sábado, 19 de dezembro de 2009

Natal em Tavarede

Estamos a chegar ao Natal. E, logo a seguir, ao Novo Ano de 2010.

Também tenho que dizer e recordar qualquer coisa sobre o Natal. E começo por recordar uma pequena notícia encontrada e que nos diz como era festejado na nossa terra. E, como terra de Teatro, além da festa religiosa, com a tradicional 'Missa do Galo', eram indispensáveis as representações do 'Presépio'. E tinham fama os presépios em Tavarede. Já por volta de 1865 para o nosso patrício Joaquim Alves Fernandes Águas, 'o Presépio era o cúmulo dos divertimentos'. E não esqueçamos que Anibal Cruz nos deixou a nota de que sua avó lhe dizia que 'nos tempos dela, chegaram a representar-se em Tavarede, cinco presépios ao mesmo tempo'. Era isto nos velhos cardanhos, nas célebres associações dramáticas 'que vegetavam em Tavarede como tortulhos'.



"Foi extraordinário, muito grande, como nunca vimos, o número de fiéis que correram nossa igreja para assistir à festividade que ali se fez na noite de 24 para 25, celebrando o nascimento do Menino-Deus.
Era meia noite quando, desvendado o trono do altar mór, disfrutámos um espectáculo sublime: um pequenino presépio rodeado de dezenas de lumes que reluziam brilhantemente por entre aquele belo quadro, que a todos os cristãos inspira tanta fé e ardente comoção.
Ecoou então por todo o templo a 'Glória in excelsis Deo', e continuou em seguida a cantar-se a missa, que findou às 2 horas, sendo celebrante o revdº vigário desta freguezia sr. Costa e Silva; serviram de acólitos os coadjutores de Quiaios e das Alhadas.
Pregou o revdº Pimenta, de Verride, versando o seu discurso sobre: o providencial nascimento do Redentor, os feitos de Jesus e o martirio a que foi condenado, sofrendo sempre as mais cruéis amarguras, sacrificado a isso pelas suas ideias alta e verdadeiramente sublimes.
A decoração dos altares mór e laterais revelava bem o gosto artistico do sr. Bernardo da Cruz, que, em trabalhos daquele género, o tem já demonstrado, quer aqui, quer nessa cidade. O efeito produzido pelo altar mór, visto a distância, era deveras atraente.
O côro estava bem organizado, tanto na parte instrumental como vocal, e, diga-se a verdade (que não podemos ocultar), se não fôra o estar numa festa de aldeia, pelo que alguns músicos costumam desempenhar os seus papéis com bem pouco esmêro, teria jus a ser geralmente apreciado.
Cremos bem que isto não deixa de lhes saltar aos olhos, como não deixa de saltar aos dos que assistem àqueles actos e tenham ouvido já, pelos mesmos músicos, coros e orquestras magnificas, merecedoras de incontestável aplauso.
Entendem-nos, decerto.
O Menino foi beijado com fervor e alvoroço, pois todos queriam ser os primeiros a depor-lhe o quente beijo de amor.
= À missa conventual do dia 25 tocou um pequeno grupo dirigido pelo nosso conterrâneo João Prôa.
= Neste dia à noite, no teatrinho Duque de Saldanha, representaram-se algumas cenas do presépio, ante o qual as pastoras e os pastores, cheios de alegria, saudavam reverentemente o Recém-nascido, ofertando lhe muitas prendas.
Acabou este espectáculo pela 1 hora da noite, assistindo a ele muitas pessoas, que enchiam a pequenina casa de recreio da Estudantina Tavaredense". Esta noticia foi publicada no jornal 'Gazeta da Figueira', em Dezembro de 1900.

Na Sociedade de Instrução Tavaredense representou-se algumas vezes o Presépio, em 1916, durante a ausência, em serviço militar, de Mestre José Ribeiro. Não era peça das suas preferências, embora tenha dito que, ainda criança, ia com o Pai assistir aos ensaios e espectáculos dos Autos Pastoris na Figueirense.

