de Sousa”, representação esta em benefício da Associação dos Bombeiros Voluntários. O povo de Buarcos soube corresponder, pois a casa não podia comportar mais gente, completamente cheia. Bem haja esta benemérita Associação, que deve ter tirado qualquer resultado. Pena foi a casa não satisfazer o desejo de todos aqueles que quizeram contribuir, por ser pequena.

No desempenho da peça, não sabemos quem destacar, desde o protagonista até aos coros. Montagem, encenação e desempenho impecáveis. João Cascão e Violinda Medina e Silva nos papéis de Manuel (Frei Luiz) de Sousa e Dona Madalena de Vilhena; Maria Alice da Silva Mendes no papel de Dona Maria de Noronha; João de Oliveira Júnior no Frei Jorge Coutinho; Fernando Reis, no Romeiro e António Jorge da Silva, no Telmo Pais, foram de um extraordinário êxito, pois arrancaram aos espectadores os mais repetidos aplausos num nunca mais acabar, fazendo vir à cena o ilustre ensaiador sr. José da Silva Ribeiro. O público saiu convencido que voltará a ver muito em breve aquele muito apreciado Grupo Cénico em Buarcos, proporcionando-lhe um tão belo passatempo.


O Secretário da Direcção dos Bombeiros teve palavras de agradecimento para com a Direcção do União e do Grupo Cénico e muito especialmente para o seu director sr. José Ribeiro, que mostrou sempre de uma forma muito gentil e simpática a sua melhor boa vontade. Gostariamos de dar aqui resposta às consultas que nos têm sido feitas àcêrca de nova representação em Buarcos pelo Grupo de Tavarede, mas, limitamo-nos a encolher os ombros e a aguardar. Da nossa parte apresentamos os nossos parabéns à Sociedade de Instrução Tavaredense, que se presa de ter um grupo cénico digno de ser visto em qualquer parte. (O Figueirense – 01.24)

A SIT EM LEIRIA

A Sociedade de Instrução Tavaredense, com o agradável perfume do limonete – “alegria” desta pequenina aldeia – e a ansiedade de bem-fazer nos corações dos seus componentes cénicos, vai realizar mais uma jornada a Leiria, no dia 9 do corrente, e representar do Teatro D. Maria Pia a peça encantadora “Pé de Vento” dos saudosos e consagrados escritores espanhois, Irmáos Quintero, revertendo o produto da récita em benefício do Jardim-Escola João de Deus da simpática cidade do Lis.


Estamos convictos de que esta jornada será mais um triunfo para a Sociedade de Instrução Tavaredense, pois que o meio em que vai actuar sabe fazer justiça ao valor teatral dos que se lhes apresentam – quer sejam artistas de profissão, quer sejam simples amadores que do teatro colhem apenas o enlêvo espiritual.


Os nossos conterrâneos já são conhecidos da plateia de D. Maria Pia, de Leiria, e mais uma vez hão-de agradar com a interpretação da linda peça dos Quintero. (Notícias da Figueira – 02.07)


A SIT EM LEIRIA

Conforme dissémos a Sociedade de Instrução Tavaredense, foi a Leiria dar uma récita a favor do Jardim Escola João de Deus daquela cidade. Referindo-se a esse espectáculo de beneficência o jornal “Região de Leiria” diz:


“O Grupo Cénico de Tavarede realizou, no dia 9, o anunciado espectáculo a favor do Jardim Escola desta cidade. O Teatro D. Maria Pia, engalanado com bandeiras do concelho e bibes das crianças do Jardim Escola, estava cheio.


A representação da peça Pé de Vento agradou, sendo todos os seus intérpretes muito aplaudidos. No final do 2º. acto, o sr. Miguel Elias, em nome da Direcção, regente e professoras daquela instituição, proferiu palavras de agradecimento e elogio ao Grupo de Tavarede e seu Director, sr. José Ribeiro, aos quais ofereceu lembranças de mais esta benemérita visita a Leiria, lembranças que foram entregues por antigas alunas do Jardim Escola.


O sr. José Ribeiro – que é um experimentado e brilhante jornalista, democrata do mais puro quilate – expressou, em curto mas vibrante discurso, impressionante de sinceridade e grandeza moral, a devoção do seu Grupo à causa da solidariedade humana e o reconhecimento do mesmo pela forma como Leiria sempre o tem recebido”.


É com prazer que registamos a benemérita acção da Sociedade de Instrução Tavaredense e a continuação dos seus triunfos. (Notícias da Figueira – 02.21)


SERÃO HOMENS AMANHÃ

Alcançou extraordinário agrado a nova peça da Sociedade de Instrução Tavaredense – “Serão Homens Amanhã” -. O público, que esgotou a lotação e aplaudiu calorosamente, deixou-se empolgar pela curiosíssima alta-comédia. Rindo a bom rir com os ditos espirituosos e as situações imprevistas que se depararam no decorrer dos 3 actos, e enterneceu-se até às lágrimas nos passos em que o problema que dá o entrecho à peça é apresentado nos seus aspectos mais sérios.


