Aniceto – Falas com cadência. Bebe que a murraça não é má. Conta comigo p’ra t’ajudar na vingança. Eles têm medo de ti e com certeza vás dar-lhe um calor e botas com eles em terra, apesar de serem muitos.
Bonifácio – Vem bês, que eu cheguei a andar na escola que eles lá têm, mas não aprendi nada lá, porque sei mais do que todos eles. Sou muito bem capaz de lhes dar lições cá de certas coisas que tu também não perceves. Eu seja da cor d’este bonet se não acabar com aqueles cachorros com que não se pode caçar. Olha cá, a escola serve para alguma coisa? (gesto indiferente do Aniceto, com quem diz: é claro que não!) Pois é claro que não serve! Tudo se faz na boa harmónia. Arranja-se uma tuna que toque bonitas sinfónias, porqu’é assim com as melódias e com colmeias e semi-colmeias que o home toca no rabecão que se evitam estas questãos e as sensabórias e fica certo de que apanham a catastrófe. Oh! se apanham! Tenho cá a coisa preparada p’ra eles irem p’ra terra e nunca mais se levantarem.
D. Limonete – (que tem entrado e ouvido a conversa) Não vos reconheço direito para falarem assim. Deitar por terra uma instituição que procura arrancar das trevas da ignorância os filhos da sua terra, ministrando-lhes a luz bendita da Instrução, que procura a todo o passo substituir esta atmosfera pesada e perigosa que existe na taberna por outra mais suave e proveitosa que se encontra na Associação. É obra muito pesada para vocês, apesar de possuírem em elevado grau a astúcia necessária para praticarem o mal. Movei-lhe, embora, guerra sem tréguas, que ela aguardará o vosso ataque no seu posto d’honra, sem o temer, porque sabe que combatentes da vossa laia usam por balas as pedras da rua e por pólvora a areia das valetas, como os rapazes nas suas espingardas de cana, mas, depois do combate, o vosso sonho há-de desfazer-se, e então vereis que a Sociedade d’Instrução, longe, muito longe de caír moribunda, prossegue desafrontadamente a sua marcha pela estrada do Progresso. Como é triste o contraste que existe entre a Sociedade que vocês odeiam e a Taberna que lhe preferis: - Aqui, a corrupção, a intriga e a desordem. Acolá, a Paz, o Trabalho, a Instrução!
Fiscal – Mas quem é a srª da menina que tanto se interessa por essa gente que tem o mau gosto de abrir os olhos à canalha de pobretanas que em sabendo ler são os que mais engulhos nos fazem?
Várzea – Eu sou a Várzea, marida do sr. D. Limonete. Coitado; não sai há dias de casa porque sofreu um grande choque eléctrico quando estava a falar ao telefone pedindo à direcção do correio para a correspondência ser por aqui distribuída mensalmente, havendo assim mais vagar para a ler.
Fiscal – Estimo muito conhecê-la, minha rica menina, mas que quer? Eu preciso de chelpa para manter o meu cardanho e arriscar umas rodas em plenos da roleta. Nem eu, nem os cidadões que deram à dica este gancho, queremos saber de escolas nem de instruir os pobres. Olhe, vê-os, os cidadões? Eles não tiram os olhos e os narizes do fundo das minhas costas. A menina deve conhecê-los...
Várzea – Se conheço!... A alguns já a Sociedade que eles atraiçoam e apedrejam cobardemente mitigou a fome em ocasiões amarguradas. A eles e suas famílias. Serpentes abjectas, que bem depressa esqueceram os benefícios recebidos.
Fiscal – Serão tudo que a menina Várzea lhes quiser chamar, mas se eles não vissem ratos na lua não descobriam a maneira de eu vir aqui surripiar algum l’argent ós gajos da Instrução."