Mas no ano de 1947 resolveu apresentar um espectáculo intitulado 'O Natal no Teatro' onde incluiu algumas cenas daquela peça 'apresentados com encenação (representação, cenário indumentária) no estilo que a tradição local consagrou'. O 'Notícias da Figueira' comentou o espectáculo referindo-se, quanto ao Presépio, da forma seguinte: 'O Presépio foi representado conforme a tradição local (afinal mais antiga em Tavarede do que na Figueira), em perfeita liberdade de movimentos dos intérpretes, com os consabidos anacronismos de guarda-roupa, de referências de época, de situação geográfica, etc., tal qual o temos visto durante gerações e gerações, que lhe têm imprimido "coisas de sua casa" e chalaças de ocasião, nos conhecidos quadros dos 'Pastores Brutos', de 'As cinco Pastoras', de 'O Moço e o Cego', da 'Romagem do Diabo' (nesta particularidade está o segredo de jamais ter sido 'retirado do cartaz', em anos e mais anos, através de gerações e gerações, deliciando a assistência e tornando-se motivo de... orgulho de tantos conterrâneos nossos que têm cultivado a chamada arte de Talma'


Mas no ano de 1940, a Direcção do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, cuja secção dramática tinha sido extinta em 1929, resolveu pedir à Sociedade de Instrução Tavaredense autorização para apresentar, na sua sala de espectáculos, o Presépio. Além da cedência da sala, a SIT deu todas as facilidades para a representação, na qual colaboraram muitos dos seus amadores cénicos. O êxito foi total e, no ano seguinte, houve repetição.

A partir de então, e salvo aquela pequena reposição em 1947, nunca mais houve Presépio em Tavarede. Nem o 'Auto dos Reis Magos' que também tanta fama tinham...

Havia o costume, no entanto, de na noite de Natal se apresentar um espectáculo, algumas vezes alusivo à quadra natalícia. A lotação estava sempre esgotada e, terminado o espectáculo, cada família ia para sua casa para cear. Bem me recordo de que eram então fritos os filhós (a massa tinha ficado a levedar durante o teatro) que, polvilhados de açúcar e canela, eram devidamente saboreados, acompanhados com uma caneca de café... de cevada. Quantas recordações destes tempos! Era a festa da família. E no dia de Natal era quando se ia às capoeiras buscar um galo ou um coelho que, assado no forno da padaria, era o lauto almoço natalício, a que se seguia o costumado arroz doce ou as saborosas farófias.

Também era usual uma pequenina árvore de Natal, enfeitada com alguns fios e alguns brinquedos e onde se viam pendurados alguns (poucos) chocolates e rebuçados. Bem diferentes das festas de hoje, mas, talvez, mais naturais e mais humanas, mais apropriadas à comemoração do Natal.

Não quero, contudo, deixar de referir um Natal muito especial, para mim, festejado na Sociedade de Instrução Tavaredense. Foi na noite de 24 de Dezembro de 1949. O programa do espectáculo foi o seguinte: 'A Herança', (peça em verso); 'Noite de Natal', (episódio num acto); 'Não mentirás', comédia; e 'O lençol do noivado', peça também num acto. Mas, porque foi especial para mim: É que, naquela noite e no episódio 'Noite de Natal' fiz a minha estreia como amador da Sociedade de Instrução Tavaredense. E não foi só isso. É que neste episódio, também fez a sua estreia teatral, no papel de minha irmã, a Maria Isabel, que, em Outubro de 1961, passou a ser a minha esposa e companheira dedicada em tantos momentos repletos de felicidade e alguns, infelizmente, de profunda e imensa amargura e dor.

60 anos!!! Quem diria que, passados 60 anos, eu recordaria, neste meu modesto blogue, o início da minha carreira de amador teatral e de minha mulher. Foi uma carreira curta, é certo, devido à necessidade de ir procurar melhor vida noutras terras. Mas foi o início, isso sim, de enorme dedicação e amor ao associativismo e à colectividade. À Terra, isso ja havia desde o nosso nascimento.
Paz e Amor é o que mais desejo a alguém que leia este episódio. E para toda a gente, pois é aquilo que mais se pode desejar.
Fotos: 1 e 2 - Presépio montado junto à Igreja de Tavarede: 3 - Última cena do 'Presépio - Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 1917; 4 - Programa da representação do Presépio pelo Grupo Musical na sede da SIT; 5 - Árvore e mesa da ceia familiar (década de 1970); 6 - Natal.