“Serão Homens Amanhã” constitui um belo e risonho espectáculo que distrai, encanta e enternece, deixando o espectador contente e justificando plenamente o que escreveu o crítico do “Diário de Lisboa” quando, há 2 anos, esta obra argentina se estreou em Portugal.


“Teatro muito agradável. Essa exposição modelar de factos e cenas, mantém-se do princípio ao fim, ainda quando a história nos dá alguns truques e imprevistos, ou mesmo inverosimilhanças. Deve repetir-se que o assunto é tão habilmente explorado que desejamos, à medida que os factos se vão desenvolvendo, que se dê, na verdade, aquilo que acontece, o que só por si é uma indicação clara e valiosa da forma como se acha tratado”.


“Serão Homens Amanhã” repete-se hoje em última representação, na sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, estando já assegurada nova enchente (Notícias da Figueira – 12.25)

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

Largando o paradeiro aonde nos ensaboaram, enfiámos loja adentro do tio João Movilha. O Alexandre lá estava na sua mesma atitude trocista, garrotado na longa golla do jaquetão e fumando freneticamente no seu inseparavel cachimbo.


Uma descompustura que á queima roupa lhe démos, a proposito de ter-nos indicado o tal mestre, nada produziu no seu espirito para que se commovesse! Ria a bandeiras despregadas e talvez mais por ver-nos encavacado.


Um dize tu, direi eu, que estabelecemos, fazia rir de bom humor o velho Movilha.


Pelo meio da tarde d’esse dia de burlescos sucessos, lembrámos a Alexandre que nos achavamos ao acazo, sem eira nem beira, e precisados d’uma pousada certa, definida - um hotel barato perto da Ribeira, mas pouco exigente nos nossos magros fundos.

- Aqui por cima, no primeiro e unico andar, disse-nos elle, ha um nas circumstancias que desejas: é o hotel Cezimbrense aonde estou installado. Vaes para o meu quarto.


Aceitámos; ficando para a noite o visitarmos a nossa installação.


Pela noite, a horas de recolher, lá subiamos as escadas do tal Cezimbrense, e encontrando ao cimo a locataria - uma senhora quarentona, gorda e prasenteira, a quem fomos apresentado pelo nosso amigo, ao mesmo tempo que este declarava estarmos envestido na qualidade d’um novo hospede.


Adiante do ultimo degrau da escada abria-se uma saleta, pouco mais larga do que um corredor, aonde estacionava uma meza d’abas, tendo em cima um candieiro com a luz abafada por um abatjour. A uma das extremidades acostava-se uma senhora, ainda nova, filha da dona da casa, que a custo deixou um romance que ia lendo para fazer-nos uma leve inclinação de cabeça.


Podémos de relance notar que, essa indifferença, aliás natural nas pessoas acostumadas á entrada de hospedes a cada hora, não se estendia até á personalidade de Alexandre.


Hum... fallavamos nós para dentro - aqui ha coisa.


Dentro em pouco, sobre a mesma mesa estendiam-se as chavenas do chá para uma ceia-leve.


Alexandre ia a pouco e pouco sorvendo o contheudo da chavena e olhando a furtos para a pequena do romance que lhe ficava ao lado. Encetou-se uma conversação para encher quartos d’hora, em que a dona da casa não deixava esquecer a sua espionagem policial, para saber d’onde eramos, de d’onde vinhamos, e se tencionavamos demorar muito em Lisboa. Mas isto, dito entre sorrisos amaveis, delicados, e entremeiados d’uns parenthesis captivantes, muito naturalmente dirigidos á nossa magra bolça.


Não sabemos porquê, sentiamo-nos ali mal e bem. De quando em quando o nosso tympano auditivo, era desgostosamente despertado por um regougar estranho, muito semelhante ao longinquo quebrar das vagas, com sibilos intercalados, modulados pelo assobiar do vento no cordame dos navios.


Este assobiar desusado vinha-nos do lado de uma porta que se abria para a pequena saleta em que estavamos ceiando.


- Que diabo de assobiadela é esta? diziamos para o Alexandre.


- Ora... são hospedes que pernoitam cá na casa.


- Sim, repetimos... olha que isto mais parece uma philarmonica desafinada, do que gente que possua um nariz educado.


Riram-se todos.


D’ahi a pouco havia terminado a ceia, e fazendo nós as despedidas da noite ás donas da casa, fomos entrando a fatal porta de d’onde vinham os roncos que admiramos.


Por infelicidade o quarto que nós e Alexandre iamos habitar era contiguo ao detestavel paradeiro onde jaziam, quantas duzias de alemtejanos, deitados em camas infileiradas, á guiza de hospital. (Gazeta da Figueira - 5.12.1896)