segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 15


Foi um ano histórico, o de 1928, para a Sociedade de Instrução. A sua secção dramática teve uma actividade extraordinária. Bastará dizer que, no relatório da direcção, se escreve “... seja-nos permitido dizer que esta verba (17.000$00), nunca até hoje atingida em espectáculos de anos anteriores, representa um esforço de grande valor e digno da maior admiração e reconhecimento de todos os que fazem parte desta Sociedade, para com o seu grupo dramático...”.
Antes de pormenorizar um pouco do que se realizou em espectáculos, vamos transcrever mais um pouco daquele relatório, mas, agora, sobre a escola nocturna: “... tinha esta direcção o maior empenho em transformar completamente a sua escola, dotando-a com um professor efectivo profissional, apetrechá-la com o necessário material escolar e ainda introduzir-lhe alguns melhoramentos internos e o rasgamento de portas e janelas necessárias para a tornar, enfim, aquilo que de facto deve ser uma escola de primeiras letras: Higiénica, Alegre, Atractiva, Confortável e Útil”. Boas intenções, sem dúvida, mas que só parcialmente foram realizadas, por falta de verbas.
Pelas comemorações do 24º aniversário, Tavarede esteve em festa, “sendo evidente o entusiasmo e alegria com que a população se associou ao regozijo dos associados da colectividade, cuja acção educativa vem sendo proficuamente exercida há mais de duas dezenas de anos”.
Fez parte do espectáculo de gala mais uma revista sobre os usos e costumes da terra do limonete. Foi seu autor José da Silva Ribeiro, com versos de Gaspar de Lemos e a música era de António Simões. Chamava-se “Retalhos e Fitas”. Pelo Carnaval, além desta revista e de uma comédia, representou-se D. Ferrabrás de Alexandria, tragédia burlesca, em verso, com música e representada duma “maneira original”. Quando lemos esta notícia, logo nos veio à memória nossa tia Helena Figueiredo Medina, que, quando se encontrava bem disposta, já centenária, evocava tantas vezes esta peça, começando com “um dia, numerosa cavalgada...”, continuando o seu recitativo sem hesitações e com uma memória admirável.

E em Abril de 1928, mais precisamente, no dia 28, é levada à cena aquela peça que se tornaria no emblema maior do nosso grupo cénico, “O Sonho do Cavador”. Uma das muitas notícias de então, depois de comentar a estreia da peça, conclui “em resumo: O Sonho do Cavador marca em Tavarede, que é uma pequena e bem pobre aldeia, um acontecimento de certo relevo artístico”.
Mas, qual terá sido a razão para tão grande sucesso? “A peça encerra a história, que é apresentada com fantasia dentro da qual a verdade tem lugar, dum cavador que a ambição da riqueza leva a abandonar a aldeia, depois de atirar fora a enxada e amaldiçoar o trabalho. Como trabalha desde pequeno, julga ter conquistado o direito à felicidade – e para ele – a felicidade não se encontra fora da riqueza e esta não se alcança cavando a terra. Na própria ambição encontra o castigo do seu erro; vê-se mais pobre do que era, e as figuras simbólicas dos três homens felizes mostram-lhe como os pobres, os humildes, também, podem gozar a felicidade; o cavador regressa à aldeia, onde o esperam ainda a enxada leal e a noiva fiel – e a peça fecha com o elogio da vida simples e humilde do

campo, na qual a saúde do corpo anda sempre junta à alegria da alma”.
É este o fio condutor da peça, desde a abertura, com a sesta do Manuel da Fonte em que, mais uma vez, ele sonha com a riqueza, e o final, em que o cavador, guiando a charrua puxada por uma junta de bois, abre os sulcos na terra, onde, um pouco atrás, Rosa, já sua esposa, vai espalhando a semente.
Pelo meio, no decorrer nos dez quadros que compunham a versão primeira, desfilavam cenas e figuras caracteristicamente tavaredenses, como o cortejo da Merenda Grande, e figueirenses, com a presença do afamado Concurso Hípico.
Grande parte do êxito é da responsabilidade dos 28 números de música, que compõem a partitura da maestro amador António Simões. A quinta representação, em 26 de Maio, é em sua homenagem. “António Simões foi alvo duma ovação no final do primeiro acto, ovação que se repetiu calorosamente no fim do espectáculo, quando, em nome dos intérpretes da peça, lhe foi entregue um lindo ramo de cravos. O palco ficou coberto de flores”.

Fotos: 1 - O Tio João da Quinta, dando o 'sim' à filha, Rosa e ao Manuel da Fonte. 2 - 3 - 4- As mesmas figuras em desenhos do Prof. Alberto de Lacerda

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