5 comentários:

  1. Sr Vitor
    O senhor plantou sementes de amor e otimismo em suas histórias de Tavarede, desejo que colha sempre maravilhosos frutos.Quantas lembranças trazemos de nossa infância, adolescencia, e que delicia poder ler em seus artigos, estas histórias que fazem com que minha amiga Preciosa fique emocionada e relembre a juventude em Tavarede. Sr Vitor, nesse fim de ano, nesse natal abençoado, desejo ao senhor e família, Feliz Natal e Próspero Ano Novo.
    “Que os seus desejos se realizem e voce nunca deixe de sonhar com o melhor; que as boas surpresas aconteçam e muita paz...”
    Lilian – Pederneiras - Brasil

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  2. Cara Senhora
    Muito sensibilizado pelas palavras que me enviou, agradeço, sinceramente, os desejos manifestados, embora este ano, infelizmente, devido ao falecimento de um ente muito querido, esta quadra só acaba de ter, para nós, um enorme sentido de dor e saudade.
    Acredite, minha senhora, que já tinha ideia de lhe mandar um mail desejando-lhe a si e para a sua Exma. Família, um Natal e um Novo Ano cheio de Felicidades.
    Igualmente peço transmita os mesmos votos à nossa comum amiga Preciosa Fileno. Fico feliz por lhe poder recordar algo da sua infância e da terra onde nasceu. São sentimentos que não esquecem. Paz e Amor para todos é o que desejo com toda a sinceridade.
    Vitor Medina

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  3. José Ant+onio Quinto Barcelos23 de abril de 2012 às 12:39

    Para aqueles cujos 70 já bateram à porta inopidamente (diria mesmo, "traiçoeiramente", reler/rever momentos repletos de calor humano, religiosidade (que é um dom da mente - e se existe, pratica-se). Mas particularmente porque Tavarede fica "às portas de Coimbra" e, quem se casou com uma porfessora de Latim, Ema de Jesus Rodrigues, senhora de excelência, querm se formou "lá em cima" na nossa Academia Coimbrã, em História, com uma Doutora Rocha Pereira a fazer-nos sonhar com as Poetisas de Lesbos e Walter Medeiros a ler-nos Catulo e quem amou a Baixa e a Alta, o Nicola e a Brasileira e quem foi dador de sangue nos Covões e ainda é paciente do doutor Linhares Furtado e quem leccionou no antigo Colégio S.Pedro (agora Cooperativa de Ensino), e quem comprou nquadros ao Pedro Olaio Filho e ao saudoso Carlos Ramos, e quem ia passar fárias para a linda Figueira, Menina e Moça de Galegos e Portugueses e ficava a dormir nas Abadias - os seus trechos dão-nos uma grander nostalgia - principalmente agora que a Pátria virou nitreira e a escumalha dos marginais de Leste e do Sul espalham o medo por esta Pátria tão espesinhada. Obrigado pelas Memórias. Quinto Barcelos (professorbarcelos@gmail.com e o blogue: diamanteslunda.blogspot.com

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  4. José Ant+onio Quinto Barcelos23 de abril de 2012 às 12:43

    Parabéns pelas recordações. Escrevi um longo comentário mas o...computador deu-lhe a volta e sumiu! Que saudades da pena e do tinteiro, dos quintais com limoeiros e cozinheiras antigas com gatos na janela das cozinhas! A Pátria descarnou-se. Cumprimentos, professor Quinto Barcelos (professorbarcelos@gmail.com - e: diamanteslunda.blogspot.com

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  5. Muito agradecido pelas suas mensagens. Na verdade, os setenta já lá vão há muito, mas, talvez por isso, as recordações dos velhos tempos na minha Terra do Limonete, são cada vez mais saudosas. São tempos que já não voltam...
    Quanto ao resto, resta-nos aguardar melhoresd dias.
    Vitor Medina

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